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Coletivo AfroBapho, de Salvador, utiliza as artes integradas para mobilização social

Por Naiara Rodrigues

Dança, música, performance, arte drag, fotografia, audiovisual, moda, artes digitais… são várias as linguagens presentes nos trabalhos desenvolvidos pelo AfroBapho, coletivo de arte integrada formado por jovens negros LGBTQIA+ da capital baiana.

O AfroBapho surgiu a partir de um espaço criado no Facebook para debater questões de intersecção de raça, gênero e sexualidade, que uniu pessoas que compartilhavam vivências. Das ricas discussões, nasceu a vontade de transbordar aquela rede social.  

“Percebemos que a melhor forma de dividir conhecimento e sensibilizar as pessoas sobre pautas importantes seria através da arte – que geralmente é uma ferramenta potente que chega a todos os públicos. A partir daí, começamos a pesquisar e produzir conteúdos para falar sobre racismo, estética negra, valorização de corpos dissidentes, dentre outras temáticas”, explica Alan Costa, idealizador do Coletivo AfroBapho, que conta hoje com 17 integrantes oficiais, além de realizar parcerias com diversos outros artistas.

As produções fotográficas e audiovisuais, alinhadas ao discurso de defesa dos direitos humanos do grupo, começou a conquistar admiradores, e ele passou a ocupar não só as redes sociais, mas jornais, revistas, programas de TV e eventos em Salvador.

As atuações do coletivo começaram com intervenções urbanas em espaços conhecidos da cidade que viraram projetos audiovisuais e, devido ao sucesso, passaram a produzir suas próprias festas, eventos cujo objetivo eram valorizar, celebrar e visibilizar a arte independente de pessoas pretas e LGBTIA+.

O coletivo utiliza o potencial da arte como uma ferramenta de diálogo com a sociedade para falar das próprias existências enquanto corpos dissidentes. “Os nossos corpos já comunicam muita coisa somente ao sermos observados. Quando alinhamos isso a uma estética, aos movimentos de dança, performance e música, potencializamos a criação de uma nova história sobre nós, na qual somos os protagonistas”, afirma Alan. 

“Quando estamos nas ruas de Salvador, vestidos do jeito que gostamos, nos movimentando e celebrando nossas existências, estamos ali dizendo para as pessoas que também temos os mesmos direitos. Estamos ali buscando a naturalização de quem somos na sociedade e exigindo o mínimo: que é o respeito”, ressalta o artista.

Assim, o grupo consegue dialogar sobre o racismo através de uma performance drag ou falar sobre a violência contra LGBTIA+ através de performances de dança. “Isso é o que chamamos de ARTvismo: quando a arte e o ativismo caminham juntos, na defesa da diversidade”, explica Alan. O coletivo chegou a ser convidado pela Anistia Internacional para colaborar num projeto sobre Direitos Humanos.

Apesar de toda a visibilidade conquistada ao longo dos 6 anos de atuação – o coletivo conta com mais de 50 mil seguidores no Instagram –, ainda enfrentam dificuldades para se manterem financeiramente apenas com o trabalho desenvolvido pelo coletivo.

“Somos artistas independentes, pretos, LGBTIA+.  Muitos de nós só tem a arte como fonte de renda. Então, vivemos o contexto da pandemia com várias inseguranças. As redes sociais nos proporcionaram alguns trabalhos importantes para nossa manutenção”, defende.

Entre os trabalhos desenvolvidos pelo grupo durante o período estão a participação de programações culturais online, incluindo o projeto “IMS Convida”, do Instituto Moreira Salles, cujas obras que foram criadas de casa, respeitando o distanciamento social, se encontram disponíveis online no site do instituto. “Também começamos a realizar alguns trabalhos com marcas. É algo novo pra gente, mas que tem sido muito importante”, enfatiza Alan.

Agora o coletivo prepara o lançamento do seu mais novo projeto, o AfrobaphoLAB, com a proposta de promover um laboratório de artes integradas que vai contar com rodas de conversa sobre questões pertinentes à produção de artistas independentes negros e LGBTIA+, workshops de dança, performance e música, apresentações musicais de artistas independentes de Salvador, dentre outras surpresas. O projeto será em formato digital e integra os projetos aprovados no Edital da Natura Musical 2019.

Foto Gabriel Oliveira


REPRESENTATIVIDADE AFRO EM MOBILIÁRIO

Matheus Ramos – Mestre em Design pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Estuda as relações entre os artefatos industriais e as culturas afro-brasileiras, design de móveis, artesanato autóctone.

Ao depararmos com a hegemonia simbólica, em nosso cotidiano, dos artefatos concebidos sobre a percepção do branco e sua cosmovisão europeia/norte-americana, percebemos que há alguma coisa de errado uma vez que no Brasil a maioria da população é negra.

São inúmeros produtos criados, na maioria das vezes, por brancos sob olhares limitantes da cultura hegemônica incapazes de incluir diversidades culturais simbólicas e a pluralidade racial nas equipes de criação. Em minha dissertação de mestrado Design, Sociedade e Pluralidade (2021), sob a orientação da estimada professora,  doutora Rita A. C. Ribeiro, foi possível verificar no mercado brasileiro a carência de móveis afro-centrados da mesma forma que profissionais negros atuando na área. Dado o cenário desnivelado, surgiu o projeto Olulá.

Representatividade – montar uma equipe plurirracial e diversificada foi essencial para o desenvolvimento do projeto. Vamos apresentar os integrantes:

Alexandra Loras – palestrante, executiva, comunicadora, mentora, consultora e ex-consulesa da França em São Paulo. Voz expoente da atual sociedade brasileira na luta antirracista, Loras é uma investigadora dos efeitos do design como medida de equiparação étnico-racial. Com uma atuação histórica no campo da moda, ela afirma como o design é potencialmente transformador.

Matheus Ramos – designer de móveis e pesquisador que possui amplo conhecimento teórico e prático sobre o design afro-centrado e afro-brasileiro. Atualmente é parceiro da empresa América Móveis e, em 2017, lançou no mercado a poltrona Alaká, mobiliário conceituado dentro do design afro que intercalou produção artesanal autóctone de Salvador com a produção da indústria de móveis.

Raniel Bento – formado em Design (2016, UFMG). Possui o Tubbie Mobile, projeto que enfatiza móveis sustentáveis. Atua como Arteducador e é autor de material didático do Bernoulli Sistema de Ensino. Com suas origens em comunidades periféricas do Rio e de BH, busca na Arte e no Design o caráter transformador e a possibilidade de dar visibilidade às causas socioculturais e ambientais.


Equipe do projeto Olulá. Da esquerda para a direita: Matheus Ramos, Alexandra Loras e Raniel Bento

Design afro-brasileiro – Baseado em Santos (2009, p. 21), podemos afirmar que os artefatos produzidos pelo design afro-centrado incorporam um poder mítico e simbólico que não representam apenas o seu uso, mas que estão penetrados de significados que traduzem o sentimento de pertencimento de culturas transcendentes de obstáculos e preservadoras de suas essências.

Esses objetos, quando bem feitos, carregam a memória cultural de pretas e pretos e suas tradições culturais, o que os tornam um veículo do resgate da autoestima e da identidade racial. Isso é possível, pois não é somente nós que configuramos o meio externo em que vivemos, os próprios ambientes com seus artefatos possuem o poder de modular nossos comportamentos.

Portanto, isso é tão importante para que os móveis nas casas possam alimentar simbolicamente os espaços com elementos que sejam diversos da universalidade cultural dos brancos e se aproximem de outras fontes étnico-culturais, configurando ambientes que dialoguem mais com a diversidade racial que existe no Brasil.

Sobre o nome do projeto, a palavra olulá significa pequena família que, de acordo com Schoenbrun (1999, p. 144) remete aos dialetos de matriz bantu usados na África Subsaariana anterior à formação dos estados-nações.

Entre vários desenhos de móveis, o carro chefe que escolhemos foi uma mesa lateral conceituada sob a perspectiva simbólica das religiões afro-brasileiras. As religiões de matriz africana no Brasil foram historicamente instituições de resistência contra a opressão e o racismo. Graças a elas muitas memórias culturais de africanos trazidos ao Brasil forçadamente foram preservadas mantendo, assim, diversos elementos culturais das tradições originárias da África como, por exemplo, o culto às divindades Exú e Xangô que são representadas e valorizadas em nosso design (preciso enfatizar que sendo umbandista possuo uma enorme satisfação em homenagear os Orixás com este projeto).   

Desenhos do pictograma de Exú e do machado de Xangô Foto: Equipe Olulá
Desenhos do pictograma de Exú e do machado de Xangô Foto: Equipe Olulá


Mesa lateral Olulá

Mesa lateral Olulá


As pernas da mesa foram baseadas em traços retos que se encontram em um eixo central como no pictograma do Orixá Exú e o tampo carrega o desenho de um machado de duas faces, instrumento do Orixá Xangô, e as opções de cores preta e vermelha para a mesa estão associadas aos dois Orixás. As opções de madeiras escolhidas foram duas de reflorestamento, o eucalipto produzido aqui no Brasil e o mogno produzido na África.

