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Festival de Arte Negra de Belo Horizonte – 28 anos de reexistência 

Por Rosália Diogo – Jornalista

Integrante da Comissão Artística do FAN-2023. Coordenadora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Chefe de Redação da Revista Canjerê.

A décima edição do Festival de Arte Negra de BH – FAN foi realizada entre os dias 23 e 29 de outubro. Neste ano, o FAN BH abraçou a temática “Trança – “Tríade Temporal”, explorando as conexões culturais entre o Brasil e a África, notadamente as influências da cultura bantu na formação da identidade brasileira e sua relação com Minas Gerais.

Com periodicidade bienal, o Festival compreende uma ampla programação cultural, marcada pela diversidade de linguagens artísticas e pela participação de artistas, grupos e pesquisadores da arte e da cultura negra. As referências do FAN BH articulam as raízes ancestrais dessa cultura às expressões da contemporaneidade.

O tema escolhido para a residência artística foi “Coração Tambor” e teve como intuito proporcionar o encontro de gerações e linguagens, e entrelaçar os fios que costuram histórias e memórias. Na encruzilhada entre o passado, o presente e o futuro da cultura preta, um elemento sempre se faz latente: o TAMBOR. A batida do tambor imita o som do coração, traz vida e conexão. Esse pulsar que é afro diaspórico está presente nos graves do funk, nas rodas de capoeira, nos quilombos, nos terreiros e na pele que reverbera e habita a cidade. 

Trança foi o conceito curatorial criado para o FAN  2023. Um dos maiores símbolos da cultura africana.  Expressão estética e de resistência de todo um povo. Ferramenta de sobrevivência durante o período da escravidão (tecnologia ancestral); TRANÇA é o conjunto formado pelo entrelace de três partes.

Três conceitos africanos fundamentam o tripé que sustentaram o FAN 2023:

SANKOFA AFROFUTURISMO UBUNTU

Um ideograma Adinkra que ensina sobre o valor de aprender com o passado para a construção do presente e do futuro. Adinkra é um conjunto de símbolos. Tecnologia africana ancestral pertencente ao povo Ashanti. Movimento cultural, estético e político que se manifesta no campo da literatura, do cinema, da fotografia, da moda, da arte, da música, a partir da perspectiva negra, e utiliza elementos/conceitos tecnológicos para criar narrativas de protagonismo negro, projetando um futuro que celebre sua identidade, ancestralidade e história. “Afrofuturismo é recriar o passado, transformar o presente e projetar um novo futuro, através da ótica do povo negro”.

Termo antigo da região Sul Africana, presente nas línguas Zulu (pertencente ao grupo linguístico bantu) e xhosa, que literalmente significa “humanidade”. A filosofia Ubuntu resgata a consciência de que uma pessoa é parte de algo maior e de que o indivíduo depende do coletivo. “Sou o que sou pelo que nós somos”. A convivência social deve estar pautada na fraternidade, altruísmo, respeito, acolhimento e colaboração entre os seres.

Trazemos nas próximas páginas, os destaques de alguns momentos da programação do Festival. Aconteceu uma roda de conversa aberta ao público com a Ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, com o tema “Futuros Desejáveis, Caminhos Possíveis: reflexões sobre cultura preta, tecnologias ancestrais, cidadania e reparação histórica”.

Na roda, representantes da juventude negra, do Congado, do Sagrado de Matriz Africana, da Diretoria de Reparação e Promoção da Igualdade Racial e do Movimento Negro. A ministra também participou de um bate-papo, reservado apenas para convidadas e convidados, no Kilombu Souza, que teve a representação de outros kilombus urbanos da cidade.

No que se refere à musicalidade, destacamos a participação de Chico Cesar e do Grupo Fundo de Quintal, além de outras várias apresentações de artistas locais.

As artes visuais ocuparam a região da Praça da Estação, o Parque Municipal Américo Renê Giannetti, o Teatro Francisco Nunes, o Mis e outros espaços descentralizados.  O audiovisual se destacou a partir de uma Mostra de Filmes no Mis Cine Santa Tereza.

Vamos apresentar os três conceitos centrais que nortearam a curadoria do Festival:

Sankofa: Este termo provém da língua Akan, falada em Gana e Costa do Marfim. O símbolo Sankofa é representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás, buscando um ovo em suas costas. Esse conceito simboliza a ideia de voltar ao passado para buscar conhecimento e sabedoria, reconhecendo que nossa história e tradições são fundamentais para nosso futuro. No contexto do FAN BH 2023, o Sankofa é um chamado às novas gerações para que se reconectem com as raízes culturais e históricas.

Afrofuturismo: O Afrofuturismo é um movimento cultural, artístico e filosófico que combina elementos da cultura africana e da ficção científica visando imaginar um futuro inovador e positivo para as comunidades negras. Este movimento investiga a diáspora africana e a identidade negra em um contexto futurista, muitas vezes, questionando identidade, pertencimento e tecnologia. No FAN BH 2023, o Afrofuturismo é uma maneira de empregar a criatividade e a imaginação para construir um futuro mais brilhante, mantendo-se conectado às raízes culturais.

Ubuntu: Ubuntu é uma filosofia africana que enfatiza a importância da comunidade, da interconexão e da empatia. A palavra “ubuntu” significa “eu sou porque nós somos”, destacando a ideia de que nossa própria existência está intrinsecamente ligada à dos outros. No contexto do FAN BH 2023, o Ubuntu é um chamado para a solidariedade, a colaboração e o apoio mútuo, promovendo um senso de unidade e pertencimento na celebração da cultura afro-brasileira.

Ojá – Mercado das Trocas.

Com origem na palavra Yorubá, que significa “Mercado”, o Ojá é reconhecido como um espaço de movimentação da Economia Criativa no Festival de Arte Negra de Belo Horizonte que promove a circulação de recursos, a realização de encontros e a troca de ideias e afetos. Também tem como objetivo destacar o trabalho de afroempreendedoras e afroempreendedores pretas e pretos de BH e Região Metropolitana, criando uma Rede de novos negócios e oportunidades. O Ojá este ano aconteceu no Parque Municipal Américo Rene Giannetti.

Já aguardamos, com alegria no coração, o FAN 2025.  

Vida longa para o FAN.

   Agora que são elas – Mulheres pretas no poder legislativo

Por Etiene Martins é mulher preta, militante do movimento negro, pesquisadora das relações étnico-raciais, mestra e doutoranda em comunicação e cultura pela UFRJ.

A baixa representatividade étnico-racial e de gênero é uma das características históricas da sociedade brasileira. Nos três Poderes da República, homens brancos predominam em cargos de gestão e comando. Quando se analisa apenas o Poder Legislativo Nacional, essas são as características do Senado na legislatura passada corrente: dos 54 senadores eleitos em 2018, apenas sete são mulheres; dessas nenhuma é negra. Optamos propositalmente por citar dados da gestão anterior e não dessa porque com as cotas houve diversas pessoas que até então se autodeclararam brancas, e depois de ser instituída  uma  reserva de verbas destinadas a candidatos negros e candidatas negras passaram a se declararem negras de forma muito suspeita e portanto não necessariamente a autodeclaração condiz com a verdade.

Fazendo uma breve análise com um recorte territorial das metrópoles situadas no Sudeste, podemos constatar que essa discrepância não é exclusiva na gestão política federal. No que diz respeito ao Legislativo mineiro, ao longo dos seus 183 anos de existência, desde 1835, apenas em 1963 foram eleitas as primeiras mulheres, são elas brancas, Marta Nair Monteiro e Maria Pena. Cinquenta e seis anos depois, na 19ª Legislatura (2023-2027), há apenas 15 deputadas, em um universo de 77 parlamentares e das 15 foram reeleitas as três mulheres negras eleitas na história do estado, são elas: Ana Paula Siqueira, Andréia de Jesus e Leninha e eleita para seu primeiro mandato Macaé Evaristo.

Quando o cenário é o federal, o estado de Minas Gerais possui 53 representantes,  no qual apenas nove são mulheres e apenas uma é negra. Dandara Tonantzin foi eleita deputada federal depois de ser a vereadora mais bem votada na história de sua cidade, Uberlândia. Nessa edição da Canjerê, fomos bater um papo com essas cinco mulheres eleita pelo povo para trabalhar para o povo. Nesse bate papo individual com cada uma delas, buscamos entender como e quando se deram os interesses delas em serem parlamentares, quais foram a suas maiores satisfações na trajetória política e quais são os principais desafios para uma parlamentar negra nesse cenário majoritariamente masculino e branco. Elas contaram como lidam com a misoginia e com o racismo e quais são as referencias que admiram. Confira trechos das respostas aqui nesta matéria e as entrevistas na íntegra no site da revista Canjerê. 

Como e quando você entendeu que queria ser uma parlamentar? 

Andréia de Jesus, depois de uma longa trajetória profissional que começou como empregada doméstica, passando por educadora, advogada popular, alcançou um cargo de assessora parlamentar em um gabinete municipal em Belo Horizonte e foi nessa ocasião, lá em 2016, que se deu conta de que queria ser uma parlamentar, “foi nesse momento que percebi minha capacidade de ser referência e formadora de opinião e decidi que poderia fazer a diferença na vida das pessoas por meio da minha atuação política como representante”.  Já Dandara foi convocada em 2020  para ser parlamentar municipal depois de ter iniciado sua trajetória como militante no movimento estudantil: “recebi uma convocatória para representar um projeto coletivo de ser candidata a vereadora por Uberlândia e me tornei a mais votada na cidade”. Assim como a deputada Andréia de Jesus, a deputada Ana Paula Siqueira se tornou deputada através de acúmulo de experiências políticas e profissionais, “desde muito jovem participo dos movimentos sociais da igreja católica, que foram foram fundamentais para que eu tivesse essa formação de enxergar o mundo a partir da coletividade. Sou nascida e criada na periferia, convivi toda minha vida com múltiplas realidades, essa consciência da importância da participação popular, política, social, sempre me atravessou. Depois, mais tarde, cursei Serviço Social”. Diante dessa pergunta, Macaé relembra que constatou que queria ser parlamentar quando era secretária do MEC, “Inúmeras vezes, fui ao Congresso Nacional. Ao ouvir deputados de direita, pensava que eles nunca falariam por nós. Nunca apresentariam as nossas demandas. É preciso que a política seja ocupada por nós!”.

