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Sandrinha

CABELO, NEGRITUDE E ATITUDE

Roger Deff
Editor da revista Canjerê, rapper, jornalista e mestre em Artes pela UEMG

Um dos aspectos mais perceptíveis do racismo é o processo de inferiorização das características que nos definem e um dos alvos preferenciais são os cabelos. O termo “cabelo ruim” é utilizado com freqüência e é um ataque que persiste de maneira naturalizada trazendo impactos negativos sobre a auto-estima de crianças negras, fortalecendo uma visão depreciativa que poderá acompanhá-las pelo resto da vida. Toda a construção de beleza predominante no imaginário popular tem a branquitude como referência, o que gera questões com as quais pessoas negras têm de lidar ao longo da vida, como a ausência de representatividade e, muitas vezes, rejeição à prória imagem, já que esta não se encaixa no padrão hegemônico.  

Os salões de beleza afro espalhados pela cidade, com seus cabeleireiros e cabeleireiras, cumprem um papel muito importante na desconstrução dos estereótipos, na forma como nós, homens negros e mulheres negras, nos enxergamos. 

A primeira lembrança que tenho de salões voltados para a beleza negra é do famoso Roger Black Power, espaço que nasceu em BH entre os anos 80 e 90 e que se notabilizou como o principal salão da época, com seus cortes afro, o que influenciou também futuros cabeleireiros. Quando tratamos desses aspectos há um componente político perceptível que vai além da estética. Os cabelos afro representam resistência às constantes tentativas de apagamento de tudo o que somos e dizem respeito à valorização da nossa ancestralidade e dos nossos corpos negros na diáspora.

Os cabelos volumosos e arrendondados, chamados de Black Power, foram adotados como símbolo de luta a aceitação da beleza negra nos Estados Unidos durante o movimento pelos direitos civis naquele país, tendo a ativista e intelectual Angela Davis como um dos principais nomes desse período, reconhecida por ostentar uma cabeleira Black imponente, o que fazia jus à sua atuação.  Por fim, o Black Power chegou ao Brasil nos anos 70, junto com a moda da soul music e do funk, nos bailes. Há quem diga que essa “moda” não trouxe junto as questões abertamente políticas que mobilizaram os negros estadunidenses, mas discordo. O que pode ser mais político do que pessoas, a despeito do racismo, assumirem como símbolo de poder e orgulho justamente os cabelos, tão constantemente atacados? Mais uma vez, não se trata “apenas” de cabelos, mas de comportamento, atitude, de ir na contracorrente da imposição de um padrão de beleza com bases européias. 

Beleza e resistência

Na cidade de Belo Horizonte, outro ponto muito importante para todo este movimento de valorização dos cabelos das pessoas negras é o Salão Preto e Branco, situado na Galeria Praça 7, bem no coração da cidade. Criado pelos cabeleireiros JC, Juraci e “N” Nilmar, o salão respirava em plenos anos 90 a recém chegada cultura Hip Hop, com seus três sócios MCs e integrantes do grupo de rap NJJC, o que já diz muito sobre o significado daquele lugar para os jovens da época, em meio a lojas de discos e a trilha sonora de Public Enemy, Racionais, Thaíde & DJ Hum e Run DMC. Há hoje, por parte da juventude negra, uma consciência muito nítida sobre o que significa ostentar tranças, blacks e afins em um país como o Brasil. Trata-se de enfrentamento ao racismo e também estratégia contra o extermínio, que não é apenas físico, é também da subjetividade. O Instituto Todo Black é Power, situado na Rua da Bahia/Centro, foi criado por Dandara Elias. Em suas falas, é perceptível sua compreensão sobre o quanto este cuidado é sinônimo de empoderamento coletivo e, para além do salão, a empresária contribui com palestras nas quais aborda temas ligados à transição capilar de mulheres negras e a autoestima intrinsecamente ligada a este processo. 

Proprietário do salão Stillus D’Black, também localizado na Galeria Praça 7, região Central, Reginaldo conta que não encontrava pessoas que cortassem seu cabelo de maneira satisfatória, até que em uma conversa com Nilmar, do Salão Preto e Branco, se descobriu cabeleireiro afro. “Eu percebia que a gente tinha dificuldade em encontrar pessoas que cuidassem do nosso cabelo, por isso eu quis me aprofundar nisso, e é muito bom ver as pessoas entrarem aqui e saírem satisfeitas, felizes”, conclui Reginaldo. Há todo um processo de construção, de aprendizado sobre quem nós somos e este caminho passa necessariamente por gostarmos de nós, sobre uma luta antirracista que passa por resistirmos culturalmente.