O resultado até o momento é um projeto carregado de valores antirracistas, desde o corpo dos autores que o contemplam até o projeto final que representa um design afro-brasileiro carregado de memórias culturais africanas e que dialoga com a população brasileira e o desejo de existir maior equidade racial.

Esperamos que o lançamento da mesa Olulá represente uma nova janela no mercado de móveis no Brasil e que ela possa permanecer aberta e incluir mais protagonistas interessados em resgatar nossa africanidade e em valorizar os profissionais negros e o design afro-brasileiro.

NOTA: A mesa lateral Olulá encontra em fase de prototipagem e negociação com um renomado fabricante de móveis de Minas Gerais.

Um protótipo inicial da mesa saiu na revista de decoração Westwing (2020) em matéria especial com Alexandra Loras.

Para entender mais sobre a relação entre indivíduos e objetos, é recomendável ler as seguintes obras: Objetos de Desejo (2007), de Adrian Forty; O Mundo Codificado (2007), de Vilém Flusser; Trecos, Troços e Coisas (2013), de Daniel Miller.

Referências:

HELLER, A. Memória cultural, identidad y sociedad civil. Indaga, Espanha, p. 5-17, 2003.

SANTOS, N. A. D. Pano da Costa ou Alaká. In: IPAC Pano da Costa: Cadernos do IPAC 1. 1. ed. Salvador: IPAC; Fundação Pedro Calmon, v. I, 2009. p. 17-28.

SCHOENBRUN, D. L. The (In)Visible Roots of Bunyoro-Kitara and Buganda in the Lakes Region: 8001300. In: (ED.), S. K. M. Beyond Chiefdoms: Pathways to Complexity in Africa. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. Cap. 11, p. 136-150.

O Instante Mágico

Carlandréia Ribeiro – Atriz, arte-educadora, produtora cultural e artivista

É do trabalho árduo, mas sobretudo prazeroso, que nasce a cena. Árduo porque desde a fração do milésimo rompante do nascimento da ideia que passa em velocidade pela mente do artista até o ansiado dia da estreia, cada detalhe demanda extrema dedicação.

O mote pode vir de lugares inusitados. Da mais banal situação cotidiana, à mais complexa urdidura de mensagens.

O texto teatral, visto como meio de transmissão do desejo, pode nos contar da vida mais ordinária, como pode ser o vetor das mais graves e brutais denúncias. A partir dele, pode-se provocar ruídos que a sociedade talvez não almeje ver e escutar.

Não à toa, em momentos em que sociedades se inclinam ao fascismo, os atores, as artes e os artistas são os primeiros a sofrerem tentativas de silenciamento.

Uma sociedade em que os poderosos temem a cultura está terrivelmente ameaçada.

O teatro é o instante mágico onde fantasia e realidade ocupam o mesmo espaço de grandeza. Espaço onde a vida vivível se instaura enquanto jogo – too play! E do árduo se faz o prazer, o gozo coletivo entre atores e espectadores.

É a manifestação do sagrado – Evoé Baco!

Finalmente, o abrir das cortinas, o frisson nas coxias, a luz, os músculos aquecidos, o frio na barriga, o burburinho da entrada do público, o terceiro sinal…

Silêncio…

Cest Magic!

Merda!

O instante mágico estabelecido enquanto rito. Cerimônia em que o riso e a dor, o solene e o onírico acontecem em minutos de absoluta entrega. Uma força que pode mover mundos inteiros.

Toda essa magia, todo o rito ficou em suspensão com a necessidade de isolamento imposto pela pandemia. Nunca a frase “teatro é presença” fez tanto sentido em nossas vidas.

Pode-se reinventar os meios, apresentações no mundo virtual, mil plataformas, mas nada poderá substituir o calor da presença, da respiração compartilhada dentro do teatro.

O direito à presença clama por vacinas para todos. O direito à fruição artística é um Direito Humano.

Viva o Teatro!


Foto Daniel Neves

Com conceito próprio, a Aya Acessórios mostra como vender semijoias e gerar conexões a partir da identidade do negócio

Por Sandrinha Flávia, jornalista, locutora e apresentadora

Semijoias  únicas e atemporais desenvolvidas  com desenhos e cortes próprios, além de peças em tecidos africanos, associadas ao  couro, pedras naturais e acessórios do fundo do mar como búzios e conchas – essas são as matérias primas que ajudam a formar o conceito da AYA Acessórios, uma marca que traz em seu nome referências da cultura africana e a força ancestral de mãe e filha como sócias.