Nessa sua trajetória política, o que mais te trouxe ou traz realizações?

Para a deputada Leninha, a satisfação maior é estar próxima das pessoas: “Estar com o povo. O meu povo. Falar olho no olho. Ver de perto as suas necessidades, falar abertamente onde e como podemos incidir”. A política, na concepção em que Macaé se filia de acordo com ela, é um espaço de construção coletiva, que a permite encontrar boas soluções para melhorar a vida das pessoas. “Nesse sentido, eu me realizo todos os dias na interação com as pessoas que vão ao gabinete, com as que encontro nas ruas, nas mobilizações ou nas audiências públicas. Empenho-me na construção de políticas públicas na área da educação, com destaque para políticas de ação afirmativa e inclusivas”. Andréia de Jesus é prática e se sente realizada todas as vezes em que sua equipe têm êxito nas lutas que travam no ambiente parlamentar: “O trabalho do parlamentar legislativo tem movimentações que ficam muitas vezes afastadas dos “holofotes” ou que chegam com mais dificuldade ao conhecimento público. As nossas conquistas são geralmente demoradas, os projetos de lei, por exemplo, que passam por diversas comissões antes de serem efetivamente implementados”. Já para Dandara estar fazendo acontecer em seu primeiro mandato, como única deputada negra federal do estado de Minas Gerais, já está vislumbrando um futuro mais negro e feminino nos espaços de poderes. “A minha maior realização é poder ser inspiração e abrir caminhos para muitas outras mulheres negras, é poder dizer que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive na política”.

Além dos outros desafios, quais são as dificuldades de ser uma parlamentar negra em um espaço político majoritariamente masculino e branco?

Andréia de Jesus, a única parlamentar dentre os 77 que tem que fazer uso de segurança pessoal durante 24h porque é cotidianamente ameaçada de morte, responde a essa pergunta dizendo que: “Ser uma parlamentar negra é uma tarefa desafiadora que requer amparo dos nossos ancestrais, além de muita coragem, determinação e perseverança, pois é necessário enfrentar a resistência e a hostilidade enquanto trabalha para mudar a realidade em que vive e, infelizmente, morrem os seus. Sinto uma grande responsabilidade porque, sobretudo, sou parte da primeira leva de mulheres negras a ocupar esse cargo aqui na Assembleia de Minas, e ocupamos em um momento em que, na conjuntura nacional, prevaleciam os discursos intolerantes e violentos, especificamente racistas, misóginos e classicistas. Ana Paula atenta para o fato de que “as pessoas, de um modo gera,l não estão acostumadas a ver os nossos corpos nesses espaços”.  O desafio para Macaé está em  “tornar esse espaço mais feminino e mais preto. Estou feliz de ter sido eleita, mas especialmente de ter sido eleita com outras mulheres negras. No geral, as pessoas desacreditam nas nossas candidaturas e apostam que só é possível eleger uma pessoa negra, uma mulher negra em cada pleito. Neste ano, com todo o debate que vivenciamos no país nos últimos quatro anos, a defesa e reafirmação da democracia para Minas são pontos muito importantes”.  A percepção da Leninha vai ao encontro com as das outras parlamentares. “Nossa presença incomoda, incomoda muito. Mas, é necessário continuarmos nessas trincheiras e vencer esse ranço  colonial e patriarcal”. Dandara se sente parte de um movimento ancestral: “Sou parte desse movimento para enegrecer os espaços de poder e combater a lógica da política, feita pelas elites, da manutenção dos privilégios e da exclusão das mulheres  e negritude dos espaços de poder”.

Fotos: Acervo Pessoal das Parlamentares

Arte da Capa:
Maria Rosa @arte.de.maria

A MINHA BENÇÃO MINHA MÃE, MINHA SENHORA E RAINHA DE MANZO NGUNZO KAIANGO. A MINHA BENÇÃO MAMETO DE NKISE MUNHANDÊ

 Makota Celinha Gonçalves – Coordenadora Geral do CENARAB. Uma mulher apaixonada por Munhandê.

Munhandê é dessas pessoas que para falar dela tenho que me curvar à sua sabedoria de vida. Me lembro até hoje a primeira vez em que fui ao seu Terreiro: era o ano de 1991, era eu uma recém iniciada na matriz africana, cheirando a abô. Fui acompanhada de meu Pai Arabequem, Munhandê que estava celebrando um casamento, uma novidade e uma ousadia para a época.   O Terreiro da rua São Tiago, 216, no Santa Efigênia, transbordava de gente querendo assistir ao casamento. Não me perguntem quem estava se casando que não sei, aliás o Terreiro estava tão cheio que ficamos na rua, apenas com pequenos relances do que acontecia lá dentro. Nunca esqueci esse dia. 

O nome de Munhandê sempre vinha nas rodas e lugares por onde passava, mas não tinha eu a ousadia de ir atrás da mulher mito para lhe tomar a benção. Até que, um dia, uma repórter procurou o CENARAB. Tínhamos uma salinha no Edifício Maleta. Eles estavam atrás de uma mulher liderança de matriz africana para dar uma entrevista, essas coisas que acontecem sempre no mês da consciência negra em nosso país, e o Arataremin (Juninho da Oxum) disse que tinha que ser a Munhandê para dar a entrevista. Me lembro que ligamos para ela e, muito tímida e desconfiada, tentou sair fora, mas não teve jeito e ela concedeu a entrevista. Depois disso, nossa relação foi se estreitando; o Arataremin sempre na minha cola para ajudar a resolver o problema da Munhandê e seu povo. Toda chuva que vinha, era sempre o mesmo medo, as mesmas angústias e assim me aproximei dessa minha referência feminina no candomblé de BH. De lá para cá, é só admiração e respeito, não canso de ouvir suas histórias de lutas e conquistas, de como a mulher preta e favelada, segundo ela, lutou para construir sua trajetória, educar seus filhos e filhas, alguns consanguíneos e inúmeros de coração.

Quando tive a oportunidade de conhecer melhor essa mulher, ela me assustava com sua força e garra. Sua fé inabalável na figura do Pai Benedito, o Preto Velho que a ajudou na criação e orientação de seus filhos, e o amor por Matamba, são aspectos de sua fé que me deixam apaixonada. Sem falar de Exú Paredão, que consome cachaça “Reis” e consegue em suas festas unir inimigos históricos por respeito e admiração. 

Munhandê é um monte de Munhandês, das periferias de BH e do Brasil, uma mãe solo que soube educar suas filhas e seus filhos na mais profunda adversidade, sem permitir que esses perdessem a noção de quem é que manda no pedaço. A casa é da mulher preta, que trabalhou como doméstica, faxineira, lavadeira e que no território é rainha absoluta. Uma quilombola por excelência que traduz para mim o verdadeiro sentido de ser descendente de mulheres negras que construíram suas histórias com muita luta e suor. 

Uma das cenas que não me sai da cabeça, e que para mim retrata a essência dessa mulher preta quilombola, foi um dia estava eu sentada em seu salão conversando, e via uma fila de crianças vindo ser abençoadas pela avó antes de irem para a escola. Para cada uma delas tinha uma benção, e junto destas, uma mão que enfiava no seio e de lá tirava uma moeda, um dinheirinho para a merenda… Os olhinhos eram só agradecimento e a avó Munhandê se completando nos olhinhos alertas e atentos das crianças que se encontravam no aconchego da avó. Fiquei embevecida de ver ali o retrato de minha infância, do amor e aconchego, do carinho e do afeto que essas mães pretas são capazes de oferecer, mesmo tendo, a olhos burgueses, tão pouco a oferecer. Nessa hora entendo, como o tão pouco pode ser muito e significar resistência e resiliência.

A vida me deu muitos presentes e alegrias e dentre estes a possibilidade de ser uma das pessoas contemporânea de Mameto Munhande, uma mulher à frente de seu tempo que tanto me ensina com sua humildade, sensibilidade e generosidade, mas, acima de tudo, com sua sabedoria. Munhandê para mim é a feminista nata, que talvez, mesmo sem entender o rebuscado dos conceitos, construiu uma dinastia de mulheres pretas e poderosas nesta cidade de BH, cuja vocação para a liberdade ainda é sonho para os pobres.

Com mulheres como Mameto Munhandê aprendo todos os dias que mais é menos; que nunca seremos completas por sermos apenas iniciadas; mas que somos rainhas soberanas em nossos reinos de tradição, oralidade e fé. São mulheres como ela que fazem nossa luta valer a pena, pois nunca desistiram, nem desistirão de um filho ou uma filha suas. Que mesmo na adversidade imposta pelo racismo, ergueram e erguerão suas vozes para dizer nós temos fé, nós temos tradição ainda que não compreendidas pelo racismo, pelo preconceito. Elas sempre dirão que o problema do racismo é do racista, pois elas são Marias do mundo e da vida, elas são Munhandês, aves cheias de graça!! Por isso, lhe tomo a bênção hoje, como lhe tomei ontem e tomarei a mesma bênção amanhã!. Porque quero simplesmente espelhar um pouco de sua garra, de sua luta; mas, acima de tudo, de seu orgulho de ser a Matriarca da a Senzala de Pai Benedito, é a Senhora absoluta de Manzo Ngunzo Kaiango.  

Foto: Ricardo Laf

Mestre Conga: memória viva do samba de Belo Horizonte

Por Naiara Rodrigues – Jornalista

Com origem na língua africana quimbundo, o termo “bamba” têm como significado exímio, mestre, e é muito comum no samba. Em Belo Horizonte, um nome pode substituir essa palavra: Mestre Conga. Não é possível falar da história do samba na cidade sem mencioná-lo. Aos 95 anos de idade, José Luiz Lourenço – nome de batismo – segue exalando seu carisma e a sabedoria de quem atravessou, de carnaval a carnaval, quase um século de vida.

Nascido em 1927, em Ponte Nova-MG, ele veio ainda criança para a capital junto com os pais, morando na então Vila Brasilina (atual Sagrada Família). A sua relação com a música veio do tempo em que frequentava a Guarda de Congado Nossa Senhora do Rosário, no bairro Floresta, quando tinha por volta dos onze anos e desfilava usando seu uniforme branco de fitas coloridas. “O congado me pôs no caminho, inclusive meu próprio apelido vem dessa época, da molecada. Era Conga e Conguinha, porque eu e meu irmão mais novo fazíamos parte da Guarda”, explica.

