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Sandrinha

lll Mostra Conceição Evaristo

Entre os dias 23 e 26 de outubro, o Casarão das Artes promove a lll Mostra
Conceição Evaristo. Uma série de encontros acontecerão em diversos locais. A
Mostra é uma justa homenagem à escritora Conceição Evaristo, exemplo superlativo
do protagonismo da mulher negra, referência internacional por discutir a
discriminação racial, de gênero e classe.

A programação acontece no Sesc Palladium(BH), Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado(BH), Shopping Monte Carmo – Betim, MG.

Confira a programação completa da lll Mostra Conceição Evaristo:

DIA 23


– Apresentação Musical de Ricardo Ulpiano e Rita Silva ( com trechos musicalização
da obra Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo)
– Zaika Dos Santos
– D.Jandira
– Street Dance, com Maíra Mota e Aline Matias
Local: Sesc Palladium(BH) – 19h30
R. Rio de Janeiro, 1046 – Centro

DIA 24


– Leitura de Contos e Poemas da autora, Sonia Soares.
Local: Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado – 15h.

Rua Ministro Hermenegildo de Barros, 904, bairro Itapoã.

DIA 25


– Homenagem e Palestra – Escrevivência: ler, escrever e se ver – Pareceria com a Feira
Literária de Betim – FLIB
Local: Shopping Monte Carmo – Betim, MG – 19H
Av. Juiz Marco Túlio Isaac, 1119 – Ingá Alto, Betim

DIA 26


– Performance de dança afro, com Ramon Paixão.
– Apresentação musical, com Andreia Roseno
– Debate com Conceição Evaristo, sobre suas escrevivências, com mediação de
Rosália Diogo.
Local: Sesc Palladium, 20h
R. Rio de Janeiro, 1046 – Centro

 

 

Djamila Ribeiro, o que é lugar de fala

Por Rosália Diogo, jornalista, professora, pesquisadora, gestora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado.

Djamila Taís Ribeiro dos Santos é feminista, pesquisadora, acadêmica, mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – com ênfase em teoria feminista. Nasceu na cidade de Santos/SãoPaulo.

Suas principais atuações são nos seguintes temas: relações raciais e de gênero e feminismo. É colunista online da Carta Capital, Blogueiras Negras e Revista Azmina. Em maio de 2016, foi nomeada secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo durante a gestão do prefeito Fernando Haddad.

Escreveu o prefácio do livro Mulheres, raça e classe da filósofa negra e feminista Angela Davis, obra inédita no Brasil e que foi traduzida e lançada em setembro de 2015.

Iniciou o contato com a militância ainda na infância. Uma das grandes influências foi o pai, estivador, militante e comunista, um homem que mesmo com pouco estudo formal, era culto. A escolha do seu nome, que em swahili, língua falada no leste da África, significa “beleza”, foi feita por seu pai. Djamila tomou consciência, logo na infância, dos significados de ser mulher e negra no Brasil.

Foto: Christian Braga

Ela comenta o fenômeno do feminicídio ter aumentado entre as mulheres negras (54,2% entre 2003 e 2013), ao passo que diminuiu entre as brancas (queda de 9,8% no mesmo período: “Falta um olhar étnico racial na hora de pensar uma política de combate à violência contra a mulher. As mulheres que combinam opressões ficam em um lugar mais vulnerável. Se a gente não traz os dados sobre isso, não cria políticas públicas para elas”.

Como neste caso, que ela se refere a bell hooks (nascida Gloria Watkins e que adotou o nome de sua bisavó e pede que o usem assim em minúsculo), o empoderamento diz respeito a mudanças sociais numa perspectiva antirracista, antielitista e antissexista por meio das mudanças das instituições sociais e consciência individuais.

A sua fala é objetiva, lúcida e transparente. E, por isso, tem realizado palestras e aulas para explicar por que discorda da ideia de que há meritocracia no sistema educacional brasileiro e defende as cotas nas universidades. “Uma pessoa branca que sempre estudou em escolas boas, comeu bem e tem acesso a idiomas não passa num vestibular como o da USP porque ela é especial, mas porque teve condições para isso. Insistir num discurso meritocrático é escamotear o racismo e o privilégio do grupo branco. Não é uma questão de capacidade, mas de acesso às oportunidades”, comenta.

Em 2017, Djamila participou de um encontro no London School of Economics, no Reino Unido, e argumentou, se referindo ao juiz Sergio Moro, que a decisão de interromper as atividades do Instituto Lula foi feita com uma “canetada”, e complementou: “Juiz não deveria ter lado, juiz não deveria ter partido”, enfatizou ao comentar a torcida em torno da figura de Moro no debate.

Em março deste ano, a filósofa esteve em Belo Horizonte para o lançamento do livro O que é lugar de fala?. Aproveitamos a oportunidade para entabular um gostoso bate-papo com ela.

Djamila nos falou um pouco sobre a sua motivação para ingressar no ativismo político contra o racismo e machismo: “Eu sou filha de militante do movimento negro e desde cedo essas discussões estiveram presentes na minha vida. Mas só fui me perceber como feminista negra quando comecei a trabalhar numa organização de Santos, litoral de SP, chamada Casa de Cultura da Mulher Negra. Foi revolucionário para mim ver mulheres negras pautando nossas questões, escrevendo, produzindo, fazendo projetos. A partir daí só se intensificou”.

