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Samira Reis: Uma história de superação e de busca por espaços

Por Roger Deff, rapper e jornalista

Jornalista, colaboradora da revista Canjerê e modelo, a mineira nascida em Divinópolis, Samira Reis, escolheu BH como sua segunda casa. Determinada em relação aos seus objetivos, enfrentou os desafios colocados à sua frente com disposição e otimismo.

Sua história, assim como a de outras mulheres negras brasileiras, é de superação e de busca por espaços. Numa sociedade marcada pela invisibilidade de grupos sociais como mulheres e afrodescendentes, ela escolheu caminhos nada fáceis que vão justamente na contramão tanto da invisibilidade quanto do silenciamento comumente impostos.

O anseio por novos caminhos fez com que ela se torna uma das primeiras da sua família a entrar para uma faculdade. “Fui a segunda a ingressar na academia. Do lado materno, tenho um tio formado em Letras. Quando falo sobre isso, retomo ao abismo em que vivemos.

Minha mãe tem cinco irmãos, sendo dois falecidos. Somente um conseguiu entrar em uma faculdade. Meu pai tem nove irmãos, e nenhum teve essa experiência”, conta, enfatizando que esse núcleo foi o que incentivou outros da sua família a continuarem seus estudos.

Apaixonada por TV, dedicou seu aprendizado na faculdade a essa área em especial e, após formada, foi coordenadora do laboratório da TV universitária da instituição em que estudou.  Mais tarde, mudou-se para Belo Horizonte, onde foi repórter institucional de uma universidade, experiência que lhe rendeu vários aprendizados, além de ter estreitado suas relações com o movimento negro.

“Amadureci profissionalmente e como pessoa, mulher negra. Quebrei tabus comigo, alguns que me cercavam e fui cada vez mais adentrando nas pautas do movimento negro. A capital mineira me presenteou de várias maneiras, à qual sou grata”, enfatiza.

Ainda adolescente, antes mesmo de ocupar a academia num curso de comunicação, Samira Reis atuou também como modelo, outro desafio, uma vez que são lugares onde a idéia de beleza está predominantemente ligada a uma estética européia. “Atualmente faço poucas coisas na área. Mas percebo que essa mentalidade da magreza, altura e beleza europeia ainda permeia as agências brasileiras”, conta.

O teatro foi outra das suas experiências, e antecedeu as duas carreiras que vivenciou na fase adulta. Samira lembra que fazia teatro em sua cidade natal desde os 12 anos de idade e se descreve como uma “apaixonada pelos palcos, pelos desafios de encarar novos personagens”.

Aos 16, ingressou num curso de modelo e confessa que essa perspectiva a deixava um pouco assustada, mas tomou gosto pelo trabalho com o tempo. “Aos poucos, fui ganhando gosto pela coisa. Minha altura era meu forte e me permitia destacar nos trabalhos em que era escalada. No entanto, passei pela pressão do corpo magro, de encarar roupas feitas para um único biótipo”, recorda.

O sonho de atuar profissionalmente como modelo a levou até a capital paulista, onde conheceu algumas agências e pôde ver de perto o quanto aquele mercado era competitivo e restrito. Ao retornar para sua cidade, o foco foi a faculdade onde pôde mergulhar mais naquela que seria uma das suas grandes vocações profissionais: o jornalismo.

Foto: Mateus Dias

 

Literatura e Música estão no DNA do Cabo–Verdiano

Por Rosália Diogo, professora, pesquisadora, curadora do Casarão das Artes, gestora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado

 

Vera Duarte Valentina Benrós de Melo Duarte Lobo de Pina (Vera Duarte) é cabo-verdiana. Escritora, juíza desembargadora, exerceu até março de 2010 as funções de Ministra da Educação e Ensino Superior e foi presidenta da Comissão Nacional para os Direitos Humanos e Cidadania, conselheira do Presidente da República e juíza conselheira do Supremo Tribunal de Justiça, entre outras funções.

A sua primeira obra como escritora foi a publicação Amanhã Amadrugada(1993),  em seguida publicou O Arquipélago da Paixão (2001), A Candidata(2004), Preces e Suplícas  ou os Cânticos da Desesperança (2005), Construindo a Utopia, além de temas e conferência sobre direitos humanos(2007).

Em novembro de 2017, ela voltou a Belo Horizonte para participar da Festa  InternacionalAfroliterária – FLIAFRO, inciativa da Nandyala Editora Livraria e Instituto.  De maneira muito carinhosa e gentil, Vera recebeu a equipe do Casarão das Artes.

Ao falar sobre a atual conjuntura econômica e política de Cabo Verde, elanos revela que a ilha de Cabo-Verde é pequena, localizada na Costa Ocidental Africana, no Oceano Atlântico, próxima de Senegal e de Guiné-Bissau.  Segundo Vera, quando os portugueses chegaram naquele território, em 1460, a ilha era desabitada, e rapidamente, entre 1960 e 1962, as ilhas foram povoadas.

Panorama Político e econômico

Vera Duarte, nesta passagem por Belo Horizonte, nos posiciona historicamente, que Cabo Verde funcionou como entreposto entre as américas e a África, lugar de onde escoavam animais, mercadorias e homens e mulheres que eram transportados na condição de escravizados.

Segundo ela, o seu país tornou-se uma sociedade que se formou de fora para dentro – negros e negras que vieram de outras partes da África trazidos de fora, alguns europeus.  Ela informa que a maior parte das esposas dos homens portugueses não foram com eles para a ocupação da ilha.

Assim, esses homens se relacionavam sexualmente com as negras que lá estavam, o que justifica a formação étnica mestiça no fenótipo, na gastronomia, na religiosidade, sobretudo, na questão do sincretismo.

Ela nos informa que a sociedade escravocrata que ali se formou foi amplamente constituída de escravizados trazidos de outras regiões do continente africano.

Segundo Vera, a independência de Cabo Verde foi efetiva, desde 1975. Para essa conquista, a experiência dos guerrilheiros de seu país, que estavam no front de guerra pró independência do Guiné Bissau, ocorrida em 1974 foi fundamental.

