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Música

Fabrício FBC: entre o Rap, o Miami e a Disco

                              Por Roger Deff – Rapper de BH, jornalista com especialização em produção e crítica cultural pela PUC Minas e mestre em Artes pela UEMG

Fabrício FBC tornou-se um dos nomes mais relevantes da cena musical brasileira contemporânea. Após lançar o celebrado “Baile” (2021), trabalho que revisita o Miami Bass, ritmo que é a principal base para o funk brasileiro, FBC surpreende ao ir para uma direção totalmente diferente, dessa vez abraçando a disco music com pitadas de jazz.  Já era inusitado o suficiente o caminho anterior tomado pelo artista, uma vez que seus trabalhos seguiam a linha mais tradicional do rap, com letras que traziam fortes críticas sociais e relatavam cenários, como em seus discos SCA (2018) e Padrim (2019).

O novo disco traz o quilométrico título “O Amor, O Perdão e a Tecnologia nos levarão para outro Planeta” e apresenta um FBC que vê a música como ponte para diálogos com públicos diversos e tem ousadia o suficiente para criar as próprias tendências, sem se prender a nenhuma fórmula (nem as criadas por ele mesmo). Em tempos em que artistas procuram lugares seguros para se assegurarem no árido e competitivo espaço das plataformas, FBC demonstra que tem outras preocupações e se apresenta muito seguro ao se mostrar mutante em suas sonoridades, sem se preocupar muito com o que está estabelecido mesmo num gênero com características vocais e temáticas tão marcadas quanto é o rap. 

Dito isso, importante enfatizar que FBC ainda é um rapper, mas assim como Criolo fez em seu álbum “Nó na Orelha”, Fabrício não fez um disco de rap, o que está longe de ser um problema. Trata-se, assim, de um artista se abrindo criativamente para outras possibilidades e fazendo isso com muito sucesso, uma vez que o álbum, como anterior, foi bem abraçado pelo público. Destaque para a faixa Químico, inspirada no clássico oitentista “Physical”. Criatividade e muita ousadia definem esse trabalho. Já aguardo com muita curiosidade os próximos trabalhos do colega rapper, com a certeza de que estarão distantes de qualquer lugar comum. 

Foto – Pedro Margherito

Os sons e tons de Augusta Barna

Por Roger Deff é rapper de BH, jornalista com especialização em produção e crítica cultural pela PUC Minas e Mestre em Artes pela UEMG

Augusta Barna é destas artistas que deve ser observada com muita atenção e de perto. Cantora, compositora e atriz, a jovem impressiona pela desenvoltura da sua performance vocal e pela maturidade das suas composições, de letras que carregam uma poesia potente ancorada em uma música de roupagem pop, dialogando com referências que vão da MPB ao funk brasileiro, mas sem necessariamente buscar um rótulo. Nesse sentido, assim como os tropicalistas, Barna mistura sons e tons com a liberdade de quem apenas quer expressar sua arte, da maneira mais sincera e profunda que puder.

Apesar da consistência do trabalho, a carreira fonográfica de Barna é recente e teve início em 2021, quando lançou seu primeiro EP, intitulado “Ruídos”. Apenas dois anos depois, seu primeiro álbum “Sangria Desatada” ganha o mundo. Com dez faixas, o disco entrega excelentes canções, com destaque para “Acaju”, “Chegada” e “Ganhar”, músicas que evidenciam a versatilidade da cantora, em interpretações memoráveis, distintas, que demonstram facetas muito interessantes do seu trabalho.

O crédito vai também, obviamente, para a equipe de músicos competentes que acompanham a artista, sendo Dudu Amendoeira responsável pela produção musical, além de Chico Bueno (guitarras), Rodolfo Buarque (percussão), entre outras presenças no disco. O trabalho dessa promissora artista pode ser conferido em seu canal do youtube https://www.youtube.com/@AugustaBarna e nas principais plataformas digitais.

Foto Gabriel Oliveira

Uma referência chamada Radical Tee: “ubatuke foi me chamar”

Por Roger DefMC Belo-horizontino, artivista, jornalista, mestrando em artes, com pesquisa sobre o Hip Hop e colaborador de diversas ações pela cultura na cidade.

Criado na Vila Embaúbas, Anderson Luiz de Paula, mais conhecido pela alcunha de Radical Tee, é o mais antigo MC em atividade na cena de BH e Região metropolitana com uma caminhada iniciada em 1991 quando, ao lado de amigos, criou o grupo Retrato Radical, referência do rap produzido em Minas Gerais.