Foto: Divulgação

Pelos celebra 20 anos de estrada com novo disco que vai além do rock

Por Roger Deff
Editor da revista Canjerê, rapper, jornalista e mestre em Artes pela UEMG

A Pelos é uma das mais emblemáticas, longevas e importantes bandas de rock de Belo Horizonte. A história teve início em 1999, quando a banda, originalmente batizada de “Pelos de Cachorro”, surgia no Aglomerado da Serra, periferia de Belo Horizonte.

Com identidade marcante, o trabalho da Pelos é definido pela ousadia das composições ao mesmo tempo em que encontra lugar na simplicidade do estilo. Há uma certa elegância em suas músicas, resultante das letras poéticas e o vocal marcante de Robert Frank, em consonância com a atitude urbana que a sonoridade traz. É rock, no fim das contas, mas, como poucos artistas conseguem, a banda imprime uma forma muito particular de fazê-lo, afinal como Heberte Almeida, integrante e um dos letristas da banda define “é rock feito por pessoas pretas”, e essa fala diz muito sobre a proposta sonora e lírica da banda.

Com mais de vinte anos de estrada, a Pelos traz no currículo os EPs “Olho do Mundo” (2012), DVD “Pelos – Um Filme Ensaio” (2010), além do “Memorial dos Abismos” (2008) e o álbum “Paraíso Perdido nos Bolsos” (2016). O novo álbum intitulado “Atlântico Corpo” tem previsão de lançamento para 2022 e possui como tema central a presença dos povos vindos da África no Brasil e sobre como toda essa influência moldou a cultura e a forma como nos vemos enquanto povo. O novo trabalho tem produção assinada pelo músico Leonardo Marques, conhecido por sua carreira solo e por sua trajetória nas bandas Deezel e Transmissor.

O novo trabalho dialoga de maneira marcante com outras sonoridades da música negra como o soul e o afrobeat, trazendo temáticas que passam por questões raciais, o homem negro e as relações humanas. A Pelos é formada por Robert Frank (voz, piano e guitarra), Kim Gomes (guitarra), Heberte Almeida (guitarra, piano e voz), Thiago Pereia (baixo) e Pablo Campos (bateria).

Foto: Acervo da Banda

Canais: http://www.pelos.art.br/ 

https://www.facebook.com/pelos.arte

Ouça: http://pelos.bandcamp.com/ 

Movida pela paixão por moda afro, Carina Brito criou a Maria Rosa Butique, marca que traz história e ancestralidade

Por Por Sandrinha Flávia – Jornalista, empreendedora e apresentadora

Foi após participar de uma Feira Afro que Carina Brito, 42, se tornou empreendedora de Moda Afro. O seu olhar para a moda vem da adolescência quando adorava usar acessórios bem diferentes daqueles que as pessoas ao seu redor usavam.

As cores e estampas dos tecidos africanos sempre chamaram a sua atenção, e naquela tarde de domingo, na Feira Afro, Carina sentiu necessidade de ter um guarda-roupas com peças que valorizassem a sua ancestralidade. Foi assim que, em 2012, nasceu a Maria Rosa Butique, nome que homenageia a sua mãe. “O nome surgiu do meu desejo de fazer uma singela homenagem a uma mulher guerreira, batalhadora e zelosa que é a minha mãe, a Maria Rosa Brito”, relatou.

Nascida em Barão de Cocais (MG), desde a infância, viu sua mãe empreender   como cabeleireira e costureira para complementar o orçamento da família, ou seja, o empreendedorismo já estava presente.

No início do negócio, sua maior preocupação era como conseguir os tecidos africanos. Foi então que conheceu uma fornecedora que trazia os tecidos de Angola, pois em Belo Horizonte (MG) não encontrava com facilidade.  Com o passar dos anos, foi descobrindo outros fornecedores principalmente de São Paulo e Salvador (BA). 

O investimento inicial para o negócio, foi retirado das suas economias. Na época, algumas de suas irmãs estavam desempregadas e a ideia da loja poderia ser uma fonte de renda para a família. 

De posse dos tecidos africanos, percebeu que era hora de colocar a mão na massa. Carina se matriculou na aula de costura onde desenvolveu as primeiras peças. Logo após, abriu o espaço físico no quintal da casa da sua mãe em Barão de Cocais(MG). Suas irmãs se engajaram no projeto. Enquanto elas cuidavam da loja, Carina concilia a vida de empreendedora com seu trabalho como celetista na capital mineira.

Formada no curso técnico em Estradas pelo CEFET(MG), graduada em Engenharia Agrimensura e pós-graduada em Engenharia em Estradas com ênfase em Drenagem em Rodovias, atualmente é a única mulher a ocupar a função de supervisora de Topografia na Anglo Gold, empresa em que trabalha há 17 anos onde já entrou ocupando o cargo de Desenhista Cadista. “Conciliar as funções de topografia e moda é um desafio, mas eu acho muito prazeroso”, disse.

