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Sandrinha

Mundi – Movimento Negro de Divinópolis lança edital de chamamento público para credenciamento de oficineiros (as)

Estão abertas as inscrições para o credenciamento e seleção de oficineiros(as) para atuarem no projeto “Igualdade Racial, Transformação Social” do Movimento Negro de Divinópolis.

As vagas são para profissionais,  pessoa jurídica, das áreas artísticas e culturais. As vagas são para ministrar oficinas de capoeira, Hip Hop, curso de formação para mulheres negras, Curso de trancista e  percussão e tambores.

As pessoas interessadas deverão comparecer de 13 à  27 de janeiro,  das 8 às 17hs e aos sábados das 8 às 12hs na sede do Movimento Unificado Negro de Divinópolis (Mundi) situado à Rua Oeste de Minas, 21, centro – Divinópolis – MG.

Mais informações sobre a documentação necessária para participar do processo seletivo, bem como dias e horários das aulas,  recursos financeiros, contratação, etc, clique aqui: https://drive.google.com/file/d/1Jju63c9tEIWrhaTjrGE4TNOZRqT6JOL0/view

17 anos

Adilson Marcelino é negro, jornalista, e pesquisador de cinema e criador do site Mulheres do Cinema Brasileiro, disponível desde maio de 2004 e premiado em 2005 pelo cineasta Carlos Reichenbach.

17 anos. Parece que foi ontem que o site Mulheres do Cinema Brasileiro entrou no ar. Assim como parece que foi ontem o início da pesquisa que o antecedeu e que começou em 1991. Ou seja, há 30 anos. Naquele momento, mapear a presença da mulher no cinema brasileiro começou em coluna de jornal, depois migrou para o antigo e extinto Fotolog e, por fim, transformou-se em site disponível desde maio de 2004. Pioneiro em seu recorte, o Mulheres mapeia a participação das mulheres no cinema brasileiro desde a fase silenciosa até a atual e nas mais diferentes áreas, à frente e por trás das câmeras. 

São muitas as histórias durante essa trajetória que contribuíram para o registro da memória como entrevistar mulheres emblemáticas da cultura, como a atriz e cantora Vanja Orico, do clássico O cangaceiro, de Lima Barreto; a cantora Dóris Monteiro, que também atuou, sobretudo na década de 1950, e a atriz Eliane Lage, estrela da Vera Cruz.

Um Capítulo especial na história do site diz respeito às mulheres negras de diferentes áreas que o site já entrevistou, corpos pretos, artísticos e políticos. Abrindo alas, um trio de atrizes espetaculares: Ruth de Souza, em 2005, Léa Garcia, em 2004, Zezé Motta, em 2021. Além de outras como Adéle Fátima,  Zezeh Barbosa, Jussara Calmon, Roberta Rodrigues, Margareth Galvão, Zora Santos e Rejane Faria. Além da primeira cineasta negra, Adélia Sampaio, em 2007, e a extraordinária montadora Cristina Amaral, em 2005.

Enfim, o site Mulheres do Cinema Brasileiro faz um trabalho de formiguinha, mas muito feliz de já ter mapeado em entrevistas, perfis e homenagens, mais de 1000 mulheres que construíram e constroem a história do nosso cinema.

Foto: Adilson Marcelino – Crédito: Marco Túlio Zerlotini

FAN BH

A 11ª edição do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte – FAN BH aconteceu em dezembro e, pela primeira vez, em formato híbrido, reunindo atividades presenciais e virtuais. O FAN BH 2021 parte das conexões culturais entre Brasil e África, mais especificamente das influências da cultura bantu na formação da identidade brasileira e suas relações com Minas Gerais. Esta edição destacou o desejo de aproximação – através dos encontros, reflexões, trocas de experiências, de afetos – a partir de processos criativos colaborativos que se darão durante o festival. A programação foi gratuita e abriu espaço para apresentação de artistas, grupos e coletivos das mais diversas áreas artísticas como artes cênicas, artes visuais, artes integradas, audiovisual, cultura popular, cultura urbana, literatura e música.

