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Naiara Rodrigues

Fundação pelas Memórias e Culturas Negras do Vale do Jequitinhonha

A necessidade de se instituir um local de acolhimento dos diferentes grupos culturais, de capacitação educativa para a população negra e de enfrentamento do racismo estrutural em Diamantina (MG), culminou com a união pela criação da Fundação pelas Memórias e Culturas Negras do Vale do Jequitinhonha, que pretende ser efetivada no segundo semestre deste ano.

A cidade, segundo o IBGE, possui uma população de 73% de negros, isto é, de pardos e pretos, e está entre as cidades mais negras de Minas Gerais. O Vale do Jequitinhonha possui riquezas inigualáveis em termos de culturas negras, seja no âmbito da arte, com o artesanato e a cerâmica, seja no âmbito do cuidado e da preservação da natureza, com o cultivo da agricultura familiar quilombola e com o cultivo e a colheita da sempre-viva, ou no âmbito da religião, com as irmandades católicas, os grupos de folias de reis, as pastorinhas e os terreiros de matriz africana, entre outras expressões culturais.

A proposição da criação da fundação surgiu com os membros do NUPEDE – Núcleo de Pesquisa, Ensino, Extensão e Divulgação sobre Escravidão, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), coordenado pela professora Adna Candido de Paula. Foram abertas duas frentes de atuação para a organização da participação coletiva de sujeitos sociais da região na realização dessa empreitada. A primeira, organizada com os representantes de instituições interessadas no projeto, tais como a diretora do Museu do Diamante, Sandra Martins Farias, a secretária de cultura da prefeitura de Diamantina, Márcia Betânia Oliveira Horta, o arcebispo metropolitano de Diamantina, Dom Darci José Nicioli, o diretor da CEI/UNOPAR, Erildo Nascimento de Jesus, com alguns pesquisadores do NUPEDE, professores da UFVJM.

Nesta frente de trabalho, após muitos encontros, elaborou-se um estatuto provisório da fundação. Atualmente são desenvolvidas ações da segunda frente de trabalho que, devido à pandemia do coronavírus, precisou adiar algumas das agendas que serão retomadas no segundo semestre. A frente é composta por alunos, professores, agentes públicos e membros de organizações sociais sem fins lucrativos que acolhem e desenvolvem pesquisas sobre temas da negritude e desenvolvem o trabalho de aproximação das iniciativas de estudos e preservação desse patrimônio cultural da população negra já existente com campanhas, audiências públicas, entre outras iniciativas a fim de efetivar a criação da Fundação pelas Memórias e Culturas Negras do Vale do Jequitinhonha.

Quando a escassez de alimentação saudável é o combustível para empreender e inovar: conheça a Tapioca D’Lu

Por Sandrinha Flávia

Maria de Lourdes de Sousa Silva, 42 anos, mais conhecida como Lu Silva é apaixonada por alimentação saudável. Para suprir as suas próprias necessidades e incentivar as pessoas a se alimentarem melhor, resolveu investir em um negócio próprio, a Tapioca D’Lu. Com um cardápio variado em sabores doces e salgados, vegano e vegetariano, a empresa se diferencia no modo de preparo: a fabricação é auto-sustentável e os produtos utilizados são  agroecológicos.

Lu Silva sempre teve uma vida movimentada, envolvida em trabalhos com projetos sociais, eventos, participações em palestras e cursos. Sua maior dificuldade, conforme frisa era na hora da alimentação. Vegana e adepta ao estilo de vida saudável, tinha dificuldades para encontrar   uma alimentação que a agradasse nos intervalos das atividades. “O jeito era comer o que tinha, mas sempre passava mal”, explica.

Em 2016, uma amiga a convidou para fazer tapioca em uma festa de temática baiana. Naquela época, Lu Silva já tinha habilidades como cozinheira, pois já exercia essa profissão em casa de família. O convite foi aceito, mas Lu não sabia nada sobre o mercado de tapiocas, era tudo uma novidade para ela. Por isso teve que virar noites pesquisando. Ao sentir segurança, investiu 500 reais no negócio para comprar a chapa, o aro e outros produtos necessários. No dia do evento, as vendas foram um sucesso e foi assim que nasceu a Tapioca D’Lu, um projeto que comungava com o seu estilo de vida saudável.

Quando ainda era criança, sua mãe Matutina da Cruz, uma lavadeira, e seu pai, Expedito Cândido, agricultor, e os sete irmãos, migraram da zona rural para a cidade de Santa Luzia(MG). Aos 12 anos, Lu Silva foi trabalhar como empregada doméstica. Na primeira oportunidade que teve,  se matriculou em um curso de dança afro e logo conseguiu uma autorização para dar aulas, mas o trabalho como professora de dança não era suficiente para bancar as suas despesas, então optou conciliar as atividades com o trabalho de doméstica e faxineira. Como gostava de arte e cultura, praticava também capoeira e fazia artesanato.

Mãe solo de duas meninas, Lu Silva conta com a ajuda de uma das filhas, Iamirrany, e do genro, Rubens, na fabricação das tapiocas. Quando precisa de reforço, aciona os parentes e amigos. No início, as vendas não eram tão satisfatórias, mas nunca desistiu.  Continuou investindo em conhecimento, fez curso de manipulação de alimentos pela PUC- Minas e prefeitura de BH, estudou Pequenos Negócios, Microempreendedorismo e Gestão Financeira.