Além das coleções de fabricação própria, a Maria Rosa Butique também revende produtos de fornecedores afroempreendedores como livros de literatura negra, brincos, canecas temáticas e calçados. As peças de crochê são produzidas por sua irmã, Adriana Brito.

A empresa permaneceu durante oito meses no quintal da casa da sua mãe, até a empreendedora decidir levar toda mercadoria para o seu apartamento em Belo Horizonte onde começou a atender em casa, nas horas vagas. 

Com o crescimento da procura, Carina resolveu abrir um espaço no centro da cidade. “A Galeria do Ouvidor foi o lugar mais em conta que eu achei. Adoraria abrir uma loja de porta para a rua por conta da movimentação que é maior, mas estou há quase um ano na Galeria e percebi que é importante estar lá também por ser um ponto turístico da cidade. Atendemos clientes de várias cidades do Brasil e pessoas de outros países”, disse.

Para finalizar a entrevista, perguntamos qual é o seu maior sonho, e o que a torna feliz nos negócios. “A minha maior satisfação é receber os elogios das pessoas encantadas com as nossas criações, fazer amizades e encontrar pessoas na rua usando peças da loja. É uma alegria! E o meu maior sonho é ter uma loja de frente para a rua no centro de BH.  Quero comercializar mais acessórios como óculos, maquiagem, sapatos, bolsas, lembrancinhas, tudo voltado para a cultura negra”, finaliza.

Soul Xx, de alma aberta para o mundo

Por Fernanda Luá
Jornalista pelo Centro Universitário UniFanor- Wyden e Mestranda em Comunicação pelo Programa de
Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará

Sem dúvidas, a arte é um meio de transformação social. Em busca de trilhar novos caminhos, o rapper, afroempreendedor e pai de duas crianças, Soul Xx, 25, decidiu fazer música e poesia a partir de suas vivências pessoais. Esse rapper que se chama Carlos Eduardo e tem como nome artístico Soul Xx, diz que o nome surgiu quando em um determinado momento de sua vida declarava que tudo o que fazia era genuíno, fruto da exteriorização de sua alma. 

Ele afirma também possuir duas personalidades, a de Soul Xx e a de Carlos Eduardo. Carlos é uma pessoa humanista que entra em conexões, que gosta de conversar, ajudar o outro, de fazer o diferente. Já Soul Xx é mais agressivo, gosta de levar a verdade em forma de trocadilho, pegar a realidade como Carlos e a transformar em arte. “Eu vivo isso, duas personalidades, onde uma se encontra na outra 24 horas. Eu brinco com meu filho, mas preciso fazer o trampo de arte”, diz Xx.

 O rapper que reside em Vila de Nossa Senhora Aparecida na região do Aglomerado da Serra – considerada a maior comunidade de Belo Horizonte, Minas Gerais – passou a transformar artisticamente o local onde está inserido. Essa movimentação surgiu em meados de 2019 quando Xx que na época possuía uma banca de salgados e cachorro-quente passou a contactar artistas locais e a mobilizá-los dando início a primeira batalha de rap do Mirante e, em seguida, a uma série de empreendimentos, todos geridos por ele como a gravadora independente Mirante Music, o Favela Cast Show, Mirante Burger, a Açaiteria Mirante e o Mirante Food. “Foi na luta, correndo atrás, comecei a focar naquilo que eu queria para vida que era trabalhar com música, com a arte e ter uma renda para minha família porque eu sabia que a arte não ia me dar dinheiro tão breve”, comenta Soul Xx. 

A questão financeira na parte artística é a maior questão para o fomento e expansão das atividades realizadas e gerenciadas por ele que busca aos poucos reverter essa situação, mas até não resolver esse estado vai continuar a desenvolver e fincar as bases de cada um dos seus projetos. “Tento conciliar isso tudo pegando os pilares e sabendo o que cada instituição precisa para andar e trabalhar nessa base e consigo complementar chamando outras pessoas para desenvolver na base que criei, entendeu? Cada projeto, cada coisa tem um direcionamento, só não tem o dinheiro, mas eu acredito que estamos direcionando e sigo firme”, afirma Xx.

Foto: Studio Beco – Ronald Kwesi

Mestre Conga: memória viva do samba de Belo Horizonte

Por Naiara Rodrigues – Jornalista

Com origem na língua africana quimbundo, o termo “bamba” têm como significado exímio, mestre, e é muito comum no samba. Em Belo Horizonte, um nome pode substituir essa palavra: Mestre Conga. Não é possível falar da história do samba na cidade sem mencioná-lo. Aos 95 anos de idade, José Luiz Lourenço – nome de batismo – segue exalando seu carisma e a sabedoria de quem atravessou, de carnaval a carnaval, quase um século de vida.

Nascido em 1927, em Ponte Nova-MG, ele veio ainda criança para a capital junto com os pais, morando na então Vila Brasilina (atual Sagrada Família). A sua relação com a música veio do tempo em que frequentava a Guarda de Congado Nossa Senhora do Rosário, no bairro Floresta, quando tinha por volta dos onze anos e desfilava usando seu uniforme branco de fitas coloridas. “O congado me pôs no caminho, inclusive meu próprio apelido vem dessa época, da molecada. Era Conga e Conguinha, porque eu e meu irmão mais novo fazíamos parte da Guarda”, explica.

Ele lembra que era motivo de piadas quando passava pelo bairro. “Eles ficavam encarnando em mim e no meu irmão, a gente achava ruim, mas acabou ficando. Apelido quanto mais você acha ruim mais pega. Depois, ao invés de eu reclamar, passou a ser uma tradição”, conta rindo da lembrança de infância. “Eu já fazia cultura sem saber que estava fazendo cultura”, reflete. 

Até que colegas de futebol e do juvenil do bairro Concórdia começaram a fazer aulas de dança. “Oh, Conga, descobrimos um lugar ótimo pra aprender a dançar, vamos lá também? Eu já tinha vontade de aprender, né, e sabe onde era? Ali onde é o hoje BH Resolve”. O espaço ficava na Rua Caetés, Centro de Belo Horizonte, e se chamava A Rádio. Oferecia aulas de dança de salão, de segunda a sexta, das 20h às 23h, e bailes dançantes, nas noites de sábado e domingo, os quais Conga não podia frequentar inicialmente por ser menor de idade. 

Mestre Conga – Foto: Mauricio Costa e Gi Oliveira

Pé de valsa

A dança foi uma nova paixão na juventude. Com a perda do pai, aos 16 anos, o adolescente acabou ficando mais solto. “A mãe, mesmo com toda autoridade, num aguentava segurar a gente”, relembra Conga que era um dos dez irmãos da família. “A gente ia aprendendo, e naquela época dançava de segunda a segunda”. Ele conta que juntava com a turma na porta da Rádio, e quando um não tinha dinheiro para pagar a entrada o outro completava.

“Aprendi a dançar pro meu gasto, mas a gente era menor. Sábado e domingo tinha muitos bailes em casa de família, principalmente ali no Concórdia. A gente era pobre, operário, mas caprichoso. Naquele tempo, as moças admiravam a gente mais pelo modo de vestir. Fulano tem dois ternos, fulano tem três ternos”, relembra rindo.

Sempre elegante, entre as roupas favoritas de Mestre Conga estavam terno tropical azul pavão, terno casimira azul marinho, gravata branca e, quando era calor, terno de linho. “Naquela época, usava muito o terno panamá e a gente, modéstia parte, vestia bem”, conta.

O centro concentrava um circuito boêmio da cidade, onde funcionavam cabarés e clubes de dança com samba, rumba, mambo, foxtrote e tango. Alguns deles como o clube Montanhês, eram de dança picotada, ou seja, se pagava por dança. “A cada dança, a bailarina picotava. Dançava uma música e picotava. Quando a dançarina ia com a cara da pessoa, ela deixava passar três, quatro músicas e dava um picote”, afirma.

Ele comparecia mais no Original Clube do Barro Preto, fundado e frequentado por negros. “Não entrava sem gravata e sem paletó. Era um clube bem elegante, principalmente para nós da raça negra. O preconceito racial e social era bem maior. Hoje está mais mesclado apesar da supremacia branca”, conta ressaltando que era exigido que estivessem bem vestidos para entrar.

Ele lembra que os movimentos de ocupação das ruas foram retomados com o fim da II Guerra Mundial (1939-1945). “Até 1945, quando ainda havia Guerra, não podia ter movimento de rua, o movimento era só em clubes, depois que a guerra acabou que voltou a pipocar”, explica.

Mestre Conga, em 2018, na celebração dos seus 91 anos no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado – Foto: Ricardo Laf

O caminho para o samba

Frequentando a gafieira, Conga fez amigos que o convidaram para participar da sua primeira escola de samba, a Surpresa, criada em 1946, na Lagoinha. Depois, conhecendo amigos da Floresta, foi para sua segunda escola, a Remodelação da Floresta que surgiu de um racha na Unidos da Floresta. “Nessa época, não compunha ainda, era passista. Uns fala passista souto, outros fala batuqueiro, e aí eu fui ficando conhecido e ganhei um concurso do Cidadão do Samba, do Diário dos Associados, em 1948”. Para participar do concurso, primeiro Conga passou pela peneira dentro da escola Remodelação da Floresta – cada escola apresentava um candidato. Ele concorreu entre as 16 escolas do ano.

