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4° EDIÇÃO DO ENCONTRO NEGRO DE CONTADORES DE HISTÓRIAS – EMBONDEIRO 2021 CELEBRA HISTÓRIAS PRETAS E SABERES ANCESTRAIS DAS MATRIARCAS DA PEDREIRA PRADO LOPES EM PROGRAMAÇÃO ON-LINE E GRATUITA

Em sua 4ª edição, no dia 16 de outubro, o Encontro Negro de Contadores de Histórias- Embondeiro 2021 reúne 15 contadores de histórias e celebra saberes das matriarcas guardiãs das histórias da Pedreira Prado Lopes. O evento terá show do grupo Orisamba e abertura com Pai Ricardo. A programação, on-line e gratuita, será exibida pelo Youtube.

Por Mariana Cordeiro – Jornalista

Idealizado pelo Coletivo Iabás, o Encontro Negro de Contadores de Histórias – Embondeiro 2021 terá como protagonismo histórias pretas e os saberes ancestrais das matriarcas da Pedreira Prado Lopes. O evento apresenta ao público 15 contadores de histórias, uma roda de conversa com as matriarcas, além da atração musical de encerramento com o grupo Orisamba. Toda a programação on-line e gratuita será exibida pelo canal do Coletivo Iabas no Youtube.

O evento trará a diversidade de histórias das tradições africanas no continente África e na diáspora. Histórias de bichos, de gente e sobre orixás. O elenco contará com: Adriana Vieira, Aline Costa, Anderson Ferreira, Ariane Maria, Cida Araujo, Elaisa de Souza, Eneida Baraúna, Evandro Nunes, Fabiana Brasil, Flávia Filomena, Jéssica Tamietti, Marcus Carvalho, Teily Assis, Vanessa Anastácio e Wellison Maurício. A abertura será com Pai Ricardo, coordenador da Associação de Resistência Cultural Afro-brasileira Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente (CCPJO) e sabedor de conhecimentos sobre as ervas, os toques e cuidados com os tambores, as cantigas, as benzeções e rezas.

Para Chica Reis, uma das organizadoras, ouvir as anciãs e contadores pretos é essencial para conhecer o outro lado da história de Belo Horizonte, uma forma de descobrir a capital pela perspectiva de quem a construiu: “tem um provérbio que diz que enquanto o leão não souber contar as suas histórias, só as histórias dos caçadores virão e as histórias dos caçadores sempre dizem que os leões morrem, que os leões são caçados”. O Encontro Negro de Contadores de Histórias é uma oportunidade de conhecer a história da cidade e cultura brasileira já que os envolvidos têm muitas histórias e que por vezes não encontram espaços para chegarem a mais pessoas. O encontro será realizada no dia 16 de outubro (sábado), das 10h às 17h no canal YouTube

As matriarcas

Um dos destaques da edição é a roda de conversa com as matriarcas Iolanda, Marlene e Dona Geralda, Dona Osiva, Joaquina e Noeme. As matriarcas, moradoras da Pedreira e do Buraco Quente, são guardiãs de saberes e tradições, foram convidadas para partilhar suas histórias e vivências de um matriarcado com características muito próprias da Pedreira. “As matriarcas representam uma amostra das mulheres dentro da Pedreira que é o lugar de gestora das famílias. Nesse sentido elas têm uma referência muito grande com o matriarcado africano, porque cuidam da economia, além de cuidar dos filhos e netos”, destaca Madu Costa, escritora e arte-educadora, também organizadora do Encontro. 

Pai Ricardo e Bloco Orisamba

Pai Ricardo, responsável pelo (CCPJO) destaca que o evento é “uma oportunidade de fazer algo pela Pedreira e pelas populações do local ao voltar os olhares para dentro e construindo com os moradores de lá um encontro que ressalta a importância da Pedreira que é o berço da confluência e transferência dos costumes, da culinária e histórias da região da Lagoinha”. O Grupo de Samba e Bloco Orisamba, que também é coordenado pelo Pai Ricardo, encerra a festividade reforçando a mensagem que o Encontro quer passar: a Pedreira Padro Lopes é um local que pulsa cultura e tradição. 

Embondeiro, árvore de raízes profundas

Depois de uma viagem das idealizadoras para Angola, o Encontro Negro de Contadores de Histórias de Minas Gerais ganha um nome ainda mais simbólico: Embondeiro, árvore popularmente conhecida no Brasil como Baóba. O nome do evento foi escolhido pela força e significado da árvore, que tem raízes profundas, dá fruto e alimenta, além de acolher com sua sombra. Magna Oliveira, contadora de histórias e organizadora do evento, explica que Embondeiro representa a força que emana da periferia: “o Embondeiro está dando vários recados: sobre a importância de contar histórias pretas, além da escolha da equipe preta. Enfim, é um evento dentro da periferia que abraça as pessoas da comunidade”.

