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Naiara Rodrigues

Foto de Goutinho de Flávio

Da luta pelo acesso às demandas da heteroidentificação: caminhos da política de Cotas Raciais nas universidades públicas brasileiras

Por Marcelo Siqueira de Jesus

A política de ações afirmativas no acesso ao ensino superior público brasileiro completa duas décadas, e este tipo de política focal tem protagonismo do movimento social negro ao reivindicar do estado brasileiro a promoção de medidas reparadoras e redistributivas em razão da ampla desigualdade racial e da ausência de políticas públicas de inclusão étnico-racial. 

O preconceito racial de marca (NOGUEIRA, 1998) caracteriza o racismo estrutural de nossa sociedade, e a política pública focal de caráter racial visa combatê-lo. A inserção dessa política na agenda pública brasileira deve-se: à marcha Zumbi dos Palmares, em 1995, em Brasília-DF, à mobilização da comunidade negra que reivindicou Ações Afirmativas para superar o racismo institucional, às visitas de Nelson Mandela ao Brasil que contribuíram para a opinião pública brasileira dar maior atenção às demandas levantadas pela comunidade negra, à Conferência de Durban, na África do Sul, em 2001, em que o estado brasileiro assumiu compromisso de criar políticas afirmativas para reduzir as desigualdades raciais. 

A política de ações afirmativas de acesso ao ensino superior público brasileiro acumula oportunidades de mobilidade social ascendente para negros e indígenas. A continuidade desse programa nas instituições estaduais e municipais de ensino superior passa por avaliação decenal. Em relação às Instituições Federais de Ensino Superior – IFES, regidas pela Lei Federal n°. 12.711/12, tem avaliação prevista para 2022. 

A questão racial está subsumida pela classe e não está contemplada plenamente na lei federal de cotas devido à distribuição dos critérios para concessão: primeiro – egresso de escola pública que tenha concluído integralmente o ensino médio; segundo – comprovação de renda per capita inferior a 1,5 salário mínimo; terceiro – a condição fenotípica correlata de negros e indígenas. 

A Lei Federal 13.409/16 alterou a lei federal de cotas e incluiu uma quarta categoria – pessoas com deficiência, que deve considerar proporcionalidade demográfica desse grupo na unidade federativa em que a IFES estiver localizada. 

Considero que a lei federal de cotas não atende plenamente o reivindicado pelo movimento social negro, e na lei federal que inclui pessoas com deficiência há inserção da relação de proporcionalidade demográfica entre as unidades da federação, então questiona-se: por que o fator demográfico da proporcionalidade não está considerado na reserva étnico-racial? Se considerarmos a proporcionalidade da demografia racial brasileira, negros deveriam ser maior quantil entre os beneficiários desta reserva de vagas pelo fato de ser maioria da população. 

É preciso reconhecer que em alguns cursos, principalmente os de carreiras imperiais (VARGAS, 2010), aqueles de maior prestígio e status social (Medicina, Direito e Engenharias), a população negra está presente, mas abaixo da representatividade indicada pelos dados censitários do IBGE. 

Então a Lei Federal de Cotas é amplamente desfavorável aos negros? Não, mas é preciso relativizar para que sejam garantidos e ampliados os direitos redistributivos aos quais oportunizam pretos, pardos e indígenas de ingressarem nos cursos de ensino superior. Então qual é a preocupação sobre as garantias desse direito? Em razão da revisão decenal desta legislação se aproximar e da perspectiva do atual executivo brasileiro ter demonstrado contrariedade às políticas focais raciais. 

Foto de Ketut Subiyanto
Foto de Ketut Subiyanto

Essa preocupação já mobiliza a comunidade negra, e a questão atual no debate das cotas raciais pauta nas fraudes. Quando sujeitos fraudam uma legislação, qual sanção deve ser impetrada? A única sanção tem sido a perda da vaga no curso. 

As IFES adotam a orientação da Portaria Normativa n°. 04/2018, do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, através de sua Secretaria de Gestão de Pessoas, que lançou a heteroidentificação complementar a autodeclaração de candidatos negros para finalidade de preenchimento de vagas reservadas em concursos públicos federais, prevista na Lei n°. 12.990/14. 

A heteroidentificação da autodeclaração racial é realizada por meio de medida protocolar, com banca composta por cinco membros, que emite parecer em cédula individual se o candidato está apto ou inapto. Esse ritual tem sido adotado em diferentes IFES pelo país, a questão é saber qual critério é adotado para composição dos membros da banca? Todos dominam conhecimentos relacionados às desigualdades raciais no Brasil? São pesquisadores do campo das ações afirmativas e das relações étnico-raciais? 

Provavelmente não são, e como proceder nesse caso? A IFES deveria promover formação continuada aos membros dessas bancas. Qual seria a finalidade dessa formação continuada? Evitar as fraudes, dúvidas geradas pela condição fenotípica correlata de candidatos pardos e mestiços. Siss (2014) considera fundamental o papel dos NEABIs no acompanhamento dessa política e/ou na formação continuada para composição da banca de heteroidentificação racial.