Ele lembra que era motivo de piadas quando passava pelo bairro. “Eles ficavam encarnando em mim e no meu irmão, a gente achava ruim, mas acabou ficando. Apelido quanto mais você acha ruim mais pega. Depois, ao invés de eu reclamar, passou a ser uma tradição”, conta rindo da lembrança de infância. “Eu já fazia cultura sem saber que estava fazendo cultura”, reflete. 

Até que colegas de futebol e do juvenil do bairro Concórdia começaram a fazer aulas de dança. “Oh, Conga, descobrimos um lugar ótimo pra aprender a dançar, vamos lá também? Eu já tinha vontade de aprender, né, e sabe onde era? Ali onde é o hoje BH Resolve”. O espaço ficava na Rua Caetés, Centro de Belo Horizonte, e se chamava A Rádio. Oferecia aulas de dança de salão, de segunda a sexta, das 20h às 23h, e bailes dançantes, nas noites de sábado e domingo, os quais Conga não podia frequentar inicialmente por ser menor de idade. 

Mestre Conga – Foto: Mauricio Costa e Gi Oliveira

Pé de valsa

A dança foi uma nova paixão na juventude. Com a perda do pai, aos 16 anos, o adolescente acabou ficando mais solto. “A mãe, mesmo com toda autoridade, num aguentava segurar a gente”, relembra Conga que era um dos dez irmãos da família. “A gente ia aprendendo, e naquela época dançava de segunda a segunda”. Ele conta que juntava com a turma na porta da Rádio, e quando um não tinha dinheiro para pagar a entrada o outro completava.

“Aprendi a dançar pro meu gasto, mas a gente era menor. Sábado e domingo tinha muitos bailes em casa de família, principalmente ali no Concórdia. A gente era pobre, operário, mas caprichoso. Naquele tempo, as moças admiravam a gente mais pelo modo de vestir. Fulano tem dois ternos, fulano tem três ternos”, relembra rindo.

Sempre elegante, entre as roupas favoritas de Mestre Conga estavam terno tropical azul pavão, terno casimira azul marinho, gravata branca e, quando era calor, terno de linho. “Naquela época, usava muito o terno panamá e a gente, modéstia parte, vestia bem”, conta.

O centro concentrava um circuito boêmio da cidade, onde funcionavam cabarés e clubes de dança com samba, rumba, mambo, foxtrote e tango. Alguns deles como o clube Montanhês, eram de dança picotada, ou seja, se pagava por dança. “A cada dança, a bailarina picotava. Dançava uma música e picotava. Quando a dançarina ia com a cara da pessoa, ela deixava passar três, quatro músicas e dava um picote”, afirma.

Ele comparecia mais no Original Clube do Barro Preto, fundado e frequentado por negros. “Não entrava sem gravata e sem paletó. Era um clube bem elegante, principalmente para nós da raça negra. O preconceito racial e social era bem maior. Hoje está mais mesclado apesar da supremacia branca”, conta ressaltando que era exigido que estivessem bem vestidos para entrar.

Ele lembra que os movimentos de ocupação das ruas foram retomados com o fim da II Guerra Mundial (1939-1945). “Até 1945, quando ainda havia Guerra, não podia ter movimento de rua, o movimento era só em clubes, depois que a guerra acabou que voltou a pipocar”, explica.

Mestre Conga, em 2018, na celebração dos seus 91 anos no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado – Foto: Ricardo Laf

O caminho para o samba

Frequentando a gafieira, Conga fez amigos que o convidaram para participar da sua primeira escola de samba, a Surpresa, criada em 1946, na Lagoinha. Depois, conhecendo amigos da Floresta, foi para sua segunda escola, a Remodelação da Floresta que surgiu de um racha na Unidos da Floresta. “Nessa época, não compunha ainda, era passista. Uns fala passista souto, outros fala batuqueiro, e aí eu fui ficando conhecido e ganhei um concurso do Cidadão do Samba, do Diário dos Associados, em 1948”. Para participar do concurso, primeiro Conga passou pela peneira dentro da escola Remodelação da Floresta – cada escola apresentava um candidato. Ele concorreu entre as 16 escolas do ano.

Conga decidiu juntar com amigos para criar a própria escola, no bairro Concórdia. Fundada em 1950, a Escola de Samba Inconfidência Mineira veio a rua em 1951 e terminou em 2010. “Foi fundada, mas incialmente sem documentação nenhuma, naquela época a gente tirava só uma licença na Polícia Central. A gente tirava e desfilava”, conta, lembrando que no ano participaram de batalhas no Floresta, Renascença e Cachoeirinha. “As batalhas eram um desfile concorrendo a um prêmio, só que na época os prêmios não valiam tanto a pena. A gente saía do Concórdia e ia lá pro Santa Efigênia pra ganhar uma taça, um troféu. Depois passaram a dar uma ajuda de custo”, explica. “A gente montava os uniformes. Bateria com calça branca, blusa vermelha e preta. Até então as escolas não desfilavam apresentando enredos”, afirma.

Imagem histórica do carnaval de Belo Horizonte de desfile da Escola de Samba Surpresa – Foto: acervo não identificado

Revolução no Carnaval mineiro

Conga foi o responsável pela introdução do samba enredo em BH. Entre 1952 e 1954, o sambista morou no Rio de Janeiro, tendo contato com esse formato nos desfiles cariocas. “Quando eu vim, eu tinha visto os desfiles das escolas de samba de lá apresentando enredo, e aí eu vim já com essa ideia. Quando cheguei aqui, aí os colegas viram: “Conga está fazendo uma novidade lá, vamos fazer”. Aí começaram também. Nós apresentamos Tiradentes, uma outra apresentou Princesa Isabel, e aí foram apresentando sucessivamente”, relembra.

Em sua passagem no Rio de Janeiro, Conga ainda teve contato com o teatro. “Foi lá que fiquei conhecendo a turma: Solano Trindade, Abdias do Nascimento, e vários outros. Participei mais do grupo do teatro popular e folclórico do poeta Solano Trindade”, fala lembrando que pelo artista ser comunista sofria muita perseguição da polícia.

Dificuldades das escolas 

A Inconfidência Mineira chegou a ser pentacampeã entre 1959 e 1963. “A escola era muito boa, tinha muitos componentes, vários diretores. Contamos pentacampeã porque teve uma época que não teve carnaval de rua, então contou com esse tempo”, diz. Ele destaca que a instabilidade das políticas públicas para o carnaval da cidade prejudicou muito o desenvolvimento das escolas. “Teve uma época que o carnaval não era oficial. Um prefeito que estava no poder fazia o carnaval, quando ele estava pra sair, ele num fazia porque estava saindo. O que entrava também não fazia porque estava entrando, e ficou aquela dança. Todo ano de mudança de prefeito não tinha carnaval. Tinha o carnaval que as pessoas mesmo faziam, mas desfile de bloco, de escola, não tinha porque não tinha investimento, não tinha ajuda”, reclama.

“Os blocos eram mais constantes porque também a despesa deles era menor.  Escola de Samba tinha despesas maiores, formadas mais por trabalhadores de salário mínimo que, quando não contava com a verba da prefeitura ou qualquer outra ajuda, não conseguiam desfilar e se manter”, explica.

Imagem histórica do carnaval de Belo Horizonte com desfile de Bloco Leões da Lagoinha em 1958 – Foto: Acervo MHAB

Compositor

Em 2006, aos 79 anos, lançou seu primeiro disco. Intitulado Decantando em sambas, o álbum contém 12 faixas autorais, com produção do amigo Júlio Coelho, pela Lei Rouanet, com músicas antigas que Conga compôs para cantar ao longo da vida. “Ele achou as composições boas pra fazer o CD; tenho outras, mas que não gravei”. Ele explica que demorou para se ver como um compositor. “Eu nem sabia que eu compunha samba. De passista solto, depois com a criação da Inconfidência Mineira que eu passei a gostar de compor. Tentei fazer uns versos, achei que deu certo e aí tomei gosto. Mas eu não tenho muita composição escrita não”, revela Conga. 

Ele também fez parte da Velha Guarda do Samba de Belo Horizonte, iniciativa de salvaguarda do samba mineiro que já perdura há mais de 20 anos. Ao lembrar da Velha Guarda, lamentou a morte do amigo Juarez Araújo, por Covid-19 no ano passado. “Senti muito a morte dele, ele lutou muito pela Guarda do Samba”, rememora.

Capa do disco Decantando em Sambas, de Mestre Conga

Homenagens

Sua história foi contada em um documentário, Inconfidente do samba (2013), de Francisco Matias. Em 2014, Mestre Conga também foi vencedor da primeira edição do Prêmio Mestres da Cultura Popular, realizado pela Prefeitura de Belo Horizonte. A última vez em que ele pisou na Avenida, foi em 2020, quando foi homenageado, junto com outros membros da Velha Guarda, pela Associação Recreativa Unidos Guaranis.

Neste ano, no dia 2 de fevereiro, Conga recebeu a visita de amigos e familiares que fizeram um minicarnaval para celebrar seus 95 anos, com o distanciamento e máscaras, em função da pandemia de covid-19. A iniciativa foi do Coletivo Mestre Conga, formado por 60 sambistas diversificados – dirigentes de escolas de samba e blocos, donos de casas de samba, grupos de sambas, músicos, pesquisadores, com membros de todas as regionais da cidade. Na coordenação do grupo estão sete pessoas: Léo de Jesus, Carlitos Brasil, Eliete Diná, Nonato do Samba, Mário César, Marcos Maia e Rosane Pires.

O grupo surgiu em meados de 2020, quando foi feito um encontro on-line do setor para debater a situação dos sambistas na pandemia, que reuniu cerca de 70 pessoas. Os objetivos foram traçados a partir do debate das necessidades dos sambistas, sendo a primeira meta o registro do samba como patrimônio cultural imaterial de Belo Horizonte. Isso porque, através do registro será possível traçar políticas de salvaguarda para o samba, voltada para o fomento, salvaguarda dos mestres e mestras, e iniciativas voltadas às rodas de samba, escolas e blocos que fortaleçam essa economia criativa e contribua para a continuidade dessa manifestação cultural na cidade.

Atualmente, o projeto conseguiu passar uma ementa na Câmara Municipal de Belo Horizonte, por meio da vereadora Macaé Evaristo (PT), que fará um inventário do samba de BH para subsidiar o estudo do para o reconhecimento como patrimônio cultural.

O historiador Marcos Maia, que pesquisa o carnaval da cidade há mais de 20 anos, integra a coordenação do coletivo e destaca que não foi só uma simples escolha de nome. “Tudo isso tem relação com o Conga. Ele é o nosso mestre, amigo, participa do coletivo e por como ele tem uma consciência política muito grande do samba na cultura brasileira. Das injustiças que se tem contra o povo negro no Brasil historicamente. Conga é um lutador incansável contra o racismo, pelo empoderamento negro e está há anos nessa luta”, afirma o historiador.

Quando perguntado sobre como se sente com as homenagens, Mestre Conga é humilde. “Reconhecimento, isso pra mim é muito confortável, é uma exaltação que fizeram com meu nome e eu só tenho a agradecer, embora eu ache que num mereço isso tudo. Mas já que quiseram me homenagear, eu me sinto lisonjeado” conclui.

Mestre Conga, em 2018, na celebração dos seus 91 anos no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado – Foto: Ricardo Laf

Ouça as canções de Mestre Conga e de outros sambistas de Belo Horizonte, na playlist “Sambas para BH”, do historiador Guto Borges:

  

Foto de capa da edição: Maurício Costa e Gi Oliveira

Ela é bamba!

Etiene Martins é mulher preta, graduada nos cursos de Jornalismo Multimídia e Publicidade e Propaganda, especialista em Comunicação e Saúde pela Escola de Saúde Pública de Minas Gerais e mestranda em comunicação e cultura pela UFRJ

Pioneira em diversos espaços, funções e posicionamentos, com toda sua interseccionalidade  como mulher, negra e lésbica em uma sociedade machista, racista e homofóbica, Leci mostra a que veio. Além de não deixar o samba morrer  com suas composições que fazem sucesso em todas as rodas de samba do país, ela defende os direitos humanos nos palcos e no plenário da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, estado esse que a elegeu deputada estadual. 

Carioca da gema, foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Escola de Samba Acadêmicos da Mangueira, sua escola de coração. Foi a primeira cantora a se declarar homossexual publicamente, numa entrevista, em 1978, para o jornal “Lampião da Esquina” e, em  , foi eleita com 85 mil votos fazendo história, sendo a segunda mulher negra a ocupar um gabinete representando o povo no legislativo estadual. Em seu terceiro mandato consecutivo no estado que tem o maior número de deputados e deputadas do país, Leci recebeu a jornalista da Revista Canjerê em seu gabinete na ASLESP e contou um pouco da sua história.

“Eu sou uma pessoa sem formação acadêmica porque não frequentei faculdade, não tenho diploma de nada. Frequentei o ginásio e só. Tentei até fazer comunicação há muito anos, mas acabou que não foi possível. Com essa coisa de necessitar trabalhar e ser  responsável por família foi inviável”.

Racismo

 A primeira situação de racismo que senti frente a frente aconteceu  quando eu fui para o Colégio Pedro II onde não havia outras pessoas  negras na turma além de mim. Os alunos ficavam me olhando e dizendo “tizil”. Eu não entendia o que era isso. Um dia uma amiga chegou e me disse: 

Leci, isso  aí é com você.  Eu perguntei: O quê que é isso? Ela me respondeu que era um passarinho preto chamado Tizil. Eu nem sabia que tinha um passarinho com esse nome. Eu era a única pretinha da turma e me lembro que eu usava duas trancinhas. Eu me lembro também que falei com o inspetor da turma, naquela época tinha inspetor, ele reuniu a turma toda, deu um sermão e falou: “se ela está aqui é tão inteligente como vocês. Ela fez concurso e passou e se passou é porque teve competência pra passar”. A primeira situação de racismo que enfrentei foi dentro da sala de aula. 

Sempre com a questão da música na minha, vida eu tento superar o racismo. Eu já fazia paródias. Fiz uma música para uma colega de escola que se candidatou a liderança do  Grêmio Estudantil. Eu fiz a música para a Marilda Manuel, lembrei aqui o nome dela. Eu transformei uma música da época  que era sucesso com um cantor chamado Sérgio Murilo. A música chamava Broto legal.  A Marilda era da chapa Pedro II e, por causa da música, a menina ganhou. Fui conseguindo me destacar.

Desde então, ficou todo mundo de olho em mim porque eu fazia paródia e descobriram que eu cantava. Assim, quando tinha as festas dos dias dos professores, me colocavam para cantar e comecei a me destacar por ser a pessoa que animava as festas do colégio. Depois eu fui para o clássico, mudei de prédio porque na Tijuca só tinha o pessoal chamado Maracangalia  que eram os alunos que iriam até o ginásio. Quando você passava para o clássico e para o cientifico, você tinha que ir lá para a avenida Marechal Floriano onde ficava a grande sede do colégio Pedro II. 

Músicas autorais

A primeira música autoral minha nasceu em razão de uma decepção amorosa. Eu me apaixonei por um rapaz da marinha. Ele estava com compromisso com uma outra moça que estava esperando um filho dele e eu não sabia. Nós estávamos namorando há uns quatro meses. Ele ia lá em casa e namorávamos na sala. Fomos ao cinema duas vezes durante um namoro que eu acreditava ser legal. Um dia,  ele ligou para a escola onde eu morava me disse exatamente essa frase: “Eu vou me casar  em outubro. Eu não falei nada, mas eu vou me casar com ela em outubro porque ela está gravida”. Eu fiquei em choque e comecei a chorar, chorar. Eu fiquei mal, muito mal. O primeiro sofrimento de amor da minha vida foi por causa desse rapaz e por causa dele e fiz o meu primeiro samba, eu me descobri compositora por causa de uma fossa que eu tive em 1965 ou 1966. Foi uma coisa que mexeu muito com a minha cabeça e comecei a fazer música sobre tudo. Sobre o dia a dia, sobre as situações das pessoas que eu conhecia, situações que eu via na rua, e a maioria das músicas tinham uma conotação social. O pessoal dizia que eu fazia música de protesto, que protesto? Eu não sabia que era protesto. Assim minha questão musical começa com o sofrimento.

Sobre a música Zé do Caroço, eu a fiz quando estava dirigindo. Vindo da Zona Sul pra Tijuca, comecei fazer o samba. Eu lembro que as pessoas olhavam pra mim achando estranho porque eu estava  compondo sozinha, cantando e falando. Na hora, eu não tinha um gravador disponível e como eu sou compositora intuitiva, fui cantando até chegar em casa para não esquecer. Cheguei, peguei o gravador e registrei, pois senão eu corria o risco de perder a letra. Eu não sabia que anos e anos depois, no segundo milênio,  a música fosse dá no que deu. 

Zé do caroço foi feita 1978 e só foi gravada 1985 porque ele foi recusado pela minha gravadora. Quando a apresentei, o repórter e me disse que eu estava fazendo um repertório muito pesado. Eu não gravei quando a música foi feita, não consegui gravar. O primeiro grupo que gravou o Zé do Caroço foi o Art Popular em seu primeiro LP, acho que em 93.

O Zé do Caroço é uma história real. Ele morava realmente no Pau da Bandeira, um morro que existe lá no Rio de Janeiro. Zé do caroço ligava o serviço de alto falante  dele por volta de sete, oito da noite. Naquela época, a novela da Globo começava às oito horas mesmo e na rua Petrocochino havia vários prédios e em um desses morava uma família, em que havia um militar . Eles queriam assistir a novela sem  barulho nenhum porque o serviço de alto falante faz barulho. Então, fizeram uma campanha para retirar o serviço de alto falante do morro, mas não conseguiram, porque a comunidade do morro se pronunciou e a polícia não conseguiu encerrar a prática.

Política

Eu não procurei a política, eu fui convidada para ser candidata do PCDOB. Foi o Netinho de Paulo e o Orlando Silva que tiveram a ideia de me trazer. Eu não aceitei no primeiro momento. Eu falei com meu empresário que eu não queria saber de política, eu já dava meu recado através da música e não queria entrar nessa coisa. 

Eu fui ao terreir de axé, ligado à religiosidade de matriz africana, saber o que era isso que estavam me propondo.  A resposta espiritual que recebi foi a de que eu estava fazendo a defesa do seu povo musicalmente, mas agora estava na hora de  eu aceitar um novo desafio. Obedeci e fui eleita em 2010 e depois, reeleita em 2014, em 2018. Eu estou aí no terceiro mandato.

Fundação Palmares

Sobre essa instituição federal, Leci nos relata: “Eu fico muito envergonhada com o que está acontecendo com a Fundação Palmares porque quando ela foi criada, eu estava lá,  com o Presidente Sarney. Foi um momento muito legal para a cultura negra e para os artistas. Eu também estava na lista de pessoas homenageadas. O que me espanta é o fato de o atual presidente  não ter nenhuma noção da importância do debate sobre racismo, e faz questão de não ser o que a gente precisava que ele fosse: uma pessoa com o DNA da negritude, uma pessoa que entendesse as nossas lutas, as nossas conquistas, as nossas necessidades, mas, no entanto, ele só faz coisa para derrotar a gente. Mas ele é pau mandado desse cara aí, porque eu não falo o nome desse presidente, eu não consigo falar o nome dele. Eu falo desgoverno”, finaliza.

Foto José Antônio Teixeira

Edimilson de Almeida Pereira é um homem das Letras

Por Silvia Cristina Silvado, jornalista formada pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), licenciada em Letras e pós-graduanda em Comunicação Pública

Um homem das Letras

Edimilson de Almeida Pereira é um homem das Letras: poeta, ensaísta, professor e pesquisador. Nascido em 18 de julho de 1963, esse mineiro de Juiz de Fora é um dos maiores nomes da literatura contemporânea.  É graduado em Letras, especialista e mestre em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Pesquisa a cultura e a religiosidade afro-brasileira. Também é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Comunicação e Cultura por um convênio entre a UFJF e UFRJ. Completando o rico currículo acadêmico, é pós-doutor em Literatura Comparada pela Universidade de Zurique, na Suíça, além de professor titular de Literatura Brasileira na UFJF. 

Colecionador de prêmios

O autor está entre os brasileiros mais premiados da literatura nacional. Sua coleção de prêmios começou em 1984, quando venceu o concurso de contos “Palavra/Vivani” em sua cidade natal. No ano seguinte, foi o primeiro colocado no “Concurso Nacional de Literatura Editora UFMG” na categoria poesia.