Foto: 10ª edição do FANBH – Crédito Pâmela Bernardo

Goya Lopes, a pioneira da moda afro-brasileira

Por Fernanda Luá – Jornalista pelo Centro Universitário UniFanor- Wyden e Mestranda em Comunicação pelo
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará

Negra, empresária, artista e designer têxtil, Goya Lopes destaca-se por seu pioneirismo em difundir, por meio da moda, a cultura afro-brasileira.

Nascida em Salvador, Bahia, em 7 de maio de 1954, desde cedo, Goya foi estimulada pela família e professores ao desenvolvimento das práticas artísticas. É formada em Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1976, e especializada em Design, Museologia, Expressão e Comunicação Visual na Università Internazionale Dell’Arte di Firenze, na Itália, (1978-1979).

Retornou ao Brasil na década de 1980 e se fixou em São Paulo a fim de ampliar seu conhecimento em estamparia e trabalhar para diversas empresas na área de decoração. Seu campo de trabalho é voltado para brasilidades, no qual aborda a cultura popular brasileira  e nordestina, além de ter como principais referências a história da arte africana e a arqueologia.

A fim de fundar uma marca que tivesse uma identidade própria e na qual pudesse fazer experimentações de estamparia com ilustrações de cores marcantes e tropicais que representassem a afro-baianidade, criou a grife Didara by Goya Lopes, em 1986. Segundo Goya, “Didara” é uma palavra advinda do Iorubá e significa o que é bom.

No ano seguinte,  em busca de expandir e popularizar sua marca, abriu uma loja na região do Pelourinho. Em 2013, Goya Lopes expandiu seus projetos e fundou a marca Goya Lopes Design Brasileira em que trabalha temáticas ligadas à cultura popular brasileira.

Foto Paulo Lima

A dança como um projeto de vida

Conheça a  BHfieira – laboratório da Dança, uma escola   que visa democratizar o acesso à Dança

Por Sandrinha Flávia – Jornalista e apresentadora

O  interesse do empresário Danillo Primola, 34,  pela dança  começou bem cedo. Desde pequeno, já frequentava bailes com a sua mãe, adorava dançar forró com a irmã e sempre levava o primeiro lugar quando o assunto era concurso de dança. 

Na adolescência realizou um de seus sonhos: ingressar em uma escola de dança, mas o sonho durou pouco tempo. Em apenas um ano, teve que se desligar da escola, pois não conseguia arcar com o valor das mensalidades. Mas quando as coisas têm que acontecer, elas acontecem. Uma amiga, professora de dança, o contratou para fazer aulas com ela, foi assim que conseguiu dar mais um passo rumo à profissionalização na dança.

Aos 23 anos, Danillo se tornou o dono de academia  de dança mais novo da cidade.  A escola que hoje se chama  BHfieira – Laboratória da Dança oferecia aulas de bolero, forró, salsa, samba, etc.

Naquela época, não se falava muito sobre afroempreendedorismo na cidade. Ao conhecer melhor o termo, Primola resolveu redesenhar o seu propósito de negócio focado em democratizar o acesso à dança e possibilitar que as pessoas de todas as idades e classes sociais pudessem praticar várias modalidades e não precisassem passar pelas dificuldades que ele passou. 

O carro chefe da  BHfieira    é o samba no pé e gafieira, mas também oferece outras modalidades de dança de salão. Por conta de suas pesquisas sobre a história do samba e participações em grupos de samba da cidade, em 2008 e 2020, a PUC Minas o convidou para ministrar aulas sobre “O samba e suas Matrizes”. 