Silva et al. (2020) levantam dilemas das comissões de heteroidentificação racial: a perspectiva de direito universal de autodeclarar-se, a difícil tarefa de eleger quem é negro no Brasil, a ideia de que as comissões seriam um verdadeiro tribunal racial que preestabelecem critérios fenotípicos. Estes dilemas não se sustentam, sobretudo para saber quem é negro no Brasil deve considerar a categoria raça em seu viés sociológico (GUIMARÃES, 2003) para compreender que grupo racial é mais vulnerável à discriminação direta devido ao seu fenótipo? A historiografia do racismo no Brasil revela que esse comportamento surgido de uma ciência racialista e de uma política de embranquecimento fomentada pelo estado brasileiro (MUNANGA, 2013) resultou no preconceito de marca (NOGUEIRA, 1998) que desloca a maior parcela da população negra para posição de subalternidade e de vulnerabilidade social. 

A política de ações afirmativas nos ensina, por meio da experiência de inclusão étnico-racial, que há possibilidade de conviver com a diferença e valorizar a diversidade. O que aprendemos com as cotas raciais? A lutar pela justiça social. Entretanto, precisamos ampliar o acesso à formação inicial e continuada em Educação para relações étnico-raciais nas universidades pelo Brasil. 

Sobre Marcelo Siqueira de Jesus.Cidadão negro brasileiro. Doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense-UFF. Docente da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM. Líder do Grupo de Estudos sobre Negro e Educação no Vale do Jequitinhonha – GENEJEQU.

Bibliografia:

BRASIL, República Federativa do. Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2012/lei-12711-29-agosto-2012-774113-normaatualizada-pl.pdf>. Acesso em 20/10/2020.

_____. Lei nº 12.990, de 09 de junho de 2014. Disponível em: <http://www2.camara.leg.brlegin/fed/lei/2014/lei-1299. Acesso em 20/10/2020.

GUIMARÃES, A. S. A. Como trabalhar com raça em sociologia. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 29, n. 1, p. 93-107, jan./jun. 2003.

MUNANGA, Kabengele. Teoria Social e Relações Raciais no Brasil Contemporâneo. In: Cadernos Penesb – Periódico do Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira. Niterói: Editora da UFF, 2013, p.163-198.    

NOGUEIRA, Oracy. Preconceito de marca: as relações raciais em Itapetininga (SP). São Paulo: EdUSP, 1998.

SILVA, Ana Claudia Cruz da. CIRQUEIRA, Diogo Marcal. RIOS, Flavia. ALVES, Ana Luiza Monteiro. Ações afirmativas e formas de acesso no ensino superior público: O caso das comissões de heteroidentificação. In: Novos estud. CEBRAP, SAO PAULO, V39n02, p.329-347, MAI.–AGO. 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/nec/v39n2/1980-5403-nec-39-02-329.pdf Último acesso em: 28/10/2020.

SYSS, Ahyas. Ações Afirmativas, Educação Superior e NEABS: Interseções Históricas. In: [SYN]THESIS, Rio de Janeiro, vol.7, nº 2, 2014, p. Cadernos do Centro de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/synthesis/article/view/19667/15087 Último acesso em 08/11/2020.

VARGAS, Hustana Maria. Sem perder a majestade: profissões imperiais no Brasil. In: Estudos de Sociologia, Unesp, Araraquara-SP, v. 15 n. 28 (2010): Dossiê: A educação e os processos sociais de organização das desigualdades.  Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/estudos/article/view/2553 Último acesso em 10/10/2020.

Sites visitados: 

https://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStfArquivo/anexo/ADPF186.pdf Último acesso em 02/11/2020.

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/01/05/lei-de-cotas-para-pessoas-com-deficiencia-em-universidades-federais-ja-esta-em-vigor Último acesso em 07/11/2020.

https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/9714349/do1-2018-04-10-portaria-normativa-n-4-de-6-de-abril-de-2018-9714345 Último acesso em 07/11/2020. 

Lançadora de sementes

A jornalista mineira Tábata Poline, uma das idealizadoras do programa Rolê nas Gerais, abre espaço para pluralidade e protagonismo das periferias na TV

Por Naiara Rodrigues

Para acalmar uma aluna agitada, a professora Edivirges teve a ideia de passar tarefas especiais e nomeá-la como ajudante em sala de aula. Entre os afazeres estava arrumar a biblioteca da já extinta Escola Municipal Agenor de Sena, que ficava no bairro Fernão Dias, região Nordeste de Belo Horizonte. Dentro da biblioteca, a menina se descobriu apaixonada pela leitura e pela escrita. Entre as brincadeiras da garota, estava a produção de jornais impressos e também seus noticiários que tinham como público cativo amigos e familiares. 

A criança cresceu e a brincadeira virou profissão. A jornalista Tábata Poline, que atua hoje na TV Globo Minas, concorreu, em 2020, ao Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, que figura entre as mais significativas distinções jornalísticas do país. Ela não chegou a ganhar o prêmio, mas, em sua primeira indicação, já recebeu menção honrosa na categoria produção jornalística em vídeo com a reportagem “As faces do racismo”. A matéria foi exibida em junho de 2020 no programa Rolê nas Gerais e traz depoimentos de pessoas que já sentiram na pele o sofrimento do preconceito racial. Na equipe que assina a reportagem, também figuram Renata do Carmo, Saulo Luiz da Silva, Frederico D’Ávila, Saulo Vieira, Jackson Lobo, Marcelo Vianna, Thiago Silva, Valdimar Loiola e Welder Dias.