O grupo foi responsável pelo 4º registro fonográfico da história do hip hop na cidade: o LP “Seja Mais Um”, produzido pelo também veterano DJ a Coisa e lançado pelo selo Black White Discos, em 1995. O trabalho executado nas rádios e bailes contribuiu para a formação de toda uma geração de rappers, inspirados no estilo e postura do grupo. 

Os artistas estavam tão à frente do seu tempo que ver o Retrato Radical nos palcos trazia a sensação de serem transportados para o Bronx tamanho o cuidado técnico, além das suas performances sempre viscerais. Só essa primeira apresentação já torna a trajetória do artista pertinente para ser abordada em tempos de reconhecimento nacional desse gênero musical, com a cidade representada em outros territórios por figuras com Djonga, Fabrício FBC e Clara Lima. 

Para além desse marco, Radical segue inventivo, desafiador e atual nas suas produções. Em carreira solo, mas como ele mesmo diz “ainda sou Retrato”, o rapper lançou em 2014 o álbum “Ideia demais, Evolução de menos”, uma homenagem aos bailes blacks que foram sua base de formação musical na adolescência e chega com um novo trabalho intitulado Ubatuke (2022), álbum com 12 faixas que celebra os seus 30 anos de carreira e reverencia a cidade, a Zona Oeste, a infância e a ancestralidade negra. A musicalidade do álbum passa pelo Boombap e os tambores dos terreiros. 

Enfim, sua música de resistência nas letras, na estética e na insistência desse MC lendário em permanecer remando contra a efemeridade e seguindo como presente, passado e futuro dessa cultura de rua que atravessa e conecta gerações é seu estilo ímpar. Participam do álbum os músicos Jefferson Gouveia, Michelle Oliveira, Neghaum, Fabão Z.O e Shabê.

Foto: Ronald Nascimento

Pelos celebra 20 anos de estrada com novo disco que vai além do rock

Por Roger Deff
Editor da revista Canjerê, rapper, jornalista e mestre em Artes pela UEMG

A Pelos é uma das mais emblemáticas, longevas e importantes bandas de rock de Belo Horizonte. A história teve início em 1999, quando a banda, originalmente batizada de “Pelos de Cachorro”, surgia no Aglomerado da Serra, periferia de Belo Horizonte.

Com identidade marcante, o trabalho da Pelos é definido pela ousadia das composições ao mesmo tempo em que encontra lugar na simplicidade do estilo. Há uma certa elegância em suas músicas, resultante das letras poéticas e o vocal marcante de Robert Frank, em consonância com a atitude urbana que a sonoridade traz. É rock, no fim das contas, mas, como poucos artistas conseguem, a banda imprime uma forma muito particular de fazê-lo, afinal como Heberte Almeida, integrante e um dos letristas da banda define “é rock feito por pessoas pretas”, e essa fala diz muito sobre a proposta sonora e lírica da banda.

Com mais de vinte anos de estrada, a Pelos traz no currículo os EPs “Olho do Mundo” (2012), DVD “Pelos – Um Filme Ensaio” (2010), além do “Memorial dos Abismos” (2008) e o álbum “Paraíso Perdido nos Bolsos” (2016). O novo álbum intitulado “Atlântico Corpo” tem previsão de lançamento para 2022 e possui como tema central a presença dos povos vindos da África no Brasil e sobre como toda essa influência moldou a cultura e a forma como nos vemos enquanto povo. O novo trabalho tem produção assinada pelo músico Leonardo Marques, conhecido por sua carreira solo e por sua trajetória nas bandas Deezel e Transmissor.

O novo trabalho dialoga de maneira marcante com outras sonoridades da música negra como o soul e o afrobeat, trazendo temáticas que passam por questões raciais, o homem negro e as relações humanas. A Pelos é formada por Robert Frank (voz, piano e guitarra), Kim Gomes (guitarra), Heberte Almeida (guitarra, piano e voz), Thiago Pereia (baixo) e Pablo Campos (bateria).

Foto: Acervo da Banda

Canais: http://www.pelos.art.br/ 

https://www.facebook.com/pelos.arte

Ouça: http://pelos.bandcamp.com/ 

Edy X: rap e respeito às raízes

A cena do rap em Belo Horizonte ganhou destaque nacional nos últimos anos graças à repercussão de nomes como Djonga, Clara Lima, Renegado e Fabrício FBC para além das nossas montanhas. E a cena mineira não para de surpreender com bons lançamentos, sempre com leituras muito autênticas e particulares do rithim and poethy. 

Nesta edição destaco o álbum de estréia do rapper mineiro Edy X, intitulado “Kalango, o preto livre”. Apesar de ser um MC veterano, com mais de 20 anos de caminhada, ele só conseguiu lançar seu primeiro trabalho em 2021, graças aos recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, o que só reforça o papel das políticas públicas de cultura para os artistas oriundos da periferia.

