Categoria

África

República Democrática do Congo

Por Olga Kambilo Koho

A República Democrática do Congo (ex- Zaire) é o segundo maior país e o mais rico da África. Ele está localizado no centro do continente e sua capital é Kinshasa. O Congo possui nove países na sua vizinhança: a República do Congo, Uganda, Ruanda, Burundi, República Centro-Africana, Sudão, Tanzânia, Angola e Zâmbia. Coberto com 60% de floresta tropical, com o solo rico em diamante, ouro, cobre, malaquita e cobalto (elemento principal na fabricação de celular) etc., ele encanta com seus costumes, sua história, sua tradição, sua música, sua dança, seu artesanato, entre outros. Suas línguas oficiais são o lingala, kikongo, tshiluba, swahili e o francês que foi adquirido com a colonização pela Bélgica (1908). O Congo (RDC) teve sua independência no dia 30 de junho de 1960.  

Atualmente, o país possui mais de sessenta e seis milhões de habitantes (o quarto país mais populoso da África) e apresenta mais de duzentos e cinquenta etnias e quatrocentos e cinquenta idiomas. O país é composto por várias religiões e, em algumas regiões do interior, as crenças tradicionais predominam, enquanto na capital as religiões kimbaguista, católica, protestante e islâmica dominam. A população vive majoritariamente de agricultura, cultivando mandioca, cana de açúcar, milho, azeite de dendê etc.

O Congo possui vários centros culturais e pontos turísticos como, por exemplo, os centros culturais Wallonnie-Bruxelles, Boboto, Américain, Sambela, Goethe-instituto kinshasa, Cassalien, Cercle Elaïs, Club Sócio ultural Niangara, Halle de la Gombe e muito mais. Como pontos turísticos há os parques nacionais Virunga, Nyiragongo, Kahizi-Brega, Garamba e os Volcanos Sabyinyo, Kahuzi etc. No entanto, diante de todas as riquezas minerais e da exuberante natureza, o país sofre conflitos políticos e civis por causa de disputa de poder e divisões territoriais desde a independência.

Segundo o ranking IDH, o Congo (RDC) é o décimo primeiro país mais pobre do continente e isso pode ser explicado pelo fato de o país ter passado por 60 anos de guerra e genocídio que enfraqueceu a economia nacional. 

Lago Coatepeque – Crédito: Roberto González

Antes da colonização, o território do Congo era dividido em vários reinos: Luba, Kuba, Kongo e Lunda. Após a chegada dos belgas, em 1887, os reinos foram reunidos em um país único que foi nomeado Congo. A independência, em 1960, foi obtida pela luta do então presidente Joseph Kasavubu e seu primeiro ministro Patrice Emery Lumumba que enfrentaram os belgas. Infelizmente, o tempo de paz foi efémero, pois, em 1965, o novo presidente Joseph Mobutu, oriundo do exército, esmagou os outros dirigentes e instaurou uma ditadura por 32 anos. Desde então, o país tem sofrido com guerras e conflitos civis. A população local é a mais atingida por essas violências constantes, especialmente as mulheres. 

No congo, ainda se pratica o Dote como etapa até o casamento. Ele é uma tradição em várias etnias. Ele consiste em uma oferenda que a família do parceiro faz para a família da mulher e não se trata de venda das mulheres como comumente é interpretado fora do continente africano. É importante notar que, pelos laços do casamento, a mulher deixa de fazer parte da sua família de origem e se torna então membro da família do marido (NZOLANI LUSUNGULU, 2006). 

O significado do dote é um agradecimento e uma reparação à família de origem da mulher. Essa oferenda é detalhada e descrita pela tradição de cada etnia.  No entanto, devido à pobreza, o casamento das mulheres vem sendo considerado uma fonte de lucro para algumas famílias gerando, assim, um não-respeito às tradições e uma lista exorbitante da do dote. No estudo feito por Tresor Kibangala, “Rd congo: 2e pays le plus dangereux pour les femmes?”, publicado em 2011, informa-se que esse é o segundo país mais perigosa para as mulheres” ( tradução nossa ). Kibangala reporta que mais de quatrocentas e vinte mil mulheres foram abusadas durante os conflitos entre 2006 e 2007, isto é, uma média de mil cento e cinquenta estupros por dia durante esse período. 