Em 2015, as criadoras da empresa,  Joana Darc Silva, 63 anos, e  Vitória de Paula Silva (mais conhecida por Vick), 28 anos, perceberem que o mercado da moda afro estava muito voltado para cabelo e roupas. Faltavam os acessórios.

Foi assim que nasceu a AYA Acessórios com o propósito de vestir as pessoas acompanhando o movimento da construção da identidade com peças que remetem à afrobrasilidade.

O nome AYA  parte de um conjunto de ideogramas chamados Adinkra, símbolos que  transmitem ideias, representam provérbios, preservam e transmitem valores do povo akan, que habitava as regiões que hoje compreendem os países de Gana e Costa do Marfim. 

O símbolo chamado AYA é representado por uma samambaia, planta antiga capaz de vingar em ambientes adversos.  Essa simbologia está relacionada à resistência,  perseverança,  desenvoltura,  autonomia  e prosperidade de recursos.

No início da empresa, Vitória fazia faculdade de química industrial, mas migrou para Gestão Pública. Já Joana é formada em Contabilidade e foi gestora de produção. Atuou como manequim por alguns anos. “Esses anos de atuação na moda significam um diferencial na  nossa forma de ver o negócio”, relataram.

Com o ateliê criado em sua própria residência, num espaço pensado especialmente para a produção das peças, as sócias se dividem entre o profissional e a vida familiar. 

Vick fica na parte de sucesso do cliente, mídias sociais, branding e logística; já Joana atua com a produção, busca de fornecedores e no setor financeiro. Quem acompanha a marca percebe o afeto e identidade de mãe e filha manifestados em vários momentos, inclusive nas peças.

Como as peças são únicas e atemporais, as coleções desenvolvidas pelas empresárias fogem de clichês como estação,  gênero ou datas específicas. Um exemplo é a coleção Crioula, pensada a partir dos formatos e significados das Jóias de Crioula, que são o marco inicial da joalheria nacional.

Nesse período de pandemia, as vendas presenciais, por meio de revendedoras e feiras, foram reduzidas. Mas para compensar, Vick e Joana intensificaram as entregas via Correios e pontos de encontros.

Novidades chegando

De acordo com as empresárias, a pandemia se tornou um  momento de aproximação com os clientes gerando  uma troca de diálogos. Surgiu, então,  a necessidade de reformular a marca e trazer a identidade e a qualidade AYA para outros produtos. E, diante disso, a partir do mês de junho, a Aya Acessórios contemplará também o conceito estético que traduz as negritudes e as experiências diaspóricas. Sigam o perfil no instagram para acompanhar as novidades @useayaoficial.

Projeto Respire oferece assistência jurídica voluntária para casos de racismo

Por Naiara Rodrigues

O Respire – Advocacia Antirracista – oferece assistência jurídica gratuita para pessoas negras que sofrem injúrias ou ofensas por causa de sua cor.

Desde quando foi criado, em agosto de 2020, o grupo de defensores já está à frente de 40 casos judiciais e sua atuação abrange os estados de Minas, Bahia e Distrito Federal. Carlos Augusto Santos, especialista em Direito Constitucional, é idealizador do projeto e conta que a ideia nasceu pautada por sua vivência enquanto homem negro e advogado que sempre quis atuar em prol de pessoas negras de forma voluntária, e tomou forma com o auxílio de amigos e colaboradores.

A atuação do projeto iniciou-se em meio ao movimento mundial pelas vidas negras desencadeado pela morte de George Floyd, nos EUA, em 2020. “Vemos um projeto como uma resposta a esse sufocamento causado pelo racismo, uma forma de respirar mesmo.

O Direito não combate o racismo, até porque ele não é uma questão jurídica, mas o Direito é também uma ferramenta que podemos utilizar para tentar minimizar os efeitos dele no cotidiano, diminuir essa sensação de impunidade que nos acompanha em diversos setores da vida”, afirma Carlos.

Atualmente, o grupo conta com 18 advogados de diversas especialidades como civil, penal, trabalhista, constitucional, entre outras, que têm em comum a luta contra o racismo. “Um dos objetivos do grupo é colaborar para a formação de uma jurisprudência que paute as questões raciais, que enxergue as questões raciais sob um novo viés. A gente entende que essa discussão racial só será feita no judiciário, quando advogados começarem a levar teses para apreciação do judiciário”, afirma Carlos.

Assim como na nossa sociedade, o racismo estrutural também se faz presente dentro de nosso sistema judiciário. “Precisamos entender que nenhuma opressão se sustenta sem o apoio do judiciário. Partindo dessa ideia, existem diversos desafio que se colocam na nossa atuação, no enfrentamento do racismo”, ressalta Carlos.

