Os sinos ainda falam

Por Cleonice Silva
Jornalista formada pela Universidade Federal de Ouro Preto.

Em meio às montanhas, cachoeiras e ruínas, Barão de Cocais, com mais de 3 séculos de existência, mantém viva a tradição de sineiro, preservando a memória e a identidade local.

No santuário de São João Batista, padroeiro da cidade, todos conhecem os irmãos Tito Lazarino e Ernesto.

Sr. Tito começou a tocar sino aos 13 anos de idade, quando era sacristão. Tocava para as chamadas das missas e, todos os dias às 18 horas, convocando os fiéis para a prece da ‘Ave Maria’, anunciando o Angelus: “Aprendi com meu irmão mais velho, João Evangelista, já falecido”.

Conta que são 81 degraus até o topo da torre do Santuário que é composta por três sinos: pequeno, médio e grande. Reproduzem três tipos de toques: repique, badalada e dobre: “De  acordo com o toque, a pessoa já sabe se é morte, toque festivo ou missa. Para falecimento de criança, tocava o pequeno. Para adulto, pequeno e médio. Em falecimento de membro da  Irmandade do Santíssimo, tocava os três”.

O sino foi inventado na China há mais de 4.600 anos. Os antigos eram fabricados em metal, atualmente os modernos são fundidos em bronze.

No Brasil, a tradição da linguagem dos sinos teve origem no período colonial, durante a escravidão. Relata-se que as grandes instituições religiosas do Brasil colonial e imperial alugavam escravos para os serviços de toque dos sinos, servir refeições aos monges no claustro e segurar o livro durante a missa.

Hoje, com 71 anos de idade, o sr. Tito não pratica mais o ofício de sineiro. Relembra uma história marcante: “Quando o Papa João XXIII faleceu, em 1963, todas as igrejas tiveram que tocar às 06 horas da tarde anunciando o falecimento. Lembro que coloquei o sino grande com a boca pra cima porque tinha que dobrá-lo. Então virei e segurei na ponta. O badalo veio e amassou meu dedo. Até hoje tenho o dedo amassado por causa disso!”.

Quem mantém a tradição ativa juntamente com dois companheiros é o Sr. Ernesto, agora com 69 anos de idade. Iniciou com 13 anos em uma comemoração de Corpus Christi: “Meu irmão estava batendo o sino, me levou lá e falou ‘Você vai bater, vem cá!’ Duas horas da tarde, um calor e eu suando”. (Risos)

O sr. Ernesto também vivenciou histórias: “Em 2017, eu tava tocando o sino e tinha outro comigo. Falei: toca o grande que vou repicar o médio e o pequeno. Tô dobrando… Ele passou para os dois menores e eu fui dobrar o grande. Daí a pouco não tava ouvindo o som dele. Uai, tá meio esquisito. Tô dobrando, mas não tô ouvindo o barulho! Comecei a parar e quando parei, o badalo arrebentou. A procissão estava chegando. Já pensou se o badalo cai lá embaixo?! São João Batista foi tão bom que ele caiu em cima da janela da torre e ficou quietinho lá, cai que não cai. Agora cê pensa bem!…”.

Com o passar dos anos, o sino sofre desgaste. O Sr. Ernesto disse que devido à uma trinca que prejudicou o som, o maior foi substituído por outro de bronze. Comenta que o atual não propaga som bonito como o original e conclui: “Já ouviu a lenda que diz que se mulher bater  o sino ele trinca né?! Não lembro de nenhuma bater e ele trincou”. (Gargalhadas)

Os sinos das igrejas mineiras são bens culturais. Valorizar e preservar é um exercício coletivo  que privilegia a comunidade e visitantes.

Em Barão de Cocais, além de importante marco da história e da resistência negra no Brasil, os sinos também são sinônimos de fé, amor, devoção e saudade.

Conheça mais sobre essa história no canal da prefeitura de Barão de Cocais