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O Afrofuturismo de Zaika dos Santos

Arte, Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodiáspora

Por Naiara Rodrigues, jornalista e assessora de imprensa

O lançamento do filme Pantera Negra e o seu sucesso mundial chamou atenção para o movimento Afrofuturismo que traz uma mistura entre a ancestralidade africana e tecnologias na criação de narrativas com o protagonismo negro. O blockbuster levou ao cinema a história do primeiro super-herói negro e sua mística nação Wakanda, em uma adaptação para as telonas da história em quadrinho da Marvel Comics, criada em 1966 e que, a partir de 2005, passou a ser escrita por autores negros. Dialogando diretamente com o movimento, a sua projeção chamou atenção popularizando e dando visibilidade a artistas que desenvolvem suas obras dentro desse conceito no Brasil e no mundo.

Zaika dos Santos é multiartista e pesquisadora afrofuturista. Ela é cantora, compositora, arte-educadora, artista visual, pesquisadora negra, performer, trançadeira, produtora cultural, formada em audiovisual, rádio e TV e web designer. Pesquisadora do tema, cursa Licenciatura em Artes Plásticas na Escola Guignard (UEMG) e seus trabalhos estão estética, conceitual e tecnicamente ligados ao Afrofuturismo – Arte, Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afroadiáspora.

Nas artes visuais, desenvolve atualmente o projeto Nok é Nagô que engloba diferentes ramificações artísticas. Para cada ação, desenvolve um processo criativo. Na performance, realiza ações com a transversalidade de linguagens das artes visuais dialogando as referências etimológicas, simbólicas, iconográficas, ancestrais e identitárias negras. Na pintura, visibiliza com a pintura corporal em ações de performance e a pintura em tela com referências africanas. Na gravura, aborda a simbologia etimológica e iconográfica Adinkra. Na fotografia, traz mulheres negras no seu cotidiano popular através de registros fotográficos escultóricos, e nas artes digitais mescla todas essas técnicas. Na ciência da computação, trabalha com programação HTML, códigos binários, instalações, mapping e a matemática do nó contextualizando a potência desses conteúdos e sua origem em África.

As Yabás da afrodiáspora é um dos processos que desenvolve há três anos no Nok é Nagô.

“Nele, faço esculturas-coroa e fotografo mulheres negras sem reproduzir o estereótipo de que já estamos cansadas. Busco o que é este lugar de identidade de mulher negra para essas mulheres de forma sincera, intensa. Geralmente eu passo um dia com as meninas, espero elas trabalharem a identidade delas neste lugar, como qual roupa, qual maquiagem querem usar”, afirma Zaika que, em alguns casos, cria as coroas de forma personalizada para a construção das fotografias.

Inicialmente conhecida pela sólida carreira no Hip Hop, a artista afirma que sua atuação sempre foi dedicada à música eletrônica em geral. Ela se prepara para lançar, no início de 2019, o seu disco Akofena em streaming, que já está no forno desde 2015, e traz em seu conceito o Afrofutursimo num lugar de vivência da mulher preta e da interseccionalidade do feminismo negro. Ela já lançou single de duas das dez faixas que fazem parte do álbum, Az nega! e Fluxos, e entre as inéditas estarão samplers, incluindo uma música do João Bosco. O álbum foi gravado em parceria com o consagrado produtor Dubalizer, em São Paulo, e leva a forma de uma música politizada para dançar.

“Fizemos um processo de pesquisa coletivo para trabalhar a sonoridade e a ancestralidade da música africana e afro-brasileira como fonte da música eletrônica”, destaca.

Outra iniciativa desenvolvida por Zaika é o Saltosoundsystem que visa ao empoderamento feminino através da Cultura Soundsystem. A partir dos processos formativos com conteúdos técnicos, teóricos e práticos sobre a cultura e novas tecnologias do projeto, nasceu o primeiro sistema de som que tem o formato de um salto alto com caixas agudas, medias e de subgraves. Ele une quatro selectoras mulheres negras (Samantha Luz, Isabela, Zaika e Nah Araujo) e um selector homem trans negro (Alê) em um coletivo que se formou a partir do processo formativo do projeto e que instala seu sistema de som para amplificar músicas de mulheres negras estrangeiras e brasileiras nas linguagens sonoras dos ritmos de origem jamaicana e em outras como o funk e afro house.

“A Salto é mais um processo formativo. A primeira edição do evento aconteceu no Centro de Referência da Cultura Popular da Lagoa do Nado e a nossa intenção é rodar a cidade com o sistema para amplificar música e empoderar mulheres”, enfatiza.

E não para por aí. Ela ainda tem projetos de desenvolvimento de jogos de tabuleiro, na área das exatas, de produção como hacktivistas, entre outros. A multiplicidade de sua produção reflete na densidade artística de Zaika. Artista inquieta, está sempre em busca de novos conhecimentos com uma visão integrada dos conteúdos, o que fez com que, ao longo de sua história, vivesse momentos em que não era compreendida pelas pessoas ao seu redor. Na adolescência, aprendeu a fazer tranças nagô de forma autodidata, observando a tia Nilma que trabalhava em um dos primeiros salões afros da cidade, o Salão da Betina. Aos 14 anos, já se tornara a principal trançadeira do bairro onde morava.

“Minha mãe falava para abrir o meu próprio salão, mas eu dizia que não queria ser cabeleireira, queria ser cientista”, relembra Zaika, falando que sempre trabalhou com tranças nagôs em outro espaço de discussão para além do lado da estética e da política.

Ela faz com facilidade conexões entre as tranças, as complexas estruturas geométricas matemáticas contidas em fractais e a sua relação com a criação do sistema binário, base de qualquer sistema informatizado que conhecemos hoje.

“Existem discussões sobre o uso das tranças, no período escravocrata do Brasil, como mapas que guardavam caminhos de fuga das senzalas. Já na África, as tranças eram trabalhadas mais dentro de outro contexto, dentre eles o dos fractais. Mas a ciência e os fractais não surgem na Europa? Não. Tivemos muito conhecimento que surgiu na África, mas existe um silenciamento histórico e foi quando eu decidi ir em busca de conhecimentos que me foram negados que os descubri”, afirma.

Seu processo de pesquisa sempre foi no lugar desse resgate histórico e de cruzar áreas, mesmo tendo crescido ouvindo que era necessário focar e escolher uma secção de estudo e também da cultura. Na universidade, pode se aprofundar em novas ramificações da arte e trabalhar com convergências desses conteúdos.

“Sabia que ao entrar na faculdade teria que estudar o conteúdo eurocêntrico, desconstruí-lo e trazer essas questões para o meu lugar de fala”, explica.

Para Zaika, o afrofuturismo vai muito além da criação de narrativas ficcionais – conceito cunhado pelo crítico cultural Mark Dery em seu ensaio Black to the future, em 1994, pois ele está ligado com a arte, a ciência, a tecnologia e a inovação africana, e a reconexão da afrodiáspora a técnicas e conhecimentos desenvolvidos no continente africano que pode ser facilitada com o processo de globalização.

“Para mim, o afrofuturismo não é uma ficção, ele é uma realidade. Esse passado, presente e futuro estão interligados, mas teve uma interrupção histórica que tem nomes: escravidão e colonialismo”, ressalta.

Ela cita como exemplo a seção que traz as tecnologias e inovações africanas no período escravocrata do Brasil existente no Museu Afro Brasil.

“Tanto dentro da África como fora dela, no contexto de afrodiáspora, temos vários cientistas negros que foram referência em diversos conteúdos, mas sofreram um apagamento histórico. Esse afrofuturismo que eu discuto fala, diz da perspectiva de Afrofuturismo da África Negra e o Afrofuturismo da Afro diáspora”, acrescenta.

Zaika ressalta ainda que o Afrofuturismo não tem relação alguma com a vanguarda artística Futurismo.

“Não existe essa conexão, pois esta é uma leitura ocidentalmente equivocada e só é feita porque houve uma apropriação da palavra “futuro” no surgimento da vanguarda eurocêntrica. É obvio que a palavra também não surgiu na África dessa forma, mas como muitas pessoas fazem a leitura do conteúdo pela perspectiva do ensaio Black to the Future, do Mark Dery, esse conflito etimologicamente estético acontece”, pontua.

Para ela, a questão está no uso de uma palavra ocidental, por isso sempre utiliza o termo Arte, Ciência e Tecnologia e Inovação Africana e Afro diáspórica e incentiva a leitura do livro do historiador Carlos Machado dedicado ao tema, por acreditar que é necessário enegrecer nossos conhecimentos.

“É justamente por esse conflito de palavra que eu curso uma matéria que se chama Arte e Vanguarda, e meu orientador na faculdade é especialista neste tema. Também dialogo diretamente com historiadores e curadores africanos e pelos papos potentes descobri que vanguarda sempre existiu em África, ou seja, temos que descobrir o que foi apagado historicamente. Por exemplo, “Wakanda” significa “o que é nosso por direito”, e é um termo que existe na língua Kikongo, falada fluentemente na Áfrika Central e Sul, sobretudo em alguns países da região dos grandes lagos. Ela pertence ao grupo etnolinguístico Kôngo e consequentemente da família linguística Bantu nascida nos moldes da árvore linguística Niger-congo”, destaca a multiartista.

A curadoria de todo esse conteúdo histórico, científico e artístico que Zaika se dedica a pesquisar dará origem ao novo projeto, o CAB – Circuito Afrofuturista Brasileiro. Ele tem como objetivo criar uma plataforma digital em que vai disponibilizar essas informações divididas a partir de assuntos específicos, reunindo o que tem sido produzido e pensado sobre o tema no país.

“Também estou escrevendo dois artigos, um sobre a historicidade do Afrofuturismo, em que eu começo falando lá do período Paleolítico para depois passar pelo raciocínio dele dentro do período da escravidão, do pós-abolicionista, e o outro é sobre o pós-humano”, conclui.

A ideia da multiartista é transformar os artigo em um livro e o que não lhe falta é conhecimento.

Djamila Ribeiro, o que é lugar de fala

Por Rosália Diogo, jornalista, professora, pesquisadora, gestora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado.

Djamila Taís Ribeiro dos Santos é feminista, pesquisadora, acadêmica, mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – com ênfase em teoria feminista. Nasceu na cidade de Santos/SãoPaulo.

Suas principais atuações são nos seguintes temas: relações raciais e de gênero e feminismo. É colunista online da Carta Capital, Blogueiras Negras e Revista Azmina. Em maio de 2016, foi nomeada secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo durante a gestão do prefeito Fernando Haddad.

Escreveu o prefácio do livro Mulheres, raça e classe da filósofa negra e feminista Angela Davis, obra inédita no Brasil e que foi traduzida e lançada em setembro de 2015.

Iniciou o contato com a militância ainda na infância. Uma das grandes influências foi o pai, estivador, militante e comunista, um homem que mesmo com pouco estudo formal, era culto. A escolha do seu nome, que em swahili, língua falada no leste da África, significa “beleza”, foi feita por seu pai. Djamila tomou consciência, logo na infância, dos significados de ser mulher e negra no Brasil.

Foto: Christian Braga

Ela comenta o fenômeno do feminicídio ter aumentado entre as mulheres negras (54,2% entre 2003 e 2013), ao passo que diminuiu entre as brancas (queda de 9,8% no mesmo período: “Falta um olhar étnico racial na hora de pensar uma política de combate à violência contra a mulher. As mulheres que combinam opressões ficam em um lugar mais vulnerável. Se a gente não traz os dados sobre isso, não cria políticas públicas para elas”.

Como neste caso, que ela se refere a bell hooks (nascida Gloria Watkins e que adotou o nome de sua bisavó e pede que o usem assim em minúsculo), o empoderamento diz respeito a mudanças sociais numa perspectiva antirracista, antielitista e antissexista por meio das mudanças das instituições sociais e consciência individuais.

A sua fala é objetiva, lúcida e transparente. E, por isso, tem realizado palestras e aulas para explicar por que discorda da ideia de que há meritocracia no sistema educacional brasileiro e defende as cotas nas universidades. “Uma pessoa branca que sempre estudou em escolas boas, comeu bem e tem acesso a idiomas não passa num vestibular como o da USP porque ela é especial, mas porque teve condições para isso. Insistir num discurso meritocrático é escamotear o racismo e o privilégio do grupo branco. Não é uma questão de capacidade, mas de acesso às oportunidades”, comenta.

Em 2017, Djamila participou de um encontro no London School of Economics, no Reino Unido, e argumentou, se referindo ao juiz Sergio Moro, que a decisão de interromper as atividades do Instituto Lula foi feita com uma “canetada”, e complementou: “Juiz não deveria ter lado, juiz não deveria ter partido”, enfatizou ao comentar a torcida em torno da figura de Moro no debate.

Em março deste ano, a filósofa esteve em Belo Horizonte para o lançamento do livro O que é lugar de fala?. Aproveitamos a oportunidade para entabular um gostoso bate-papo com ela.

Djamila nos falou um pouco sobre a sua motivação para ingressar no ativismo político contra o racismo e machismo: “Eu sou filha de militante do movimento negro e desde cedo essas discussões estiveram presentes na minha vida. Mas só fui me perceber como feminista negra quando comecei a trabalhar numa organização de Santos, litoral de SP, chamada Casa de Cultura da Mulher Negra. Foi revolucionário para mim ver mulheres negras pautando nossas questões, escrevendo, produzindo, fazendo projetos. A partir daí só se intensificou”.

Ela conta que teve os primeiros contatos com o movimento negro ainda na infância passada em Santos, cidade do litoral paulista, graças à influência do pai, um estivador, militante e comunista. “Desde muito cedo, eu e meus dois irmãos vivemos nesse meio. Com seis anos, já íamos para atos. A gente debatia esses temas em casa, e meu pai nos fazia estudar a história do nosso povo”, disse.

Indagada sobre por que escolheu a filosofia, e como ela pode nos auxiliar nas reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero no Brasil, ela nos disse que a filosofia no Brasil ainda é uma área muito branca e masculina, portanto é fundamental que nós, negras e negros, possamos participar das oportunidades de reflexões sobre as desigualdades presentes na sociedade na perspectiva filosófica. Para ela, trata-se de mais um canal para que possamos dar visibilidade às denúncias que constantemente o povo negro faz em relação às diversas opressões experimentadas.

Sobre os oito meses que esteve como secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania na cidade de São Paulo, a ativista afirma que a experiência foi muito importante pelo fato de estar na posição de executora de políticas públicas. Ela disse que o fato de ter feito a gestão em um governo de esquerda, historicamente comprometido com as pautas da inclusão, foi crucial para a inserção de algumas políticas de igualdade racial na cidade. Djamila acentua que, sendo esses espaços pouco ocupados por mulheres negras, ela aproveitou a oportunidade para tentar fazer o melhor que foi possível para reverberar a sinalização de que políticas públicas de combate ao racismo e ao machismo podem ser feitas no país.

No período em que esteve à frente da secretaria adjunta, aconteceu a implantação de programas como o Juventude Viva que concedeu bolsas para 101 jovens se dedicarem aos estudos, a formação em direitos humanos para 40 mil professores da rede municipal e o atendimento psicossocial para mães que perderam filhos vítimas da violência policial.

No que se refere à urgência e recorrente pauta – a solidão da mulher negra –, a filósofa disse que é um tema de extrema importância a ser discutido entre nós. Ela defende o argumento de que essa solidão ultrapassa a dimensão das relações afetivas e se espraia para as esferas econômica, institucional, do mundo do trabalho e das inter-relações como um todo.

Ao comentar sobre o conteúdo do livro que a trouxe a Belo Horizonte, O que é lugar de fala?, Djamila disse que ainda falta um longo caminho para que a fala da mulher negra alcance visibilidade. Para ela, existe uma luta constantemente travada com o mercado editorial que se nega a publicar textos de mulheres negras.

Essa negação do reconhecimento do potencial de escrita dos negros realça a contundência do racismo e os meandros das relações patriarcais no país. Ribeiro comenta que ela e outras mulheres negras têm feito a publicação dos seus trabalhos na raça e coragem.

No que refere-se à relação estabelecida com outras mulheres negras, feministas, que lhe serviram e servem de inspiração, a escritora diz que a luta dessas mulheres é que orienta os seus passos. São muitas mulheres nesse campo do enfrentamento étnico-racial e de gênero: Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Grada Kilomba, Zora Neale Hurston, Angela Davis, Maya Angelou, Luíza Bairros, Patrícia Hill Collins entre outras.

Ribeiro diz que sua existência é sinal de resistência a partir da inspiração das ações empreendidas por essas mulheres no passado. Djamila diz que é fundamental que a juventude negra saiba que foram essas mulheres que solidificaram o caminho que pisamos hoje em prol de relações mais igualitárias do ponto de vista de gênero e raça. A filósofa cita a médica, ativista e pesquisadora Jurema Werneck, que um dia escreveu “Os nossos passos vêm de longe” para reafirmar que ela vem seguindo as pegadas dessas mulheres para avançar em busca de um cenário mais favorável para negras e negros na disputa por lugar confortável de fala no Brasil.

No mês de junho, Djamila retornou a Belo Horizonte para um novo diálogo com o público e para o lançamento do livro Quem tem medo do feminismo negro, que reúne um longo ensaio autobiográfico inédito e uma seleção de artigos publicados por Djamila Ribeiro no blog da revista CartaCapital entre 2014 e 2017.