Ela conta que teve os primeiros contatos com o movimento negro ainda na infância passada em Santos, cidade do litoral paulista, graças à influência do pai, um estivador, militante e comunista. “Desde muito cedo, eu e meus dois irmãos vivemos nesse meio. Com seis anos, já íamos para atos. A gente debatia esses temas em casa, e meu pai nos fazia estudar a história do nosso povo”, disse.

Indagada sobre por que escolheu a filosofia, e como ela pode nos auxiliar nas reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero no Brasil, ela nos disse que a filosofia no Brasil ainda é uma área muito branca e masculina, portanto é fundamental que nós, negras e negros, possamos participar das oportunidades de reflexões sobre as desigualdades presentes na sociedade na perspectiva filosófica. Para ela, trata-se de mais um canal para que possamos dar visibilidade às denúncias que constantemente o povo negro faz em relação às diversas opressões experimentadas.

Sobre os oito meses que esteve como secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania na cidade de São Paulo, a ativista afirma que a experiência foi muito importante pelo fato de estar na posição de executora de políticas públicas. Ela disse que o fato de ter feito a gestão em um governo de esquerda, historicamente comprometido com as pautas da inclusão, foi crucial para a inserção de algumas políticas de igualdade racial na cidade. Djamila acentua que, sendo esses espaços pouco ocupados por mulheres negras, ela aproveitou a oportunidade para tentar fazer o melhor que foi possível para reverberar a sinalização de que políticas públicas de combate ao racismo e ao machismo podem ser feitas no país.

No período em que esteve à frente da secretaria adjunta, aconteceu a implantação de programas como o Juventude Viva que concedeu bolsas para 101 jovens se dedicarem aos estudos, a formação em direitos humanos para 40 mil professores da rede municipal e o atendimento psicossocial para mães que perderam filhos vítimas da violência policial.

No que se refere à urgência e recorrente pauta – a solidão da mulher negra –, a filósofa disse que é um tema de extrema importância a ser discutido entre nós. Ela defende o argumento de que essa solidão ultrapassa a dimensão das relações afetivas e se espraia para as esferas econômica, institucional, do mundo do trabalho e das inter-relações como um todo.

Ao comentar sobre o conteúdo do livro que a trouxe a Belo Horizonte, O que é lugar de fala?, Djamila disse que ainda falta um longo caminho para que a fala da mulher negra alcance visibilidade. Para ela, existe uma luta constantemente travada com o mercado editorial que se nega a publicar textos de mulheres negras.

Essa negação do reconhecimento do potencial de escrita dos negros realça a contundência do racismo e os meandros das relações patriarcais no país. Ribeiro comenta que ela e outras mulheres negras têm feito a publicação dos seus trabalhos na raça e coragem.

No que refere-se à relação estabelecida com outras mulheres negras, feministas, que lhe serviram e servem de inspiração, a escritora diz que a luta dessas mulheres é que orienta os seus passos. São muitas mulheres nesse campo do enfrentamento étnico-racial e de gênero: Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Grada Kilomba, Zora Neale Hurston, Angela Davis, Maya Angelou, Luíza Bairros, Patrícia Hill Collins entre outras.

Ribeiro diz que sua existência é sinal de resistência a partir da inspiração das ações empreendidas por essas mulheres no passado. Djamila diz que é fundamental que a juventude negra saiba que foram essas mulheres que solidificaram o caminho que pisamos hoje em prol de relações mais igualitárias do ponto de vista de gênero e raça. A filósofa cita a médica, ativista e pesquisadora Jurema Werneck, que um dia escreveu “Os nossos passos vêm de longe” para reafirmar que ela vem seguindo as pegadas dessas mulheres para avançar em busca de um cenário mais favorável para negras e negros na disputa por lugar confortável de fala no Brasil.

No mês de junho, Djamila retornou a Belo Horizonte para um novo diálogo com o público e para o lançamento do livro Quem tem medo do feminismo negro, que reúne um longo ensaio autobiográfico inédito e uma seleção de artigos publicados por Djamila Ribeiro no blog da revista CartaCapital entre 2014 e 2017.

EDITORIAL – Registrando histórias

Foto: Patricia Santos

Há 185 anos, no mês de setembro de 1833, nascia o jornal O Homem de Cor, fundado pelo tipógrafo e escritor Francisco de Paula Brito, elaborado e publicado por negros. Naquela época, a comunidade negra tinha sede de uma imprensa alternativa que falasse dos problemas enfrentados no contexto do racismo, trabalho, saúde, educação e habitação.

É sobre dar continuidade e manter viva a memória da construção social do negro brasileiro, que dedicamos a 10ª edição da REVISTA CANJERÊ a todas as pessoas que propagam as histórias negras, por meio de algum veículo de comunicação.

O maior patrimônio que a humanidade pode preservar é a história das pessoas. O apagamento de autores e autoras negros/as não pode continuar como foi no passado. Somos protagonistas das nossas histórias e registrá-las é o nosso objetivo.

Em nossa capa, a filósofa Djamila Ribeiro prova que a luta da mulher por emancipação está funcionando, mesmo com todas as dificuldades encontradas. Léa Garcia, a entrevistada da edição, incansável militante da causa negra, é um exemplo de base forte. A atriz abriu as portas para que muitas de nós pudéssemos passar, assim como tem passado a estilista e empresária de Salvador (BA) Mônica Anjos, destaque da seção comportamento, e a fotógrafa Marcela Bonfim, a mulher que se (Re) conheceu  negra na Amazônia.

