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A arte e a diáspora de Jorge dos Anjos

Por Well Mendes – Jornalista

Na Saramenha de 1957, em Ouro Preto, bem ao lado da fábrica de alumínio, nascia Jorge dos Anjos, o artista que alia suas raízes à linguagem que constrói ao longo de obras versáteis e expressivas. Desde pequeno, cresceu na vila operária. O pai, que era funcionário na fábrica, sempre percebeu a potência dele para a arte.

Mas não foi só a figura paterna que notou e incentivou o talento do artista nos primeiros anos. Já no ensino fundamental, a veia artística pulsante e o talento inegável chamavam a atenção na escola. Ainda menino, à beira dos sete anos, já sabia que seria pintor. Sem perder tempo, aos oito, começou a ter aulas particulares de pintura no centro de Ouro Preto.

Aos treze, decidiu mudar sua rotina em função do sonho: passou a estudar o ensino regular à noite para se dedicar à arte e estudar na Escola de  Arte  Rodrigo  Melo  Franco  de Andrade, criada por Annamélia e Nello Nunes que, em 1969, foi integrada à recém-criada Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP). Lá, estudou até os dezoito anos e, depois de formado, lecionou arte por 15 anos.

Uma característica marcante de Jorge dos Anjos é a versatilidade de suas obras. Começou com desenho quando era criança, mas logo percebeu sua paixão pela pintura à qual se dedicou. Mesmo utilizando a pintura como linguagem, continuou utilizando outras formas de expressão. Sempre desenhou bastante e frequentou cursos de desenho, fez xilogravuras e gravuras em metais. Sua curiosidade o levou a fazer modelagem e um pouco de escultura, além de um curso de restauração de obras. Porém, naquele período, sua linguagem principal era a pintura.

Durante o tempo de estudo e docência na escola de arte,  conheceu algumas das referências que leva para a vida e que foram importantes para a construção de sua linguagem artística:Jair Afonso Inácio que, embora não tenha ganho reconhecimento como pintor, era um grande restaurador e pintor. Outro artista fundamental em sua trajetória foi Nello Nuno com quem aprendeu que podia ir além com o pincel. “Aprendi com o Nello que eu podia, além de retratar e observar a paisagem, contar histórias e fazer poesias através da pintura, o que abriu meu horizonte”, conta.

Outra referência é Ana Amélia, sua primeira professora de desenho. Foi marcante por ter lhe concedido uma orientação fundada nos valores da linguagem e das reflexões que são feitas a partir da observação. Além dela, Amílcar de Castro também foi fundamental para Jorge, principalmente pelo trabalho que ele desenvolve hoje, de escultura e composição.

Vinda para a capital

Jorge mudou-se para Belo Horizonte em 1998, já com três filhos. Tinha se separado e estava difícil viver em Ouro Preto.  Lá, já trabalhava com escultura, porém não via espaço para seu trabalho naquela cidade histórica. A busca por um espaço para realizar seu trabalho da forma como gostaria de realizar foi um dos motivos que o levou a vir para a capital mineira. “Eu precisava de uma metrópole, de uma relação com a arquitetura, com a cidade”, conta.

Embora tenha começado com o desenho, a relação que construiu com a escultura foi um processo natural. “Foi a partir do desenho, porque o desenho é uma maneira de pensar. O desenho que me levou à escultura. E a escultura é a linguagem que eu vim desenvolvendo de lá para cá”.

Quando questionado sobre o motivo que o levou a construir esculturas com o aço,  explica que o aço lhe permite fazer monumentos maiores, que ocupam uma porção maior do espaço público. “Acho que é minha vocação na escultura. E acho que tem uma relação com o Amílcar de Castro, que também é uma das minhas referências”. Entretanto, não é só com o aço que Jorge trabalha. Também usa outros materiais como a madeira e a pedra sabão. Muitas coisas que ele produz são misturas de pedra sabão com aço.

Segundo ele, as peças são feitas de forma livre. Durante o processo – e dependendo da demanda –, não se prende ao lugar para onde as peças vão antes de fazê-las ou se alguém vai comprá-las. Ele as cria livremente, prezando por sua liberdade artística na criação. Quando a demanda é específica para espaços públicos, com as áreas definidas, o artista trabalha com peças que ocupam o espaço em uma escala maior.

A ancestralidade nas obras

A trajetória de aprendizado e de incorporação com a cultura negra é pulsante no trabalho de Jorge dos Anjos, e as raízes africanas em suas obras decorrem de seu processo de aprendizagem na arte. Desde o começo, aprendeu com Nelo Nuno que podia contar histórias com a pintura, e criar narrativas próprias e únicas com seus trabalhos. Isso o motivou a ter obras mais representativas e a questionar suas pinturas. “Por que não poderia ser uma pessoa negra na pintura?”, questionava. Enquanto, para ele, essa incorporação foi um processo, para Amílcar de Castro a ancestralidade negra já estava presente na linguagem das obras de Jorge.

Desde os 14 anos, sempre busca essa incorporação da cultura negra nas obras como escolha. Foi algo que sentiu vontade de resgatar. Com o tempo e a maturidade, conseguiu chegar próximo daquilo que buscava em suas primeiras obras representativas. E não parou: até hoje continua buscando a ancestralidade, se aprofundando e criando a partir de referências culturais negras.

Durante sua trajetória, Jorge teve contato com a obra de Rubem Valentim e viu que o artista também trazia referências africanas assim como as que ele buscava, despertando familiaridade com o artista.“Eu também fui buscar nas fontes da cultura africana. Eu fui ao Candomblé ver referências, fui ao samba, tudo era referência”, pontua.

Desde pequeno, sempre teve apoio dos familiares para sua arte. Quando começou a pintar, ainda na escola em Ouro Preto, utilizava a estrutura que a instituição disponibilizava, por isso não precisou financiar materiais próprios naquela época, o que foi importante para sua carreira artística.

Quando começou a trabalhar com esculturas, queria fazer peças em aço, mas não tinha como custear todo o material, que é mais caro. A partir daí,  começou a aliar sua visão empreendedora com o anseio de produzir obras maiores, em outros materiais. Começou a utilizar o dinheiro que recebia com a pintura e com outros trabalhos, como aquarelas, para pagar as contas e os materiais que precisava. “O resultado de uma venda era para fazer mais obras”, explica.

Inspirações para o formato

O formato das esculturas de aço de Jorge dos Anjos é baseado nas raízes da herança africana, mas também tem raízes no construtivismo e na organização do espaço, algo influenciado pelo trabalho de Amílcar de Castro. Jorge afirma que o impulso também está em seu âmago. “Vem muita da africanidade, que não é do pensamento, mas de uma coisa que vem do umbigo, das entranhas e da memória, e é outro valor que eu coloco dentro da construção”, explica. Para ele, a inspiração vem da vida, das relações afetivas, das paisagens, do local de trabalho, do convívio com as pessoas, da cultura e da vida.

Jorge não tem ideia do número de peças que produz porque não contabiliza. Também não possui nenhuma peça preferida, embora o Portal da Memória seja uma escultura importante para ele, para a comunidade e para a religiosidade.  “Quando o outro se vê na minha obra, pra mim é importante”, festeja.

Para artistas que estão começando agora, Jorge tem uma dica importante sobre como se encontrar artisticamente. “Eu acho que tem que buscar ver as coisas que estão sendo feitas, o autoconhecimento, os elementos dentro do seu próprio universo. Não há uma receita. Tem que buscar a motivação dentro da sua vivência, da sua cultura e até do lugar em que você vive. E isso é a vida inteira. Não só pra quem tá começando, mas pra quem já tá no meio também”, sugere o artista.

Antônio Pitanga:”Gosto de trabalhar com os contragolpes”

Por Moises Mota – Repórter especial para a Revista Canjerê

Há quem diga que ser ator é algo similar a um sacerdócio. Há outros que pensam ser o ator um Deus. Tem outros que pensam ser a melhor profissão do mundo. Mas quem, na verdade, se atenta para o verdadeiro valor artístico do ator? O artista Antônio Pitanga narrou suas memórias em seu documentário e mostrou ao público a atualidade de sua biografia e luta política, mesmo com suas histórias narradas a partir da década de 50.

Antônio Pitanga esteve em Ouro Preto – na terra de Chico Rei – para apresentar o documentário “Pitanga”, lançado em 2016, dirigido por sua filha Camila e Beto Brant.

PS: Essa entrevista foi realizada em 2017, durante a Mostra de Cinema de Ouro Preto. Na época, Antônio Pitanga foi capa da 7ª edição da Revista Canjerê que era disponibilizada apenas impressa e em PDF. Agora que temos o nosso portal, resolvemos republicar a entrevista por se tratar de um importante material para estudos.

Durante o encontro, o ator predileto de Glauber Rocha no Cinema Novo falou sobre o movimento negro, as artes, o mercado audiovisual e um dilema muito presente: ser ou não ser uma referência para os mais jovens atores negros no que tange à negritude em cena.

Aproveitou a oportunidade para clamar a todos por uma unidade na luta e no pensar o negro na sociedade, unir as forças para formar uma luta diária, contínua, que é fundamental para se alcançar a necessária igualdade entre as raças.

Durante o encontro, Pitanga trilhou muitos caminhos e abriu muitas portas. Incomodou. Fez propostas e ministrou roteiros. Tudo em um pequeno espaço temporal, mas infinitamente grande em carga emotiva.

Questões brotaram desenfreadamente após o encontro e uma delas serve como chave para essa discussão: quem o ator pensar ser e quem é para aqueles que o olham e o observam em cena? Em seu trajeto biográfico, marcas ficaram em si e nos outros, aqueles que transitaram entre mundos. Toda essa trilha vai além quando se trata de um ser militante em relação ao seu pertencimento racial que motiva a busca incessante e incansável pelo empoderamento, luta de classes e combate ao racismo.

Pitanga é aquele que luta quando levanta e, mesmo deitado em sono profundo ou efêmero, expõe para outros a sua luta, a sua busca e a sua história. O soteropolitano, pai de Camila e Rocco, tem dessas coisas e é uma viagem à nossa história-recente, ao longe-perto e um puxão de orelha naqueles que não sabem ainda como fazer ou como começar a sua luta, já que viver é necessário e lutar mais ainda.

A entrevista iniciou-se com o ator relembrando uma frase de sua autoria em que ele disse ser: “uma fruta que dá em tudo que é canto; às vezes é azeda, às vezes é doce, mas sempre boa de chupar”. Indagado sobre essa frase e, após um largo sorriso, esclareceu que não pretende agradar a todos, pois tem suas posições políticas, raciais, culturais e de vida muito peculiar. Por isso ainda crava a seguinte sentença. “Não estou aqui para agradar e fazer concessões que não estejam de acordo com meus posicionamentos”, e acrescenta: “Não estou aqui para bater palma para o maluco dançar. Aí eu sou azedo, sou bom de briga.

OURO PRETO/MG 24.06.2017 – CINEOP – MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO – Antonio Pitanga. Foto: Leo Lara/Universo Producao

Quando não se rompe com os princípios de hombridade, honestidade: sou doce”. A vida o ensinou a ser capoeirista mental, a entender que não é dono da verdade nem senhor dos golpes. “Gosto de trabalhar com os contragolpes”, explica. E ser bom de briga é ação fundamental para estar em sociedade, para estar em luta. Esses dilemas são muito presentes em sua história, uma vez que frisa sempre ser “um negro em movimento”.

Sobre referenciais em sua vida, o ator aponta muitas pessoas como Luiz Gama, Milton Santos, Lima Barreto, Luiza Mahin (sua mãe), Maria da Natividade, Juliano Moreira, Machado de Assis, Nina Rodrigues, Eduardo Ribeiro, Castro Alves, Glauber Rocha, Abdias Nascimento, Léa Garcia, Ruth de Souza e o Teatro Experimental do Negro. “São referências para se seguir ou não; eu prefiro seguir”, destaca.

Ele se angustia em relação ao fato de muitas dessas pessoas terem caído no esquecimento, pois, em sua ótica, isso prejudica o estudo sobre a identidade negra nos dias de hoje, bem como a formação da raça negra, do cidadão brasileiro. “Estou falando de uma coisa real; quando eu falo de Lima Barreto, estou falando de literatura”, acentua. As referências são presentes na vida de Pitanga, que chama todos à importância de se conhecer e seguir essas grandes figuras da cultura negra nacional.

Sobre o documentário que leva seu nome, informa que é a mostra de um Pitanga que estava guardado a sete chaves em um baú e que é revelado como um cidadão contando a história própria, a de seu povo, a de uma raça e a de um país.“Se referência é isso, eu sou referência”, sentencia. Aceitar seu papel de referência talvez não seja algo muito fácil, pois junto com esse cargo vêm inúmeras necessidades que estão intrinsecamente ligadas.