Uma das preocupações da empreendedora era com o uso da farinha industrializada. O gosto do catupiry também não era do seu agrado. Após pesquisar, encontrou um jeito de aprimorar os produtos. Hoje a farinha usada não é de goma, nem de polvilho, é feita de fécula de mandioca; o catupiry foi substituído por creme de queijo. Quando lhe sobra tempo, é ela quem faz a carne de sol, e no lugar da nutella investiu em ganache de chocolate. O coco é ralado na empresa e o morango em calda, ou seja, tudo é natural.  

Mesmo enfrentando dificuldades para encontrar insumos ecológicos para a produção, a empresária não abre mão do propósito do negócio:ser autossustentável, utilizar produtos agroecológicos e fazer compostagem de todo insumo usado.

A tapioca é, sem dúvida, o carro chefe da empresa, mas o cardápio inclui também lanches diversos, sucos naturais, tropeiro tradicional e vegetariano. “Tudo é feito sem conservantes e respeitando o meio ambiente. Eu uso muito alho, limão, tempero baiano, mistura de ervas e óleo de coco visando à sustentabilidade”, diz Lu. A empresa oferece  também coffee Break e atende camarim.

Foto: Cecília Pederzoli

Engajada nas pautas da alimentação saudável, Lu se tornou vice-coordenadora da Rede de Alimentação da Economia Solidária, projeto que tem como objetivo incentivar a rede de empreendedores sobre a importância da alimentação saudável. Com o trabalho cada vez mais reconhecido, em 2019, a Tapioca D´Lu foi convidada a participar do selo Estômago da Lagoinha, projeto idealizado pelo chefe Miller e formado por dez estabelecimentos do bairro Lagoinha(BH).“Estou animada com o crescimento da empresa. Fico feliz quando vejo o cliente dá aquela primeira mordida, fico ansiosa pra ver a cara da pessoa. Estou muito satisfeita com o retorno dos clientes; é esse o objetivo que eu queria almejar e consegui”, finaliza.

Sandrinha Flávia é jornalista, locutora, editora e mestra de cerimônias.

Canjerês em tempos de Isolamento Social

Equipe Casarão das Artes

Em dezembro de 2019, lançamos a 13ª edição da Revista Canjerê. O momento foi coroado com a participação cênica que teve como referência o bailado Maracatu Chico Rei.  A performance, Chico Rei, teve a direção de Lucas Madruga e as encenações de Madu Santos, Camila Morales, Bernadete Nascimento e José Nilson. 

Equipe da Revista Canjerê – Crédito: Rosália Diego

A ação cultural dialogou com a abertura da exposição Maracatu Chico Rei – um elo entre o erudito e o popular, por meio da música, no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado, em parceria com o projeto Nujazz no Parque, coordenado pelo Dj Leo Olivera. No contexto do lançamento, também foram comemorados os 5 anos do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado e o aniversário de 122 anos da cidade de Belo Horizonte.


Apresentação abertura exposição Maracatu Chico Rei – Crédito: Rosália Diego

Em janeiro de 2020, a equipe do Casarão das Artes se deslocou para a cidade de Jaboticatubas com o objetivo de acompanhar as celebrações da Folia de Reis. Essa manifestação cultural é realizada há algumas décadas pelo Quilombo Matição. Com pouco mais de 100 habitantes, os moradores mantêm vivos os segredos do candombe, o movimento do corpo no batuque, o festejo e a melodia das cantigas de roda e os cantos da negra Tança, usados na “apanha” da lenha e em outros momentos de trabalho. O artesanato é uma prática local, utilizando bambu, pintura em panos de prato, confecção e tapetes. Trata-se de uma iniciativa de resistência cultural afro-brasileira, seguida por algumas famílias quilombolas que mantêm a tradição de andarem em várias casas, rezando, cantando e tocando instrumentos típicos de uma folia.

Ainda em janeiro, estivemos na cidade de Serro, interior de Minas Gerais, para participar da 36º edição do Festival de Cultura do Popular do Vale do Jequitinhonha – Festivale. O homenageado da edição foi Mestre Antônio, da cidade de Minas Nova.  A experiência foi encantadora, pois ali estavam reunidos vários artistas e mestres da cultura popular, sendo a maior parte deles negros e negras, ou divulgadores e fazedores/as da cultura de matriz africana. O encerramento contou com a participação de várias Guardas de Congadas.

Pois bem, traçamos alguns percursos a serem seguidos para acompanharmos presencialmente várias agendas relacionadas às culturas negras a partir de março. Mas, eis que a pandemia do Coronavírus chega.  Com ela, as limitações de agendas culturais presenciais.

Assim, o que faremos agora é destacar uma manifestação cultural afro-brasileira que nos é muito cara – O Congado.  Sistematicamente, acompanhamos os festejos do Rosário, que acontecem há 12 anos, no Reinado Treze de Maio, no bairro Concórdia, em Belo Horizonte onde se apresentaram as Guardas de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. A Rainha das Guardas é Isabel Cassimiro, a querida Belinha, que é também Rainha do Congo do Estado e Minas Gerais.  Diante da impossibilidade do encontro físico, o Casarão das Artes e a Revista Canjerê apoiaram o projeto de “vakinha”, espécie de campanha virtual de arrecadação de recursos para a manutenção e melhorias do reinado.

