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Sandrinha

Um protagonismo de africanidades


Por Rafaela Pereira – graduada em Língua Portuguesa pela UFMG e pesquisadora de Literatura Infanto Juvenil e Representações Afro-brasileiras.

Eis que apareceu naquela escola um professor usando trança nagô, barrete com as cores do reggae, um estilo ressaltando muito bem a sua negritude. Para os alunos, não deixava de ser novidade um professor com aquele perfil, pois até o momento não havia aparecido um como ele.

Não demorou muito para conquistar a simpatia dos alunos que, através dele, começaram a ter acesso ao que tangia à cultura afrobrasileira.

Logo, percebeu-se que aquele professor não transitava somente no território educacional. Foi quando começamos a ver seu rosto estampado em propagandas comerciais, educacionais, políticas e em cartazes de peças de teatro.

Realmente, o espaço escolar não estava dando conta de abraçar as ações de Denilson Tourinho. Ator, mestre em Africanidades pela Universidade de Brasília, dançarino, produtor cultural e professor, Denilson exerceu (e exerce) importantes papéis nas artes cênicas, integrando, concomitantemente, diversos projetos pelos quais recebeu vários prêmios, entre eles, o “Troféu Mês da Consciência Negra”.

Atualmente vem se destacando devido à sua belíssima atuação na peça Madame Satã,dirigido por João das Neves, em que interpreta com louvor o personagem João Francisco dos Santos, transformista e figura emblemática do cenário carioca no início do século XX.

Além de integrar essa obra, Denilson faz parte do elenco de Galanga, Chico Rei e Kàdáràe destaca-se também como um importante nome nas artes cênicas e colaborador, com excelência, do protagonismo cultural afromineiro.

Antônio Pitanga:”Gosto de trabalhar com os contragolpes”

Por Moises Mota – Repórter especial para a Revista Canjerê

Há quem diga que ser ator é algo similar a um sacerdócio. Há outros que pensam ser o ator um Deus. Tem outros que pensam ser a melhor profissão do mundo. Mas quem, na verdade, se atenta para o verdadeiro valor artístico do ator? O artista Antônio Pitanga narrou suas memórias em seu documentário e mostrou ao público a atualidade de sua biografia e luta política, mesmo com suas histórias narradas a partir da década de 50.

Antônio Pitanga esteve em Ouro Preto – na terra de Chico Rei – para apresentar o documentário “Pitanga”, lançado em 2016, dirigido por sua filha Camila e Beto Brant.

PS: Essa entrevista foi realizada em 2017, durante a Mostra de Cinema de Ouro Preto. Na época, Antônio Pitanga foi capa da 7ª edição da Revista Canjerê que era disponibilizada apenas impressa e em PDF. Agora que temos o nosso portal, resolvemos republicar a entrevista por se tratar de um importante material para estudos.

Durante o encontro, o ator predileto de Glauber Rocha no Cinema Novo falou sobre o movimento negro, as artes, o mercado audiovisual e um dilema muito presente: ser ou não ser uma referência para os mais jovens atores negros no que tange à negritude em cena.

Aproveitou a oportunidade para clamar a todos por uma unidade na luta e no pensar o negro na sociedade, unir as forças para formar uma luta diária, contínua, que é fundamental para se alcançar a necessária igualdade entre as raças.

Durante o encontro, Pitanga trilhou muitos caminhos e abriu muitas portas. Incomodou. Fez propostas e ministrou roteiros. Tudo em um pequeno espaço temporal, mas infinitamente grande em carga emotiva.

Questões brotaram desenfreadamente após o encontro e uma delas serve como chave para essa discussão: quem o ator pensar ser e quem é para aqueles que o olham e o observam em cena? Em seu trajeto biográfico, marcas ficaram em si e nos outros, aqueles que transitaram entre mundos. Toda essa trilha vai além quando se trata de um ser militante em relação ao seu pertencimento racial que motiva a busca incessante e incansável pelo empoderamento, luta de classes e combate ao racismo.

Pitanga é aquele que luta quando levanta e, mesmo deitado em sono profundo ou efêmero, expõe para outros a sua luta, a sua busca e a sua história. O soteropolitano, pai de Camila e Rocco, tem dessas coisas e é uma viagem à nossa história-recente, ao longe-perto e um puxão de orelha naqueles que não sabem ainda como fazer ou como começar a sua luta, já que viver é necessário e lutar mais ainda.

A entrevista iniciou-se com o ator relembrando uma frase de sua autoria em que ele disse ser: “uma fruta que dá em tudo que é canto; às vezes é azeda, às vezes é doce, mas sempre boa de chupar”. Indagado sobre essa frase e, após um largo sorriso, esclareceu que não pretende agradar a todos, pois tem suas posições políticas, raciais, culturais e de vida muito peculiar. Por isso ainda crava a seguinte sentença. “Não estou aqui para agradar e fazer concessões que não estejam de acordo com meus posicionamentos”, e acrescenta: “Não estou aqui para bater palma para o maluco dançar. Aí eu sou azedo, sou bom de briga.

OURO PRETO/MG 24.06.2017 – CINEOP – MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO – Antonio Pitanga. Foto: Leo Lara/Universo Producao

Quando não se rompe com os princípios de hombridade, honestidade: sou doce”. A vida o ensinou a ser capoeirista mental, a entender que não é dono da verdade nem senhor dos golpes. “Gosto de trabalhar com os contragolpes”, explica. E ser bom de briga é ação fundamental para estar em sociedade, para estar em luta. Esses dilemas são muito presentes em sua história, uma vez que frisa sempre ser “um negro em movimento”.

Sobre referenciais em sua vida, o ator aponta muitas pessoas como Luiz Gama, Milton Santos, Lima Barreto, Luiza Mahin (sua mãe), Maria da Natividade, Juliano Moreira, Machado de Assis, Nina Rodrigues, Eduardo Ribeiro, Castro Alves, Glauber Rocha, Abdias Nascimento, Léa Garcia, Ruth de Souza e o Teatro Experimental do Negro. “São referências para se seguir ou não; eu prefiro seguir”, destaca.

Ele se angustia em relação ao fato de muitas dessas pessoas terem caído no esquecimento, pois, em sua ótica, isso prejudica o estudo sobre a identidade negra nos dias de hoje, bem como a formação da raça negra, do cidadão brasileiro. “Estou falando de uma coisa real; quando eu falo de Lima Barreto, estou falando de literatura”, acentua. As referências são presentes na vida de Pitanga, que chama todos à importância de se conhecer e seguir essas grandes figuras da cultura negra nacional.

Sobre o documentário que leva seu nome, informa que é a mostra de um Pitanga que estava guardado a sete chaves em um baú e que é revelado como um cidadão contando a história própria, a de seu povo, a de uma raça e a de um país.“Se referência é isso, eu sou referência”, sentencia. Aceitar seu papel de referência talvez não seja algo muito fácil, pois junto com esse cargo vêm inúmeras necessidades que estão intrinsecamente ligadas.