A responsabilidade que acompanha o “ser referência” é fardo pesado. Eu sigo porque é bom. Sendo bom, eu usufruo e posso compartilhar. Uma vez reconhecido como tal, é fato incontestável sua importância para uma multidão, incontável. E é incontrolável essa reverberação do ser em cena, do mise-en-scène na vida real”, explica.

O pensamento do ator é fiel às suas convicções e se embrenha pela ideia de que a história do negro no Brasil ainda não foi devidamente contada, fato que considera ruim porque a participação negra no país é muito forte.

Cita como exemplo o caso de Ouro Preto, cidade onde foi entrevistado, e comenta: “Ouro Preto, como as Minas Gerais, têm muito a contar. A participação negra nestas Minas Gerais foi bastante forte. É preciso que a negritude mineira, principalmente a de Ouro Preto, escancare os portões, essas cortinas, e conte a sua história. Eu posso falar da história baiana porque eu a acompanhei bem, nasci na Bahia. Nós temos muito a contribuir com a história nacional. Principalmente a que está fora desse eixo Rio–São Paulo, como Ouro Preto, Sabará, Tiradentes”, fala e em seguida acrescenta que em Florianópolis existe o marketing branco, mas a população daquela cidade soma mais de 45% da raça negra.

A respeito do mercado audiovisual em relação aos atores negros é enfático: “O mercado somos nós. Eu sou uma pessoa que sempre entendi que não preciso do branco. Dependo de mim, da minha capacidade. No momento em que eu espero que o branco me dê emprego e que diga que sou um bom ator, eu estou errado. Eu tenho que acreditar e estudar para isso, ser reconhecido pelo negro”.

Se mostra satisfeito com o trabalho da repórter negra, Maria Júlia Coutinho, na Globo e, também, com o de Lázaro Ramos, que são ícones do reconhecimento do talento e da força da figura negra no cenário midiático. “Mas não estão lá como indivíduos, e sim como família, como um coletivo, uma representação de nossa raça”, assegura.

Sua visão leva a crer na necessidade de mais ações que tragam visibilidade aos profissionais da raça negra e que essas ações passem especialmente pelos negros. Trata-se de um complexo dinamismo a ser conquistado com raça e consciência de classe. “Nossa liberdade ainda não foi inteiramente conquistada, então por que pensar que foi dada? Está livre! Livre como? Com uma mão atrás e outra na frente? Então a gente ainda tem essa paga de séculos. Eu, melhor do que ninguém, sei. Tive uma criação muito pobre, mas essa consciência nós tivemos. O que me cabe neste latifúndio? Você quer ficar ali mesmo? Empregado serviçal? Não, não quero. Basta minha mãe que ocupou essas funções para me criar”, finaliza, deixando evidente que todo instante é momento para ações em prol da conquista do devido espaço do povo negro, no Brasil e no mundo.

Uma história negra de sucesso literário


Por Etiene Martins – Jornalista, publicitária, book tuber, livreira, idealizadora do jornal Afronta

Maria Mazarelo Rodrigues há mais de três décadas vem colorindo os contos de fadas, colocando aquele toque bem elevado de melanina nas peles das princesas, príncipes e super-heróis. Filha de uma lavadeira e de um carpinteiro, Maza (apelido pelo qual é conhecida) mudou-se para Belo Horizonte aos 13 anos de idade logo após o falecimento do pai.

Chegou à cidade já empregada como secretária de um médico, mas esse foi só o começo da vida profissional de uma menina negra que aprendeu a ler aos quatro anos de idade. O inicio da trajetória profissional de uma mulher negra, mesmo que extremamente competente, não é nada fácil.

Não muito tempo depois de conseguir o seu primeiro emprego na capital mineira, Maza não se deu por satisfeita, saiu do emprego, pois o salário era muito baixo, se inscreveu no processo seletivo do curso noturno do Instituto Municipal de Administração de Ciências Contábeis (IMACO). “O principal motivo era o fato de o IMACO ser uma escola gratuita. Assim eu poderia estudar à noite e trabalhar durante o dia. Fui aprovada e fui parar em uma classe em que eu era a única negra“.

Mesmo diante da formação, as portas não se abriam e Maza não tinha a compreensão dos colegas de classe. Foi nesse exato momento da vida que a ponte-novense teve seu primeiro contato com o racismo institucional. “O pessoal gostava de me chamar de Mariazinha: Mariazinha, você é uma menina triste, o que acontece? Ninguém entendia que o motivo de eu não conseguir emprego era porque eu sou negra. Por isso, tentaram me ajudar – tinham bons empregos – mas toda vez que eu voltava, dizia o mesmo: fui recusada na entrevista. E eles mesmos acabaram percebendo que a questão era a aparência.”

Corporeidade negra é um assunto que se reflete e se discuti com muita intensidade atualmente, mas já se fazia presente na vida de Maza e isso era um grande empecilho de ingresso no mercado de trabalho. “Essa questão de aparência era muito séria. Desde pequena, eu alisava o cabelo. Aliás, quando pequenos nós não queríamos ser negros. Mas por que não querer ser negro? Por que negro é maltratado, fica para trás, segue um estereótipo e o cabelo é a questão da mulher. Cabelo de negra é o grande X da questão. Chamam-nos de cabelo duro. “É a nega de cabelo duro !” Por isso alisávamos o cabelo com pente quente, saia um cheiro forte de queimado. Passávamos a vaselina, o cabelo fritava. Moral da história: aquilo queimava o couro cabeludo! Ainda passávamos uma pasta a base de soda que sempre deixava uma ferida na cabeça. O ideal era ter o cabelo liso para melhorar a aparência, conseguir chegar e reivindicar um emprego, mas nada disso funcionava.”