Já que estamos falando de mídia e visibilidade, contamos também a história da criação da TV e Rádio Diamante Angola, veículos que se propõem a trazerem à tona, a real história do povo angolano.

Por fim, desejamos uma ótima leitura!

Afroabraços!

Sandrinha Flávia – Editora

 

POEMAS

Ilustração: Marcial Ávila

Edmilson de Almeida Pereira –  Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1963. É professor de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora.

SIGNOS

 Endereço nos cabelos leva a mais do que leio

onde estão dançando em ritmos vermelhos.

Dançam tatuagens alheias a seu desenho.

As siglas dos mistérios fecham sem correntes

um corpo que intenso se move na inércia.

E sobre outro corpo –  maestro por urgência –

dança como se antes vencesse o desespero.

Dentro da música o pente a silhueta a hora

em que a última fera sabe o sigilo dos velhos.

Os ritmos que entendo pelo ruído dos dentes

são outros são estes atentos como espelhos.

Aquela que me dança na mais perfeita esfera

luta com seus nervos e as cartas que escreve.

O blues me atravessa uma rajada de espíritos

as ilusões viram seta navegando pelos discos.

O céu se dobra em ruas as flores nos oceanos.

A dança que se espera dura se não dançamos.

 

FÁBULA

Esquina não  é  parte  da rua, nem  cotovelo de faca.

Nem caverna  onde  um  se  esconde,  se perseguido.

Nem  macio  para  o amor  de  quem   não  tem leito.

Nem igreja ou teatro, mesmo que aí  tantos represen-

tem. Esquina não é bar nem feira nem seta indicando

desvio. Mais que um lugar é a recitação da passagem.

 

DUETO

Sem saber o idioma da tarde

não posso fugir ao exílio.

Só o trabalho traz o mundo

ao meu alcance. Delírio é a

ausência de comunicação. Se

assobio tivesse declinações.

Esse me sibila o corpo

e cai. De repente, alguém

afora o levanta e devolve.

Devolve a mim, a si? Pouco

importa. Esse diálogo basta

para reinaugurar a tarde.

 

NA CASA DE MEU PAI

 um que se arranha tem  seu canto. Se quiser  ir ao

mundo faz a mala, vai. O pai cede o manto, a seu

tempo garagem  e  porto.  Na  casa,  um  observa.

O pai, que é de todos, se erra  um  jogo acerta  de

outro jeito. Um está na porta, não entra, não sai e

se move mais que a gente carteando  naipes. Com

ele o pai entesa. Ele, o um que é nós.

 

 

A falta de avaliação na Lei 10.639/03 impede seu avanço contra o preconceito

Por Robson Di Brito, Mestre Interdisciplinar em Humanidades pela UFVJM

A relevância de uma avaliação no processo de implementação das políticas públicas é uma das etapas, ou talvez a de maior importância para sua execução. E para uma real implantação deveria conter, na Lei 10.639/03, uma avaliação com dados que contribuam para sua execução.

A citada lei foi a primeira ação da gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tornou obrigatório o ensino de história e da cultura afro-brasileira. Ela norteia que as disciplinas de História, Arte-educação e Literatura atuem como vetores dos conteúdos a serem ministrados, bem como a data do dia 20 de novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra incorporada ao calendário escolar. Este instrumento jurídico como portador do destaque da pluralidade racial brasileira, no processo educativo, está explicitamente endossado enquanto prioridade de representação da população negra no Brasil.

Este trabalho visa observá-la por uma ótica teórica e analítica. Sua análise baliza as discussões sobre as relações raciais e de que forma implicam modificações, perdas e recriações em práticas pedagógicas. A disposição da lei, e os vetos que sofreu na sua fase de projeto levaram a uma insatisfação/impedimento quanto à possibilidade de uma avaliação. O que, na análise deste trabalho, funciona como uma manobra para que a lei tenha seu poder de ação diminuído contra o preconceito racial e social.

Saraiva (2006) afirma que política pública carrega o conceito de ser o agrupamento de decisões oriundas do poder público, que visa ações e omissões, provenientes ou corretivas, destinadas a manter ou modificar a realidade de um ou vários setores da vida social (SARAIVA, 2006, p. 39-40). Anexo ao conceito, o entendimento de política pública apresentada por Rodrigues (2013) afirma que é entendida como um conjunto de procedimentos que expressam relações de poder e que se orienta à resolução de conflitos no que se refere aos bens públicos (RODRIGUES, 2013, p. 33).

Neste sentido a Lei 10.639/03, compreendida como uma lei de política pública, que se configura como uma resposta do Estado diante das demandas geradas pela sociedade, e para este caso em específico, ela é uma resposta às reivindicações por parte da grande massa populacional negra do Brasil, e às militâncias preconizadas pelo movimento negro. Sua atuação colabora para a compreensão de uma política pública regulatória e redistributivas:

Mais visíveis ao público, envolvendo burocracia, políticos e grupos de interesse. […] políticas redistributivas, que atinge maior número de pessoas e impõe perdas concretas e a curto prazo para certos grupos sociais e ganhos (SOUZA, 2007, p.73).

Entretanto a sua ação abre a janela de oportunidades para a construção de uma política pública que tem se mostrado muito mais como política distributiva, que são:

Decisões tomadas pelo governo que desconsideram a questão dos recursos limitados, gerando impactos mais individuais do que universais, ao privilegiar certos grupos sociais ou regiões em detrimento do todo (SOUZA, 2007, p.73).