Em 2020 o time da escola cresceu, o dançarino e ator Igor Arvelos, que foi aluno de Danillo desde os 14 anos, tornou – se sócio Administrador da BHfieira. Igor tem uma bela trajetória na dança.  No Rio de Janeiro, onde morou,  foi vice campeão numa competição de samba no pé carioca, participou de comissões de frente da Beija Flor de Nilópolis, fez trabalhos em televisão e atualmente está em turnê  internacional com o YouTuber Luccas Neto . Seguindo os passos do seu mestre,  Igor  é o dono de academia mais novo da cidade com apenas 23 anos.

A sociedade chegou em um momento importante para o negócio, afinal, no auge da pandemia, a escola precisava sobreviver. Os dois organizaram financiamento coletivo, escreveram editais, criaram uma nova forma de se comunicar com mais humor e após oito meses com a escola fechada conseguiram sobreviver conciliando as atividades da empresa com outros trabalhos extras para se manterem financeiramente.

Hoje, após15 anos formando sambistas, Danillo se considera um profissional por vocação. Como coreógrafo da comissão de frente da Escola de Samba Acadêmicos de Venda Nova se consagrou três vezes campeão com nota máxima.

O mais novo projeto dos sócios é a Feirafro, loja de produtos para o público negro que começou em um pequeno espaço dentro da BHfieira e agora inaugurou uma loja  na Feira Shopping, região de Venda Nova(BH).Para saber mais sobre os projetos da BHfieira ou Feirafro, siga nas redes sociais: @bhfieira @feirafro.

Foto Catarina Prudencini

Edy X: rap e respeito às raízes

A cena do rap em Belo Horizonte ganhou destaque nacional nos últimos anos graças à repercussão de nomes como Djonga, Clara Lima, Renegado e Fabrício FBC para além das nossas montanhas. E a cena mineira não para de surpreender com bons lançamentos, sempre com leituras muito autênticas e particulares do rithim and poethy. 

Nesta edição destaco o álbum de estréia do rapper mineiro Edy X, intitulado “Kalango, o preto livre”. Apesar de ser um MC veterano, com mais de 20 anos de caminhada, ele só conseguiu lançar seu primeiro trabalho em 2021, graças aos recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, o que só reforça o papel das políticas públicas de cultura para os artistas oriundos da periferia.

  Kalango Livre é um disco ousado, repleto de referências oriundas da música afromineira. É um álbum que assume orgulhosamente seu sotaque e com um resultado que faz dele um dos mais interessantes lançamentos do rap neste pandêmico ano de 2021. Logo na estréia, Edy X se mostra um artista versátil e com voz própria, conferindo identidade ao trabalho. 

A produção musical ficou por conta de Sérgio Pererê, Celson Ramos, Cesar Lima, Clebim Quirino e DJ Sense, além das participações de artistas da cena local como Samora N’ZingaMichelle OliveiraEduardo DW, May, entre outros, além do próprio Sérgio Pererê que marca presença na faixa título “Kalango Preto Livre”.  O nome do disco é uma homenagem à herança ancestral e às tradições: “trago neste disco um resgate da memória ancestral que o próprio nome Kalango nos remete. Kalango é um estilo musical usado há muito tempo no sertão de Minas Gerais e em outros Estados. Eu cresci ouvindo meu avô fazendo esse calango. Ele e mais algumas pessoas faziam uma roda com sanfonas e pandeiros, faziam improvisação de versos sobre diversos temas da época muito parecido com a roda de freestyle dos Mc’s de hoje”, conta Edy.

Kalango, o Preto Livre está disponível em todas as plataformas digitais.

Foto Dokttor Bhu

BREVE BIOGRAFIA DE AMÍLCAR CABRAL

             Filinto Elísio Correia e Silva (cabo-verdiano) é professor, consultor, poeta e editor

Numa lista feita pela BBC World Histories Magazine, em 2020, o africano Amílcar Cabral foi posicionado como o segundo maior líder da Humanidade, depois do considerado o maior líder de sempre Maharaja Ranjit Singh, fundador do Império Sikh, no século XIX, mais à frente de nomes como  Winston Churchill, Catarina, a Grande ou o Faraó Amenhotep III.