Ela conta que o movimento de 25 de abril de 1974 devolveu a democracia a Portugal e que também foi uma importante contribuição para o processo libertário do seu país.  E, desde então, tudo vai muito bem, obrigada, pois a nação de Cabo Verde é “assinalada por estatísticas mundiais como o segundo país mais bem governado na África, bem como um modelo de prática da liberdade de imprensa, um dos países mais livres do mundo, diz ela.

Um relato muito importante que Vera Duarte faz sobre a história do seu país, por volta de 1947-1948, informa que a população estava passando fome. E, para atenuar a situação, muitas pessoas foram trabalhar nas plantações em São Tomé e Príncipe, país/ilha vizinha, praticamente na condição de escravização. No entanto, a partir da independência, a situação econômica tem se mantido estabilizada no país.

Do ponto de vista do comando partidário, ela diz que o partido revolucionário que conquistou a independência do país, e se manteve na condução da nação durante quinze anos, se submeteu ao sufrágio universal.

Explica que, de maneira democrática, tem ocorrido alternância para a gestão política do país, o que é uma vantagem muito boa em comparação ao que ocorre politicamente em outras antigas colônias.

O nível de educação atingiu o acesso universal, e essa condição foi atingida até mesmo antes da data limite, tendo como referência os objetivos do milênio.

Cabo Verde é um país,de certa forma, pobre economicamente, segundo ela, pois não tem recurso mineral, por exemplo. No entanto, o povo é trabalhador e enfrenta o trabalho no campo com muita boa vontade, embora a chuva não é farta.

No entanto, muitos cabo-verdianos migram para outros países e conseguem enviar remessas para os seus familiares, contribuindo, assim, para a qualidade de vida deles. Outra forma encontrada pelo país para angariar recurso é o turismo.

Segundo Vera, “estamos a buscar o caminho do desenvolvimento econômico mais amplo, ainda que a Organização das Nações Unidas  considere que Cabo Verde é um país em desenvolvimento”.

 

Literatura

Vera Duarte é presidenta da Academia Cabo-Verdiana de Letrase  se mostra bastante feliz quando esse tema lhe é apresentado. Ela diz que a literatura e a música estão no DNA do cabo-verdiano. Para ela, desde o momento que se iniciou o povoamento, houve escrita no país, com a escrita administrativa, relato dos processos de escravização.

No entanto, foi a partir do século dezenove, 1842, com o advento da instalação da Imprensa Nacional, e das Escolas Maternais, que surgiram o fenômeno da literatura criativa. Para ela, a literatura é o meio mais potente de se tratar a realidade.

O primeiro romance que trata de temática alusiva ao país de que se tem registro é de 1856, de José Evaristo de Almeida – O Escravo. A obra descreve, com minúcias, o que foi a situação de escravatura, sobretudo na Ilha de Santiago,que foi o local em que a escravização foi mais acentuada,por ter sido a primeira a ser descoberta, habitada. Portanto, foi a ilha que mais sofreu.

Ela denuncia que as mulheres não têm o mesmo destaque midiático na literatura, como é o caso do homem, mas é potente e crescente a produção literária de mulheres em seu país.

Vera demarca que foi justamente após a independência do país que a escrita das mulheres ganhou a amplitude necessária.  Para Vera, o governo Lula, com a implementação da Lei 10639/03, contribuiu de maneira acentuada para que a literatura produzida por mulheres negras, incluindo as africanas, fossem melhor acessadas no Brasil.

Relação entre homens e mulheres em Cabo Verde

Para nos responder a pergunta sobre como é a relação das mulheres no que se refere ao usufruto dos seus direitos, ela cita a filósofa Ana Arendt “os direitos humanos não estão dados, e sim, em construção”.

Assim acrescenta que desde a independência, a luta pelo direito à igualdade, ao direito humano, à igualdade em todos os campos das relações societárias é contínua. Considera que, em muitas pautas, o país se encontra à frente do Brasil nas conquistas dos direitos da mulher como, por exemplo, no que se refere à interrupção da gravidez.

Em Cabo Verde, desde o século passado, é legalmente aceito que a mulher faça tal interrupção, com até doze meses de gestação, e com o consentimento do pai da criança.

Outro quesito que foi alterado na legislação do casamento no país é o que se referia à nomeação do homem como chefe de família. Para quebrar com essa referência patriarcal, essa condição não existe mais.

A lei atual prega que o casamento se trata em união voluntária entre dois seres iguais, portanto foi dado o mesmo papel para o homem e para a mulher.   Ela foi a primeira mulher a entrar para a magistratura no país, e hoje o país conta com um número paritário de magistrados homens e mulheres.

Vera Duarte considera essa realidade um grande avanço no que se refere às relações entre os sexos no país.

Vera informa que na educação também o país alcançou uma paridade entre meninas e meninos no processo de escolarização. O seu romance A Candidata(2004), discorre, em sua narrativa, sobre as conquistas das mulheres, sobre o seu direito de ser candidata à felicidade, à liberdade, ao amor, às escolhas, a ser sujeito, e não objeto.

Racismo em relação ao negro no Brasil

Para ela, o racismo no Brasil é um problema que sangra, poisa maior parte dos africanos que ela conhece não têm dimensão de como o país é racista em relação ao povo negro.

Ela diz que os africanos são solidários com os negros brasileiros na medida que foram os ancestrais africanos que chegaram aqui, na situação de escravizados, portanto há um sentimento de pertencimento e identificação muito grande entre africanos e brasileiros negros.

Assim, registramos mais uma rica contribuição de uma voz africana no, e sobre o Brasil!

Tia Elza: “Quando ouço a batida do Surdo é como se fosse o meu coração batendo”

Cantora mineira conta sobre o seu amor pelo samba e relembra como tudo começou

Por Sandrinha Flávia – Jornalista, locutora, editora e mestra de cerimônias

Aquela menina, que vivia a cantarolar no banheiro, no quintal e nas ruas de sua casa, atraindo olhares e elogiada por seu timbre de voz marcante, se tornou uma importante representante do samba mineiro.

Elza dos Santos mais conhecida como Tia Elza cresceu em um lar festivo, onde as datas importantes eram sempre motivo para comemorações. Foram dessas reuniões entre familiares e amigos, ao som de um selecionado repertório musical que nasceu aquela que viria a se tornar uma grande cantora de samba.