No ano seguinte, foi intensamente premiado. Venceu o “Prêmio João Ribeiro”, da Academia Brasileira de Letras, pela publicação de “Mundo Encaixado: significação da cultura popular” (em co-autoria com a professora Núbia Pereira de Magalhães Gomes/UFJF). 

Também em 1994, e em uma parceria com a professora Núbia Pereira de Magalhães, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), venceu o prêmio “Dr. Antônio Procópio de Andrade Teixeira”, oferecido pela UFJF, pelo conjunto de quatro livros publicados no projeto “Minas e Mineiros”. Ainda nesse ano, recebeu o prêmio “Marc Ferrez”, conferido pela FUNARTE/RJ, pelo projeto de ensaio fotográfico e textos intitulado “Filhos do Rosário em nome do Pai”, também em parceria com a professora Núbia.  

Em 1997, o autor e a professora vencem o “Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular “/FUNARTE/RJ devido ao trabalho “Os tambores estão frios: estudo sobre a tradição banto no ritual de Candomblé em Minas Gerais”. Em 1998, conquistou o primeiro lugar no “Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody”, promovido pela Secretaria Estadual de Cultura do Paraná e o “Concurso Nacional de Poesia Cidade de Belo Horizonte”, da Secretaria Municipal de Cultura. 

Em 2002, venceu o “Concurso Sílvio Romero/FUNARTE/Centro Nacional de Folclore Popular-RJ” com a monografia “A saliva da fala: notas sobre a poética banto-católica do Congado”.

Em 2004, foi o vencedor do “Prêmio Vivaldi Moreira” na categoria “ensaio” com o texto “Os Signos dos Ancestrais: significado sócio-cultural do candomblé em Minas Gerais”.

A beleza do engajamento sutil

Não há espaço nesta publicação para nomear a quantidade de trabalhos do autor, pois sua obra é abundante, com uma extensa lista de artigos e livros publicados desde seus 22 anos de idade, quando estreou no mundo literário com o volume de poemas “Dormundo”. O autor passeia pela poesia, prosa, crítica e faz produções de cunho etnográfico, resultado de pesquisas de campo voltadas a compreender a produção cultural surgida da diáspora africana no país. 

Sua obra, apesar da beleza estética, não se resume à função lúdica. Ele é poeta e acadêmico, e tem o dom de unir universos aparentemente distintos. Apesar da grandeza e pompa de ser um autor de envergadura elevada na cultura nacional, um dos mais importantes autores da literatura contemporânea, é uma pessoa gentil e cortês que nasceu entre trabalhadores e cursou a escola pública, instituição que ele diz ter sido essencial na contribuição para seu amor pelas letras.

“Não há um momento específico que marcou essa minha aproximação à literatura. A soma de vários acontecimentos na vida de uma criança nascida em bairro de trabalhadores é que foi criando as condições para essa experiência. Não há dúvidas, no entanto, de que minha entrada e permanência na escola pública foi um dos fatores decisivos para a descoberta da escrita, dos livros e do universo que podemos acessar através deles”, comenta o autor. 

Sua obra também apresenta uma simbiose entre aquilo que é belo e ao mesmo tempo comprometido com questões sociais, sem estereótipos, sem lugares-comuns. Questionado sobre o papel da literatura nas questões sociais, ele diz que esse é um tema complexo, mas afirma que ela proporciona a liberdade de vivermos o nosso imaginário.   

“Creio que a literatura pode também – mas não somente – desempenhar um papel na análise das questões sociais. Ela nasce de uma estrutura histórico-social, considerando a biografia dos seus autores e autoras, e da aplicação prática da linguagem em nossa comunicação. Isso já demonstra uma interferência da literatura no real.

Porém, penso desde outra perspectiva: se a linguagem é um mecanismo relativo de abordagem do real (ou seja, o que dizemos ou escrevemos não é, de fato, o que foi vivido), há nela uma série de frestas que nos permitem simular outras dimensões de sentimento e de realidade. Essa invenção de outros mundos é, para mim, uma forma radical de vivermos o nosso imaginário e, consequentemente, o nosso desejo de liberdade”. 

Sobre essa liberdade, há de se pontuar que ela aflora quando o autor cria mundos imaginários, porém pautados no real. Com personagens irreais na existência, mas reais na verossimilhança, com suas complexidades tão humanas, o autor desenha com suas mãos que tão bem tecem as palavras, outras possibilidades de mundo.

“Particularmente, penso a escrita literária como uma possibilidade de ver por outros ângulos o mundo em que vivemos. E, além disso, como um desafio para criarmos outras lógicas de mundo. Isso implica dizer que valorizo as contradições, as ambiguidades, as tensões, as rupturas, as disjunções e a polissemia características de uma personagem verossímil. Ou seja, o eu da minha escrita pode até ser, caso desejemos, uma realidade, embora este não seja um caminho obrigatório para a leitura do que escrevo”.

Sobre o papel de sua obra para as questões sociais, ele enfatiza que o saber produzido depende de seus interlocutores para gerar efeito e que sua contribuição reside na proposição de reflexão e diálogo. “A literatura é um saber compartilhado e depende de inúmeros fatores para que os seus significados possam aflorar.

É na troca com o(a)s leitores(a)s e com os contextos histórico-sociais – em transformação – que temos a oportunidade de saber se aquilo que escrevemos tem uma certa importância ou não. Entendo que se há uma contribuição de minha parte, ela reside na tentativa de instaurar um diálogo com as pessoas e com a sociedade na defesa dos direitos humanos, das outras formas de vida e da liberdade de expressão, bem como no combate à violência e a todo tipo de discriminação”, reflete Edimilson.

Sobre a importância de sua obra para a visibilidade negra, ele reflete: “Tenho pensado e escrito sobre as várias dimensões das culturas negras no território da diáspora africana. Esse é um tema que interage com outros que me ocupam como sujeito de um processo histórico abrangente.

O tempo, que é um bom fazedor de antologias (como diz o poeta Iacyr Anderson Freitas) tem participação efetiva na construção do significado das obras que escrevemos. Esse aspecto e o diálogo com outras pessoas – junto das quais tento compreender as nossas histórias – é que vão dizer se há espessura ou não no trabalho que venho realizando”, completa o autor.

Edmilson, que caminha entre mundos diversos, escreve para adultos e crianças e lançou, em novembro de 2021, “O Ausente”, pela Relicário Edições, romance ambientado na paisagem rural. Ausente é o nome da região onde vive Inocêncio, personagem que narra a trama, mas, às vezes, assume o papel de espectador em paralelo com os diferentes ângulos que experimentamos na vida.

O romance une a sabedoria tradicional (Inocêncio é curandeiro) e o conhecimento acadêmico, mostrando ao mundo a união que habita dentro do próprio autor.

Lançadora de sementes

A jornalista mineira Tábata Poline, uma das idealizadoras do programa Rolê nas Gerais, abre espaço para pluralidade e protagonismo das periferias na TV

Por Naiara Rodrigues

Para acalmar uma aluna agitada, a professora Edivirges teve a ideia de passar tarefas especiais e nomeá-la como ajudante em sala de aula. Entre os afazeres estava arrumar a biblioteca da já extinta Escola Municipal Agenor de Sena, que ficava no bairro Fernão Dias, região Nordeste de Belo Horizonte. Dentro da biblioteca, a menina se descobriu apaixonada pela leitura e pela escrita. Entre as brincadeiras da garota, estava a produção de jornais impressos e também seus noticiários que tinham como público cativo amigos e familiares. 

A criança cresceu e a brincadeira virou profissão. A jornalista Tábata Poline, que atua hoje na TV Globo Minas, concorreu, em 2020, ao Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, que figura entre as mais significativas distinções jornalísticas do país. Ela não chegou a ganhar o prêmio, mas, em sua primeira indicação, já recebeu menção honrosa na categoria produção jornalística em vídeo com a reportagem “As faces do racismo”. A matéria foi exibida em junho de 2020 no programa Rolê nas Gerais e traz depoimentos de pessoas que já sentiram na pele o sofrimento do preconceito racial. Na equipe que assina a reportagem, também figuram Renata do Carmo, Saulo Luiz da Silva, Frederico D’Ávila, Saulo Vieira, Jackson Lobo, Marcelo Vianna, Thiago Silva, Valdimar Loiola e Welder Dias.


Entre esses nomes está o do pai de Tábata, o cinegrafista Saulo Luiz, uma das grandes influências da jornalista. Apesar do laço sanguíneo, ela conta que ele a trata como uma colega de trabalho normal mas, ao mesmo tempo, os dois não escondem a satisfação de trabalhar juntos. “Se eu não fosse filha dele, eu ia querer trabalhar com ele. Todo jornalista quer trabalhar com ele. Meu pai é um profissional de excelência. Sendo filha, é um orgulho e privilégio ter meu pai trabalhando comigo, a afinidade do bastidor ajuda 100% neste processo. Nos entendemos pelo olhar”, conta Tábata Poline. 

Ela percorreu vários caminhos até ir para a reportagem. “Trabalhei com assessoria de imprensa, produção de evento, comunicação interna, até que fui chamada para cobrir férias no G1”, conta. Tábata não pensou duas vezes em largar o trabalho fixo para pegar o temporário. Seu potencial e o desejo de diversificar a redação fez com que a emissora a contratasse como produtora na TV após o término da experiência no portal. “Desde o início, eu queria fazer reportagem, o sonho antigo voltou. Mas primeiro tinha o desafio de mostrar que eu não era uma sombra do meu pai, que eu tenho uma identidade. O segundo era que eu me dei uma meta para que em um ano e meio mostrasse que eu era uma produtora excelente. Pus na cabeça que quando chegasse nesse momento iria pedir para ir para a reportagem”. Com muita dificuldade e esforço, conseguiu alcançar sua meta e começou a fazer vídeo reportagens. “A Globo ainda estava num formato bem tradicional, eu nunca tinha feito reportagem, mas eu sabia que eu podia, não dá forma que era feito. Não me via como repórter, não me encaixava naquele padrão, e as vídeo reportagens me ajudaram nisso”, explica.  