Maza não se deu ao luxo de desistir, persistiu e com a ajuda de uma colega de sala conseguiu um emprego “No último ano do IMACO, eu fiz amizade com uma colega de sala que conseguiu para mim um emprego de auxiliar de escritório de uma mobiliadora no bairro Floresta. As vendas na empresa eram feitas a prestação. Tinham dois cartões, um que ficava com o cliente, e o outro no escritório. Então a pessoa pagava a prestação e nós rubricávamos. A contadora Marilsa era a responsável pelo caixa e quando o dinheiro sobrava o proprietário, que era o Sr Isaac, colocava-o no bolso. Mas quanto faltava dinheiro acontecia algo errado, era a Marilsa que tinha que repor a quantia. Um dia chegou uma cliente na loja dizendo que havia pago a prestação, mas quando o Sr Isaac foi conferir, não constava o pagamento no cartão da loja. Marilsa perguntou a ela a quem ela tinha entregado o dinheiro e a cliente se virou para mim. Era verdade. Eu havia esquecido de rubricar o bendito cartão. Conferimos a data e havia sobrado exatamente a quantia que ela tinha indicado. Evidentemente ele havia pegado o dinheiro e colocado no bolso. Ele começou a gritar: “Ladra! Ladra! Pode botar para fora”, relata Maza.

Desempregada, Maza continuava tendo amigos que sempre fizeram a diferença em sua trajetória, foi quando “O Avelar quis me ajudar a arrumar um emprego de qualquer maneira. Conversou com os responsáveis diretos de uma gráfica e conseguiu que eu fizesse um teste de datilografia. Fiquei muito entusiasmada por que pagavam um salário mínimo. A nossa meta era ganhar um salário mínimo. Os meus irmãos ganhavam, compraram lote e conseguiram construir um barracão para morar depois de casados. Fui fazer o teste e quando cheguei, olhei para a máquina de escrever e perguntei: Mas que máquina é essa? O entrevistador olhou para mim e ficou com dó. Era uma IBM executive elétrica. “ Eu nunca tinha trabalhado em uma máquina elétrica, até tentei fazer o teste, mas eu não sabia nem ligar a máquina e desabei a chorar. Chorei muito”.

Sem êxito na entrevista para trabalhar com datilografia, foi ofertada à Maza um emprego na equipe de limpeza como faxineira, mas apenas uma coisa importava para ela, o salário. “É claro que aceitei ! Seria para fazer faxina, limpar chão, o banheiro, mas eu aceitei. Não tinha problema eu já estava acostumada a fazer faxina em casa.”

“O tempo foi passando e no segundo, terceiro meses eu acompanhava aquele processo dinâmico e interessante de gráfica. Ficava maravilhada com a questão da composição. O material vinha escrito à mão. Primeiro, passava pela composição na máquina. Depois por uma câmera escura, o fotolito. E assim se fazia o livro. No terceiro mês, quando estava entendendo o processo de fazer livro, Henrique um dos funcionários, me perguntou se não gostaria de aprender a compor. Era tudo que eu queria. Eu levava a minha marmita e na hora do intervalo eu aprendia. Aprendi um pouco sobre tudo”, declara Maza, que logo saiu da faxina e foi convidada a trabalhar no setor de acabamento e, em sequência, no setor de composição. Daí em diante, Maria Mazarelo Rodrigues não parou mais.

Graduada em jornalismo na segunda turma do curso da UFMG, Maza, em 1979,ingressou no mestrado na Universidade de Paris e cursou editoração completa. Foi durante o mestrado que a mineira de Ponte Nova “descobriu” que o negro poderia ser muito mais na literatura que o mercado editorial brasileiro permitia. “Naquela época, já estava pipocando a questão dos movimentos negros, e tudo que acontecia aqui no Brasil repercutia lá. Eu fui acompanhando aquela discussão. Havia reuniões na universidade sobre negritude. Os grupos faziam diversas reivindicações, entre elas a questão relacionada com a publicação de livros de autores negros. Era uma novidade para mim e fui ficando antenada para os autores negros que eram publicados na Europa. Eram poetas africanos, ilustradores… Nas Ilustrações de livros infantis, as figuras não eram iguais a que gravei na minha cabeça durante a infância, que mostrava um negro feio, estereotipado. Por causa dessas ilustrações, eu não queria ser negra.”

Maza concluiu o mestrado e colocou sua primeira publicação em circulação.“Cheguei a fazer quatro edições de três mil exemplares desse primeiro livro. Nesse projeto, vendia os livros a preço de custo, ou até abaixo do preço de custo para oferecer às escolas que tinham professoras negras dentro dos movimentos. Até por que não quer dizer que toda escola que tinha uma professora negra, que se assumia como tal. Então essas poucas professoras negras como Patrícia Santana, Benilda Regina, Consuelo Dores Silva, Rosa Margarida de Carvalho Rocha , eram as que conseguiam que esse material fosse adquirido pelas escolas onde lecionavam”.

As portas da editora já estavam abertas, mas para continuarem a persistência da proprietária foi essencial “Abri a editora em 1981, quando eu voltei da Europa, e só depois de 23 anos de luta inclemente, de falta de dinheiro e de muita dificuldade que conseguimos reerguer. Nesse tempo, eu dei assessoria, trabalhei em programa de governo, dei aula na PUC, na Newton Paiva, na FAFICH. Então, eu dava aula para me sustentar, tinha que morar, tinha que comer. Roupa, então, não comprava de jeito nenhum. Era uma dificuldade danada”.

Questionada de como e quando foi o primeiro grande trabalho, Maza fala com entusiasmo de como conheceu um dos que é hoje um dos melhores escritores brasileiros “O primeiro grande trabalho editorial, de fato, foi uma coleção, “Minas e mineiros”, e digo que chegou às minhas mãos pela misericórdia divina. De Juiz de Fora, veio uma professora, pesquisadora e doutora, Núbia Pereira Magalhães Gomes, e o estagiário e aluno dela chamado Edimilson de Almeida Pereira. Não sei como esse pessoal me encontrou, mas eles foram até a mim pela temática do livro que fizeram, intitulado Assim se benze em Minas Gerais. A partir daí, oportunidades foram surgindo, a militância me ajudou e todos reconheciam o que eu fazia, sobretudo os autores de maior reconhecimento como Cuti, Nilma Lino Gomes e o Edimilson”.

Literatura e Música estão no DNA do Cabo–Verdiano

Por Rosália Diogo, professora, pesquisadora, curadora do Casarão das Artes, gestora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado

 

Vera Duarte Valentina Benrós de Melo Duarte Lobo de Pina (Vera Duarte) é cabo-verdiana. Escritora, juíza desembargadora, exerceu até março de 2010 as funções de Ministra da Educação e Ensino Superior e foi presidenta da Comissão Nacional para os Direitos Humanos e Cidadania, conselheira do Presidente da República e juíza conselheira do Supremo Tribunal de Justiça, entre outras funções.