A inspiração maior para a música, veio da sua irmã Leide Santos que era Croonner de banda. Alguns ensaios dessa banda aconteciam em sua casa.Tia Elza, ainda criança, acompanhava tudo de perto. Seus olhos brilhavam ao ver a desenvoltura e talento de sua irmã interpretando cantoras como, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Núbia Lafayette e tantas outras grandes profissionais da época. Quando não tinha ensaios, a vitrola que comandava o som. Os vinis eram variados, ampliando assim o seu conhecimento musical.

Foi assim que a vontade de cantar foi ganhando força, “Eu ouvia   Elizete Cardoso, Elza Soares, Ângela Maria, Dóris Monteiro, entre outras. Depois apareceram, Alcione, Elis Regina, cantoras que eu me identificava tanto com as vozes quanto com o repertório”. Disse.

Certa vez, quando Tia Elza já estava na fase adulta, seu irmão havia ganhado um violão, prêmio de uma rifa que ele havia comprado fiado. Aquele violão não viria parar naquela casa por um acaso, o instrumento parado no canto daquele quarto a incomodava, então resolveu tomar uma decisão e começar a tocar,

Comprei umas revistas com músicas cifradas e fui tentando tocar até conseguir tirar som. Eu pedia para um vizinho que já tocava afinar o instrumento pra mim e ele fazia. Daí um certo tempo, o vizinho começou a ficar de saco cheio de ter que afinar o violão, e ficava com má vontade, falava que não podia naquela hora, foi aí que eu resolvi que não pediria mais a ele, comecei a me virar”. Conta.

Persistente, Tia Elza foi tentando sozinha até conseguir uma afinação desejada. Já com algumas músicas na ponta da língua e notas musicais em dia, saiu por aí cantando o pouco que já sabia. Era em sua própria casa, ou em casas de amigas e amigos, até que um dia, quando cantava em uma festa, surge o eterno Maestro Ivan Silva.

Quando o maestro ouviu aquela voz, ficou encantado e começou a levar Tia Elza aos lugares onde ele tocava, “Foram momentos de muito aprendizado, depois ele montou um Piano Bar e me levou pra cantar.”

A partir desse momento, estava lançada a cantora que seria mais tarde uma das maiores referências do samba em Minas Gerais. Maestro Ivan Silva, já falecido é sempre lembrado e homenageado nas apresentações da cantora.

Um período muito importante na carreira de Tia Elza, foi quando ela se tornou empresária. O Bar da Tia Elza tinha como foco a música ao vivo onde ela tocava e também contratava outras bandas, “Eu tive bar durante 28 anos voltado para música de qualidade de uma maneira geral, dando oportunidade para músicos iniciantes, e também influenciando algumas pessoas que tomaram gosto pela música acompanhando o meu trabalho.”

A cantora ficou ainda mais conhecida na época do bar e o seu número de admiradores foi crescendo. Alguns músicos que passaram por lá, hoje bem crescidos dizem: eu sou músico por sua causa. Esse tipo de relato emociona a artista, “Isso é pra mim  motivo de muito orgulho, sinto que valeu muito a pena essa minha luta.” Disse.

O seu primeiro CD foi gravado em 2007, no estúdio Toca do Saldanha, produzido e mixado por Renato SaldanhaEm breve iniciará a gravação de um novo álbum no Rio de Janeiro RJ, para isso, Tia Elza já tem várias canções definidas e está em busca de patrocinadores, “Estou a mais de um ano tentando um patrocinador, infelizmente ainda não consegui“. Relatou.

Sobre o cenário musical do samba em minas, Tia Elza acredita que está cada vez mais forte, “Tem muito sambista bom em Minas Gerais e a Juventude está chegando também. Tem muita gente jovem tocando e compondo, não estão perdendo para os tradicionais do país não. Estou muito feliz em vivenciar esse crescimento.”

E por falar em crescimento profissional, recentemente Tia Elza esteve se apresentando no quadro 10 ou 1.000 do Programa do Ratinho no SBT onde arrancou elogios dos jurados.

Ao longo da sua caminhada profissional, Tia Elza já se apresentou ao lado de cantores ilustres como Ataulfo Alves Júnior, Toninho Gerais, Moacir luz, Aline Calixto, Samba na Roda da Saia, etc. Há pouco, se apresentou com Velha Guarda da Portela na cidade do Rio de Janeiro RJ.

No carnaval 2019, Tia Elza é a responsável por puxar o “Bloco do Samba” criado pelo Mundi-Movimento Negro de Divinópolis e participa também do Bloco “Filhas de Clara” na cidade de Belo Horizonte – MG, ao lado das cantoras Aline Calixto e Marina Machado.

Ao responder à pergunta sobre o que o samba significa em sua vida Tia Elza se emociona, “O samba representa pra mim uma força que tira de dentro da gente uma energia contagiante e inexplicável. Quando ouço a batida do Surdo é como se fosse o meu coração batendo, e tem ainda o poder de agregar e envolver as pessoas tanto que ninguém pensa em mais nada a não ser sentir o ritmo e as letras que são muito fortes.” Finalizou.

Foto:

Revisão: Zane Santos

Uma profissão, dois países: uma queniana vivendo no Brasil

Os desafios e o mercado de trabalho na visão de Priscilla Mungai

Por Samira Reis, Jornalista e modelo

O ano era 2014. Época em que Priscilla Nyambura Mungai foi selecionada para integrar a RHI Magnesita, após participar de um programa de trainee global conduzido pela empresa. Natural do Quênia, a engenharia industrial e mestranda em Ciências dos Dados chega ao Brasil com o novo destino: Belo Horizonte.

“Atualmente, trabalho na área de melhoria contínua. Cresci dentro da empresa até minha posição atual, como analista sênior. Trabalho em projetos de melhoria contínua nas fábricas da América do Sul. O objetivo é melhorar a eficiência da produção e também garantir a segurança no local de trabalho”, explica.

Uma das principais dificuldades no início, segundo Priscilla, foi o idioma. O Quênia é um país multilíngue, mas o inglês e o kiswahili são as línguas oficiais. Tanto essa barreira como a distância de familiares e amigos foram, ao longo dos meses, sendo contornados.

O apoio incondicional dos que ficaram estimularam a buscar novas oportunidades e experiências valiosas. “Quando posso visitar o Quênia, sempre volto para o Brasil bastante rejuvenescida e muito apreciativa das minhas raízes africanas e de como minhas experiências passadas são um dos principais fatores que têm e continuarão a contribuir com o meu sucesso. Por isso, espero poder me desenvolver e devolver ao meu país de alguma maneira”, diz.