Sua trajetória como lei remonta além de um longo percurso de reivindicações sociais, disputas políticas, econômicas e de identidade. O que a configura e lhe confere um arcabouço para a formação de política pública muito mais regulatória e redistributivas do que distributiva. Isto porque como parâmetro legal foi aprovada no ano de 1999, e promulgada no mês de Janeiro 2003. O que demonstra uma não urgência para o governo. Como sua proposta incute em alterar a LDB, o projeto foi além de apresentado para votação da Câmara dos Deputados e do Senado brasileiro, questionado e reconfigurado do original. Alguns parágrafos foram vetados, sobre a consideração de inconstitucional. De semelhante forma o veto do Art. 79-A tem como justificativa a consideração de ser inconstitucional e de conter matéria estranha ao projeto, e nele se lê:

O art. 79-A, portanto estaria a romper a unidade do conteúdo da citada lei e, consequentemente, estaria contrariando norma de interesse público da Lei Complementar nº 95, de 26 de Fevereiro de 1988, segundo a qual a lei não conterá matéria estranha a seu objeto. (BRASIL, 2003b, p. 01).

Assim, embasada na Lei da LBD nº 9394/96 que não prevê formação complementar de profissional, ou seja, um profissional capacitado para compreender e transmitir a cultura e história africana e afro-brasileira. Este elemento, corretamente solicitado no projeto original, foi vetado sob a alegação de ser matéria estranha. Ao final de debates que se estenderam por quatro anos, fixou-se a obrigatoriedade do estudo de História e Cultura africana e afro-brasileira, e anexação no calendário escolar do dia 20 de Novembro, como o Dia da Consciência Negra.

Compreender o posicionamento de um burocrata de ruas (profissional de educação) passa além da simples compreensão da execução de suas funções, e abre um hiato[1] entre a lei e sua atuação na esfera social. Esse agente tem a oportunidade de influenciar as políticas públicas, isto por personificar a noção abstrata do Estado em sua representação de executor da lei para com o cidadão comum. O que apresenta uma característica que a Lei 10.639/03 se impõe, uma política “de baixo para cima” (bottom-up).

Uma sociedade que possui um histórico controle por alienação e cultura ideológica centrada no poder eurocêntrico, são razoáveis que se compreendem as impossibilidades da importância do ensino negro e afro-brasileiro. Visto que o burocrata de ruas (professores, gestores, pedagogos, etc.) também esteja neste arcabouço de alienação, muito provavelmente nutrirá interesses pessoais que vão de encontro a esta nova linha de raciocínio, e optará em tender a interesses pseudopessoais ao invés do interesse geral e aclamado pela população. Por isso, será possível encontrar escolas que praticam a lei – nem que seja em sua mínima ação, o dia da consciência negra – e outras que deliberativamente são displicentes a ela.

Não existe aqui uma acusação de que o não cumprimento da lei se faça exclusivamente por uma questão de preconceito, ou da falta de compreensão dela, e até mesmo da não aceitação de alterar a burocracia educativa. Mas de fato, o não cumprimento é possível de ser mensurado, possibilitado conforme apresentado acima, visto que não há uma avaliação acerca do burocrata de ruas e da atuação da lei. Contudo, não há como assegurar se houve uma implementação que a respeitou em seu âmbito geral e objetivos, ou simplesmente não foi executada – isto é um hiato avaliativo. Sem uma avaliação não é possível afirmar tais perspectivas.

Somente implantar a política pública não é o tudo que ela representa; é necessário que revelem resultados avaliativos. O poder público sancionar a Lei 10.639/03, e assegurar que os burocratas de ruas não sejam capacitados ou que não seja aplicada nas escolas é o mesmo que o não existir da lei. São ações que necessitam estar acompanhadas e analisadas em sua execução – avaliadas para que seja possível ajustar os programas de ensino, apontar o alcance dos objetivos, desvelar os efeitos e fracassos, e investigar possíveis soluções para os problemas enfrentados. Não é atoa que o debate da meritocracia tem ganhado o público na questão educação do negro e afrodescendente nacional. A falta de uma avaliação que denote os efeitos da lei na prática, que possibilite desanuviar o preconceito não impera, gerando incertezas e possibilitando o avanço do preconceito.

Fica nítido que a não existência de uma avaliação quanto a Lei 10.639 na política pública deveria soar irreal. Visto que desde a elaboração do projeto, dos debates sobre o programa e a idealização do plano de execução ela deveria estar ali presente. E não apenas pesquisas avaliativas científicas sem o crivo estatal. Entretanto, o silêncio apresentado sobre a sua falta, colabora para a compreensão de ser uma política distributiva, que está centrada nas demandas que o Estado problematiza como sendo da sociedade, e não o apelo do povo negro em sua luta pela igualdade.

 

BRASIL. Mensagem nº. 7, de 9 de janeiro de 2003. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003b. p. 01. < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/Mensagem3.htm> Acessado em 20/01/2016.

SARAIVA, Enrique; FERRAREZI, Elisabete. Coletânea Políticas Públicas. v. 1. ENAP: Brasília, 2006.

SOUZA, Celina. Políticas Públicas: Questões Temáticas e de Pesquisa, Caderno CRH 39: 11-24. 2003

RODRIGUES, Marta Maria Assumpção. Políticas Públicas. São Paulo: Publifolha, 2010.

[1] Para este trabalho compreende-se hiato como interrupção de continuidade em uma série, como falta, intervalo ou lacuna.