A sua primeira obra como escritora foi a publicação Amanhã Amadrugada(1993),  em seguida publicou O Arquipélago da Paixão (2001), A Candidata(2004), Preces e Suplícas  ou os Cânticos da Desesperança (2005), Construindo a Utopia, além de temas e conferência sobre direitos humanos(2007).

Em novembro de 2017, ela voltou a Belo Horizonte para participar da Festa  InternacionalAfroliterária – FLIAFRO, inciativa da Nandyala Editora Livraria e Instituto.  De maneira muito carinhosa e gentil, Vera recebeu a equipe do Casarão das Artes.

Ao falar sobre a atual conjuntura econômica e política de Cabo Verde, elanos revela que a ilha de Cabo-Verde é pequena, localizada na Costa Ocidental Africana, no Oceano Atlântico, próxima de Senegal e de Guiné-Bissau.  Segundo Vera, quando os portugueses chegaram naquele território, em 1460, a ilha era desabitada, e rapidamente, entre 1960 e 1962, as ilhas foram povoadas.

Panorama Político e econômico

Vera Duarte, nesta passagem por Belo Horizonte, nos posiciona historicamente, que Cabo Verde funcionou como entreposto entre as américas e a África, lugar de onde escoavam animais, mercadorias e homens e mulheres que eram transportados na condição de escravizados.

Segundo ela, o seu país tornou-se uma sociedade que se formou de fora para dentro – negros e negras que vieram de outras partes da África trazidos de fora, alguns europeus.  Ela informa que a maior parte das esposas dos homens portugueses não foram com eles para a ocupação da ilha.

Assim, esses homens se relacionavam sexualmente com as negras que lá estavam, o que justifica a formação étnica mestiça no fenótipo, na gastronomia, na religiosidade, sobretudo, na questão do sincretismo.

Ela nos informa que a sociedade escravocrata que ali se formou foi amplamente constituída de escravizados trazidos de outras regiões do continente africano.

Segundo Vera, a independência de Cabo Verde foi efetiva, desde 1975. Para essa conquista, a experiência dos guerrilheiros de seu país, que estavam no front de guerra pró independência do Guiné Bissau, ocorrida em 1974 foi fundamental.

Ela conta que o movimento de 25 de abril de 1974 devolveu a democracia a Portugal e que também foi uma importante contribuição para o processo libertário do seu país.  E, desde então, tudo vai muito bem, obrigada, pois a nação de Cabo Verde é “assinalada por estatísticas mundiais como o segundo país mais bem governado na África, bem como um modelo de prática da liberdade de imprensa, um dos países mais livres do mundo, diz ela.

Um relato muito importante que Vera Duarte faz sobre a história do seu país, por volta de 1947-1948, informa que a população estava passando fome. E, para atenuar a situação, muitas pessoas foram trabalhar nas plantações em São Tomé e Príncipe, país/ilha vizinha, praticamente na condição de escravização. No entanto, a partir da independência, a situação econômica tem se mantido estabilizada no país.

Do ponto de vista do comando partidário, ela diz que o partido revolucionário que conquistou a independência do país, e se manteve na condução da nação durante quinze anos, se submeteu ao sufrágio universal.

Explica que, de maneira democrática, tem ocorrido alternância para a gestão política do país, o que é uma vantagem muito boa em comparação ao que ocorre politicamente em outras antigas colônias.

O nível de educação atingiu o acesso universal, e essa condição foi atingida até mesmo antes da data limite, tendo como referência os objetivos do milênio.

Cabo Verde é um país,de certa forma, pobre economicamente, segundo ela, pois não tem recurso mineral, por exemplo. No entanto, o povo é trabalhador e enfrenta o trabalho no campo com muita boa vontade, embora a chuva não é farta.

No entanto, muitos cabo-verdianos migram para outros países e conseguem enviar remessas para os seus familiares, contribuindo, assim, para a qualidade de vida deles. Outra forma encontrada pelo país para angariar recurso é o turismo.

Segundo Vera, “estamos a buscar o caminho do desenvolvimento econômico mais amplo, ainda que a Organização das Nações Unidas  considere que Cabo Verde é um país em desenvolvimento”.

 

Literatura

Vera Duarte é presidenta da Academia Cabo-Verdiana de Letrase  se mostra bastante feliz quando esse tema lhe é apresentado. Ela diz que a literatura e a música estão no DNA do cabo-verdiano. Para ela, desde o momento que se iniciou o povoamento, houve escrita no país, com a escrita administrativa, relato dos processos de escravização.

No entanto, foi a partir do século dezenove, 1842, com o advento da instalação da Imprensa Nacional, e das Escolas Maternais, que surgiram o fenômeno da literatura criativa. Para ela, a literatura é o meio mais potente de se tratar a realidade.

O primeiro romance que trata de temática alusiva ao país de que se tem registro é de 1856, de José Evaristo de Almeida – O Escravo. A obra descreve, com minúcias, o que foi a situação de escravatura, sobretudo na Ilha de Santiago,que foi o local em que a escravização foi mais acentuada,por ter sido a primeira a ser descoberta, habitada. Portanto, foi a ilha que mais sofreu.

Ela denuncia que as mulheres não têm o mesmo destaque midiático na literatura, como é o caso do homem, mas é potente e crescente a produção literária de mulheres em seu país.

Vera demarca que foi justamente após a independência do país que a escrita das mulheres ganhou a amplitude necessária.  Para Vera, o governo Lula, com a implementação da Lei 10639/03, contribuiu de maneira acentuada para que a literatura produzida por mulheres negras, incluindo as africanas, fossem melhor acessadas no Brasil.

Relação entre homens e mulheres em Cabo Verde

Para nos responder a pergunta sobre como é a relação das mulheres no que se refere ao usufruto dos seus direitos, ela cita a filósofa Ana Arendt “os direitos humanos não estão dados, e sim, em construção”.

Assim acrescenta que desde a independência, a luta pelo direito à igualdade, ao direito humano, à igualdade em todos os campos das relações societárias é contínua. Considera que, em muitas pautas, o país se encontra à frente do Brasil nas conquistas dos direitos da mulher como, por exemplo, no que se refere à interrupção da gravidez.

Em Cabo Verde, desde o século passado, é legalmente aceito que a mulher faça tal interrupção, com até doze meses de gestação, e com o consentimento do pai da criança.

