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Gente do Canjerê

Jaice Balduino: uma comunicadora que se movimenta pelo mundo

Por Naiara Rocha – Jornalista

Natural de São Francisco de Paula, MG, Jaice Balduino é a filha mais velha de três irmãos. Ela carrega uma essência nômade e livre que dança ao sabor das mudanças. Apaixonada pela dança, a inviabilidade de seguir o caminho profissionalmente não fez Jaice esmorecer, mas sim encontrar uma nova paixão: o jornalismo.

Em Divinópolis, mergulhou nos estudos de Comunicação e, desde o primeiro semestre da faculdade,  encontrou na área a liberdade para explorar múltiplos horizontes. Seu envolvimento com o marketing surgiu na faculdade e se solidificou durante a pandemia, quando precisou se reinventar e se dedicou aos estudos de design gráfico e estratégias de redes sociais, impulsionada por um MBA em Marketing e Redes Sociais.

Sem amarras geográficas, ela se aventura pelo mundo atrás de oportunidades. “Não tenho preocupação com laços no sentido de criar raízes, pois acredito que elas podem ser criadas independente do tempo”, afirma Jaice.

 Ela já morou em Belo Horizonte, onde teve contato com os blocos afros da cidade e chegou a participar do Angola Janga. Recentemente, em São Paulo, passou a atuar em assessoria de imprensa, comunicação e marketing para grandes empresas nacionais. Naquela cidade absorve as nuances culturais e amplia sua conexão com a arte e a cultura negra.

Fora do trabalho, sempre arruma um tempo para sair para dançar. “Gosto dessa  liberdade de dançar, eu só deixo a música me guiar, alguns estilos de dança favoritos são o forró e a afrobeats. Dançar, num geral, com certeza é o que me tira de órbita e me deixa leve”, destaca. Ela também gosta de cozinhar, estar na natureza, e dar rolês culturais.

Seu estilo vibrante e autêntico reflete uma jornada pessoal da construção de sua autoestima e inspiração em mulheres negras. Do cabelo ao guarda-roupa, Jaice expressa sua essência autêntica e confiante, encontrando na liberdade de se vestir uma forma de conexão consigo mesma. A relação com a autoestima mudou quando trabalhou num salão afro em Divinópolis. “Lá tive contato diretamente com mulheres que cuidam de outras mulheres negras. Esse processo foi muito importante pra mulher que sou hoje”, explica.

Ela também guarda um outro amor: o mar. É lá, entre as ondas, que sua criatividade se liberta, inspirando-a a escrever e ter novas ideias. Colaboradora da Revista Canjerê desde 2022, Jaice Balduino revela-se não só como uma comunicadora talentosa, mas como uma mulher livre, trilhando seu caminho pelo mundo.

A presença artística na vida de Márcio Santos

Mini Bio:  Jaice Balduino – Jornalista, assessora de imprensa e estrategista de marcas

Artista, professor, pai e super esposo. É impossível falar de Márcio Sérgio dos Santos sem citar sua maestria nas criações que estão super presentes na vida e espaços em que ele ocupa. 

Márcio começou a trabalhar aos 14 anos na Escola Profissional da Rede Ferroviária no bairro Horto, em BH. Na época, havia provas seletivas bem concorridas e era possível se desenvolver profissionalmente. Lá, ele concluiu um curso profissionalizante de três anos e recebia um salário que correspondia a um terço do salário mínimo atual. A Rede Ferroviária fez parte de sua trajetória profissional até sua aposentadoria, trazendo vários desenvolvimentos que o fez desenvolver seus pontos artísticos.

Márcio é técnico mecânico e leva consigo vários cursos profissionalizantes: serralheria, autocad, solda, teclado, violão, cavaquinho.

Sua arte é predominantemente visual e está sempre aberto para novas criações, o que traz novos olhares para suas diferentes formas de atuação. Rico em detalhes, ele usa suas obras como fonte de inspiração para criação de peças marcantes e únicas.

“A arte é a forma como expresso minhas emoções e a minha percepção cultural. Eu uso minha criação artística para ser representada através de várias formas, como a música, a esculturas e peças em solda, pintura, entre outras.”, conta Márcio.

E por falar em formas artísticas, Márcio conta que a música foi despertando, ao longo de sua vida, até que ele se enxergasse como artista. Segundo ele, a arte é um trabalho de conexão com a alma, ela estabelece uma troca de energia, de expressões, de sentimentos e sensações. 

Ele é professor de violão e é através da educação musical que ensina crianças e adolescentes a terem também olhares aguçados para a arte e suas formas de expressão.

Segundo o artista, ao trazer o envolvimento das pessoas com a arte, elas desenvolvem melhor as suas competências sociais, artísticas e culturais. E também aperfeiçoam sua sensibilidade e criatividade, que sempre evoluem com o tempo.

Cida Badu, esposa de Márcio, fala o quanto é possível extrair coisas boas de seu esposo, “Ele é um profissional cheio de talentos, é bom pai, bom esposo e andando pela nossa casa qualquer pessoa percebe que aqui respiramos arte.”, conta Cida Badu.