Conga decidiu juntar com amigos para criar a própria escola, no bairro Concórdia. Fundada em 1950, a Escola de Samba Inconfidência Mineira veio a rua em 1951 e terminou em 2010. “Foi fundada, mas incialmente sem documentação nenhuma, naquela época a gente tirava só uma licença na Polícia Central. A gente tirava e desfilava”, conta, lembrando que no ano participaram de batalhas no Floresta, Renascença e Cachoeirinha. “As batalhas eram um desfile concorrendo a um prêmio, só que na época os prêmios não valiam tanto a pena. A gente saía do Concórdia e ia lá pro Santa Efigênia pra ganhar uma taça, um troféu. Depois passaram a dar uma ajuda de custo”, explica. “A gente montava os uniformes. Bateria com calça branca, blusa vermelha e preta. Até então as escolas não desfilavam apresentando enredos”, afirma.

Imagem histórica do carnaval de Belo Horizonte de desfile da Escola de Samba Surpresa – Foto: acervo não identificado

Revolução no Carnaval mineiro

Conga foi o responsável pela introdução do samba enredo em BH. Entre 1952 e 1954, o sambista morou no Rio de Janeiro, tendo contato com esse formato nos desfiles cariocas. “Quando eu vim, eu tinha visto os desfiles das escolas de samba de lá apresentando enredo, e aí eu vim já com essa ideia. Quando cheguei aqui, aí os colegas viram: “Conga está fazendo uma novidade lá, vamos fazer”. Aí começaram também. Nós apresentamos Tiradentes, uma outra apresentou Princesa Isabel, e aí foram apresentando sucessivamente”, relembra.

Em sua passagem no Rio de Janeiro, Conga ainda teve contato com o teatro. “Foi lá que fiquei conhecendo a turma: Solano Trindade, Abdias do Nascimento, e vários outros. Participei mais do grupo do teatro popular e folclórico do poeta Solano Trindade”, fala lembrando que pelo artista ser comunista sofria muita perseguição da polícia.

Dificuldades das escolas 

A Inconfidência Mineira chegou a ser pentacampeã entre 1959 e 1963. “A escola era muito boa, tinha muitos componentes, vários diretores. Contamos pentacampeã porque teve uma época que não teve carnaval de rua, então contou com esse tempo”, diz. Ele destaca que a instabilidade das políticas públicas para o carnaval da cidade prejudicou muito o desenvolvimento das escolas. “Teve uma época que o carnaval não era oficial. Um prefeito que estava no poder fazia o carnaval, quando ele estava pra sair, ele num fazia porque estava saindo. O que entrava também não fazia porque estava entrando, e ficou aquela dança. Todo ano de mudança de prefeito não tinha carnaval. Tinha o carnaval que as pessoas mesmo faziam, mas desfile de bloco, de escola, não tinha porque não tinha investimento, não tinha ajuda”, reclama.

“Os blocos eram mais constantes porque também a despesa deles era menor.  Escola de Samba tinha despesas maiores, formadas mais por trabalhadores de salário mínimo que, quando não contava com a verba da prefeitura ou qualquer outra ajuda, não conseguiam desfilar e se manter”, explica.

Imagem histórica do carnaval de Belo Horizonte com desfile de Bloco Leões da Lagoinha em 1958 – Foto: Acervo MHAB

Compositor

Em 2006, aos 79 anos, lançou seu primeiro disco. Intitulado Decantando em sambas, o álbum contém 12 faixas autorais, com produção do amigo Júlio Coelho, pela Lei Rouanet, com músicas antigas que Conga compôs para cantar ao longo da vida. “Ele achou as composições boas pra fazer o CD; tenho outras, mas que não gravei”. Ele explica que demorou para se ver como um compositor. “Eu nem sabia que eu compunha samba. De passista solto, depois com a criação da Inconfidência Mineira que eu passei a gostar de compor. Tentei fazer uns versos, achei que deu certo e aí tomei gosto. Mas eu não tenho muita composição escrita não”, revela Conga. 

Ele também fez parte da Velha Guarda do Samba de Belo Horizonte, iniciativa de salvaguarda do samba mineiro que já perdura há mais de 20 anos. Ao lembrar da Velha Guarda, lamentou a morte do amigo Juarez Araújo, por Covid-19 no ano passado. “Senti muito a morte dele, ele lutou muito pela Guarda do Samba”, rememora.