Participamos das atividades religiosas no modo virtual. No dia 9 de maio, ocorreu a primeira live, com a participação de diversos artistas da cidade. Já no dia 17, a festa de Treze de maio aconteceu com lives d@s seguintes artistas: Cida Reis, Juliana Perdigão e Maurício Tizumba. Para dar início às duas agendas, fomos agraciad@s com uma benção da Rainha Belinha.

Há décadas que participamos dos festejos que acontecem também no Quilombo dos Arturos. Uma das principais manifestações mantidas pela comunidade é a “Festa da Abolição”, que ocorre a cada dia 13 de maio como forma de ressignificar o ato da propalada abolição da escravatura que, na realidade, não existiu. O que vivemos atualmente são novos modelos e formas de escravização da população afro-brasileira. Aos poucos, vão chegando, na capela local, reis e rainhas de diversas outras realezas, capitães, tocadores e dançantes devotos de Nossa Senhora do Rosário. Junto com eles, cores, ritmos e a fé em dias de mais igualdade entre as pessoas.

Embora tenha caráter festivo, a celebração é uma forma de resistir: a abolição da escravatura é ainda um projeto em construção, e isso precisa ser constantemente reafirmado.

O nosso forte desejo é o de que para a próxima edição da nossa Canjerê, possamos trazer relatos e imagens de alguns encontros presenciais. Afinal, a cultura negra é pura resistência, fé, foco e beleza. Sobreviremos ao Covid-19 e teremos muitas boas novas sobre as ações da arte e cultura negra para contar para vocês.

Vila Teixeira resiste

Por Naiara Rodrigues

O Santa Tereza, bairro boêmio de BH que ficou conhecido por ser celeiro de cultural que originou Clube da Esquina, a banda Sepultura, entre outros grupos de renome da música mineira, passou a ganhar destaque pela sua importância dentro da cultura tradicional popular. 

No dia 16 de julho de 2019, a Fundação Palmares concedeu o certificado que reconhece o território da Família Souza, mais conhecido por Vila Teixeira, como terras ocupadas por remanescentes de comunidade de quilombo. “Foi de grande importância na luta que travamos contra o despejo. Desde agosto de 2018, recebemos notificação de reintegração de posse num processo que vinha se arrastando há anos”, destaca uma das lideranças do espaço, Gláucia Cristine. 

O processo na justiça ainda corre sem resolução, mas Gláucia destaca que a busca da história trouxe fôlego para a comunidade que tem registros de pagamento de impostos como IPTU desde a década de 1950. “A gente pode evoluir, mas sem esquecer as raízes. Foi preciso estarmos em perigo para dar uma pausa, poder voltar na nossa história e buscar nossos direitos”, afirma a líder comunitária.

Retomar a história dos Souza é também uma forma de resgate da população negra que fez parte da fundação e da construção da capital no início do século XX. O projeto progressista para a cidade planejada não comportava dentro de seus limites –  determinado pela atual avenida do Contorno – os trabalhadores, incluindo o povo negro recém-abolido. 

Crédito: Reprodução / Facebook Kilombo Souza

A chegada da família a BH se deu na década de 1910 quando o casal dona Eliza da Conceição e senhor Petronillo de Souza vieram de fazendas cafeeiras de São José de Além Paraíba. Eliza, que nasceu sob a lei do Ventre Livre, e seu marido Petronillo, liberto pela Lei Áurea, se instalaram na Zona Leste da cidade em 1923, conforme consta do contrato de compra e venda das terras que precisou ser feito em nome da esposa uma vez que Petrolino era ex-escravo. Com a experiência do campo, a família se dedicou a trabalhos manuais e, principalmente,  a produção de alimentos, abrigando em seus espaços de convivência horta, animais e experiências trazidas do interior, preservando, na dinâmica do trabalho e de vida, a cultura afrodescendente, saberes e tradições. 

Entre eles, celebrações festivas de Cosme e Damião, de São João, de Santo Antônio, entre outras mantidas pela família. “Há um ano, por exemplo, estávamos fazendo a feijoada no dia de São Benedito, único santo negro e protetor das cozinheiras. Esse ano não será possível porque estamos mantendo o distanciamento social para nos proteger”, relata Gláucia e acrescenta que foram suspensos os encontros festivos diante da pandemia do Covid-19.

No requerimento para certificação da comunidade enviado à Fundação Palmares, é possível ver documentos e registros históricos que mostram a linhagem histórica dos Souza que vivem no local há mais de 70 anos e contam, hoje, com 14 famílias de descendentes diretos do casal. “Foi muito gratificante esse processo de resgate. Ao mesmo tempo, muito triste historicamente por rever aqueles livros e saber que o Souza foi um sobrenome que veio porque os escravos recebiam o mesmo sobrenome de seus donos. Ver a luta que foi da minha bisavó e da minha avó nos levou a pensar muitas histórias vividas até os dias de hoje e que precisamos não deixar morrer, pois são ligadas às tradições e aos costumes”, conclui Glácia, bisneta de Eliza, que acredita que todos estão sob a proteção dos ancestrais. 