Sobre o Coletivo Iabás

O Coletivo Iabás é composto por três mulheres negras contadoras de histórias: Chica Reis, Magna Oliveira e Madu Costa que se conheceram para a produção da 4° edição do Ayó Encontro Negro, que passou por Minas Gerais em 2018 e foi idealizado pela pesquisadora e produtora Nathália Grilo Cipriano. Após essa produção, fundaram o Coletivo Iabas, em 2018. Além de viajar pelo país contando histórias, ao longo dos últimos anos reuniram contadores de histórias negros de Minas Gerais e de outros estados em eventos com apresentações, gastronomia e arte protagonizada por artistas negros. 

Foto: Thiago Pacheco

Canjerê – eventos que valorizam a arte e cultura negra

As lives que alimentaram a nossa alma Canjerê

Diante da pandemia, que infelizmente se arrasta muito além do que prevíamos e desejávamos, nos resta registrar por aqui as agendas que foram verdadeiros Canjerês em nossas almas. 

Iniciamos por registrar as ações do Projeto Quilombos de Corpo e Alma, cujo empreendedor foi o artista plástico e membro do conselho editorial da nossa revista, Marcial Ávila. Ele também foi o facilitador das oficinas de criação de máscaras africanas. O Projeto, patrocinado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, que teve início do final de 2020 e encerrou-se em abril de 2021, consistiu no estudo e na criação de máscaras africanas. A ação ocorreu em interface com os segmentos da dança e da música, dois grandes potencializadores da criatividade presentes nos tradicionais festejos quilombolas.

Projeto Quilombos de Corpo e Alma – Estudo e criação de máscaras africanas Foto divulgação

Foi uma proposição da valorização da identidade de matriz africana, bem como uma oportunidade geradora de renda para os quilombos urbanos: Mangueiras e Manzo Ngunzo Kaiango. As oficinas contemplaram diretamente cinquenta pessoas das respectivas comunidades. 

A luta e a resistência do povo quilombola na ocupação dos espaços urbanos em Minas Gerais é histórica. Em Belo Horizonte, os territórios conquistados por seus antepassados formam comunidades com vivências e aspectos culturais de grande diversidade e riqueza. A manutenção de seus territórios e de suas tradições perpetuam a existência das múltiplas manifestações da cultura afro-brasileira.

Evandro Passos falou sobre a trajetória da bailarina e coreógrafa Marlene Silva – Foto acervo pessoal

No dia 18 de março de 2021, o bailarino, coreógrafo, ator e pesquisador em cultura afro-brasileira e africana Evandro Passos recebeu um convite da Rede Solear de Dança para uma live em que o tema foi a trajetória da bailarina e coreógrafa Marlene Silva.

Evandro falou da Dança Afro como linguagem de palco que chegou por meio dessa ex-integrante do Balé Folclórico Mercedes Baptista, em meados dos anos 70.  Pontuou principalmente as apresentações de Marlene Silva que aconteciam, inicialmente, dentro do sistema hegemônico em casas de espetáculos como o Palácio das Artes e o Teatro Francisco Nunes.

Passos ressaltou que antes de abrir sua escola, Marlene Silva ministrou aulas em diversas academias de dança de Belo Horizonte como a Academia Ana Pavlova, Studio Karits, Academia Internacional de Balé. Para o dançarino e pesquisador, a coreógrafa consolidou-se em BH num momento em que novas linguagens e códigos manifestavam-se e professavam-se em consonância com a emergência de novos valores no ideário da população negra graças ao Movimento Negro Unificado.

Marlene chegou a Belo Horizonte no período em que a população negra se mobilizava em termos de ações afirmativas as mais variadas: a adoção do penteado afro, a produção de audiovisuais, jornais e panfletos, a difusão de informações em feiras, sambas e locais públicos de dança e de encontro culturais nos quais a negritude estava presente, afirmou o pesquisador.

O FESTIVAL SAMBA DE TERREIRO reverencia a origem do samba – Foto Divulgação

No dia 2 de maio, foi a vez de prestigiarmos o Festival Samba de Terreiro. O Projeto Samba de Terreiro, criado pelo músico, dançarino, educador e agitador cultural mineiro Camilo Gan, tem como objetivo principal levar ao conhecimento da sociedade os elementos essenciais que originaram o samba: Reza do Corpo, Toques de Tambores, Improvisação Vocal e Interatividade. O FESTIVAL SAMBA DE TERREIRO reverencia a origem do samba, evidenciando a importância da energia feminina para o surgimento e preservação desse gênero musical gerado primordialmente pela influência dos povos  africanos Bantus vindos para o Brasil. 

Presenças altamente potentes participaram do Festival como o pesquisador Marcos Cardoso, Dóris do Samba, a cantora Tamara Franklin, a umbandista Dayse de Yansâ, o pesquisador e radialista Carlinhos Visual, a culinarista Kelma Zenaide entre outras.