  Kalango Livre é um disco ousado, repleto de referências oriundas da música afromineira. É um álbum que assume orgulhosamente seu sotaque e com um resultado que faz dele um dos mais interessantes lançamentos do rap neste pandêmico ano de 2021. Logo na estréia, Edy X se mostra um artista versátil e com voz própria, conferindo identidade ao trabalho. 

A produção musical ficou por conta de Sérgio Pererê, Celson Ramos, Cesar Lima, Clebim Quirino e DJ Sense, além das participações de artistas da cena local como Samora N’ZingaMichelle OliveiraEduardo DW, May, entre outros, além do próprio Sérgio Pererê que marca presença na faixa título “Kalango Preto Livre”.  O nome do disco é uma homenagem à herança ancestral e às tradições: “trago neste disco um resgate da memória ancestral que o próprio nome Kalango nos remete. Kalango é um estilo musical usado há muito tempo no sertão de Minas Gerais e em outros Estados. Eu cresci ouvindo meu avô fazendo esse calango. Ele e mais algumas pessoas faziam uma roda com sanfonas e pandeiros, faziam improvisação de versos sobre diversos temas da época muito parecido com a roda de freestyle dos Mc’s de hoje”, conta Edy.

Kalango, o Preto Livre está disponível em todas as plataformas digitais.

Foto Dokttor Bhu

IMuNE – A potência da coletividade negra

Por  Roger Deff

MC Belo-horizontino, artivista, jornalista, mestrando em artes, com pesquisa sobre o Hip Hop e colaborador de diversas ações pela cultura na cidade.

O racismo (que é sempre estrutural) afeta a comunidade negra em todas as áreas e nas artes não é diferente. A música como atividade artística essencialmente coletiva e com potência para desconstruir barreiras historicamente foi o que motivou o nascimento do Coletivo IMuNe (sigla de Instante da Música Negra), idealizado pela cantora, compositora e atriz mineira Bia Nogueira. A proposta surgiu como uma plataforma para potencializar os trabalhos de outros artistas negros e negras, tendo como meio principal o festival que leva o mesmo nome do coletivo responsável por sua realização.  Em formato itinerante, o festival IMuNe contemplou diversos nomes, sempre com a pauta anti-racista como norte. O festival, um dos projetos selecionados pelo Natura Musical, foi realizado em setembro de 2020, com programação online recebendo artistas como Elza Soares, Flávio Renegado e Djonga, além de debates e palestras. Plataforma de fomento e discussão da arte negra, o IMuNe também é um projeto musical, formado pelos artistas que compõem a base de todo o “corre” necessário para que as coisas aconteçam. Integram o grupo: Bia Nogueira, Cleópatra, Gui Ventura, Maíra Baldaia, Raphael Sales e Rodrigo Negão, compondo um grupo diverso de artistas pretos que transitam por estilos como o rap, trap, samba, afrobeat, MPB e samba. Com trabalhos sólidos individualmente, a soma desses encontros transforma-se em multiplicação de idéias e de fortalecimento mútuo. É força poética da pretitude urbana contemporânea e afro-futurista. Com produção audiovisual impecável, o IMuNE lançou os clipes “Podemos Fazer”, “Quem é você”, “Me deixa Dançar” e “Pra limpar terreiro”.  Vejam e ouça no canal do Youtube: https://www.youtube.com/c/IMuNeoficial 

Fotos: Imune


Elisa de Sena – Cura

Por Roger Deff

A cantautora Elisa de Sena representa o atual momento da música em Belo Horizonte. Já se percebe uma cena com ótimos trabalhos que, nos últimos anos, tem sido protagonizada principalmente por mulheres, a exemplo de nomes como Tamara Franklin, Zaika dos Santos, Bia Nogueira, Júlia Branco, Manu Dias, Déh Mussolini, Maíra Baldaia e Nathy Rodrigues.

As duas últimas foram parceiras de Elisa de Sena no projeto Negras Autoras, coletivo que reúne mulheres negras da música na capital mineira, do qual fez parte também a percussionista Manu Ranilla, que acompanha a artista em seu  primeiro vôo solo.  Em 2019, Elisa estreou com seu trabalho o álbum “Cura” com produção da DJ Black Josie e apoio do selo Natura Musical. 

O disco conecta a tradição afro-mineira dos tambores com a idéia “futurista” dos timbres eletrônicos e dos samplers. Não por acaso, a música que abre os trabalhos conta com a participação do mestre Maurício Tizumba. Ao longo das 11 faixas do disco que marca o início dessa nova caminhada, a artista desenvolve uma assinatura própria, sem negar as referências, mas se permitindo experimentar direções nada óbvias.

As canções propõem uma leveza necessária em dias tão densos e tensos, mantendo-se na contra-mão uma ideia de desconstrução da cultura que segue vigente no atual momento.

Sob um fundo amarelo com água, a cantora Elisa de Sena se encontra deitada, olhando em direção para câmera. Ela é negra, possui cabelos crespos curtos. Seu olhos estão delineados de preto e com sombra nas cores dourado e acobreado. Seus ombros e braços estão à mostra e metade de sua mão esquerda submersa na água. Sua mão direita está sob a esquerda,e ela está com as unhas pintadas de preto.
Elisa de Sena – Crédito Paulo Oliveira

 “Cura” é o que o nome título propõe, a anti-tese do ódio, um descanso sonoro em meio ao caos. Sem restrições, Elisa se coloca em contato com a música preta universal, sem se preocupar muito com qualquer rótulo que queiram lhe dar. E segue leve, aguerrida, como mulher negra que é, mas sem perder a alegria ancestral.

“A grana é curta, sistema é bruto, bruta batalha, mas sigo flor.” (trecho da música “Ficar só”)

Capital dos Blacks

Por Roger Deff – Mc Belo-horizontino,  jornalista, integrante da banda julgamento. Atualmente apresenta e produz o programa Rimas e Recortes veiculado pela Rádio Inconfidência

Belo Horizonte é apontada por muitos como a capital do funk e do soul, e isso se deve a movimentos importantes que aconteceram na cidade nos últimos anos, a exemplo do Baile da Saudade e o Quarteirão do Soul. Este último surgiu em maio de 2004, sendo sempre realizado aos sábados, no centro de da Capital Mineira, mais especificamente na Rua Goitacazes, entre as ruas São Paulo e Padre Belchior.

O evento semanal tornou-se ponto de encontro dos antigos frequentadores de lugares clássicos como o Clube Elite e o Máscara Negra, espaços que, nos anos 70, eram dedicados à Black Music, quando jovens negros e negras se encontravam ao som de James Brown, Toni Tornado, Gerson King Combo, Jimmy “Bo” Horne, Tim Maia, Lady Zu, Toni Bizarro, entre outros.

Muito mais que reunir blacks veteranas e veteranos, o Quarteirão do Soul, batizado assim por figuras importantes da cena como o DJ Geraldinho, Ronaldo Black e DJ Abelha, atraiu curiosos de idades e classes sociais diferentes, turistas e até novos adeptos. Mas é inegável que o público majoritário é dos chamados blacks, moradores dos bairros pobres e exercendo as suas profissões.

Posteriormente, o Quarteirão passou a ser realizado na rua Tamoios e em 2018 celebrou 14 anos de resistência com uma festa na Praça Sete de Setembro. A praça em questão é palco de outro evento iniciado em 2008 que é o Movimento Soul BH, organizado pelo DJ Walter Soul e realizado aos domingos.  Não é por acaso que Belo Horizonte ganhou reconhecimento como um dos polos da cultura Black no país. Quarteirão do Soul ou Movimento Soul BH representam a resistência de uma cultura

Foto: Jacyara Lage

Tia Elza: “Quando ouço a batida do Surdo é como se fosse o meu coração batendo”

Cantora mineira conta sobre o seu amor pelo samba e relembra como tudo começou

Por Sandrinha Flávia – Jornalista, locutora, editora e mestra de cerimônias

Aquela menina, que vivia a cantarolar no banheiro, no quintal e nas ruas de sua casa, atraindo olhares e elogiada por seu timbre de voz marcante, se tornou uma importante representante do samba mineiro.

Elza dos Santos mais conhecida como Tia Elza cresceu em um lar festivo, onde as datas importantes eram sempre motivo para comemorações. Foram dessas reuniões entre familiares e amigos, ao som de um selecionado repertório musical que nasceu aquela que viria a se tornar uma grande cantora de samba.

A inspiração maior para a música, veio da sua irmã Leide Santos que era Croonner de banda. Alguns ensaios dessa banda aconteciam em sua casa.Tia Elza, ainda criança, acompanhava tudo de perto. Seus olhos brilhavam ao ver a desenvoltura e talento de sua irmã interpretando cantoras como, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Núbia Lafayette e tantas outras grandes profissionais da época. Quando não tinha ensaios, a vitrola que comandava o som. Os vinis eram variados, ampliando assim o seu conhecimento musical.

