REPRESENTATIVIDADE AFRO EM MOBILIÁRIO

Matheus Ramos – Mestre em Design pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Estuda as relações entre os artefatos industriais e as culturas afro-brasileiras, design de móveis, artesanato autóctone.

Ao depararmos com a hegemonia simbólica, em nosso cotidiano, dos artefatos concebidos sobre a percepção do branco e sua cosmovisão europeia/norte-americana, percebemos que há alguma coisa de errado uma vez que no Brasil a maioria da população é negra.

São inúmeros produtos criados, na maioria das vezes, por brancos sob olhares limitantes da cultura hegemônica incapazes de incluir diversidades culturais simbólicas e a pluralidade racial nas equipes de criação. Em minha dissertação de mestrado Design, Sociedade e Pluralidade (2021), sob a orientação da estimada professora,  doutora Rita A. C. Ribeiro, foi possível verificar no mercado brasileiro a carência de móveis afro-centrados da mesma forma que profissionais negros atuando na área. Dado o cenário desnivelado, surgiu o projeto Olulá.

Representatividade – montar uma equipe plurirracial e diversificada foi essencial para o desenvolvimento do projeto. Vamos apresentar os integrantes:

Alexandra Loras – palestrante, executiva, comunicadora, mentora, consultora e ex-consulesa da França em São Paulo. Voz expoente da atual sociedade brasileira na luta antirracista, Loras é uma investigadora dos efeitos do design como medida de equiparação étnico-racial. Com uma atuação histórica no campo da moda, ela afirma como o design é potencialmente transformador.

Matheus Ramos – designer de móveis e pesquisador que possui amplo conhecimento teórico e prático sobre o design afro-centrado e afro-brasileiro. Atualmente é parceiro da empresa América Móveis e, em 2017, lançou no mercado a poltrona Alaká, mobiliário conceituado dentro do design afro que intercalou produção artesanal autóctone de Salvador com a produção da indústria de móveis.

Raniel Bento – formado em Design (2016, UFMG). Possui o Tubbie Mobile, projeto que enfatiza móveis sustentáveis. Atua como Arteducador e é autor de material didático do Bernoulli Sistema de Ensino. Com suas origens em comunidades periféricas do Rio e de BH, busca na Arte e no Design o caráter transformador e a possibilidade de dar visibilidade às causas socioculturais e ambientais.


Equipe do projeto Olulá. Da esquerda para a direita: Matheus Ramos, Alexandra Loras e Raniel Bento

Design afro-brasileiro – Baseado em Santos (2009, p. 21), podemos afirmar que os artefatos produzidos pelo design afro-centrado incorporam um poder mítico e simbólico que não representam apenas o seu uso, mas que estão penetrados de significados que traduzem o sentimento de pertencimento de culturas transcendentes de obstáculos e preservadoras de suas essências.

Esses objetos, quando bem feitos, carregam a memória cultural de pretas e pretos e suas tradições culturais, o que os tornam um veículo do resgate da autoestima e da identidade racial. Isso é possível, pois não é somente nós que configuramos o meio externo em que vivemos, os próprios ambientes com seus artefatos possuem o poder de modular nossos comportamentos.

Portanto, isso é tão importante para que os móveis nas casas possam alimentar simbolicamente os espaços com elementos que sejam diversos da universalidade cultural dos brancos e se aproximem de outras fontes étnico-culturais, configurando ambientes que dialoguem mais com a diversidade racial que existe no Brasil.

Sobre o nome do projeto, a palavra olulá significa pequena família que, de acordo com Schoenbrun (1999, p. 144) remete aos dialetos de matriz bantu usados na África Subsaariana anterior à formação dos estados-nações.

Entre vários desenhos de móveis, o carro chefe que escolhemos foi uma mesa lateral conceituada sob a perspectiva simbólica das religiões afro-brasileiras. As religiões de matriz africana no Brasil foram historicamente instituições de resistência contra a opressão e o racismo. Graças a elas muitas memórias culturais de africanos trazidos ao Brasil forçadamente foram preservadas mantendo, assim, diversos elementos culturais das tradições originárias da África como, por exemplo, o culto às divindades Exú e Xangô que são representadas e valorizadas em nosso design (preciso enfatizar que sendo umbandista possuo uma enorme satisfação em homenagear os Orixás com este projeto).   

Desenhos do pictograma de Exú e do machado de Xangô Foto: Equipe Olulá
Desenhos do pictograma de Exú e do machado de Xangô Foto: Equipe Olulá


Mesa lateral Olulá

Mesa lateral Olulá


As pernas da mesa foram baseadas em traços retos que se encontram em um eixo central como no pictograma do Orixá Exú e o tampo carrega o desenho de um machado de duas faces, instrumento do Orixá Xangô, e as opções de cores preta e vermelha para a mesa estão associadas aos dois Orixás. As opções de madeiras escolhidas foram duas de reflorestamento, o eucalipto produzido aqui no Brasil e o mogno produzido na África.

O resultado até o momento é um projeto carregado de valores antirracistas, desde o corpo dos autores que o contemplam até o projeto final que representa um design afro-brasileiro carregado de memórias culturais africanas e que dialoga com a população brasileira e o desejo de existir maior equidade racial.

Esperamos que o lançamento da mesa Olulá represente uma nova janela no mercado de móveis no Brasil e que ela possa permanecer aberta e incluir mais protagonistas interessados em resgatar nossa africanidade e em valorizar os profissionais negros e o design afro-brasileiro.

NOTA: A mesa lateral Olulá encontra em fase de prototipagem e negociação com um renomado fabricante de móveis de Minas Gerais.

Um protótipo inicial da mesa saiu na revista de decoração Westwing (2020) em matéria especial com Alexandra Loras.

Para entender mais sobre a relação entre indivíduos e objetos, é recomendável ler as seguintes obras: Objetos de Desejo (2007), de Adrian Forty; O Mundo Codificado (2007), de Vilém Flusser; Trecos, Troços e Coisas (2013), de Daniel Miller.

Referências:

HELLER, A. Memória cultural, identidad y sociedad civil. Indaga, Espanha, p. 5-17, 2003.

SANTOS, N. A. D. Pano da Costa ou Alaká. In: IPAC Pano da Costa: Cadernos do IPAC 1. 1. ed. Salvador: IPAC; Fundação Pedro Calmon, v. I, 2009. p. 17-28.

SCHOENBRUN, D. L. The (In)Visible Roots of Bunyoro-Kitara and Buganda in the Lakes Region: 8001300. In: (ED.), S. K. M. Beyond Chiefdoms: Pathways to Complexity in Africa. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. Cap. 11, p. 136-150.