Intercâmbio Cultural

O Palco Hip Hop é um dos principais festivais que agrega diferentes linguagens artísticas da cultura Hip Hop no país. Em 2021, celebra seus 10 anos e, ao longo de sua história, reuniu nomes de destaque nacional e internacional. Um deles é o da artista francesa Daybe Dee, uma das mais respeitadas dançarinas, coreógrafas e DJs no mundo que integrou a programação do evento em 2019 com uma apresentação artística, bate-papo, discotecagem e workshop de Hip Hop dance 90.

A vinda da artista para o país foi viabilizada pela Embaixada Francesa, em Belo Horizonte, parceira da edição do evento, que apoia diversas iniciativas que permitem o intercâmbio cultural entre Brasil e França. “Possibilitar o intercâmbio cultural com uma artista francesa como a Day Dee é muito rico para o projeto. Um público, em sua grande maioria de pessoas negras, periféricas, tem poucas oportunidades de participar de intercâmbios, dentro da programação gratuita do festival, de contactar artistas internacionais para poder trocar ideias, realizar workshop, bater papo.

Ter  uma discotecagem da Daybee, mais uma apresentação da artista no festival a preço popular é de extrema relevância para a cultura dos dois países”, celebra Victor Magalhães, gestor e produtor cultural, coordenador geral Palco Hip Hop. Durante a pandemia, o festival segue movimentando a cena com programações virtuais. Mais informações e programação estão disponíveis em: fb.com/palcohiphop.

Foto – Pablo Bernardo

Ismael Ivo

São imensuráveis as perdas que a Covid-19 tem feito no mundo. Entre as vítimas da doença está o bailarino, diretor e coreógrafo Ismael Ivo, que faleceu em abril de 2021, aos 66 anos de idade.

O artista, nascido na Vila Ema, em São Paulo, marcou o cenário da dança contemporânea nacional e internacional, trabalhou por mais de 30 anos no exterior, tendo se consagrado como curador e diretor na Bienal de Veneza e como diretor da Companhia de Dança do Teatro Nacional Alemão.

Ivo se encontrava na direção artística do Balé da Cidade de São Paulo desde 2017, sendo o primeiro negro a ocupar o cargo. Em sua homenagem, o Governo de São Paulo criará a SP Escola de Dança Ismael Ivo, na qual o bailarino estava à frente dos projetos de sua concepção.

A nova instituição irá oferecer formação técnica e artística com foco 100% na formação e na capacitação de profissionais em coreografia e performance. Com previsão para início das atividades no começo de 2022, a escola terá cursos regulares na área de dança para 400 alunos e de extensão para cerca 1,5 mil.  A sede será no terceiro andar do Complexo Júlio Prestes, localizado no centro de São Paulo. As obras, que já foram iniciadas, terão um custo total de R$3,5 milhões.

Foto – Acervo São Paulo Companhia de Dança

Patrimônio Imaterial

O primeiro passo para o reconhecimento dos Reinados e Congados de Minas Gerais como patrimônio cultural imaterial do Estado foi dado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG). Atendendo a pedidos das comunidades congadeiras, prefeituras, pesquisadores e associação da sociedade civil, o instituto está fazendo o cadastramento de grupos de Congados e Reinados de Minas Gerais na  busca de assegurar a importância para este bem cultural ímpar da identidade e cultura dos mineiros.

O mapeamento tem como objetivo identificar a localização, as formas de organização, a diversidade de cargos e funções, as indumentárias, instrumentos musicais, calendários festivos, dentre outros, bem como levantar informações sobre as dificuldades relacionadas à manutenção dos grupos visando a salvaguarda desse bem cultural. Para participar do cadastro, os grupos deverão preencher um formulário on-line disponível no site www.iepha.mg.gov.br.

Foto Ilustrativa Mestres da Cultura Popular CRCPLN

Foto_Ricardo Laf

Imagem do filme LUMBALÚ; AGONÍA que será exibido durante a 1ª edição do CineClube Mocambo - Foto Mario Prado

Em sua 1ª edição, Cineclube Mocambo valoriza a tradição do Cineclubismo em BH com exibição contínua de filmes realizados por pessoas negras. A programação on-line e gratuita começa em setembro

Por Mariana Cordeiro e Milena Geovana – jornalistas

Na 1ª edição do Cineclube Mocambo, o evento, que abriga cinco sessões de filmes  de setembro a dezembro, se propõe a ser um cineclube negro contínuo em Belo Horizonte. O Cineclube terá em sua programação exibição de filmes dirigidos por realizadores e realizadoras negras brasileiras, das Américas, Europa e do continente Africano, além de espaços de debates. A primeira sessão, de 23 a 26 de setembro, trará reflexões sobre a complexa relação entre vida e morte para a comunidade negra com apontamentos para possibilidades de aquilombamento, resistência e afetações. A programação é on-line e gratuita

A partir do dia 23 de setembro, o Cineclube Mocambo apresenta ao público um espaço contínuo de debates sobre cinema e audiovisual através da exibição e discussão sobre filmes dirigidos por pessoas negras brasileiras, das Américas, Europa e do continente Africano. Em sua 1° edição, o Cineclube Mocambo abrigará cinco sessões de filmes de setembro a dezembro de 2021. A 1ª sessão de 23 a 26/09; 2ª sessão de 28 a 31/10; 3ª sessão de 11 a 14/11; a 4ª e a 5º sessão serão definidas em breve. Toda programação é on-line e gratuita. 