Prêmio Leda Maria Martins: negra Belo Horizonte contemplada a partir das Artes Cênicas

Por Denilson Tourinho

Em 2017, raiou no horizonte da capital mineira um projeto arquitetado como prêmio de teatralidades e edificado em epistemologias e estéticas negras. O Prêmio Leda Maria Martins de Artes Cênicas Negras de Belo Horizonte é estudo, homenagens e engendramentos.

Negra, poeta, ensaísta, dramaturga, pesquisadora e rainha de Nossa Senhora das Mercês da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá é Leda Maria Martins, reverenciada que oferta o nome e o sobrenome ao prêmio e referência dos termos e conceitos que norteiam a concepção das categorias: Encruzilhada – Direção; Muriquinho – Infantojuvenil; Oralitura – Texto e/ou Trilha Sonora; Corpo Adereço – Dança; Performance do Tempo Espiralar – Performance; Lugar da Memória – Cena Curta; Afrografias – Atuação; Cena em Sombras – Cenário e/ou Figurino e/ou Luz; Palco em Negro – Espetáculo de Longa Duração; Ancestralidade – Personalidade e/ou Homenagem e/ou Revelação. Em todas as categorias, é o espetáculo que recebe o prêmio.

Foto: Divulgação Prêmio Leda Martins

A primeira edição da premiação teve o tema Afeto Emancipatório, de Nilma Lino Gomes; após, em 2018, Escrevivência: escrever, viver, se ver, de Conceição Evaristo e, em 2019, Exuzilhar, de Cidinha da Silva. Formado por promotores de cultura, o júri analisa as centenas de encenações catalogadas por meio de levantamento curatorial. Os troféus são produzidos pelo artista Lúcio Ventania e os prêmios são livros das editoras Nandyala, Mazza, Javali, Kuanza, Selo Aquilombô e Livraria Bantu. Além das autoras supracitadas e das encenações contempladas, já receberam homenagens Zora Santos, Valdinéia Soriano, Miguel Arcanjo e Marlene Silva, em vida.  

Denilson Tourinho é artista, mestre em Educação pela UFMG, idealizador e curador do Prêmio Leda Maria Martins de Artes Cênicas Negras de Belo Horizonte.


A cultura na pandemia

Artistas refletem sobre o impacto do coronavírus nas suas produções e no cenário cultural

Por Roger Deff

A pandemia do covid19 causa efeitos devastadores em todos os segmentos da sociedade, embora, sabidamente, o impacto é maior entre a população negra e pobre. A cultura, assim como os demais setores, sente o impacto em toda sua cadeia produtiva, formada por, além dos artistas, técnicos, gestores e uma gama de outros trabalhadores. Diante deste cenário, conversamos com artistas e produtores de Belo Horizonte­ para que possamos compreender melhor como isso afetou a arte negra no teatro, na música, na dança e no planejamento dos eventos. Lira Ribas (atriz), Victor Magalhães (produtor cultural) e Heberte Almeida (músico) trazem suas impressões apresentando um panorama de como a pandemia atinge, sobretudo, artistas negros e/ou ligados à produção nas periferias da cidade.

Teatro

Além do teatro, Lira Ribas tem forte relação com o carnaval belo-horizontino, a exemplo do bloco Magnólia, um dos mais conhecidos dessa retomada da festa de rua na cidade. Em sua fala, ela apresenta o olhar de quem vive da arte e problematiza a continuidade do teatro diante das restrições.

Lira Ribas – Crédito: Acervo pessoal

 “É um momento de se repensar a forma como a gente trabalha com arte. Eu sou das artes cênicas e o que o teatro tem de mais especial é essa coisa do acontecer no momento, do agora, do presente, da troca. Quando você passa a filmá-lo e passar num outro tipo de plataforma, numa linguagem que não seja aquela da troca presencial, deixa de ser teatro, passa a ser outra linguagem. Eu, enquanto atriz, trabalho com o teatro e o audiovisual também; são duas artes da atuação, mas de linguagens diferentes. Então a gente tá repensando como é que o teatro sobrevive a tudo isso. O teatro já é uma arte underground, ele já tem esse lugar que não aborda e não acessa todas essas tecnologias atuais. O acontecimento teatral se dá nestes corpos presentes, então tem sido bem complicado, mas a gente tem que repensar”, pontua a artista que aborda também a produção do teatro negro na cidade­­ que tem ganhado visibilidade graças ao esforço coletivo que gerou eventos relevantes como o Segunda Preta.

“Eu acho que dá uma esfriada porque tava um movimento grande, como em BH, destes corpos pretos, mas ao mesmo tempo, isso fortalece a gente querer fazer. Eu acho que precisamos deste momento de reflexão até pra entender também o que temos feito no teatro. E isso tem sido muito importante pra mim”, reflete.

Solidariedade

Além das questões estruturais, Lira enfatiza também a importância da solidariedade neste momento. “O mais importante é a gente se ajudar porque as pessoas das artes, do teatro precisam bastante deste trabalho pra pagar as as contas e, principalmente, artistas negros e negras que estão nessa função e que de fato, sem o trabalho e a grana pra se sustentarem, fica mais difícil ainda. Então eu tenho tentado participar de algumas campanhas porque eu tô aqui com minha mãe, minha irmã e, como tenho esse apoio, fico tentando ajudar essas outras pessoas de alguma forma. Mais do que se pensar só no trabalho, tenho pensado também em ajudar, pensar como a gente se apóia. Porque nessa história de ninguém solta a mão de ninguém tem um tanto de mão solta, e que não é abraçada, e não é agarrada, e acho que é o momento de a gente pensar isso também”, diz.