Apesar de grande notoriedade, Amílcar Cabral, cujos escritos estão agora submetidos ao projeto Memórias do Mundo da UNESCO, vivencia uma sutil tentativa de invisibilidade da sua figura que não só liderou um dos movimentos africanos mais bem-sucedidos contra a colonização portuguesa e marcou a autodeterminação dos povos do chamado Terceiro Mundo em plena Guerra Fria, como se afirmou como um dos grandes Humanistas, olhando para a Libertação como um ato cultural.

Nascido em Bafatá, cidade no centro leste da Guiné-Bissau, a 12 de Setembro de 1924, filho de pais cabo-verdianos, Amílcar Cabral cedo muda-se para Cabo Verde e, em sua juventude, faz estudos universitários em Portugal, formando-se em agronomia. 

Em primeira pessoa, Cabral assim se auto-definia: “Houve um tempo na minha vida em que eu estive convencido de que eu era português porque assim é que me ensinaram, eu era menino. Mas depois aprendi que não, porque o meu povo, a História de África, até a cor da minha pele…”.

Em Lisboa, Cabral frequenta a Casa dos Estudantes do Império (CEI) e o convívio entre africanos de diferentes colônias na metrópole despertou nele uma consciência crítica sobre as desigualdades sociais a que o sistema colonial os sujeitava e uma vontade de descobrir e valorizar as culturas dos povos colonizados. Assim, foi um dos criadores do Centro de Estudos Africanos que tinha por objetivo estudar as várias facetas da cultura africana, à semelhança do Movimento “Vamos Descobrir Angola” da “Geração Mensagem”. Este fato é referido pelo intelectual e nacionalista angolano Mário Pinto de Andrade:

 (…) Assim começamos a definir a nossa identidade de estudantes africanos, filhos da nossa terra, filhos do povo, que tinham tido a oportunidade, a “chance” de se infiltrar naqueles lugares vazios que deixava a administração colonial portuguesa para prosseguir os nossos estudos, para sermos os melhores alunos no liceu, e poder triunfar sobre o racismo (…) (ANDRADE 1973:6-8).

Cabral efetivamente defendeu que unidade entre os dois países permitiria uma melhor compreensão e análise sobre o sistema colonial que os dominava e, paralelamente, a elaboração de estratégias coletivas de luta contra o domínio português. 

Numa visita à capital guineense em 19 de Setembro de 1956, propõe a formação do Partido Africano da Independência (PAI), que esteve na gênese do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), uma organização de luta que se propunha libertar os dois povos do colonialismo português. 

A 23 de Janeiro de 1963, após uma série de propostas de conversações apresentadas ao Governo Português e através da ONU, desencadeia, a sul do território, a luta armada de libertação nacional.

Tornando-se um dos mais importantes líderes conhecedores dos ideais pan-africanistas, dos nacionalismos e das formas de consecução da independência, Cabral torna-se uma voz ativa na Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional (FRAIN) e na Conferência das Organizações Nacionalistas das Colônias Portuguesas (CONCP) que tiveram o objetivo de coordenar as lutas de libertação das colônias portuguesas. 

Com uma grande preparação teórica que era capaz de executar na prática, um grande domínio do discurso e da retórica capaz de mobilizar quem o ouvia, Cabral vai-se tornar no líder incontestado da luta de libertação nacional na Guiné-Bissau e em Cabo Verde.

Tomar a Luta de Libertação Nacional como um ato de cultura é, entre todos os pensamentos de Cabral, aquele que maior impacto teve. Cabral construiu um argumento forte de que a libertação nacional era simultaneamente um fato de cultura e um fator cultural, uma vez que acreditava que a resistência cultural era a mais efetiva forma de resistência: o valor da cultura como elemento de “resistência” ao domínio estrangeiro reside no fato de esta ser a manifestação da realidade material e histórica da sociedade a dominar”. 