NOTÍCIAS

Foto: Divulgação

JEAN-MICHEL BASQUIAT

Está em cartaz no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), de Belo Horizonte, exposição retrospectiva do artista Jean-Michel Basquiat (1960-1988), inédita no país, com mais de 80 quadros, desenhos e gravuras. Ele desenvolveu um estilo novo e expressivo e tornou-se um dos destaques da retomada da pintura figurativa na década de 1980. A obra personifica o caráter de Nova Iorque nos anos 70 e 80, quando a mistura de empolgação e decadência criou um paraíso de criatividade. A mostra segue até 24 de setembro e pode ser vista de quarta a segunda, das 9 às 21 horas, no centro cultural localizado na Praça da Liberdade. A entrada é gratuita.

MAURÍCIO TIZUMBA GANHA BIOGRAFIA

Obra não linear feita a várias mãos, destaca a trajetória do artista mineiro Maurício Tizumba na música, no teatro e no congado. Intitulada “De Camarões: veredas de Maurício Tizumba”, a biografia é uma publicação da Editora Nandyala com pesquisa, entrevistas e projeto editorial assinados por Elias Gibran, Viviane Maroca e Pedro Kalil. O livro foi lançado em agosto, com show do biografado e seu amigo e músico Sérgio Pererê, no Teatro do Centro Cultural Minas Tênis Clube, e já está disponível para venda. À narrativa sobre a história de vida de Maurício Tizumba, somam-se fotografias, manchetes de jornais que marcaram sua trajetória, letras compostas pelo artista – e uma em parceria, bilhetes que Tizumba ganhava quando cantor de bares, linha do tempo que contempla sua formação, produções, atuações, prêmios; e ainda um mapa, do mundo e do Brasil, que reforça que a arte de Tizumba, hoje, alcança o mundo.

FlinkSampa 2018

A FlinkSampa – Festa do Conhecimento, Literatura e Cultura Negra – será realizada no período de 19 e 20 de novembro de 2018 na Faculdade Zumbi dos Palmares, com programação das 10 às 20h. O novo endereço do evento fica próximo à estação de metrô Armênia, na avenida Santos Dumont, 843, São Paulo (SP), dentro do Centro Esportivo Tietê. Durante dois dias serão realizados lançamentos e vendas de livros, quadrinhos e mangás, produtos de afro-empreendedores, além de atividades culturais para professores e estudantes de todas as idades: palestras, debates e contações de histórias. A homenageada desta edição será a escritora mineira Conceição Evaristo.

FIT-BH

O Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte (FIT-BH) é considerado um dos maiores festivais internacionais de teatro do país e um dos cinco principais da América Latina. A 14ª edição acontece de 13 a 23 de setembro de 2018 e o propósito da curadoria é trazer ao festival produções e grupos pouco representados no circuito de festivais brasileiros, buscando as singularidades de trabalhos marcados por seu lugar social. A curadoria desta edição é assinada por Luciana Eastwood Romagnolli (crítica e jornalista), Soraya Martins (atriz, pesquisadora e crítica de teatro afro-brasileiro) e Grace Passô (atriz, diretora e dramaturga), em colaboração com três assistentes: Anderson Feliciano, Daniele Avila Small e Luciane Ramos.

FESTCURTASBH

A 20ª edição do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte – FESTCURTASBH – realizado pela Fundação Clóvis Salgado, trouxe como temática curatorial o Cinema Negro. O evento realizado de 10 a 19 de agosto, exibiu 137 filmes, de 70 países e de doze estados brasileiros. O festival promoveu ainda três Mostras Especiais. A primeira “Cinema Negro – Capítulos de uma História Fragmentada” (25 filmes) com curadoria do crítico de cinema e pesquisador Heitor Augusto. A segunda, dedicada à filmografia da cineasta e produtora ganesa-americana Akosua Adoma Owusu. E a terceira, “Tributo a Safi Faye” com quatro filmes da diretora de cinema e etnóloga senegalesa. Ao longo de sua carreira, Faye dirigiu vários documentários e filmes de ficção com foco na vida rural no Senegal.

VAGA CARNE

A editora Javali lançou recentemente o livro Vaga Carne, da atriz, diretora de teatro e dramaturga Grace Passô. O livro é uma adaptação do premiado monólogo escrito, estrelado e dirigido por Grace. Nele, uma voz errante invade um corpo humano e sonda o que esse corpo sente enquanto mulher, o que finge sentir, o que é impenetrável nele, o que ele significa para o outro ou a outra que o vê. Em Vaga Carne, um corpo de mulher vive a urgência do discurso à procura de suas identidades, à procura de pertencimento.O livro faz parte da Coleção Teatro Contemporâneo, da Editora Javali. Projeto gráfico elaborado por Vitor Carvalho e Amanda Goveia.

Festa Literária Internacional de Paraty, com Conceição Evaristo

Ela, que obteve o Prêmio Jabuti 2015 com o livro “Olhos d’água”, foi um dos destaques da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, 2018. Candidata a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – ABL, a escritora teve uma participação especial na Casa Insubmissa de Mulheres Negras. Destacamos um trecho da sua fala na FLIP: “Todos os lugares representativos nesta nação nos pertencem à medida que a nacionalidade brasileira está marcada pela presença dos povos africanos. Concorrer à cadeira na ABL é um direito de todo cidadão ou cidadã que tenha um livro. Eu tenho seis, um Jabuti (por “Olhos d’água”), obras publicadas em inglês, francês e espanhol. Se a ABL representa a literatura brasileira, então, quanto mais representantes de diversos espaços sociais, étnicos e de gêneros a casa tiver, mais democrática ela se torna”.

