Eustáquio Neves: Um fotógrafo autoral

Por Robson Di Brito

Mestre em humanidades, escritor e pesquisador

O que é o tempo para um fotógrafo?

Para responder essa pergunta quase filosófica, ninguém melhor que Eustáquio Neves, referência brasileira em fotografia autoral. “O tempo é a construção de momentos; não é algo que se programe, mas são várias situações e fragmentos que se constituem no tempo e a imagem desse tempo é fragmentada”.

Eustáquio Neves é um dos fotógrafos mais respeitados quando o assunto é a arte multimídia aliada à herança africana no Brasil, autor de uma vasta obra em foto-arte que incluem prêmios e exposições no Brasil e internacionais. Muito antes dos temas da memória e identidade negra ganharem centralidade no debate público, ele já dedicava quase 30 de seus 62 anos a registrar a perspectiva do preto e de sua importância como representante nacional. Nascido em Juatuba, Minas Gerais, químico de formação, mas foi no autodidatismo fotográfico que se identificou como artista. É casado com Lilian Oliveira Neves e residente na cidade de Diamantina, local que detém uma forte atuação preta, em especial, pela história de seres humanos em situação de escravidão. 

Como que Eustáquio Neves observa a cidade e como sua arte dialoga com ela?

Acredito que o diálogo da minha arte com a cidade de Diamantina tem a ver com a herança do negro com a cidade, o que de certa forma acaba me movendo; conheci pessoas muito importantes, como remanescentes da memória do traço do negro na região. Entre elas o “Seu Crispim”, mestre dos catopés e um dos últimos detentores dos cantos dos “Vissungos”. É isso que a cidade me faz localizar, essas pessoas. Diamantina é, de fato, uma cidade bastante ímpar por conta da escravidão, pois teve uma representativa mão de obra escravizada de pessoas específicas de mineração e outras qualidades técnicas. Isso me inspirou a série “Retrato falado” (2015), pois não há uma informação precisa desses trabalhadores, o que me faz buscar soluções para impasses como esse. De fato, a série retrata o apagamento da memória do negro e ao me deparar com a falta de registro fotográfico da pessoa do meu avô, uni, por conta deste trabalho, a observação histórica e pessoal da mão de obra do negro escravizado aqui na região.

Sendo um artista cosmopolita que já expôs suas fotografias em quase todos os continentes, o que Diamantina produz em você que esses outros lugares não produzem?

É o sentido de você entender sua aldeia para entender o mundo! Então… Memória e identidade são as ideias centrais que Diamantina me propõe, pois são um pouco confusas. Confusas se você pensar de forma geral, pois há alguns núcleos de indivíduos que sabem de sua importância para região, por exemplo, o “Seu Crispim”. São células que vão disseminando, mesmo com uma tentativa de invisibilidade, a importância dessas pessoas. Um exemplo claro: morar aqui, nesta casa, que representa um padrão econômico que destoa da maioria da população negra brasileira. Até as pessoas saberem que era eu e minha família os moradores, já tinham dito que aqui morava um casal de japoneses, de africanos, americanos, mas nunca de um negro brasileiro. Isso demonstra que é difícil compreender um negro tendo acesso àquilo que os brancos têm desde sempre. As pessoas não entendem, mas têm de aceitar, pois essas questões estão sendo levantadas pela sociedade. E aqui, na cidade, a Universidade Federal dos Vales dos Jequitinhonha e Mucuri têm auxiliado para essa aceitação de identidade do negro consigo e de Diamantina com o negro.

Suas obras são simbólicas por natureza e podemos compreender isso já dos títulos das séries que produziu: Futebol (1998), Objetivação do corpo (1999), Máscara da punição (2004) e outras. Essa simbologia é fruto de uma pesquisa elaborada para a criação da série ou é intuição artística?

São insights, e a partir daí eu vou para pesquisa. Todos os materiais e temáticas que uso é do meu entorno, por isso entendi que produzo uma fotografia de autor, é um contar uma história com a fotografia, o que pede uma pesquisa. Um exemplo claro disso: a série “Cartas ao mar” (2015), feita na zona portuária do Rio de Janeiro conhecida como Valongo, um dos locais onde se receberam inúmeros negros escravizados. Essa série tem uma estética de documentos, pois penso na prática de colocar cartas em garrafas e lançar ao mar para que as pessoas que as encontrem tenham acesso a essas mensagens numa tentativa de a memória não cair no esquecimento.

Suas referências são de múltiplas artes e já afirmou em algumas entrevistas o cinema de Andrei Tarkovski (cineasta russo, produtor de 7 longas-metragens e 3 curtas-metragens), mas também referendou Arthur Bispo do Rosário por sua estética nas Artes Plásticas. E na literatura, possui alguma referência?

Há uma atmosfera nos filmes de Tarkovski, um tempo que identifico com o meu tempo de narrativa. Arthur Bispo do rosário revela muito da contribuição do negro nas artes plásticas. Recentemente Spike Lee (cineasta e dramaturgo estadunidense) disse que não existe arte contemporânea sem a contribuição do negro, e a arte do Bispo do Rosário representa isso. O Bispo me auxiliou como subverter a fotografia e manipular a foto de forma a não me sentir limitado com as técnicas tradicionais da arte fotográfica. Já na literatura quem me marcou foi Machado de Assis. Na infância, li muito Machado, mas um autor com quem já trabalhei e admiro a literatura, e é preciso que os negros leiam, é o Edmilson de Almeida Pereira.

São presentes os temas: Passado, História, Memória, Corpo, Identidade e Preconceito em suas obras. Você transita por esses temas, não apenas os expondo de forma deliberativa, mas por meio de um olhar crítico sobre a situação social brasileira, em especial ao preto inserido nessas temáticas. Você acredita que esses temas são importantes para compreender os dilemas étnico-raciais da sociedade brasileira?

Esses temas são essenciais para entender o negro no Brasil. As pessoas estão se impondo mais, sem a necessidade forçosa de ser aceito. Cada vez mais temos de discutir essas questões para que as pessoas possam compreender os lugares que ocupam nessa sociedade, e possam buscar novas colocações nela, e perceber que elas também podem acessar aquilo que lhes fora negado. A série “Boa aparência” (2000) vai ao encontro disto, pois partiu de uma pesquisa na Biblioteca Antônio Torres, em Diamantina. Lá achei alguns anúncios de jornais históricos que tratavam de escravos fugidos. Lia neles que tratavam o negro como que dotado de boa aparência. No mesmo período, ganhei uma bolsa de investigação em Londres e lá fui para os arquivos de bibliotecas e retomei esse assunto de forma investigativa. De volta ao Brasil, confronto o termo usado com anúncios de escravos fugidos no período da escravidão no Brasil e na Inglaterra e como o termo era utilizado antes nos classificados de oferta de emprego. Por isso, é preciso questionar e se questionar até que ponto aquilo que dizem sobre o negro é do negro ou imposto a ele.

Você afirma que não faz uso de sua arte para levantar bandeiras, mas é um contribuinte para o movimento da identidade preta no Brasil. Possui uma opinião formada sobre o movimento negro como instituição? 

O movimento negro no Brasil como instituição é válido, mas eu acredito mais no movimento da população negra de um modo geral, e dentro desse movimento da população negra está o movimento negro institucionalizado, e não o contrário. 

O Itaú Cultural e o Museu Afro Brasil o definiu como Fotógrafo étnico-cultural, mas é unanime a afirmação de que sua obra e você definem-se como artista multimídia. Eustáquio Neves, como você se define?

Sou artista e ponto. Por um acaso a arte que produzo é da linha visual. Me incomoda um pouco essa coisa de rotular o artista. Ninguém enquadra um artista branco como Artista branco fulano de tal, então não há por que me enquadrar nisso. Pode ser que na biografia seja necessário, mas não é um fator para definir minha arte. 

Como se sente sendo para muitos jovens pretos uma inspiração e qual sua recomendação para eles?

Eu não tive referências quando comecei minha arte. Um pouco pela falta de existirem referências na arte da fotografia e um pouco pela minha ignorância sobre os poucos que existiam quando comecei. Só muito depois que conheci o trabalho do estadunidense Gordon Parks, por exemplo. Mas, me vejo sendo referência para os jovens artistas com certa responsabilidade, no intuito de defender as ideias e temas que trabalho, mas não forço nada. A mensagem que envio aos jovens é a persistência e o acreditar, e a vontade. Qualquer coisa para o jovem negro, e o negro brasileiro em si, para qualquer coisa que se queira fazer é preciso “meter a cara”; ir sem medo para conquistar o que é seu também, pois o negro pode tanto quanto o outro que é branco.