Ao examinar-se a obra de Amílcar Cabral, depara-se, imediatamente, com uma personalidade extraordinária: um homem culto, humanista, prático, ativo e guerrilheiro, que escreve sobre poesia e educação. Na vasta obra escrita que deixou, ele desenvolveu reflexões sobre temas que tratam desde a luta pela independência até os que falam sobre a poesia produzida em Cabo Verde, como sobre a cultura e a educação como fundamentos da emancipação.

Foto Valéria Rodrigues

Ela é bamba!

Etiene Martins é mulher preta, graduada nos cursos de Jornalismo Multimídia e Publicidade e Propaganda, especialista em Comunicação e Saúde pela Escola de Saúde Pública de Minas Gerais e mestranda em comunicação e cultura pela UFRJ

Pioneira em diversos espaços, funções e posicionamentos, com toda sua interseccionalidade  como mulher, negra e lésbica em uma sociedade machista, racista e homofóbica, Leci mostra a que veio. Além de não deixar o samba morrer  com suas composições que fazem sucesso em todas as rodas de samba do país, ela defende os direitos humanos nos palcos e no plenário da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, estado esse que a elegeu deputada estadual. 

Carioca da gema, foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Escola de Samba Acadêmicos da Mangueira, sua escola de coração. Foi a primeira cantora a se declarar homossexual publicamente, numa entrevista, em 1978, para o jornal “Lampião da Esquina” e, em  , foi eleita com 85 mil votos fazendo história, sendo a segunda mulher negra a ocupar um gabinete representando o povo no legislativo estadual. Em seu terceiro mandato consecutivo no estado que tem o maior número de deputados e deputadas do país, Leci recebeu a jornalista da Revista Canjerê em seu gabinete na ASLESP e contou um pouco da sua história.

“Eu sou uma pessoa sem formação acadêmica porque não frequentei faculdade, não tenho diploma de nada. Frequentei o ginásio e só. Tentei até fazer comunicação há muito anos, mas acabou que não foi possível. Com essa coisa de necessitar trabalhar e ser  responsável por família foi inviável”.

Racismo

 A primeira situação de racismo que senti frente a frente aconteceu  quando eu fui para o Colégio Pedro II onde não havia outras pessoas  negras na turma além de mim. Os alunos ficavam me olhando e dizendo “tizil”. Eu não entendia o que era isso. Um dia uma amiga chegou e me disse: 

Leci, isso  aí é com você.  Eu perguntei: O quê que é isso? Ela me respondeu que era um passarinho preto chamado Tizil. Eu nem sabia que tinha um passarinho com esse nome. Eu era a única pretinha da turma e me lembro que eu usava duas trancinhas. Eu me lembro também que falei com o inspetor da turma, naquela época tinha inspetor, ele reuniu a turma toda, deu um sermão e falou: “se ela está aqui é tão inteligente como vocês. Ela fez concurso e passou e se passou é porque teve competência pra passar”. A primeira situação de racismo que enfrentei foi dentro da sala de aula. 

Sempre com a questão da música na minha, vida eu tento superar o racismo. Eu já fazia paródias. Fiz uma música para uma colega de escola que se candidatou a liderança do  Grêmio Estudantil. Eu fiz a música para a Marilda Manuel, lembrei aqui o nome dela. Eu transformei uma música da época  que era sucesso com um cantor chamado Sérgio Murilo. A música chamava Broto legal.  A Marilda era da chapa Pedro II e, por causa da música, a menina ganhou. Fui conseguindo me destacar.

