Articles written by

Sandrinha

Autonomia, diálogo e diversidade

Baixe aqui a 12ª edição da Revista Canjerê

Como costumo dizer, só é possível permitir que o novo se manifeste a partir do momento em que estamos abertos às mudanças.

A Canjerê agora é semestral e não mais quadrimestral como sempre foi desde o lançamento em 2015. Queremos dar mais tempo para a nossa equipe apurar as suas pautas.

O nosso modelo de gestão continua o mesmo, as matérias publicadas surgem a partir de sugestões de cada colaborador. Por sermos uma equipe diversa, as edições apresentam um olhar ampliado da sociedade. Os textos exclusivos e das edições impressas estão no portal www.revistacanjere.com.br.

A reunião de pauta da 12ª edição da Canjerê foi realizada em um dos barzinhos do edifício Maletta, ponto de encontro tradicional em Belo Horizonte(MG), um lugar que é bem a cara da revista por sua pluralidade cultural, de gênero e racial.

Cada colaborador/a já tinha a sua pauta em mente, sendo assim, a reunião não foi demorada e sobrou tempo para um bom bate-papo e um delicioso tira-gosto. É assim que gostamos de trabalhar: de forma leve, afetiva, sem estresse.

Encarregado da missão de escrever a capa da edição, o jornalista Well Mendes conta a história do artista plástico Jorge dos Anjos, conhecido por suas esculturas em aço. O artista falou sobre as suas referências e inspirações.

Do encontro da jornalista Naiara Rodrigues com a deputada estadual Andréia de Jesus para a produção da seção Entrevista, o orgulho de ter uma mulher negra como representante na política só aumentou.

O jornalista Roger Deff escreveu sobre os movimentos que colocaram BH no polo da cultura Black do país. O Quarteirão do Soul e Movimento Soul BH são iniciativas tradicionais que movimentam a resistência da cultura negra no país.

Esses são apenas exemplos de muito mais que a 12ª edição oferece!

Boa leitura!

Sandrinha Flávia – Editora

Ndê! E Quilombos Urbanos Expõem a Negritude em Belo Horizonte

Rosália Diogo Jornalista, professora, pesquisadora, gestora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado

Sou honrada e feliz por servir à PBH por meio da política municipal de cultura – Fundação Municipal de Cultura (FMC), com o viés de promoção da arte e da cultura negra desde 2015. Tento colocar em prática as minhas pesquisas, os relacionamentos e as experiências de negritude, afinal a Lei nº 9934/10, que se refere à Política Municipal de Promoção da Igualdade Racial, deve ser observada e aplicada por todos os setores que desenvolvem políticas no contexto da política municipal. Tal lei se refere a iniciativas de valorização e promoção da arte e cultura negra na cidade

É importante destacar que 2019 é o quarto ano da Década dos Afrodescendentes, instituída pela Organização das Nações Unidas – ONU. Daquela data até hoje já foram realizadas diversas movimentações políticas e culturais em torno desse período celebrativo. A Secretaria Municipal de Cultura e a Fundação Municipal de Cultura não se furtam ao engajamento nessas agendas.

Apesar da presença de trabalhadoras e trabalhadores negras(os) atuando na cidade desde sua origem (como atestam documentos como registros policiais e de atendimentos médicos), nas narrativas sobre a história de Belo Horizonte existe um silenciamento das histórias das pessoas negras, da sua presença na cidade.

Restaram aos antigos habitantes do Curral Del Rey e aos trabalhadores e operários migrantes trazidos para o erguimento da nova capital, as múltiplas resistências e transgressões desse modelo excludente como, por exemplo, as ocupações das áreas suburbanas. São esses fora de lugar – notadamente os de cor para usar termos da época – os participantes da construção da verdadeira citadinidade, a partir de suas resistências.

Neste texto, quero destacar duas emblemáticas iniciativas institucionais da política pública de cultura municipal em Belo Horizonte que demonstram a força e a riqueza do legado dos africanos que foram trazidos para o Brasil para serem escravizados: a sua arte e a sua cultura.

As exposições Ndê! Trajetória Afro-Brasileiras em Belo Horizonte, que está no Museu Histórico Abílio Barreto/MHAB, e Quilombos Urbanos e a Resistência Negra em Belo Horizonte, exposta no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado/CRCP, apresentam para a cidade muito do que se pode traduzir sobre a cultura de matriz africana.

As duas exposições foram inauguradas no final de 2018. Ndê, permanecerá no MHAB até 2020, e Quilombos Urbanos e a Resistência Negra até novembro deste ano.

