… o negro no teatro, o(s) teatro(s) negro(s), hoje!

Por Evandro Nunes – Ator. Diretor em Teatro. Contador de História. Performer. Co-fundador do Teatro Negro e Atitude. Pedagogo. Especialista em Pesquisa e Ensino no Campo da Educação, Arte e Cultura. Especialista em Promoção da Igualdade Étnico-Racial. Mestre em Educação.

Não há como falar de teatro hoje, sem falar de teatro negro ou teatros negros; sem falar da contribuição intelectual, científica, cultural, religiosa, filosófica, econômica, organizacional, estética, ética que o povo negro trouxe para a cultura brasileira; sem mencionar que o teatro nasceu no Egito, como nos disse Abdias do Nascimento; sem falar da chegada da família real no Brasil e, com isso, houve a quase extinção dos corpos pretos na cena; sem falar da Semana da Arte Moderna de 1922 que, mesmo à busca de uma cara mais brasileira para arte e cultura, deixou a população negra de fora de seus registros; sem falar da Cia. Negra  de Revista, seu sucesso e o golpe do racismo que a destruiu; sem falar do Teatro Experimental do Negro (TEN); sem falar do Ilé Ayê e do Movimento Negro Unificado.

Em Belo Horizonte, não há como falar de teatros negros sem falar do Tricentenário de Zumbi dos Palmares; sem falar do Festival de Arte Negra/ FAN; sem falar do Centro de Referência da Cultura Negra; sem falar de Marlene Silva, Leda Maria Martins e todos/as os/as artistas e intelectuais negros/as que há anos resistem e possibilitam outras narrativas sobre arte e cultura; sem falar do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado; sem falar do Teatro Negro e Atitude, e de suas ações artística, política, de aquilombamento e negrura; sem falar dos Rolezinhos, da Segunda Preta, do Solo Negro, da Aquilombô, do Taculas, da Polifônica, do Leda Maria Martins. Não há como falar de tudo em tão pouco espaço, por isso darei alguns saltos na história.

O teatro nasceu na África. Também sempre pensei que tivesse sido pelas bandas da Europa: na Grécia, para Dioníso; ou em Roma, para Baco. Assim sempre me fizeram crer. Só sei que o teatro vem do rito que une dança, canto, pantomima, mito e rito, elementos estruturais para o seu desenvolvimento. Como no continente africano os ritos com esses elementos já aconteciam desde sempre, então de fato “o teatro dos povos de cor precedeu o nascimento do teatro grego”, assim disse Abdias do Nascimento e completa: “Antes de Ésquilo – cerca de mil anos – escreveu-se, no Egito, um livreto sobre a morte de Hórus (…). A própria forma dramática dos ritos, tornando-os mais sugestivos, assim como a prática do culto de Dionísio, foi imitação do Egito negro”. 

E, no Brasil, o teatro veio com os africanos aqui chegados? Da forma com que conhecemos o fazer teatral, ele nos foi apresentado pelos padres jesuítas com o processo catequizador dos povos originários a partir do século XVI. No século seguinte, ao deixar a igreja, o teatro passa a ser considerado uma atividade de pouca valia, portanto feito apenas por homens negros e mestiços. Porém, a história contada, a dramaturgia em nada contribuíam para a construção positiva de uma identidade racial daquele sujeito e da sua contribuição para a construção dessa sociedade. Eram apenas corpos grosseiros, sem subjetividades, subservientes etc. Coma chegada da família real ao país, no início do século XIX, inicia-se uma reestruturação na cena, nos teatros e na paisagem local, e os corpos negros, que antes eram presentes nos palcos, mesmo que de forma estereotipadas, vão ficando invisíveis e indizíveis. 

O Teatro Experimental do Negro foi muito mais que um coletivo de teatro, foi um espaço de formação artística, política e social, cujo desenvolvimento se deu em três níveis básicos: o teatral-artístico; o de organização-estudo; e o de iniciativa político-pragmática. E, para além dos espetáculos teatrais (O Filho Pródigo, Castigo de Oxalá, Sortilégio, Além do Rio, Imperador Jones etc), promoveu: Cursos de Introdução ao Teatro Negro e as Artes Negras, de Alfabetização de Adultos; convenções, semana de estudos, congressos, concurso de beleza; criou o Conselho Nacional das Mulheres Negras; tudo isso entre 1945 até o seu fim em meados de 1961. 

