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  Do Reino do Daomé ao Benim

Madu Costa – Professora e “arteira”, como gosta de dizer, por ser escritora, poeta, cordelista, compositora, cantora, palestrante e narradora de histórias. É professora aposentada( pedagogia- UFMG/1984; arte-educação/ PUCMINAS/2000).

Pisar o solo sagrado. Conhecer os agudas (ex-escravizados retornados do cativeiro brasileiro para o Benin). Ver de perto os assentamentos de Egbè (Exú) por todo canto desse território. Participar dos festejos de voduns nas comunidades tradicionais. Visitar a floresta sagrada, o templo das pítons, O templo da Rainha-Mãe, fazer consulta a Ifá. Conhecer a comunidade Aladás, Porto Novo, Oiudah com o portal do não retorno e tantos outros lugares encantados. Eram parte do roteiro do meu desejo.

Experiência rica de emoção e historicidade. Visitamos a praça com a estátua da “Mulher- Rei”. Ela representa as guerreiras do Reino do Daomé. Gigantesca, ela olha para o prédio do presidente do país.

A imersão continuou com visita ao mercado Dantokpa: mais um espaço de poder feminino. Ali é a mulher que comanda. Compramos o tecido escolhido pelo grupo para a festa do “Vodun Days”.

Fomos a Porto Novo – capital oficial do Benin. Sua arquitetura afro-brasileira nos aproximou mais e mais da nossa herança ancestral. Lá, visitamos a grande mesquita com arquitetura afro-brasileira, além do Palácio do Rei Toffa, atual museu Honmé.

Os assentamentos à Legba (Exú) são vistos por todo canto, inclusive ao lado da grande igreja-mesquita.

A imersão na cidade de Oiudah foi o ponto alto da viagem. Floresta Sagrada, visita a grande árvore sagrada – iroko –, visita ao templo das pítons, visita ao portal do não retorno, onde fizemos o retorno simbólico em honra aos nossos ancestrais.

Outro território impactante para mim foi a cidade Ganvier – cidade das palafitas. Quarenta e cinco mil habitantes vivem ali na cidade aquática.  Ruas, casas, restaurantes, agências bancárias, igrejas, mercados. A sujeira no cais de Ganvier, assim como de todos os territórios visitados me deixou pensativa sobre as condições das “ex” colônias. Ali, francesa.

Beleza e feiura convivem.  A ostentação nos prédios modernos e mansões contrastou e agrediu minha sensibilidade. O descaso com a população nativa é gritante, mas a força cultural é arrebatadora. As danças, os ritos, a vestimenta colorida, a comida apimentada, o zinco dos telhados pobres, a informalidade no trabalho ambulante na venda de todo tipo de mercadoria, as negociações no mercado de artesanato, tudo isso me marcou profundamente.

Ao visitar o “Templo da Rainha Mãe”, senti-me num túnel do tempo.

Fomos recebidos com dança típica ao som de tambores. Homens e mulheres com cestos de frutas, cantos na língua fon, água de cheiro riscando o chão para a nossa entrada.

Em Oiudah, foram muitas emoções. Visitei a Floresta Sagrada e seus mistérios de esculturas e espíritos habitantes de árvores. A experiência na ilha de Alada também foi impactante. Essa ilha serviu de refúgio aos escravizados que fugiram da travessia pelo rio e ali fundaram uma comunidade.

A pé, de ônibus ou de carro, circulei por vários lugares do Benin. Era janeiro e as ruas centrais ainda se iluminavam com decoração natalina. Milhares de luzes made in China. 

Os contrastes não cessaram. Luxo e lixo disputam espaço por todo lado. Muito lixo de sacos plásticos pretos. Sem coleta, sem lixeiras, sem perspectiva de mudança desse quadro.

Ah, Benin!!!

Eu voltarei lá. Quero aprofundar-me em Ouidah, conhecer melhor a história dos agudas. Quero andar livre pelas ruas e conversar com as mulheres trancistas, as costureiras, as cozinheiras e os narradores de histórias.

Sou outra pessoa depois da imersão ao Reino Sagrado do Benin.

Essa postagem foi possível graças a um dos nossos parceiros:​

Sandra Nandaka

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