CANJERÊS, CULTURA POPULAR E TRADIÇÃO – ESPELHO DE BH

Lançamento da Revista Canjerê 10ª edição

Em maio, no dia 10, no Museu das Minas e do Metal, instituição parceira do Casarão das Artes, rolou o lançamento da 9ª edição da Revista Canjerê. O evento foi permeado por um super show do músico Babu, juntamente com sua banda.

A matéria de capa foi construída a partir do universo da escritora, juíza, desembargadora e ex-Ministra da Educação e Ensino Superior, Vera Duarte. Sua valorosa entrevista possibilita conhecermos um pouco mais sobre Cabo Verde, seu país. A escritora fala sobre política, literatura, relação de gênero, relação homem-mulher, racismo no Brasil e tantas outras pautas sociais que levantam questionamentos e que afetam vidas, tanto em nosso país, quanto em Cabo Verde/África. Foi uma linda noite de Canjerê.

Festa de Nossa Senhora do Rosário no Reinado Treze de Maio

Ainda em maio, duas potentes agendas mobilizaram a participação da nossa equipe. Uma delas foi a Festa de Nossa Senhora do Rosário, alusiva à falsa abolição, que aconteceu no Reinado 13 de Maio, durante treze dias, sob o comando da Rainha do Congo de Minas Gerais, Isabel Cassimira. A festa também celebrou os 74 anos da Guarda de Moçambique e os 20 anos da Guarda de Congo do Reinado Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. O festejo foi encerrado no dia 13, com uma missa conga, celebrada por Frei Chico.

Arte e Cultura Negra na Semana dos Museus

Outra atividade que mereceu a nossa participação foi a 16ª Semana dos Museus no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Realizada entre os dias 15 e 20 de maio, com várias atividades relacionadas ao tema do ano: Museus hiperconectados – novas abordagens, novos públicos. O Casarão das Artes indicou alguns nomes que divulgam a arte e a cultura negra na cidade como a escritora Madu Costa, o Grupo Brother Soul, a artista visual, Lira Marques e o projeto Nujazz no Parque.
Dialogamos com a proposta da Seman
a de Museus, que foi a busca de conexões com o pensamento e a produção de diferentes áreas culturais da cidade.

Visita do Rei Ooni de Ifé (Nígéira) à Minas Gerais

Entre os dias 14 e 17 de junho, a Majestade do Reino de Ifé, Nigéria, fez uma visita inédita ao Brasil. Em sua passagem por Belo Horizonte, a equipe do Casarão das Artes teve a honra e a alegria de compor o grupo que o recebeu no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Na ocasião, o Rei e sua comitiva foram recepcionados por várias guardas de congado. Momento ímpar e rico da diversidade cultural que permeia o Brasil plural.

Aniversário da Independência de Moçambique no Consulado de Moçambique em Minas Gerais

Em junho, também foi a vez de participarmos da celebração/homenagem ao nosso país irmão: Moçambique. Aceitamos o convite do Consulado de Moçambique em Minas Gerais para participar do 43º aniversário do país, que foi realizado no dia 23. Foram momentos de muita emoção e de interação cultural em que a capoeira e o congado deram o tom de como o povo brasileiro tem se apropriado e ressignificado o legado cultural do continente africano.

Pesquisador@s negras de Michigan em Belo Horizonte. Momentos de trocas culturais

No dia 04 de julho, o Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango nos convidou para receber conjuntamente, uma delegação de professor@s/pesquisador@s estadunidenses. Na comitiva havia um professor de arquitetura e um dançarino clássico e afro, com reconhecimento mundial. Entre as mulheres – uma professora de literatura e a curadora de um Museu. Também compôs o grupo, uma dançarina e artista plástica, uma percussionista e uma professora de educação inclusiva. Eles se interessaram bastante pelas pautas relacionadas ao genocídio da juventude negra e sobre a forma de organização das mulheres negras no Brasil.

Canjerê Independência de Moçambique

No âmbito do Programa Noturno nos Museus, que aconteceu na noite de 20 de julho, foi a vez do Casarão das Artes fazer, ao seu modo, uma homenagem a Moçambique. Para tanto, foram convidad@s a escritora Madu Costa, que declamou alguns poemas de poetas moçambicanos e angolanos como José Craveirinha, Noêmia de Sousa e Agostinho Neto; e o Dj Leo Olivera, que acionou a sua pik up musical e presenteou o público presente ao Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado, com um pouco das belas músicas moçambicanas, como a tradicional marrabenta.

ORIENTAÇÃO AFIRMATIVA PARA ENEGRECER A PÓS-GRADUAÇÃO

Por Naiara Rodrigues – Jornalista e assessora de imprensa

Apesar de serem a maior parte da população do país (52,9%), os estudantes negros representam apenas 28,9% do total de pós-graduandos no Brasil, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), feita em 2015, pelo IBGE. Em maio de 2016, a publicação de uma portaria pelo Ministério da Educação incentivou o debate de cotas na pós-graduação para que instituições de ensino criassem condições para promover a inclusão de negros, indígenas e pessoas com deficiência. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) implementou uma política de ações afirmativas desse gênero, em abril de 2017, que passou a valer para o processo seletivo deste ano.