Entre esses nomes está o do pai de Tábata, o cinegrafista Saulo Luiz, uma das grandes influências da jornalista. Apesar do laço sanguíneo, ela conta que ele a trata como uma colega de trabalho normal mas, ao mesmo tempo, os dois não escondem a satisfação de trabalhar juntos. “Se eu não fosse filha dele, eu ia querer trabalhar com ele. Todo jornalista quer trabalhar com ele. Meu pai é um profissional de excelência. Sendo filha, é um orgulho e privilégio ter meu pai trabalhando comigo, a afinidade do bastidor ajuda 100% neste processo. Nos entendemos pelo olhar”, conta Tábata Poline. 

Ela percorreu vários caminhos até ir para a reportagem. “Trabalhei com assessoria de imprensa, produção de evento, comunicação interna, até que fui chamada para cobrir férias no G1”, conta. Tábata não pensou duas vezes em largar o trabalho fixo para pegar o temporário. Seu potencial e o desejo de diversificar a redação fez com que a emissora a contratasse como produtora na TV após o término da experiência no portal. “Desde o início, eu queria fazer reportagem, o sonho antigo voltou. Mas primeiro tinha o desafio de mostrar que eu não era uma sombra do meu pai, que eu tenho uma identidade. O segundo era que eu me dei uma meta para que em um ano e meio mostrasse que eu era uma produtora excelente. Pus na cabeça que quando chegasse nesse momento iria pedir para ir para a reportagem”. Com muita dificuldade e esforço, conseguiu alcançar sua meta e começou a fazer vídeo reportagens. “A Globo ainda estava num formato bem tradicional, eu nunca tinha feito reportagem, mas eu sabia que eu podia, não dá forma que era feito. Não me via como repórter, não me encaixava naquele padrão, e as vídeo reportagens me ajudaram nisso”, explica.  

O cenário de sub-representatividade negra no jornalismo televisivo tem mudado. Depois de anos, as emissoras começam a abrir espaço para o protagonismo de mulheres negras na TV, como as âncoras Maju Coutinho (Globo), Luciana Barreto (CNN) e Aline Midlej (Globonews). Tábata Poline faz parte dessa geração que ocupa espaço frente às câmeras e na produção, e permite novos olhares e abordagens em redações historicamente composta por pessoas brancas de classe média. “Desde que eu comecei a trabalhar na produção, eu já tentava pautar aquilo que eu não via, tentava me ver ali dentro. Nunca sugeria um tema que não havia inclusão no meio, ou uma tentativa de dar visibilidade a pessoas que não são vistas. Essa foi uma pegada que entendi que era o meu caminho”, relata. “Tem coisa que só o dono da dor que sabe como dói, como diz o samba”. 


“Estou fazendo parte deste momento em que todo mundo entendeu que tem preto nesse país. Somos a maioria desde que esse mundo é mundo, mas as pessoas começaram a entender isso agora, e é um processo capitalista porque se sabe que isso gera dinheiro. Mas não vou julgar as intenções comercias de nenhuma instituição porque eu não estou lá em cima. Eu sou base dessa pirâmide, e estando na base e fazendo parte desse sistema, posso dizer que faço isso como missão. Faço um excelente uso do espaço que conquistei e que a empresa está me abrindo”, explica a jornalista que conta que foi criado recentemente um comitê sobre diversidade na empresa.

Tábata é integrante do Coletivo Lena dos Santos, formado por jornalistas negras, que surgiu para lutar pela representatividade no meio jornalístico. “Os coletivos são fundamentais porque são uma forma de aquilombar politicamente para agirmos estrategicamente”. O coletivo está desenvolvendo um manual para envio às redações sobre readequações necessárias para contribuir no fim de abordagens jornalísticas racistas. Outra iniciativa é que estão montando um banco de fontes negras de diversas áreas. 

A jornalista defende ainda que a representatividade sem alcance, política pública e reparação histórica não adianta nada. “É lindo ver a Tábata na TV, mas eu sou minoria. Se uma menina que mora do lado da minha casa, no Mandiroba, que é a favela em que eu cresci, me enxergar na TV e pensar eu quero ser repórter, que lindo que eu posso influenciá-la. Mas com escola da periferia sem cultura, sem lazer, sem alternativas para que ela consiga alcançar uma universidade, permanecer, conseguir se formar e depois conseguir uma inserção no mercado de trabalho… vai ser muito custoso. Então representatividade é uma questão importante neste momento, mas é um passo pequeno. A gente ainda está engatinhando no debate da luta antirracista no Brasil. Porque foi preciso chegar em 2020 para começarmos a entender sobre representatividade e até isso virar política pública ainda vai demandar muito”, analisa.

A jornalista ressalta que a luta antirracista precisa ser uma causa de todos, inclusive de pessoas que não sofrem racismo. “Temos conquistado muitos aliados, mas ainda cansa e esgota você ter que bater na mesma tecla, saber que estamos ainda engatinhando, mas penso numa questão que me move que é o legado”. O legado ela vê em suas afilhadas e primas, que já desde criança demostram consciência racial e a autoestima que já permitem se reconhecerem como mulheres negras.

“Eu tenho duas afilhadas e primas, Mariana, 5 anos, e Valentina, 3 anos. Mariana tem a pele mais clara que a minha, mas tem o cabelão deste tamanho, nariz largo, bocão, então sempre reforçamos isso. Um dia minha tia me manda mensagem: “Tábata, você não sabe o que Maria disse na escola. A professora falou, Mari precisamos de prender seu cabelinho pra você brincar porque ele está cheio. E ela falou, não põe a mão no meu black, meu black é lindo e poderoso. Ela tem 5 anos. Por mais que meu trabalho seja pequeno, eu faço por isso”, conta a jornalista que acredita que o momento em que vivemos é de pavimentar caminhos. “Está vindo uma geração muito potente, muito forte e elas fazem parte. Estamos correndo atrás de um tempo perdido”, avalia. 