Inserida em um meio ainda dominado por homens, a engenheira percebe que as brasileiras estão mais capacitadas quando se trata de acesso e oportunidades no local de trabalho quando comparadas às do país de origem.

No entanto, a luta por igualdade nesses espaços são semelhantes. “As mulheres do meu país lutam com os mesmos problemas enfrentados aqui: (especialmente em indústrias historicamente dominadas pelos homens), as diferenças salariais entre homens e mulheres, ter que gerir um lar e desenvolver uma carreira ao mesmo tempo e até mesmo o assédio sexual no local de trabalho. Em ambos os países, o local de trabalho está se tornando mais receptivo às mulheres por causa dos esforços que foram feitos por aquelas que vieram antes de nós. No entanto, ainda há muito mais que pode ser feito”, comenta.

Viver em terras brasileiras também proporcionou um novo olhar sobre ser negro fora do continente africano. A engenheira afirma que a raça de alguém no Quênia não é uma questão primordialmente discutida ou focada dentro da sociedade. No entanto, tem conhecimento de como esse assunto impacta na realidade do Brasil.

“Esta experiência me fez muito mais consciente do que significa viver a experiência negra fora da África, além de me fazer muito apreciativa do meu país, onde nunca precisei questionar se minha raça é um impedimento para uma boa educação, para oportunidades de carreira, ou até mesmo se eu me encaixo num padrão de beleza em termos de cabelo e cor de pele”, assinala.

Ver mais mulheres, consequentemente mulheres negras sendo reconhecidas nas respectivas áreas de atuação também é um sonho de Priscilla. A busca pela educação, o foco no potencial, e por acreditar na necessidade de um ambiente de trabalho diverso, fizeram toda a diferença para as conquistas. Mesmo que seja necessário romper barreiras.

Mais importante ainda foi o fato de não nos esquecermos de trazer outras mulheres conosco. Ao nos preparar para as oportunidades através do estudo e da prática, podemos provar que também somos habilidosas no que fazemos e que abraçar a diversidade não significa comprometer a excelência. Trabalhe o que for necessário e nunca duvide da sua capacidade de ser uma inovadora, uma líder ou uma fabricante de mudanças”, frisa.

Foto: Letícia Souza

 

 

 

 

 

Ela não adormece. Está em constante movimento

Por Samira Reis, Jornalista e Modelo

 

“A noite não adormecerá

jamais nos olhos das fêmeas

pois do nosso sangue-mulher

de nosso líquido lembradiço

em cada gota que jorra

um fio invisível e tônico

pacientemente cose a rede

de nossa milenar resistência.”

O trecho faz parte do poema “A noite não adormece nos olhos das mulheres”, da escritora mineira Conceição Evaristo. Reconhecida internacionalmente por obras como Ponciá Vivêncio e Insubmissas Lágrimas de Mulheres, é uma das grandes referências literárias do nosso país e, também, inspiração para a professora e jornalista Rosália Diogo, estudiosa da vida e obra de Evaristo desde 2008.

“A contundência com a qual ela trabalha em sua produção literária os temas da negritude e da mulher negra, me afetaram no momento e ainda me afetam, profundamente. Ao ingressar no curso de doutorado, em 2009, estava completamente apaixonada pela sua vida e obra, de tal modo que foi muito tranquilo escolher o seu trabalho para pesquisa, em análise comparada com a vida e obra da escritora moçambicana, Paulina Chiziane”, explica.

Desde então, Rosália se tornou referência na capital mineira sobre as publicações da escritora, como também é reconhecida por ocupar espaços importantes e trazer à luz debates necessários ao combate ao racismo, ao machismo, à valorização da cultura africana e afro-brasileira.

O Festival de Arte Negra de Belo Horizonte – FAN BH – é um dos exemplos dessa trajetória. “O meu envolvimento com o Festival de Arte Negra, FAN, ocorreu em 2015, quando fui convidada para ser uma das curadoras da 8ª edição. No FAN 2017, fui uma das coordenadoras e, atualmente, exerço o mesmo papel na medida que sou Conselheira Municipal de Cultura, representando a Secretaria Municipal de Cultura/Fundação Municipal de Cultura. Uma das agendas que devemos garantir institucionalmente é a realização do FAN. Como expectadora do festival, desde 1995, considero que ele tem cumprido o papel de dar visibilidade às produções culturais de matriz africana em disputa com a produção cultural de outros continentes, sobretudo o europeu”, comenta.

Outro feito consolidado na capital mineira por Rosália é a criação da Revista Canjerê. A publicação é construída pela equipe do Casarão das Artes, coletivo que reúne profissionais de diferentes áreas em prol da cultura afro-brasileira.

O ensejo teve início em 2014, quando morava na Espanha para cursar pós-doutorado. “Convivi mais de perto com uma querida amiga, a artista e filósofa brasileira, que vive por lá, faz alguns anos, Angélica Sátiro, que coordena a Revista Crearmundos, fonte de inspiração.  Quando retornei ao Brasil, em 2015, fiz a proposta de criação da Revista Canjerê para a equipe do Casarão das Artes, que é composta por artista plástico, designers, jornalistas e pesquisadores. Ou seja, a mão de obra para a produção da revista estava pronta e com o aceite de todas as pessoas, a revista se tornou uma linda realidade”, afirma.

Além de atuante no movimento negro, Rosália sempre esteve envolvida com a educação desde a metade da década de 80. No exercício da profissão, compreendeu a importância de desconstruir o racismo nesse ambiente: “Sob à luz dos ideários políticos, protagonizados principalmente pelo educador Paulo Freire, fiz parte da diretoria de duas escolas: uma na região de Venda Nova, nos anos de 1990, outra no bairro Ipê, região Nordeste, nos anos 2000”.

Uma caminhada com início em Nanuque, norte de Minas, trilhada com garra em Belo Horizonte e, agora e sempre, semeando o mundo. Mas não se engane; é apenas o começo.

“Esse meu corpo negro ativista, ideológico, está em constante movimento. Os meus passos vem de longe e vão para muito mais longe, em busca da liberdade, da emancipação das pessoas que estão sendo subjugadas pelo sistema capitalista, machista e classista,Yansã, minha mãe! Eparrey, Oyá!!”.