A responsabilidade que acompanha o “ser referência” é fardo pesado. Eu sigo porque é bom. Sendo bom, eu usufruo e posso compartilhar. Uma vez reconhecido como tal, é fato incontestável sua importância para uma multidão, incontável. E é incontrolável essa reverberação do ser em cena, do mise-en-scène na vida real”, explica.

O pensamento do ator é fiel às suas convicções e se embrenha pela ideia de que a história do negro no Brasil ainda não foi devidamente contada, fato que considera ruim porque a participação negra no país é muito forte.

Cita como exemplo o caso de Ouro Preto, cidade onde foi entrevistado, e comenta: “Ouro Preto, como as Minas Gerais, têm muito a contar. A participação negra nestas Minas Gerais foi bastante forte. É preciso que a negritude mineira, principalmente a de Ouro Preto, escancare os portões, essas cortinas, e conte a sua história. Eu posso falar da história baiana porque eu a acompanhei bem, nasci na Bahia. Nós temos muito a contribuir com a história nacional. Principalmente a que está fora desse eixo Rio–São Paulo, como Ouro Preto, Sabará, Tiradentes”, fala e em seguida acrescenta que em Florianópolis existe o marketing branco, mas a população daquela cidade soma mais de 45% da raça negra.

A respeito do mercado audiovisual em relação aos atores negros é enfático: “O mercado somos nós. Eu sou uma pessoa que sempre entendi que não preciso do branco. Dependo de mim, da minha capacidade. No momento em que eu espero que o branco me dê emprego e que diga que sou um bom ator, eu estou errado. Eu tenho que acreditar e estudar para isso, ser reconhecido pelo negro”.

Se mostra satisfeito com o trabalho da repórter negra, Maria Júlia Coutinho, na Globo e, também, com o de Lázaro Ramos, que são ícones do reconhecimento do talento e da força da figura negra no cenário midiático. “Mas não estão lá como indivíduos, e sim como família, como um coletivo, uma representação de nossa raça”, assegura.

Sua visão leva a crer na necessidade de mais ações que tragam visibilidade aos profissionais da raça negra e que essas ações passem especialmente pelos negros. Trata-se de um complexo dinamismo a ser conquistado com raça e consciência de classe. “Nossa liberdade ainda não foi inteiramente conquistada, então por que pensar que foi dada? Está livre! Livre como? Com uma mão atrás e outra na frente? Então a gente ainda tem essa paga de séculos. Eu, melhor do que ninguém, sei. Tive uma criação muito pobre, mas essa consciência nós tivemos. O que me cabe neste latifúndio? Você quer ficar ali mesmo? Empregado serviçal? Não, não quero. Basta minha mãe que ocupou essas funções para me criar”, finaliza, deixando evidente que todo instante é momento para ações em prol da conquista do devido espaço do povo negro, no Brasil e no mundo.

Uma história negra de sucesso literário


Por Etiene Martins – Jornalista, publicitária, book tuber, livreira, idealizadora do jornal Afronta

Maria Mazarelo Rodrigues há mais de três décadas vem colorindo os contos de fadas, colocando aquele toque bem elevado de melanina nas peles das princesas, príncipes e super-heróis. Filha de uma lavadeira e de um carpinteiro, Maza (apelido pelo qual é conhecida) mudou-se para Belo Horizonte aos 13 anos de idade logo após o falecimento do pai.

Chegou à cidade já empregada como secretária de um médico, mas esse foi só o começo da vida profissional de uma menina negra que aprendeu a ler aos quatro anos de idade. O inicio da trajetória profissional de uma mulher negra, mesmo que extremamente competente, não é nada fácil.

Não muito tempo depois de conseguir o seu primeiro emprego na capital mineira, Maza não se deu por satisfeita, saiu do emprego, pois o salário era muito baixo, se inscreveu no processo seletivo do curso noturno do Instituto Municipal de Administração de Ciências Contábeis (IMACO). “O principal motivo era o fato de o IMACO ser uma escola gratuita. Assim eu poderia estudar à noite e trabalhar durante o dia. Fui aprovada e fui parar em uma classe em que eu era a única negra“.

Mesmo diante da formação, as portas não se abriam e Maza não tinha a compreensão dos colegas de classe. Foi nesse exato momento da vida que a ponte-novense teve seu primeiro contato com o racismo institucional. “O pessoal gostava de me chamar de Mariazinha: Mariazinha, você é uma menina triste, o que acontece? Ninguém entendia que o motivo de eu não conseguir emprego era porque eu sou negra. Por isso, tentaram me ajudar – tinham bons empregos – mas toda vez que eu voltava, dizia o mesmo: fui recusada na entrevista. E eles mesmos acabaram percebendo que a questão era a aparência.”

Corporeidade negra é um assunto que se reflete e se discuti com muita intensidade atualmente, mas já se fazia presente na vida de Maza e isso era um grande empecilho de ingresso no mercado de trabalho. “Essa questão de aparência era muito séria. Desde pequena, eu alisava o cabelo. Aliás, quando pequenos nós não queríamos ser negros. Mas por que não querer ser negro? Por que negro é maltratado, fica para trás, segue um estereótipo e o cabelo é a questão da mulher. Cabelo de negra é o grande X da questão. Chamam-nos de cabelo duro. “É a nega de cabelo duro !” Por isso alisávamos o cabelo com pente quente, saia um cheiro forte de queimado. Passávamos a vaselina, o cabelo fritava. Moral da história: aquilo queimava o couro cabeludo! Ainda passávamos uma pasta a base de soda que sempre deixava uma ferida na cabeça. O ideal era ter o cabelo liso para melhorar a aparência, conseguir chegar e reivindicar um emprego, mas nada disso funcionava.”

Maza não se deu ao luxo de desistir, persistiu e com a ajuda de uma colega de sala conseguiu um emprego “No último ano do IMACO, eu fiz amizade com uma colega de sala que conseguiu para mim um emprego de auxiliar de escritório de uma mobiliadora no bairro Floresta. As vendas na empresa eram feitas a prestação. Tinham dois cartões, um que ficava com o cliente, e o outro no escritório. Então a pessoa pagava a prestação e nós rubricávamos. A contadora Marilsa era a responsável pelo caixa e quando o dinheiro sobrava o proprietário, que era o Sr Isaac, colocava-o no bolso. Mas quanto faltava dinheiro acontecia algo errado, era a Marilsa que tinha que repor a quantia. Um dia chegou uma cliente na loja dizendo que havia pago a prestação, mas quando o Sr Isaac foi conferir, não constava o pagamento no cartão da loja. Marilsa perguntou a ela a quem ela tinha entregado o dinheiro e a cliente se virou para mim. Era verdade. Eu havia esquecido de rubricar o bendito cartão. Conferimos a data e havia sobrado exatamente a quantia que ela tinha indicado. Evidentemente ele havia pegado o dinheiro e colocado no bolso. Ele começou a gritar: “Ladra! Ladra! Pode botar para fora”, relata Maza.

