Paulina Chiziane: as diversas possibilidades de falar sobre o feminino

      Rosália Diogo Chefe de Redação da Revista Canjerê. Pós-Doutora em Antropologia da População Afro-brasileira. Gestora do CRCP Lagoa do Nado.

Paulina Chiziane nasceu em 1944, em Manjacaze, província de Gaza, Sul de Moçambique.  Foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance. Dessa forma, a escritora desafiou e desafia críticas e resistências sociais e culturais no seu país e no continente africano.

Paulina representa uma mulher moçambicana que fala sobre as mulheres do seu país e do mundo. Posicionamento que modifica o cenário social que normalmente é protagonizado por homens.

Escreveu alguns contos e estreou no romance com a obra Balada de amor ao vento (1990), editora Caminho. Publicou também por essa editora Ventos do Apocalipse (1995), O sétimo juramento (1999), O alegre canto da perdiz; Niketche: uma história de poligamia (2004), Companhia das Letras; Por quem vibram os tambores do além? (2013), ed. Índico; Na mão de Deus, ed. Carmo; e Ngoma Yethu: o curandeiro e o Novo Testamento (2015); O Canto dos Escravizados (2018) e As andorinhas (2008) pela editora Nandyala.

Entrevista concedida em 2011, na cidade de Maputo, capital de Moçambique.

Qual é sua opinião sobre Lobolo e Poligamia, tradição e modernidade. Alguns dizem que Nikecthe  é um pretexto para  você apresentar a discussão à modernidade em Moçambique. O que tem a dizer sobre esses temas?

Eu fui a escritora que mais escrevi sobre os temas lobolo  e poligamia.  Em todos os  livros  que eu publiquei, trato desses temas, de uma forma ou de outra. Eu acho que todos os moçambicanos deveriam discutir seriamente sobre o tema poligamia e eu pessoalmente  não concordo com ela.  Não  concordo mesmo, mas por outro lado nós temos a seguinte situação: a região sul do país é patriarcal e a favor da poligamia, e daí veio a religião cristã e instalou a monogamia. E na região norte, que era  matriarcal e portanto sem espaço para a poligamia, os mulçumanos se instalarem por lá e daí se implementou a poligamia, então é uma verdadeira confusão. Por lá instalou-se uma religião que não tem nada a ver com os costumes deles, e vivemos nessa complicação. Agora, o que posso dizer da poligamia é que ela é benéfica para as crianças. Os filhos, em uma situação poligâmica, têm uma identidade, e na monogâmica não. Dessa forma, as crianças, independente de serem filhos de uma ou de outra mulher, são reconhecidos como filhos legítimos de uma família, já na relação monogâmica marginalizam-se os filhos das outras mulheres. Eu, pessoalmente, penso que poligamia, nem pensar, mas sou apologista da legalização da poligamia, pois se ela for bem legislada, as coisas tendem a ficarem bem. As pessoas que vivem na cidade é que acreditam na monogamia. A maioria das mulheres  vive no sistema tradicional poligâmico e não têm proteção alguma da lei, o que não é correto. Portanto, devemos olhar para a poligamia porque é uma realidade e é preciso legislar, pois em uma poligamia o homem tem uma mulher e quando resolve ter a segunda, deverá legalizar primeiro a situação com a primeira: dividir os bens, incluindo a casa, deixar a parte dela resolvida e ir cosntruir a nova vida sem que a mulher fique desprotegida. Mas o que acontece de fato é que, com a ausência da lei,  o homem vive com uma mulher um tempo e, quando bem entende, manda-a ir embora, no dia seguinte vai buscar outra ou fica com umas três ao mesmo tempo. Portanto, há de haver um instrumento legal para proteger essas mulheres que vivem nessa situação, pois são a maioria. Como você teve oportunidade de ver, as nossas cidades são bem pequenas e a zona rural é imensa. Dessa forma, toda essa imensidão humana está sem proteção. Portanto, é mais ou menos dessa forma que eu levanto o tema da poligamia – há coisas boas e coisas más. Mulher em uma situação de poligamia é sofrimento, mas as crianças ganham identidade, portanto não sou eu que vou responder se é bom ou ruim.

Estou em Moçambique pelo fato de fazer em minha obra uma análise comparada da sua literatura com a obra de Conceição Evaristo. Sei que ela já esteve aqui no ano passado. O que pensa sobre a  escritora?

O que tenho a dizer é que eu não tenho palavras para explicar o que vou dizer: peguei o livro Ponciá Vicêncio para ler e comecei a identificar-me com ele. Li também poemas da recordação e outros movimentos e agradei muito. A sonoridade me chamou atenção também. Conceição escreve na obra assuntos completamente diferentes dos meus, mas quando fecho os olhos, me vejo no Brasil, e penso que poderia ter sido eu a escrever o romance.  A obra me fez sentir muito próximo dela, é como se meu espírito estivesse naquela história. Recebi essa obra diretamente das mãos dela e fisicamente não me pareço com ela, mas tem um quê, quando se  olha para ela e para mim fica a sensação de pessoas que viveram no mesmo lugar, ou são irmãs. Eu realmente não tenho palavras para explicar. Quando ela esteve cá, estivemos juntas por alguns lugares de Maputo e eu gostaria de tê-la levado a muito mais lugares dos que pude levar porque o programa  dela estava muito pertado. Conceição Evaristo passa por uma pessoa moçambicana, e se eu disser  que ela é minha irmã mais velha ou mais nova, com certeza as pessoas acreditarão.

Chiziane, Conceição é uma ativista da temática racial no Brasil. O nosso país segrega e discrimina, de maneira gritante, os afro-brasileiros. A obra de Conceição é fortemente marcada pela denúncia das situações de racismo e de opressão à mulher negra. As leituras sobre o racismo em Moçambique são tímidas, você acha que há racismo aqui?

Há racismo sim.  Eu não discuto muito em “Niketche” isso, mas no “Alegre canto da perdiz” essa leitura é possível com mais amplitude. Não sei bem o que podemos dizer hoje sobre racismo em Moçambique. “O Alegre canto da perdiz” é um pouco mais ousado ao abordar o assunto. No fundo, nós fizemos uma luta pela independência, ficou claro que os nossos inimigos eram os portugueses, mas as questões sobre raça no sistema colonial eram muito claras. Fizemos a independência foi há mais de trinta anos e desde então não voltamos a discutir, fazer o debate sobre revolução, paramos de fazer o debate sobre unidade nacional e outros temas. E eu, como sempre, não consigo  fechar a porta para os debates que não são tão populares assim. O fato é que os portugueses que aqui ficaram no pós-independência mantiveram os seus privilégios e os seus descendentes também por conta da sua mestiçagem, são filhos de pai branco e daí o conceito dentro da sociedade moçambicana é mais elevado. Por exemplo: se tu fores à províncias do norte como a Zambézia ou Nampula, os empregados dos bancos são mestiços; nos aviões, as funcionárias também são. Raramente nesses postos  de trabalho se encontram pessoas negras, com a pele escura como a minha ou a sua.  Em grandes empreendimento hoje, a primeira presença que encontramos é a de mestiços, mas esse assunto não se discute por aqui. A desculpa é que a Constituição diz que não pode haver discriminação pela raça e outras. Só que se basearmos no que está escrito nela, sem haver um mecanismo de bate público, não basta. Não estamos em igualdade racial de forma alguma. Aqui no Sul não diz nada, mas na Zambézia, que está no  centro, e no norte do país, é muito flagrante, o estatuto do mulato é superior. É o que posso dizer neste momento sobre a questão do racismo por agora.