Entre os desafios está a baixa representatividade de negros no Judiciário. De acordo com o levantamento de Perfil Sociodemográfico dos Magistrados, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2018, apenas 18,1% dos juízes brasileiros se declaram pretos e pardos, sendo que apenas 6% são mulheres negras. “Fora essa questão da baixa representatividade, a gente ainda enfrenta uma cultura que tende a minimizar e banalizar os efeitos do racismo, pois, nem sempre, na verdade é muito raro, um magistrado branco olhar para certos casos e enxergar ali uma hipótese de racismo”, destaca o idealizador do projeto.

Outra problemática apontada pelo defensor é a dificuldade técnica de aplicação do direito previsto para esses casos. “É muito rara uma sentença que condene alguém pelo crime de racismo, baseada na nossa lei de antirracismo. Ela é uma lei extremamente difícil de ser aplicada, assim como à de injúria racial, também prevista no nosso código penal, que acaba sendo desqualificada para injúria simples, na maioria dos casos, sobre diversos argumentos”, explica o advogado que indica a obra Racismo Recreativo, do professor Adilson Moreira, como uma leitura para se entender melhor a dificuldade no judiciário brasileiro de enfrentar casos de racismo.

“Ele aborda como o judiciário enfrenta os argumentos trazidos pelos réus de que, muitas vezes, a injúria racial não tinha a intenção de ofender, mas tão somente de fazer uma piada, uma finalidade humorística e, por isso, acaba não caracterizando crime, já que um dos requisitos que caracterizam um crime de injúria é a intenção de ofender. Uma vez que não se tem intenção, juridicamente torna-se impossível subsumir o crime àquela hipótese”, exemplifica o defensor.

Apesar da dificuldade de aplicabilidade das leis, Carlos enfatiza que é preciso denunciar o crime de racismo e seguir na luta pelo avanço do debate racial no judiciário. “Não podemos deixar que a nossa descrença no sistema se torne um obstáculo para que a gente leve nossas demandas e busque respostas a casos de violência como esse”, conclui.

Para requerer a assistência jurídica do projeto, basta preencher o formulário que consta no Instagram @respire.advocacia e aguardar contato da equipe.

E se essa mulher fosse de outra cor? Confabulações de uma sociedade dicotômica no filme Ditadura Roxa

Denilson Tourinho – Ator, mestre em Educação. Idealizador e curador do Prêmio Leda Maria Martins

Lançado em 2020, Ditadura Roxa é um curta-metragem que tem sido exibido em programações cinematográficas, nacionais e internacionais e alçado notoriedade como os prêmios de Melhor Atriz para Meibe Rodrigues pelo “Festivou Audiovisual Independente Brasileiro” (BR) e “Garoa Awards” (BR).

Rodrigues vivencia Yeda, personagem que conduz a trama, retrata uma sociedade segregada, na qual o status social é estruturalmente estabelecido por “marca”,* cor.

Nesse ponto de vista, Yeda é uma mulher verde que mantem a casa com a produção de alimentos caseiros, ao mesmo tempo em que cuida do marido adoentado.

Em 23 minutos, o filme apresenta um mundo sob o signo dos cidadãos privilegiados e dos desfavorecidos, respectivamente roxos e verdes, assim como imprime a remota possibilidade de promoção social de pessoa verde para a cor que tem lugar de favorecido. Mas a consciência e desejo de cidadão verde seria tornar-se roxo ou tornar “ex-tinta”, a diferença entre privilegiado e desfavorecido?

Ditadura Roxa reconfigura tensões acerca de raça e classe, gera fricção numa bifurcação da diversidade social, negrita um sistema fictício repleto de realismo e o resultado parece ser um convite para contemplar a distinta trajetória artística de Meibe Rodrigues, por meio de sua marcante Yeda.

O campo das artes em Minas Gerais segue semeando boas safras e, nos últimos anos, a sua produção de cinema tem rendido frutíferos destaques. Que seja longa a trajetória desse curta que daria um longa.

*Alusão à proposição “preconceito de marca” de Oracy Nogueira.

Edimilson de Almeida Pereira é um homem das Letras

Por Silvia Cristina Silvado, jornalista formada pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), licenciada em Letras e pós-graduanda em Comunicação Pública

Um homem das Letras

Edimilson de Almeida Pereira é um homem das Letras: poeta, ensaísta, professor e pesquisador. Nascido em 18 de julho de 1963, esse mineiro de Juiz de Fora é um dos maiores nomes da literatura contemporânea.  É graduado em Letras, especialista e mestre em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Pesquisa a cultura e a religiosidade afro-brasileira. Também é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Comunicação e Cultura por um convênio entre a UFJF e UFRJ. Completando o rico currículo acadêmico, é pós-doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Zurique, na Suíça, além de professor titular de Literatura Brasileira na UFJF. 