 Diante do atual cenário, Lira Ribas traz também pontuações importantes sobre o carnaval de BH, que se tornou um dos principais carnavais do país, com expressiva participação popular.   “E tem o carnaval. E como a gente tem estes trabalhos, como o Magnólia, como é que a gente faz sem as aglomerações? A gente tem grupos, tem se reunido online e feito mudanças, até conceituais mesmo, exatamente por essas coisas que a gente tem passado. E tentando ver quais editais futuros podem nos ajudar. Mas isso é futuro, e a gente não sabe até que ponto isso vai acontecer”, conclui. 

 Música

O compositor e instrumentista Heberte Almeida tem uma longa trajetória, sendo integrante da banda mineira Pêlos, originária do Aglomerado da Serra e que completa duas décadas este ano, além de ter atuado em projetos como o Manobra, o Diplomatas e como guitarrista da músico Nobat. Além de todas essas funções, em 2020, Heberte lançou seu primeiro disco solo, intitulado “Negro Amor” e os shows de divulgação foram interrompidos pela pandemia. O artista relata como o covid19 afetou seus trabalhos e fala sobre o impacto na periferia de Belo Horizonte.

Heberte Almeida para divulgação de seu álbum Negro Amor – Foto Deise Oliveira

“A gente tinha algumas datas marcadas. Tinha um show com o Negro Amor (projeto solo do artista) no teatro Espanca, tinha um show do Diplomatas na Salomeria, e também ia tocar com o Nobat, fazendo a abertura do show do novo disco do Lô Borges. Então eram três eventos bem legais, mas foram todos desmarcados. E tinha também uma proposta pra uma série de eventos pra comemorar os 20 anos do Pêlos, que iria até o final do ano. Agora a gente não sabe de fato se essas coisas vão acontecer. Então, de forma direta, o impacto foi muito grande pra mim. Agora é aguardar. E tem o impacto financeiro também porque as apresentações que estavam previstas não vão acontecer”, explica. Apesar dos projetos adiados, o músico tem buscado outras formas de divulgar o seu trabalho.

“Eu tenho feito algumas coisas neste período. Divulgando coisas que eu fiz, coisas que estou por fazer. Então, estou fomentando a minha comunicação com o público pela internet. É uma forma de manter a coisa funcionando”, esclarece.

A pandemia na periferia

O artista traz também observações sobre o impacto na periferia, de como isso agravou estruturas sociais já precárias. “Pensando no Aglomerado da Serra, nas questões que envolvem a negritude, as questões raciais e as questões da desigualdade… Eu vejo cenas hoje que eu não via há muito tempo, cenas que eu tinha talvez só na memória, da infância. Tipo, um monte de gente fazendo fila pra receber cestas básicas, né? Eu lembro quando criança do ticket do leite, acho que eu ia com a minha mãe algumas vezes e isso ficou na minha memória. E, neste momento, a população negra e pobre fica ainda mais desamparada”, afirma.

Heberte reflete sobre o impacto que o atual momento trará às suas criações. “Pensando num contexto mais amplo, pra nossa geração, um impacto importante é pensar que o futuro está em xeque mesmo. Por várias razões, especialmente porque o negro tem sempre o futuro ameaçado pela questão do racismo. E, por uma questão que a gente não consegue controlar, a situação na pandemia antecipa uma idéia de finitude que talvez viria com uma mudança climática, com o impacto dela sobre a nossa vida. Eu acho que este é um novo paradigma que essa pandemia traz. E eu penso que artisticamente nas coisas que for fazer, isso vai estar presente”, conclui.

O Hip Hop e os eventos na rua

Victor Magalhães em evento do Palco Hip Hop no Centro Cultural Urucuia – Foto: Pablo Bernardo

O produtor cultural Victor Magalhães é criador do Palco Hip Hop, um dos mais importantes festivais voltados para a arte de rua no país, priorizando sempre as danças urbanas. Este ano, o evento estava programado para acontecer em três etapas. A primeira aconteceu em janeiro, as outras seriam realizadas no meio do ano, nas regiões periféricas da cidade. “O Hip Hop foi afetado diretamente por ser uma cultura de rua, então o impacto é muito grande, dentro de toda a sua cadeia produtiva. A gente tá sentindo ainda o processo de entender ainda qual é esse impacto”, informa.

