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Quando a escassez de alimentação saudável é o combustível para empreender e inovar: conheça a Tapioca D’Lu

Por Sandrinha Flávia

Maria de Lourdes de Sousa Silva, 42 anos, mais conhecida como Lu Silva é apaixonada por alimentação saudável. Para suprir as suas próprias necessidades e incentivar as pessoas a se alimentarem melhor, resolveu investir em um negócio próprio, a Tapioca D’Lu. Com um cardápio variado em sabores doces e salgados, vegano e vegetariano, a empresa se diferencia no modo de preparo: a fabricação é auto-sustentável e os produtos utilizados são  agroecológicos.

Lu Silva sempre teve uma vida movimentada, envolvida em trabalhos com projetos sociais, eventos, participações em palestras e cursos. Sua maior dificuldade, conforme frisa era na hora da alimentação. Vegana e adepta ao estilo de vida saudável, tinha dificuldades para encontrar   uma alimentação que a agradasse nos intervalos das atividades. “O jeito era comer o que tinha, mas sempre passava mal”, explica.

Em 2016, uma amiga a convidou para fazer tapioca em uma festa de temática baiana. Naquela época, Lu Silva já tinha habilidades como cozinheira, pois já exercia essa profissão em casa de família. O convite foi aceito, mas Lu não sabia nada sobre o mercado de tapiocas, era tudo uma novidade para ela. Por isso teve que virar noites pesquisando. Ao sentir segurança, investiu 500 reais no negócio para comprar a chapa, o aro e outros produtos necessários. No dia do evento, as vendas foram um sucesso e foi assim que nasceu a Tapioca D’Lu, um projeto que comungava com o seu estilo de vida saudável.

Quando ainda era criança, sua mãe Matutina da Cruz, uma lavadeira, e seu pai, Expedito Cândido, agricultor, e os sete irmãos, migraram da zona rural para a cidade de Santa Luzia(MG). Aos 12 anos, Lu Silva foi trabalhar como empregada doméstica. Na primeira oportunidade que teve,  se matriculou em um curso de dança afro e logo conseguiu uma autorização para dar aulas, mas o trabalho como professora de dança não era suficiente para bancar as suas despesas, então optou conciliar as atividades com o trabalho de doméstica e faxineira. Como gostava de arte e cultura, praticava também capoeira e fazia artesanato.

Mãe solo de duas meninas, Lu Silva conta com a ajuda de uma das filhas, Iamirrany, e do genro, Rubens, na fabricação das tapiocas. Quando precisa de reforço, aciona os parentes e amigos. No início, as vendas não eram tão satisfatórias, mas nunca desistiu.  Continuou investindo em conhecimento, fez curso de manipulação de alimentos pela PUC- Minas e prefeitura de BH, estudou Pequenos Negócios, Microempreendedorismo e Gestão Financeira.

Uma das preocupações da empreendedora era com o uso da farinha industrializada. O gosto do catupiry também não era do seu agrado. Após pesquisar, encontrou um jeito de aprimorar os produtos. Hoje a farinha usada não é de goma, nem de polvilho, é feita de fécula de mandioca; o catupiry foi substituído por creme de queijo. Quando lhe sobra tempo, é ela quem faz a carne de sol, e no lugar da nutella investiu em ganache de chocolate. O coco é ralado na empresa e o morango em calda, ou seja, tudo é natural.  

Mesmo enfrentando dificuldades para encontrar insumos ecológicos para a produção, a empresária não abre mão do propósito do negócio:ser autossustentável, utilizar produtos agroecológicos e fazer compostagem de todo insumo usado.

A tapioca é, sem dúvida, o carro chefe da empresa, mas o cardápio inclui também lanches diversos, sucos naturais, tropeiro tradicional e vegetariano. “Tudo é feito sem conservantes e respeitando o meio ambiente. Eu uso muito alho, limão, tempero baiano, mistura de ervas e óleo de coco visando à sustentabilidade”, diz Lu. A empresa oferece  também coffee Break e atende camarim.