Desempregada, Maza continuava tendo amigos que sempre fizeram a diferença em sua trajetória, foi quando “O Avelar quis me ajudar a arrumar um emprego de qualquer maneira. Conversou com os responsáveis diretos de uma gráfica e conseguiu que eu fizesse um teste de datilografia. Fiquei muito entusiasmada por que pagavam um salário mínimo. A nossa meta era ganhar um salário mínimo. Os meus irmãos ganhavam, compraram lote e conseguiram construir um barracão para morar depois de casados. Fui fazer o teste e quando cheguei, olhei para a máquina de escrever e perguntei: Mas que máquina é essa? O entrevistador olhou para mim e ficou com dó. Era uma IBM executive elétrica. “ Eu nunca tinha trabalhado em uma máquina elétrica, até tentei fazer o teste, mas eu não sabia nem ligar a máquina e desabei a chorar. Chorei muito”.

Sem êxito na entrevista para trabalhar com datilografia, foi ofertada à Maza um emprego na equipe de limpeza como faxineira, mas apenas uma coisa importava para ela, o salário. “É claro que aceitei ! Seria para fazer faxina, limpar chão, o banheiro, mas eu aceitei. Não tinha problema eu já estava acostumada a fazer faxina em casa.”

“O tempo foi passando e no segundo, terceiro meses eu acompanhava aquele processo dinâmico e interessante de gráfica. Ficava maravilhada com a questão da composição. O material vinha escrito à mão. Primeiro, passava pela composição na máquina. Depois por uma câmera escura, o fotolito. E assim se fazia o livro. No terceiro mês, quando estava entendendo o processo de fazer livro, Henrique um dos funcionários, me perguntou se não gostaria de aprender a compor. Era tudo que eu queria. Eu levava a minha marmita e na hora do intervalo eu aprendia. Aprendi um pouco sobre tudo”, declara Maza, que logo saiu da faxina e foi convidada a trabalhar no setor de acabamento e, em sequência, no setor de composição. Daí em diante, Maria Mazarelo Rodrigues não parou mais.

Graduada em jornalismo na segunda turma do curso da UFMG, Maza, em 1979,ingressou no mestrado na Universidade de Paris e cursou editoração completa. Foi durante o mestrado que a mineira de Ponte Nova “descobriu” que o negro poderia ser muito mais na literatura que o mercado editorial brasileiro permitia. “Naquela época, já estava pipocando a questão dos movimentos negros, e tudo que acontecia aqui no Brasil repercutia lá. Eu fui acompanhando aquela discussão. Havia reuniões na universidade sobre negritude. Os grupos faziam diversas reivindicações, entre elas a questão relacionada com a publicação de livros de autores negros. Era uma novidade para mim e fui ficando antenada para os autores negros que eram publicados na Europa. Eram poetas africanos, ilustradores… Nas Ilustrações de livros infantis, as figuras não eram iguais a que gravei na minha cabeça durante a infância, que mostrava um negro feio, estereotipado. Por causa dessas ilustrações, eu não queria ser negra.”

Maza concluiu o mestrado e colocou sua primeira publicação em circulação.“Cheguei a fazer quatro edições de três mil exemplares desse primeiro livro. Nesse projeto, vendia os livros a preço de custo, ou até abaixo do preço de custo para oferecer às escolas que tinham professoras negras dentro dos movimentos. Até por que não quer dizer que toda escola que tinha uma professora negra, que se assumia como tal. Então essas poucas professoras negras como Patrícia Santana, Benilda Regina, Consuelo Dores Silva, Rosa Margarida de Carvalho Rocha , eram as que conseguiam que esse material fosse adquirido pelas escolas onde lecionavam”.

As portas da editora já estavam abertas, mas para continuarem a persistência da proprietária foi essencial “Abri a editora em 1981, quando eu voltei da Europa, e só depois de 23 anos de luta inclemente, de falta de dinheiro e de muita dificuldade que conseguimos reerguer. Nesse tempo, eu dei assessoria, trabalhei em programa de governo, dei aula na PUC, na Newton Paiva, na FAFICH. Então, eu dava aula para me sustentar, tinha que morar, tinha que comer. Roupa, então, não comprava de jeito nenhum. Era uma dificuldade danada”.

Questionada de como e quando foi o primeiro grande trabalho, Maza fala com entusiasmo de como conheceu um dos que é hoje um dos melhores escritores brasileiros “O primeiro grande trabalho editorial, de fato, foi uma coleção, “Minas e mineiros”, e digo que chegou às minhas mãos pela misericórdia divina. De Juiz de Fora, veio uma professora, pesquisadora e doutora, Núbia Pereira Magalhães Gomes, e o estagiário e aluno dela chamado Edimilson de Almeida Pereira. Não sei como esse pessoal me encontrou, mas eles foram até a mim pela temática do livro que fizeram, intitulado Assim se benze em Minas Gerais. A partir daí, oportunidades foram surgindo, a militância me ajudou e todos reconheciam o que eu fazia, sobretudo os autores de maior reconhecimento como Cuti, Nilma Lino Gomes e o Edimilson”.

Samira Reis: Uma história de superação e de busca por espaços

Por Roger Deff, rapper e jornalista

Jornalista, colaboradora da revista Canjerê e modelo, a mineira nascida em Divinópolis, Samira Reis, escolheu BH como sua segunda casa. Determinada em relação aos seus objetivos, enfrentou os desafios colocados à sua frente com disposição e otimismo.

Sua história, assim como a de outras mulheres negras brasileiras, é de superação e de busca por espaços. Numa sociedade marcada pela invisibilidade de grupos sociais como mulheres e afrodescendentes, ela escolheu caminhos nada fáceis que vão justamente na contramão tanto da invisibilidade quanto do silenciamento comumente impostos.

O anseio por novos caminhos fez com que ela se torna uma das primeiras da sua família a entrar para uma faculdade. “Fui a segunda a ingressar na academia. Do lado materno, tenho um tio formado em Letras. Quando falo sobre isso, retomo ao abismo em que vivemos.

Minha mãe tem cinco irmãos, sendo dois falecidos. Somente um conseguiu entrar em uma faculdade. Meu pai tem nove irmãos, e nenhum teve essa experiência”, conta, enfatizando que esse núcleo foi o que incentivou outros da sua família a continuarem seus estudos.