Capa do disco Decantando em Sambas, de Mestre Conga

Homenagens

Sua história foi contada em um documentário, Inconfidente do samba (2013), de Francisco Matias. Em 2014, Mestre Conga também foi vencedor da primeira edição do Prêmio Mestres da Cultura Popular, realizado pela Prefeitura de Belo Horizonte. A última vez em que ele pisou na Avenida, foi em 2020, quando foi homenageado, junto com outros membros da Velha Guarda, pela Associação Recreativa Unidos Guaranis.

Neste ano, no dia 2 de fevereiro, Conga recebeu a visita de amigos e familiares que fizeram um minicarnaval para celebrar seus 95 anos, com o distanciamento e máscaras, em função da pandemia de covid-19. A iniciativa foi do Coletivo Mestre Conga, formado por 60 sambistas diversificados – dirigentes de escolas de samba e blocos, donos de casas de samba, grupos de sambas, músicos, pesquisadores, com membros de todas as regionais da cidade. Na coordenação do grupo estão sete pessoas: Léo de Jesus, Carlitos Brasil, Eliete Diná, Nonato do Samba, Mário César, Marcos Maia e Rosane Pires.

O grupo surgiu em meados de 2020, quando foi feito um encontro on-line do setor para debater a situação dos sambistas na pandemia, que reuniu cerca de 70 pessoas. Os objetivos foram traçados a partir do debate das necessidades dos sambistas, sendo a primeira meta o registro do samba como patrimônio cultural imaterial de Belo Horizonte. Isso porque, através do registro será possível traçar políticas de salvaguarda para o samba, voltada para o fomento, salvaguarda dos mestres e mestras, e iniciativas voltadas às rodas de samba, escolas e blocos que fortaleçam essa economia criativa e contribua para a continuidade dessa manifestação cultural na cidade.

Atualmente, o projeto conseguiu passar uma ementa na Câmara Municipal de Belo Horizonte, por meio da vereadora Macaé Evaristo (PT), que fará um inventário do samba de BH para subsidiar o estudo do para o reconhecimento como patrimônio cultural.

O historiador Marcos Maia, que pesquisa o carnaval da cidade há mais de 20 anos, integra a coordenação do coletivo e destaca que não foi só uma simples escolha de nome. “Tudo isso tem relação com o Conga. Ele é o nosso mestre, amigo, participa do coletivo e por como ele tem uma consciência política muito grande do samba na cultura brasileira. Das injustiças que se tem contra o povo negro no Brasil historicamente. Conga é um lutador incansável contra o racismo, pelo empoderamento negro e está há anos nessa luta”, afirma o historiador.

Quando perguntado sobre como se sente com as homenagens, Mestre Conga é humilde. “Reconhecimento, isso pra mim é muito confortável, é uma exaltação que fizeram com meu nome e eu só tenho a agradecer, embora eu ache que num mereço isso tudo. Mas já que quiseram me homenagear, eu me sinto lisonjeado” conclui.

Mestre Conga, em 2018, na celebração dos seus 91 anos no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado – Foto: Ricardo Laf

Ouça as canções de Mestre Conga e de outros sambistas de Belo Horizonte, na playlist “Sambas para BH”, do historiador Guto Borges:

  

Foto de capa da edição: Maurício Costa e Gi Oliveira

Karla Danitza é uma das pesquisadoras do projeto - Foto Leonardo Ramos

PROJETO “PERCURSA” RESGATA MEMÓRIAS DAS AFRICANIDADES EM BH

O projeto Percursa: Uma Cartografia das Africanidades em BH busca registros das trajetórias, experiências e lugares de memória da população negra, a partir das vivências de mulheres negras.

Apesar de pouco referenciadas, essas mulheres são protagonistas fundamentais na (re)existência de famílias e comunidades. Muitas delas na atualidade, como no passado, guardam e disseminam em suas comunidades conhecimentos, tecnologias ancestrais que possibilitam viver em um contexto de negação à existência dos corpos negros na cidade.

Uma equipe de pesquisadoras e pesquisadores está levantando referências bibliográficas sobre a história da cidade de Belo Horizonte, bem como referenciais da produção do espaço urbano e arquitetônico. Karla Danitza, programadora, produtora cultural e uma das pesquisadoras do projeto ressalta sobre a importância de aprofundar a pesquisa para além do que se vê. “Buscar investigar, para além das observações iniciais, aquilo que é produzido e que conta com a atuação contínua das mulheres, estimular a produção e o registro de memórias de mulheres negras na cidade é de vital relevância, pois contribui para que a voz feminina que constrói a cidade seja audível”, explica.

O resultado da pesquisa, será disponibilizado em plataforma online e colaborativa, georeferenciando no mapa de Belo Horizonte, espaços marcantes para a história das presenças negras na cidade. O acesso será gratuito.