O tema desta edição aponta para as encruzilhadas da produção do cinema independente, já que os filmes escolhidos tratam das experiências de vidas e dos diversos caminhos posíveis que se cruzam no ponto comum que é o ser negro no mundo, em especial na América Latina. O projeto é idealizado por Jacson Dias, produtor de cinema e sócio-fundador da  Ponta De Anzol Filmes e por Gabriel Araújo, curador mineiro e crítico de cinema. A iniciativa tem curadoria, além de Jacson e Gabriel, da pesquisadora e professora Tatiana Carvalho Costa. O Cineclube Mocambo é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, por meio do Edital BH nas Telas, Fundo 2020.

Jacson explica que havia o desejo de que a programação acontecesse de forma presencial, mas, com a chegada da pandemia de Covid-19, o cineclube passou por uma reformulação para aumentar a circulação do cinema independente entre pessoas que costumam não ter esse tipo de acesso. “O cineclube Mocambo tem uma razão e sentido de existir: fazer circular os filmes produzidos por pessoas negras e os debates suscitados por eles”.

Primeira sessão

A primeira sessão, do dia 23 a 26 de setembro, discute a complexidade do binômio vida/morte, constantemente presente na experiência de pessoas negras, seja no Brasil, seja em outras partes do mundo. Gabriel Araújo, um dos organizadores, explica que a ideia é programar filmes que lidem frontalmente com essa questão – não para causar mais violência ou sofrimento. “Pessoas negras representam o grupo que mais vem sendo terrivelmente afetado pela política de morte do país e pela pandemia de covid-19. A proposta dessa primeira curadoria é apontar, com os filmes, possibilidades de aquilombamento, resistência e afetações que nos façam refletir essa situação”, afirma. 

A sessão terá filmes como o documentário “T”, da cineasta norte-americana Keisha Rae Witherspoon, que mostra a história de três enlutados que participam do festival T Ball, em Miami. O curta do colombiando Jorge Perez, “Lumbalú; Agonía”, também estará presente na sessão de abertura do Cineclube Mocambo, apresentando uma narrativa que recupera as tradições palenqueiras do Lumbalú. Todas as obras serão exibidas pelo site cineclubemocambo.com.br.

Sobre o cineclubismo

A prática de assistir e discutir filmes surgiu quase em conjunto com a criação do próprio cinema e, no Brasil, tem seu primeiro registro no estado do Rio de Janeiro, em 1928 com  o Chaplin Club, fundado por Plínio Sussekind Rocha, Otávio de Faria, Almir Castro e Cláudio Mello. De acordo com Gabriel Araújo, Belo Horizonte também tem uma bela tradição com o cineclubismo, com vários cineclubes presentes na história da cidade: “já tivemos várias iniciativas semelhantes nesse sentido. Muitos dos cineastas que hoje produzem na cidade foram inclusive formados pelas experiências de cineclubes, ou por meio das programações de mostras e festivais independentes que ocorrem aqui”.

Cineclube Mocambo

O caráter formativo permeia a construção do projeto, já que, além das discussões das sessões, o cineclube realiza lives periódicas pelo Instagram com convidados da cena audiovisual brasileira para falar sobre cinema e curadoria. Jacson destaca que “a irmandade para as os curadores e fazedores de cinema negros é uma parte importante do cineclube”.

Para os idealizadores, um dos objetivos é também ampliar a discussão em torno do cinema preto latino-americano, uma vez que essas produções são muito ausentes no Brasil. Além do cineclube contínuo, que vai acontecer a cada seis meses, e com caráter formativo, diferente de outros espaços como esses em que cada pessoa do grupo sugere quais filmes serão exibidos, as produções que serão exibidas no Cineclube Mocambo foram escolhidas a partir de um pensamento curatorial que leva em conta o momento que vivemos no mundo. “A escolha dos filmes da primeira sessão e das próximas não é vã, ela foi feita com base na conversa, no visionamento de filmes, e com base na experiência e opinião dos curadores”, destaca Gabriel. 

A exibição dos filmes vai acontecer no site do Cineclube Mocambo, e as discussões serão transmitidas no canal do Youtube da iniciativa. As datas e horários da 1° sessão serão divulgados pelas redes sociais:

Instagram: instagram.com/cineclubemocambo

Facebook: facebook.com/cineclubemocambo

Twitter: twitter.com/cinemocambo

Imagem do filme LUMBALÚ; AGONÍA que será exibido durante a 1ª edição do CineClube Mocambo – Foto Mario Prado

Paulina Chiziane: as diversas possibilidades de falar sobre o feminino

      Rosália Diogo Chefe de Redação da Revista Canjerê. Pós-Doutora em Antropologia da População Afro-brasileira. Gestora do CRCP Lagoa do Nado.