Apesar de as medidas serem um avanço, ainda falta muito para se alcançar a igualdade na pós-graduação. Iniciativas não-institucionalizadas têm auxiliado na promoção dessa mudança. No fim do ano passado, foi criado o projeto Orientação Afirmativa com o objetivo de preparar candidatos negros que pretendem ingressar na Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG, em nível de mestrado e doutorado.

Foto: Augusto Lacerda

O grupo de estudos ajuda estudantes com matérias essenciais para o processo seletivo, como inglês instrumental, metodologia de pesquisa, estudo dos textos indicados no edital da seleção e preparação para a entrevista. A iniciativa independente veio da união das alunas que já se encontram na pós da instituição, Pâmela Guimarães, Mayra Bernardes e Lucianna Furtado que sentem de perto a falta de representatividade na academia. “A cada ano, as turmas de mestrado e doutorado ingressam com aproximadamente três pessoas negras, quando muito. No departamento, temos apenas três professores negros. Então, é mais que urgente subir e puxar os nossos pares para cima”, destaca Pâmela Guimarães.

A criação do grupo se baseou no fortalecimento mútuo – uma das principais propostas do movimento negro e do feminismo negro – e o projeto só foi possível com a soma de conhecimento e vivência das três alunas. “Lucianna e Mayra são fluentes em inglês, e eu não. Com isso, conseguimos acrescentar esse tópico de ensino.

A prova de proficiência em língua estrangeira é uma exigência para ambos os níveis, mestrado e doutorado, e talvez seja um dos maiores empecilhos para quem não teve condição socioeconômica de estudar outro idioma”, ressalta Pâmela.

A política de reserva de vagas para candidatos negros atinge apenas a classificação de candidatos já aprovados em todas as etapas. “O processo seletivo manteve algumas medidas que privilegiam estudantes de classe média e egressos da própria UFMG como a proficiência em idioma estrangeiro (etapa eliminatória) e a dinâmica de escolha dos planos de estudos e projetos de pesquisa, vinculada a autores e perspectivas específicas, desproporcionalmente acessíveis para quem já se encontra inserido na universidade e nos grupos de pesquisa.

Considerando que esse cenário limita o acesso de pessoas negras à pós-graduação, nossa iniciativa de Orientação Afirmativa pretende apoiar os candidatos negros e suas propostas de pesquisa para que possam concorrer em pé de igualdade”, conclui Lucianna Furtado.

O grupo estende a orientação necessária para lapidar suas propostas de pesquisa e adequá-las ao formato do Programa, em uma tentativa de minimizar as disparidades, para contribuir tanto no acesso de candidatos negros à Pós-Graduação em Comunicação como na formação de professores negros.

Além do apoio com os estudos, o projeto faz uma campanha de arrecadação virtual para arcar com os custos do processo seletivo como as taxas de inscrição do processo e da prova de proficiência em idioma estrangeiro (que têm gasto médio de 260 reais, por estudante).

O grupo chegou a receber 60 pedidos de inscrição e acompanha atualmente 13 pessoas, sendo uma para o Doutorado e 12 para o Mestrado. De acordo com as integrantes, essa primeira turma é formada em sua a maioria por mulheres. “Historicamente, as mulheres negras tem sido a parcela da população mais negligenciada pelas políticas públicas e, consequentemente, são minoria na academia e em outros espaços de poder e conhecimento, mesmo que possuam um ponto de vista privilegiado para estudar questões importantes da nossa sociedade.

Por isso, acreditamos que trazê-las para esse espaço possa ocasionar não só ganhos individuais, mas, também, coletivos com o poder de transformar a nossa realidade”, afirma Mayra Bernardes. Conheça mais sobre o projeto em: orientacaoafirmativa.wordpress.com.

Lingerie nude para mulheres

A empresária Ade Hassan lançou a marca Nubian Skin com uma linha de lingerie nude pensada para as mulheres negras

Por Sandrinha Flávia, jornalista, locutora, mestra de cerimônias e editora

A expertise de criar um negócio a partir de uma dificuldade resolveu o problema de milhares de mulheres negras. A empresária Ade Hassan, de Londres fez da sua frustração uma empresa diferente, rentável e que atende um público que não se via representado. Hassan criou uma linha de lingerie Nude para mulheres negras de várias tonalidades de pele.

Tudo começou em 2014 quando a empresária já estava cansada de procurar meia calça e lingerie Nude do seu tom de pele e nunca encontrava. Frustrada, ela decidiu se movimentar acreditando que outras mulheres também passavam pelo mesmo problema. Foi assim que nasceu a Nubian Skin.

O trabalho de pesquisa para a criação dos produtos durou cerca de um ano. O primeiro passo, segundo a empresária, foi visitar as marcas de maquiagem que já trabalhavam com produtos para a pele negra para se inspirar nas cores. “No início, visitei lojas em Londres e Nova York que tinham ofertas significativas de produtos para as mulheres negras como Fashion Fair, MAC, Nars, Lancôme e Blackup. Eu queria descobrir quais das suas cores eram as mais populares entre as mulheres com pele mais escura”, disse.

Com base em todas as descobertas, a empresária selecionou suas cores preferidas. Essa foi apenas a primeira etapa, muitos desafios ainda viriam pela frente. “Combinar os tons de pele ao pantone de tecidos e certificar-se de comparar as cores sob uma caixa de luz foi um exercício muito bom. Foram várias idas e vindas à fábrica e às casas de tingimento para encontrar os tons certos”, mencionou.