SEMINÁRIO

O primeiro seminário de lançamento do projeto será no dia 13 de junho com nomes como Maria Luiza de Barros, da coletiva Terra Preta Cidade e da artista literária Nívea Sabino. Em breve a equipe divulgará o Instagram oficial.

Além dos seminários e da plataforma colaborativa, será realizado, no próximo ano, um percurso presencial, em locais significativos da memória e da história da população negra. Na ocasião, será possível experienciar o espaço e escutar narrativas.

Esse estudo também será enriquecido com debates acerca do tema das relações raciais, raça e racismo, buscando evidenciar as relações de apagamento e resistências das presenças negras na cidade.

Foto Leonardo Ramos

 

Coletivo Coletivo Lena Santos discute jornalismo, negritude e responsabilidade social, neste sábado, 14

O 2º Congresso do Coletivo Lena Santos, de jornalistas negras e negros de Minas Gerais, que acontece pela primeira vez em formato presencial, trará discussões sobre e responsabilidade social, presença e pioneirismo negro nos veículos de comunicação. Haverá emissão de certificado. O evento é gratuito neste sábado, 14, na Academia Mineira de Letras

Neste sábado, 14, será realizado o 2º Congresso do Coletivo Lena Santos com o objetivo de ampliar a discussão sobre questões raciais que perpassam a mídia no Brasil. Em seu primeiro congresso presencial, o coletivo trará duas mesas de debate, sendo a primeira Abrindo Caminhos – A presença e o pioneirismo negro nos veículos de comunicação, com a presença dos jornalistas Cláudio Henrique (Rede Minas), Márcia Maria Cruz (Estado de Minas) e Misael Avelino (Rádio Favela). Já na segunda, para discutir o combate às diversas formas de preconceito, o tema será “Escolhendo muito bem as palavras – Jornalismo e Responsabilidade Social” com os jornalistas Arthur Bugre, Etiene Martins e Zu Moreira (Globo Minas).

O evento, que será realizado a partir das 14h30 na Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1466, Centro, BH), é produto de uma parceria do Coletivo Lena Santos com o espaço e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

 As vagas já esgotaram, mas abrimos uma lista de espera para quem não conseguiu se inscrever. Pedimos que, se perceber que não poderá comparecer ao evento, avise-nos o quanto antes por meio do e-mail [email protected] ou no direct do nosso Instagram. Assim poderemos passar sua vaga para alguém da lista. 

Haverá emissão de certificados aos presentes. Para mais informações, acesse o perfil do coletivo no Instagram: instagram.com/coletivolenasantos.

A data do evento foi escolhida  pelo simbolismo do 14 de maio, um dia após a abolição da escravatura, ocorrida em 13 de maio de 1888. Afinal, como canta Lazzo Matumbi, “no dia 14 de maio, ninguém me deu bola / eu tive que ser bom de bola pra sobreviver / […] pensaram que poderiam me fazer perder / mas minha alma resiste, meu corpo é de luta / […] eu sou o que sou, pois agora eu sei quem sou eu”.

Uma oportunidade para refletir sobre os caminhos do jornalismo nas pautas raciais, além do pioneirismo negro na profissão.

No primeiro debate,Abrindo Caminhos – A presença e o pioneirismo negro nos veículos de comunicação”, os jornalistas Cláudio Henrique, Márcia Maria Cruz e Misael Avelino traçam os avanços e desafios da presença de pessoas negras no jornalismo

Já em “Escolhendo muito bem as palavras – Jornalismo e Responsabilidade Social”, os jornalistas Arthur Bugre, Etiene Martins e Zu Moreira discutem como o fazer jornalíistico deve, além de documentar o que acontece do mundo, produzir novas perspectivas que vão ao encontro do combate às diversas formas de discriminação.

No evento uma intervenção cênico poética com textos da Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus com a performance “Diário de Bitita”, da artista Carlandréia Ribeiro – uma referência ao livro de mesmo nome da escritora Carolina Maria de Jesus.

Sobre o Coletivo Lena Santos

O Coletivo Lena Santos nasceu da ideia de mudar a realidade da comunicação brasileira, visto que o país tem uma população de mais de 50% que se autodeclara negra, e, por outro lado, conta com poucos jornalistas que representam os afro-brasileiros. Seu objetivo é a construção de uma comunicação antirracista e representativa.

Em apenas três anos de existência, O Coletivo Lena Santos já ocupa um espaço importante na discussão racial que perpassa a mídia brasileira, reunindo mais de 80 integrantes em diversos setores da comunicação.

