Rosália Diogo, Curadora do Casarão das Artes Negras. Jornalista. Chefe de Redação da Revista Canjerê
A voz de ascendência africana
Conectada a Moçambique, Nova Iorque e Havana
Oriundo da pele que os homem quer pôr em cana
Que incomoda na propaganda, eu só o aviso diz em cana
Música Etnografia Suburbana- Roger Deff e Celton Oliveira
Sim, o lançamento da nossa 23ª edição foi virtual. Mas, também teve lançamento presencial, em Moçambique. Onde? No quintal da escritora Paulina Chiziane. Para quem ainda não sabe quem é ela, dizemos: primeira romancista de Moçambique, única mulher negra africana a receber o prêmio Camões (literatura), reconhecida como uma das cem mulheres mais influentes do mundo pela BBC de Londres, além de ter ido inaugurar uma cátedra em nome dela em Varsóvia, em 2024. Percebam a importância e a nossa alegria em ter feito a inauguração da nossa revista neste espaço sagrado, que é o quintal da escritora.

A temporada de sete meses, da chefe de redação desta revista, Rosália Diogo, no continente africano, entre Moçambique e Angola, entre setembro de 2024 e março de 2025, nos trouxe outras inúmeras oportunidades de conexões. Como, por exemplo, no caso de Moçambique, o encontro com o escritor Mia couto, que recebeu um exemplar da nossa revista. Ele tem tido constantes agendas no Brasil. Inclusive nos disse que estaria em nossos país por volta de outubro de 2024 e realmente esteve, por cerca de 20 dias.
A nossa participação no Festival Internacional de Poesia e Artes Performativas Poetas D’Alma foi algo encantador. Experienciamos uma junção incrível entre literatura, cinema, música e artes visuais, o que foi incrível.
Sobre as experiências com os rituais tradicionais do país, destacamos o Mapiko, que aconteceu em janeiro, no distrito de Boane. O uso das máscaras e as danças são as marcas dessa histórica celebração. E quem disse que Moçambique não tem Carnaval, errou. Não ocorre como no modelo brasileiro, mas tem carnaval lá, sim senhor! No caso da capital, Maputo, tivemos a alegria e a oportunidade de participar do carnaval no Centro Cultural Brasil–Moçambique, que atualmente recebe o nome de Instituto Guimaraes Rosa – IGR.

Não podemos deixar de registrar os nossos encontros altamente afetivos com várias brasileiras e brasileiros, cerca de dez pesquisadoras e pesquisadores que estavam em Moçambique, por meio da bolsa de estudos Abdias do Nascimento – estudantes oriundos de São Paulo, Goiás, Alagoas e Pará deram o tom da presença em terras moçambicanas em alto nível. Formamos um grupo que dificilmente se desapegará. Que bom ter tido a oportunidade dessa conexão nesse período de estada por lá!
Angola – que experiência enriquecedora. A nossa hospedagem, que aconteceu em janeiro, foi na Casa de Cultura Ubuntu, espaço de pesquisas sobre as histórias de Angola e da África, como um todo. O local é coordenado pela doutora Agnela Barros, pesquisadora com foco no teatro e na dança, altamente reconhecida pelo seu país.
Destacamos também a oportunidade que tivemos de palestrar, com muita honra, na União dos Escritores Angolanos, fundada em 1975. Em tal ano ocorreu a independência do país. Foi um momento ímpar em que pudemos dialogar com a plateia sobre o nosso pouco acúmulo acerca da literatura angola. Mas, sobretudo foi possível nos conectar com várias escritores e escritoras da nova geração.

Tivemos ainda a grata oportunidade conhecer o Museu da Escravatura e o Largo da celebrada Rainha Nzinga Mbande. O local guarda fortes memórias sobre a travessia de milhões de angolanos que vieram na condição de escravizados para as américas, incluindo o Brasil. É um local impactante para que as pessoas pretas, que estão na diáspora, possam se conectar espiritualmente com seus ancestrais, com seus antepassados.
Buscamos sempre condições para que esses Canjerês no continente africano deveriam ocorrer com mais frequência com vistas a fortalecer o nosso vínculo ancestral.