Outro quesito que foi alterado na legislação do casamento no país é o que se referia à nomeação do homem como chefe de família. Para quebrar com essa referência patriarcal, essa condição não existe mais.

A lei atual prega que o casamento se trata em união voluntária entre dois seres iguais, portanto foi dado o mesmo papel para o homem e para a mulher.   Ela foi a primeira mulher a entrar para a magistratura no país, e hoje o país conta com um número paritário de magistrados homens e mulheres.

Vera Duarte considera essa realidade um grande avanço no que se refere às relações entre os sexos no país.

Vera informa que na educação também o país alcançou uma paridade entre meninas e meninos no processo de escolarização. O seu romance A Candidata(2004), discorre, em sua narrativa, sobre as conquistas das mulheres, sobre o seu direito de ser candidata à felicidade, à liberdade, ao amor, às escolhas, a ser sujeito, e não objeto.

Racismo em relação ao negro no Brasil

Para ela, o racismo no Brasil é um problema que sangra, poisa maior parte dos africanos que ela conhece não têm dimensão de como o país é racista em relação ao povo negro.

Ela diz que os africanos são solidários com os negros brasileiros na medida que foram os ancestrais africanos que chegaram aqui, na situação de escravizados, portanto há um sentimento de pertencimento e identificação muito grande entre africanos e brasileiros negros.

Assim, registramos mais uma rica contribuição de uma voz africana no, e sobre o Brasil!

O Afrofuturismo de Zaika dos Santos

Arte, Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodiáspora

Por Naiara Rodrigues, jornalista e assessora de imprensa

O lançamento do filme Pantera Negra e o seu sucesso mundial chamou atenção para o movimento Afrofuturismo que traz uma mistura entre a ancestralidade africana e tecnologias na criação de narrativas com o protagonismo negro. O blockbuster levou ao cinema a história do primeiro super-herói negro e sua mística nação Wakanda, em uma adaptação para as telonas da história em quadrinho da Marvel Comics, criada em 1966 e que, a partir de 2005, passou a ser escrita por autores negros. Dialogando diretamente com o movimento, a sua projeção chamou atenção popularizando e dando visibilidade a artistas que desenvolvem suas obras dentro desse conceito no Brasil e no mundo.

Zaika dos Santos é multiartista e pesquisadora afrofuturista. Ela é cantora, compositora, arte-educadora, artista visual, pesquisadora negra, performer, trançadeira, produtora cultural, formada em audiovisual, rádio e TV e web designer. Pesquisadora do tema, cursa Licenciatura em Artes Plásticas na Escola Guignard (UEMG) e seus trabalhos estão estética, conceitual e tecnicamente ligados ao Afrofuturismo – Arte, Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afroadiáspora.

Nas artes visuais, desenvolve atualmente o projeto Nok é Nagô que engloba diferentes ramificações artísticas. Para cada ação, desenvolve um processo criativo. Na performance, realiza ações com a transversalidade de linguagens das artes visuais dialogando as referências etimológicas, simbólicas, iconográficas, ancestrais e identitárias negras. Na pintura, visibiliza com a pintura corporal em ações de performance e a pintura em tela com referências africanas. Na gravura, aborda a simbologia etimológica e iconográfica Adinkra. Na fotografia, traz mulheres negras no seu cotidiano popular através de registros fotográficos escultóricos, e nas artes digitais mescla todas essas técnicas. Na ciência da computação, trabalha com programação HTML, códigos binários, instalações, mapping e a matemática do nó contextualizando a potência desses conteúdos e sua origem em África.

As Yabás da afrodiáspora é um dos processos que desenvolve há três anos no Nok é Nagô.

“Nele, faço esculturas-coroa e fotografo mulheres negras sem reproduzir o estereótipo de que já estamos cansadas. Busco o que é este lugar de identidade de mulher negra para essas mulheres de forma sincera, intensa. Geralmente eu passo um dia com as meninas, espero elas trabalharem a identidade delas neste lugar, como qual roupa, qual maquiagem querem usar”, afirma Zaika que, em alguns casos, cria as coroas de forma personalizada para a construção das fotografias.

Inicialmente conhecida pela sólida carreira no Hip Hop, a artista afirma que sua atuação sempre foi dedicada à música eletrônica em geral. Ela se prepara para lançar, no início de 2019, o seu disco Akofena em streaming, que já está no forno desde 2015, e traz em seu conceito o Afrofutursimo num lugar de vivência da mulher preta e da interseccionalidade do feminismo negro. Ela já lançou single de duas das dez faixas que fazem parte do álbum, Az nega! e Fluxos, e entre as inéditas estarão samplers, incluindo uma música do João Bosco. O álbum foi gravado em parceria com o consagrado produtor Dubalizer, em São Paulo, e leva a forma de uma música politizada para dançar.

“Fizemos um processo de pesquisa coletivo para trabalhar a sonoridade e a ancestralidade da música africana e afro-brasileira como fonte da música eletrônica”, destaca.

Outra iniciativa desenvolvida por Zaika é o Saltosoundsystem que visa ao empoderamento feminino através da Cultura Soundsystem. A partir dos processos formativos com conteúdos técnicos, teóricos e práticos sobre a cultura e novas tecnologias do projeto, nasceu o primeiro sistema de som que tem o formato de um salto alto com caixas agudas, medias e de subgraves. Ele une quatro selectoras mulheres negras (Samantha Luz, Isabela, Zaika e Nah Araujo) e um selector homem trans negro (Alê) em um coletivo que se formou a partir do processo formativo do projeto e que instala seu sistema de som para amplificar músicas de mulheres negras estrangeiras e brasileiras nas linguagens sonoras dos ritmos de origem jamaicana e em outras como o funk e afro house.

“A Salto é mais um processo formativo. A primeira edição do evento aconteceu no Centro de Referência da Cultura Popular da Lagoa do Nado e a nossa intenção é rodar a cidade com o sistema para amplificar música e empoderar mulheres”, enfatiza.

E não para por aí. Ela ainda tem projetos de desenvolvimento de jogos de tabuleiro, na área das exatas, de produção como hacktivistas, entre outros. A multiplicidade de sua produção reflete na densidade artística de Zaika. Artista inquieta, está sempre em busca de novos conhecimentos com uma visão integrada dos conteúdos, o que fez com que, ao longo de sua história, vivesse momentos em que não era compreendida pelas pessoas ao seu redor. Na adolescência, aprendeu a fazer tranças nagô de forma autodidata, observando a tia Nilma que trabalhava em um dos primeiros salões afros da cidade, o Salão da Betina. Aos 14 anos, já se tornara a principal trançadeira do bairro onde morava.

“Minha mãe falava para abrir o meu próprio salão, mas eu dizia que não queria ser cabeleireira, queria ser cientista”, relembra Zaika, falando que sempre trabalhou com tranças nagôs em outro espaço de discussão para além do lado da estética e da política.

Ela faz com facilidade conexões entre as tranças, as complexas estruturas geométricas matemáticas contidas em fractais e a sua relação com a criação do sistema binário, base de qualquer sistema informatizado que conhecemos hoje.

“Existem discussões sobre o uso das tranças, no período escravocrata do Brasil, como mapas que guardavam caminhos de fuga das senzalas. Já na África, as tranças eram trabalhadas mais dentro de outro contexto, dentre eles o dos fractais. Mas a ciência e os fractais não surgem na Europa? Não. Tivemos muito conhecimento que surgiu na África, mas existe um silenciamento histórico e foi quando eu decidi ir em busca de conhecimentos que me foram negados que os descubri”, afirma.

Seu processo de pesquisa sempre foi no lugar desse resgate histórico e de cruzar áreas, mesmo tendo crescido ouvindo que era necessário focar e escolher uma secção de estudo e também da cultura. Na universidade, pode se aprofundar em novas ramificações da arte e trabalhar com convergências desses conteúdos.

“Sabia que ao entrar na faculdade teria que estudar o conteúdo eurocêntrico, desconstruí-lo e trazer essas questões para o meu lugar de fala”, explica.

Para Zaika, o afrofuturismo vai muito além da criação de narrativas ficcionais – conceito cunhado pelo crítico cultural Mark Dery em seu ensaio Black to the future, em 1994, pois ele está ligado com a arte, a ciência, a tecnologia e a inovação africana, e a reconexão da afrodiáspora a técnicas e conhecimentos desenvolvidos no continente africano que pode ser facilitada com o processo de globalização.

“Para mim, o afrofuturismo não é uma ficção, ele é uma realidade. Esse passado, presente e futuro estão interligados, mas teve uma interrupção histórica que tem nomes: escravidão e colonialismo”, ressalta.

Ela cita como exemplo a seção que traz as tecnologias e inovações africanas no período escravocrata do Brasil existente no Museu Afro Brasil.

“Tanto dentro da África como fora dela, no contexto de afrodiáspora, temos vários cientistas negros que foram referência em diversos conteúdos, mas sofreram um apagamento histórico. Esse afrofuturismo que eu discuto fala, diz da perspectiva de Afrofuturismo da África Negra e o Afrofuturismo da Afro diáspora”, acrescenta.

Zaika ressalta ainda que o Afrofuturismo não tem relação alguma com a vanguarda artística Futurismo.

“Não existe essa conexão, pois esta é uma leitura ocidentalmente equivocada e só é feita porque houve uma apropriação da palavra “futuro” no surgimento da vanguarda eurocêntrica. É obvio que a palavra também não surgiu na África dessa forma, mas como muitas pessoas fazem a leitura do conteúdo pela perspectiva do ensaio Black to the Future, do Mark Dery, esse conflito etimologicamente estético acontece”, pontua.

Para ela, a questão está no uso de uma palavra ocidental, por isso sempre utiliza o termo Arte, Ciência e Tecnologia e Inovação Africana e Afro diáspórica e incentiva a leitura do livro do historiador Carlos Machado dedicado ao tema, por acreditar que é necessário enegrecer nossos conhecimentos.

“É justamente por esse conflito de palavra que eu curso uma matéria que se chama Arte e Vanguarda, e meu orientador na faculdade é especialista neste tema. Também dialogo diretamente com historiadores e curadores africanos e pelos papos potentes descobri que vanguarda sempre existiu em África, ou seja, temos que descobrir o que foi apagado historicamente. Por exemplo, “Wakanda” significa “o que é nosso por direito”, e é um termo que existe na língua Kikongo, falada fluentemente na Áfrika Central e Sul, sobretudo em alguns países da região dos grandes lagos. Ela pertence ao grupo etnolinguístico Kôngo e consequentemente da família linguística Bantu nascida nos moldes da árvore linguística Niger-congo”, destaca a multiartista.

A curadoria de todo esse conteúdo histórico, científico e artístico que Zaika se dedica a pesquisar dará origem ao novo projeto, o CAB – Circuito Afrofuturista Brasileiro. Ele tem como objetivo criar uma plataforma digital em que vai disponibilizar essas informações divididas a partir de assuntos específicos, reunindo o que tem sido produzido e pensado sobre o tema no país.

“Também estou escrevendo dois artigos, um sobre a historicidade do Afrofuturismo, em que eu começo falando lá do período Paleolítico para depois passar pelo raciocínio dele dentro do período da escravidão, do pós-abolicionista, e o outro é sobre o pós-humano”, conclui.

A ideia da multiartista é transformar os artigo em um livro e o que não lhe falta é conhecimento.

Djamila Ribeiro, o que é lugar de fala

Por Rosália Diogo, jornalista, professora, pesquisadora, gestora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado.

Djamila Taís Ribeiro dos Santos é feminista, pesquisadora, acadêmica, mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – com ênfase em teoria feminista. Nasceu na cidade de Santos/SãoPaulo.

Suas principais atuações são nos seguintes temas: relações raciais e de gênero e feminismo. É colunista online da Carta Capital, Blogueiras Negras e Revista Azmina. Em maio de 2016, foi nomeada secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo durante a gestão do prefeito Fernando Haddad.

Escreveu o prefácio do livro Mulheres, raça e classe da filósofa negra e feminista Angela Davis, obra inédita no Brasil e que foi traduzida e lançada em setembro de 2015.

Iniciou o contato com a militância ainda na infância. Uma das grandes influências foi o pai, estivador, militante e comunista, um homem que mesmo com pouco estudo formal, era culto. A escolha do seu nome, que em swahili, língua falada no leste da África, significa “beleza”, foi feita por seu pai. Djamila tomou consciência, logo na infância, dos significados de ser mulher e negra no Brasil.