 

Foto: Ricardo Laf

Arte de resistência – Entrevista com Viki Style, referência do Hip Hop uruguaio

Jovem militante do hip hop faz da arte de rua uma ferramenta de transformação social

Por Roger Deff , MC, jornalista, integrante da banda Julgamento. Atualmente apresenta e produz o programa Rimas e Recortes veiculado pela Rádio Inconfidência.

Militante do Hip Hop desde 2002, a artista uruguaia Viki Style vivencia na prática 3 dos 4 elementos dessa cultura (o Hip Hop é formado pelos elementos DJ, grafitti, MC e break), sendo rapper, b-girl e grafiteira, além de atuar como professora e palestrante em eventos culturais nas Américas do Sul, Central e Europa.

Toda essa experiência fez com que essa jovem nascida em Montevideo tivesse uma visão mais ampla do papel e da representatividade da cultura de rua para os povos da América Latina.

O Hip Hop nasceu em agosto de 1973, em Nova York no Bronx. A gênese dessa cultura que hoje dialoga com jovens de todo mundo se deu quando os imigrantes jamaicanos, os irmãos Clive e Cindy Campbel (o primeiro se tornaria o lendário DJ Kool Herc) fizeram uma festa para arrecadar fundos para a compra de materiais escolares.

Aquele evento despretensioso realizado na Avenida Sedgwick, 1.520, foi o ponto inicial do movimento que, só mais tarde, se chamaria “Hip Hop”, quando em 12 de novembro de 1974 Áfrika Bambaataa criou a Zulu Nation, a primeira instituição oficial da cultura de rua, adotando como princípios o conhecimento, a paz, o amor, a união e a diversão.

Não demorou muito e a cultura se espalhou por todo o planeta dando voz a jovens oriundos das minorias sociais. Assim como no Brasil, a chegada do Hip Hop nos demais países da América Latina mudou radicalmente o modo de vida dos jovens nas periferias. E foi assim no Uruguai.

Virginia Sequeira (30 anos), nascida em Montevidéu mas criada em Toledo/Canelones, atua hoje sob a alcunha de Viki Style. Ela tornou-se uma das principais referências do Hip Hop em seu país, circulando por diversos países e criando conexões com hip-hoppers de outras nacionalidades.

Viki vê a arte como ferramenta essencial para o aprendizado e para a mobilização social e tem utilizado o Hip Hop nesse sentido, através da dança, da música e das aulas que promove, incentivando discussões, bem como o surgimento de outros e outras artistas e lideranças tão essenciais à continuidade e crescimento do movimento.

O Começo…

Como e quando foi o seu início na cultura hip hop?

Meu início no Hip Hop se deu em 2002. O primeiro elemento que vi foi o breaking (a dança), quando vi B. boys dançando na festa da escola e, mais adiante, conheci o rap, desde então, comecei a escrever, a improvisar. O primeiro elemento que pratiquei foi o rap, depois, em 2009, fui para o break e, mais adiante, o graffiti, em 2015. Atuo com trabalhos sociais desde 2007.

Na maioria dos países, o Hip Hop chegou através da mídia, e o cinema foi fundamental para essa difusão. No Brasil, por exemplo, o filme que deu o start para essa cultura foi Flash Dance, de 1983. Como foi no Uruguai?

A cultura de rua chegou aqui através da televisão, dos videoclipes e dos filmes. Quando a democracia se restabeleceu, pessoas que foram exiladas, ao voltarem para o Uruguai, contribuíram também para o fortalecimento do Hip Hop no país, por trazerem elementos da cultura.

E quais artistas, grupos, você apontaria como precursores do Hip Hop no seu país?

Destaco nomes representativos como o grupo do rap VDS Victimas del Sistema, no grafiti foi o KNCR Crew e no breaking o grupo Dinamic Bboys, trabalhos cuja importância despertaram ainda mais minha atenção e interesse pelas artes do hip hop.

Ao longo dos anos, você realizou viagens por diversos países e pode perceber as dificuldades enfrentadas por pessoas que escolheram essa cultura. Quais são os desafios e dificuldades em comum, na sua opinião?

As dificuldades relacionadas à cultura Hip Hop estão presentes em todos os lugares. Na América Latina, como um todo, o Hip Hop está mais relacionado ao sentimento e à vivência do que à indústria. Em alguns países, a cultura está apontando para o mercado, mas mantendo a raiz forte da autogestão e da luta.

Há quem não compreenda as dimensões políticas e sociais da cultura de rua, embora sua origem e tudo o que ela traz aponte para outros caminhos. Como você vê essa dimensão de luta política do hip hop?

Para mim, o Hip Hop é um movimento de luta a resistência e é assim que tem que se manter, como ferramenta de reivindicação. O Hip Hop como ferramenta social cumpre um papel fundamental. É um movimento de luta, por isso todas as minorias encontram no Hip Hop um refúgio, uma voz, uma forma de traduzir suas mensagens, uma maneira de reivindicar seus direitos, de expor situações de desigualdade. Todos grupos minoritários estão vivendo em opressão e podem encontrar um abrigo no Hip Hop, uma maneira de enviar sua mensagem e expor a sua situação, lutar por igualdade, melhores condições e direitos.

Sobre a luta feminista você percebe o reflexo dentro do Hip Hop?

É mais uma luta importante que amplifica sua voz dentro e através da cultura. Eu fico muito feliz por ver que mais mulheres estão habilitadas através de suas vozes, seus corpos, suas ideias, ver essas expressões traduzidas para qualquer tipo de arte. E se isso ocorre através de algum dos elementos do Hip Hop é ainda mais importante para mim porque é algo que eu compartilho,

Sobre o rap produzido no Brasil, quais trabalhos você conhece e como eles chegaram até você?

O rap brasileiro não é muito difundido aqui, mas tive contato com ele porque minha família residente ao norte do Uruguai, fronteira com o Brasil, então falam muito “portunhol”. Foi então que, durante as férias lá, que conheci artistas como Racionais, MV Bill, Sabotage, Gabriel, o Pensador, Rapadura, Criolo e Planet Hemp, Marcelo D2 que, inclusive, esteve algumas vezes no Uruguai.