O cenário de sub-representatividade negra no jornalismo televisivo tem mudado. Depois de anos, as emissoras começam a abrir espaço para o protagonismo de mulheres negras na TV, como as âncoras Maju Coutinho (Globo), Luciana Barreto (CNN) e Aline Midlej (Globonews). Tábata Poline faz parte dessa geração que ocupa espaço frente às câmeras e na produção, e permite novos olhares e abordagens em redações historicamente composta por pessoas brancas de classe média. “Desde que eu comecei a trabalhar na produção, eu já tentava pautar aquilo que eu não via, tentava me ver ali dentro. Nunca sugeria um tema que não havia inclusão no meio, ou uma tentativa de dar visibilidade a pessoas que não são vistas. Essa foi uma pegada que entendi que era o meu caminho”, relata. “Tem coisa que só o dono da dor que sabe como dói, como diz o samba”. 


“Estou fazendo parte deste momento em que todo mundo entendeu que tem preto nesse país. Somos a maioria desde que esse mundo é mundo, mas as pessoas começaram a entender isso agora, e é um processo capitalista porque se sabe que isso gera dinheiro. Mas não vou julgar as intenções comercias de nenhuma instituição porque eu não estou lá em cima. Eu sou base dessa pirâmide, e estando na base e fazendo parte desse sistema, posso dizer que faço isso como missão. Faço um excelente uso do espaço que conquistei e que a empresa está me abrindo”, explica a jornalista que conta que foi criado recentemente um comitê sobre diversidade na empresa.

Tábata é integrante do Coletivo Lena dos Santos, formado por jornalistas negras, que surgiu para lutar pela representatividade no meio jornalístico. “Os coletivos são fundamentais porque são uma forma de aquilombar politicamente para agirmos estrategicamente”. O coletivo está desenvolvendo um manual para envio às redações sobre readequações necessárias para contribuir no fim de abordagens jornalísticas racistas. Outra iniciativa é que estão montando um banco de fontes negras de diversas áreas. 

A jornalista defende ainda que a representatividade sem alcance, política pública e reparação histórica não adianta nada. “É lindo ver a Tábata na TV, mas eu sou minoria. Se uma menina que mora do lado da minha casa, no Mandiroba, que é a favela em que eu cresci, me enxergar na TV e pensar eu quero ser repórter, que lindo que eu posso influenciá-la. Mas com escola da periferia sem cultura, sem lazer, sem alternativas para que ela consiga alcançar uma universidade, permanecer, conseguir se formar e depois conseguir uma inserção no mercado de trabalho… vai ser muito custoso. Então representatividade é uma questão importante neste momento, mas é um passo pequeno. A gente ainda está engatinhando no debate da luta antirracista no Brasil. Porque foi preciso chegar em 2020 para começarmos a entender sobre representatividade e até isso virar política pública ainda vai demandar muito”, analisa.

A jornalista ressalta que a luta antirracista precisa ser uma causa de todos, inclusive de pessoas que não sofrem racismo. “Temos conquistado muitos aliados, mas ainda cansa e esgota você ter que bater na mesma tecla, saber que estamos ainda engatinhando, mas penso numa questão que me move que é o legado”. O legado ela vê em suas afilhadas e primas, que já desde criança demostram consciência racial e a autoestima que já permitem se reconhecerem como mulheres negras.

“Eu tenho duas afilhadas e primas, Mariana, 5 anos, e Valentina, 3 anos. Mariana tem a pele mais clara que a minha, mas tem o cabelão deste tamanho, nariz largo, bocão, então sempre reforçamos isso. Um dia minha tia me manda mensagem: “Tábata, você não sabe o que Maria disse na escola. A professora falou, Mari precisamos de prender seu cabelinho pra você brincar porque ele está cheio. E ela falou, não põe a mão no meu black, meu black é lindo e poderoso. Ela tem 5 anos. Por mais que meu trabalho seja pequeno, eu faço por isso”, conta a jornalista que acredita que o momento em que vivemos é de pavimentar caminhos. “Está vindo uma geração muito potente, muito forte e elas fazem parte. Estamos correndo atrás de um tempo perdido”, avalia. 

A jornalista que valoriza o poder da comunicação entende que o trabalho que realiza hoje no programa Rolê nas Gerais permite produzir denúncias e pautas propositivas sobre as periferias da cidade. O programa celebrou um ano em outubro. “Na pandemia, a gente chegou a pensar em parar porque não queria colocar nem as pessoas em risco nem a gente. Mas entendemos que isso se tornou importante”, diz Tábata que informa ainda que seguiram as gravações cumprindo os protocolos de segurança.  

Ela ressalta que a menção honrosa que ganharam contribuiu para renovar as energias e dar força para a continuidade do trabalho desenvolvido pela equipe que, apesar de estar em uma grande emissora, é um programa de baixo orçamento produzido por uma equipe reduzida, porém competente e em sincronia. “Quando a gente pensa em representatividade, reparação histórica, novas narrativas jornalísticas, novas formas de se fazer comunicação, o Rolê é muito grande e é muito gratificante fazer parte dele”, afirma a jornalista que revela ainda que o programa tem sido objeto de pesquisas dentro da comunicação por sua inovação. “Tenho tido um retorno muito grande porque a gente tende a valorizar mais quem está à frente na televisão, mas, mesmo nos bastidores, a gente sente um orgulho de fazer parte deste momento que estamos vivendo que é um momento histórico e irreversível. Porque é um movimento da favela para o asfalto”, destaca.

Para além do programa, Tábata tem muitos projetos para o futuro. Ela revelou que passará a produzir reportagens também para o Fantástico, programa dominical da Globo que está entre os principais da emissora. A jornalista também tem atuado como palestrante abordando temas sobre a reparação histórica e dividindo experiências de vida em empresas e instituições de ensino. Entre seus planos, também está o lançamento de um livro infantil e a produção de três documentários, sendo um deles sobre a Academia Transliterária, coletivo de artistas literários, difusão e protagonismo da arte e cultura da comunidade LGBTQIA+, principalmente de travestis, transsexuais e transgêneros. Ela conta que quando abordaram a história do grupo em um dos programas recebeu um grande número de mensagens de ódio por meio das redes sociais. “Não vou dizer que isso não me afeta porque afeta, mas não me impede de continuar”, ressalta. Atualmente, ela também está fazendo uma pós-graduação em Diretos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global. “Ela está abrindo minha visão para outros projetos que ainda vão surgir” conclui.

Fotos: Ricardo Laf

A cultura na pandemia

Artistas refletem sobre o impacto do coronavírus nas suas produções e no cenário cultural

Por Roger Deff

A pandemia do covid19 causa efeitos devastadores em todos os segmentos da sociedade, embora, sabidamente, o impacto é maior entre a população negra e pobre. A cultura, assim como os demais setores, sente o impacto em toda sua cadeia produtiva, formada por, além dos artistas, técnicos, gestores e uma gama de outros trabalhadores. Diante deste cenário, conversamos com artistas e produtores de Belo Horizonte­ para que possamos compreender melhor como isso afetou a arte negra no teatro, na música, na dança e no planejamento dos eventos. Lira Ribas (atriz), Victor Magalhães (produtor cultural) e Heberte Almeida (músico) trazem suas impressões apresentando um panorama de como a pandemia atinge, sobretudo, artistas negros e/ou ligados à produção nas periferias da cidade.

Teatro

Além do teatro, Lira Ribas tem forte relação com o carnaval belo-horizontino, a exemplo do bloco Magnólia, um dos mais conhecidos dessa retomada da festa de rua na cidade. Em sua fala, ela apresenta o olhar de quem vive da arte e problematiza a continuidade do teatro diante das restrições.

Lira Ribas – Crédito: Acervo pessoal

 “É um momento de se repensar a forma como a gente trabalha com arte. Eu sou das artes cênicas e o que o teatro tem de mais especial é essa coisa do acontecer no momento, do agora, do presente, da troca. Quando você passa a filmá-lo e passar num outro tipo de plataforma, numa linguagem que não seja aquela da troca presencial, deixa de ser teatro, passa a ser outra linguagem. Eu, enquanto atriz, trabalho com o teatro e o audiovisual também; são duas artes da atuação, mas de linguagens diferentes. Então a gente tá repensando como é que o teatro sobrevive a tudo isso. O teatro já é uma arte underground, ele já tem esse lugar que não aborda e não acessa todas essas tecnologias atuais. O acontecimento teatral se dá nestes corpos presentes, então tem sido bem complicado, mas a gente tem que repensar”, pontua a artista que aborda também a produção do teatro negro na cidade­­ que tem ganhado visibilidade graças ao esforço coletivo que gerou eventos relevantes como o Segunda Preta.

“Eu acho que dá uma esfriada porque tava um movimento grande, como em BH, destes corpos pretos, mas ao mesmo tempo, isso fortalece a gente querer fazer. Eu acho que precisamos deste momento de reflexão até pra entender também o que temos feito no teatro. E isso tem sido muito importante pra mim”, reflete.

Solidariedade

Além das questões estruturais, Lira enfatiza também a importância da solidariedade neste momento. “O mais importante é a gente se ajudar porque as pessoas das artes, do teatro precisam bastante deste trabalho pra pagar as as contas e, principalmente, artistas negros e negras que estão nessa função e que de fato, sem o trabalho e a grana pra se sustentarem, fica mais difícil ainda. Então eu tenho tentado participar de algumas campanhas porque eu tô aqui com minha mãe, minha irmã e, como tenho esse apoio, fico tentando ajudar essas outras pessoas de alguma forma. Mais do que se pensar só no trabalho, tenho pensado também em ajudar, pensar como a gente se apóia. Porque nessa história de ninguém solta a mão de ninguém tem um tanto de mão solta, e que não é abraçada, e não é agarrada, e acho que é o momento de a gente pensar isso também”, diz.

 Diante do atual cenário, Lira Ribas traz também pontuações importantes sobre o carnaval de BH, que se tornou um dos principais carnavais do país, com expressiva participação popular.   “E tem o carnaval. E como a gente tem estes trabalhos, como o Magnólia, como é que a gente faz sem as aglomerações? A gente tem grupos, tem se reunido online e feito mudanças, até conceituais mesmo, exatamente por essas coisas que a gente tem passado. E tentando ver quais editais futuros podem nos ajudar. Mas isso é futuro, e a gente não sabe até que ponto isso vai acontecer”, conclui. 