Sobre o 1º Congresso

Nesta perpectiva de avanços na discussão sobre questões raciais que perpassam a mídia no Brasil, em maio de 2021 foi organizado o 1° Congresso Nacional Coletivo Lena Santos – Jornalistas Negras e Negros. O evento virtual contou com 10 mesas de debates entre comunicadores nacionais e internacionais que refletiram sobre mídia e racismo, com mais de 1.700 inscrições que vieram de todos os estados do país.

Em agosto de 2021, o Coletivo Lena Santos foi convidado para compor o 16º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo – Abraji com a mesa Diversificando as fontes: como empretecer a cobertura e tornar o jornalismo mais plural. Na discussão, emergiram questões de como a escolha de fontes no processo de construção da notícia é fundamental para discutir se as narrativas são verdadeiramente plurais.

Mundi – Movimento Negro de Divinópolis lança edital de chamamento público para credenciamento de oficineiros (as)

Estão abertas as inscrições para o credenciamento e seleção de oficineiros(as) para atuarem no projeto “Igualdade Racial, Transformação Social” do Movimento Negro de Divinópolis.

As vagas são para profissionais,  pessoa jurídica, das áreas artísticas e culturais. As vagas são para ministrar oficinas de capoeira, Hip Hop, curso de formação para mulheres negras, Curso de trancista e  percussão e tambores.

As pessoas interessadas deverão comparecer de 13 à  27 de janeiro,  das 8 às 17hs e aos sábados das 8 às 12hs na sede do Movimento Unificado Negro de Divinópolis (Mundi) situado à Rua Oeste de Minas, 21, centro – Divinópolis – MG.

Mais informações sobre a documentação necessária para participar do processo seletivo, bem como dias e horários das aulas,  recursos financeiros, contratação, etc, clique aqui: https://drive.google.com/file/d/1Jju63c9tEIWrhaTjrGE4TNOZRqT6JOL0/view

17 anos

Adilson Marcelino é negro, jornalista, e pesquisador de cinema e criador do site Mulheres do Cinema Brasileiro, disponível desde maio de 2004 e premiado em 2005 pelo cineasta Carlos Reichenbach.

17 anos. Parece que foi ontem que o site Mulheres do Cinema Brasileiro entrou no ar. Assim como parece que foi ontem o início da pesquisa que o antecedeu e que começou em 1991. Ou seja, há 30 anos. Naquele momento, mapear a presença da mulher no cinema brasileiro começou em coluna de jornal, depois migrou para o antigo e extinto Fotolog e, por fim, transformou-se em site disponível desde maio de 2004. Pioneiro em seu recorte, o Mulheres mapeia a participação das mulheres no cinema brasileiro desde a fase silenciosa até a atual e nas mais diferentes áreas, à frente e por trás das câmeras. 

São muitas as histórias durante essa trajetória que contribuíram para o registro da memória como entrevistar mulheres emblemáticas da cultura, como a atriz e cantora Vanja Orico, do clássico O cangaceiro, de Lima Barreto; a cantora Dóris Monteiro, que também atuou, sobretudo na década de 1950, e a atriz Eliane Lage, estrela da Vera Cruz.

Um Capítulo especial na história do site diz respeito às mulheres negras de diferentes áreas que o site já entrevistou, corpos pretos, artísticos e políticos. Abrindo alas, um trio de atrizes espetaculares: Ruth de Souza, em 2005, Léa Garcia, em 2004, Zezé Motta, em 2021. Além de outras como Adéle Fátima,  Zezeh Barbosa, Jussara Calmon, Roberta Rodrigues, Margareth Galvão, Zora Santos e Rejane Faria. Além da primeira cineasta negra, Adélia Sampaio, em 2007, e a extraordinária montadora Cristina Amaral, em 2005.

Enfim, o site Mulheres do Cinema Brasileiro faz um trabalho de formiguinha, mas muito feliz de já ter mapeado em entrevistas, perfis e homenagens, mais de 1000 mulheres que construíram e constroem a história do nosso cinema.

Foto: Adilson Marcelino – Crédito: Marco Túlio Zerlotini

FAN BH

A 11ª edição do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte – FAN BH aconteceu em dezembro e, pela primeira vez, em formato híbrido, reunindo atividades presenciais e virtuais. O FAN BH 2021 parte das conexões culturais entre Brasil e África, mais especificamente das influências da cultura bantu na formação da identidade brasileira e suas relações com Minas Gerais. Esta edição destacou o desejo de aproximação – através dos encontros, reflexões, trocas de experiências, de afetos – a partir de processos criativos colaborativos que se darão durante o festival. A programação foi gratuita e abriu espaço para apresentação de artistas, grupos e coletivos das mais diversas áreas artísticas como artes cênicas, artes visuais, artes integradas, audiovisual, cultura popular, cultura urbana, literatura e música.

Foto: 10ª edição do FANBH – Crédito Pâmela Bernardo