Arte de resistência – Entrevista com Viki Style, referência do Hip Hop uruguaio

Jovem militante do hip hop faz da arte de rua uma ferramenta de transformação social

Por Roger Deff , MC, jornalista, integrante da banda Julgamento. Atualmente apresenta e produz o programa Rimas e Recortes veiculado pela Rádio Inconfidência.

Militante do Hip Hop desde 2002, a artista uruguaia Viki Style vivencia na prática 3 dos 4 elementos dessa cultura (o Hip Hop é formado pelos elementos DJ, grafitti, MC e break), sendo rapper, b-girl e grafiteira, além de atuar como professora e palestrante em eventos culturais nas Américas do Sul, Central e Europa.

Toda essa experiência fez com que essa jovem nascida em Montevideo tivesse uma visão mais ampla do papel e da representatividade da cultura de rua para os povos da América Latina.

O Hip Hop nasceu em agosto de 1973, em Nova York no Bronx. A gênese dessa cultura que hoje dialoga com jovens de todo mundo se deu quando os imigrantes jamaicanos, os irmãos Clive e Cindy Campbel (o primeiro se tornaria o lendário DJ Kool Herc) fizeram uma festa para arrecadar fundos para a compra de materiais escolares.

Aquele evento despretensioso realizado na Avenida Sedgwick, 1.520, foi o ponto inicial do movimento que, só mais tarde, se chamaria “Hip Hop”, quando em 12 de novembro de 1974 Áfrika Bambaataa criou a Zulu Nation, a primeira instituição oficial da cultura de rua, adotando como princípios o conhecimento, a paz, o amor, a união e a diversão.

Não demorou muito e a cultura se espalhou por todo o planeta dando voz a jovens oriundos das minorias sociais. Assim como no Brasil, a chegada do Hip Hop nos demais países da América Latina mudou radicalmente o modo de vida dos jovens nas periferias. E foi assim no Uruguai.

Virginia Sequeira (30 anos), nascida em Montevidéu mas criada em Toledo/Canelones, atua hoje sob a alcunha de Viki Style. Ela tornou-se uma das principais referências do Hip Hop em seu país, circulando por diversos países e criando conexões com hip-hoppers de outras nacionalidades.

Viki vê a arte como ferramenta essencial para o aprendizado e para a mobilização social e tem utilizado o Hip Hop nesse sentido, através da dança, da música e das aulas que promove, incentivando discussões, bem como o surgimento de outros e outras artistas e lideranças tão essenciais à continuidade e crescimento do movimento.

O Começo…

Como e quando foi o seu início na cultura hip hop?

Meu início no Hip Hop se deu em 2002. O primeiro elemento que vi foi o breaking (a dança), quando vi B. boys dançando na festa da escola e, mais adiante, conheci o rap, desde então, comecei a escrever, a improvisar. O primeiro elemento que pratiquei foi o rap, depois, em 2009, fui para o break e, mais adiante, o graffiti, em 2015. Atuo com trabalhos sociais desde 2007.

Na maioria dos países, o Hip Hop chegou através da mídia, e o cinema foi fundamental para essa difusão. No Brasil, por exemplo, o filme que deu o start para essa cultura foi Flash Dance, de 1983. Como foi no Uruguai?

A cultura de rua chegou aqui através da televisão, dos videoclipes e dos filmes. Quando a democracia se restabeleceu, pessoas que foram exiladas, ao voltarem para o Uruguai, contribuíram também para o fortalecimento do Hip Hop no país, por trazerem elementos da cultura.

E quais artistas, grupos, você apontaria como precursores do Hip Hop no seu país?

Destaco nomes representativos como o grupo do rap VDS Victimas del Sistema, no grafiti foi o KNCR Crew e no breaking o grupo Dinamic Bboys, trabalhos cuja importância despertaram ainda mais minha atenção e interesse pelas artes do hip hop.

Ao longo dos anos, você realizou viagens por diversos países e pode perceber as dificuldades enfrentadas por pessoas que escolheram essa cultura. Quais são os desafios e dificuldades em comum, na sua opinião?

As dificuldades relacionadas à cultura Hip Hop estão presentes em todos os lugares. Na América Latina, como um todo, o Hip Hop está mais relacionado ao sentimento e à vivência do que à indústria. Em alguns países, a cultura está apontando para o mercado, mas mantendo a raiz forte da autogestão e da luta.

Há quem não compreenda as dimensões políticas e sociais da cultura de rua, embora sua origem e tudo o que ela traz aponte para outros caminhos. Como você vê essa dimensão de luta política do hip hop?

Para mim, o Hip Hop é um movimento de luta a resistência e é assim que tem que se manter, como ferramenta de reivindicação. O Hip Hop como ferramenta social cumpre um papel fundamental. É um movimento de luta, por isso todas as minorias encontram no Hip Hop um refúgio, uma voz, uma forma de traduzir suas mensagens, uma maneira de reivindicar seus direitos, de expor situações de desigualdade. Todos grupos minoritários estão vivendo em opressão e podem encontrar um abrigo no Hip Hop, uma maneira de enviar sua mensagem e expor a sua situação, lutar por igualdade, melhores condições e direitos.

Sobre a luta feminista você percebe o reflexo dentro do Hip Hop?

É mais uma luta importante que amplifica sua voz dentro e através da cultura. Eu fico muito feliz por ver que mais mulheres estão habilitadas através de suas vozes, seus corpos, suas ideias, ver essas expressões traduzidas para qualquer tipo de arte. E se isso ocorre através de algum dos elementos do Hip Hop é ainda mais importante para mim porque é algo que eu compartilho,

Sobre o rap produzido no Brasil, quais trabalhos você conhece e como eles chegaram até você?

O rap brasileiro não é muito difundido aqui, mas tive contato com ele porque minha família residente ao norte do Uruguai, fronteira com o Brasil, então falam muito “portunhol”. Foi então que, durante as férias lá, que conheci artistas como Racionais, MV Bill, Sabotage, Gabriel, o Pensador, Rapadura, Criolo e Planet Hemp, Marcelo D2 que, inclusive, esteve algumas vezes no Uruguai.

Em setembro de 2018, você esteve em Belo Horizonte para participação no evento Música Mundo, dedicado à circulação mundial da música. Na ocasião, lembro que você pode conversar com MCs, B.boys e B.girls da cidade. Quais são suas impressões relativas ao Hip Hop na capital mineira

O Hip Hop em Belo Horizonte me pareceu muito organizado. Muito grafitti, muita arte urbana. Muita gente ativa que mantém os espaços e que já tem uma trajetória. Vi que é uma cultura muito bem difundida e que são grupos bem constituídos. Vi uma veia cultural muito interessante em nível de Hip Hop.

E quanto aos projetos futuros Viki, são mais ligados à dança ou à música? 

Sobre os projetos futuros, quero seguir viajando, conhecendo lugares e pessoas, compartilhando e enriquecendo minha vivência com o Hip Hop e a cultura de outros lugares e levar minha experiência e vivência a esses mesmos lugares. Pretendo lançar um disco, que já está pronto, com o nosso grupo de rap feminino, o S.A.K (se armó kokoa) e, em breve, até o fim do ano, teremos lançamento de disco e videoclipe. Disco tanto virtual quanto físico. É um trabalho que vem sendo produzido há cerca de 12 anos e contém temas ligados ao momento atual, em âmbito nacional e internacional. Este é o projeto mais interessante no qual estou envolvida no momento.

Crédito fotográfico: Maria Noel