Sheila Walker: a diáspora mostra a riqueza da cultura africana para o mundo

A equipe do Casarão das Artes se encontrou com a antropóloga e pesquisadora Sheila Walker. Esse rico momento serviu para conversar sobre assuntos que permeiam a movimentação negra no Brasil e no mundo, como tecnologia, empoderamento, cotas, desigualdades, etc.

Foto: Rosália Diogo

Por Sandrinha Flávia Graduanda em Jornalismo (UNI-BH), editora, assessora de comunicação, radialista, mestra de cerimônias e produtora de eventos

Rosália Diogo professora, pesquisadora, presidenta de Honra do Casarão das Artes, coordenadora do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte

Com traje simples, atrás de uma mesa de madeira, Sheila revelou um português fluente, uma simpatia que encanta e muito amor pelo Brasil e pelos países da diáspora.

Acostumada a viajar para pesquisar comunidades afro espalhadas mundo afora, Sheila afirma que há muitas culturas, porém pensa-se em poucas delas. Por onde passa a antropóloga compartilha suas pesquisas e experiências como por exemplo a tecnologia de mineração.

Segundo a antropóloga, a transferência da tecnologia da África para os países das Américas tornou possível o desenvolvimento de todos os países das Américas. Sheila ressalta que essa informação precisa ser desmistificada. “A ideia de que os africanos vieram sem nada na cabeça é um absurdo. Os europeus sabiam quais africanos tinham quais conhecimentos. Por exemplo: eles sabiam que os africanos tinham conhecimento sobre a mineração de ouro porque praticavam um comércio legítimo. Eles chamavam a atividade de costa da mina, enquanto os britânicos chamavam de costa do ouro. No meio do século XV, os portugueses estavam comercializando ouro com o povo de Gana. Já existia um comércio de ouro, e os portugueses sabiam que os africanos conheciam o processo de transformação do ouro”, diz.

Aprender as verdades sobre as histórias dos afrodescendentes é uma das preocupações da antropóloga. Em 1996, Walker organizou um congresso internacional. Nesse evento, aprendeu que, dentre os mais de 6,5 milhões de pessoas que atravessaram o oceano atlântico, 1 milhão era da Europa, e 5,5 milhões vieram da África. A partir dessa informação, percebeu que na história das Américas, a maioria das pessoas eram africanas e afrodescendentes.

“Como não aprendemos sobre isso? É o básico para compreendermos as Américas. Eu aprendi muito tarde e acho que muita gente não sabe disso ainda. Se aprendermos fatos como esse da nossa história, acho que sentiremos mais proprietários do nosso hemisfério”, ressaltou Sheila.

Empoderamento

Empoderar a população negra e promover a igualdade é um desafio que o Brasil enfrenta na economia, educação, nas finanças, etc. Várias iniciativas de grupos, ONGs e movimentos têm impulsionado as ações nesse sentido. Com base nesses dados, Walker falou sobre sua análise da ascensão do negro brasileiro.

“Na primeira vez em que vim ao Brasil, em 1976, achei o país lindo. Na segunda vez, percebi o racismo e a hipocrisia. Quando eu viajo de avião, não vejo negro. Se eu viajo de ônibus, eu vejo. E as pessoas dizem que isso não é racismo; é economia. Todos os países das Américas são racistas e começaram com duas coisas negativas: o genocídio dos originários e a escravidão dos africanos. Então temos uma história problemática. A escravidão está conosco hoje. Temos uma epidemia de homens mortos pela polícia tanto aqui, quanto nos EUA, no Equador e na Colômbia. Por um momento fiquei feliz ao ver no avião uma ou duas pessoas afro-brasileiras. Na embaixada estava feliz de ver passar uma afro-brasileira. As coisas estão mudando, mas poderiam mudar ainda mais rapidamente”.

Desigualdade Brasil X EUA

Os brasileiros costumam ter como base a história de luta racial dos Estados Unidos. Nas citações, ressaltam-se personalidades, como Luther king, Ângela Davis, etc. Sheila considera que o Brasil e os Estados Unidos são semelhantes e diferentes ao mesmo tempo.

O Brasil não enfrentou a segregação oficial que os Estados Unidos enfrentaram. De acordo a pesquisadora, esse regime racista trouxe algo de útil. “O lado útil é que graças a essa discriminação por lei, tínhamos de criar instituições paralelas às da sociedade branca. Como resultado, existem 104 universidades afro-americanas. Também surgiram igrejas importantíssimas, como a Batista e a Metodista. No começo do século XIV, quando os afro-americanos iam às igrejas metodistas, houve uma segregação. O afro-americano tinha que se sentar atrás. Então eles decidiram que, se não pudessem se sentar como todos, não iriam mais frequentar essas igrejas. Foi então que surgiu a igreja União Africana Metodista. A instituição existe até hoje, e a minha família frequenta”.

Com emoção, Sheila disse que as igrejas foram lugares de organização espiritual e política. “Não é à toa que tivemos o reverendo Luther King e o pastor Jesse Jackson. Eles eram líderes políticos e econômicos. No Brasil é diferente: há instituições africanas, como a Congada e o Candomblé, que nós não temos”, disse.

Cotas

A antropóloga ressalta que, de 1500 a 1800, cerca de 75% dos produtos das Américas foram produzidos pelos afrodescendentes involuntariamente e de graça. O trabalho afrodescendente é a base de todas as Américas. “No movimento para reparações, se pensamos em tudo que africanos e afrodescendentes contribuíram para o desenvolvimento dos países, temos uma ideia mais concreta de por que merecemos reparações. Quando houve a emancipação nos impérios Português, Francês e Espanhol, quem recebeu o que se pode chamar de reparações foram os donos de seres humanos. Eu não falo de escravos. Essa não é uma palavra do meu vocabulário. Falar de uma pessoa como escravo é crucificar essa pessoa. Eu não vou crucificar os meus ancestrais. Se os donos de outras pessoas receberam dinheiro para a posse da propriedade humana, por que nós não podemos receber nada por todo um trabalho realizado? Eu não espero receber nenhum cheque, mas os países que se desenvolveram com ajuda dos nossos ancestrais podiam criar programas para reequilibrar a economia e dar certas vantagens aos afrodescendentes”, declarou.

Ao ser questionada sobre como é possível se relacionar melhor com a África, ou seja, estreitar as relações, Sheila afirmou: “A África já deu a base da sociedade brasileira. O português do Brasil é muito africanizado. A diferença entre o português do Brasil e o de Portugal é a África. A África não conhece a diáspora. Eles sabem que nós existimos. Os lusófonos sabem. Os outros sabem pelo futebol, mas não têm a ideia da cultura existente. Aqui nas Américas há culturas africanas que na África não existe mais. Mas os africanos não sabem disso. Quando aconteceu o Congresso dos Orixás na Bahia, havia Yorubás que foram à Bahia e foram surpreendidos ao ouvir um idioma do passado deles e de ver rituais que eles não têm mais em suas terras, porque são protestantes. Acho que seria muito bom para a África saber o que nós temos, sobretudo os países da costa de Senegal até Angola, mas seria bom também que tivéssemos uma ideia da África de verdade. Aqui temos um pensamento muito romântico do que é o continente. Não é essa ilusão. Precisamos saber que África não é um país e que há culturas diferentes”
Etiene Martins – Jornalista, publicitária, book tuber, livreira, idealizadora do jornal Afronta , lembrou.