Paulina Chiziane nasceu em 1944, em Manjacaze, província de Gaza, Sul de Moçambique.  Foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance. Dessa forma, a escritora desafiou e desafia críticas e resistências sociais e culturais no seu país e no continente africano.

Paulina representa uma mulher moçambicana que fala sobre as mulheres do seu país e do mundo. Posicionamento que modifica o cenário social que normalmente é protagonizado por homens.

Escreveu alguns contos e estreou no romance com a obra Balada de amor ao vento (1990), editora Caminho. Publicou também por essa editora Ventos do Apocalipse (1995), O sétimo juramento (1999), O alegre canto da perdiz; Niketche: uma história de poligamia (2004), Companhia das Letras; Por quem vibram os tambores do além? (2013), ed. Índico; Na mão de Deus, ed. Carmo; e Ngoma Yethu: o curandeiro e o Novo Testamento (2015); O Canto dos Escravizados (2018) e As andorinhas (2008) pela editora Nandyala.

Entrevista concedida em 2011, na cidade de Maputo, capital de Moçambique.

Qual é sua opinião sobre Lobolo e Poligamia, tradição e modernidade. Alguns dizem que Nikecthe  é um pretexto para  você apresentar a discussão à modernidade em Moçambique. O que tem a dizer sobre esses temas?

Eu fui a escritora que mais escrevi sobre os temas lobolo  e poligamia.  Em todos os  livros  que eu publiquei, trato desses temas, de uma forma ou de outra. Eu acho que todos os moçambicanos deveriam discutir seriamente sobre o tema poligamia e eu pessoalmente  não concordo com ela.  Não  concordo mesmo, mas por outro lado nós temos a seguinte situação: a região sul do país é patriarcal e a favor da poligamia, e daí veio a religião cristã e instalou a monogamia. E na região norte, que era  matriarcal e portanto sem espaço para a poligamia, os mulçumanos se instalarem por lá e daí se implementou a poligamia, então é uma verdadeira confusão. Por lá instalou-se uma religião que não tem nada a ver com os costumes deles, e vivemos nessa complicação. Agora, o que posso dizer da poligamia é que ela é benéfica para as crianças. Os filhos, em uma situação poligâmica, têm uma identidade, e na monogâmica não. Dessa forma, as crianças, independente de serem filhos de uma ou de outra mulher, são reconhecidos como filhos legítimos de uma família, já na relação monogâmica marginalizam-se os filhos das outras mulheres. Eu, pessoalmente, penso que poligamia, nem pensar, mas sou apologista da legalização da poligamia, pois se ela for bem legislada, as coisas tendem a ficarem bem. As pessoas que vivem na cidade é que acreditam na monogamia. A maioria das mulheres  vive no sistema tradicional poligâmico e não têm proteção alguma da lei, o que não é correto. Portanto, devemos olhar para a poligamia porque é uma realidade e é preciso legislar, pois em uma poligamia o homem tem uma mulher e quando resolve ter a segunda, deverá legalizar primeiro a situação com a primeira: dividir os bens, incluindo a casa, deixar a parte dela resolvida e ir cosntruir a nova vida sem que a mulher fique desprotegida. Mas o que acontece de fato é que, com a ausência da lei,  o homem vive com uma mulher um tempo e, quando bem entende, manda-a ir embora, no dia seguinte vai buscar outra ou fica com umas três ao mesmo tempo. Portanto, há de haver um instrumento legal para proteger essas mulheres que vivem nessa situação, pois são a maioria. Como você teve oportunidade de ver, as nossas cidades são bem pequenas e a zona rural é imensa. Dessa forma, toda essa imensidão humana está sem proteção. Portanto, é mais ou menos dessa forma que eu levanto o tema da poligamia – há coisas boas e coisas más. Mulher em uma situação de poligamia é sofrimento, mas as crianças ganham identidade, portanto não sou eu que vou responder se é bom ou ruim.

Estou em Moçambique pelo fato de fazer em minha obra uma análise comparada da sua literatura com a obra de Conceição Evaristo. Sei que ela já esteve aqui no ano passado. O que pensa sobre a  escritora?

O que tenho a dizer é que eu não tenho palavras para explicar o que vou dizer: peguei o livro Ponciá Vicêncio para ler e comecei a identificar-me com ele. Li também poemas da recordação e outros movimentos e agradei muito. A sonoridade me chamou atenção também. Conceição escreve na obra assuntos completamente diferentes dos meus, mas quando fecho os olhos, me vejo no Brasil, e penso que poderia ter sido eu a escrever o romance.  A obra me fez sentir muito próximo dela, é como se meu espírito estivesse naquela história. Recebi essa obra diretamente das mãos dela e fisicamente não me pareço com ela, mas tem um quê, quando se  olha para ela e para mim fica a sensação de pessoas que viveram no mesmo lugar, ou são irmãs. Eu realmente não tenho palavras para explicar. Quando ela esteve cá, estivemos juntas por alguns lugares de Maputo e eu gostaria de tê-la levado a muito mais lugares dos que pude levar porque o programa  dela estava muito pertado. Conceição Evaristo passa por uma pessoa moçambicana, e se eu disser  que ela é minha irmã mais velha ou mais nova, com certeza as pessoas acreditarão.