Apaixonada por TV, dedicou seu aprendizado na faculdade a essa área em especial e, após formada, foi coordenadora do laboratório da TV universitária da instituição em que estudou.  Mais tarde, mudou-se para Belo Horizonte, onde foi repórter institucional de uma universidade, experiência que lhe rendeu vários aprendizados, além de ter estreitado suas relações com o movimento negro.

“Amadureci profissionalmente e como pessoa, mulher negra. Quebrei tabus comigo, alguns que me cercavam e fui cada vez mais adentrando nas pautas do movimento negro. A capital mineira me presenteou de várias maneiras, à qual sou grata”, enfatiza.

Ainda adolescente, antes mesmo de ocupar a academia num curso de comunicação, Samira Reis atuou também como modelo, outro desafio, uma vez que são lugares onde a idéia de beleza está predominantemente ligada a uma estética européia. “Atualmente faço poucas coisas na área. Mas percebo que essa mentalidade da magreza, altura e beleza europeia ainda permeia as agências brasileiras”, conta.

O teatro foi outra das suas experiências, e antecedeu as duas carreiras que vivenciou na fase adulta. Samira lembra que fazia teatro em sua cidade natal desde os 12 anos de idade e se descreve como uma “apaixonada pelos palcos, pelos desafios de encarar novos personagens”.

Aos 16, ingressou num curso de modelo e confessa que essa perspectiva a deixava um pouco assustada, mas tomou gosto pelo trabalho com o tempo. “Aos poucos, fui ganhando gosto pela coisa. Minha altura era meu forte e me permitia destacar nos trabalhos em que era escalada. No entanto, passei pela pressão do corpo magro, de encarar roupas feitas para um único biótipo”, recorda.

O sonho de atuar profissionalmente como modelo a levou até a capital paulista, onde conheceu algumas agências e pôde ver de perto o quanto aquele mercado era competitivo e restrito. Ao retornar para sua cidade, o foco foi a faculdade onde pôde mergulhar mais naquela que seria uma das suas grandes vocações profissionais: o jornalismo.

Foto: Mateus Dias

 

Literatura e Música estão no DNA do Cabo–Verdiano

Por Rosália Diogo, professora, pesquisadora, curadora do Casarão das Artes, gestora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado

 

Vera Duarte Valentina Benrós de Melo Duarte Lobo de Pina (Vera Duarte) é cabo-verdiana. Escritora, juíza desembargadora, exerceu até março de 2010 as funções de Ministra da Educação e Ensino Superior e foi presidenta da Comissão Nacional para os Direitos Humanos e Cidadania, conselheira do Presidente da República e juíza conselheira do Supremo Tribunal de Justiça, entre outras funções.

A sua primeira obra como escritora foi a publicação Amanhã Amadrugada(1993),  em seguida publicou O Arquipélago da Paixão (2001), A Candidata(2004), Preces e Suplícas  ou os Cânticos da Desesperança (2005), Construindo a Utopia, além de temas e conferência sobre direitos humanos(2007).

Em novembro de 2017, ela voltou a Belo Horizonte para participar da Festa  InternacionalAfroliterária – FLIAFRO, inciativa da Nandyala Editora Livraria e Instituto.  De maneira muito carinhosa e gentil, Vera recebeu a equipe do Casarão das Artes.

Ao falar sobre a atual conjuntura econômica e política de Cabo Verde, elanos revela que a ilha de Cabo-Verde é pequena, localizada na Costa Ocidental Africana, no Oceano Atlântico, próxima de Senegal e de Guiné-Bissau.  Segundo Vera, quando os portugueses chegaram naquele território, em 1460, a ilha era desabitada, e rapidamente, entre 1960 e 1962, as ilhas foram povoadas.

Panorama Político e econômico

Vera Duarte, nesta passagem por Belo Horizonte, nos posiciona historicamente, que Cabo Verde funcionou como entreposto entre as américas e a África, lugar de onde escoavam animais, mercadorias e homens e mulheres que eram transportados na condição de escravizados.

Segundo ela, o seu país tornou-se uma sociedade que se formou de fora para dentro – negros e negras que vieram de outras partes da África trazidos de fora, alguns europeus.  Ela informa que a maior parte das esposas dos homens portugueses não foram com eles para a ocupação da ilha.

Assim, esses homens se relacionavam sexualmente com as negras que lá estavam, o que justifica a formação étnica mestiça no fenótipo, na gastronomia, na religiosidade, sobretudo, na questão do sincretismo.

Ela nos informa que a sociedade escravocrata que ali se formou foi amplamente constituída de escravizados trazidos de outras regiões do continente africano.

Segundo Vera, a independência de Cabo Verde foi efetiva, desde 1975. Para essa conquista, a experiência dos guerrilheiros de seu país, que estavam no front de guerra pró independência do Guiné Bissau, ocorrida em 1974 foi fundamental.

Ela conta que o movimento de 25 de abril de 1974 devolveu a democracia a Portugal e que também foi uma importante contribuição para o processo libertário do seu país.  E, desde então, tudo vai muito bem, obrigada, pois a nação de Cabo Verde é “assinalada por estatísticas mundiais como o segundo país mais bem governado na África, bem como um modelo de prática da liberdade de imprensa, um dos países mais livres do mundo, diz ela.

Um relato muito importante que Vera Duarte faz sobre a história do seu país, por volta de 1947-1948, informa que a população estava passando fome. E, para atenuar a situação, muitas pessoas foram trabalhar nas plantações em São Tomé e Príncipe, país/ilha vizinha, praticamente na condição de escravização. No entanto, a partir da independência, a situação econômica tem se mantido estabilizada no país.

Do ponto de vista do comando partidário, ela diz que o partido revolucionário que conquistou a independência do país, e se manteve na condução da nação durante quinze anos, se submeteu ao sufrágio universal.

Explica que, de maneira democrática, tem ocorrido alternância para a gestão política do país, o que é uma vantagem muito boa em comparação ao que ocorre politicamente em outras antigas colônias.

O nível de educação atingiu o acesso universal, e essa condição foi atingida até mesmo antes da data limite, tendo como referência os objetivos do milênio.

Cabo Verde é um país,de certa forma, pobre economicamente, segundo ela, pois não tem recurso mineral, por exemplo. No entanto, o povo é trabalhador e enfrenta o trabalho no campo com muita boa vontade, embora a chuva não é farta.

No entanto, muitos cabo-verdianos migram para outros países e conseguem enviar remessas para os seus familiares, contribuindo, assim, para a qualidade de vida deles. Outra forma encontrada pelo país para angariar recurso é o turismo.

Segundo Vera, “estamos a buscar o caminho do desenvolvimento econômico mais amplo, ainda que a Organização das Nações Unidas  considere que Cabo Verde é um país em desenvolvimento”.