O foco de Ndê, que exibe cerca de trezentas peças, é apresentar a multiplicidade e a diversidade de contribuições africanas e afro-brasileiras para a construção da história de Belo Horizonte: lacuna recorrente na produção das narrativas históricas oficiais sobre a cidade. A mostra marca um importante momento de diálogo e de valorização da cultura negra, além do reconhecimento pela contribuição cultural na formação da sociedade belo-horizontina.

Muitas famílias negras reconheceriam nessa expressão em Kimbundu – língua dos povos Bantu que predominaram em Minas Gerais e no Arraial do Curral Del Rey por força da escravização – a voz atenta de algum ancestral. É provável que, para os milhares de Congos, Angolas, Benguelas, Cabindas, Moçambiques, Minas, Monjolos e seus descendentes, vivendo nestas terras, amparo e força dessa natureza tenham sido fundamentais.

Em sintonia com o propósito do Museu Histórico Abílio Barreto/MHAB em abordar o tema da presença negra no território do Curral Del Rey/Belo Horizonte, surgiu a proposta curatorial de Ndê! O projeto deriva da aparente contradição entre a preponderância da população afrodescendente no local e de sua invisibilidade nas narrativas historiográficas e na construção de memórias.

Invisibilidade e silenciamento são, contudo, expressões viscerais do racismo a estruturar a desigualdade no país. Assim, políticas de promoção de acervo e programas de instituições museais e arquivísticas voltados para a produção ética e diversificada de representações sociais são fundamentais para que o direito universal à memória não seja reduzido ao privilégio de alguns grupos étnicos-raciais.

As trajetórias e experiências afro-brasileiras suscitadas tecem a trama dessa exposição que evidencia Belo Horizonte alicerçada em um território negro. Evocadas por meio dos acervos compartilhados por deviers@s parceir@s negr@s da cidade, essas trajetórias dialogam e complementam outras vozes trazidas à luz a partir da acolhida do MHAB à proposta de revisitar seus acervos.

A Exposição “Quilombos Urbanos e a Resistência Negra em BH” consiste na montagem e exposição do acervo dos três quilombos urbanos de Belo Horizonte, a saber: Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, Quilombo dos Luízes e Quilombo de Mangueiras. Por meio do acervo oriundo desses quilombos, contamos a história de luta e resistência desses territórios pela ótica cultural, histórica e religiosa que constituem suas identidades.

A Mostra teve a sua abertura em 13 de dezembro de 2018 – um ano de comemoração do reconhecimento das três comunidades quilombolas como Patrimônio Imaterial da cidade e o quarto ano de aniversário do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Não podemos perder de vista que o evento integrou o calendário do aniversário de 121 anos de Belo Horizonte.

A comunidade Manzo Ngunzo Kaiango localiza-se na Rua São Tiago, 216, no alto do Bairro Santa Efigênia/Paraíso, Região Leste, em um terreno que abriga 11 famílias com 50 pessoas. A matriarca, Mãe Efigênia (Efigênia Maria da Conceição), está ligada a todos os moradores por laços de parentesco, seja consanguíneo ou religioso.

A comunidade, que é também um terreiro tradicional de candomblé, foi certificada em 2007 pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombo. Ocupa a área desde a década de 1970, quando iniciou suas atividades como casa de umbanda “Terreiro de Pai Benedito”, depois transformado em terreiro de candomblé de Angola. Hoje ela se organiza por meio da Associação de Resistência Cultural da Comunidade Quilombola Manzo Ngunzo Kaiango.

O quilombo dos Luízes fica no bairro Grajaú, Região Oeste. Há relatos do quilombo desde em 1895, quando seu território era em Nova Lima. Em 1930, a área (13 alqueires) foi vendida à mineração Morro Velho. Com o dinheiro, Nicolau Nunes Moreira e Ana Apolinária, matriarca, compraram uma gleba de terra da Fazenda Calafate, em Belo Horizonte, e montaram um mocambo, onde os nove filhos foram criados.

O Quilombo de Mangueiras está localizado no quilômetro 13,5 da MG-20, regional norte, que liga Belo Horizonte a Santa Luzia, na região metropolitana. Apenas uma placa indica a existência da comunidade. Quem passa pelo trânsito nervoso da via não imagina que naquele ponto há uma história mais antiga que a capital.