Desde então, ficou todo mundo de olho em mim porque eu fazia paródia e descobriram que eu cantava. Assim, quando tinha as festas dos dias dos professores, me colocavam para cantar e comecei a me destacar por ser a pessoa que animava as festas do colégio. Depois eu fui para o clássico, mudei de prédio porque na Tijuca só tinha o pessoal chamado Maracangalia  que eram os alunos que iriam até o ginásio. Quando você passava para o clássico e para o cientifico, você tinha que ir lá para a avenida Marechal Floriano onde ficava a grande sede do colégio Pedro II. 

Músicas autorais

A primeira música autoral minha nasceu em razão de uma decepção amorosa. Eu me apaixonei por um rapaz da marinha. Ele estava com compromisso com uma outra moça que estava esperando um filho dele e eu não sabia. Nós estávamos namorando há uns quatro meses. Ele ia lá em casa e namorávamos na sala. Fomos ao cinema duas vezes durante um namoro que eu acreditava ser legal. Um dia,  ele ligou para a escola onde eu morava me disse exatamente essa frase: “Eu vou me casar  em outubro. Eu não falei nada, mas eu vou me casar com ela em outubro porque ela está gravida”. Eu fiquei em choque e comecei a chorar, chorar. Eu fiquei mal, muito mal. O primeiro sofrimento de amor da minha vida foi por causa desse rapaz e por causa dele e fiz o meu primeiro samba, eu me descobri compositora por causa de uma fossa que eu tive em 1965 ou 1966. Foi uma coisa que mexeu muito com a minha cabeça e comecei a fazer música sobre tudo. Sobre o dia a dia, sobre as situações das pessoas que eu conhecia, situações que eu via na rua, e a maioria das músicas tinham uma conotação social. O pessoal dizia que eu fazia música de protesto, que protesto? Eu não sabia que era protesto. Assim minha questão musical começa com o sofrimento.

Sobre a música Zé do Caroço, eu a fiz quando estava dirigindo. Vindo da Zona Sul pra Tijuca, comecei fazer o samba. Eu lembro que as pessoas olhavam pra mim achando estranho porque eu estava  compondo sozinha, cantando e falando. Na hora, eu não tinha um gravador disponível e como eu sou compositora intuitiva, fui cantando até chegar em casa para não esquecer. Cheguei, peguei o gravador e registrei, pois senão eu corria o risco de perder a letra. Eu não sabia que anos e anos depois, no segundo milênio,  a música fosse dá no que deu. 

Zé do caroço foi feita 1978 e só foi gravada 1985 porque ele foi recusado pela minha gravadora. Quando a apresentei, o repórter e me disse que eu estava fazendo um repertório muito pesado. Eu não gravei quando a música foi feita, não consegui gravar. O primeiro grupo que gravou o Zé do Caroço foi o Art Popular em seu primeiro LP, acho que em 93.

O Zé do Caroço é uma história real. Ele morava realmente no Pau da Bandeira, um morro que existe lá no Rio de Janeiro. Zé do caroço ligava o serviço de alto falante  dele por volta de sete, oito da noite. Naquela época, a novela da Globo começava às oito horas mesmo e na rua Petrocochino havia vários prédios e em um desses morava uma família, em que havia um militar . Eles queriam assistir a novela sem  barulho nenhum porque o serviço de alto falante faz barulho. Então, fizeram uma campanha para retirar o serviço de alto falante do morro, mas não conseguiram, porque a comunidade do morro se pronunciou e a polícia não conseguiu encerrar a prática.

Política

Eu não procurei a política, eu fui convidada para ser candidata do PCDOB. Foi o Netinho de Paulo e o Orlando Silva que tiveram a ideia de me trazer. Eu não aceitei no primeiro momento. Eu falei com meu empresário que eu não queria saber de política, eu já dava meu recado através da música e não queria entrar nessa coisa. 

Eu fui ao terreir de axé, ligado à religiosidade de matriz africana, saber o que era isso que estavam me propondo.  A resposta espiritual que recebi foi a de que eu estava fazendo a defesa do seu povo musicalmente, mas agora estava na hora de  eu aceitar um novo desafio. Obedeci e fui eleita em 2010 e depois, reeleita em 2014, em 2018. Eu estou aí no terceiro mandato.