Produtor com mais de 10 anos de estrada, Victor avalia um possível cenário de retorno dos eventos, bem como das adequações necessárias. “O Palco Hip Hop ainda é muito incerto, mas eu acredito que os eventos culturais, se forem liberados ainda este ano, serão totalmente renovados. Eu acho que será aplicada uma nova instrução normativa para a regulamentação de cada cidade e dos Estados sobre os eventos culturais para que se evite o contágio, então acredito que será um público muito menor em relação ao que os eventos esperavam, e que aglomerações acima de 300 ou 500 pessoas não serão permitidas este ano por essas medidas preventivas. No caso do Palco, a gente pensa muito nisso durante este processo porque nós somos um projeto realizado em sua maior parte nas periferias, o que é muito sério devido à infra-estrutura desses locais. Então é muita responsabilidade porque podemos desencadear um contágio em massa dentro dessas comunidades. Estamos acompanhando todas as notícias e pensando como vamos nos portar neste momento dessa volta e se realmente a gente irá conseguir fazer o evento in loco este ano, ou talvez a gente aguarde o momento e realize no ano que vem, mas ainda é muito incerto tudo, não só pro Palco Hip Hop, mas para o cenário de produção cultural de Belo Horizonte e de todo o país”, conclui.

Roger Deff é MC Belo-horizontino, artivista, jornalista, mestrando em artes, com pesquisa sobre o Hip Hop e colaborador de diversas ações pela cultura na cidade.

Literatura infantil

Neste ano, a editora Mazza Edições está com novidades em seu catálogo para os jovens leitores. O livro “Meu Pequeno Bestiário”, da professora-poeta Verônica Mendes Pereira, apresenta poemas que convidam adultos e crianças a se deliciarem com o jogo das palavras e das emoções.

Chapeuzinho vermelho e o boto cor-de-rosa – Divulgação/Mazza Edições

Já o “Chapeuzinho vermelho e o boto cor-de-rosa”, de Cristina Agostinho e Ronaldo Simões Coelho, traz a magia de um clássico para o contexto brasileiro da também encantada floresta amazônica. Outra releitura entres os lançamentos é “O pequeno príncipe em cordel”, de Olegário Alfredo, que traz a famosa história da literatura francesa sob o olhar da cultura do Nordeste brasileiro. Também estão entre as novidades o livro Meia Curta, de Andreza Félix, com a história que ensina sobre autoestima a partir da história de uma pequena bailarina, e Corvo-correio, de Isabel Cintra, que aborda temas importantes como diversidade e tolerância. Todos os títulos estão disponíveis no site da editora: mazzaedicoes.com.br.

Meia-curta – Divulgação/Mazza Edições


República Democrática do Congo

Por Olga Kambilo Koho

A República Democrática do Congo (ex- Zaire) é o segundo maior país e o mais rico da África. Ele está localizado no centro do continente e sua capital é Kinshasa. O Congo possui nove países na sua vizinhança: a República do Congo, Uganda, Ruanda, Burundi, República Centro-Africana, Sudão, Tanzânia, Angola e Zâmbia. Coberto com 60% de floresta tropical, com o solo rico em diamante, ouro, cobre, malaquita e cobalto (elemento principal na fabricação de celular) etc., ele encanta com seus costumes, sua história, sua tradição, sua música, sua dança, seu artesanato, entre outros. Suas línguas oficiais são o lingala, kikongo, tshiluba, swahili e o francês que foi adquirido com a colonização pela Bélgica (1908). O Congo (RDC) teve sua independência no dia 30 de junho de 1960.  

Atualmente, o país possui mais de sessenta e seis milhões de habitantes (o quarto país mais populoso da África) e apresenta mais de duzentos e cinquenta etnias e quatrocentos e cinquenta idiomas. O país é composto por várias religiões e, em algumas regiões do interior, as crenças tradicionais predominam, enquanto na capital as religiões kimbaguista, católica, protestante e islâmica dominam. A população vive majoritariamente de agricultura, cultivando mandioca, cana de açúcar, milho, azeite de dendê etc.

O Congo possui vários centros culturais e pontos turísticos como, por exemplo, os centros culturais Wallonnie-Bruxelles, Boboto, Américain, Sambela, Goethe-instituto kinshasa, Cassalien, Cercle Elaïs, Club Sócio ultural Niangara, Halle de la Gombe e muito mais. Como pontos turísticos há os parques nacionais Virunga, Nyiragongo, Kahizi-Brega, Garamba e os Volcanos Sabyinyo, Kahuzi etc. No entanto, diante de todas as riquezas minerais e da exuberante natureza, o país sofre conflitos políticos e civis por causa de disputa de poder e divisões territoriais desde a independência.

Segundo o ranking IDH, o Congo (RDC) é o décimo primeiro país mais pobre do continente e isso pode ser explicado pelo fato de o país ter passado por 60 anos de guerra e genocídio que enfraqueceu a economia nacional. 

Lago Coatepeque – Crédito: Roberto González

Antes da colonização, o território do Congo era dividido em vários reinos: Luba, Kuba, Kongo e Lunda. Após a chegada dos belgas, em 1887, os reinos foram reunidos em um país único que foi nomeado Congo. A independência, em 1960, foi obtida pela luta do então presidente Joseph Kasavubu e seu primeiro ministro Patrice Emery Lumumba que enfrentaram os belgas. Infelizmente, o tempo de paz foi efémero, pois, em 1965, o novo presidente Joseph Mobutu, oriundo do exército, esmagou os outros dirigentes e instaurou uma ditadura por 32 anos. Desde então, o país tem sofrido com guerras e conflitos civis. A população local é a mais atingida por essas violências constantes, especialmente as mulheres. 