A jornalista que valoriza o poder da comunicação entende que o trabalho que realiza hoje no programa Rolê nas Gerais permite produzir denúncias e pautas propositivas sobre as periferias da cidade. O programa celebrou um ano em outubro. “Na pandemia, a gente chegou a pensar em parar porque não queria colocar nem as pessoas em risco nem a gente. Mas entendemos que isso se tornou importante”, diz Tábata que informa ainda que seguiram as gravações cumprindo os protocolos de segurança.  

Ela ressalta que a menção honrosa que ganharam contribuiu para renovar as energias e dar força para a continuidade do trabalho desenvolvido pela equipe que, apesar de estar em uma grande emissora, é um programa de baixo orçamento produzido por uma equipe reduzida, porém competente e em sincronia. “Quando a gente pensa em representatividade, reparação histórica, novas narrativas jornalísticas, novas formas de se fazer comunicação, o Rolê é muito grande e é muito gratificante fazer parte dele”, afirma a jornalista que revela ainda que o programa tem sido objeto de pesquisas dentro da comunicação por sua inovação. “Tenho tido um retorno muito grande porque a gente tende a valorizar mais quem está à frente na televisão, mas, mesmo nos bastidores, a gente sente um orgulho de fazer parte deste momento que estamos vivendo que é um momento histórico e irreversível. Porque é um movimento da favela para o asfalto”, destaca.

Para além do programa, Tábata tem muitos projetos para o futuro. Ela revelou que passará a produzir reportagens também para o Fantástico, programa dominical da Globo que está entre os principais da emissora. A jornalista também tem atuado como palestrante abordando temas sobre a reparação histórica e dividindo experiências de vida em empresas e instituições de ensino. Entre seus planos, também está o lançamento de um livro infantil e a produção de três documentários, sendo um deles sobre a Academia Transliterária, coletivo de artistas literários, difusão e protagonismo da arte e cultura da comunidade LGBTQIA+, principalmente de travestis, transsexuais e transgêneros. Ela conta que quando abordaram a história do grupo em um dos programas recebeu um grande número de mensagens de ódio por meio das redes sociais. “Não vou dizer que isso não me afeta porque afeta, mas não me impede de continuar”, ressalta. Atualmente, ela também está fazendo uma pós-graduação em Diretos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global. “Ela está abrindo minha visão para outros projetos que ainda vão surgir” conclui.

Fotos: Ricardo Laf

Eustáquio Neves: Um fotógrafo autoral

Por Robson Di Brito

Mestre em humanidades, escritor e pesquisador

O que é o tempo para um fotógrafo?

Para responder essa pergunta quase filosófica, ninguém melhor que Eustáquio Neves, referência brasileira em fotografia autoral. “O tempo é a construção de momentos; não é algo que se programe, mas são várias situações e fragmentos que se constituem no tempo e a imagem desse tempo é fragmentada”.

Eustáquio Neves é um dos fotógrafos mais respeitados quando o assunto é a arte multimídia aliada à herança africana no Brasil, autor de uma vasta obra em foto-arte que incluem prêmios e exposições no Brasil e internacionais. Muito antes dos temas da memória e identidade negra ganharem centralidade no debate público, ele já dedicava quase 30 de seus 62 anos a registrar a perspectiva do preto e de sua importância como representante nacional. Nascido em Juatuba, Minas Gerais, químico de formação, mas foi no autodidatismo fotográfico que se identificou como artista. É casado com Lilian Oliveira Neves e residente na cidade de Diamantina, local que detém uma forte atuação preta, em especial, pela história de seres humanos em situação de escravidão. 

Como que Eustáquio Neves observa a cidade e como sua arte dialoga com ela?

Acredito que o diálogo da minha arte com a cidade de Diamantina tem a ver com a herança do negro com a cidade, o que de certa forma acaba me movendo; conheci pessoas muito importantes, como remanescentes da memória do traço do negro na região. Entre elas o “Seu Crispim”, mestre dos catopés e um dos últimos detentores dos cantos dos “Vissungos”. É isso que a cidade me faz localizar, essas pessoas. Diamantina é, de fato, uma cidade bastante ímpar por conta da escravidão, pois teve uma representativa mão de obra escravizada de pessoas específicas de mineração e outras qualidades técnicas. Isso me inspirou a série “Retrato falado” (2015), pois não há uma informação precisa desses trabalhadores, o que me faz buscar soluções para impasses como esse. De fato, a série retrata o apagamento da memória do negro e ao me deparar com a falta de registro fotográfico da pessoa do meu avô, uni, por conta deste trabalho, a observação histórica e pessoal da mão de obra do negro escravizado aqui na região.

Sendo um artista cosmopolita que já expôs suas fotografias em quase todos os continentes, o que Diamantina produz em você que esses outros lugares não produzem?