Fundação Palmares

Sobre essa instituição federal, Leci nos relata: “Eu fico muito envergonhada com o que está acontecendo com a Fundação Palmares porque quando ela foi criada, eu estava lá,  com o Presidente Sarney. Foi um momento muito legal para a cultura negra e para os artistas. Eu também estava na lista de pessoas homenageadas. O que me espanta é o fato de o atual presidente  não ter nenhuma noção da importância do debate sobre racismo, e faz questão de não ser o que a gente precisava que ele fosse: uma pessoa com o DNA da negritude, uma pessoa que entendesse as nossas lutas, as nossas conquistas, as nossas necessidades, mas, no entanto, ele só faz coisa para derrotar a gente. Mas ele é pau mandado desse cara aí, porque eu não falo o nome desse presidente, eu não consigo falar o nome dele. Eu falo desgoverno”, finaliza.

Foto José Antônio Teixeira

espetáculo “Traga-me a cabeça de Lima Barreto!”, com interpretação de Hilton Cobra

HILTON COBRA REFLETE SOBRE LOUCURA, RACISMO E EUGENIA

O espetáculo “Traga-me a cabeça de Lima Barreto!”, com interpretação de Hilton Cobra, dramaturgia de Luiz Marfuz e direção de Onisajé (Fernanda Júlia), foi apresentada na noite de ontem, dia 6 de dezembro, no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte. A ação do ator, que é fundador da Cia dos Comuns, integra o 11º Festival de Arte Negra de Belo Horizonte (FAN BH 2021)

Livremente inspirada na obra de Lima Barreto (1881-1922) – especialmente nos títulos “Diário íntimo” e “Cemitério dos vivos”-, “Traga-me a cabeça de Lima Barreto!” reúne trechos de memórias impressas nas obras do escritor, que são entrecruzados com livre imaginação. O texto fictício tem início logo após a morte de Lima Barreto, quando eugenistas exigem a exumação de seu cadáver para uma autópsia a fim de esclarecer a seguinte questão: como um cérebro inferior poderia ter produzido tantas obras literárias se o privilégio da arte nobre e da boa escrita é das raças superiores? A partir desse embate, a peça mostra as várias facetas da personalidade e genialidade de Lima Barreto, sua vida, família, a loucura, o alcoolismo, sua convivência com a pobreza, sua obra não reconhecida, racismo, suas lembranças e tristezas.

Escrito para comemorar os 40 anos de carreira de Hilton Cobra, o monólogo conta com trechos dos filmes “Homo sapiens 1900” e “Arquitetura da destruição, ambos cedidos pelo cineasta sueco Peter Cohen – que mostram fortes imagens da eugenia racial e da arte censurada pelo regime hitlerista. Lázaro Ramos, Caco Monteiro, Frank Menezes, Harildo Deda, Hebe Alves, Rui Manthur e Stephane Bourgade emprestam a voz para a leitura em off de textos de apoio à cena.

Além de ser fundador da Cia dos Comuns, Hilton Cobra foi nomeado presidente da Fundação Cultural Palmares em 2013 e dirigiu o Centro Cultural José Bonifácio de 1993 a 2000. Nesse período, foi responsável pela criação de projetos como Nossas Yabás, “Projeto Griot” e “Zumbi Rio – 300 Anos”. Mais tarde, fundou o grupo de artistas negros Akoben.

Toda a programação do FAN BH 2021 é gratuita. O evento é realizado cumprindo todos os protocolos de combate à covid-19 vigentes em Belo Horizonte. O festival é uma realização da Prefeitura de Belo Horizonte, a partir da Secretaria Municipal de Cultura, Fundação Municipal de Cultura, em parceria com o Centro de Intercâmbio e Referência Cultural (CIRC).

