Tagged with

gastronomia

Zora Santos faz comida da bisavó na tela do computador

Por meio  da web gerações se encontram e promovem o resgate da
verdadeira comida mineira

Por Moisés Mota

Hoje cozinheira, Zora Santos frequentou diversas passarelas de moda na Europa. A ex-modelo e atriz dedica seu tempo à arte culinária da cozinha mineira de raiz. Seu trabalho de garimpo de receitas de família e uso de ingredientes “não convencionais” lhe confere o título de pesquisadora, mas não o aceita. Prefere ser reconhecida como preservadora da arte culinária, esta cultivada no seio familiar há séculos.

Ao perguntar a ela quais são suas referências no campo culinário, ela responde ser suas “tias velhas da cozinha” e completa “não idolatro os chefes pela gourmetização da comida”. Segundo ela, o termo gourmet despreza a simplicidade da cozinha mineira. Também refuta o termo PANC (produto alimentício não convencional) e afirma que faz comida de gente, pra gente e usa a culinária como espaço de resistência.

Natural de Belo Horizonte, mas com raízes familiares na região central do estado, cultiva a arte de cozinhar sem as vestes da elite. Faz comida de gente preta e faz questão de afirmar o poder do “ser cozinheira”. “Na Europa, eu fiquei impressionada com o respeito que os cozinheiros tinham. No Brasil é diferente”, pontua Zora.

Criadora do projeto Comida de Cerca, ficou paralizada devido à pandemia do novo coronavírus. Durante os primeiros meses ficou sem trabalhar, mas, em dado momento, depois de uma sugestão da amiga Ana Maria Gonçalves (autora de Um defeito de cor) abarcou a rede web para continuar seu trabalho. A proposta deu certo e é regularmente realizada uma live com vários inscritos. Todos cozinham juntos sob a batuta da cozinheira multiartista Zora Santos.

Seu trabalho tem promovido momentos de destaque na cena nacional e internacional, entre eles destacamos a participação no programa Parts Unknown apresentado pelo chef Anthony Bourdain em que debate sobre a história das comidas das Minas Gerais. Zora promoveu, nestes tempos de isolamento, uma alavancada para as pessoas descobrirem o sabor da verdadeira comida mineira, que não passa pela gourmetização.

Quando a escassez de alimentação saudável é o combustível para empreender e inovar: conheça a Tapioca D’Lu

Por Sandrinha Flávia

Maria de Lourdes de Sousa Silva, 42 anos, mais conhecida como Lu Silva é apaixonada por alimentação saudável. Para suprir as suas próprias necessidades e incentivar as pessoas a se alimentarem melhor, resolveu investir em um negócio próprio, a Tapioca D’Lu. Com um cardápio variado em sabores doces e salgados, vegano e vegetariano, a empresa se diferencia no modo de preparo: a fabricação é auto-sustentável e os produtos utilizados são  agroecológicos.

Lu Silva sempre teve uma vida movimentada, envolvida em trabalhos com projetos sociais, eventos, participações em palestras e cursos. Sua maior dificuldade, conforme frisa era na hora da alimentação. Vegana e adepta ao estilo de vida saudável, tinha dificuldades para encontrar   uma alimentação que a agradasse nos intervalos das atividades. “O jeito era comer o que tinha, mas sempre passava mal”, explica.

Em 2016, uma amiga a convidou para fazer tapioca em uma festa de temática baiana. Naquela época, Lu Silva já tinha habilidades como cozinheira, pois já exercia essa profissão em casa de família. O convite foi aceito, mas Lu não sabia nada sobre o mercado de tapiocas, era tudo uma novidade para ela. Por isso teve que virar noites pesquisando. Ao sentir segurança, investiu 500 reais no negócio para comprar a chapa, o aro e outros produtos necessários. No dia do evento, as vendas foram um sucesso e foi assim que nasceu a Tapioca D’Lu, um projeto que comungava com o seu estilo de vida saudável.

Quando ainda era criança, sua mãe Matutina da Cruz, uma lavadeira, e seu pai, Expedito Cândido, agricultor, e os sete irmãos, migraram da zona rural para a cidade de Santa Luzia(MG). Aos 12 anos, Lu Silva foi trabalhar como empregada doméstica. Na primeira oportunidade que teve,  se matriculou em um curso de dança afro e logo conseguiu uma autorização para dar aulas, mas o trabalho como professora de dança não era suficiente para bancar as suas despesas, então optou conciliar as atividades com o trabalho de doméstica e faxineira. Como gostava de arte e cultura, praticava também capoeira e fazia artesanato.

Mãe solo de duas meninas, Lu Silva conta com a ajuda de uma das filhas, Iamirrany, e do genro, Rubens, na fabricação das tapiocas. Quando precisa de reforço, aciona os parentes e amigos. No início, as vendas não eram tão satisfatórias, mas nunca desistiu.  Continuou investindo em conhecimento, fez curso de manipulação de alimentos pela PUC- Minas e prefeitura de BH, estudou Pequenos Negócios, Microempreendedorismo e Gestão Financeira.

Uma das preocupações da empreendedora era com o uso da farinha industrializada. O gosto do catupiry também não era do seu agrado. Após pesquisar, encontrou um jeito de aprimorar os produtos. Hoje a farinha usada não é de goma, nem de polvilho, é feita de fécula de mandioca; o catupiry foi substituído por creme de queijo. Quando lhe sobra tempo, é ela quem faz a carne de sol, e no lugar da nutella investiu em ganache de chocolate. O coco é ralado na empresa e o morango em calda, ou seja, tudo é natural.  

Mesmo enfrentando dificuldades para encontrar insumos ecológicos para a produção, a empresária não abre mão do propósito do negócio:ser autossustentável, utilizar produtos agroecológicos e fazer compostagem de todo insumo usado.

A tapioca é, sem dúvida, o carro chefe da empresa, mas o cardápio inclui também lanches diversos, sucos naturais, tropeiro tradicional e vegetariano. “Tudo é feito sem conservantes e respeitando o meio ambiente. Eu uso muito alho, limão, tempero baiano, mistura de ervas e óleo de coco visando à sustentabilidade”, diz Lu. A empresa oferece  também coffee Break e atende camarim.

Foto: Cecília Pederzoli

Engajada nas pautas da alimentação saudável, Lu se tornou vice-coordenadora da Rede de Alimentação da Economia Solidária, projeto que tem como objetivo incentivar a rede de empreendedores sobre a importância da alimentação saudável. Com o trabalho cada vez mais reconhecido, em 2019, a Tapioca D´Lu foi convidada a participar do selo Estômago da Lagoinha, projeto idealizado pelo chefe Miller e formado por dez estabelecimentos do bairro Lagoinha(BH).“Estou animada com o crescimento da empresa. Fico feliz quando vejo o cliente dá aquela primeira mordida, fico ansiosa pra ver a cara da pessoa. Estou muito satisfeita com o retorno dos clientes; é esse o objetivo que eu queria almejar e consegui”, finaliza.

Sandrinha Flávia é jornalista, locutora, editora e mestra de cerimônias.