 Música

O compositor e instrumentista Heberte Almeida tem uma longa trajetória, sendo integrante da banda mineira Pêlos, originária do Aglomerado da Serra e que completa duas décadas este ano, além de ter atuado em projetos como o Manobra, o Diplomatas e como guitarrista da músico Nobat. Além de todas essas funções, em 2020, Heberte lançou seu primeiro disco solo, intitulado “Negro Amor” e os shows de divulgação foram interrompidos pela pandemia. O artista relata como o covid19 afetou seus trabalhos e fala sobre o impacto na periferia de Belo Horizonte.

Heberte Almeida para divulgação de seu álbum Negro Amor – Foto Deise Oliveira

“A gente tinha algumas datas marcadas. Tinha um show com o Negro Amor (projeto solo do artista) no teatro Espanca, tinha um show do Diplomatas na Salomeria, e também ia tocar com o Nobat, fazendo a abertura do show do novo disco do Lô Borges. Então eram três eventos bem legais, mas foram todos desmarcados. E tinha também uma proposta pra uma série de eventos pra comemorar os 20 anos do Pêlos, que iria até o final do ano. Agora a gente não sabe de fato se essas coisas vão acontecer. Então, de forma direta, o impacto foi muito grande pra mim. Agora é aguardar. E tem o impacto financeiro também porque as apresentações que estavam previstas não vão acontecer”, explica. Apesar dos projetos adiados, o músico tem buscado outras formas de divulgar o seu trabalho.

“Eu tenho feito algumas coisas neste período. Divulgando coisas que eu fiz, coisas que estou por fazer. Então, estou fomentando a minha comunicação com o público pela internet. É uma forma de manter a coisa funcionando”, esclarece.

A pandemia na periferia

O artista traz também observações sobre o impacto na periferia, de como isso agravou estruturas sociais já precárias. “Pensando no Aglomerado da Serra, nas questões que envolvem a negritude, as questões raciais e as questões da desigualdade… Eu vejo cenas hoje que eu não via há muito tempo, cenas que eu tinha talvez só na memória, da infância. Tipo, um monte de gente fazendo fila pra receber cestas básicas, né? Eu lembro quando criança do ticket do leite, acho que eu ia com a minha mãe algumas vezes e isso ficou na minha memória. E, neste momento, a população negra e pobre fica ainda mais desamparada”, afirma.

Heberte reflete sobre o impacto que o atual momento trará às suas criações. “Pensando num contexto mais amplo, pra nossa geração, um impacto importante é pensar que o futuro está em xeque mesmo. Por várias razões, especialmente porque o negro tem sempre o futuro ameaçado pela questão do racismo. E, por uma questão que a gente não consegue controlar, a situação na pandemia antecipa uma idéia de finitude que talvez viria com uma mudança climática, com o impacto dela sobre a nossa vida. Eu acho que este é um novo paradigma que essa pandemia traz. E eu penso que artisticamente nas coisas que for fazer, isso vai estar presente”, conclui.

O Hip Hop e os eventos na rua

Victor Magalhães em evento do Palco Hip Hop no Centro Cultural Urucuia – Foto: Pablo Bernardo

O produtor cultural Victor Magalhães é criador do Palco Hip Hop, um dos mais importantes festivais voltados para a arte de rua no país, priorizando sempre as danças urbanas. Este ano, o evento estava programado para acontecer em três etapas. A primeira aconteceu em janeiro, as outras seriam realizadas no meio do ano, nas regiões periféricas da cidade. “O Hip Hop foi afetado diretamente por ser uma cultura de rua, então o impacto é muito grande, dentro de toda a sua cadeia produtiva. A gente tá sentindo ainda o processo de entender ainda qual é esse impacto”, informa.

Produtor com mais de 10 anos de estrada, Victor avalia um possível cenário de retorno dos eventos, bem como das adequações necessárias. “O Palco Hip Hop ainda é muito incerto, mas eu acredito que os eventos culturais, se forem liberados ainda este ano, serão totalmente renovados. Eu acho que será aplicada uma nova instrução normativa para a regulamentação de cada cidade e dos Estados sobre os eventos culturais para que se evite o contágio, então acredito que será um público muito menor em relação ao que os eventos esperavam, e que aglomerações acima de 300 ou 500 pessoas não serão permitidas este ano por essas medidas preventivas. No caso do Palco, a gente pensa muito nisso durante este processo porque nós somos um projeto realizado em sua maior parte nas periferias, o que é muito sério devido à infra-estrutura desses locais. Então é muita responsabilidade porque podemos desencadear um contágio em massa dentro dessas comunidades. Estamos acompanhando todas as notícias e pensando como vamos nos portar neste momento dessa volta e se realmente a gente irá conseguir fazer o evento in loco este ano, ou talvez a gente aguarde o momento e realize no ano que vem, mas ainda é muito incerto tudo, não só pro Palco Hip Hop, mas para o cenário de produção cultural de Belo Horizonte e de todo o país”, conclui.

Roger Deff é MC Belo-horizontino, artivista, jornalista, mestrando em artes, com pesquisa sobre o Hip Hop e colaborador de diversas ações pela cultura na cidade.

A arte e a diáspora de Jorge dos Anjos

Por Well Mendes – Jornalista

Na Saramenha de 1957, em Ouro Preto, bem ao lado da fábrica de alumínio, nascia Jorge dos Anjos, o artista que alia suas raízes à linguagem que constrói ao longo de obras versáteis e expressivas. Desde pequeno, cresceu na vila operária. O pai, que era funcionário na fábrica, sempre percebeu a potência dele para a arte.

Mas não foi só a figura paterna que notou e incentivou o talento do artista nos primeiros anos. Já no ensino fundamental, a veia artística pulsante e o talento inegável chamavam a atenção na escola. Ainda menino, à beira dos sete anos, já sabia que seria pintor. Sem perder tempo, aos oito, começou a ter aulas particulares de pintura no centro de Ouro Preto.

Aos treze, decidiu mudar sua rotina em função do sonho: passou a estudar o ensino regular à noite para se dedicar à arte e estudar na Escola de  Arte  Rodrigo  Melo  Franco  de Andrade, criada por Annamélia e Nello Nunes que, em 1969, foi integrada à recém-criada Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP). Lá, estudou até os dezoito anos e, depois de formado, lecionou arte por 15 anos.

Uma característica marcante de Jorge dos Anjos é a versatilidade de suas obras. Começou com desenho quando era criança, mas logo percebeu sua paixão pela pintura à qual se dedicou. Mesmo utilizando a pintura como linguagem, continuou utilizando outras formas de expressão. Sempre desenhou bastante e frequentou cursos de desenho, fez xilogravuras e gravuras em metais. Sua curiosidade o levou a fazer modelagem e um pouco de escultura, além de um curso de restauração de obras. Porém, naquele período, sua linguagem principal era a pintura.

Durante o tempo de estudo e docência na escola de arte,  conheceu algumas das referências que leva para a vida e que foram importantes para a construção de sua linguagem artística:Jair Afonso Inácio que, embora não tenha ganho reconhecimento como pintor, era um grande restaurador e pintor. Outro artista fundamental em sua trajetória foi Nello Nuno com quem aprendeu que podia ir além com o pincel. “Aprendi com o Nello que eu podia, além de retratar e observar a paisagem, contar histórias e fazer poesias através da pintura, o que abriu meu horizonte”, conta.

Outra referência é Ana Amélia, sua primeira professora de desenho. Foi marcante por ter lhe concedido uma orientação fundada nos valores da linguagem e das reflexões que são feitas a partir da observação. Além dela, Amílcar de Castro também foi fundamental para Jorge, principalmente pelo trabalho que ele desenvolve hoje, de escultura e composição.

Vinda para a capital

Jorge mudou-se para Belo Horizonte em 1998, já com três filhos. Tinha se separado e estava difícil viver em Ouro Preto.  Lá, já trabalhava com escultura, porém não via espaço para seu trabalho naquela cidade histórica. A busca por um espaço para realizar seu trabalho da forma como gostaria de realizar foi um dos motivos que o levou a vir para a capital mineira. “Eu precisava de uma metrópole, de uma relação com a arquitetura, com a cidade”, conta.

Embora tenha começado com o desenho, a relação que construiu com a escultura foi um processo natural. “Foi a partir do desenho, porque o desenho é uma maneira de pensar. O desenho que me levou à escultura. E a escultura é a linguagem que eu vim desenvolvendo de lá para cá”.

Quando questionado sobre o motivo que o levou a construir esculturas com o aço,  explica que o aço lhe permite fazer monumentos maiores, que ocupam uma porção maior do espaço público. “Acho que é minha vocação na escultura. E acho que tem uma relação com o Amílcar de Castro, que também é uma das minhas referências”. Entretanto, não é só com o aço que Jorge trabalha. Também usa outros materiais como a madeira e a pedra sabão. Muitas coisas que ele produz são misturas de pedra sabão com aço.

Segundo ele, as peças são feitas de forma livre. Durante o processo – e dependendo da demanda –, não se prende ao lugar para onde as peças vão antes de fazê-las ou se alguém vai comprá-las. Ele as cria livremente, prezando por sua liberdade artística na criação. Quando a demanda é específica para espaços públicos, com as áreas definidas, o artista trabalha com peças que ocupam o espaço em uma escala maior.

A ancestralidade nas obras

A trajetória de aprendizado e de incorporação com a cultura negra é pulsante no trabalho de Jorge dos Anjos, e as raízes africanas em suas obras decorrem de seu processo de aprendizagem na arte. Desde o começo, aprendeu com Nelo Nuno que podia contar histórias com a pintura, e criar narrativas próprias e únicas com seus trabalhos. Isso o motivou a ter obras mais representativas e a questionar suas pinturas. “Por que não poderia ser uma pessoa negra na pintura?”, questionava. Enquanto, para ele, essa incorporação foi um processo, para Amílcar de Castro a ancestralidade negra já estava presente na linguagem das obras de Jorge.

Desde os 14 anos, sempre busca essa incorporação da cultura negra nas obras como escolha. Foi algo que sentiu vontade de resgatar. Com o tempo e a maturidade, conseguiu chegar próximo daquilo que buscava em suas primeiras obras representativas. E não parou: até hoje continua buscando a ancestralidade, se aprofundando e criando a partir de referências culturais negras.