Foto: Pâmela Bernardo

CONTOS, CANTOS E BATUQUE REVERENCIAM A ANCESTRALIDADE E MARCAM O SEGUNDO DIA DO FESTIVAL DE ARTE NEGRA DE BELO HORIZONTE

Na noite do último domingo, 5, o batuque de Ermi Panzo em “A Voz do meu corpo africano bantu” no Teatro Marília formaram uma melodia eufórica em reverência aos ancestrais. Na performance, o artista angolano apresentou suas vivências sobre a arte e cultura africana na diáspora em um experimento refletiu criatividade, protagonismo negro a partir da cultura do matriarcado e saudação a grande mãe África.

O artista angolano Ermi Panzo, residente em São Paulo, encerrou o segundo dia do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte. Entre contos, cantos e batuques, a apresentação de  Ermi Panzo  “As práticas ancestrais são pautadas no princípio do fazer. Para nós, bantús, os batuques são diálogo e a melodia eufórica é reverência aos ancestrais. Há um portal lá em cima”, afirma.

Ermi Panzo é um artista polivalente: escritor, poeta declamador, consultor e estruturador de textos literários, coreógrafo, bailarino e performer. Em Angola, seu país de origem, coordena o Projeto Carta e é membro do Movimento Berço Literário. No Brasil presidiu palestras, workshops em instituições como SESC e Universidade Federal de Santa Catarina. É Campeão do 1º Concurso de Palavra Falada de Angola e um dos 8 melhores poetas do festival The Spoken Word Project, realizado pelo Goethe Institut de Joanesburgo.

Toda a programação do FAN BH 2021 é gratuita. O evento é realizado cumprindo todos os protocolos de combate à covid-19 vigentes em Belo Horizonte. O festival é uma realização da Prefeitura de Belo Horizonte, a partir da Secretaria Municipal de Cultura, Fundação Municipal de Cultura, em parceria com o Centro de Intercâmbio e Referência Cultural (CIRC)., CANTOS E BATUQUE REVERENCIAM A ANCESTRALIDADE E MARCAM O SEGUNDO DIA DO FESTIVAL DE ARTE NEGRA DE BELO HORIZONTE

Na noite do último domingo, 5, o batuque de Ermi Panzo em “A Voz do meu corpo africano bantu” no Teatro Marília formaram uma melodia eufórica em reverência aos ancestrais. Na performance, o artista angolano apresentou suas vivências sobre a arte e cultura africana na diáspora em um experimento refletiu criatividade, protagonismo negro a partir da cultura do matriarcado e saudação a grande mãe África.

O artista angolano Ermi Panzo, residente em São Paulo, encerrou o segundo dia do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte. Entre contos, cantos e batuques, a apresentação de  Ermi Panzo  “As práticas ancestrais são pautadas no princípio do fazer. Para nós, bantús, os batuques são diálogo e a melodia eufórica é reverência aos ancestrais. Há um portal lá em cima”, afirma.Ermi Panzo é um artista polivalente: escritor, poeta declamador, consultor e estruturador de textos literários, coreógrafo, bailarino e performer. Em Angola, seu país de origem, coordena o Projeto Carta e é membro do Movimento Berço Literário. No Brasil presidiu palestras, workshops em instituições como SESC e Universidade Federal de Santa Catarina. É Campeão do 1º Concurso de Palavra Falada de Angola e um dos 8 melhores poetas do festival The Spoken Word Project, realizado pelo Goethe Institut de Joanesburgo.

Toda a programação do FAN BH 2021 é gratuita. O evento é realizado cumprindo todos os protocolos de combate à covid-19 vigentes em Belo Horizonte. O festival é uma realização da Prefeitura de Belo Horizonte, a partir da Secretaria Municipal de Cultura, Fundação Municipal de Cultura, em parceria com o Centro de Intercâmbio e Referência Cultural (CIRC).

Foto Paulo Oliveira