Colecionador de prêmios

O autor está entre os brasileiros mais premiados da literatura nacional. Sua coleção de prêmios começou em 1984, quando venceu o concurso de contos “Palavra/Vivani” em sua cidade natal. No ano seguinte, foi o primeiro colocado no “Concurso Nacional de Literatura Editora UFMG” na categoria poesia.

No ano seguinte, foi intensamente premiado. Venceu o “Prêmio João Ribeiro”, da Academia Brasileira de Letras, pela publicação de “Mundo Encaixado: significação da cultura popular” (em co-autoria com a professora Núbia Pereira de Magalhães Gomes/UFJF). 

Também em 1994, e em uma parceria com a professora Núbia Pereira de Magalhães, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), venceu o prêmio “Dr. Antônio Procópio de Andrade Teixeira”, oferecido pela UFJF, pelo conjunto de quatro livros publicados no projeto “Minas e Mineiros”. Ainda nesse ano, recebeu o prêmio “Marc Ferrez”, conferido pela FUNARTE/RJ, pelo projeto de ensaio fotográfico e textos intitulado “Filhos do Rosário em nome do Pai”, também em parceria com a professora Núbia.  

Em 1997, o autor e a professora vencem o “Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular “/FUNARTE/RJ devido ao trabalho “Os tambores estão frios: estudo sobre a tradição banto no ritual de Candomblé em Minas Gerais”. Em 1998, conquistou o primeiro lugar no “Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody”, promovido pela Secretaria Estadual de Cultura do Paraná e o “Concurso Nacional de Poesia Cidade de Belo Horizonte”, da Secretaria Municipal de Cultura. 

Em 2002, venceu o “Concurso Sílvio Romero/FUNARTE/Centro Nacional de Folclore Popular-RJ” com a monografia “A saliva da fala: notas sobre a poética banto-católica do Congado”.

Em 2004, foi o vencedor do “Prêmio Vivaldi Moreira” na categoria “ensaio” com o texto “Os Signos dos Ancestrais: significado sócio-cultural do candomblé em Minas Gerais”.

A beleza do engajamento sutil

Não há espaço nesta publicação para nomear a quantidade de trabalhos do autor, pois sua obra é abundante, com uma extensa lista de artigos e livros publicados desde seus 22 anos de idade, quando estreou no mundo literário com o volume de poemas “Dormundo”. O autor passeia pela poesia, prosa, crítica e faz produções de cunho etnográfico, resultado de pesquisas de campo voltadas a compreender a produção cultural surgida da diáspora africana no país. 

Sua obra, apesar da beleza estética, não se resume à função lúdica. Ele é poeta e acadêmico, e tem o dom de unir universos aparentemente distintos. Apesar da grandeza e pompa de ser um autor de envergadura elevada na cultura nacional, um dos mais importantes autores da literatura contemporânea, é uma pessoa gentil e cortês que nasceu entre trabalhadores e cursou a escola pública, instituição que ele diz ter sido essencial na contribuição para seu amor pelas letras.

“Não há um momento específico que marcou essa minha aproximação à literatura. A soma de vários acontecimentos na vida de uma criança nascida em bairro de trabalhadores é que foi criando as condições para essa experiência. Não há dúvidas, no entanto, de que minha entrada e permanência na escola pública foi um dos fatores decisivos para a descoberta da escrita, dos livros e do universo que podemos acessar através deles”, comenta o autor. 

Sua obra também apresenta uma simbiose entre aquilo que é belo e ao mesmo tempo comprometido com questões sociais, sem estereótipos, sem lugares-comuns. Questionado sobre o papel da literatura nas questões sociais, ele diz que esse é um tema complexo, mas afirma que ela proporciona a liberdade de vivermos o nosso imaginário.   

“Creio que a literatura pode também – mas não somente – desempenhar um papel na análise das questões sociais. Ela nasce de uma estrutura histórico-social, considerando a biografia dos seus autores e autoras, e da aplicação prática da linguagem em nossa comunicação. Isso já demonstra uma interferência da literatura no real.