É o sentido de você entender sua aldeia para entender o mundo! Então… Memória e identidade são as ideias centrais que Diamantina me propõe, pois são um pouco confusas. Confusas se você pensar de forma geral, pois há alguns núcleos de indivíduos que sabem de sua importância para região, por exemplo, o “Seu Crispim”. São células que vão disseminando, mesmo com uma tentativa de invisibilidade, a importância dessas pessoas. Um exemplo claro: morar aqui, nesta casa, que representa um padrão econômico que destoa da maioria da população negra brasileira. Até as pessoas saberem que era eu e minha família os moradores, já tinham dito que aqui morava um casal de japoneses, de africanos, americanos, mas nunca de um negro brasileiro. Isso demonstra que é difícil compreender um negro tendo acesso àquilo que os brancos têm desde sempre. As pessoas não entendem, mas têm de aceitar, pois essas questões estão sendo levantadas pela sociedade. E aqui, na cidade, a Universidade Federal dos Vales dos Jequitinhonha e Mucuri têm auxiliado para essa aceitação de identidade do negro consigo e de Diamantina com o negro.

Suas obras são simbólicas por natureza e podemos compreender isso já dos títulos das séries que produziu: Futebol (1998), Objetivação do corpo (1999), Máscara da punição (2004) e outras. Essa simbologia é fruto de uma pesquisa elaborada para a criação da série ou é intuição artística?

São insights, e a partir daí eu vou para pesquisa. Todos os materiais e temáticas que uso é do meu entorno, por isso entendi que produzo uma fotografia de autor, é um contar uma história com a fotografia, o que pede uma pesquisa. Um exemplo claro disso: a série “Cartas ao mar” (2015), feita na zona portuária do Rio de Janeiro conhecida como Valongo, um dos locais onde se receberam inúmeros negros escravizados. Essa série tem uma estética de documentos, pois penso na prática de colocar cartas em garrafas e lançar ao mar para que as pessoas que as encontrem tenham acesso a essas mensagens numa tentativa de a memória não cair no esquecimento.

Suas referências são de múltiplas artes e já afirmou em algumas entrevistas o cinema de Andrei Tarkovski (cineasta russo, produtor de 7 longas-metragens e 3 curtas-metragens), mas também referendou Arthur Bispo do Rosário por sua estética nas Artes Plásticas. E na literatura, possui alguma referência?

Há uma atmosfera nos filmes de Tarkovski, um tempo que identifico com o meu tempo de narrativa. Arthur Bispo do rosário revela muito da contribuição do negro nas artes plásticas. Recentemente Spike Lee (cineasta e dramaturgo estadunidense) disse que não existe arte contemporânea sem a contribuição do negro, e a arte do Bispo do Rosário representa isso. O Bispo me auxiliou como subverter a fotografia e manipular a foto de forma a não me sentir limitado com as técnicas tradicionais da arte fotográfica. Já na literatura quem me marcou foi Machado de Assis. Na infância, li muito Machado, mas um autor com quem já trabalhei e admiro a literatura, e é preciso que os negros leiam, é o Edmilson de Almeida Pereira.

São presentes os temas: Passado, História, Memória, Corpo, Identidade e Preconceito em suas obras. Você transita por esses temas, não apenas os expondo de forma deliberativa, mas por meio de um olhar crítico sobre a situação social brasileira, em especial ao preto inserido nessas temáticas. Você acredita que esses temas são importantes para compreender os dilemas étnico-raciais da sociedade brasileira?

Esses temas são essenciais para entender o negro no Brasil. As pessoas estão se impondo mais, sem a necessidade forçosa de ser aceito. Cada vez mais temos de discutir essas questões para que as pessoas possam compreender os lugares que ocupam nessa sociedade, e possam buscar novas colocações nela, e perceber que elas também podem acessar aquilo que lhes fora negado. A série “Boa aparência” (2000) vai ao encontro disto, pois partiu de uma pesquisa na Biblioteca Antônio Torres, em Diamantina. Lá achei alguns anúncios de jornais históricos que tratavam de escravos fugidos. Lia neles que tratavam o negro como que dotado de boa aparência. No mesmo período, ganhei uma bolsa de investigação em Londres e lá fui para os arquivos de bibliotecas e retomei esse assunto de forma investigativa. De volta ao Brasil, confronto o termo usado com anúncios de escravos fugidos no período da escravidão no Brasil e na Inglaterra e como o termo era utilizado antes nos classificados de oferta de emprego. Por isso, é preciso questionar e se questionar até que ponto aquilo que dizem sobre o negro é do negro ou imposto a ele.

Você afirma que não faz uso de sua arte para levantar bandeiras, mas é um contribuinte para o movimento da identidade preta no Brasil. Possui uma opinião formada sobre o movimento negro como instituição? 

O movimento negro no Brasil como instituição é válido, mas eu acredito mais no movimento da população negra de um modo geral, e dentro desse movimento da população negra está o movimento negro institucionalizado, e não o contrário. 

O Itaú Cultural e o Museu Afro Brasil o definiu como Fotógrafo étnico-cultural, mas é unanime a afirmação de que sua obra e você definem-se como artista multimídia. Eustáquio Neves, como você se define?

Sou artista e ponto. Por um acaso a arte que produzo é da linha visual. Me incomoda um pouco essa coisa de rotular o artista. Ninguém enquadra um artista branco como Artista branco fulano de tal, então não há por que me enquadrar nisso. Pode ser que na biografia seja necessário, mas não é um fator para definir minha arte. 

Como se sente sendo para muitos jovens pretos uma inspiração e qual sua recomendação para eles?

