A DANÇA NO CORPO E NA ALMA: LAURA MENDES – UMA JORNADA DE EXPRESSÃO ARTÍSTICA

Por Evandro Passos, jornalista, Pós-Graduado em Estudos Afro-brasileiros e africanos pela PUC-Minas, Mestre em Artes Cênicas pela UNESP, bailarino, coreógrafo, Ator, pesquisador em danças de Matrizes Africanas, Doutorando em Dança pela Universidade Federal da Bahia – UFBA.

“A dança, em minha opinião, tem como finalidade a expressão dos sentimentos mais nobres e mais profundos da alma humana: aqueles que nascem dos Deuses em nós, Apolo, Pan, Baco, Afrodite. A dança deve implantar em nossas vidas uma harmonia que cintila e pulsa” (Isadora Duncan)

Sim, Isadora foi exatamente a expressão dos sentimentos que com harmonia levou Laura Mendes, carinhosamente conhecida como (Laurinha) a conectar-se com o mundo através da dança. Ao se iniciar na dança esta jovem bailarina negra descobre muito rápido que iria implantar em sua vida outra forma de comunicação com o universo. Mineira de Belo Horizonte a menina jovem não mediu esforços e sentiu que a arte era o seu lugar de se impor na sociedade mineira e mundial.

Iniciou seus estudos na dança aos quatro anos de idade. Filha de mãe funcionária pública da área da saúde e pai professor, Laurinha é a única da família a se enveredar pelas artes. Aos quinze anos já se emancipava da família para realizar seus sonhos na dança e não mediu esforços para participar dos maiores e mais importantes festivais de dança pelo mundo. Ainda no Brasil participou do festival de Joinville, considerado um dos maiores festivais de dança do mundo desde 2005, de acordo com Guinnesses Book of Record).

Laurinha não se deu por satisfeita e quis partir para outros ares. Pleiteou uma bolsa de estudo para o aclamado Summer Program de dança na companhia Nederlands Dans Theater na Holanda onde se destacou dentre as várias bolsistas. Após esta experiência concluiu quatro anos de estudo na renomada Joffrey Ballet School em Nova York. Nesta escola foi uma das únicas alunas negras da classe. O que lhe rendeu elogios e admiração dos professores/as pela excelente técnica que já possuía.

Laurinha mostra e prova que o corpo negro é sim apto para qualquer tipo de dança e atividade artística. Ela desmitifica definitivamente o arcaico e preconceituoso conceito de que o corpo negro não é ideal para o Ballet Clássico. Tempos atrás era comum “maitres” de Ballet desprezar o corpo negro ao propagar um errôneo preconceito de que o pé chato e quadril largo, heranças da africanidade, no Brasil e diáspora não poderiam ter sucesso no Ballet Clássico.

Na trilha de Mercedes Baptista[1] Laurinha desafiou os preconceitos e furou todas as bolhas do racismo e preconceito corporal ao mostrar que poderia fazer sucesso e ser bem sucedida em qualquer modalidade artística. As marcas da rejeição por jovens como Laurinha quanto a condição afrodescendente aos poucos começam a desparecer e passam a ser objeto de empoderamento e autoestima.

Laurinha hoje é membro da companhia de dança Visceral Dance de Chicago, onde é a única brasileira no corpo de baile. Foi promovida a solista após cinco meses de contrato apenas. Renomada e elogiada pela sua graciosidade, técnica impecável e capacidade de transmitir emoção, cada performance desta brasileira é uma experiência cativante e transformadora na vida desta guerreira que não para mais e ilumina os palcos por onde passa.

Além de suas performances e conquistas nos palcos pelo mundo, Laurinha também se destaca em comerciais para grandes marcas como a Pantene e Fam Rio. Exatamente por seu compromisso com a educação e promoção da dança como uma forma de arte acessível a todos e todas. Uma vez que como mentora e educadora no Visceral Dance Center ela inspira inúmeros corpos jovens a perseguir seus sonhos e descobrir sua própria voz através da arte e deixar registrado que a dança ressignifica vidas.

Na busca constante para da voz aos seus sentimentos de justiça, igualdade, perseverança, empoderamento e superação Laurinha se prepara cada dia mais e aguarda ansiosamente o próximo capítulo de sua vida e de sua trajetória artística. Com sua dedicação apaixonada pela arte da dança ela quer contar sua história através do movimento não verbal e convida todas as pessoas a se juntarem a ela, em uma jornada de emoção, beleza e autodescoberta através do movimento artístico. Siga em frente Laurinha, mostre ao universo que sua dança é transformadora.

O fato de Laurinha estar em uma companhia de dança internacional de dança, não fez com que a artista esquecesse suas origens, pelo contrário, fez com ela valorizasse ainda mais as heranças africanas no teu corpo e em teu país mestiço. Ela passou a reconhecer ainda mais o seu corpo negro e descobriu que ele expressa traços da mestiçagem brasileira que pode dialogar com a cultura do mundo, sem amarras, com total desenvoltura artística.

É importante pensar a dança nesse lugar maior da dança mundial e o papel dos constantes e possíveis intercâmbios, nacionais e internacionais, feitos por protagonistas como a Laura Mendes. É prova de que ela está no caminho certo, em movimento acelerado, construindo todas as pontes de acesso aos espaços que nos pertencem por mérito e direito. São exercícios plenos e compromissados com a meta de valorização do corpo negro que por si só, é e sempre será a promoção de uma inclusão e da diversidade por meio da arte e da cultura.

Na busca por novos caminhos numa perspectiva desbravadora Laurinha nos ensina que as técnicas do Ballet clássico, combinadas com as heranças contidas no corpo podem superar limites para além dos palcos. As conquistas desta jovem mineira são importantes para consolidar o conceito de que a arte é essencial para o plano simbólico em qualquer trajetória. Você nos representa Laurinha, temos certeza que suas andanças só estão começando.


[1] Mercedes Baptista foi a primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro nos anos 50. Excluída de todas as montagens por ser negra Mercedes Baptista foi estudar dança com a coreógrafa Ka]therine Dunham em Nova York. Ao retornar ao Brasil criou o primeiro Balé Afro do Brasil – Balé Folclórico Mercedes Baptista.

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