Porém, penso desde outra perspectiva: se a linguagem é um mecanismo relativo de abordagem do real (ou seja, o que dizemos ou escrevemos não é, de fato, o que foi vivido), há nela uma série de frestas que nos permitem simular outras dimensões de sentimento e de realidade. Essa invenção de outros mundos é, para mim, uma forma radical de vivermos o nosso imaginário e, consequentemente, o nosso desejo de liberdade”. 

Sobre essa liberdade, há de se pontuar que ela aflora quando o autor cria mundos imaginários, porém pautados no real. Com personagens irreais na existência, mas reais na verossimilhança, com suas complexidades tão humanas, o autor desenha com suas mãos que tão bem tecem as palavras, outras possibilidades de mundo.

“Particularmente, penso a escrita literária como uma possibilidade de ver por outros ângulos o mundo em que vivemos. E, além disso, como um desafio para criarmos outras lógicas de mundo. Isso implica dizer que valorizo as contradições, as ambiguidades, as tensões, as rupturas, as disjunções e a polissemia características de uma personagem verossímil. Ou seja, o eu da minha escrita pode até ser, caso desejemos, uma realidade, embora este não seja um caminho obrigatório para a leitura do que escrevo”.

Sobre o papel de sua obra para as questões sociais, ele enfatiza que o saber produzido depende de seus interlocutores para gerar efeito e que sua contribuição reside na proposição de reflexão e diálogo. “A literatura é um saber compartilhado e depende de inúmeros fatores para que os seus significados possam aflorar.

É na troca com o(a)s leitores(a)s e com os contextos histórico-sociais – em transformação – que temos a oportunidade de saber se aquilo que escrevemos tem uma certa importância ou não. Entendo que se há uma contribuição de minha parte, ela reside na tentativa de instaurar um diálogo com as pessoas e com a sociedade na defesa dos direitos humanos, das outras formas de vida e da liberdade de expressão, bem como no combate à violência e a todo tipo de discriminação”, reflete Edimilson.

Sobre a importância de sua obra para a visibilidade negra, ele reflete: “Tenho pensado e escrito sobre as várias dimensões das culturas negras no território da diáspora africana. Esse é um tema que interage com outros que me ocupam como sujeito de um processo histórico abrangente.

O tempo, que é um bom fazedor de antologias (como diz o poeta Iacyr Anderson Freitas) tem participação efetiva na construção do significado das obras que escrevemos. Esse aspecto e o diálogo com outras pessoas – junto das quais tento compreender as nossas histórias – é que vão dizer se há espessura ou não no trabalho que venho realizando”, completa o autor.

Edmilson, que caminha entre mundos diversos, escreve para adultos e crianças e lançou, em novembro de 2021, “O Ausente”, pela Relicário Edições, romance ambientado na paisagem rural. Ausente é o nome da região onde vive Inocêncio, personagem que narra a trama, mas, às vezes, assume o papel de espectador em paralelo com os diferentes ângulos que experimentamos na vida.

O romance une a sabedoria tradicional (Inocêncio é curandeiro) e o conhecimento acadêmico, mostrando ao mundo a união que habita dentro do próprio autor.

PRAZO PARA INSCRIÇÃO NO FESTIVAL DE TODAS AS CORES É PRORROGADO

Artistas independentes negros e/ou LGBTQIA+ agora têm até 06 de junho para se inscreverem

Gratuito, a proposta do evento é promover a equidade racial e de gênero e também realizar atividades formativas na área da música independente

Por Bruno Vieira e Bárbara Navarro

As inscrições para o Festival De Todas as Cores tiveram seu prazo prorrogado. A iniciativa, que pretende valorizar e reconhecer os talentos de Itaúna e do Centro-Oeste de Minas Gerais, recebe inscrições até o dia 06 de junho. Artistas independentes, negros e/ou LGBTQIA+, poderão participar do evento que conta com premiações em dinheiro, atividades formativas para os artistas selecionados e a promoção de debates sobre diversidade, equidade de gênero e de raça.

Viabilizado pela Lei Emergencial Aldir Blanc por meio da Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais, o festival tem inscrições gratuitas que devem ser realizadas exclusivamente através de preenchimento de um formulário online, acessível no site www.moisespescador.com/todas-as-cores. Mais detalhes no regulamento do Festival, disponível acessando este link: http://bit.ly/FestivalDeTodasAsCoresRegulamento. Por causa da pandemia de COVID-19, o evento será realizado integralmente na internet.

O Festival será realizado em três etapas: na primeira, serão premiados 40 artistas entre os inscritos – serão escolhidos pelo menos 20 talentos de Itaúna e no mínimo 20 artistas que sejam LGBTQIA+. A seleção, de 07 de junho a 02 de julho, será realizada por uma comissão independente, composta por artistas LGBTQIA+ e produtores culturais itaunenses, que escolherão os 40 melhores vídeos seguindo os critérios acima.