Foto: Cecília Pederzoli

Engajada nas pautas da alimentação saudável, Lu se tornou vice-coordenadora da Rede de Alimentação da Economia Solidária, projeto que tem como objetivo incentivar a rede de empreendedores sobre a importância da alimentação saudável. Com o trabalho cada vez mais reconhecido, em 2019, a Tapioca D´Lu foi convidada a participar do selo Estômago da Lagoinha, projeto idealizado pelo chefe Miller e formado por dez estabelecimentos do bairro Lagoinha(BH).“Estou animada com o crescimento da empresa. Fico feliz quando vejo o cliente dá aquela primeira mordida, fico ansiosa pra ver a cara da pessoa. Estou muito satisfeita com o retorno dos clientes; é esse o objetivo que eu queria almejar e consegui”, finaliza.

Sandrinha Flávia é jornalista, locutora, editora e mestra de cerimônias.

Loja Colaborativa no Pelourinho reúne marcas afroempreendedoras

Por Sandrinha Flávia, jornalista, locutora, editora e mestra de cerimônias

Empreender, dar visibilidadeaos profissionais negros e valorizar as marcas que criam seus produtos inspiradas na cultura negra são algumas das premissas da Loja Negros Solidários. Localizada em um dos roteiros turísticos mais procurados do Brasil, o Pelourinho, centro histórico da cidade de Salvador(BA), o espaço que funciona como uma loja colaborativa conta com trinta marcas afroempreendedoras.

O projeto surgiu em julho de 2018 quando foi realizada a Feira Negros Solidários.  Após o evento, o Coletivo de Entidades Negras(CEN), entidade idealizadora do projeto, criou a loja em sua própria sede para que a feira não ficasse marcada apenas no tempo e depois sumisse. A loja Negros Solidários é a continuação da feira, só que agora em um ponto fixo.

No início eram 16 marcas, esse número foi crescendo e hoje já são trinta empreendimentos que dividem o espaço oferecendo moda masculina, feminina, cosméticos, acessórios religiosos, brochuras, papelaria, bolsas etc. Em média, setecentas pessoas visitam a loja em busca de produtos com identidade negra.

Yuri Silva, coordenador Geral do CEN, explica que a missão da loja é inverter o debate sobre o racismo. “Queremos discutir o acesso do povo negro ao dinheiro, em vez de focarmos nas nossas mazelas. Precisamos incentivar que  povos negros acessem riquezas, sejam empresários, dominem mercados que historicamente são brancos, eurocêntricos e racistas”, diz.

Para conseguir um espaço na loja, o empreendedor/a precisa ser negro e produzir algo da cultura negra. O espaço funciona em sistema de plantões de turnos. Cada empreendedor/a fica dois turnos por mês no atendimento aos clientes. Eles também realizam o pagamento de uma taxa fixa por mês, como explica Yuri,“Atualmente o empreendedor paga uma taxa de manutenção de R$ 25 para o custeio de despesas. No começo, quando tínhamos um edital para realização da feira, a permanência era gratuita. Mas essa cobrança também acaba por trazer mais responsabilidades para os empreendedores, que ficam mais comprometidos”.

A empreendedora e criadora da marca Asha Bio, Ashanti Elesbão, comercializa, na loja, cosméticos naturais e artesanais. Segundo ela, o fato de a proposta do espaço ser pensada e formatada para pequenos empreendimentos negros fez com que Ashanti aderisse ao projeto, “As vantagens são muitas como  local fixo para comercialização, bem localizado, pois estamos no Pelourinho, custo baixo e rentável, oportunidade de aprendizado pela convivência entre nós, fortalecimento da nossa autoestima enquanto empreendedores e pessoas e o apoio de um Coletivo com anos de experiência”.

A Loja Negros Solidários funciona de segunda a sábado, das 9h às 18h. E na alta estação, abre também aos domingos. O endereço é Rua das laranjeiras, 25, Pelourinho, Salvador (BA). O instagram é @lojanegrossolidarios.

No espaço você encontrará as seguintes marcas: Alagbedé, Aondê Artes, Asha Bio, Bença Vó, Bixa Costura, Black Atitude, Black Pim, Candaces, Cantinho da África, Chica Ferreira, Concrochê, Fáfa – Fotografia e Resgate Ancestral, Goró Poético, Jack Diva Black, Me Deixe, Mia Fia Bolsas, Moça Preta, Ofánish, Omi O, Ouromim, Preta Brasil, Tecnorgânics, Tons da Terra, Vista Realeza, Bayo Moda Afro, Raízes de Fé, Inlé Orixá Artes em Jóias, Lulis Acessórios e Pele Preta.

Loja Negros Solidários no Pelourinho, Salvador, Bahia. Foto: Thiago Conceição