Em setembro de 2018, você esteve em Belo Horizonte para participação no evento Música Mundo, dedicado à circulação mundial da música. Na ocasião, lembro que você pode conversar com MCs, B.boys e B.girls da cidade. Quais são suas impressões relativas ao Hip Hop na capital mineira

O Hip Hop em Belo Horizonte me pareceu muito organizado. Muito grafitti, muita arte urbana. Muita gente ativa que mantém os espaços e que já tem uma trajetória. Vi que é uma cultura muito bem difundida e que são grupos bem constituídos. Vi uma veia cultural muito interessante em nível de Hip Hop.

E quanto aos projetos futuros Viki, são mais ligados à dança ou à música? 

Sobre os projetos futuros, quero seguir viajando, conhecendo lugares e pessoas, compartilhando e enriquecendo minha vivência com o Hip Hop e a cultura de outros lugares e levar minha experiência e vivência a esses mesmos lugares. Pretendo lançar um disco, que já está pronto, com o nosso grupo de rap feminino, o S.A.K (se armó kokoa) e, em breve, até o fim do ano, teremos lançamento de disco e videoclipe. Disco tanto virtual quanto físico. É um trabalho que vem sendo produzido há cerca de 12 anos e contém temas ligados ao momento atual, em âmbito nacional e internacional. Este é o projeto mais interessante no qual estou envolvida no momento.

Crédito fotográfico: Maria Noel

Abertura do FIT. Foto: Ricardo Laf

Diversidade nos palcos do FIT-BH

Por Naiara Rodrigues, jornalista e assessora de imprensa

Pensar o corpo como uma língua e o seu lugar na construção de discursos. Esta foi a ideia do conceito “corpos-dialetos”, proposta pela curadoria de Grace Passô, Soraya Martins e Luciana Romagnolli junto de mais três curadores-assistentes para a 14ª edição do FIT-BH, Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte. “Fomos atrás de produções que respondessem estética e criticamente problemas atuais do Brasil, em que diferentes pessoas pudessem se sentir reconhecidas nos palcos por questões de cor, gênero, raça, sotaques”, destaca a curadora Soraya Martins.

Na Mostra Nacional, por exemplo, a produção nordestina correspondeu a 66% dos trabalhos apresentados. Entre eles estava o pernambucano “A Gente Combinamos de Não Morrer”, inspirado no conto homônimo de Conceição Evaristo, performance dedicada à constituição de situações, rituais e processos coletivos de elaboração das feridas necropolíticas. “Tentamos fazer um festival que ampliasse a noção de teatro brasileiro que, muitas vezes, é pensado numa perspectiva eurocentrista. Buscamos teatro feito por mulheres, por nordestinos, por trans, por pessoas que estão nas periferias com suas potências criadoras. A gente mudou o foco do olhar, para expandir, sair do eixo Rio-São Paulo”, destaca.

Para a curadora, o festival foi político e democrático. “O FIT levou para os palcos teatros políticos feitos com uma excelência estética muito grande porque muitas vezes a gente fala de teatro político e as pessoas acham que não tem estética”, afirma. Ela cita a peça “Unwanted”, da performer ruandesa Dorothée Munyaneza, feita a partir de relatos coletados por ela de mulheres que foram vítimas de estupros cometidos como arma de guerra durante o genocídio dos Tutsis. “Foi discutido política, mas esteticamente, com música eletrônica, cantigas em dialeto ruandês, dança, e performance corporal incrível, fruto do seu estudo em torno do teatro contemporâneo. É inegável falar que tem uma qualidade estética naquele trabalho”, avalia Soraya Martins.

O evento reuniu um conjunto de trabalhos nacionais e internacionais que fez seu percurso na contramão de uma arte eurocentrada, trazendo para os palcos o debate sobre questões de gênero, classe e étnico-raciais. Foram 59 apresentações com trabalhos de doze países e oito estados brasileiros, além de oficinas, mostra de cinema e outras atividades que contaram ao todo com público estimado de 25 mil pessoas.

O Afrofuturismo de Zaika dos Santos

Arte, Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodiáspora

Por Naiara Rodrigues, jornalista e assessora de imprensa

O lançamento do filme Pantera Negra e o seu sucesso mundial chamou atenção para o movimento Afrofuturismo que traz uma mistura entre a ancestralidade africana e tecnologias na criação de narrativas com o protagonismo negro. O blockbuster levou ao cinema a história do primeiro super-herói negro e sua mística nação Wakanda, em uma adaptação para as telonas da história em quadrinho da Marvel Comics, criada em 1966 e que, a partir de 2005, passou a ser escrita por autores negros. Dialogando diretamente com o movimento, a sua projeção chamou atenção popularizando e dando visibilidade a artistas que desenvolvem suas obras dentro desse conceito no Brasil e no mundo.

Zaika dos Santos é multiartista e pesquisadora afrofuturista. Ela é cantora, compositora, arte-educadora, artista visual, pesquisadora negra, performer, trançadeira, produtora cultural, formada em audiovisual, rádio e TV e web designer. Pesquisadora do tema, cursa Licenciatura em Artes Plásticas na Escola Guignard (UEMG) e seus trabalhos estão estética, conceitual e tecnicamente ligados ao Afrofuturismo – Arte, Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afroadiáspora.

Nas artes visuais, desenvolve atualmente o projeto Nok é Nagô que engloba diferentes ramificações artísticas. Para cada ação, desenvolve um processo criativo. Na performance, realiza ações com a transversalidade de linguagens das artes visuais dialogando as referências etimológicas, simbólicas, iconográficas, ancestrais e identitárias negras. Na pintura, visibiliza com a pintura corporal em ações de performance e a pintura em tela com referências africanas. Na gravura, aborda a simbologia etimológica e iconográfica Adinkra. Na fotografia, traz mulheres negras no seu cotidiano popular através de registros fotográficos escultóricos, e nas artes digitais mescla todas essas técnicas. Na ciência da computação, trabalha com programação HTML, códigos binários, instalações, mapping e a matemática do nó contextualizando a potência desses conteúdos e sua origem em África.

As Yabás da afrodiáspora é um dos processos que desenvolve há três anos no Nok é Nagô.