No congo, ainda se pratica o Dote como etapa até o casamento. Ele é uma tradição em várias etnias. Ele consiste em uma oferenda que a família do parceiro faz para a família da mulher e não se trata de venda das mulheres como comumente é interpretado fora do continente africano. É importante notar que, pelos laços do casamento, a mulher deixa de fazer parte da sua família de origem e se torna então membro da família do marido (NZOLANI LUSUNGULU, 2006). 

O significado do dote é um agradecimento e uma reparação à família de origem da mulher. Essa oferenda é detalhada e descrita pela tradição de cada etnia.  No entanto, devido à pobreza, o casamento das mulheres vem sendo considerado uma fonte de lucro para algumas famílias gerando, assim, um não-respeito às tradições e uma lista exorbitante da do dote. No estudo feito por Tresor Kibangala, “Rd congo: 2e pays le plus dangereux pour les femmes?”, publicado em 2011, informa-se que esse é o segundo país mais perigosa para as mulheres” ( tradução nossa ). Kibangala reporta que mais de quatrocentas e vinte mil mulheres foram abusadas durante os conflitos entre 2006 e 2007, isto é, uma média de mil cento e cinquenta estupros por dia durante esse período. 

Apesar de todos os problemas econômicos que o Congo vem sofrendo, destaca-se Associações de Mulheres, ONGs, partidos políticos que lutam por uma melhoria da situação do país. Além disso, um movimento nítido da juventude congolesa se destaca cada vez mais no país com um empreendedorismo notável.

Crédito: Tracy Angus -Hammond

Olga kambilo koho é graduada em economia e comércio no Congo, em 2011 teve a oportunidade de vir fazer intercâmbio no Brasil por meio do convênio Pec-g. É formada em Relações Públicas pela UFMG. Cursa jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais.



Rolê nas Gerais: protagonismo das periferias nas telas da TV

Programa da Globo Minas amplia as vozes potentes que ecoam nas favelas

Resistência, cultura, garra, honestidade, cooperação, alegria. Sim, nós estamos falando de favela! Aliás, de F-A-V-E-LA, com todo o destaque merecido. Se durante tempos as periferias só ganhavam espaço nos noticiários policiais, a televisão mineira encarou o desafio de escancarar as portas da favela para todo o estado. O programa semanal Rolê nas Gerais estreou na Globo Minas em setembro do ano passado e está, literalmente, quebrando estereótipos. Comandado pela dupla Renata do Carmo e Tábata Poline, a atração está mostrando que as periferias não são formadas apenas por violência, ao contrário, elas têm em seu DNA a essência de vozes e pessoas potentes que ganham cada vez mais força para ecoar.

O projeto nasceu em maio de 2019, quando o diretor de jornalismo da Globo Minas, Marcelo Moreira, convidou as duas jornalistas para desenvolverem o projeto de um novo programa que conseguisse aproximar ainda mais a emissora das comunidades. Essa proposta veio se somar ao desejo que Tábata já tinha de fazer um jornalismo social que representasse a riqueza das periferias. Uma equipe de peso também se juntou ao time: Xiko César, editor de imagens, e os repórteres cinematográficos Saulo Luiz, Saulo Vieira e Frederico D’Ávila.

Os assuntos tratados a cada semana são diversos: moda na favela, força das mulheres, desigualdades sociais, educação, e por aí vai. A ideia é descontruir formatos tradicionais para construir narrativas que gerem empoderamento e alcance. E é assim que uma boa parcela da população tem olhado para as telas da TV e reconhecido sua força. Longe de romantizar a realidade, o Rolê nas Gerais tem a missão de mostrar o universo das periferias de forma transparente para que essa potente parcela da população não permaneça à margem e possa, enfim, ser protagonista de suas próprias histórias.

Tábata Poline e Renata do Carmo – Foto: Bruno Soares

Patrimônio Imaterial Cultural e a Cultura Popular

Por Rosália Diogo

“Patrimônio é tudo que criamos, valorizamos e queremos preservar: são monumentos e obras de arte, e também as festas, músicas e danças, os folguedos e as comidas, os saberes, fazeres e falares. Tudo enfim que produzimos com as mãos, as ideias e a fantasia.”
Cecília Londres

                                                             

Foto: Arquivo pessoal / Mestre Beto Onça

Graças a Oxalá, o Brasil possui uma diversidade cultura infinda. Como é sabido por nós, vários grupos étnicos e sociais colaboraram para a formação da sociedade brasileira. Dessa forma, diferentes contribuições culturais formam a composição do país. As culturas que essas pessoas trouxeram nos seus modos de ser, nas suas visões de mundo, nas suas memórias foram transformadas no contato com outras culturas já aqui presentes.  Por isso, a pluralidade e a riqueza cultural tão diversas.

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 216, assinala que cultura são todas as ações por meio das quais os povos expressam suas formas de criar, fazer e viver.

Entendemos que as pessoas constituem a sua identidade ao se relacionarem umas com as outras, em diferentes contextos e situações. Nessa perspectiva, a identidade de uma pessoa é formada com base em muitos fatores como, por exemplo, a sua história de vida, a história de sua família, o lugar de onde veio e onde mora, o jeito como cria filhos, como fala e se expressa, ou seja, tudo que a torna singular em relação ao outro.

