Patrimônio Imaterial Cultural e a Cultura Popular

Por Rosália Diogo

“Patrimônio é tudo que criamos, valorizamos e queremos preservar: são monumentos e obras de arte, e também as festas, músicas e danças, os folguedos e as comidas, os saberes, fazeres e falares. Tudo enfim que produzimos com as mãos, as ideias e a fantasia.”
Cecília Londres

                                                             

Foto: Arquivo pessoal / Mestre Beto Onça

Graças a Oxalá, o Brasil possui uma diversidade cultura infinda. Como é sabido por nós, vários grupos étnicos e sociais colaboraram para a formação da sociedade brasileira. Dessa forma, diferentes contribuições culturais formam a composição do país. As culturas que essas pessoas trouxeram nos seus modos de ser, nas suas visões de mundo, nas suas memórias foram transformadas no contato com outras culturas já aqui presentes.  Por isso, a pluralidade e a riqueza cultural tão diversas.

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 216, assinala que cultura são todas as ações por meio das quais os povos expressam suas formas de criar, fazer e viver.

Entendemos que as pessoas constituem a sua identidade ao se relacionarem umas com as outras, em diferentes contextos e situações. Nessa perspectiva, a identidade de uma pessoa é formada com base em muitos fatores como, por exemplo, a sua história de vida, a história de sua família, o lugar de onde veio e onde mora, o jeito como cria filhos, como fala e se expressa, ou seja, tudo que a torna singular em relação ao outro.

Patrimônio Cultural

Para nós, o patrimônio cultural de um povo é formado pelo conjunto dos saberes, fazeres, expressões, práticas e seus produtos que remetem à história, à memória e à identidade desse povo. A preservação do patrimônio cultural significa, principalmente, cuidar dos bens aos quais esses valores são associados, ou seja, cuidar de bens representativos da história e da cultura de um grupo social que pode, ou não, ocupar um certo território. O certo é que a preservação do patrimônio cultural visa fortalecer a noção de pertencimento de indivíduos a uma sociedade, a um grupo, ou a um lugar, contribuindo para a ampliação do exercício da cidadania e para a melhoria da qualidade de vida.  A Constituição Federal de 88, por meio dos artigos 215 e 216, ampliou a noção de patrimônio cultural ao reconhecer a existência de bens culturais de natureza material e imaterial, sendo este último de natureza processual e dinâmica, entendidos sobretudo como formas de expressão e modos de criar, fazer e viver, como mencionados na Constituição de 88.

Nessa toada, nos interessa traçar minimamente a aproximação entre patrimônio cultural imaterial e a cultura popular no Brasil.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) definem Cultura Popular como “o conjunto de criações que emanam de uma comunidade cultural, fundadas na tradição, expressas por um grupo ou por indivíduos e que reconhecidamente respondem às expectativas da comunidade enquanto expressão de sua identidade cultural e social”. Engloba folclore, cultura oral, cultura tradicional e cultura de massa.

Entre manifestações da cultura popular brasileira já registradas – ou em processo de registro – como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) estão: Literatura de Cordel, Frevo, Bumba meu boi, Jongo, Capoeira,  Fandango Caiçara, Tambor de Crioula, Congadas de Minas, Cocos do Nordeste e Marujada de São Benedito.

Bumba meu boi – Cidade de Serro (MG) – Crédito: Rosália Diogo

A Capoeira

O Casarão das Artes tem buscado valorizar, fomentar, divulgar e colaborar para a visibilidade da cultura de matriz africana, desde 2013. Como é sabido, a maior parte dessa cultura é significado de cultura popular em nossa sociedade.

Para fins desse ensaio, destacamos uma das manifestações dessa cultura que nos é muito cara – a capoeira.

Em 2014, a capoeira se tornou a quinta manifestação cultural brasileira reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Esse título contribui para ajudar a preservar a prática não só no Brasil, mas também no mundo.

Berimbau, pandeiro e atabaque; ginga e força: tudo isso lembra a capoeira. A manifestação cultural tipicamente brasileira é, hoje, praticada em todo o mundo.

De acordo com o site do Itamaraty, 71 países têm rodas de capoeira registradas. Somente na Alemanha são 27. A capoeira surgiu no século 17, praticada por escravizados africanos como uma mistura de luta, dança e música. Era uma forma que os escravizados tinham de se socializar e lembrar as suas origens. Seu nome adveio dos campos abertos, sem vegetação, em que era praticada e que em algumas partes do Brasil ainda são conhecidos pelo nome de capoeira.

A técnica também é símbolo de resistência, pois era usada como defesa, tanto por escravizados, quanto por libertos, depois do fim da escravidão. Era considerada subversiva e até a década de 1930 foi marginalizada. Em 2008, a capoeira foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Destacamos o trabalho do Mestre Beto Onça, que faz parte dos grupos que surgiram nos anos 1980 e que, após mais de 30 anos de resistência, promoção e prática, contribui para a relevância da capoeira em BH e em Minas Gerais. Ele iniciou a prática aos 15 anos de idade e coordena a Associação Mineira de Estudos de Capoeira – Amec, que foi criada por ele em 1991.

O Mestre tem a Bahia como Estado principal de busca de inspiração, pesquisa e trocas para o fortalecimento da prática da capoeira. Sistematicamente ele viaja a esse Estado para participar de encontros com outros mestres. A Amec tem realizado encontros nacionais em Belo Horizonte. O capoeirista também tem se dedicado a ministrar aulas semanalmente em espaços públicos da cidade, como acontece no Centro Cultural São Geraldo. O trabalho nesse equipamento cultural é dedicado à formação de outros mestres e de contramestres.

O principal foco das pesquisas do Mestre Beto Onça é o aprofundamento e divulgação da capoeira tradicional e os segredos dos Quarenta Toques – envolvendo ritmos, cantos, na ordenação dos jogos (jogos de dentro ou jogos de fora), jogos com armas brancas e outros, incluindo a disposição dos berimbaus, cabeceiros e tabaréus – sua organização e ordem, funções/precisões entre as dinâmicas e evolução dentro das importâncias que cada um dos quarenta toques, afetados ou não pela presença de mestres e/ou na função específica, exigida e ou coordenada na leitura e comando na realização do jogo.

A pesquisa do Mestre Beto Onça se intitula “Tirado do peito do negro cativo” e vem sendo realizada nos últimos 25 anos junto a alguns nomes notáveis que praticam a capoeira e se encontra na fase de compilação para sua catalogação.

Nós, do Casarão das Artes e da Revista Canjerê, aguardamos a publicação do trabalho desse parceiro para que possamos, conjuntamente, fortalecer mais essa vertente da cultura popular no Brasil.

Rosália Diogo é professora, pesquisadora, jornalista. Chefe de Redação da Revista Canjerê. Coordenadora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado.