A dança afro-brasileira de Mercedes Baptista ecoa no carnaval de 2022 e reescreve a história dos corpos negros na avenida Sapucaí

 Evandro Passosdoutorando em Dança pela UFBA, mestre da cultura popular, ator, coreógrafo e dançarino, mestre da cultura popular de Belo Horizonte-MG

           Ninguém fez enredo esse ano. Quem fez enredo foram os orixás. Os orixás escolheram o Xirê para vir para avenida (…). Desde 1980, eu nunca vi algo tão sincronizado, ou seja, a reafricanização se impõe diante das adversidades. 

                                                                 Carlinhos Brown, abril de 2022

Concordo com Carlinhos Brown quando ele diz que os orixás escolheram o xirê’ para vir para avenida, mas acredito que eles também escolheram e incorporaram em cada um daqueles bailarinos e daquelas bailarinas para que trouxessem para a avenida, em seus corpos pretos, um bailado ancestral que reafirmasse a afinação do povo preto com a contemporaneidade sem deixar de negligenciar o passado. São singularidades que o capitalismo e a indústria do carnaval não conseguiram tirar do povo preto.

Assumo, neste artigo, a grafia afro-brasileira/o, sem o hífen, como um ato político e de afirmação para fazer entender que não somos dois brasis, um afro e o outro brasileiro. Compreendo o Brasil como uma extensão da África que deve ser valorizada e assumida constantemente.

Procuro aqui refletir os caminhos percorridos pela dança afro-brasileira desde o “Balé Folclórico Mercedes Baptista”, criado pela bailarina de mesmo nome nos anos 60. Artista que trouxe as danças afro-brasileiras coreografadas para os palcos brasileiros e para as ruas. Mercedes Baptista foi também a primeira pessoa preta a coreografar uma ala de escola de samba nos anos 60, apesar de alguns jornalistas e críticos, brancos, chamarem-na de maluca. Disseram eles em variados veículos de comunicação, “A Mercedes Baptista está desvirtuando o samba”.

Através de dois exemplos, das escolas de samba em 2022 e da concepção da Cia. Mercedes Baptista, demonstro como a cultura afro não está estagnada, embora muitos assim a imaginem. A cultura afro dialoga com a contemporaneidade sem negligenciar o passado. Procuro, ainda, mostrar como a persistência pôde contribuir para desconstruir pensamentos coloniais na sociedade brasileira através da arte. Uma arte que propõe novos caminhos e desafios para os corpos negros excluídos, em pleno século XXI.

Creio que no desfile de 2022 o trabalho desses coreógrafos e coreógrafas das danças afro-brasileiras conseguiram mostrar o empoderamento, o profissionalismo rígido dos carnavalescos e das carnavalescas, quesito exigido por um carnaval que virou indústria do entretenimento e do virtuosismo, necessário nas escolas de samba do Rio de Janeiro. Indústria esta que felizmente abarca muitos e muitas trabalhadores e trabalhadoras pretos e pretas. Esses e essas artistas pretos e pretas provaram que o legado da bailarina e coreógrafa Mercedes Baptista está vivo e potente nesses corpos dançantes. São profissionais que fazem de seus trabalhos adequados “artevismo” pela inclusão do povo preto. São movimentos de resistência e resiliência que se multiplicam pelo Brasil afora em aquilombamentos contemporâneos.

Por um longo período, as danças afro-brasileiras estiveram na avenida muito timidamente, mas nunca ausente. Momento em que novos coreógrafos e coreógrafas estavam em formação, atrevo a dizer. Ela ficou timidamente na Sapucaí, porém pulsante nas favelas em projetos sociais, centros culturais e grupos organizados da cultura negra carioca. Os profissionais da cultura continuaram a trabalhar com as danças afro-brasileiras no Rio de Janeiro, formando jovens, criando grupos de dança afro e intercâmbios interestaduais com outros profissionais e núcleos do país.

Ao que se percebe, o carnaval de 2022, pós-pandemia, fez florescer enredos que enalteciam a cultura afro-brasileira em várias escolas de samba. Realidade em que não havia como a dança afro ficar como coadjuvante. Os coreógrafos e coreógrafas das danças afro-brasileiras, com todos os percalços e “expatriações”, por um longo período, profissionalizaram-se sim, não apenas para agradar o carnaval. Foram para algumas universidades de danças, centros culturais e mostraram que as danças afro-brasileiras não estão dissociadas das lutas emancipatórias e de resistência do povo preto no Brasil. Na cultura negra política, arte e educação caminham juntos.