Ade Hassan, criadora da marca Nubian Skin – Foto: Israel Peters for Xero

O trabalho foi finalizado em meados de junho, mas tinha outra tarefa pela frente: achar os tons das meias-calça. “Não poderíamos simplesmente replicar a cor de um tecido sólido em um tecido transparente. As meias exigiram muito mais tempo. Duas das cores desceram muito rapidamente, mas duas levaram um pouco mais de esforço”. Chegou um momento em que a própria empresária decidiu fazer o trabalho. “Decidi eu mesma ferver algumas das cores com as quais eu não estava satisfeita em enormes potes de chás e café para obter a cor perfeita. No final, deu certo”.

Após o lançamento da marca, Ade Hassan virou notícia na mídia. Foram diversas entrevistas para os mais variados veículos. O sucesso foi tanto que a cantora Beyoncé e suas dançarinas usaram lingeries da marca em sua sétima turnê musical, The Formation World Tour.

Os produtos da Nubian Skin são vendidos em todo o mundo pela internet, com estoquistas físicos no Reino Unido, EUA, Portugal, Nigéria, Jamaica e Caribe francês e no site ASOS. A empresa não tem loja física, o atendimento é feito por meio de um showroom na cidade de Londres com serviços de Color Match & Fit, onde as pessoas podem experimentar os produtos e fazer os seus pedidos.

SANDRINHA FLÁVIA: MIL FACES INSPIRADORAS

Samira Reis – Jornalista e modelo

Foto: Patrícia Santos

Em qualquer lugar que ela chegue, primeiro vem aquele sorriso. Não poderia ser diferente vindo de uma mulher que exala elegância e inteligência somadas à beleza. Essas atribuições cabem perfeitamente para Elissandra Flávia, popularmente conhecida como Sandrinha. No entanto, já quiseram tirar essa força e quase deu certo. “Quando cheguei em Divinópolis, eu era uma pessoa insegura, me achava feia, não gostava dos meus cabelos, nem do meu corpo, não acreditava em mim. A baixa autoestima gritava, fruto de muitos ataques racistas”, comenta.

Quase deu certo, mas não deu. Ainda bem. Não foi fácil se afirmar com uma mulher segura, cheia de vida e vontade de realizar coisas impactantes diante de uma sociedade que ainda dissemina o racismo, a misoginia, a desigualdade. “Estou em busca de melhorar cada vez mais, busco meditar, ler, sentir a vida, estar com pessoas positivas. Hoje, eu tento ser presença consciente do espaço que ocupo”.

Nascida em Barão de Cocais, atualmente Sandrinha se divide entre Belo Horizonte, atual moradia, e Divinópolis, no centro-oeste do Estado, onde vive a mãe e alguns dos irmãos. “Vim para Divinópolis com uma amiga, Maria José, em 1999. Depois minha mãe veio com dois irmãos e depois vieram mais quatro irmãos. Os outros irmãos, um mora em Juiz de Fora e o outro em São Paulo”, relembra.

Na cidade do Divino é onde se reúne com a sócia e amiga de longa data, Patrícia Santos. Juntas, elas empreendem e firmam no mercado a Niari Cosméticos, marca de produtos para cabelos crespos e cacheados. Tudo começou com uma máscara de hidratação e atualmente a empresa já possui uma linha completa (shampoo, condicionador, creme para pentear, máscara, gelatina). Como elas não param, pode-se notar que em breve haverá novidades. “Nossos próximos passos são lançar novas linhas de cosméticos e lançaremos também um blog para nos aproximarmos mais dos nossos parceiros/as, colaboradores/as, consultores/as e clientes. Investiremos mais em produção de vídeos para o nosso canal, TV Niari, e ampliaremos os pontos de vendas no Brasil. Tem outra novidade que ainda não posso falar, é algo grandioso e muito bom.”

Esse ritmo de trabalho incessante é mais uma das características de Sandrinha. Além de jornalista, é locutora, mestre de cerimônias, militante do movimento negro, empresária, editora-chefe desta revista, responsável pelas edições do saudoso Encrespa Geral BH. “Todas as funções que hoje exerço foram surgindo na medida que fui trabalhando a minha autoestima. São trabalhos que, de alguma forma, fazem a diferença na vida de alguém. Esse é o meu propósito”, afirma.

Pode parecer uma rotina desgastante, afinal são inúmeras atividades com grupos diferentes. No entanto, Sandrinha encara com seriedade e agarra tudo aquilo que pode fazer a diferença naquilo em que acredita, principalmente quando se trata da população negra. Esse ativismo se tornou mais forte em 2006, quando participou da fundação do Movimento Negro de Divinópolis.

Essa trajetória de mulher, trabalhadora e militante é cercada de inspirações. Entre elas, a jornalista, pesquisadora e escritora Rosália Diogo, responsável por inseri-la nos movimentos da capital mineira. A sócia Patrícia Santos também é uma importante referência profissional e pessoal. E a estrela guia é a mãe, Maria Geralda. “É a minha maior força. Gerou 9 filhos e criou todos, passando muita necessidade, até mesmo de alimentos. Resistiu contra o machismo, sexismo e racismo. Tem que ser muito forte e resistente para conseguir passar por tanta coisa, e ainda sorrir e agradecer a Deus pela vida”, diz.

Em um mundo de conflitos, dores e dissabores, é fundamental se cercar e aprender com pessoas assim. O desejo é que todas e todos tenham a chance de conviver com “Sandrinhas” pela vida.