Apesar de todos os problemas econômicos que o Congo vem sofrendo, destaca-se Associações de Mulheres, ONGs, partidos políticos que lutam por uma melhoria da situação do país. Além disso, um movimento nítido da juventude congolesa se destaca cada vez mais no país com um empreendedorismo notável.

Crédito: Tracy Angus -Hammond

Olga kambilo koho é graduada em economia e comércio no Congo, em 2011 teve a oportunidade de vir fazer intercâmbio no Brasil por meio do convênio Pec-g. É formada em Relações Públicas pela UFMG. Cursa jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais.



Foto Janaína Sousa

Um Relato Sobre a África do Sul

Por Júnia Menezes – professora, educadora e proprietária da escola de inglês Village School. ​Formada no Curso de Letras pela FUNEDI/UEMG

Nesta edição, a Seção África traz um depoimento da professora e proprietária da Village School, escola que fica na cidade de Divinópolis–MG, Júnia Menezes. Ela esteve recentemente na África do Sul e a convidamos para relatar um pouquinho da sua experiência pessoal naquele país. Júnia é professora de inglês dedicada em transformar o espaço em que vive por meio da educação, “Em minha atuação como educadora, mostro aos meus alunos a importância de saber fatos históricos reais, apresentar personagens importantes da nossa história a fim de criar neles o desejo de lutar por um futuro melhor, tal qual nossos ancestrais o fizeram” disse.

Nós, equipe da Village School, iniciamos nosso programa de intercâmbio neste ano de 2019 e o destino escolhido por mim não poderia ser outro que não no Continente Africano, mais precisamente África do Sul. 

Uma excelente oportunidade para mostrar para as pessoas que a África é riquíssima em sua fauna e flora, mas que no que diz respeito à cultura também tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos, nossas origens e ancestralidade.

Vivi momentos de intensa emoção estando em contato com nativos. Fiz questão de conversar com moradores locais para saber como viviam e quais eram suas perspectivas de vida. Há muitas pessoas que vivem muito bem, financeiramente falando. Mas, infelizmente, o número de pessoas que vivem em situação de extrema pobreza também é grande.

No entanto, são pessoas maravilhosas, cheias de vigor e alegria. Emocionou-me bastante ver como que com tantas privações, na maior parte do tempo, estão alegres e bem dispostas.

Visitei lugares fantásticos como o Museu da Escravidão (SlaveLodge) e pude sentir na pele e no coração, estando em uma réplica do navio negreiro, como nossos irmãos se sentiam, estando em um espaço em que caberiam no máximo 10 pessoas,mas em um número no mínimo 10 vezes maior de lotação, sem ventilação e onde não podiam sequer estarem de pé devido à altura do espaço. Foi angustiante demais.

Outro momento que me emocionou demais, foi num restaurante chamado Marco´s onde tive oportunidade de experimentar delícias da culinária africana e me divertir ao som dos tambores. Chorei muito por estar ali e sentir toda aquela energia maravilhosa.

Encerro minha sessão de belas recordações lembrando de minha visita a uma área bastante carente, do outro lado da grande Cidade do Cabo.

Tive a oportunidade de conhecer crianças incrivelmente inteligentes e espertas, e ouvir de seus pais sobre as dificuldades financeiras pelas quais passam e que, ainda assim, não deixam de ser alegres e sorridentes. Tocou meu coração quando uma mãe me disse que, às vezes, algumas crianças param de brincar e levam a mão até à barriga, lembrando, assim, da fome que sentem.

Certamente temos situações semelhantes a essa aqui bem próximo de nós.​ Mostrar a realidade do lugar de nossa origem possibilita-me expressar como poderíamos viver uma vida diferente, não fosse todo o processo de escravidão a que fomos submetidos.

A situação financeira e social na África é bastante precária, mas vale a pena olhar para o que temos de reflexos desse povo sofrido aqui mesmo, no Brasil. Vale refletir sobre o que é, como fazer para ajudar aqueles que estão mais próximos de nós. Mas sinto-me bastante tocada com o povo de lá, pois tudo poderia ser bem diferente

Como Bissilay Bigna, da BBBigna, está transformando a moda e incentivando a autoaceitação estética das mulheres africanas

Por Sandrinha Flávia – Jornalista, locutora, editora e mestra de
cerimônias

Quando Bissilay Bigna deixou Guiné Bissau, país da África Ocidental, para viver em Portugal, e mais tarde na Inglaterra, não imaginava que se tornaria uma importante influenciadora da moda africana na Internet.

De etnia Balanta, palavra que significa “aqueles que resistem“, maior grupo étnico do seu país, Bissilay resolveu homenagear a sua etnia e adotou o nome artístico de Rainha Balanta. Sua relação com a moda vem da infância. Sua mãe foi costureira e sempre criava roupas com as sobras de tecidos.

De família humilde, filha mais velha de três irmãos, Bissilay cresceu vendo seu pai e sua mãe trabalharem muito para que nada faltasse. Quando tinha oito anos, seu pai Manuel Coelho Bigna migrou-se para Portugal em busca de uma vida melhor.

Durante toda adolescência, sua vida era estudar, ir à igreja e voltar para a casa. Quando completou 18 anos, seu pai achou melhor que ela também fosse para Portugal. Um mês depois, seus irmãos também desembarcaram naquele país. Sua mãe Margarida Bissinde só  foi para Portugal cinco anos depois.

Rainha Balanta ressalta que a vida por lá não foi nada fácil no início. “Foi muito duro, eu trabalhava durante o dia para pagar os meus estudos e outras despesas, e estudava à noite. Infelizmente não consegui conciliar as duas coisas e tive que deixar a universidade,” disse.

No auge da crise econômica em Portugal, ela perdeu seu emprego, mas como a Rainha Balanta resiste, tratou logo de planejar a sua mudança de país e partiu para a Inglaterra. O maior desafio foi se adaptar ao frio e ao idioma. Em Londres, na Inglaterra, logo conseguiu um trabalho, e foi aí que as coisas começaram a acontecer.

Convivendo diariamente com a moda por conta do seu trabalho em uma loja de roupas, Bissilay começou a investir em seus próprios figurinos. “Adoro moda, gosto de ser diferente, uso muitas roupas com o pano africano, uso turbantes quase todos os dias, tudo isso para manter sempre a minha identidade por perto. Desenho os modelos que quero e mando fazer,” disse.

Em pouco tempo, suas criações começaram chamar a atenção de suas seguidoras. O próximo passo foi criar sua própria marca de turbantes, a BBBigna que tem um forte propósito social. “O objetivo é manter viva uma parte da minha cultura e incentivar principalmente as mulheres guineenses a usarem turbantes ou seus cabelos naturais, ao invés de tissagem ou peruca, o que é forte em meu país”, disse. (Tissagem é um tipo de alongamento que usa a técnica conhecida como entrelace aqui no Brasil).

Segundo Bissilay, a luta pela revolução ao uso dos cabelos naturais em seu país só está começando. Muitas até acham o seu cabelo crespo bonito, mas dizem não ter coragem para usar. “Uma vez aqui em Londres, tínhamos um casamento e estavam todas a aplicar tissagem. Eu era a única que não estava a fazer isso. A mãe de uma amiga minha chegou ao pé de mim e disse baixinho, “filha” não tens dinheiro para comprar cabelo? Posso te emprestar, depois quando tiveres, dás-me. Olhei pra ela comecei a rir. Eu lhe agradeci e disse-lhe que tinha dinheiro, mas queria ir com o meu cabelo. Quando chegamos à festa, eu era a única que estava com o meu cabelo; todas tinham tissagem, alongamento ou peruca”, ressaltou.

Além de incentivar as mulheres, Rainha Balanta também educa os homens, pois a maioria deles prefere ver mulheres com tissagem, alongamento ou peruca.

Prestes a se formar no curso de “Human Resources with Management”,Rainha Balanta não perde a oportunidade de curtir a sua família que também vive na Inglaterra. A saudade dos tios, primos e da avó, Samy Tchongo, carinhosamente chamada por ela de Nindan na língua Balanta (que significa Mulher Grande), a faz visitar Guiné Bissau todos os anos.

“O próximo passo é aprender a costurar para criar mais peças e futuramente lançar a sua grife de roupas”, finalizou.

Foto @consciousscofield

Uma profissão, dois países: uma queniana vivendo no Brasil

Os desafios e o mercado de trabalho na visão de Priscilla Mungai

Por Samira Reis, Jornalista e modelo

O ano era 2014. Época em que Priscilla Nyambura Mungai foi selecionada para integrar a RHI Magnesita, após participar de um programa de trainee global conduzido pela empresa. Natural do Quênia, a engenharia industrial e mestranda em Ciências dos Dados chega ao Brasil com o novo destino: Belo Horizonte.

“Atualmente, trabalho na área de melhoria contínua. Cresci dentro da empresa até minha posição atual, como analista sênior. Trabalho em projetos de melhoria contínua nas fábricas da América do Sul. O objetivo é melhorar a eficiência da produção e também garantir a segurança no local de trabalho”, explica.

Uma das principais dificuldades no início, segundo Priscilla, foi o idioma. O Quênia é um país multilíngue, mas o inglês e o kiswahili são as línguas oficiais. Tanto essa barreira como a distância de familiares e amigos foram, ao longo dos meses, sendo contornados.

O apoio incondicional dos que ficaram estimularam a buscar novas oportunidades e experiências valiosas. “Quando posso visitar o Quênia, sempre volto para o Brasil bastante rejuvenescida e muito apreciativa das minhas raízes africanas e de como minhas experiências passadas são um dos principais fatores que têm e continuarão a contribuir com o meu sucesso. Por isso, espero poder me desenvolver e devolver ao meu país de alguma maneira”, diz.

Inserida em um meio ainda dominado por homens, a engenheira percebe que as brasileiras estão mais capacitadas quando se trata de acesso e oportunidades no local de trabalho quando comparadas às do país de origem.

No entanto, a luta por igualdade nesses espaços são semelhantes. “As mulheres do meu país lutam com os mesmos problemas enfrentados aqui: (especialmente em indústrias historicamente dominadas pelos homens), as diferenças salariais entre homens e mulheres, ter que gerir um lar e desenvolver uma carreira ao mesmo tempo e até mesmo o assédio sexual no local de trabalho. Em ambos os países, o local de trabalho está se tornando mais receptivo às mulheres por causa dos esforços que foram feitos por aquelas que vieram antes de nós. No entanto, ainda há muito mais que pode ser feito”, comenta.

Viver em terras brasileiras também proporcionou um novo olhar sobre ser negro fora do continente africano. A engenheira afirma que a raça de alguém no Quênia não é uma questão primordialmente discutida ou focada dentro da sociedade. No entanto, tem conhecimento de como esse assunto impacta na realidade do Brasil.

“Esta experiência me fez muito mais consciente do que significa viver a experiência negra fora da África, além de me fazer muito apreciativa do meu país, onde nunca precisei questionar se minha raça é um impedimento para uma boa educação, para oportunidades de carreira, ou até mesmo se eu me encaixo num padrão de beleza em termos de cabelo e cor de pele”, assinala.

Ver mais mulheres, consequentemente mulheres negras sendo reconhecidas nas respectivas áreas de atuação também é um sonho de Priscilla. A busca pela educação, o foco no potencial, e por acreditar na necessidade de um ambiente de trabalho diverso, fizeram toda a diferença para as conquistas. Mesmo que seja necessário romper barreiras.

Mais importante ainda foi o fato de não nos esquecermos de trazer outras mulheres conosco. Ao nos preparar para as oportunidades através do estudo e da prática, podemos provar que também somos habilidosas no que fazemos e que abraçar a diversidade não significa comprometer a excelência. Trabalhe o que for necessário e nunca duvide da sua capacidade de ser uma inovadora, uma líder ou uma fabricante de mudanças”, frisa.

Foto: Letícia Souza

 

 

 

 

 

Projeto Mwana Afrika apresenta uma nova versão da África para o mundo

Por Sandrinha Flávia, jornalista, mestra de cerimônias, empresária e editora

Desde fevereiro de 2018, Mwana Afrika grava vídeos para o projeto  Mwana Afrika – Oficina Cultural. A produção faz parte de um quadro veiculado na TV Pública de Angola com pautas  que abordam danças, ciências, símbolos culturais, filosofia, instrumentos musicais, trajes, etnias, crenças  e tantos outros temas que retratam o  verdadeiro continente africano.

A formação em jornalismo, economia e finanças foram fundamentais para Mwana realizar o que ama: contar histórias e publicá-las. A jornalista ressalta que se sente muito bem com esse trabalho e que a profissão é uma forma de ensinar e aprender o tempo todo.

A ideia da Oficina Cultural começou como uma espécie de Academia Panafricanista nas ruas de Lisboa como ela mesma explica: “Eu juntava pessoas de várias etnias, raças, idades, e “aculturava-as” com África.” Com o crescimento do projeto, Mwana resolveu dar uma parada para reestruturação.

O projeto agora será ampliado para várias cidades do mundo. “Quero ver a África na boca do mundo pela positiva, quero levar nossos valores, nossa variedade cultural e linguística, nossa sabedoria ancestral e muito mais.” diz orgulhosa das suas origens.

Sua bagagem cultural vem de muita dedicação em pesquisas e várias vivências pessoais viajando por quase 20 países, onde aprendeu e também ensinou. “Quem viaja ou tem a experiência de viver num país diferente, nunca é a mesma pessoa. As experiências de vida valem muito, levamos para a vida toda. Conheço quase a Europa toda.”

As próximas viagens da jornalista serão apenas pela África. Ela pretende passar por Ghana, Senegal, Quênia, Congo etc.

Atualmente divide sua moradia entre Portugal e Angola. Mas Mwana tem sangue brasileiro, pois nasceu no Brasil. “Nasci e vivi no Brasil. Cresci em Angola e atualmente vivo em Portugal.” Sobre a sua família, ela fala o suficiente: “Minha família é tudo pra mim; se hoje sou o que sou, é graças à minha família. Venho de uma família muito trabalhadora, dedicada e com uma educação que vale ouro”.

Para o próximo ano, Mwana pretende, talvez, lançar o seu primeiro livro, para isso ela está focada nas pesquisas: “Gostaria que os conteúdos retratados no meu programa de TV dessem lugar a um livro. Pretendo escrever para documentários e também vem aí o livro de ensino básico de línguas africanas. Estamos a terminar e brevemente teremos muitas novidades”.

Visite o canal Mwana Afrika no YouTube e conheça mais sobre África.

Atualização em 01/08/2020

No carnaval de 2021 a escola de samba Portela do Rio de Janeiro (Brasil) vai falar sobre o Baobá, uma árvore nativa da África. Mwana  tem contribuído com o conteúdo para o enredo.

Em julho de 2020, Mwana estreou na Trace Brazuca um canal brasileiro com 24 horas de programação dedicada ao universo Afro-urbano.

Para mostrar a realidade do povo angolano, Augusto Prata criou a TV e Rádio Diamante Angola

Por Sandrinha Flávia, jornalista, locutora, mestra de cerimônias e editora

Criada em junho de 2016, a TV e Rádio Diamante Angola, localizada em Luanda, conta com uma equipe de 100 funcionários/as e um espaço físico de 400 metros quadrados. O foco das pautas é trazer à tona pessoas simples de Angola e da diáspora, como disse o idealizador do projeto.

Augusto Lopes Mateus Prata, caçulo de três irmãs, nasceu em 1982 no distrito de Sambizanga, na cidade de Luanda (Angola), um local, no passado, marcado por altos índices de criminalidade. A criança, que se tornaria um jornalista referência, se orgulha da infância simples que teve e das boas amizades “Tive uma infância linda porque em África chegar à idade em que estou hoje não é fácil. Eu tinha tudo para me tornar um bandido porque nasci em um bairro cercado pela criminalidade, onde tive e tenho até hoje os melhores amigos”.

Antes de se tornar dono de TV e Rádio, o empresário vivia para a música. Cresceu ouvindo rap. Sua principal referência foi o grupo SSB, além de música pop americana, ritmo que trouxe também a dança: Tecno Dance e House.

Criador e líder do grupo LFB, ao lado de três amigos, o Bulla, o Cidade e o Madzony, conectou-se com grandes famosos da época como Walter Ananáz e Big Nelo, mas havia uma distância social entre o mundo dos famosos e a realidade dos meninos da periferia. “Eu sou do gueto da periferia do Sambizanga, mas as minhas amizades da cidade tinham vida, dinheiro, carro, e eu miúdo na altura não tinha nada, andava de 4 a 10 KM até o centro da cidade para encontrar os músicos. A luta era grande.”

A diferença social só incentivou o menino da periferia a buscar as melhores condições de vida. Uma das grandes incentivadoras da sua carreira musical foi sua mãe, Joana Domingos Mateus. O empresário comenta, com emoção, os momentos marcantes de sua mãe:

Naquele tempo, quando o meu grupo chegava à minha casa, minha mãe era a alegria da casa, ela ficava a dançar, essa é uma das lembranças mais lindas que eu tenho dela. – Augusto Prata

Ao contrário da sua mãe, seu pai, Alfredo Prata, acreditava que o estudo era o melhor caminho. Sua mãe faleceu em 2000, quando Augusto tinha 17 anos, causando uma mudança radical em sua vida. Sozinho, pois seu pai já era casado com outra pessoa e tinha outros 5 filhos, e suas irmãs também eram casadas, Augusto decidiu ficar um tempo morando a sós. Sua casa acabou se tornando um centro de formação com foco na cultura Hip Hop. Tempos depois, decidiu ir morar com seu melhor amigo, José Rodrigues, conhecido como Mister Bulla. A família do Bulla o recebeu muito bem.

Estudar foi o caminho escolhido por Prata. “Com 19 anos, comecei a frequentar o colégio Liceu Viera Dias, (MutuyaKivela), onde conheci um grupo de artistas, dentre eles, o irmão menor do astro da quizomba nacional, Nikol Ananáz.”

Em 2007, Augusto mudou completamente de ramo e entrou para a indústria petrolífera. O salário era bom e lhe proporcionou a oportunidade de investir em cursos. Durante oito anos seguidos, de tanto as pessoas o incentivarem a seguir no caminho do jornalismo, estudou comunicação na África do Sul, Namíbia e Angola.

Com cursos diversos, inclusive de jornalista publicitário, saiu da indústria e ficou um tempo sem emprego, mas nem tudo estava perdido. Ao cruzar com um amigo, Miguel Manuel, que já trabalhava na área da comunicação, foi incentivado a criar um negócio próprio. Nascia então a QDG – Quinta da Graça Publicidade e audiovisual, em 2015, mas não deu certo.

O casamento se aproximava e a vontade de ter o seu próprio negócio só crescia: “Eu tinha que fazer alguma coisa, o pouco que consegui na QDG deu para eu me casar com Ebenezer Prata com quem hoje tenho 5 filhos. Estou bem casado, minha mulher é uma batalhadora. Sou o que sou hoje graças a ela porque ela me deu todo apoio.”

Em 2016, a TV e Rádio Diamante Angola já era uma realidade na internet. Seu amigo, Francisco Pascoal, hoje seu sócio, foi peça fundamental na criação do projeto. Os amigos Madaleno Caponde e Pelonny Rodrigues são o motor de toda a produção da TV.

Com altos índices de audiência, Augusto acredita que o que conquistou a população foram as pautas selecionadas. “A programação é muito diversificada, apostamos muito por mostrar a realidade do Angolano, pois as nossas televisões convencionais passam aquilo que lhes convém”.

O sonho de se tornar uma TV a cabo agora é uma realidade. “Fechamos uma parceria com a Palanca TV (DSTV), de onde estamos a transmitir 30% de tempo de antena. A ideia é evoluir para 100% de tempo de antena na DSTV que é a maior provedora de sinal em nível de África.” A TV Diamante Angola poderá ser assistida a partir do dia 1º de setembro em Angola e Moçambique.

O povo angolano é alegre, feliz, maravilhoso, humilde. Não se difere muito do povo brasileiro. Somos extremamente criativos, mas, na realidade, é um povo que precisa ser descoberto, é um povo humilde que vive da cultura. – Augusto Prata.