Os artistas que forem escolhidos participarão, na última semana de junho, de atividades formativas relacionadas ao campo da música independente, como Marketing Digital, Estratégias de Formação de Públicos e Gestão de Carreira. Além disso, os escolhidos levam um prêmio em dinheiro de R$500.

A segunda fase, de 03 a 09 de julho, irá medir o envolvimento dos respectivos públicos dos artistas. Os 10 vídeos que tiverem maior engajamento no Youtube (segundo as regras do edital) seguirão para a etapa final: uma votação popular nos dias 11 e 12 de julho para escolher os três melhores, que receberão prêmios em dinheiro. No total, serão quase R$30 mil investidos em prêmios para os artistas.

Mais informações sobre o evento podem ser conferidas no link www.moisespescador.com/todas-as-cores.

Iniciativa

O Festival de Todas as Cores é uma iniciativa do artista e empreendedor social Moisés Pescador. Natural de Itaúna, cidade do Centro-Oeste mineiro, Moisés é cantautor afro-indígena, músico autodidata, cantor e compositor, reside em Belo Horizonte desde 2005 e vive ora no interior, ora na capital. Apaixonado por artes e cultura popular, o artista conhece o tradicional bairro da Lagoinha em BH e se encanta com o berço cultural de Belo Horizonte.

É neste cenário que sua vida artística toma um novo rumo e se desenrola sua jornada em busca da ancestralidade. Em 2014 e 2015, Moisés se apresentou no Festival Raízes Negras realizado na UFMG, e em 2016 participou do III Encontro de Compositores Dona Jandira e foi premiado no Festival de Música da Reforma Agrária, em que o tema do festival reforça seu posicionamento: “Da Luta Brotam Vozes de Liberdade”. Em 2017, realizou o show Salve Orixás no Teatro Marília.

Em setembro de 2018, ele realizou o espetáculo “Moisés Pescador Toma Bença” também no teatro Marília, no intuito de seguir sua missão e cantar a história da Lagoinha. O artista vem se apresentando em festivais de arte e cultura como o CURA Lagoinha, o VI Festival Descontorno Cultural e o Festival de Arte Negra 2019. Sua missão é “compartilhar vivências, educar pelo amor e saudar a ancestralidade através da música”.

Nikima


O cantor Nikima lançou recentemente dois novos trabalhos que mostram a
diversidade de suas produções que envolvem diversas linguagens artísticas. Elas trazem desde o ritmo pulsante da música baiana às batidas sintetizadas do eletrônico e um convite à imersão em realidades virtuais.

O videoclipe “Quebra-queixo” narra a história de um ambulante que vende o doce típico pelas ruas de Salvador na busca por seu sustento familiar. Produzido pela Macaco Gordo, o curta-metragem é dirigido por Chico Kértesz e traz figurinos irreverentes. Outro lançamento mais recente é o videoclipe “Amores Líquidos” que aborda o amor, as relações virtuais e
confinamento com o projeto AUSS & AUSS.

O clipe é uma extensão do AUSS & AUSS XP, do Circuito Expositivo, do Imersivo e Interativo da AUSS & AUSS que estreou em Salvador, em janeiro de 2020, no Teatro Gregório de Mattos, e proporcionou ao público experiências em realidade virtual e aumentada, estações de games e a Fantástica Caixa de Música – um cubo gigante revestido com paredes luminosas interativas, onde o público usava sensores para controlar as luzes e a música da instalação.

Revivências


O músico mineiro Sérgio Pererê lançou, em maio, o disco “Revivências”, um álbum com releituras de músicas conhecidas que marcaram sua trajetória como artista e que dialogam com o contexto social vivido hoje no país. Entre as canções estão “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho, “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, “Roda Viva”, de Chico Buarque, e “De frente para o crime”, de João Bosco e Aldir Blanc. O projeto independente já está disponível nas plataformas digitais e contou com show virtual de lançamento.

Em rede social, o artista ressaltou a importância de se apoiar a arte neste momento de pandemia e enfatizou que a cultura não pode parar. “Precisamos de arte, de música, de literatura, da força das manifestações populares, de teatro, de tradição e de inventividade para seguirmos em contato com nossa humanidade, simbolizando o horror e a tragédia para transmutá-los em vida, em reconstrução, em possibilidade de futuro. Os artistas seguem como podem, utilizando a tecnologia para fazerem cumprir seu papel no mundo”, afirmou Sérgio Pererê.