Foi assim que a vontade de cantar foi ganhando força, “Eu ouvia   Elizete Cardoso, Elza Soares, Ângela Maria, Dóris Monteiro, entre outras. Depois apareceram, Alcione, Elis Regina, cantoras que eu me identificava tanto com as vozes quanto com o repertório”. Disse.

Certa vez, quando Tia Elza já estava na fase adulta, seu irmão havia ganhado um violão, prêmio de uma rifa que ele havia comprado fiado. Aquele violão não viria parar naquela casa por um acaso, o instrumento parado no canto daquele quarto a incomodava, então resolveu tomar uma decisão e começar a tocar,

Comprei umas revistas com músicas cifradas e fui tentando tocar até conseguir tirar som. Eu pedia para um vizinho que já tocava afinar o instrumento pra mim e ele fazia. Daí um certo tempo, o vizinho começou a ficar de saco cheio de ter que afinar o violão, e ficava com má vontade, falava que não podia naquela hora, foi aí que eu resolvi que não pediria mais a ele, comecei a me virar”. Conta.

Persistente, Tia Elza foi tentando sozinha até conseguir uma afinação desejada. Já com algumas músicas na ponta da língua e notas musicais em dia, saiu por aí cantando o pouco que já sabia. Era em sua própria casa, ou em casas de amigas e amigos, até que um dia, quando cantava em uma festa, surge o eterno Maestro Ivan Silva.

Quando o maestro ouviu aquela voz, ficou encantado e começou a levar Tia Elza aos lugares onde ele tocava, “Foram momentos de muito aprendizado, depois ele montou um Piano Bar e me levou pra cantar.”

A partir desse momento, estava lançada a cantora que seria mais tarde uma das maiores referências do samba em Minas Gerais. Maestro Ivan Silva, já falecido é sempre lembrado e homenageado nas apresentações da cantora.

Um período muito importante na carreira de Tia Elza, foi quando ela se tornou empresária. O Bar da Tia Elza tinha como foco a música ao vivo onde ela tocava e também contratava outras bandas, “Eu tive bar durante 28 anos voltado para música de qualidade de uma maneira geral, dando oportunidade para músicos iniciantes, e também influenciando algumas pessoas que tomaram gosto pela música acompanhando o meu trabalho.”

A cantora ficou ainda mais conhecida na época do bar e o seu número de admiradores foi crescendo. Alguns músicos que passaram por lá, hoje bem crescidos dizem: eu sou músico por sua causa. Esse tipo de relato emociona a artista, “Isso é pra mim  motivo de muito orgulho, sinto que valeu muito a pena essa minha luta.” Disse.

O seu primeiro CD foi gravado em 2007, no estúdio Toca do Saldanha, produzido e mixado por Renato SaldanhaEm breve iniciará a gravação de um novo álbum no Rio de Janeiro RJ, para isso, Tia Elza já tem várias canções definidas e está em busca de patrocinadores, “Estou a mais de um ano tentando um patrocinador, infelizmente ainda não consegui“. Relatou.

Sobre o cenário musical do samba em minas, Tia Elza acredita que está cada vez mais forte, “Tem muito sambista bom em Minas Gerais e a Juventude está chegando também. Tem muita gente jovem tocando e compondo, não estão perdendo para os tradicionais do país não. Estou muito feliz em vivenciar esse crescimento.”

E por falar em crescimento profissional, recentemente Tia Elza esteve se apresentando no quadro 10 ou 1.000 do Programa do Ratinho no SBT onde arrancou elogios dos jurados.

Ao longo da sua caminhada profissional, Tia Elza já se apresentou ao lado de cantores ilustres como Ataulfo Alves Júnior, Toninho Gerais, Moacir luz, Aline Calixto, Samba na Roda da Saia, etc. Há pouco, se apresentou com Velha Guarda da Portela na cidade do Rio de Janeiro RJ.

No carnaval 2019, Tia Elza é a responsável por puxar o “Bloco do Samba” criado pelo Mundi-Movimento Negro de Divinópolis e participa também do Bloco “Filhas de Clara” na cidade de Belo Horizonte – MG, ao lado das cantoras Aline Calixto e Marina Machado.

Ao responder à pergunta sobre o que o samba significa em sua vida Tia Elza se emociona, “O samba representa pra mim uma força que tira de dentro da gente uma energia contagiante e inexplicável. Quando ouço a batida do Surdo é como se fosse o meu coração batendo, e tem ainda o poder de agregar e envolver as pessoas tanto que ninguém pensa em mais nada a não ser sentir o ritmo e as letras que são muito fortes.” Finalizou.

Foto:

Revisão: Zane Santos