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Artes Visuais

Costura da memória

Por Naiara Rodrigues

Um dos grandes nomes das artes visuais no Brasil, Rosana Paulino, se destaca por sua produção que traz a abordagem de questões sociais, étnicas e de gênero. Nascida em São Paulo, em 1967, a brasileira já participou de exposições em países como França, África do Sul, Bélgica, Porto Rico, Estados Unidos e Portugal. Desde 2018, a exposição “Rosana Paulino: A Costura da Memória” apresentou a maior individual da artista já realizada no Brasil.

Após uma temporada de sucesso na Pinacoteca (SP), com curadoria de Valéria Piccoli e Pedro Nery, a mostra passou também, em 2019, pelo Museu de Arte do Rio (RJ), reunindo 140 obras produzidas ao longo dos seus 25 anos de carreira. Nela é possível ver obras impactantes e poéticas como Bastidores (1997), que faz uma crítica ao silenciamento e à violência histórica sofrida por mulheres negras. A obra traz imagens de mulheres de sua família estampadas em bastidores, com costuras tapando suas bocas, gargantas e olhos.

Obra Bastidores, de Rosana Paulino, em exposição no MAR. Foto: Daniel Pacífico

Rosana Paulino é doutora em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – Eca/USP, especialista em Gravura pelo London Print Studio, de Londres, e Bacharel em Gravura pela Eca/USP. Foi bolsista do programa da Fundação Ford (de 2006 a 2008), Capes (de 2008 a 2011), e fez residência no Bellagio Center, da Fundação Rockefeller, na Itália.

Rosana Paulino na abertura da exposição no MAR-RJ . Foto: Daniel Pacífico

A denúncia ao apagamento histórico sofrido pelo povo negro e o questionamento da visão colonialista presente ainda hoje na sociedade brasileira são temas presentes em seu trabalho. Rosana Paulino utiliza diversos suportes e técnicas como instalações, gravuras, desenhos, esculturas, entre outras, sempre trazendo uma crítica à falsa ideia de igualdade racial no país e escancarando as marcas deixadas pela escravidão. Atualmente obras da artista podem ser vistas em duas mostras coletivas em São Paulo, na Palavras Somam, no MAB FAAP, até 15 de dezembro, e na 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc VideoBrasil, no Sesc 24 de Maio, até 2 de fevereiro.

Abertura da exposição no MAR RJ . Foto: Daniel Pacífico

A cultura da diversidade na fotografia

Por Well Mendes – Jornalista

Sabemos que é importante ter diversidade e participação representativa e legítima para pessoas negras em todas as esferas – dos espaços do poder público às telas de cinema. Porém, se você olhar ao redor vai perceber que estamos rodeados por imagens.

A quantidade de imagens às quais somos expostas diariamente reforça a importância das narrativas imagéticas nas concepções que criamos desde pequenos.

Essas imagens tentam fazer uma construção de mundo através do registro visual, retratando em apenas um quadro a realidade do assunto que se propõem a abordar. Além disso, muitas fotografias são usadas como guias para nos ajudar a entender o passado e a resgatar a história, a memória e a tradição.

Ao fazermos um recorte sobre as imagens que são produzidas sobre pessoas negras, é necessário refletir sobre o que está sendo produzido e sobre a forma com as narrativas sobre essas pessoas são feitas.

Por muito tempo, os debates sobre representação e protagonismo se reservavam aos movimentos sociais que lutaram para reverter um histórico de representações deturpadas sobre grupos diversos. Agora, com uma abertura maior para a discussão em esferas onde a forma de representar ainda não havia sido discutida, outros debates surgem como a questão de quem pode falar sobre quem e sobre o lugar de fala nas produções artísticas.

Precisamos pensar nas realidades que criamos ao fotografar e reproduzir imagens para não cometermos o erro milenar de excluir realidades distintas de uma sociedade diversa e mal representada.

Precisamos reconstruir o imaginário popular para quebrar alguns estigmas e mover estruturas ao registrar fotografias que contem histórias emancipadoras e plurais. Precisamos fomentar o protagonismo e a participação de pessoas negras em narrativas negras.

Foto: Well Mendes

Amazônia, resistência e descobertas

Jaycelene Brasil – Acreana, Socióloga e Feminista Interseccional

Foto: Marcela Bonfim

O processo imigratório da fotógrafa paulista, formada em economia pela PUC-SP, Marcela Bonfim, para a Amazônia Rondoniense, em fevereiro de 2010, em busca do primeiro emprego, dialoga com muitas histórias de outras mulheres negras.

Ela conta que nunca foi de ter objetivos, mas sempre exercitou o fazer, movida por impulsos, a exemplo de quando recebeu a proposta do pai de uma amiga para trabalhar na sua financeira e no mês seguinte estava chegando numa terra desconhecida.

Não demorou muito para perceber o novo território, nas suas diversas facetas e ao longo de quatro anos captou imagens e não sabia o que fazer com elas.

Os verbos experimentar, sentir e refletir estão intrínsecos no cotidiano da artista visual, principalmente desde que pariu um de seus principais trabalhos há dois anos, a Mostra fotográfica “Amazônia Negra”, parte do projeto “(Re)” conhecendo a Amazônia Negra, povos, costumes e influências negras na floresta, tido como um instrumento de militância política das Artes visuais porque reverbera as memórias da população negra amazônica, fruto de uma pesquisa iniciada em 2012.

Marcela Imiscuiu-se no território amazônico e, por meio de imagens impressas, deu visibilidade a uma população batizada e reconhecida antes com outras identidades que não eram nomeadas como negras.

Ao mesmo tempo em que a artista avalia que se (Re) conhecer negra na Amazônia a fez uma aprendiz dela mesma, passou a caber no mundo como mulher negra, juntamente com um trabalho fotográfico extraordinário que tomou corpo, tem voz e agora brilha por todo o Brasil.