Canjerês em tempos de Isolamento Social

Equipe Casarão das Artes

Em dezembro de 2019, lançamos a 13ª edição da Revista Canjerê. O momento foi coroado com a participação cênica que teve como referência o bailado Maracatu Chico Rei.  A performance, Chico Rei, teve a direção de Lucas Madruga e as encenações de Madu Santos, Camila Morales, Bernadete Nascimento e José Nilson. 

Equipe da Revista Canjerê – Crédito: Rosália Diego

A ação cultural dialogou com a abertura da exposição Maracatu Chico Rei – um elo entre o erudito e o popular, por meio da música, no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado, em parceria com o projeto Nujazz no Parque, coordenado pelo Dj Leo Olivera. No contexto do lançamento, também foram comemorados os 5 anos do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado e o aniversário de 122 anos da cidade de Belo Horizonte.


Apresentação abertura exposição Maracatu Chico Rei – Crédito: Rosália Diego

Em janeiro de 2020, a equipe do Casarão das Artes se deslocou para a cidade de Jaboticatubas com o objetivo de acompanhar as celebrações da Folia de Reis. Essa manifestação cultural é realizada há algumas décadas pelo Quilombo Matição. Com pouco mais de 100 habitantes, os moradores mantêm vivos os segredos do candombe, o movimento do corpo no batuque, o festejo e a melodia das cantigas de roda e os cantos da negra Tança, usados na “apanha” da lenha e em outros momentos de trabalho. O artesanato é uma prática local, utilizando bambu, pintura em panos de prato, confecção e tapetes. Trata-se de uma iniciativa de resistência cultural afro-brasileira, seguida por algumas famílias quilombolas que mantêm a tradição de andarem em várias casas, rezando, cantando e tocando instrumentos típicos de uma folia.

Ainda em janeiro, estivemos na cidade de Serro, interior de Minas Gerais, para participar da 36º edição do Festival de Cultura do Popular do Vale do Jequitinhonha – Festivale. O homenageado da edição foi Mestre Antônio, da cidade de Minas Nova.  A experiência foi encantadora, pois ali estavam reunidos vários artistas e mestres da cultura popular, sendo a maior parte deles negros e negras, ou divulgadores e fazedores/as da cultura de matriz africana. O encerramento contou com a participação de várias Guardas de Congadas.

Pois bem, traçamos alguns percursos a serem seguidos para acompanharmos presencialmente várias agendas relacionadas às culturas negras a partir de março. Mas, eis que a pandemia do Coronavírus chega.  Com ela, as limitações de agendas culturais presenciais.

Assim, o que faremos agora é destacar uma manifestação cultural afro-brasileira que nos é muito cara – O Congado.  Sistematicamente, acompanhamos os festejos do Rosário, que acontecem há 12 anos, no Reinado Treze de Maio, no bairro Concórdia, em Belo Horizonte onde se apresentaram as Guardas de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. A Rainha das Guardas é Isabel Cassimiro, a querida Belinha, que é também Rainha do Congo do Estado e Minas Gerais.  Diante da impossibilidade do encontro físico, o Casarão das Artes e a Revista Canjerê apoiaram o projeto de “vakinha”, espécie de campanha virtual de arrecadação de recursos para a manutenção e melhorias do reinado.

Participamos das atividades religiosas no modo virtual. No dia 9 de maio, ocorreu a primeira live, com a participação de diversos artistas da cidade. Já no dia 17, a festa de Treze de maio aconteceu com lives d@s seguintes artistas: Cida Reis, Juliana Perdigão e Maurício Tizumba. Para dar início às duas agendas, fomos agraciad@s com uma benção da Rainha Belinha.

Há décadas que participamos dos festejos que acontecem também no Quilombo dos Arturos. Uma das principais manifestações mantidas pela comunidade é a “Festa da Abolição”, que ocorre a cada dia 13 de maio como forma de ressignificar o ato da propalada abolição da escravatura que, na realidade, não existiu. O que vivemos atualmente são novos modelos e formas de escravização da população afro-brasileira. Aos poucos, vão chegando, na capela local, reis e rainhas de diversas outras realezas, capitães, tocadores e dançantes devotos de Nossa Senhora do Rosário. Junto com eles, cores, ritmos e a fé em dias de mais igualdade entre as pessoas.

Embora tenha caráter festivo, a celebração é uma forma de resistir: a abolição da escravatura é ainda um projeto em construção, e isso precisa ser constantemente reafirmado.

O nosso forte desejo é o de que para a próxima edição da nossa Canjerê, possamos trazer relatos e imagens de alguns encontros presenciais. Afinal, a cultura negra é pura resistência, fé, foco e beleza. Sobreviremos ao Covid-19 e teremos muitas boas novas sobre as ações da arte e cultura negra para contar para vocês.