 

Literatura

Vera Duarte é presidenta da Academia Cabo-Verdiana de Letrase  se mostra bastante feliz quando esse tema lhe é apresentado. Ela diz que a literatura e a música estão no DNA do cabo-verdiano. Para ela, desde o momento que se iniciou o povoamento, houve escrita no país, com a escrita administrativa, relato dos processos de escravização.

No entanto, foi a partir do século dezenove, 1842, com o advento da instalação da Imprensa Nacional, e das Escolas Maternais, que surgiram o fenômeno da literatura criativa. Para ela, a literatura é o meio mais potente de se tratar a realidade.

O primeiro romance que trata de temática alusiva ao país de que se tem registro é de 1856, de José Evaristo de Almeida – O Escravo. A obra descreve, com minúcias, o que foi a situação de escravatura, sobretudo na Ilha de Santiago,que foi o local em que a escravização foi mais acentuada,por ter sido a primeira a ser descoberta, habitada. Portanto, foi a ilha que mais sofreu.

Ela denuncia que as mulheres não têm o mesmo destaque midiático na literatura, como é o caso do homem, mas é potente e crescente a produção literária de mulheres em seu país.

Vera demarca que foi justamente após a independência do país que a escrita das mulheres ganhou a amplitude necessária.  Para Vera, o governo Lula, com a implementação da Lei 10639/03, contribuiu de maneira acentuada para que a literatura produzida por mulheres negras, incluindo as africanas, fossem melhor acessadas no Brasil.

Relação entre homens e mulheres em Cabo Verde

Para nos responder a pergunta sobre como é a relação das mulheres no que se refere ao usufruto dos seus direitos, ela cita a filósofa Ana Arendt “os direitos humanos não estão dados, e sim, em construção”.

Assim acrescenta que desde a independência, a luta pelo direito à igualdade, ao direito humano, à igualdade em todos os campos das relações societárias é contínua. Considera que, em muitas pautas, o país se encontra à frente do Brasil nas conquistas dos direitos da mulher como, por exemplo, no que se refere à interrupção da gravidez.

Em Cabo Verde, desde o século passado, é legalmente aceito que a mulher faça tal interrupção, com até doze meses de gestação, e com o consentimento do pai da criança.

Outro quesito que foi alterado na legislação do casamento no país é o que se referia à nomeação do homem como chefe de família. Para quebrar com essa referência patriarcal, essa condição não existe mais.

A lei atual prega que o casamento se trata em união voluntária entre dois seres iguais, portanto foi dado o mesmo papel para o homem e para a mulher.   Ela foi a primeira mulher a entrar para a magistratura no país, e hoje o país conta com um número paritário de magistrados homens e mulheres.

Vera Duarte considera essa realidade um grande avanço no que se refere às relações entre os sexos no país.

Vera informa que na educação também o país alcançou uma paridade entre meninas e meninos no processo de escolarização. O seu romance A Candidata(2004), discorre, em sua narrativa, sobre as conquistas das mulheres, sobre o seu direito de ser candidata à felicidade, à liberdade, ao amor, às escolhas, a ser sujeito, e não objeto.

Racismo em relação ao negro no Brasil

Para ela, o racismo no Brasil é um problema que sangra, poisa maior parte dos africanos que ela conhece não têm dimensão de como o país é racista em relação ao povo negro.

Ela diz que os africanos são solidários com os negros brasileiros na medida que foram os ancestrais africanos que chegaram aqui, na situação de escravizados, portanto há um sentimento de pertencimento e identificação muito grande entre africanos e brasileiros negros.

Assim, registramos mais uma rica contribuição de uma voz africana no, e sobre o Brasil!

Tia Elza: “Quando ouço a batida do Surdo é como se fosse o meu coração batendo”

Cantora mineira conta sobre o seu amor pelo samba e relembra como tudo começou

Por Sandrinha Flávia – Jornalista, locutora, editora e mestra de cerimônias

Aquela menina, que vivia a cantarolar no banheiro, no quintal e nas ruas de sua casa, atraindo olhares e elogiada por seu timbre de voz marcante, se tornou uma importante representante do samba mineiro.

Elza dos Santos mais conhecida como Tia Elza cresceu em um lar festivo, onde as datas importantes eram sempre motivo para comemorações. Foram dessas reuniões entre familiares e amigos, ao som de um selecionado repertório musical que nasceu aquela que viria a se tornar uma grande cantora de samba.

A inspiração maior para a música, veio da sua irmã Leide Santos que era Croonner de banda. Alguns ensaios dessa banda aconteciam em sua casa.Tia Elza, ainda criança, acompanhava tudo de perto. Seus olhos brilhavam ao ver a desenvoltura e talento de sua irmã interpretando cantoras como, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Núbia Lafayette e tantas outras grandes profissionais da época. Quando não tinha ensaios, a vitrola que comandava o som. Os vinis eram variados, ampliando assim o seu conhecimento musical.

Foi assim que a vontade de cantar foi ganhando força, “Eu ouvia   Elizete Cardoso, Elza Soares, Ângela Maria, Dóris Monteiro, entre outras. Depois apareceram, Alcione, Elis Regina, cantoras que eu me identificava tanto com as vozes quanto com o repertório”. Disse.

Certa vez, quando Tia Elza já estava na fase adulta, seu irmão havia ganhado um violão, prêmio de uma rifa que ele havia comprado fiado. Aquele violão não viria parar naquela casa por um acaso, o instrumento parado no canto daquele quarto a incomodava, então resolveu tomar uma decisão e começar a tocar,

Comprei umas revistas com músicas cifradas e fui tentando tocar até conseguir tirar som. Eu pedia para um vizinho que já tocava afinar o instrumento pra mim e ele fazia. Daí um certo tempo, o vizinho começou a ficar de saco cheio de ter que afinar o violão, e ficava com má vontade, falava que não podia naquela hora, foi aí que eu resolvi que não pediria mais a ele, comecei a me virar”. Conta.

Persistente, Tia Elza foi tentando sozinha até conseguir uma afinação desejada. Já com algumas músicas na ponta da língua e notas musicais em dia, saiu por aí cantando o pouco que já sabia. Era em sua própria casa, ou em casas de amigas e amigos, até que um dia, quando cantava em uma festa, surge o eterno Maestro Ivan Silva.

Quando o maestro ouviu aquela voz, ficou encantado e começou a levar Tia Elza aos lugares onde ele tocava, “Foram momentos de muito aprendizado, depois ele montou um Piano Bar e me levou pra cantar.”

A partir desse momento, estava lançada a cantora que seria mais tarde uma das maiores referências do samba em Minas Gerais. Maestro Ivan Silva, já falecido é sempre lembrado e homenageado nas apresentações da cantora.