Patrimônio Cultural

Para nós, o patrimônio cultural de um povo é formado pelo conjunto dos saberes, fazeres, expressões, práticas e seus produtos que remetem à história, à memória e à identidade desse povo. A preservação do patrimônio cultural significa, principalmente, cuidar dos bens aos quais esses valores são associados, ou seja, cuidar de bens representativos da história e da cultura de um grupo social que pode, ou não, ocupar um certo território. O certo é que a preservação do patrimônio cultural visa fortalecer a noção de pertencimento de indivíduos a uma sociedade, a um grupo, ou a um lugar, contribuindo para a ampliação do exercício da cidadania e para a melhoria da qualidade de vida.  A Constituição Federal de 88, por meio dos artigos 215 e 216, ampliou a noção de patrimônio cultural ao reconhecer a existência de bens culturais de natureza material e imaterial, sendo este último de natureza processual e dinâmica, entendidos sobretudo como formas de expressão e modos de criar, fazer e viver, como mencionados na Constituição de 88.

Nessa toada, nos interessa traçar minimamente a aproximação entre patrimônio cultural imaterial e a cultura popular no Brasil.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) definem Cultura Popular como “o conjunto de criações que emanam de uma comunidade cultural, fundadas na tradição, expressas por um grupo ou por indivíduos e que reconhecidamente respondem às expectativas da comunidade enquanto expressão de sua identidade cultural e social”. Engloba folclore, cultura oral, cultura tradicional e cultura de massa.

Entre manifestações da cultura popular brasileira já registradas – ou em processo de registro – como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) estão: Literatura de Cordel, Frevo, Bumba meu boi, Jongo, Capoeira,  Fandango Caiçara, Tambor de Crioula, Congadas de Minas, Cocos do Nordeste e Marujada de São Benedito.

Bumba meu boi – Cidade de Serro (MG) – Crédito: Rosália Diogo

A Capoeira

O Casarão das Artes tem buscado valorizar, fomentar, divulgar e colaborar para a visibilidade da cultura de matriz africana, desde 2013. Como é sabido, a maior parte dessa cultura é significado de cultura popular em nossa sociedade.

Para fins desse ensaio, destacamos uma das manifestações dessa cultura que nos é muito cara – a capoeira.

Em 2014, a capoeira se tornou a quinta manifestação cultural brasileira reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Esse título contribui para ajudar a preservar a prática não só no Brasil, mas também no mundo.

Berimbau, pandeiro e atabaque; ginga e força: tudo isso lembra a capoeira. A manifestação cultural tipicamente brasileira é, hoje, praticada em todo o mundo.

De acordo com o site do Itamaraty, 71 países têm rodas de capoeira registradas. Somente na Alemanha são 27. A capoeira surgiu no século 17, praticada por escravizados africanos como uma mistura de luta, dança e música. Era uma forma que os escravizados tinham de se socializar e lembrar as suas origens. Seu nome adveio dos campos abertos, sem vegetação, em que era praticada e que em algumas partes do Brasil ainda são conhecidos pelo nome de capoeira.

A técnica também é símbolo de resistência, pois era usada como defesa, tanto por escravizados, quanto por libertos, depois do fim da escravidão. Era considerada subversiva e até a década de 1930 foi marginalizada. Em 2008, a capoeira foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Destacamos o trabalho do Mestre Beto Onça, que faz parte dos grupos que surgiram nos anos 1980 e que, após mais de 30 anos de resistência, promoção e prática, contribui para a relevância da capoeira em BH e em Minas Gerais. Ele iniciou a prática aos 15 anos de idade e coordena a Associação Mineira de Estudos de Capoeira – Amec, que foi criada por ele em 1991.

O Mestre tem a Bahia como Estado principal de busca de inspiração, pesquisa e trocas para o fortalecimento da prática da capoeira. Sistematicamente ele viaja a esse Estado para participar de encontros com outros mestres. A Amec tem realizado encontros nacionais em Belo Horizonte. O capoeirista também tem se dedicado a ministrar aulas semanalmente em espaços públicos da cidade, como acontece no Centro Cultural São Geraldo. O trabalho nesse equipamento cultural é dedicado à formação de outros mestres e de contramestres.

O principal foco das pesquisas do Mestre Beto Onça é o aprofundamento e divulgação da capoeira tradicional e os segredos dos Quarenta Toques – envolvendo ritmos, cantos, na ordenação dos jogos (jogos de dentro ou jogos de fora), jogos com armas brancas e outros, incluindo a disposição dos berimbaus, cabeceiros e tabaréus – sua organização e ordem, funções/precisões entre as dinâmicas e evolução dentro das importâncias que cada um dos quarenta toques, afetados ou não pela presença de mestres e/ou na função específica, exigida e ou coordenada na leitura e comando na realização do jogo.

A pesquisa do Mestre Beto Onça se intitula “Tirado do peito do negro cativo” e vem sendo realizada nos últimos 25 anos junto a alguns nomes notáveis que praticam a capoeira e se encontra na fase de compilação para sua catalogação.

Nós, do Casarão das Artes e da Revista Canjerê, aguardamos a publicação do trabalho desse parceiro para que possamos, conjuntamente, fortalecer mais essa vertente da cultura popular no Brasil.

Rosália Diogo é professora, pesquisadora, jornalista. Chefe de Redação da Revista Canjerê. Coordenadora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado.