Mestre Conga: memória viva do samba de Belo Horizonte

Por Naiara Rodrigues – Jornalista

Com origem na língua africana quimbundo, o termo “bamba” têm como significado exímio, mestre, e é muito comum no samba. Em Belo Horizonte, um nome pode substituir essa palavra: Mestre Conga. Não é possível falar da história do samba na cidade sem mencioná-lo. Aos 95 anos de idade, José Luiz Lourenço – nome de batismo – segue exalando seu carisma e a sabedoria de quem atravessou, de carnaval a carnaval, quase um século de vida.

Nascido em 1927, em Ponte Nova-MG, ele veio ainda criança para a capital junto com os pais, morando na então Vila Brasilina (atual Sagrada Família). A sua relação com a música veio do tempo em que frequentava a Guarda de Congado Nossa Senhora do Rosário, no bairro Floresta, quando tinha por volta dos onze anos e desfilava usando seu uniforme branco de fitas coloridas. “O congado me pôs no caminho, inclusive meu próprio apelido vem dessa época, da molecada. Era Conga e Conguinha, porque eu e meu irmão mais novo fazíamos parte da Guarda”, explica.

Ele lembra que era motivo de piadas quando passava pelo bairro. “Eles ficavam encarnando em mim e no meu irmão, a gente achava ruim, mas acabou ficando. Apelido quanto mais você acha ruim mais pega. Depois, ao invés de eu reclamar, passou a ser uma tradição”, conta rindo da lembrança de infância. “Eu já fazia cultura sem saber que estava fazendo cultura”, reflete. 

Até que colegas de futebol e do juvenil do bairro Concórdia começaram a fazer aulas de dança. “Oh, Conga, descobrimos um lugar ótimo pra aprender a dançar, vamos lá também? Eu já tinha vontade de aprender, né, e sabe onde era? Ali onde é o hoje BH Resolve”. O espaço ficava na Rua Caetés, Centro de Belo Horizonte, e se chamava A Rádio. Oferecia aulas de dança de salão, de segunda a sexta, das 20h às 23h, e bailes dançantes, nas noites de sábado e domingo, os quais Conga não podia frequentar inicialmente por ser menor de idade. 

Mestre Conga – Foto: Mauricio Costa e Gi Oliveira

Pé de valsa

A dança foi uma nova paixão na juventude. Com a perda do pai, aos 16 anos, o adolescente acabou ficando mais solto. “A mãe, mesmo com toda autoridade, num aguentava segurar a gente”, relembra Conga que era um dos dez irmãos da família. “A gente ia aprendendo, e naquela época dançava de segunda a segunda”. Ele conta que juntava com a turma na porta da Rádio, e quando um não tinha dinheiro para pagar a entrada o outro completava.

“Aprendi a dançar pro meu gasto, mas a gente era menor. Sábado e domingo tinha muitos bailes em casa de família, principalmente ali no Concórdia. A gente era pobre, operário, mas caprichoso. Naquele tempo, as moças admiravam a gente mais pelo modo de vestir. Fulano tem dois ternos, fulano tem três ternos”, relembra rindo.

Sempre elegante, entre as roupas favoritas de Mestre Conga estavam terno tropical azul pavão, terno casimira azul marinho, gravata branca e, quando era calor, terno de linho. “Naquela época, usava muito o terno panamá e a gente, modéstia parte, vestia bem”, conta.

O centro concentrava um circuito boêmio da cidade, onde funcionavam cabarés e clubes de dança com samba, rumba, mambo, foxtrote e tango. Alguns deles como o clube Montanhês, eram de dança picotada, ou seja, se pagava por dança. “A cada dança, a bailarina picotava. Dançava uma música e picotava. Quando a dançarina ia com a cara da pessoa, ela deixava passar três, quatro músicas e dava um picote”, afirma.

Ele comparecia mais no Original Clube do Barro Preto, fundado e frequentado por negros. “Não entrava sem gravata e sem paletó. Era um clube bem elegante, principalmente para nós da raça negra. O preconceito racial e social era bem maior. Hoje está mais mesclado apesar da supremacia branca”, conta ressaltando que era exigido que estivessem bem vestidos para entrar.

Ele lembra que os movimentos de ocupação das ruas foram retomados com o fim da II Guerra Mundial (1939-1945). “Até 1945, quando ainda havia Guerra, não podia ter movimento de rua, o movimento era só em clubes, depois que a guerra acabou que voltou a pipocar”, explica.

Mestre Conga, em 2018, na celebração dos seus 91 anos no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado – Foto: Ricardo Laf

O caminho para o samba

Frequentando a gafieira, Conga fez amigos que o convidaram para participar da sua primeira escola de samba, a Surpresa, criada em 1946, na Lagoinha. Depois, conhecendo amigos da Floresta, foi para sua segunda escola, a Remodelação da Floresta que surgiu de um racha na Unidos da Floresta. “Nessa época, não compunha ainda, era passista. Uns fala passista souto, outros fala batuqueiro, e aí eu fui ficando conhecido e ganhei um concurso do Cidadão do Samba, do Diário dos Associados, em 1948”. Para participar do concurso, primeiro Conga passou pela peneira dentro da escola Remodelação da Floresta – cada escola apresentava um candidato. Ele concorreu entre as 16 escolas do ano.

Conga decidiu juntar com amigos para criar a própria escola, no bairro Concórdia. Fundada em 1950, a Escola de Samba Inconfidência Mineira veio a rua em 1951 e terminou em 2010. “Foi fundada, mas incialmente sem documentação nenhuma, naquela época a gente tirava só uma licença na Polícia Central. A gente tirava e desfilava”, conta, lembrando que no ano participaram de batalhas no Floresta, Renascença e Cachoeirinha. “As batalhas eram um desfile concorrendo a um prêmio, só que na época os prêmios não valiam tanto a pena. A gente saía do Concórdia e ia lá pro Santa Efigênia pra ganhar uma taça, um troféu. Depois passaram a dar uma ajuda de custo”, explica. “A gente montava os uniformes. Bateria com calça branca, blusa vermelha e preta. Até então as escolas não desfilavam apresentando enredos”, afirma.

Imagem histórica do carnaval de Belo Horizonte de desfile da Escola de Samba Surpresa – Foto: acervo não identificado

Revolução no Carnaval mineiro

Conga foi o responsável pela introdução do samba enredo em BH. Entre 1952 e 1954, o sambista morou no Rio de Janeiro, tendo contato com esse formato nos desfiles cariocas. “Quando eu vim, eu tinha visto os desfiles das escolas de samba de lá apresentando enredo, e aí eu vim já com essa ideia. Quando cheguei aqui, aí os colegas viram: “Conga está fazendo uma novidade lá, vamos fazer”. Aí começaram também. Nós apresentamos Tiradentes, uma outra apresentou Princesa Isabel, e aí foram apresentando sucessivamente”, relembra.

Em sua passagem no Rio de Janeiro, Conga ainda teve contato com o teatro. “Foi lá que fiquei conhecendo a turma: Solano Trindade, Abdias do Nascimento, e vários outros. Participei mais do grupo do teatro popular e folclórico do poeta Solano Trindade”, fala lembrando que pelo artista ser comunista sofria muita perseguição da polícia.

Dificuldades das escolas 

A Inconfidência Mineira chegou a ser pentacampeã entre 1959 e 1963. “A escola era muito boa, tinha muitos componentes, vários diretores. Contamos pentacampeã porque teve uma época que não teve carnaval de rua, então contou com esse tempo”, diz. Ele destaca que a instabilidade das políticas públicas para o carnaval da cidade prejudicou muito o desenvolvimento das escolas. “Teve uma época que o carnaval não era oficial. Um prefeito que estava no poder fazia o carnaval, quando ele estava pra sair, ele num fazia porque estava saindo. O que entrava também não fazia porque estava entrando, e ficou aquela dança. Todo ano de mudança de prefeito não tinha carnaval. Tinha o carnaval que as pessoas mesmo faziam, mas desfile de bloco, de escola, não tinha porque não tinha investimento, não tinha ajuda”, reclama.

“Os blocos eram mais constantes porque também a despesa deles era menor.  Escola de Samba tinha despesas maiores, formadas mais por trabalhadores de salário mínimo que, quando não contava com a verba da prefeitura ou qualquer outra ajuda, não conseguiam desfilar e se manter”, explica.

