CABELO, NEGRITUDE E ATITUDE

Roger Deff
Editor da revista Canjerê, rapper, jornalista e mestre em Artes pela UEMG

Um dos aspectos mais perceptíveis do racismo é o processo de inferiorização das características que nos definem e um dos alvos preferenciais são os cabelos. O termo “cabelo ruim” é utilizado com freqüência e é um ataque que persiste de maneira naturalizada trazendo impactos negativos sobre a auto-estima de crianças negras, fortalecendo uma visão depreciativa que poderá acompanhá-las pelo resto da vida. Toda a construção de beleza predominante no imaginário popular tem a branquitude como referência, o que gera questões com as quais pessoas negras têm de lidar ao longo da vida, como a ausência de representatividade e, muitas vezes, rejeição à prória imagem, já que esta não se encaixa no padrão hegemônico.  

Os salões de beleza afro espalhados pela cidade, com seus cabeleireiros e cabeleireiras, cumprem um papel muito importante na desconstrução dos estereótipos, na forma como nós, homens negros e mulheres negras, nos enxergamos. 

A primeira lembrança que tenho de salões voltados para a beleza negra é do famoso Roger Black Power, espaço que nasceu em BH entre os anos 80 e 90 e que se notabilizou como o principal salão da época, com seus cortes afro, o que influenciou também futuros cabeleireiros. Quando tratamos desses aspectos há um componente político perceptível que vai além da estética. Os cabelos afro representam resistência às constantes tentativas de apagamento de tudo o que somos e dizem respeito à valorização da nossa ancestralidade e dos nossos corpos negros na diáspora.

Os cabelos volumosos e arrendondados, chamados de Black Power, foram adotados como símbolo de luta a aceitação da beleza negra nos Estados Unidos durante o movimento pelos direitos civis naquele país, tendo a ativista e intelectual Angela Davis como um dos principais nomes desse período, reconhecida por ostentar uma cabeleira Black imponente, o que fazia jus à sua atuação.  Por fim, o Black Power chegou ao Brasil nos anos 70, junto com a moda da soul music e do funk, nos bailes. Há quem diga que essa “moda” não trouxe junto as questões abertamente políticas que mobilizaram os negros estadunidenses, mas discordo. O que pode ser mais político do que pessoas, a despeito do racismo, assumirem como símbolo de poder e orgulho justamente os cabelos, tão constantemente atacados? Mais uma vez, não se trata “apenas” de cabelos, mas de comportamento, atitude, de ir na contracorrente da imposição de um padrão de beleza com bases européias. 

Beleza e resistência

Na cidade de Belo Horizonte, outro ponto muito importante para todo este movimento de valorização dos cabelos das pessoas negras é o Salão Preto e Branco, situado na Galeria Praça 7, bem no coração da cidade. Criado pelos cabeleireiros JC, Juraci e “N” Nilmar, o salão respirava em plenos anos 90 a recém chegada cultura Hip Hop, com seus três sócios MCs e integrantes do grupo de rap NJJC, o que já diz muito sobre o significado daquele lugar para os jovens da época, em meio a lojas de discos e a trilha sonora de Public Enemy, Racionais, Thaíde & DJ Hum e Run DMC. Há hoje, por parte da juventude negra, uma consciência muito nítida sobre o que significa ostentar tranças, blacks e afins em um país como o Brasil. Trata-se de enfrentamento ao racismo e também estratégia contra o extermínio, que não é apenas físico, é também da subjetividade. O Instituto Todo Black é Power, situado na Rua da Bahia/Centro, foi criado por Dandara Elias. Em suas falas, é perceptível sua compreensão sobre o quanto este cuidado é sinônimo de empoderamento coletivo e, para além do salão, a empresária contribui com palestras nas quais aborda temas ligados à transição capilar de mulheres negras e a autoestima intrinsecamente ligada a este processo. 

Proprietário do salão Stillus D’Black, também localizado na Galeria Praça 7, região Central, Reginaldo conta que não encontrava pessoas que cortassem seu cabelo de maneira satisfatória, até que em uma conversa com Nilmar, do Salão Preto e Branco, se descobriu cabeleireiro afro. “Eu percebia que a gente tinha dificuldade em encontrar pessoas que cuidassem do nosso cabelo, por isso eu quis me aprofundar nisso, e é muito bom ver as pessoas entrarem aqui e saírem satisfeitas, felizes”, conclui Reginaldo. Há todo um processo de construção, de aprendizado sobre quem nós somos e este caminho passa necessariamente por gostarmos de nós, sobre uma luta antirracista que passa por resistirmos culturalmente.

Foto: Divulgação