Eu não tive referências quando comecei minha arte. Um pouco pela falta de existirem referências na arte da fotografia e um pouco pela minha ignorância sobre os poucos que existiam quando comecei. Só muito depois que conheci o trabalho do estadunidense Gordon Parks, por exemplo. Mas, me vejo sendo referência para os jovens artistas com certa responsabilidade, no intuito de defender as ideias e temas que trabalho, mas não forço nada. A mensagem que envio aos jovens é a persistência e o acreditar, e a vontade. Qualquer coisa para o jovem negro, e o negro brasileiro em si, para qualquer coisa que se queira fazer é preciso “meter a cara”; ir sem medo para conquistar o que é seu também, pois o negro pode tanto quanto o outro que é branco.


Interioranas lançam o primeiro EP

Formado pela poeta Nívea Sabino e pela cantautora Luiza da Iola, o Interioranas lançou seu primeiro EP que leva o mesmo nome do projeto. O trabalho ganhou um belo videoclipe da faixa “Nos Braços de Oyá”, no dia 20 de novembro, celebrando o mês da Consciência Negra no canal do Youtube (clique aqui para acessar).

O disco conta ainda com as faixas “Sobre os Solos Férteis da Igualdade”, “Na saga das evaristos” e “Irmãos do Outro Lar”. O trabalho já encontra-se disponível nas principais plataformas digitais e conta com participações de artistas mineiros como o trompetista Juventino Dias (Babadan Banda de Rua) e da cantora “soul woman”Michelle Oliveira (Cromossomo Africano).

Foto: Interioranas – Teatro Espanca – Crédito – Mayara Laila

IMuNE – A potência da coletividade negra

Por  Roger Deff

MC Belo-horizontino, artivista, jornalista, mestrando em artes, com pesquisa sobre o Hip Hop e colaborador de diversas ações pela cultura na cidade.

O racismo (que é sempre estrutural) afeta a comunidade negra em todas as áreas e nas artes não é diferente. A música como atividade artística essencialmente coletiva e com potência para desconstruir barreiras historicamente foi o que motivou o nascimento do Coletivo IMuNe (sigla de Instante da Música Negra), idealizado pela cantora, compositora e atriz mineira Bia Nogueira. A proposta surgiu como uma plataforma para potencializar os trabalhos de outros artistas negros e negras, tendo como meio principal o festival que leva o mesmo nome do coletivo responsável por sua realização.  Em formato itinerante, o festival IMuNe contemplou diversos nomes, sempre com a pauta anti-racista como norte. O festival, um dos projetos selecionados pelo Natura Musical, foi realizado em setembro de 2020, com programação online recebendo artistas como Elza Soares, Flávio Renegado e Djonga, além de debates e palestras. Plataforma de fomento e discussão da arte negra, o IMuNe também é um projeto musical, formado pelos artistas que compõem a base de todo o “corre” necessário para que as coisas aconteçam. Integram o grupo: Bia Nogueira, Cleópatra, Gui Ventura, Maíra Baldaia, Raphael Sales e Rodrigo Negão, compondo um grupo diverso de artistas pretos que transitam por estilos como o rap, trap, samba, afrobeat, MPB e samba. Com trabalhos sólidos individualmente, a soma desses encontros transforma-se em multiplicação de idéias e de fortalecimento mútuo. É força poética da pretitude urbana contemporânea e afro-futurista. Com produção audiovisual impecável, o IMuNE lançou os clipes “Podemos Fazer”, “Quem é você”, “Me deixa Dançar” e “Pra limpar terreiro”.  Vejam e ouça no canal do Youtube: https://www.youtube.com/c/IMuNeoficial 

Fotos: Imune


Zora Santos faz comida da bisavó na tela do computador

Por meio  da web gerações se encontram e promovem o resgate da
verdadeira comida mineira

Por Moisés Mota

Hoje cozinheira, Zora Santos frequentou diversas passarelas de moda na Europa. A ex-modelo e atriz dedica seu tempo à arte culinária da cozinha mineira de raiz. Seu trabalho de garimpo de receitas de família e uso de ingredientes “não convencionais” lhe confere o título de pesquisadora, mas não o aceita. Prefere ser reconhecida como preservadora da arte culinária, esta cultivada no seio familiar há séculos.

Ao perguntar a ela quais são suas referências no campo culinário, ela responde ser suas “tias velhas da cozinha” e completa “não idolatro os chefes pela gourmetização da comida”. Segundo ela, o termo gourmet despreza a simplicidade da cozinha mineira. Também refuta o termo PANC (produto alimentício não convencional) e afirma que faz comida de gente, pra gente e usa a culinária como espaço de resistência.

Natural de Belo Horizonte, mas com raízes familiares na região central do estado, cultiva a arte de cozinhar sem as vestes da elite. Faz comida de gente preta e faz questão de afirmar o poder do “ser cozinheira”. “Na Europa, eu fiquei impressionada com o respeito que os cozinheiros tinham. No Brasil é diferente”, pontua Zora.

Criadora do projeto Comida de Cerca, ficou paralizada devido à pandemia do novo coronavírus. Durante os primeiros meses ficou sem trabalhar, mas, em dado momento, depois de uma sugestão da amiga Ana Maria Gonçalves (autora de Um defeito de cor) abarcou a rede web para continuar seu trabalho. A proposta deu certo e é regularmente realizada uma live com vários inscritos. Todos cozinham juntos sob a batuta da cozinheira multiartista Zora Santos.