Imagem histórica do carnaval de Belo Horizonte com desfile de Bloco Leões da Lagoinha em 1958 – Foto: Acervo MHAB

Compositor

Em 2006, aos 79 anos, lançou seu primeiro disco. Intitulado Decantando em sambas, o álbum contém 12 faixas autorais, com produção do amigo Júlio Coelho, pela Lei Rouanet, com músicas antigas que Conga compôs para cantar ao longo da vida. “Ele achou as composições boas pra fazer o CD; tenho outras, mas que não gravei”. Ele explica que demorou para se ver como um compositor. “Eu nem sabia que eu compunha samba. De passista solto, depois com a criação da Inconfidência Mineira que eu passei a gostar de compor. Tentei fazer uns versos, achei que deu certo e aí tomei gosto. Mas eu não tenho muita composição escrita não”, revela Conga. 

Ele também fez parte da Velha Guarda do Samba de Belo Horizonte, iniciativa de salvaguarda do samba mineiro que já perdura há mais de 20 anos. Ao lembrar da Velha Guarda, lamentou a morte do amigo Juarez Araújo, por Covid-19 no ano passado. “Senti muito a morte dele, ele lutou muito pela Guarda do Samba”, rememora.

Capa do disco Decantando em Sambas, de Mestre Conga

Homenagens

Sua história foi contada em um documentário, Inconfidente do samba (2013), de Francisco Matias. Em 2014, Mestre Conga também foi vencedor da primeira edição do Prêmio Mestres da Cultura Popular, realizado pela Prefeitura de Belo Horizonte. A última vez em que ele pisou na Avenida, foi em 2020, quando foi homenageado, junto com outros membros da Velha Guarda, pela Associação Recreativa Unidos Guaranis.

Neste ano, no dia 2 de fevereiro, Conga recebeu a visita de amigos e familiares que fizeram um minicarnaval para celebrar seus 95 anos, com o distanciamento e máscaras, em função da pandemia de covid-19. A iniciativa foi do Coletivo Mestre Conga, formado por 60 sambistas diversificados – dirigentes de escolas de samba e blocos, donos de casas de samba, grupos de sambas, músicos, pesquisadores, com membros de todas as regionais da cidade. Na coordenação do grupo estão sete pessoas: Léo de Jesus, Carlitos Brasil, Eliete Diná, Nonato do Samba, Mário César, Marcos Maia e Rosane Pires.

O grupo surgiu em meados de 2020, quando foi feito um encontro on-line do setor para debater a situação dos sambistas na pandemia, que reuniu cerca de 70 pessoas. Os objetivos foram traçados a partir do debate das necessidades dos sambistas, sendo a primeira meta o registro do samba como patrimônio cultural imaterial de Belo Horizonte. Isso porque, através do registro será possível traçar políticas de salvaguarda para o samba, voltada para o fomento, salvaguarda dos mestres e mestras, e iniciativas voltadas às rodas de samba, escolas e blocos que fortaleçam essa economia criativa e contribua para a continuidade dessa manifestação cultural na cidade.

Atualmente, o projeto conseguiu passar uma ementa na Câmara Municipal de Belo Horizonte, por meio da vereadora Macaé Evaristo (PT), que fará um inventário do samba de BH para subsidiar o estudo do para o reconhecimento como patrimônio cultural.

O historiador Marcos Maia, que pesquisa o carnaval da cidade há mais de 20 anos, integra a coordenação do coletivo e destaca que não foi só uma simples escolha de nome. “Tudo isso tem relação com o Conga. Ele é o nosso mestre, amigo, participa do coletivo e por como ele tem uma consciência política muito grande do samba na cultura brasileira. Das injustiças que se tem contra o povo negro no Brasil historicamente. Conga é um lutador incansável contra o racismo, pelo empoderamento negro e está há anos nessa luta”, afirma o historiador.

Quando perguntado sobre como se sente com as homenagens, Mestre Conga é humilde. “Reconhecimento, isso pra mim é muito confortável, é uma exaltação que fizeram com meu nome e eu só tenho a agradecer, embora eu ache que num mereço isso tudo. Mas já que quiseram me homenagear, eu me sinto lisonjeado” conclui.

Mestre Conga, em 2018, na celebração dos seus 91 anos no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado – Foto: Ricardo Laf

Ouça as canções de Mestre Conga e de outros sambistas de Belo Horizonte, na playlist “Sambas para BH”, do historiador Guto Borges:

  

Foto de capa da edição: Maurício Costa e Gi Oliveira