Esses e essas profissionais mostraram na avenida que a dança afro-brasileira é mais que alegórica, exótica ou folclórica; para além do virtuosismo, ela educa e ressignifica corpos pretos invisibilizados pela sociedade.  Trouxeram para a avenida o legado da coreógrafa negra Mercedes Baptista. Dialogaram com a contemporaneidade, demostrando aos virtuosistas sua competência e ensinando que na “cosmologia africana” cultura negra é cíclica e recorrente à sua ancestralidade.

Imagino que Mercedes Baptista sorriu e aplaudiu lá do “Orum” ao que assistimos nesse carnaval de 2022. Como um ícone de representatividade da dança afro-brasileira que foi impedida de bailar no Teatro Municipal por trazer em seu corpo traços da africanidade. A artista fez, então, da rua e dos locais populares seu palco – da estudantina, na Praça Tiradentes no Rio de Janeiro, seu legado ganhou o mundo e, em 2022, a avenida Sapucaí.

Seus ensinamentos estão vivos, pulsantes e novamente reescrevem a história do povo preto. As sementes que brotaram estão crescidas e proliferam lindamente na avenida embora seja uma história que os livros no Brasil insistem em negligenciar. Apesar disso, o professor Paulo Melgaço nos presenteou com a obra “Mercedes Baptista – A Criação da Identidade Negra na Dança, obra que traz a história e trajetória pulsante da bailarina negra a baile. Obra à qual farei referências a partir de agora.

No Teatro Municipal, a bailarina negra tinha poucas chances de mostrar sua dança. A discriminação naquele mundo artístico, cujo projeto de arte erudita partia de ideais europeus, impedia sua participação significativa nas montagens de espetáculos, isso quando não a afastava totalmente dos palcos. Mesmo a exaltação de ideais nacionalistas, que também contaminavam algumas produções do Teatro Municipal, não contemplavam devidamente a presença do corpo preto na formação brasileira. Nas encenações, não havia espaço para o afro-brasileiro. 

Logo, Mercedes passou a atuar como bailarina, coreógrafa e colaboradora, e pôde mostrar sua experiência e domínio da técnica da dança clássica no Teatro Municipal. Abdias Nascimento percebeu que, no corpo de baile do Municipal, aquela bailarina preta teria poucas chances de mostrar sua arte, então Mercedes no TEN, convivendo com Haroldo Costa, Solano Trindade, Ruth de Souza e outros expoentes artistas pretos daquela época como ela, logo começou a coreografar, integrando-se à militância criativa e à política em busca de uma identidade afro-brasileira.

Mercedes inaugurou uma revolução na arte de dançar no Brasil ao trazer para o palco e para as salas de aula o gestual oriundo das congadas, do maracatu, das danças dos orixás, do samba, ou seja, das manifestações negras brasileiras antes relegadas ao plano do exótico e do folclore.

De acordo com a professora, doutora Marianna Francisca Monteiro, foi Mercedes Baptista que, num certo sentido, encabeçou uma primeira iniciativa de invenção de uma dança moderna brasileira (MONTEIRO, 2010). Embora ainda utilizando uma pedagogia do balé clássico, buscava uma forma de quebrar com essa tradição ao incorporar elementos simbolistas e populares em suas danças.

O que assistimos na avenida Sapucaí em 2022 reinaugura um novo jeito de se coreografar centrado na corporeidade preta do povo brasileiro. O legado da bailarina e coreógrafa Mercedes Baptista está vivo e potente nesses corpos, que com o legado de sua obra se inserem na definição da arte enquanto forma de liberdade revolucionária, contra os conservadorismos e preconceitos vigentes (RIBEIRO, 2022). E faz tencionar a exclusão da dança afro nas instituições educacionais e artísticas, nas escolas de samba, nas escolas e salas de dança, nos cursos de graduação e pós-graduação de dança pelo Brasil. 

Foto: Gabriel Monteiro