“Nele, faço esculturas-coroa e fotografo mulheres negras sem reproduzir o estereótipo de que já estamos cansadas. Busco o que é este lugar de identidade de mulher negra para essas mulheres de forma sincera, intensa. Geralmente eu passo um dia com as meninas, espero elas trabalharem a identidade delas neste lugar, como qual roupa, qual maquiagem querem usar”, afirma Zaika que, em alguns casos, cria as coroas de forma personalizada para a construção das fotografias.

Inicialmente conhecida pela sólida carreira no Hip Hop, a artista afirma que sua atuação sempre foi dedicada à música eletrônica em geral. Ela se prepara para lançar, no início de 2019, o seu disco Akofena em streaming, que já está no forno desde 2015, e traz em seu conceito o Afrofutursimo num lugar de vivência da mulher preta e da interseccionalidade do feminismo negro. Ela já lançou single de duas das dez faixas que fazem parte do álbum, Az nega! e Fluxos, e entre as inéditas estarão samplers, incluindo uma música do João Bosco. O álbum foi gravado em parceria com o consagrado produtor Dubalizer, em São Paulo, e leva a forma de uma música politizada para dançar.

“Fizemos um processo de pesquisa coletivo para trabalhar a sonoridade e a ancestralidade da música africana e afro-brasileira como fonte da música eletrônica”, destaca.

Outra iniciativa desenvolvida por Zaika é o Saltosoundsystem que visa ao empoderamento feminino através da Cultura Soundsystem. A partir dos processos formativos com conteúdos técnicos, teóricos e práticos sobre a cultura e novas tecnologias do projeto, nasceu o primeiro sistema de som que tem o formato de um salto alto com caixas agudas, medias e de subgraves. Ele une quatro selectoras mulheres negras (Samantha Luz, Isabela, Zaika e Nah Araujo) e um selector homem trans negro (Alê) em um coletivo que se formou a partir do processo formativo do projeto e que instala seu sistema de som para amplificar músicas de mulheres negras estrangeiras e brasileiras nas linguagens sonoras dos ritmos de origem jamaicana e em outras como o funk e afro house.

“A Salto é mais um processo formativo. A primeira edição do evento aconteceu no Centro de Referência da Cultura Popular da Lagoa do Nado e a nossa intenção é rodar a cidade com o sistema para amplificar música e empoderar mulheres”, enfatiza.

E não para por aí. Ela ainda tem projetos de desenvolvimento de jogos de tabuleiro, na área das exatas, de produção como hacktivistas, entre outros. A multiplicidade de sua produção reflete na densidade artística de Zaika. Artista inquieta, está sempre em busca de novos conhecimentos com uma visão integrada dos conteúdos, o que fez com que, ao longo de sua história, vivesse momentos em que não era compreendida pelas pessoas ao seu redor. Na adolescência, aprendeu a fazer tranças nagô de forma autodidata, observando a tia Nilma que trabalhava em um dos primeiros salões afros da cidade, o Salão da Betina. Aos 14 anos, já se tornara a principal trançadeira do bairro onde morava.

“Minha mãe falava para abrir o meu próprio salão, mas eu dizia que não queria ser cabeleireira, queria ser cientista”, relembra Zaika, falando que sempre trabalhou com tranças nagôs em outro espaço de discussão para além do lado da estética e da política.

Ela faz com facilidade conexões entre as tranças, as complexas estruturas geométricas matemáticas contidas em fractais e a sua relação com a criação do sistema binário, base de qualquer sistema informatizado que conhecemos hoje.

“Existem discussões sobre o uso das tranças, no período escravocrata do Brasil, como mapas que guardavam caminhos de fuga das senzalas. Já na África, as tranças eram trabalhadas mais dentro de outro contexto, dentre eles o dos fractais. Mas a ciência e os fractais não surgem na Europa? Não. Tivemos muito conhecimento que surgiu na África, mas existe um silenciamento histórico e foi quando eu decidi ir em busca de conhecimentos que me foram negados que os descubri”, afirma.

Seu processo de pesquisa sempre foi no lugar desse resgate histórico e de cruzar áreas, mesmo tendo crescido ouvindo que era necessário focar e escolher uma secção de estudo e também da cultura. Na universidade, pode se aprofundar em novas ramificações da arte e trabalhar com convergências desses conteúdos.

“Sabia que ao entrar na faculdade teria que estudar o conteúdo eurocêntrico, desconstruí-lo e trazer essas questões para o meu lugar de fala”, explica.

Para Zaika, o afrofuturismo vai muito além da criação de narrativas ficcionais – conceito cunhado pelo crítico cultural Mark Dery em seu ensaio Black to the future, em 1994, pois ele está ligado com a arte, a ciência, a tecnologia e a inovação africana, e a reconexão da afrodiáspora a técnicas e conhecimentos desenvolvidos no continente africano que pode ser facilitada com o processo de globalização.

“Para mim, o afrofuturismo não é uma ficção, ele é uma realidade. Esse passado, presente e futuro estão interligados, mas teve uma interrupção histórica que tem nomes: escravidão e colonialismo”, ressalta.

Ela cita como exemplo a seção que traz as tecnologias e inovações africanas no período escravocrata do Brasil existente no Museu Afro Brasil.

“Tanto dentro da África como fora dela, no contexto de afrodiáspora, temos vários cientistas negros que foram referência em diversos conteúdos, mas sofreram um apagamento histórico. Esse afrofuturismo que eu discuto fala, diz da perspectiva de Afrofuturismo da África Negra e o Afrofuturismo da Afro diáspora”, acrescenta.

Zaika ressalta ainda que o Afrofuturismo não tem relação alguma com a vanguarda artística Futurismo.

“Não existe essa conexão, pois esta é uma leitura ocidentalmente equivocada e só é feita porque houve uma apropriação da palavra “futuro” no surgimento da vanguarda eurocêntrica. É obvio que a palavra também não surgiu na África dessa forma, mas como muitas pessoas fazem a leitura do conteúdo pela perspectiva do ensaio Black to the Future, do Mark Dery, esse conflito etimologicamente estético acontece”, pontua.

Para ela, a questão está no uso de uma palavra ocidental, por isso sempre utiliza o termo Arte, Ciência e Tecnologia e Inovação Africana e Afro diáspórica e incentiva a leitura do livro do historiador Carlos Machado dedicado ao tema, por acreditar que é necessário enegrecer nossos conhecimentos.