Um período muito importante na carreira de Tia Elza, foi quando ela se tornou empresária. O Bar da Tia Elza tinha como foco a música ao vivo onde ela tocava e também contratava outras bandas, “Eu tive bar durante 28 anos voltado para música de qualidade de uma maneira geral, dando oportunidade para músicos iniciantes, e também influenciando algumas pessoas que tomaram gosto pela música acompanhando o meu trabalho.”

A cantora ficou ainda mais conhecida na época do bar e o seu número de admiradores foi crescendo. Alguns músicos que passaram por lá, hoje bem crescidos dizem: eu sou músico por sua causa. Esse tipo de relato emociona a artista, “Isso é pra mim  motivo de muito orgulho, sinto que valeu muito a pena essa minha luta.” Disse.

O seu primeiro CD foi gravado em 2007, no estúdio Toca do Saldanha, produzido e mixado por Renato SaldanhaEm breve iniciará a gravação de um novo álbum no Rio de Janeiro RJ, para isso, Tia Elza já tem várias canções definidas e está em busca de patrocinadores, “Estou a mais de um ano tentando um patrocinador, infelizmente ainda não consegui“. Relatou.

Sobre o cenário musical do samba em minas, Tia Elza acredita que está cada vez mais forte, “Tem muito sambista bom em Minas Gerais e a Juventude está chegando também. Tem muita gente jovem tocando e compondo, não estão perdendo para os tradicionais do país não. Estou muito feliz em vivenciar esse crescimento.”

E por falar em crescimento profissional, recentemente Tia Elza esteve se apresentando no quadro 10 ou 1.000 do Programa do Ratinho no SBT onde arrancou elogios dos jurados.

Ao longo da sua caminhada profissional, Tia Elza já se apresentou ao lado de cantores ilustres como Ataulfo Alves Júnior, Toninho Gerais, Moacir luz, Aline Calixto, Samba na Roda da Saia, etc. Há pouco, se apresentou com Velha Guarda da Portela na cidade do Rio de Janeiro RJ.

No carnaval 2019, Tia Elza é a responsável por puxar o “Bloco do Samba” criado pelo Mundi-Movimento Negro de Divinópolis e participa também do Bloco “Filhas de Clara” na cidade de Belo Horizonte – MG, ao lado das cantoras Aline Calixto e Marina Machado.

Ao responder à pergunta sobre o que o samba significa em sua vida Tia Elza se emociona, “O samba representa pra mim uma força que tira de dentro da gente uma energia contagiante e inexplicável. Quando ouço a batida do Surdo é como se fosse o meu coração batendo, e tem ainda o poder de agregar e envolver as pessoas tanto que ninguém pensa em mais nada a não ser sentir o ritmo e as letras que são muito fortes.” Finalizou.

Foto:

Revisão: Zane Santos

Uma profissão, dois países: uma queniana vivendo no Brasil

Os desafios e o mercado de trabalho na visão de Priscilla Mungai

Por Samira Reis, Jornalista e modelo

O ano era 2014. Época em que Priscilla Nyambura Mungai foi selecionada para integrar a RHI Magnesita, após participar de um programa de trainee global conduzido pela empresa. Natural do Quênia, a engenharia industrial e mestranda em Ciências dos Dados chega ao Brasil com o novo destino: Belo Horizonte.

“Atualmente, trabalho na área de melhoria contínua. Cresci dentro da empresa até minha posição atual, como analista sênior. Trabalho em projetos de melhoria contínua nas fábricas da América do Sul. O objetivo é melhorar a eficiência da produção e também garantir a segurança no local de trabalho”, explica.

Uma das principais dificuldades no início, segundo Priscilla, foi o idioma. O Quênia é um país multilíngue, mas o inglês e o kiswahili são as línguas oficiais. Tanto essa barreira como a distância de familiares e amigos foram, ao longo dos meses, sendo contornados.

O apoio incondicional dos que ficaram estimularam a buscar novas oportunidades e experiências valiosas. “Quando posso visitar o Quênia, sempre volto para o Brasil bastante rejuvenescida e muito apreciativa das minhas raízes africanas e de como minhas experiências passadas são um dos principais fatores que têm e continuarão a contribuir com o meu sucesso. Por isso, espero poder me desenvolver e devolver ao meu país de alguma maneira”, diz.

Inserida em um meio ainda dominado por homens, a engenheira percebe que as brasileiras estão mais capacitadas quando se trata de acesso e oportunidades no local de trabalho quando comparadas às do país de origem.

No entanto, a luta por igualdade nesses espaços são semelhantes. “As mulheres do meu país lutam com os mesmos problemas enfrentados aqui: (especialmente em indústrias historicamente dominadas pelos homens), as diferenças salariais entre homens e mulheres, ter que gerir um lar e desenvolver uma carreira ao mesmo tempo e até mesmo o assédio sexual no local de trabalho. Em ambos os países, o local de trabalho está se tornando mais receptivo às mulheres por causa dos esforços que foram feitos por aquelas que vieram antes de nós. No entanto, ainda há muito mais que pode ser feito”, comenta.

Viver em terras brasileiras também proporcionou um novo olhar sobre ser negro fora do continente africano. A engenheira afirma que a raça de alguém no Quênia não é uma questão primordialmente discutida ou focada dentro da sociedade. No entanto, tem conhecimento de como esse assunto impacta na realidade do Brasil.

“Esta experiência me fez muito mais consciente do que significa viver a experiência negra fora da África, além de me fazer muito apreciativa do meu país, onde nunca precisei questionar se minha raça é um impedimento para uma boa educação, para oportunidades de carreira, ou até mesmo se eu me encaixo num padrão de beleza em termos de cabelo e cor de pele”, assinala.

Ver mais mulheres, consequentemente mulheres negras sendo reconhecidas nas respectivas áreas de atuação também é um sonho de Priscilla. A busca pela educação, o foco no potencial, e por acreditar na necessidade de um ambiente de trabalho diverso, fizeram toda a diferença para as conquistas. Mesmo que seja necessário romper barreiras.

Mais importante ainda foi o fato de não nos esquecermos de trazer outras mulheres conosco. Ao nos preparar para as oportunidades através do estudo e da prática, podemos provar que também somos habilidosas no que fazemos e que abraçar a diversidade não significa comprometer a excelência. Trabalhe o que for necessário e nunca duvide da sua capacidade de ser uma inovadora, uma líder ou uma fabricante de mudanças”, frisa.

Foto: Letícia Souza

 

 

 

 

 

Ela não adormece. Está em constante movimento

Por Samira Reis, Jornalista e Modelo

 

“A noite não adormecerá

jamais nos olhos das fêmeas

pois do nosso sangue-mulher

de nosso líquido lembradiço

em cada gota que jorra

um fio invisível e tônico

pacientemente cose a rede

de nossa milenar resistência.”