Seu trabalho tem promovido momentos de destaque na cena nacional e internacional, entre eles destacamos a participação no programa Parts Unknown apresentado pelo chef Anthony Bourdain em que debate sobre a história das comidas das Minas Gerais. Zora promoveu, nestes tempos de isolamento, uma alavancada para as pessoas descobrirem o sabor da verdadeira comida mineira, que não passa pela gourmetização.

A arte de Roger Deff

Por Samira Reis

Jornalista, modelo, mestranda em Comunicação pela UFMG, responsável pelo podcast Baú da Preta

O ano era 2015. Especificamente, outubro. Sob um calor estrondoso da primavera que flerta com verão, saía da região da Pampulha em direção à rua da Bahia. Lá, eu seguia para a Secretaria Municipal de Cultura para trabalhar com a equipe da oitava edição do FAN – Festival de Arte Negra. E foi nesse período que conheci o Roger Deff. Nessa turma, ele estava como assessor de imprensa. Conheci o jornalista e fui apresentada também ao rapper e pesquisador.

A música, aliás, é uma de suas formas de se expressar enquanto artista e como cidadão. Nos bailes do Jardim Alvorada, teve contato com referências importantes na construção da própria trajetória. “O desejo de trabalhar com música nasceu ainda na adolescência. Foi lá que conheci Racionais, Mantronix, Kraftwerk, Afrika Bambaataa e Soul Sonic Force. O segundo fator foi meu primo, Rodrigo Pelé. Ele era integrante da Black Soul, o primeiro grupo de rap a gravar em BH e me deu o disco de presente. Isso me estimulou muito. Depois tive contato com uma rapaziada do bairro que já fazia rap, daí segui nesse caminho até hoje”, conta.

E segue no corre, como a maioria dos artistas independentes. Tirar letras do papel, transformar em música, chegar no público, na mídia, na crítica, cantar o que é, onde está. E expandir esse trabalho para o mundo, por que não?! “A Internet tem ajudado. Hoje eu tenho músicas minhas sendo ouvidas no Japão, na Alemanha, em Portugal, e isso se dá por conta da Internet. Antes era mais difícil, mais caro. Hoje é possível fazer de uma única música um grande trabalho, antes só se fosse um disco inteiro, o que não era viável para a maioria”. 

O virtual também é palco para falar de vivências, do mundo, da política. Deff sabe bem disso e da importância de conversar nesse espaço. Nem sempre uma tarefa prazerosa, em tempos de polarização e de embates. A troca de ideias ficou em segundo plano. Enquanto isso, somos puxados para um precipício de fake news, de negação da ciência, extremismo. Em tempos de pandemia, como agora, quando o mundo enfrenta o Covid-19, o debate, por vezes, se torna ainda mais espinhoso. Sem contar com as restrições necessárias para evitar a disseminação do vírus e mortes sem precedentes. Para Roger, a arte inspira esperança. “Essa fase vai passar, não é e nem vai ser fácil, mas consigo ver a cultura dando sinais de vida, de resistência. Arte é esperança no fim das contas, pelo menos a arte que faço, então a gente segue”, afirma.

Vivemos um 2020, no mínimo, desgastante. Uma pandemia, a ciência em busca de respostas, governos autoritários, extremismo, ricos cada vez mais abastados e os já tão pobres devastados com o descaso. Vamos de arte para enfrentar mais um dia. E dá-lhe música. “Matéria Prima, um dos grandes MCs do Brasil, recomendo demais. Maravilha de ouvir também é o novo álbum da Tamara Franklin, “Fugio”. Ouçam!”, indica. 

Roger Deff é editor da Revista Canjerê.

Foto: Roger Deff © Flávio Charchar

Junia Bertolino celebra 20 anos de trajetória e de Cia. Baobá

Por Naiara Rodrigues

Atuando há mais de 20 anos em Belo Horizonte com corporeidades africanas e afro-brasileiras em diversos espaços como quilombos, centros culturais, universidades e comunidades, Junia Bertolino é nome indispensável quando falamos de dança negra em Minas Gerais. A presença de diferentes linguagens artísticas em seus projetos reflete a sua formação múltipla. Junia é arte educadora, bailarina afro, capoeirista, produtora cultural, jornalista e antropóloga. Como artista e bailarina, já mostrou sua arte na Itália, Senegal, Guiné Bissau, Índia, Inglaterra, Espanha, França e Alemanha.

Ao falar de sua trajetória, não deixa de reverenciar seus mestres e mestras: Evandro Passos, Carlos Afro, Dona Bela, João Bosco e Marlene Silva, grande referência precursora da dança afro-brasileira que faleceu em maio deste ano. “Ficamos com a responsabilidade de dar continuidade a esse legado. Subir ao palco há 15 anos pela primeira vez no Palácio das Artes com Marlene Silva foi muito importante pra mim”, relembra Junia, destacando que a artista rompia barreiras.

Transmitir o conhecimento adquirido e manter viva a cultura afro-brasileira é um dos pilares e está em diferentes frentes de atuação da artista que também é pesquisadora e tem uma série de livros e publicações acadêmicas. Outra delas é como arte educadora. Junia atua como professora da área de dança e patrimônio cultural da Escola Livre de Artes. “Ao falar da dança afro-brasileira e da história que ela tem, quem são os mestres, por que eles desenvolveram o trabalho, passamos por temáticas como racismo, intolerância religiosa, o reconhecimento e valorização da nossa cultura, sobretudo do negro nas artes”, afirma a artista.