Chiziane, Conceição é uma ativista da temática racial no Brasil. O nosso país segrega e discrimina, de maneira gritante, os afro-brasileiros. A obra de Conceição é fortemente marcada pela denúncia das situações de racismo e de opressão à mulher negra. As leituras sobre o racismo em Moçambique são tímidas, você acha que há racismo aqui?

Há racismo sim.  Eu não discuto muito em “Niketche” isso, mas no “Alegre canto da perdiz” essa leitura é possível com mais amplitude. Não sei bem o que podemos dizer hoje sobre racismo em Moçambique. “O Alegre canto da perdiz” é um pouco mais ousado ao abordar o assunto. No fundo, nós fizemos uma luta pela independência, ficou claro que os nossos inimigos eram os portugueses, mas as questões sobre raça no sistema colonial eram muito claras. Fizemos a independência foi há mais de trinta anos e desde então não voltamos a discutir, fazer o debate sobre revolução, paramos de fazer o debate sobre unidade nacional e outros temas. E eu, como sempre, não consigo  fechar a porta para os debates que não são tão populares assim. O fato é que os portugueses que aqui ficaram no pós-independência mantiveram os seus privilégios e os seus descendentes também por conta da sua mestiçagem, são filhos de pai branco e daí o conceito dentro da sociedade moçambicana é mais elevado. Por exemplo: se tu fores à províncias do norte como a Zambézia ou Nampula, os empregados dos bancos são mestiços; nos aviões, as funcionárias também são. Raramente nesses postos  de trabalho se encontram pessoas negras, com a pele escura como a minha ou a sua.  Em grandes empreendimento hoje, a primeira presença que encontramos é a de mestiços, mas esse assunto não se discute por aqui. A desculpa é que a Constituição diz que não pode haver discriminação pela raça e outras. Só que se basearmos no que está escrito nela, sem haver um mecanismo de bate público, não basta. Não estamos em igualdade racial de forma alguma. Aqui no Sul não diz nada, mas na Zambézia, que está no  centro, e no norte do país, é muito flagrante, o estatuto do mulato é superior. É o que posso dizer neste momento sobre a questão do racismo por agora.

Civilizações negras ao sul do Saara: O império do Ghana (300-1075)

Marcos Antônio Cardoso – Militante do Movimento Negro, filósofo e mestre em História Social pela UFMG. Professor de cursos livres de introdução à História da África.

Com a ocupação do norte da África pelos árabes por volta do século VII, os impérios foram formados baseados na expansão da cultura do mundo árabe: imposição de uma verdade religiosa – o Islã, e a economia através do modo de produção árabe, gerando uma política de dominação. 

Ao contrário, na África ao sul do Saara ocorreu outro processo, inédito, em que os diversos povos africanos dos territórios circunvizinhos especializaram-se em funções produtivas como a agricultura, caça, pesca, pastoreio e metalurgia; e as etnias autóctones proprietárias da terra dividiam o governo político e militar com os grupos étnicos que chegavam, gerando uma política de cooperação. 

Foram muitos os reinos e os impérios na dinâmica civilizatória africana que se ergueram como construções político-sociais fundadas na cosmovisão africana. Entre eles, destacamos o Gana, o Mali e Songhai porque constituíram uma continuidade de resistência à dominação árabe na África Ocidental.  

Ghana é a primeira grande reação ao processo de islamização africana que se iniciou no séc. VII com a união de várias etnias para formar o império negro africano que aflorou apenas no séc. X. Surgiu num lugar privilegiado, ponto principal da travessia do Saara em direção ao Sul da África, cuja localização é estratégica para o controle de importantes rotas comerciais e que definem o comércio entre o Norte e o Sul do continente.  

Os Soninke eram o grupo étnico majoritário de Ghana que chamavam sua terra de Wagadugu ou Wagadu (país dos rebanhos). O nome Ghana é o título do rei que governava aquele império e significa o “Senhor do Ouro”. O Estado de Soninke era forte e seu rei controlava 200.000 soldados, 40.000 dos quais arqueiros que protegem as rotas de comércio de Ghana.

O poder do rei de Ghana provém do monopólio da enorme quantidade de ouro produzida em seu reino. Essa riqueza permitiu aos habitantes de Soninke construir e manter cidades, além da capital de Ghana, Kumbi Saleh, com população entre 15.000 e 20.000 habitantes. Os soninke também usaram sua riqueza para desenvolver outras atividades econômicas, tais como a tecelagem, a ferraria e a produção agrícola. 