São vinte e oito famílias no local. Algumas sobrevivem da agricultura de subsistência. “Antes, todos trabalhavam como pequenos agricultores, mas com as ocupações e construções fomos perdendo terreno. Como somos de uma mesma família, os que trabalham fora compram os produtos agrícolas da comunidade.

Dessa forma, as exposições Ndê! Trajetórias Afro-Brasileiras e Quilombos e a Resistência Negra em BH, montadas no Museu Histórico Abílio Barreto e pelo Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado, contribuem de maneira significativa para as agendas de valorização da cultura e arte negra que a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, a Secretaria Municipal de Cultura e a Fundação Municipal de Cultura têm realizado na cidade.

Convidamos o público a visitar e fomentar visitas à essas duas mostras. Será dessa forma que manteremos viva a memória africana na cidade e contribuiremos para a educação das relações étnico-raciais, e para o conhecimento da cultura afro-brasileira e africana no Brasil.

Referências Bibliográficas:

Dossiê de Registro dos Quilombos Luízes, Mangueiras e Manzo Ngunzo Kaiango como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial de Belo Horizonte: Diretoria de Patrimônio Cultural, Arquivo Público e Conjunto Moderno da Pampulha.

Ndê! Anda! Caminha! Vá sem receio!: Texto de Josimeire Alves e Simone Moura- Curadoras da Exposição do Museu Histórico Abílio Barreto.

Quilombos Urbanos e a Resistência Negra em Belo Horizonte: Texto da equipe de pesquisa da Exposição do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado: Camila Mafalda, Daniela Miziara, Grace Alves, Rosália Diogo e Viviane Sales. Matriarcas quilombolas: Mãe Muiandê, D. Júia, D. Luzia Sidônio e D. Wanda de Oliveira.

Foto: Ricardo Laf

Etnografia Suburbana


O rapper Roger Deff lançou seu primeiro disco solo, “Etnografia Suburbana”. Viabilizado a partir de uma campanha de arrecadação coletiva no Catarse, o álbum tem oito faixas lançadas na plataforma digital e também em disco físico – recompensas para os colaboradores do projeto.

O disco tem produção de Edgar Filho e Ricardo Cunha que também tocam bateria e guitarra, respectivamente, e conta com participações do MC Douglas Din, de Richard Neves (Pato Fu), Luciano Cuíca Play e Ricardo HD, irmão de Roger.

Etnografia Suburbana traz um estudo das etnias do ponto de vista de um sujeito suburbano circulando pela cidade realizado pelo artista. Sua sonoridade também é a dos ritmos suburbanos acrescentado ao rap, ao funk, ao maracatu e ao samba, entre outros gêneros.

Fibra Cabelos reinaugura novo espaço em Divinópolis/MG

Foto: Patrícia Santos

Quando a empresária Karla Carolina resolveu vender cabelo sintético na Internet em 2016, não imaginava a proporção que o negócio tomaria. Após um ano na rede, e com a demanda aumentando, a empresária resolveu ampliar o negócio também para um espaço físico. Em pouco tempo, a loja ficou pequena e foi necessário um espaço maior.

A nova loja da Fibra Cabelos foi reinaugurada no mês de abril deste ano na rua São Paulo, 272, no centro de Divinópolis. A loja trabalha com vários tipos de cabelos sintéticos e orgânicos, além de acessórios e cosméticos. Acesse Facebook.com/fibracabelos

Lançamento do livro: Ativismo Juvenil e Políticas Públicas

O jornalista, mestre em Psicologia e analista de projetos Bruno Vieira lançou recentemente o livro Ativismo Juvenil e Políticas Públicas: o caso do Centro de Referência da Juventude de Belo Horizonte (MG). O trabalho é oriundo da sua dissertação de mestrado, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMG, sob orientação da Profa. Claudia Mayorga. 

O livro traz reflexões para compreender a relação entre ativismo juvenil e políticas públicas de juventude, observando como o Centro contribui na relação entre movimentos juvenis e a delimitação de políticas públicas de juventude em BH. Acesse:editoraletramento.com.br 

Encontro Nacional Rainha Nzinga

Ilustração: Marcial Ávila

Nos dias 25 e 26 de julho, Salvador (BA) sediará o 1º Encontro Nacional Rainha Nzinga. O encontro é uma iniciativa do grupo Neafro Tambores de Minas e de vários movimentos negros. Dar visibilidade às organizações de mulheres negras, manter viva a memória dessas que sempre defenderam a cultura de matriz africana e seu ideal de liberdade são alguns dos objetivos do encontro.

