A Literatura Angola, a partir das experiências que o coletivo tem com escritores angolanos

Por Coletivo Iabá

O “Coletivo Iabás” é formado por três mulheres negras, canhotas, narradoras de histórias, vindas de seus lugares. Chica Reis é atriz. Madu Costa é escritora. Magna Oliveira é comunicóloga. Há três anos se confluíram para produzir um evento de contação de histórias da ancestralidade negra em Belo Horizonte. Desde então, elas têm se dedicado as contações das histórias negras como Coletivo Iabás.

Iabá é o nome Yorubá que significa: mãe. O Coletivo tinha como pesquisa norteadora do seu trabalho as orixás femininas-iabás-mães ancestrais. Essa força ancestral, tal como uma mãe, conduziu o trio para novos trabalhos, apresentações e estudos. Espalhou sementes-mães pelos espaços culturais de Belo Horizonte e pelo interior de Minas Gerais. Os frutos colhidos em 2018 funcionaram como “indez” para as canhotas iabás. Elas aproveitaram a oportunidade de viajar para Angola. Participaram, assim, do II Intercâmbio Brasil/Angola, promovido pelo Coletivo Raízes de São Paulo em julho de 2019.

As “Iabás” puseram-se a pesquisar sobre o país: seu povo, sua história, suas manifestações culturais, sua literatura, sua música, sua comida, sua oralidade, seu teatro.

Nomes como Agostinho Neto-poeta, Pepetela – romancista e contista, Lopito Feijó – poeta, Sara Fialho – cronista, Ondjaki – poeta e escritor, Agualusa – jornalista, escritor e editor já faziam parte do repertório literário das Iabás.

Antônio Agostinho Neto, médico, escritor, político angolano, principal figura do país no século XX, foi presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e, em 1975, tornou-se o primeiro presidente da Angola independente até 1979.

A programação do intercâmbio incluía visita a Associação dos Escritores Angolanos, criada no dia 10 de dezembro de 1975 com 32 escritores fundadores, um marco para época. E, ainda hoje, é uma referência para a literatura angolana. Nesse dia, também aconteceu o convite para um almoço na casa do poeta Lopito Feijó.

Durante a visita, aconteceram exposições de obras literárias e seus autores. Lá as intercambistas tiveram contato presencial com algumas mulheres da literatura. Marta Santos – contista, Helena Dias – romancista e declamadora, coautora da antologia “Negras de lá, Negras de Cá, composta por escritoras negras brasileiras de vários países e africanas. Esse fato ganhou destaque no conjunto de obras literárias, majoritariamente masculinas.

Ainda nessa visita conhecemos a escritora Marta Santos que escreveu importante obra “ Crônicas do amanhecer”, livro que é fruto de crônicas para uma rádio de Angola. Marta Santos e Sara Fialho são mulheres respeitadas em suas escritas, em suas vozes. As recentes lembranças da guerra civil e suas consequências no cotidiano das vidas das famílias angolanas, muitas vezes destroçadas pelo conflito, é também tema recorrente em muitas escritas dos angolanos e angolanas.

As trocas foram muitas entre saberes e sabores. Elas realizaram oficinas de criação teatral, narração e técnica de contação de histórias, hip hop que ministraram trocando saberes com os angolanos inscritos nessas ofertas de oficinas. E, claro, a troca também se deu pelo prazer de prestigiarem com excelência a arte angolana quer seja pelas danças, pelas técnicas teatrais e os fazeres artísticos dos jovens participantes do Centro Cultural Globo Dikulo.

No alojamento do intercâmbio, poetas jovens promoviam saraus e brindavam a  todos com seus poemas. Um aparte era o orgulho desses angolanos- poetas-declamadores cheios de entusiasmo e alegria com suas obras.

No encantamento africano de ser e de estar, as Iabás foram presenteadas com livros preciosos de autores e de personagens míticos angolanos, como o livro: “Kimpa Vita a Profetiza Ardente”, personagem importantissima na história do país.

“Apesar de curta duração, a ação de Kimpa Vita e do movimento antoniano deixou até hoje marcas em toda a região do antigo reino e em todos os países para onde foram levados escravos do Congo. Há referências a essa religião no Brasil, no Suriname, na Jamaica, em Barbados, no Havaí e nos próprios Estados Unidos da América (em Nova Orleães, Virgínia e Carolina do Sul).

Estar em Luanda, no Cazenga ou no Reino do Imbalundo, conversar com poetas, passear pelas praias da Ilha de Luanda, comer mufete (comida típica feita com peixe grelhado, banana da terra e batata doce grelhadas), comprar tecidos angolanos, ganhar livros, visitar escolas, participar de programas no rádio e na TV e, principalmente, pisar o solo africano e ficar de frente para o oceano Atlântico modificou definitivamente o olhar do trio Iabá sobre o ser mulher preta diaspórica.

Fotos: Coletivo Iabás