A localização privilegiada na faixa do Sahel ofereceu as condições para o desenvolvimento da agricultura e do pastoreio como, por exemplo, a forte produção especializada de cereais. O Sahel, do árabe, significa “costa” ou “fronteira”, é uma faixa ecoclimática e biogeográfica de transição na África entre o Saara ao Norte e a savana sudanesa ao Sul, com 500 a 700 km de largura em média, e 5.400 km de extensão, entre o oceano Atlântico, a Oeste, e o mar Vermelho, a Leste, verdadeira rota transaariana de transporte de mercadorias via caravana de camelos pelo Saara. 

Os Ashanti, assim como os Fanti, são os grupos étnicos mais conhecidos do complexo cultural dos povos Akan que abrange diversos outros grupos localizados em Ghana, Costa do Marfim e Togo, na África Ocidental. Os ashanti ocupam a região centro sul do atual território de Gana e estão organizados numa confederação de estados, sendo que cada estado é dirigido por um chefe supremo, que por sua vez é subordinado ao rei (Ashantehene). 

O tráfico transatlântico de escravizados é responsável pela presença dos ashanti no Brasil. Verificamos isso por meio da autodenominação do terreiro Fanti-Ashanti lá e aqui. Sobretudo, destacamos a presença dos ashanti em Minas Gerais com a tecnologia africana na extração do ouro e engenharia de minas em Ouro Preto, Nova Lima e ou por meio dos ideogramas adinkra dos akãs encontrados no casario colonial de Ouro Preto. 


Foto de Lapping – Lara Banga Ghana Mesquita


Isidoro um Homem de Quilate!

Marcial Ávila, artista plástico, poeta, membro do conselho editorial da Revista Canjerê


O som de tiros ecoou pelas serras diamantinas.

Fez estremecer os mais distantes lugarejos.

Os corações se fizeram aflitos, 

tanto dos quilombolas ocultos nas entranhas do espinhaço,

quanto dos brancos que ostentavam títulos de nobreza.

Muitos mais tiros ribombaram nas brenhas…

e o silêncio após.

O Arraial do Tejuco contrito,

mal respirava aguardando o porta voz:

– Sim, prenderam Isidoro!

Prenderam Isidoro?

E lá veio ele arrastado pelos becos e vielas

sob os olhares orgulhosos dos seus algozes.

Foi açoitado, martirizado em praça pública.

Morre, negro maldito!

Gritava a soldadesca.

Vive, Isidoro, pelo amor de Deus!

No entorno, preces confusas subiam aos céus.

E velas foram acesas em oratórios particulares,

uns pediam vida, outros morte para ele.

Afinal, muitos destinos estavam nas mãos amarradas de Isidoro.

Seus olhos, mesmo que embaçados pela dor,

ainda podiam ver através das treliças, 

velhos amigos de negócios ocultos nas sombras.

Ninguém ousou defendê-lo.

Detrás dos arvoredos, rostos negros como o seu

choravam pela sua dor.

Apenas em pensamentos diziam…

– Ele é inocente, 

– Deus o acuda!

– Valha, Nossa Senhora do Rosário, mãe dos pretos!

– Fala, escravo galé! 

– Entrega de uma vez!

– Com quem contrabandeava as pedras?

Mas nem uma palavra,

Nem uma palavra saía dos seus lábios ensanguentados.

– De quem eram os diamantes?

– Com quem os negociava?

Ele sabia de onde vinham os calhaus,

os tirou com as mãos, dos grotões da serra

e das veias dos rios.

Se a terra teve a confiança de entregar a ele 

as mais belas pedras…

– Eram seus! 

– Os diamantes eram seus, 

não os roubou de ninguém.

Era um homem honrado.

Podiam ter escravizado seu corpo,

mas nunca sua alma. 

Ninguém tiraria seu título.

Ele era o maior batedor dos sertões, 

tinha faro pras riquezas, 

era o senhor dos diamantes! 

E na sua honradez, 

não delatou ninguém.

Nem brancos nem pretos,

Nem justos nem ímpios.

E mais chicotada!

– Morreu Isidoro!

– Morreu Isidoro?

Morreu o inocente,

levou consigo muitos segredos do Tejuco.

Com ele muitos perderam o lucro fácil.

Outros tantos respiraram aliviados.

Mas muitos que foram libertos por ele

prantearam sua morte.

Negros cativos ou forros das mais diversas línguas e crenças,

se uniram em oração.

Todos os sinos repicavam uníssonos em agonia,

Talvez chorassem as lágrimas que não caíram dos olhos dele.

Parece que aquele burgo se tornou em instantes

uma imensa irmandade cristã.

Mal sepultaram seu corpo no burgalhau,

Ouviram gargalhadas na serra.

Na serra do Isidoro!

Ele era novamente livre, 

como sempre o foi em seu coração.

Mas muitas almas do tijuco se tornaram cativas,

Sob o julgo dele.

Sobre seus tesouros enterrados, ele gargalhava.

Com olhos despertos, podia ver a ganância pairando sobre o arraial.

Ri, Isidoro!

Ri, Isidoro!

De quem será sua fortuna enterrada?

Quem herdará sua estrela?

E depois dele, mais ninguém…

Ninguém teve seu faro pra diamantes, sua sabedoria.

Ele entendia da terra, sabia onde procurar.

– Isidoro, o mártir.

– O mártir?

– Não! Não!

– O escravo Isidoro?

 – Não!

O homem honrado de coração nobre,

Que tinha alma livre!

Que não morreu como delator 

e não traiu a confiança dos seus.

Levou a verdade trancada em seu coração flagelado.

Ele foi o maior garimpeiro das gerais.

Senhor do distrito diamantino.

Virou intocável, virou lenda, é imortal!

Dizem que ainda hoje anda pelo beco.

O Beco do Isidoro!

Que tem poder de manipular as almas gananciosas 

que ambicionam seus tesouros enterrados.

 E até lhes aponta falsos caminhos.

Mas ele sempre soube onde estavam os diamantes.

Sempre soube!

Afinal ele era Isidoro, 

O grande garimpeiro,

 o maior!

Aquele que com diamantes libertou corpos e almas do seus iguais.

Um homem nobre, um homem de quilate!

Isidoro!

Ilustração: Marcial Ávila

O urbano e a cultura pelas lentes de Ricardo Laf

Por Samira Reis – Jornalista

Na infância, precisamente aos sete anos de idade, Ricardo saiu em busca da máquina fotográfica a pedido dos pais, a fim de registar uma celebração da família. O que aquela máquina era capaz de fazer? Eis que registros de planta, insetos, sombras foram captados até que Laf entregasse aos pais. No entanto, era um filme de apenas 24 poses, já esgotado pela criança curiosa.

Tal lembrança marca o início de uma trajetória entre o jornalismo e a fotografia, construída de forma técnica e sobretudo, afetiva. “Entre os motivos que me fazem amar a fotografia estão a desobrigação de ter que dizer e a possibilidade de dizer o que não há como ser dito por meio de palavras”, enfatiza ele.

Além dos registros de eventos que abrangem a cultura popular, a música, o teatro, a vida urbana também é constantemente capturada por Ricardo. Na plataforma digital Instagram, é possível contemplar as belezas da capital mineira e de outras preciosidades das suas andanças.

Por falar em redes digitais, a fotografia ganha novos contornos com a expansão de meios virtuais em que pessoas se expressam, principalmente por meio de imagens.

Esse caminho tem a contribuição da mudança dos telefones celulares para smartphones. No mesmo aparelho, é possível conduzir a foto, preparar a imagem e reproduzi-la para o mundo. Nesse entremeio, Laf alerta para uma consequência pouco abordada a partir desses avanços: “A maioria das pessoas perdeu a vontade de imprimir fotografias, já que elas estão disponíveis a um toque em uma tela de smartphone. Essa perda de materialidade de uma fotografia, coloca sob risco a perda de milhares de fotos em razão de algum problema técnico no dispositivo que fotografa e armazena a foto”, explica.

As ruas, os eventos eram parte da rotina de Ricardo, intensificada, por vezes, nos fins de semana. Com a Covid-19, o cenário mudou drasticamente: países fragilizados por mortes, a corrida pela vacina, desemprego, estagnação econômica, distanciamento social e máscaras.

Pouco antes dos primeiros registros da doença no Brasil, no início de 2020, Laf chegava à Islândia. De lá, viveu a complexidade da situação e, sobretudo, do país de origem. “A ideia era ficar dois meses por lá, mas a pandemia se alastrou e acabei ficando preso por lá por quase 5 meses até encontrar um voo que me trouxesse de volta ao Brasil. Mas, à distância, acompanhava os desdobramentos da pandemia no Brasil, a inépcia de um governo que subestimou a seriedade da Covid-19 e ainda publicava declarações em tom de bravatas todos os dias, a cada contingente de mortos registrados. O que me surpreendeu foi que os islandeses sabiam também o que se passava no Brasil. Um dia, um deles me perguntou: “Como um presidente daquele pode governar um país do tamanho do Brasil?”.

A retomada para o Brasil foi de não esmorecer, apesar da situação calamitosa e um governo desarticulado diante dos problemas. Reconhece, diante da situação, o privilégio de trabalhar em casa.

As saídas são para o estritamente essencial, sem descuidar dos protocolos sanitários. O desejo é de um retrato diferente e melhor para os brasileiros. “Uma fotografia que compreendesse, em sua composição, solidariedade, justiça e empatia, sem qualquer resquício do atual governo. Diante do que hoje vivemos, seria o melhor dos mundos”, diz esperançoso.

Ricardo Laf é o responsável pelo tratamento das fotos da Revista Canjerê.