O Teatro Experimental Negro fendeu a fala e a imagem estereotipada, colocando no centro da cena o negro com seu corpo e texto. E, em quase duas décadas de existência, ele deixa um legado e outros grupos surgem no cenário brasileiro. Destaco alguns deles: Teatro Profissional do Negro – TEPRON (RJ), 1970; Odum Orixas (MG), 1972; Nós do Morro (RJ), 1986; Circo Teatro Olho da Rua (MG), 1987; Bando de Teatro Olodum (BA), 1990;  Teatro Negro e Atitude (MG), 1993; Cia. Étnica de Dança e Teatro (RJ), 1994; Teatro Nata (BA), 1998; Cabeça Feita (DF), 1999; Cia. dos Comuns (RJ), 2001; Caixa Preta (RGS), 2002; Morro em Cena (MG), 2004; Cia. dOs Inventivos (SP), 2004; Grupo Dos Dez (MG), 2008; Coletivo Negro (SP), 2008; Confraria do Impossível (RJ), 2009; Montigente (RGS), 2011; Cia. Espaço Preto (MG), 2014; Pretagô (RGS), 2014; Coletivo Bonobando (RJ),2014; Cia. Negra de Teatro (MG), 2015; Cia. Emú (RJ), 2015; Coletivo Preto (RJ), 2016.

Peça Àbíkú – Foto Arquivo Pessoal/ EvandroNunes

Se no antes podíamos falar de um teatro negro, hoje há uma pluralidade de grupos, coletivos, companhia com as mais diversas linguagens cênicas e artísticas, então opto por dizer que existem teatros negros que se unem por características que podem categorizar esse fazer teatral a partir das seguintes concepções: a performance negra – pode ser com fins teatrais ou não, falar ou não das questões que envolvem o negro; a presença negra – é exclusivamente artística, pode não utilizar do manancial  da cultura tradicional e popular como fonte e material de inspiração; e, por fim, mas não menos importante, o teatro engajado negro – utiliza o palco como ferramenta para trazer as questões do povo negro à tona e também como contestação e afirmação de identidade negra. Copilo essas concepções da dissertação de mestrado de Soraya Martins.

É importante dizer que os teatros negros são construídos e/ou constituídos de forma pulsante e diária, portanto precisaria de muitas laudas e caracteres para analisar grupos, coletivos, companhias e seus respectivos trabalhos no intuito de categorizá-los a partir das concepções apresentada acima, e dizer de suas estéticas e poéticas.  Sendo assim, me atenho a dizer do Teatro Negro e Atitude (TNA) que, em seus 25 anos de atuação, se utilizou, de formas variadas, dessas concepções e forjou, na forja de Ogum, a Estética da Atitude e a Poética da Negrura, incitando a construção da Pedagogia da Insurgência que tem o teatro negro como processo de descontinentalização da compreensão dos fatos, ou seja, possibilita um redesenho dos corpos negros na cena artística e política, numa perspectiva de descolonização desses corpos, criando, assim, estratégia metodológica de emancipação baseada na arte/ginga e, com isso, produz uma mudança significativa na narrativa dominante que insiste em invisibilizar toda a contribuição da população negra para a sociedade brasileira e diaspórica. 

A Estética da Atitude é a capacidade de transformar em materialidade todo o pensamento político e ético. Ela tem o corpo do ator como primeiro elemento. Corpo que se constrói a partir da memória individual e coletiva, da ancestralidade e religiosidade inerentes a esse sujeito. Elaborado, transforma tudo isso em algo visível e palpável.

A Poética da Negrura também vem sendo burilada há tempo. Se em Cantares do meu Povo apenas a palavra trazia a poesia para cena, n’A Sombra da Goiabeira, respectivamente primeiro e último trabalho do grupo, a poética é sentida por todos os sentidos: olfato, audição, paladar e toque.  Essa poética traz identificações e conexões, possibilita outras formas de conhecimento, pertencimento e nova configuração de inscrição, transmissão e transcriação do saber, sendo esse identitário, político, estético-corpóreo.

A memória é o mote da construção de todos os trabalhos construindo uma narrativa e uma poética viva, única, híbrida, que lança mão dos valores civilizatórios afro-brasileiros para a construção das identidades em cada trabalho. Estamos falando da oralidade, musicalidade, corporeidade, ancestralidade, material simbólico que se constitui na própria memória. E esses corpos negros trazem uma tessitura negra para a cena, rompendo com o ideal de teatro cujo corpo negro não é visto e/ou não tem voz.

Concluo que mais que uma ação pedagógica, uma ação coletiva, uma ação educativa, uma ação poética, estética, política, ética, o Teatro Negro e Atitude mostrou-se na investigação como uma ação de aquilombamento, pois se ele não faz despertar nos atores a consciência da negrura, ele os acolhe por conjugar nesse espaço sujeitos e práticas imersos nela.  E nos fez perceber, sobretudo, que o TNA, com sua poética da negrura e estética da atitude, é uma das formas de se pensar o negro no teatro e/ou o(s) teatro(s) negro(s) hoje no Brasil.

Então sigamos!

Foto: Arquivo Pessoal/ Evandro Nunes