As atrações incluem mesas de debate, visita à Casa Angola, exposição de moda e entrega do Troféu Rainha Nzinga. O encontro será realizado na Casa de Angola, situada na praça dos Veteranos, centro, Salvador(BA). Informações: Uiára Lopes: (71)9 9678 5895, Adelina: (32)9 8858 5441.

Mexeu com uma mexeu com todas

Foto: Leone Serafim

Mulheres do Brasil, Espanha e Portugal se uniram para combater a violência contra a mulher. Elas participaram da gravação do videoclipe da música “Mexeu com uma mexeu com todas” da cantora brasileira Kris Rocha que desenvolve seu trabalho na Espanha.

A música é inspirada na campanha lançada no carnaval de 2019 intitulada “Meu corpo não é sua fantasia” idealizada pela vereadora Ireuda Silva, presidente da Comissão do Direito e Defesa da Mulher de Salvador. O clipe contou com a participação da Associação das Mulheres Notáveis de Salvador, mulheres de Portugal e Espanha e já está disponível nas páginas da cantora Kris Rocha na Internet.

Sambadear

Foto: Luiza Bongir

A cantora e compositora Manu Dias, figura marcante do samba mineiro, lançou seu primeiro disco, o “Sambadear”. O álbum é composto por músicas autorais, algumas em parceria com Toninho Batista e Thiago Delegado, e as demais de compositores mineiros como Serginho BH, Alexis Martins, Lado Raízes, Ricardo Barrão, Fabio Martins.

Dona de uma voz marcante e nascida em Ouro Preto, a cantora já possui mais 15 anos de carreira. Ela participa de diversos projetos que destacam o ritmo como o “Samba da Vera” ao lado de Flávio Renegado que circula com o projeto “Circuito Gastronômico de Favelas”, “Casa de Bamba”, e “Bala da Palavra”, idealizado por Sergio Pererê.E

Ladrão

Foto: Divulgação


Consagrado entre os maiores nomes do hip-hop nacional, Djonga lançou em março o seu terceiro álbum “Ladrão”. Sucesso das críticas e do público, o disco composto por dez faixas inéditas chegou a ultrapassar os 14,5 milhões de plays no Youtube e no Spotify apenas oito dias depois de ter sido divulgado.

O álbum foi produzido pelo respeitado Coyote Beatz, co-produzido por Thiago Braga (Pato Fu) e masterizado por Arthur Luna. Nas letras, o rapper traz referências a diferentes artistas brasileiros e denuncia o racismo estrutural da sociedade.

Aquilombô

Alysson Salvador foi uma das atrações do Aquilombô – foto de Kelson Frost_

Discutir a arte negra em todas as suas expressões, promover reflexões sobre suas estéticas e narrativas, reunindo artistas das mais variadas linguagens, esse foi o objetivo da 3ª edição da Mostra Aquilombô – Fórum Permanente de Artes Negras, que aconteceu entre os dias 8 a 19 de maio no Teatro Francisco Nunes em BH.

A programação diversificada contou com performances, espetáculos de teatro, de circo, de dança, shows, lançamento de livros, intervenções poéticas e exposição. Um dos destaques da programação foi o lançamento da série editorial do projeto, coordenada por Marcos Fábio de Faria, que tem como principal objetivo fomentar a literatura preta nas mais diferentes linguagens.

A primeira autora publicada pela série é Cristiane Sobral (DF), com o livro “Uma Boneca No Lixo”. As escritoras Rosane Borges e Cidinha da Silva, que também participaram da programação, serão publicadas pela Série Aquilombô ainda em 2019.

Rainha Diambi

Foto: Ricardo Laf

A Rainha Diambi Kabatusuila Mukalengna Mukaji de Nkashama (da Ordem do Leopardo), da República Democrática do Congo, esteve no Brasil, no início deste ano, passando por Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital mineira, a rainha participou do evento “África-Brasil: Mulheres Negras e um fazer ancestral” no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado no dia 8 de março.

A realeza destacou no local que sua viagem ao Brasil promoveu uma reconexão com os povos da África. “É uma honra estar aqui e dar reconhecimento às personalidades do Brasil. Fiquei feliz também em ver que elas me reconhecem como uma sobrinha, uma irmã e uma mãe. Estamos todos juntos numa luta muito grande pela igualdade, paz, amor e por um mundo melhor”, ressaltou.

A cultura da diversidade na fotografia

Por Well Mendes – Jornalista

Sabemos que é importante ter diversidade e participação representativa e legítima para pessoas negras em todas as esferas – dos espaços do poder público às telas de cinema. Porém, se você olhar ao redor vai perceber que estamos rodeados por imagens.

A quantidade de imagens às quais somos expostas diariamente reforça a importância das narrativas imagéticas nas concepções que criamos desde pequenos.

Essas imagens tentam fazer uma construção de mundo através do registro visual, retratando em apenas um quadro a realidade do assunto que se propõem a abordar. Além disso, muitas fotografias são usadas como guias para nos ajudar a entender o passado e a resgatar a história, a memória e a tradição.

Ao fazermos um recorte sobre as imagens que são produzidas sobre pessoas negras, é necessário refletir sobre o que está sendo produzido e sobre a forma com as narrativas sobre essas pessoas são feitas.

Por muito tempo, os debates sobre representação e protagonismo se reservavam aos movimentos sociais que lutaram para reverter um histórico de representações deturpadas sobre grupos diversos. Agora, com uma abertura maior para a discussão em esferas onde a forma de representar ainda não havia sido discutida, outros debates surgem como a questão de quem pode falar sobre quem e sobre o lugar de fala nas produções artísticas.

Precisamos pensar nas realidades que criamos ao fotografar e reproduzir imagens para não cometermos o erro milenar de excluir realidades distintas de uma sociedade diversa e mal representada.

Precisamos reconstruir o imaginário popular para quebrar alguns estigmas e mover estruturas ao registrar fotografias que contem histórias emancipadoras e plurais. Precisamos fomentar o protagonismo e a participação de pessoas negras em narrativas negras.

Foto: Well Mendes

Ad vinho


Por Filinto Silva – Poeta e Escritor Cabo-Verdiano. Membro do Conselho Editorial da Revista Canjerê.

Qual é a cor da música?/
Seu gosto de fruta e de cravinho.(…)/
As horas do teu corpo batem/
Em que lugar quando ressoa/
Meia-noite no meu poema?(…) /
Tudo isso adivinho seres tu,/
Posto que travam como vinho/
As cores que li no gosto.(…)/
Tempero, em que novelo/
És mais água do que sal?/
Concha, em que segredo/
Me és palavra repentina?/
A cor da música…”

Ilustração: Maria Luiza Viana – Doutoranda em Design pela USP, graduada em Artes Visuais e mestra em arte e tecnologia de imagem pela UFMG.

Novas construções simbólicas de corpos negros no cinema

Pensar o corpo como uma potência social e política foi a proposta da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Por Naiara Rodrigues – Jornalista

Com tema “Corpos Adiante”, a 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes refletiu sobre a presença de corpos diversos nas salas de cinema e em possibilidades de futuro. A homenageada foi a atriz, diretora e dramaturga Grace Passô que teve sua trajetória teatral e cinematográfica revisitada em exibições, debates, sendo um dos destaques a estreia do média-metragem “Vaga Carne”, uma transcrição de sua premiada peça homônima para a telona. “Não se vive sem arte. O cinema e a arte brasileira precisam entender a potências de muitos corpos, assim como o que eu ocupo, de mulheres negras que produzem, das nossas existências estarem nas telas e sobretudo ter a possibilidade e acesso a arte”, destacou a atriz homenageada na noite que recebeu o troféu Barroco.

A realizadora e professora que coordena o projeto Pretança no curso de Cinema e Audiovisual do Centro Universitário Una, em Belo Horizonte, Tatiana Carvalho Costa, participou pela primeira vez da curadoria na seleção dos curtas.

Durante o evento, ela denunciou como o apagamento da presença negra e de trans no cinema influencia a construção de estereótipos incoerentes com a realidade. “O cinema nos constrói simbolicamente como uma ficção muito limitada, com poucos lugares possíveis para os nossos corpos negros. O conjunto de filmes selecionados, em especial os curtas, fazem novas modulações para eles, constrói outras possibilidades de ser com o cinema, provocando o próprio universo cinematográfico a se repensar”, destacou Tatiana.

Dos 806 filmes inscritos na 22ª edição, 181 tinham ao menos uma pessoa negra na direção. Dos 78 curtas-metragens selecionados, 23 diretores se autodeclararam pretos ou pardos. Eles mostraram a heterogeneidade dentro de uma ideia de negritude, retratando formas diversas de dizer da experiência de corpos negros no mundo.

Não à toa, essa presença esteve refletida nas premiações. O curta-metragem “Negrum3”, de Diego Paulino, definido pelo diretor como “um ensaio sobre negritude, viadagem e aspirações espaciais dos filhos da diáspora”, venceu no Júri Popular e o Prêmio Canal Brasil de Curtas. Já o Prêmio Helena Ignez 2019, dado a um destaque feminino, foi para a montadora Cristina Amaral por seu trabalho em “Um Filme de Verão”, de Jô Serfaty.

Foto Leo Lara-Universo Produção

A Comunidade Quilombola Cachoeira dos Forros mantém viva suas tradições e busca alternativas para melhorar a qualidade de vida dos moradores

Por Sandrinha Flávia – Jornalista, editora, empresária e mestra de cerimônias

As comunidades quilombolas representam espaços de resistência, autonomia, força, cultura e ancestralidade. O Brasil viveu três séculos de escravidão e os quilombos foram o refúgio para muitos ex-escravizados e seus descendentes que ainda lutam incansavelmente para garantir os seus direitos.

 A comunidade Quilombola Cachoeira dos Forros, localizada na zona rural da pequena cidade mineira de Passa Tempo, a 143 quilômetros de Belo Horizonte, é um exemplo de resistência.

Nascida e criada na comunidade Cachoeira dos Forros, Jordânia Fernanda da Silva Mariano, conhecida por Negra Jô, diretora da Federação Quilombola N`golo de Minas Gerais e conselheira na Assistência Social de Passa Tempo, é uma importante representante do povo quilombola. Ela conta que o quilombo foi formado por três casais ancestrais. “Essas terras pertenciam a um padre que doou para os casais, mas os fazendeiros feudais tinham muita raiva e não forneciam trabalho para os quilombolas. Então a gente tinha terra, mas não tinha como produzir, com isso as terras acabavam sendo trocadas por comida, porcos etc. Nossos ancestrais perderam muitas terras por necessidade”, disse.

Hoje, vivem cerca de 250 pessoas na comunidade. São 95 famílias que se orgulham de manter suas raízes respeitando a natureza e os ensinamentos dos mais velhos. A maioria dessas famílias tira o sustento das plantações e comercialização de arroz, feijão e pimenta. O artesanato também é uma fonte de renda, recentemente, as mulheres da comunidade começaram a produzir bonecas Abayomi, após participarem de uma oficina realizada no Quilombo.

Outra maneira de fomentar aquela comunidade é o turismo étnico. De acordo com Bianc Amorim, um dos colaboradores da comunidade, o projeto de esporte envolvendo arvorismo e tirolesa logo sairá do papel.

As famílias quilombolas e colaboradores não medem forças para garantir o que lhes são de direito. O projeto Minha Casa Minha Vida Rural também chegou ao quilombo contemplando a comunidade com 25 casas. Outro instrumento importante para o trabalho de plantação é o trator, doado pela fundação Banco do Brasil, além do maquinário para a montagem da padaria, uma parceria com a EMATER – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado Minas Gerais.

Atualmente, o maior desafio da comunidade é escoar os produtos plantados como explica Jordânia Mariano. “Após a colheita, temos dificuldades nas vendas. Os atravessadores são os que mais ganham. Eles querem pagar pouco e a gente vende para não ficarmos com o produto parado. Buscamos por empresas que negociem com preços que realmente valham o devido valor para que possamos produzir, escoar e garantir o nosso sustento”, finalizou.

Foto: Luiz Maia

A versátil Sol Brito

Samira Reis Modelo e Jornalista

Sempre que há evento promovido pelo Casarão das Artes, certamente ela está de prontidão. Pequenina, mas de um sorriso gigante, coloca-se atenta para fotografar cada ação, gesto, detalhe. Essa é a rotina de Solange Rodrigues de Brito, a Sol, que compõe a equipe do Casarão, sendo a responsável pela fotografia. “A fotografia é um prazer que me diverte e instrui porque é um campo de investigação muito amplo. Desde muito nova, observava meu pai fotografando as cenas familiares e, depois de revelar as fotos, comentava os acontecimentos com minha mãe e tios”, conta. Ela ressalta que a curiosidade alimentou o gosto em eternizar as cenas do cotidiano. “Além disso, cada pessoa ou lugar também me motivam a detalhar algum aspecto que considero mais relevante e merece ser registrado”, acrescenta.

Esse olhar apurado também faz parte da rotina em sala de aula. Professora no ensino municipal infantil de Belo Horizonte, ela percebe as crianças cada vez mais interativas. “A meninada insere a sua voz assumindo seu direito que um profissional sensível e atento, independentemente de seu planejamento semanal, quinzenal ou mensal deve ouvir, atendendo a essa demanda primordial”, informa.

Nessa trajetória na educação, ainda é visível, segundo ela, a lentidão das escolas no debate e combate ao racismo. “A escola precisa ainda assumir sua identidade autônoma real, ou seja, perceber a comunidade na qual está inserida. Valorizar os modos de ser e estar saudáveis e culturais dos atores que compõem sua equipe institucional. Isso é feito de uma maneira muito superficial e padronizada. Alguns professores também precisam rever seus conceitos quanto às questões étnicas porque muitos adotam um comportamento indiferente e até compactuam com o preconceito”, explica. Enquanto isso, Sol vai em busca de fazer a diferença. “Tento fazer o que posso em meu trabalho para minimizar esse impacto negativo”, enfatiza

Na sala de aula, é preciso acolher a individualidade de cada aluno para construir uma educação que faça a diferença. A fotografia também segue esse caminho, pois há momentos em que a simplicidade entrega uma riqueza de detalhes para as lentes”, fala consciente de que essa riqueza ela conseguiu capturar em um de seus vários trabalhos. “Foi uma criança de gestual leve e calmo que carregava um pedaço de madeira e o girava nas mãos. Fotografar com a permissão dela me proporcionou invadir uma cena rica e empolgante com a ajuda de uma luz natural e ideal, que estava ali também, como que esperando o convite. Isso me emocionou e encantou porque a criança brincava e não se lembrou mais de mim. Cansou-se da brincadeira e foi embora, mas eu já tinha o suficiente. Sorte minha”, festeja.

Sol explica ainda que exercer a fotografia na atualidade coloca o ser humano diante dos avanços tecnológicos dessa área. As máquinas fotográficas têm se modernizado e ao lado delas estão os smartphones, cada vez mais sofisticados para atender os usuários e as redes sociais. Na visão da fotógrafa, a diferença está em quem conduz e o ser humano é primordial nesse processo.  “A tecnologia nos permite, enquanto fotógrafos, experimentar visões universalistas porque todos agora têm acesso a uma câmera básica ou de ponta em seus celulares e smatphones.

Mas, apesar de todo esse arsenal tecnológico cada dia mais expressivo, o que difere esse aparato moderno da fotografia tradicional é o olhar, a intenção, a criatividade e a poética de cada fotógrafo.  Isso a tecnologia, por mais aprimorada, não fornece porque todo ser é único, e revela isso ao apresentar seu trabalho, seja fotográfico ou de qualquer outra área. Isso é fato”, finaliza.

Foto: Dayse Brito

Capital dos Blacks

Por Roger Deff – Mc Belo-horizontino,  jornalista, integrante da banda julgamento. Atualmente apresenta e produz o programa Rimas e Recortes veiculado pela Rádio Inconfidência

Belo Horizonte é apontada por muitos como a capital do funk e do soul, e isso se deve a movimentos importantes que aconteceram na cidade nos últimos anos, a exemplo do Baile da Saudade e o Quarteirão do Soul. Este último surgiu em maio de 2004, sendo sempre realizado aos sábados, no centro de da Capital Mineira, mais especificamente na Rua Goitacazes, entre as ruas São Paulo e Padre Belchior.

O evento semanal tornou-se ponto de encontro dos antigos frequentadores de lugares clássicos como o Clube Elite e o Máscara Negra, espaços que, nos anos 70, eram dedicados à Black Music, quando jovens negros e negras se encontravam ao som de James Brown, Toni Tornado, Gerson King Combo, Jimmy “Bo” Horne, Tim Maia, Lady Zu, Toni Bizarro, entre outros.

Muito mais que reunir blacks veteranas e veteranos, o Quarteirão do Soul, batizado assim por figuras importantes da cena como o DJ Geraldinho, Ronaldo Black e DJ Abelha, atraiu curiosos de idades e classes sociais diferentes, turistas e até novos adeptos. Mas é inegável que o público majoritário é dos chamados blacks, moradores dos bairros pobres e exercendo as suas profissões.

Posteriormente, o Quarteirão passou a ser realizado na rua Tamoios e em 2018 celebrou 14 anos de resistência com uma festa na Praça Sete de Setembro. A praça em questão é palco de outro evento iniciado em 2008 que é o Movimento Soul BH, organizado pelo DJ Walter Soul e realizado aos domingos.  Não é por acaso que Belo Horizonte ganhou reconhecimento como um dos polos da cultura Black no país. Quarteirão do Soul ou Movimento Soul BH representam a resistência de uma cultura

Foto: Jacyara Lage

Como Bissilay Bigna, da BBBigna, está transformando a moda e incentivando a autoaceitação estética das mulheres africanas

Por Sandrinha Flávia – Jornalista, locutora, editora e mestra de
cerimônias

Quando Bissilay Bigna deixou Guiné Bissau, país da África Ocidental, para viver em Portugal, e mais tarde na Inglaterra, não imaginava que se tornaria uma importante influenciadora da moda africana na Internet.

De etnia Balanta, palavra que significa “aqueles que resistem“, maior grupo étnico do seu país, Bissilay resolveu homenagear a sua etnia e adotou o nome artístico de Rainha Balanta. Sua relação com a moda vem da infância. Sua mãe foi costureira e sempre criava roupas com as sobras de tecidos.

De família humilde, filha mais velha de três irmãos, Bissilay cresceu vendo seu pai e sua mãe trabalharem muito para que nada faltasse. Quando tinha oito anos, seu pai Manuel Coelho Bigna migrou-se para Portugal em busca de uma vida melhor.

Durante toda adolescência, sua vida era estudar, ir à igreja e voltar para a casa. Quando completou 18 anos, seu pai achou melhor que ela também fosse para Portugal. Um mês depois, seus irmãos também desembarcaram naquele país. Sua mãe Margarida Bissinde só  foi para Portugal cinco anos depois.

Rainha Balanta ressalta que a vida por lá não foi nada fácil no início. “Foi muito duro, eu trabalhava durante o dia para pagar os meus estudos e outras despesas, e estudava à noite. Infelizmente não consegui conciliar as duas coisas e tive que deixar a universidade,” disse.

No auge da crise econômica em Portugal, ela perdeu seu emprego, mas como a Rainha Balanta resiste, tratou logo de planejar a sua mudança de país e partiu para a Inglaterra. O maior desafio foi se adaptar ao frio e ao idioma. Em Londres, na Inglaterra, logo conseguiu um trabalho, e foi aí que as coisas começaram a acontecer.

Convivendo diariamente com a moda por conta do seu trabalho em uma loja de roupas, Bissilay começou a investir em seus próprios figurinos. “Adoro moda, gosto de ser diferente, uso muitas roupas com o pano africano, uso turbantes quase todos os dias, tudo isso para manter sempre a minha identidade por perto. Desenho os modelos que quero e mando fazer,” disse.

Em pouco tempo, suas criações começaram chamar a atenção de suas seguidoras. O próximo passo foi criar sua própria marca de turbantes, a BBBigna que tem um forte propósito social. “O objetivo é manter viva uma parte da minha cultura e incentivar principalmente as mulheres guineenses a usarem turbantes ou seus cabelos naturais, ao invés de tissagem ou peruca, o que é forte em meu país”, disse. (Tissagem é um tipo de alongamento que usa a técnica conhecida como entrelace aqui no Brasil).

Segundo Bissilay, a luta pela revolução ao uso dos cabelos naturais em seu país só está começando. Muitas até acham o seu cabelo crespo bonito, mas dizem não ter coragem para usar. “Uma vez aqui em Londres, tínhamos um casamento e estavam todas a aplicar tissagem. Eu era a única que não estava a fazer isso. A mãe de uma amiga minha chegou ao pé de mim e disse baixinho, “filha” não tens dinheiro para comprar cabelo? Posso te emprestar, depois quando tiveres, dás-me. Olhei pra ela comecei a rir. Eu lhe agradeci e disse-lhe que tinha dinheiro, mas queria ir com o meu cabelo. Quando chegamos à festa, eu era a única que estava com o meu cabelo; todas tinham tissagem, alongamento ou peruca”, ressaltou.

Além de incentivar as mulheres, Rainha Balanta também educa os homens, pois a maioria deles prefere ver mulheres com tissagem, alongamento ou peruca.

Prestes a se formar no curso de “Human Resources with Management”,Rainha Balanta não perde a oportunidade de curtir a sua família que também vive na Inglaterra. A saudade dos tios, primos e da avó, Samy Tchongo, carinhosamente chamada por ela de Nindan na língua Balanta (que significa Mulher Grande), a faz visitar Guiné Bissau todos os anos.

“O próximo passo é aprender a costurar para criar mais peças e futuramente lançar a sua grife de roupas”, finalizou.

Foto @consciousscofield