O trecho faz parte do poema “A noite não adormece nos olhos das mulheres”, da escritora mineira Conceição Evaristo. Reconhecida internacionalmente por obras como Ponciá Vivêncio e Insubmissas Lágrimas de Mulheres, é uma das grandes referências literárias do nosso país e, também, inspiração para a professora e jornalista Rosália Diogo, estudiosa da vida e obra de Evaristo desde 2008.

“A contundência com a qual ela trabalha em sua produção literária os temas da negritude e da mulher negra, me afetaram no momento e ainda me afetam, profundamente. Ao ingressar no curso de doutorado, em 2009, estava completamente apaixonada pela sua vida e obra, de tal modo que foi muito tranquilo escolher o seu trabalho para pesquisa, em análise comparada com a vida e obra da escritora moçambicana, Paulina Chiziane”, explica.

Desde então, Rosália se tornou referência na capital mineira sobre as publicações da escritora, como também é reconhecida por ocupar espaços importantes e trazer à luz debates necessários ao combate ao racismo, ao machismo, à valorização da cultura africana e afro-brasileira.

O Festival de Arte Negra de Belo Horizonte – FAN BH – é um dos exemplos dessa trajetória. “O meu envolvimento com o Festival de Arte Negra, FAN, ocorreu em 2015, quando fui convidada para ser uma das curadoras da 8ª edição. No FAN 2017, fui uma das coordenadoras e, atualmente, exerço o mesmo papel na medida que sou Conselheira Municipal de Cultura, representando a Secretaria Municipal de Cultura/Fundação Municipal de Cultura. Uma das agendas que devemos garantir institucionalmente é a realização do FAN. Como expectadora do festival, desde 1995, considero que ele tem cumprido o papel de dar visibilidade às produções culturais de matriz africana em disputa com a produção cultural de outros continentes, sobretudo o europeu”, comenta.

Outro feito consolidado na capital mineira por Rosália é a criação da Revista Canjerê. A publicação é construída pela equipe do Casarão das Artes, coletivo que reúne profissionais de diferentes áreas em prol da cultura afro-brasileira.

O ensejo teve início em 2014, quando morava na Espanha para cursar pós-doutorado. “Convivi mais de perto com uma querida amiga, a artista e filósofa brasileira, que vive por lá, faz alguns anos, Angélica Sátiro, que coordena a Revista Crearmundos, fonte de inspiração.  Quando retornei ao Brasil, em 2015, fiz a proposta de criação da Revista Canjerê para a equipe do Casarão das Artes, que é composta por artista plástico, designers, jornalistas e pesquisadores. Ou seja, a mão de obra para a produção da revista estava pronta e com o aceite de todas as pessoas, a revista se tornou uma linda realidade”, afirma.

Além de atuante no movimento negro, Rosália sempre esteve envolvida com a educação desde a metade da década de 80. No exercício da profissão, compreendeu a importância de desconstruir o racismo nesse ambiente: “Sob à luz dos ideários políticos, protagonizados principalmente pelo educador Paulo Freire, fiz parte da diretoria de duas escolas: uma na região de Venda Nova, nos anos de 1990, outra no bairro Ipê, região Nordeste, nos anos 2000”.

Uma caminhada com início em Nanuque, norte de Minas, trilhada com garra em Belo Horizonte e, agora e sempre, semeando o mundo. Mas não se engane; é apenas o começo.

“Esse meu corpo negro ativista, ideológico, está em constante movimento. Os meus passos vem de longe e vão para muito mais longe, em busca da liberdade, da emancipação das pessoas que estão sendo subjugadas pelo sistema capitalista, machista e classista,Yansã, minha mãe! Eparrey, Oyá!!”.

 

Foto: Ricardo Laf

Arte de resistência – Entrevista com Viki Style, referência do Hip Hop uruguaio

Jovem militante do hip hop faz da arte de rua uma ferramenta de transformação social

Por Roger Deff , MC, jornalista, integrante da banda Julgamento. Atualmente apresenta e produz o programa Rimas e Recortes veiculado pela Rádio Inconfidência.

Militante do Hip Hop desde 2002, a artista uruguaia Viki Style vivencia na prática 3 dos 4 elementos dessa cultura (o Hip Hop é formado pelos elementos DJ, grafitti, MC e break), sendo rapper, b-girl e grafiteira, além de atuar como professora e palestrante em eventos culturais nas Américas do Sul, Central e Europa.

Toda essa experiência fez com que essa jovem nascida em Montevideo tivesse uma visão mais ampla do papel e da representatividade da cultura de rua para os povos da América Latina.

O Hip Hop nasceu em agosto de 1973, em Nova York no Bronx. A gênese dessa cultura que hoje dialoga com jovens de todo mundo se deu quando os imigrantes jamaicanos, os irmãos Clive e Cindy Campbel (o primeiro se tornaria o lendário DJ Kool Herc) fizeram uma festa para arrecadar fundos para a compra de materiais escolares.

Aquele evento despretensioso realizado na Avenida Sedgwick, 1.520, foi o ponto inicial do movimento que, só mais tarde, se chamaria “Hip Hop”, quando em 12 de novembro de 1974 Áfrika Bambaataa criou a Zulu Nation, a primeira instituição oficial da cultura de rua, adotando como princípios o conhecimento, a paz, o amor, a união e a diversão.

Não demorou muito e a cultura se espalhou por todo o planeta dando voz a jovens oriundos das minorias sociais. Assim como no Brasil, a chegada do Hip Hop nos demais países da América Latina mudou radicalmente o modo de vida dos jovens nas periferias. E foi assim no Uruguai.

Virginia Sequeira (30 anos), nascida em Montevidéu mas criada em Toledo/Canelones, atua hoje sob a alcunha de Viki Style. Ela tornou-se uma das principais referências do Hip Hop em seu país, circulando por diversos países e criando conexões com hip-hoppers de outras nacionalidades.

Viki vê a arte como ferramenta essencial para o aprendizado e para a mobilização social e tem utilizado o Hip Hop nesse sentido, através da dança, da música e das aulas que promove, incentivando discussões, bem como o surgimento de outros e outras artistas e lideranças tão essenciais à continuidade e crescimento do movimento.

O Começo…

Como e quando foi o seu início na cultura hip hop?

Meu início no Hip Hop se deu em 2002. O primeiro elemento que vi foi o breaking (a dança), quando vi B. boys dançando na festa da escola e, mais adiante, conheci o rap, desde então, comecei a escrever, a improvisar. O primeiro elemento que pratiquei foi o rap, depois, em 2009, fui para o break e, mais adiante, o graffiti, em 2015. Atuo com trabalhos sociais desde 2007.

Na maioria dos países, o Hip Hop chegou através da mídia, e o cinema foi fundamental para essa difusão. No Brasil, por exemplo, o filme que deu o start para essa cultura foi Flash Dance, de 1983. Como foi no Uruguai?