Durante sua trajetória, Jorge teve contato com a obra de Rubem Valentim e viu que o artista também trazia referências africanas assim como as que ele buscava, despertando familiaridade com o artista.“Eu também fui buscar nas fontes da cultura africana. Eu fui ao Candomblé ver referências, fui ao samba, tudo era referência”, pontua.

Desde pequeno, sempre teve apoio dos familiares para sua arte. Quando começou a pintar, ainda na escola em Ouro Preto, utilizava a estrutura que a instituição disponibilizava, por isso não precisou financiar materiais próprios naquela época, o que foi importante para sua carreira artística.

Quando começou a trabalhar com esculturas, queria fazer peças em aço, mas não tinha como custear todo o material, que é mais caro. A partir daí,  começou a aliar sua visão empreendedora com o anseio de produzir obras maiores, em outros materiais. Começou a utilizar o dinheiro que recebia com a pintura e com outros trabalhos, como aquarelas, para pagar as contas e os materiais que precisava. “O resultado de uma venda era para fazer mais obras”, explica.

Inspirações para o formato

O formato das esculturas de aço de Jorge dos Anjos é baseado nas raízes da herança africana, mas também tem raízes no construtivismo e na organização do espaço, algo influenciado pelo trabalho de Amílcar de Castro. Jorge afirma que o impulso também está em seu âmago. “Vem muita da africanidade, que não é do pensamento, mas de uma coisa que vem do umbigo, das entranhas e da memória, e é outro valor que eu coloco dentro da construção”, explica. Para ele, a inspiração vem da vida, das relações afetivas, das paisagens, do local de trabalho, do convívio com as pessoas, da cultura e da vida.

Jorge não tem ideia do número de peças que produz porque não contabiliza. Também não possui nenhuma peça preferida, embora o Portal da Memória seja uma escultura importante para ele, para a comunidade e para a religiosidade.  “Quando o outro se vê na minha obra, pra mim é importante”, festeja.

Para artistas que estão começando agora, Jorge tem uma dica importante sobre como se encontrar artisticamente. “Eu acho que tem que buscar ver as coisas que estão sendo feitas, o autoconhecimento, os elementos dentro do seu próprio universo. Não há uma receita. Tem que buscar a motivação dentro da sua vivência, da sua cultura e até do lugar em que você vive. E isso é a vida inteira. Não só pra quem tá começando, mas pra quem já tá no meio também”, sugere o artista.

Antônio Pitanga:”Gosto de trabalhar com os contragolpes”

Por Moises Mota – Repórter especial para a Revista Canjerê

Há quem diga que ser ator é algo similar a um sacerdócio. Há outros que pensam ser o ator um Deus. Tem outros que pensam ser a melhor profissão do mundo. Mas quem, na verdade, se atenta para o verdadeiro valor artístico do ator? O artista Antônio Pitanga narrou suas memórias em seu documentário e mostrou ao público a atualidade de sua biografia e luta política, mesmo com suas histórias narradas a partir da década de 50.

Antônio Pitanga esteve em Ouro Preto – na terra de Chico Rei – para apresentar o documentário “Pitanga”, lançado em 2016, dirigido por sua filha Camila e Beto Brant.

PS: Essa entrevista foi realizada em 2017, durante a Mostra de Cinema de Ouro Preto. Na época, Antônio Pitanga foi capa da 7ª edição da Revista Canjerê que era disponibilizada apenas impressa e em PDF. Agora que temos o nosso portal, resolvemos republicar a entrevista por se tratar de um importante material para estudos.

Durante o encontro, o ator predileto de Glauber Rocha no Cinema Novo falou sobre o movimento negro, as artes, o mercado audiovisual e um dilema muito presente: ser ou não ser uma referência para os mais jovens atores negros no que tange à negritude em cena.

Aproveitou a oportunidade para clamar a todos por uma unidade na luta e no pensar o negro na sociedade, unir as forças para formar uma luta diária, contínua, que é fundamental para se alcançar a necessária igualdade entre as raças.

Durante o encontro, Pitanga trilhou muitos caminhos e abriu muitas portas. Incomodou. Fez propostas e ministrou roteiros. Tudo em um pequeno espaço temporal, mas infinitamente grande em carga emotiva.

Questões brotaram desenfreadamente após o encontro e uma delas serve como chave para essa discussão: quem o ator pensar ser e quem é para aqueles que o olham e o observam em cena? Em seu trajeto biográfico, marcas ficaram em si e nos outros, aqueles que transitaram entre mundos. Toda essa trilha vai além quando se trata de um ser militante em relação ao seu pertencimento racial que motiva a busca incessante e incansável pelo empoderamento, luta de classes e combate ao racismo.

Pitanga é aquele que luta quando levanta e, mesmo deitado em sono profundo ou efêmero, expõe para outros a sua luta, a sua busca e a sua história. O soteropolitano, pai de Camila e Rocco, tem dessas coisas e é uma viagem à nossa história-recente, ao longe-perto e um puxão de orelha naqueles que não sabem ainda como fazer ou como começar a sua luta, já que viver é necessário e lutar mais ainda.

A entrevista iniciou-se com o ator relembrando uma frase de sua autoria em que ele disse ser: “uma fruta que dá em tudo que é canto; às vezes é azeda, às vezes é doce, mas sempre boa de chupar”. Indagado sobre essa frase e, após um largo sorriso, esclareceu que não pretende agradar a todos, pois tem suas posições políticas, raciais, culturais e de vida muito peculiar. Por isso ainda crava a seguinte sentença. “Não estou aqui para agradar e fazer concessões que não estejam de acordo com meus posicionamentos”, e acrescenta: “Não estou aqui para bater palma para o maluco dançar. Aí eu sou azedo, sou bom de briga.

OURO PRETO/MG 24.06.2017 – CINEOP – MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO – Antonio Pitanga. Foto: Leo Lara/Universo Producao

Quando não se rompe com os princípios de hombridade, honestidade: sou doce”. A vida o ensinou a ser capoeirista mental, a entender que não é dono da verdade nem senhor dos golpes. “Gosto de trabalhar com os contragolpes”, explica. E ser bom de briga é ação fundamental para estar em sociedade, para estar em luta. Esses dilemas são muito presentes em sua história, uma vez que frisa sempre ser “um negro em movimento”.

Sobre referenciais em sua vida, o ator aponta muitas pessoas como Luiz Gama, Milton Santos, Lima Barreto, Luiza Mahin (sua mãe), Maria da Natividade, Juliano Moreira, Machado de Assis, Nina Rodrigues, Eduardo Ribeiro, Castro Alves, Glauber Rocha, Abdias Nascimento, Léa Garcia, Ruth de Souza e o Teatro Experimental do Negro. “São referências para se seguir ou não; eu prefiro seguir”, destaca.

Ele se angustia em relação ao fato de muitas dessas pessoas terem caído no esquecimento, pois, em sua ótica, isso prejudica o estudo sobre a identidade negra nos dias de hoje, bem como a formação da raça negra, do cidadão brasileiro. “Estou falando de uma coisa real; quando eu falo de Lima Barreto, estou falando de literatura”, acentua. As referências são presentes na vida de Pitanga, que chama todos à importância de se conhecer e seguir essas grandes figuras da cultura negra nacional.

Sobre o documentário que leva seu nome, informa que é a mostra de um Pitanga que estava guardado a sete chaves em um baú e que é revelado como um cidadão contando a história própria, a de seu povo, a de uma raça e a de um país.“Se referência é isso, eu sou referência”, sentencia. Aceitar seu papel de referência talvez não seja algo muito fácil, pois junto com esse cargo vêm inúmeras necessidades que estão intrinsecamente ligadas.

A responsabilidade que acompanha o “ser referência” é fardo pesado. Eu sigo porque é bom. Sendo bom, eu usufruo e posso compartilhar. Uma vez reconhecido como tal, é fato incontestável sua importância para uma multidão, incontável. E é incontrolável essa reverberação do ser em cena, do mise-en-scène na vida real”, explica.

O pensamento do ator é fiel às suas convicções e se embrenha pela ideia de que a história do negro no Brasil ainda não foi devidamente contada, fato que considera ruim porque a participação negra no país é muito forte.

Cita como exemplo o caso de Ouro Preto, cidade onde foi entrevistado, e comenta: “Ouro Preto, como as Minas Gerais, têm muito a contar. A participação negra nestas Minas Gerais foi bastante forte. É preciso que a negritude mineira, principalmente a de Ouro Preto, escancare os portões, essas cortinas, e conte a sua história. Eu posso falar da história baiana porque eu a acompanhei bem, nasci na Bahia. Nós temos muito a contribuir com a história nacional. Principalmente a que está fora desse eixo Rio–São Paulo, como Ouro Preto, Sabará, Tiradentes”, fala e em seguida acrescenta que em Florianópolis existe o marketing branco, mas a população daquela cidade soma mais de 45% da raça negra.

A respeito do mercado audiovisual em relação aos atores negros é enfático: “O mercado somos nós. Eu sou uma pessoa que sempre entendi que não preciso do branco. Dependo de mim, da minha capacidade. No momento em que eu espero que o branco me dê emprego e que diga que sou um bom ator, eu estou errado. Eu tenho que acreditar e estudar para isso, ser reconhecido pelo negro”.

Se mostra satisfeito com o trabalho da repórter negra, Maria Júlia Coutinho, na Globo e, também, com o de Lázaro Ramos, que são ícones do reconhecimento do talento e da força da figura negra no cenário midiático. “Mas não estão lá como indivíduos, e sim como família, como um coletivo, uma representação de nossa raça”, assegura.

Sua visão leva a crer na necessidade de mais ações que tragam visibilidade aos profissionais da raça negra e que essas ações passem especialmente pelos negros. Trata-se de um complexo dinamismo a ser conquistado com raça e consciência de classe. “Nossa liberdade ainda não foi inteiramente conquistada, então por que pensar que foi dada? Está livre! Livre como? Com uma mão atrás e outra na frente? Então a gente ainda tem essa paga de séculos. Eu, melhor do que ninguém, sei. Tive uma criação muito pobre, mas essa consciência nós tivemos. O que me cabe neste latifúndio? Você quer ficar ali mesmo? Empregado serviçal? Não, não quero. Basta minha mãe que ocupou essas funções para me criar”, finaliza, deixando evidente que todo instante é momento para ações em prol da conquista do devido espaço do povo negro, no Brasil e no mundo.