A arte de Roger Deff

Por Samira Reis

Jornalista, modelo, mestranda em Comunicação pela UFMG, responsável pelo podcast Baú da Preta

O ano era 2015. Especificamente, outubro. Sob um calor estrondoso da primavera que flerta com verão, saía da região da Pampulha em direção à rua da Bahia. Lá, eu seguia para a Secretaria Municipal de Cultura para trabalhar com a equipe da oitava edição do FAN – Festival de Arte Negra. E foi nesse período que conheci o Roger Deff. Nessa turma, ele estava como assessor de imprensa. Conheci o jornalista e fui apresentada também ao rapper e pesquisador.

A música, aliás, é uma de suas formas de se expressar enquanto artista e como cidadão. Nos bailes do Jardim Alvorada, teve contato com referências importantes na construção da própria trajetória. “O desejo de trabalhar com música nasceu ainda na adolescência. Foi lá que conheci Racionais, Mantronix, Kraftwerk, Afrika Bambaataa e Soul Sonic Force. O segundo fator foi meu primo, Rodrigo Pelé. Ele era integrante da Black Soul, o primeiro grupo de rap a gravar em BH e me deu o disco de presente. Isso me estimulou muito. Depois tive contato com uma rapaziada do bairro que já fazia rap, daí segui nesse caminho até hoje”, conta.

E segue no corre, como a maioria dos artistas independentes. Tirar letras do papel, transformar em música, chegar no público, na mídia, na crítica, cantar o que é, onde está. E expandir esse trabalho para o mundo, por que não?! “A Internet tem ajudado. Hoje eu tenho músicas minhas sendo ouvidas no Japão, na Alemanha, em Portugal, e isso se dá por conta da Internet. Antes era mais difícil, mais caro. Hoje é possível fazer de uma única música um grande trabalho, antes só se fosse um disco inteiro, o que não era viável para a maioria”. 

O virtual também é palco para falar de vivências, do mundo, da política. Deff sabe bem disso e da importância de conversar nesse espaço. Nem sempre uma tarefa prazerosa, em tempos de polarização e de embates. A troca de ideias ficou em segundo plano. Enquanto isso, somos puxados para um precipício de fake news, de negação da ciência, extremismo. Em tempos de pandemia, como agora, quando o mundo enfrenta o Covid-19, o debate, por vezes, se torna ainda mais espinhoso. Sem contar com as restrições necessárias para evitar a disseminação do vírus e mortes sem precedentes. Para Roger, a arte inspira esperança. “Essa fase vai passar, não é e nem vai ser fácil, mas consigo ver a cultura dando sinais de vida, de resistência. Arte é esperança no fim das contas, pelo menos a arte que faço, então a gente segue”, afirma.

Vivemos um 2020, no mínimo, desgastante. Uma pandemia, a ciência em busca de respostas, governos autoritários, extremismo, ricos cada vez mais abastados e os já tão pobres devastados com o descaso. Vamos de arte para enfrentar mais um dia. E dá-lhe música. “Matéria Prima, um dos grandes MCs do Brasil, recomendo demais. Maravilha de ouvir também é o novo álbum da Tamara Franklin, “Fugio”. Ouçam!”, indica. 

Roger Deff é editor da Revista Canjerê.

Foto: Roger Deff © Flávio Charchar