Foto: Christian Braga

Ela comenta o fenômeno do feminicídio ter aumentado entre as mulheres negras (54,2% entre 2003 e 2013), ao passo que diminuiu entre as brancas (queda de 9,8% no mesmo período: “Falta um olhar étnico racial na hora de pensar uma política de combate à violência contra a mulher. As mulheres que combinam opressões ficam em um lugar mais vulnerável. Se a gente não traz os dados sobre isso, não cria políticas públicas para elas”.

Como neste caso, que ela se refere a bell hooks (nascida Gloria Watkins e que adotou o nome de sua bisavó e pede que o usem assim em minúsculo), o empoderamento diz respeito a mudanças sociais numa perspectiva antirracista, antielitista e antissexista por meio das mudanças das instituições sociais e consciência individuais.

A sua fala é objetiva, lúcida e transparente. E, por isso, tem realizado palestras e aulas para explicar por que discorda da ideia de que há meritocracia no sistema educacional brasileiro e defende as cotas nas universidades. “Uma pessoa branca que sempre estudou em escolas boas, comeu bem e tem acesso a idiomas não passa num vestibular como o da USP porque ela é especial, mas porque teve condições para isso. Insistir num discurso meritocrático é escamotear o racismo e o privilégio do grupo branco. Não é uma questão de capacidade, mas de acesso às oportunidades”, comenta.

Em 2017, Djamila participou de um encontro no London School of Economics, no Reino Unido, e argumentou, se referindo ao juiz Sergio Moro, que a decisão de interromper as atividades do Instituto Lula foi feita com uma “canetada”, e complementou: “Juiz não deveria ter lado, juiz não deveria ter partido”, enfatizou ao comentar a torcida em torno da figura de Moro no debate.

Em março deste ano, a filósofa esteve em Belo Horizonte para o lançamento do livro O que é lugar de fala?. Aproveitamos a oportunidade para entabular um gostoso bate-papo com ela.

Djamila nos falou um pouco sobre a sua motivação para ingressar no ativismo político contra o racismo e machismo: “Eu sou filha de militante do movimento negro e desde cedo essas discussões estiveram presentes na minha vida. Mas só fui me perceber como feminista negra quando comecei a trabalhar numa organização de Santos, litoral de SP, chamada Casa de Cultura da Mulher Negra. Foi revolucionário para mim ver mulheres negras pautando nossas questões, escrevendo, produzindo, fazendo projetos. A partir daí só se intensificou”.

Ela conta que teve os primeiros contatos com o movimento negro ainda na infância passada em Santos, cidade do litoral paulista, graças à influência do pai, um estivador, militante e comunista. “Desde muito cedo, eu e meus dois irmãos vivemos nesse meio. Com seis anos, já íamos para atos. A gente debatia esses temas em casa, e meu pai nos fazia estudar a história do nosso povo”, disse.

Indagada sobre por que escolheu a filosofia, e como ela pode nos auxiliar nas reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero no Brasil, ela nos disse que a filosofia no Brasil ainda é uma área muito branca e masculina, portanto é fundamental que nós, negras e negros, possamos participar das oportunidades de reflexões sobre as desigualdades presentes na sociedade na perspectiva filosófica. Para ela, trata-se de mais um canal para que possamos dar visibilidade às denúncias que constantemente o povo negro faz em relação às diversas opressões experimentadas.

Sobre os oito meses que esteve como secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania na cidade de São Paulo, a ativista afirma que a experiência foi muito importante pelo fato de estar na posição de executora de políticas públicas. Ela disse que o fato de ter feito a gestão em um governo de esquerda, historicamente comprometido com as pautas da inclusão, foi crucial para a inserção de algumas políticas de igualdade racial na cidade. Djamila acentua que, sendo esses espaços pouco ocupados por mulheres negras, ela aproveitou a oportunidade para tentar fazer o melhor que foi possível para reverberar a sinalização de que políticas públicas de combate ao racismo e ao machismo podem ser feitas no país.

No período em que esteve à frente da secretaria adjunta, aconteceu a implantação de programas como o Juventude Viva que concedeu bolsas para 101 jovens se dedicarem aos estudos, a formação em direitos humanos para 40 mil professores da rede municipal e o atendimento psicossocial para mães que perderam filhos vítimas da violência policial.

No que se refere à urgência e recorrente pauta – a solidão da mulher negra –, a filósofa disse que é um tema de extrema importância a ser discutido entre nós. Ela defende o argumento de que essa solidão ultrapassa a dimensão das relações afetivas e se espraia para as esferas econômica, institucional, do mundo do trabalho e das inter-relações como um todo.

Ao comentar sobre o conteúdo do livro que a trouxe a Belo Horizonte, O que é lugar de fala?, Djamila disse que ainda falta um longo caminho para que a fala da mulher negra alcance visibilidade. Para ela, existe uma luta constantemente travada com o mercado editorial que se nega a publicar textos de mulheres negras.

Essa negação do reconhecimento do potencial de escrita dos negros realça a contundência do racismo e os meandros das relações patriarcais no país. Ribeiro comenta que ela e outras mulheres negras têm feito a publicação dos seus trabalhos na raça e coragem.

No que refere-se à relação estabelecida com outras mulheres negras, feministas, que lhe serviram e servem de inspiração, a escritora diz que a luta dessas mulheres é que orienta os seus passos. São muitas mulheres nesse campo do enfrentamento étnico-racial e de gênero: Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Grada Kilomba, Zora Neale Hurston, Angela Davis, Maya Angelou, Luíza Bairros, Patrícia Hill Collins entre outras.

Ribeiro diz que sua existência é sinal de resistência a partir da inspiração das ações empreendidas por essas mulheres no passado. Djamila diz que é fundamental que a juventude negra saiba que foram essas mulheres que solidificaram o caminho que pisamos hoje em prol de relações mais igualitárias do ponto de vista de gênero e raça. A filósofa cita a médica, ativista e pesquisadora Jurema Werneck, que um dia escreveu “Os nossos passos vêm de longe” para reafirmar que ela vem seguindo as pegadas dessas mulheres para avançar em busca de um cenário mais favorável para negras e negros na disputa por lugar confortável de fala no Brasil.

No mês de junho, Djamila retornou a Belo Horizonte para um novo diálogo com o público e para o lançamento do livro Quem tem medo do feminismo negro, que reúne um longo ensaio autobiográfico inédito e uma seleção de artigos publicados por Djamila Ribeiro no blog da revista CartaCapital entre 2014 e 2017.