Ela é idealizadora do Prêmio Zumbi de Cultura que neste ano chega a sua 11ª edição e é realizado em formato digital e reconhece personalidades negras em diversas áreas. O prêmio é realizado pela Cia. Baobá Minas da qual é fundadora e diretora, e celebra seus 20 anos de atividade na cena artística de BH. Neste ano, a companhia ganhou o Prêmio Maria Leda Martins, na categoria Oralitura, com o espetáculo “Mulheres de Baobá”. Em função da pandemia de covid-19, o Projeto “Corpo diálogo” da Cia. Baobá que estava previsto para ser realizado em 2020 precisou ser adiado. “Em 20 anos de companhia, a gente nunca tinha aprovado um projeto que contemplasse 10 integrantes com uma bolsa para ensaiar e montar um espetáculo no âmbito municipal. A expectativa era de que em novembro/dezembro estivéssemos apresentando o espetáculo, mas com a pandemia enfrentamos muita dificuldade”, explica.

Ela destaca o desafio de manter uma cia. de dança negra, uma vez que é preciso pensar formas de buscar recursos e manter os artistas ali. “O preconceito na sociedade é muito forte. As pessoas estão ligadas apenas a datas como o 13 de maio, o Dia da consciência negra. E, mesmo assim, as escolas tendo um plano pedagógico e um valor reservado para cultura, a negra é sempre procurada naquele discurso de lamúria”, avalia. Em 2020, Junia Bertolino também se dedicou a sua carreira solo com lançamento de vídeo-dança em editais estaduais e da Funarte, além da participação do programa Retratos da Dança Fora do Palco da Rede Minas. As apresentações ficarão disponíveis no Youtube da artista (clique aqui para acessar) e da Cia. Baobá (clique aqui para acessar).

Fotos: Ricardo Laf

Ofício

Poema de Edimilson de Almeida Pereira.

Ilustração: Maria Luiza 

OFÍCIO

Tatear a origem
é iludir-se.

O escrito, à mercê
do que foi dito,
inaugura outro país.

O que se dá nos mapas
em forma
de província, urbe
& melhorias

não é senão um caco
de palavra.

A origem ressona
grave,
sem nação ou pacto.
Há quem a leve

no bolso, em crimes
que nos deserdam.

Outros a curtem sob a
forma de bois de aluguel.
Ou a costuram em óleos
santos.

Mas há os ferinos e seu
humour
que tira o minério
das conchas.

Por eles a origem despista
rendas, misérias
e outros benefícios.

Pela origem
somos-não-somos.
Espécie que escreve
para esquecer.

Uma dupla com a missão de ajudar afroempresas a conquistarem seus espaços no mundo digital

À frente da Essência Afro, Marinara Andreza e Miguel Oliveira acreditam que é  possível fomentar o Black Money e emancipar a comunidade por meio de uma comunicação mais empática e humanizada.

Por Sandrinha Flávia – Jornalista, locutora e apresentadora

Foto: Marinara Andreza

Em 2017, os estudantes de publicidade e propaganda Miguel Oliveira e Marinara Andreza se uniram para fazer o Trabalho de Conclusão de Curso  (TCC)sobre o tema “A Representatividade de Pessoas Pretas na Publicidade”. Após um longo período de pesquisa, concluíram que existe uma grande desigualdade racial dentro das agências de publicidade no Brasil, nas propagandas desenvolvidas pelas agências, além de altos números de casos de racismo na história da publicidade.

Esse resultado foi o gatilho para criarem a “Essência Afro”, empresa focada em ajudar afroempreendedores a desenvolverem seus negócios digitais, visando a uma comunicação mais empática e humanizada.

Após se formarem, o projeto ficou adormecido por um período e ambos foram trabalhar em outras empresas, mas a Essência Afro nunca foi esquecida; a dupla  sabia do potencial  do negócio. O sonho de dar cara aos afroempreendimentos mais cedo ou mais tarde iria acontecer.

No final de 2018, não dava mais para esperar. Com o plano de negócio pronto, resolveram  colocar a empresa para funcionar. Atualmente a Essência Afro oferece uma gama de trabalhos essenciais para empresas que buscam ingressar no mercado digital. “A empresa é dividida em duas grandes áreas: Marketing Digital e Design. Na área do Design, desenvolvemos design para redes sociais, brand design, layout de sites, campanhas, impressos e embalagens. Na área de Marketing Digital, fazemos gerenciamento das redes sociais, lançamento de infoprodutos, campanhas e estratégias de marketing”, disse Marinara.

Em 2020, a pandemia da COVID19 trouxe algumas perdas para a empresa, mas nada estagnou o projeto. Marinara e Miguel relatam que no início veio um medinho, mas logo perceberam que estavam no caminho certo. “O digital e sua evolução é a chave para a transformação do mundo, foi um período de aprendizado, estamos cautelosos e estratégicos, felizmente estamos fechando 2020 muito bem, apesar de ter sido um ano tão triste para todos nós”, acrescentou.

Para os empreendedores que buscam ter visibilidade marcante e positiva na Internet, a dupla ressalta que o primeiro passo é transformar a sua metodologia de trabalho e entender que a comunicação vem mudando constantemente e que é preciso  atualização.

Foto: Miguel Oliveira