“É justamente por esse conflito de palavra que eu curso uma matéria que se chama Arte e Vanguarda, e meu orientador na faculdade é especialista neste tema. Também dialogo diretamente com historiadores e curadores africanos e pelos papos potentes descobri que vanguarda sempre existiu em África, ou seja, temos que descobrir o que foi apagado historicamente. Por exemplo, “Wakanda” significa “o que é nosso por direito”, e é um termo que existe na língua Kikongo, falada fluentemente na Áfrika Central e Sul, sobretudo em alguns países da região dos grandes lagos. Ela pertence ao grupo etnolinguístico Kôngo e consequentemente da família linguística Bantu nascida nos moldes da árvore linguística Niger-congo”, destaca a multiartista.

A curadoria de todo esse conteúdo histórico, científico e artístico que Zaika se dedica a pesquisar dará origem ao novo projeto, o CAB – Circuito Afrofuturista Brasileiro. Ele tem como objetivo criar uma plataforma digital em que vai disponibilizar essas informações divididas a partir de assuntos específicos, reunindo o que tem sido produzido e pensado sobre o tema no país.

“Também estou escrevendo dois artigos, um sobre a historicidade do Afrofuturismo, em que eu começo falando lá do período Paleolítico para depois passar pelo raciocínio dele dentro do período da escravidão, do pós-abolicionista, e o outro é sobre o pós-humano”, conclui.

A ideia da multiartista é transformar os artigo em um livro e o que não lhe falta é conhecimento.

Foto: Luís Germano

Mwana Afrika, a jornalista que está levando conteúdo sobre o continente africano para o mundo

Por Sandrinha Flávia, jornalista, mestra de cerimônias, empresária e editora

Desde fevereiro de 2018, Mwana Afrika grava vídeos para o projeto que leva o seu nome, Mwana Afrika – Oficina Cultural. A produção faz parte de um quadro veiculado na TV Pública de Angola. As pautas dos vídeos abordam danças, ciências, símbolos culturais, filosofia, tecidos e tantos outros temasque retratam o universo de Angola. A formação em jornalismo e economia e finanças foram fundamentais para ela realizar o que ama: contar histórias e publicá-las. A jornalista ressalta que se sente muito bem com esse trabalho e quea profissão é uma forma de ensinar e aprender o tempo todo.

A ideia da Oficina Cultural começou como uma espécie de Academia Panafricanista nas ruas de Lisboa como ela mesma explica: “Eu juntava pessoas de várias etnias, raças, idades, e “aculturava-as” com África.” Com o crescimento do projeto, Mwana resolveu dar uma parada para reestruturação. O projeto agora será ampliado para várias cidades do mundo. “Quero ver a África na boca do mundo pela positiva, quero levar nossos valores, nossa variedade cultural e linguística, nossa sabedoria ancestral e muito mais.”, diz orgulhosa da sua terra.

Sua bagagem cultural vem de muita dedicação a pesquisas e várias vivências pessoais viajando por quase 20 países, sempre trazendo aprendizados e ensinamentos. “Quem viaja ou tem a experiência de viver num país diferente, nunca é a mesma pessoa. As experiências de vida valem muito, levamos para a vida toda. Conheço quase a Europa toda.” As próximas viagens da jornalista serão apenas pela África. Ela pretende passar por Ghana, Senegal, Quênia, Congo etc.
Atualmente divide sua moradia entre Portugal e Angola. Mas Mwana tem sangue brasileiro, pois nasceu no Brasil. “Nasci e vivi no Brasil. Cresci em Angola e atualmente vivo em Portugal.” Sobre a sua família, ela fala o suficiente: “Minha família é tudo pra mim; se hoje sou o que sou, é graças à minha família. Venho de uma família muito trabalhadora, dedicada e com uma educação que vale ouro”.

Para o próximo ano, Mwana pretende, talvez, lançar o seu primeiro livro, para isso ela está focada nas pesquisas: “Gostaria que os conteúdos retratad13os no meu programa de TV dessem lugar a um livro. Pretendo escrever para documentários e também vem aí o livro de ensino básico de línguas africanas. Estamos a terminar a produtora “Mwinda” e brevemente teremos muitas novidades”.

Visite o canal Mwana Afrika no YouTube e conheça mais sobre África.

9º Prêmio Zumbi de Cultura 2018 celebra Dia Nacional da Consciência Negra em BH

Em comemoração ao Dia da Consciência Negra,  20 de novembro, a Cia Baobá Minas  realiza a 9ª edição do Prêmio Zumbi de Cultura.  Ao todo 11 personalidades negras serão homenageadas em solenidade realizada no Grande Teatro do Sesc Palladium às 19h, com preço popular de R$ 2,00 (dois reais) inteira.

A produção do prêmio recebeu cerca de cento e cinqüenta indicações de nomes relevantes no cenário da militância negra  de várias cidades do Brasil. O Prêmio Zumbi, homenageia  pessoas que se destacam nos campos das artes, política e cultura negra, em Minas e no Brasil. A premiação é distribuída nas seguintes categorias: dança, teatro, música, religiosidade, literatura, educação, manifestação cultural, personalidade negra, menção honrosa, protagonismo juvenil e atuação política.

Na solenidade, atrações como  Conversamba, que reverencia a comunidade da Pedreira Prado Lopes, na Lagoinha, apresenta músicas autorais que abordam a formação do bairro e a valorização do samba na comunidade . Também estará presente Mestre Conga, importante representante do samba de BH.  Afoxé Bandarerê, Edson Babu, Cia Baobá e Carlos Afro também  são atrações da noite.

Confira a lista das personalidades homenageadas que receberam o troféu criado pelo artista plástico Jorge dos Anjos:

Aruana Zambi  – Teatro

Ayana Amorim  – Protagonismo Juvenil

Carlos Alberto dos Santos  (Bar do Cacá) – Personalidade Negra

Divina Siqueira ( Dona Divina) – Menção  Honrosa

Edson Babu  – Educação

Quilombo Irmandade Nossa Senhora do Rosário de Justinópolis –   Manifestação cultural

José Nilson  Francisco dos Santos – Música

Jozeli Rosa de Souza – Atuação política

Madu Costa  –  Literatura

Madu Santos –  Dança

Ricardo  Moura (Pai Ricardo)  – Religiosidade