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Risco de Apagamento

RISCO DE APAGAMENTO

Uma das características do racismo é o apagamento da história negra, quando não por negligência, por ação deliberada e proposital. A Obra “Híbrida Ancestral – Guardiã Brasileira”, da artista mineira Criola, grafiteira cujo trabalho remete sempre à identidade de matriz africana, corre risco de ser apagada. O trabalho em questão é um mural criado pelo projeto Cura e ostenta a imagem de uma mulher negra de 1365 m², no prédio do condomínio Chiquito Lopes, no Centro de Belo Horizonte. Segundo a própria artista, a obra é “um caminho interno de honra às mulheres e seu sangue sagrado, de honra ao povo preto e aos povos originários brasileiros e seus descendentes como legítimos guardiões dos portais da espiritualidade que sustentam o nosso país”. Segundo a produção do CURA, festival voltado para as artes visuais na cidade, na ocasião da criação do mural os moradores foram devidamente consultados, sendo que apenas um dos moradores foi contrário. Esse morador ingressou uma ação na justiça com base numa lei do período militar (Lei 4591/1964) para sustentar que a obra precisaria da aprovação unânime de todos os condôminos. Segundo o autor da ação judicial, a obra “Não é uma simples pintura, é uma decoração de gosto duvidoso”.⠀A organização do festival entrou com recurso.

Foto: Mural Híbrida Astral – Créditos: foto Área de serviço.jpg

Elisa de Sena – Cura

Por Roger Deff

A cantautora Elisa de Sena representa o atual momento da música em Belo Horizonte. Já se percebe uma cena com ótimos trabalhos que, nos últimos anos, tem sido protagonizada principalmente por mulheres, a exemplo de nomes como Tamara Franklin, Zaika dos Santos, Bia Nogueira, Júlia Branco, Manu Dias, Déh Mussolini, Maíra Baldaia e Nathy Rodrigues.

As duas últimas foram parceiras de Elisa de Sena no projeto Negras Autoras, coletivo que reúne mulheres negras da música na capital mineira, do qual fez parte também a percussionista Manu Ranilla, que acompanha a artista em seu  primeiro vôo solo.  Em 2019, Elisa estreou com seu trabalho o álbum “Cura” com produção da DJ Black Josie e apoio do selo Natura Musical. 

O disco conecta a tradição afro-mineira dos tambores com a idéia “futurista” dos timbres eletrônicos e dos samplers. Não por acaso, a música que abre os trabalhos conta com a participação do mestre Maurício Tizumba. Ao longo das 11 faixas do disco que marca o início dessa nova caminhada, a artista desenvolve uma assinatura própria, sem negar as referências, mas se permitindo experimentar direções nada óbvias.

As canções propõem uma leveza necessária em dias tão densos e tensos, mantendo-se na contra-mão uma ideia de desconstrução da cultura que segue vigente no atual momento.

Sob um fundo amarelo com água, a cantora Elisa de Sena se encontra deitada, olhando em direção para câmera. Ela é negra, possui cabelos crespos curtos. Seu olhos estão delineados de preto e com sombra nas cores dourado e acobreado. Seus ombros e braços estão à mostra e metade de sua mão esquerda submersa na água. Sua mão direita está sob a esquerda,e ela está com as unhas pintadas de preto.
Elisa de Sena – Crédito Paulo Oliveira

 “Cura” é o que o nome título propõe, a anti-tese do ódio, um descanso sonoro em meio ao caos. Sem restrições, Elisa se coloca em contato com a música preta universal, sem se preocupar muito com qualquer rótulo que queiram lhe dar. E segue leve, aguerrida, como mulher negra que é, mas sem perder a alegria ancestral.

“A grana é curta, sistema é bruto, bruta batalha, mas sigo flor.” (trecho da música “Ficar só”)