A cultura de rua chegou aqui através da televisão, dos videoclipes e dos filmes. Quando a democracia se restabeleceu, pessoas que foram exiladas, ao voltarem para o Uruguai, contribuíram também para o fortalecimento do Hip Hop no país, por trazerem elementos da cultura.

E quais artistas, grupos, você apontaria como precursores do Hip Hop no seu país?

Destaco nomes representativos como o grupo do rap VDS Victimas del Sistema, no grafiti foi o KNCR Crew e no breaking o grupo Dinamic Bboys, trabalhos cuja importância despertaram ainda mais minha atenção e interesse pelas artes do hip hop.

Ao longo dos anos, você realizou viagens por diversos países e pode perceber as dificuldades enfrentadas por pessoas que escolheram essa cultura. Quais são os desafios e dificuldades em comum, na sua opinião?

As dificuldades relacionadas à cultura Hip Hop estão presentes em todos os lugares. Na América Latina, como um todo, o Hip Hop está mais relacionado ao sentimento e à vivência do que à indústria. Em alguns países, a cultura está apontando para o mercado, mas mantendo a raiz forte da autogestão e da luta.

Há quem não compreenda as dimensões políticas e sociais da cultura de rua, embora sua origem e tudo o que ela traz aponte para outros caminhos. Como você vê essa dimensão de luta política do hip hop?

Para mim, o Hip Hop é um movimento de luta a resistência e é assim que tem que se manter, como ferramenta de reivindicação. O Hip Hop como ferramenta social cumpre um papel fundamental. É um movimento de luta, por isso todas as minorias encontram no Hip Hop um refúgio, uma voz, uma forma de traduzir suas mensagens, uma maneira de reivindicar seus direitos, de expor situações de desigualdade. Todos grupos minoritários estão vivendo em opressão e podem encontrar um abrigo no Hip Hop, uma maneira de enviar sua mensagem e expor a sua situação, lutar por igualdade, melhores condições e direitos.

Sobre a luta feminista você percebe o reflexo dentro do Hip Hop?

É mais uma luta importante que amplifica sua voz dentro e através da cultura. Eu fico muito feliz por ver que mais mulheres estão habilitadas através de suas vozes, seus corpos, suas ideias, ver essas expressões traduzidas para qualquer tipo de arte. E se isso ocorre através de algum dos elementos do Hip Hop é ainda mais importante para mim porque é algo que eu compartilho,

Sobre o rap produzido no Brasil, quais trabalhos você conhece e como eles chegaram até você?

O rap brasileiro não é muito difundido aqui, mas tive contato com ele porque minha família residente ao norte do Uruguai, fronteira com o Brasil, então falam muito “portunhol”. Foi então que, durante as férias lá, que conheci artistas como Racionais, MV Bill, Sabotage, Gabriel, o Pensador, Rapadura, Criolo e Planet Hemp, Marcelo D2 que, inclusive, esteve algumas vezes no Uruguai.

Em setembro de 2018, você esteve em Belo Horizonte para participação no evento Música Mundo, dedicado à circulação mundial da música. Na ocasião, lembro que você pode conversar com MCs, B.boys e B.girls da cidade. Quais são suas impressões relativas ao Hip Hop na capital mineira

O Hip Hop em Belo Horizonte me pareceu muito organizado. Muito grafitti, muita arte urbana. Muita gente ativa que mantém os espaços e que já tem uma trajetória. Vi que é uma cultura muito bem difundida e que são grupos bem constituídos. Vi uma veia cultural muito interessante em nível de Hip Hop.

E quanto aos projetos futuros Viki, são mais ligados à dança ou à música? 

Sobre os projetos futuros, quero seguir viajando, conhecendo lugares e pessoas, compartilhando e enriquecendo minha vivência com o Hip Hop e a cultura de outros lugares e levar minha experiência e vivência a esses mesmos lugares. Pretendo lançar um disco, que já está pronto, com o nosso grupo de rap feminino, o S.A.K (se armó kokoa) e, em breve, até o fim do ano, teremos lançamento de disco e videoclipe. Disco tanto virtual quanto físico. É um trabalho que vem sendo produzido há cerca de 12 anos e contém temas ligados ao momento atual, em âmbito nacional e internacional. Este é o projeto mais interessante no qual estou envolvida no momento.

Crédito fotográfico: Maria Noel

Abertura do FIT. Foto: Ricardo Laf

Diversidade nos palcos do FIT-BH

Por Naiara Rodrigues, jornalista e assessora de imprensa

Pensar o corpo como uma língua e o seu lugar na construção de discursos. Esta foi a ideia do conceito “corpos-dialetos”, proposta pela curadoria de Grace Passô, Soraya Martins e Luciana Romagnolli junto de mais três curadores-assistentes para a 14ª edição do FIT-BH, Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte. “Fomos atrás de produções que respondessem estética e criticamente problemas atuais do Brasil, em que diferentes pessoas pudessem se sentir reconhecidas nos palcos por questões de cor, gênero, raça, sotaques”, destaca a curadora Soraya Martins.

Na Mostra Nacional, por exemplo, a produção nordestina correspondeu a 66% dos trabalhos apresentados. Entre eles estava o pernambucano “A Gente Combinamos de Não Morrer”, inspirado no conto homônimo de Conceição Evaristo, performance dedicada à constituição de situações, rituais e processos coletivos de elaboração das feridas necropolíticas. “Tentamos fazer um festival que ampliasse a noção de teatro brasileiro que, muitas vezes, é pensado numa perspectiva eurocentrista. Buscamos teatro feito por mulheres, por nordestinos, por trans, por pessoas que estão nas periferias com suas potências criadoras. A gente mudou o foco do olhar, para expandir, sair do eixo Rio-São Paulo”, destaca.

Para a curadora, o festival foi político e democrático. “O FIT levou para os palcos teatros políticos feitos com uma excelência estética muito grande porque muitas vezes a gente fala de teatro político e as pessoas acham que não tem estética”, afirma. Ela cita a peça “Unwanted”, da performer ruandesa Dorothée Munyaneza, feita a partir de relatos coletados por ela de mulheres que foram vítimas de estupros cometidos como arma de guerra durante o genocídio dos Tutsis. “Foi discutido política, mas esteticamente, com música eletrônica, cantigas em dialeto ruandês, dança, e performance corporal incrível, fruto do seu estudo em torno do teatro contemporâneo. É inegável falar que tem uma qualidade estética naquele trabalho”, avalia Soraya Martins.

O evento reuniu um conjunto de trabalhos nacionais e internacionais que fez seu percurso na contramão de uma arte eurocentrada, trazendo para os palcos o debate sobre questões de gênero, classe e étnico-raciais. Foram 59 apresentações com trabalhos de doze países e oito estados brasileiros, além de oficinas, mostra de cinema e outras atividades que contaram ao todo com público estimado de 25 mil pessoas.