A arte de Márcio, em geral, é um trabalho de conexão com os sentimentos, com o mundo e com aqueles que estão à sua volta. Segundo ele, a arte estabelece uma troca de energia, de expressões, de sentimentos e sensações. “É com essa troca que conseguimos compreender o valor do outro e o que realmente consideramos importante em nossas vidas.” afirma.

Foto Arquivo Pessoal

De 2018 para 2022: uma conversa com Robson Di Brito sobre a política brasileira

Samira Reis
Jornalista e modelo


Leiamos as reflexões do Robson Di Brito, jornalista, colaborador da Revista Canjerê:
Como escritor, sempre penso de forma narrativa e em 2018 vivi um romance distópico. Acredito que a maioria que possui o mínimo de senso crítico não considerou que a sociedade brasileira elegeria um indivíduo com discurso segregador tão evidente como Bolsonaro. É claro que havia as falas hipócritas da família, da liberdade, da religião etc., mas era explícito para mim que ele não era o que pregava. E quando veio o resultado não consegui entender como que pessoas que acompanharam as sagas de Harry Potter contra Voldemort, ou Katniss Everdeen contra a Capital em Jogos Vorazes, e até mesmo Luke Skywalker contra Darth Vader, conceberam que o maior vilão da sociedade brasileira poderia ser um bom líder.


Como professor de ciências humanas e linguagens, fui perseguido politicamente, especialmente no estudo da literatura brasileira no ensino médio e universitário, pois me identificava com vários romances nacionais que reivindicam um posicionamento social menos segregador e contrário ao discurso raso de família tradicional e religião às cegas. Percebi que entre pessoas de poder aquisitivo mediano (digo com uma casa em bairro de classe média, um carro com carnê de 120 meses), me parece que o mínimo de acesso faz as pessoas acreditarem que são nobres e descendentes dos europeus mais alvos.


Há, na extrema-direita, um poder alienante que invoca padrões medievais. E, para mim, é claro, penso que só não tiveram um poder massivo de fato como os nazistas por conta das mídias de comunicação. Graças a elas também pudemos acompanhar aquilo que eles não queriam que víssemos. Isso é o poder de Exu, a comunicação revela tudo, expõe, exorta o que você quer ver e o que não quer ver. Nesta nova presidência que se iniciará a coisa mais sensata a se fazer é demonstrar para sociedade que a Justiça existe de maneira séria e digna. Depois arrumar a bagunça na educação – O MEC precisa voltar a ser o MEC –, pois o conhecimento é um espelho e é por ele que se pode ver quem é a nação brasileira.


Faço coro para que Damares Alves seja cassada e perca seu mandato. Novamente penso de forma narrativa. Houve momentos claros durante o mandato de Bolsonaro e na disputa presidencial que Damares comportava-se como uma Tia Lydia e Michele Bolsonaro como Serena Joy Waterford, as personagens repugnantes The Handmaid’s Tale (livro e série). O que essa “Tia” fez e disse durante a disputa presidencial não pode passar impune.

É preciso uma ação para demonstrar que não tiramos dentes de crianças para que façam sexo oral, e tão pouco que as religiões de matrizes africanas são o capeta na terra. O imoral, o execrável, a repugnância estão explícitos nas ações dessas duas mulheres. Além disso, elas são um perigo às mulheres do Brasil. Se a extrema-direita voltar ao poder, pois ela fará tudo para isso, as mulheres serão as primeiras vítimas. E, possivelmente, veremos surgir uma nova sociedade brasileira, mais segregadora, mas limitadora de direitos e mais violenta aos pretos, aos pobres, às mulheres e às crianças. Que Oxalá não permita que isso aconteça!

Foto Gabriel Botelho

Gente da Canjerê – Raisla e João

Por Roger Deff

Editor da revista Canjerê, rapper, jornalista e mestre em Artes pela UEM

Filhos da empreendedora cultural; Cida Santos; João e Raisla, respectivamente com 19 e 16 anos, se inspiram na caminhada da mãe em suas trajetórias. João é poeta e se dedica à escrita desde criança, encontrando na palavra sua expressão e ferramenta de denúncia. Raisla, por sua vez, é modelo, consciente do lugar que representa e dos desafios que estão colocados. Os dois irmãos seguem caminhos distintos, mas ambos norteados pelo amor à arte, por uma consciência racial rara para pessoas tão jovens e por uma perspectiva em relação ao futuro que têm como base os ensinamentos da matriarca.

Cida, por sua vez, se descreve como alguém que ama as manifestações artísticas, o que é perceptível em sua atuação junto ao Casarão das Artes. “Eu sempre acreditei que a arte, em todas as formas, é prioridade na educação, na escola, em casa e no dia a dia, e desde que eles eram pequenos, eu incentivava. Sempre os levei aos espaços mais acessíveis, cinema, teatro, muitas vezes espaços gratuitos, e debatíamos sobre o que víamos, sobre o que escutávamos”, conta Cida. A arte é uma das formas encontradas por jovens negros para traduzir e enfrentar as angústias provocadas pelo racismo, como recorda Cida ao relatar como a poesia surgiu na vida de João, o filho mais velho.

 “O João começou a escrever poemas aos dez anos de idade, depois que passou por um ato de racismo na escola, e ele ficou com muita raiva quando uma menina falou do cabelo dele. Então, eu falei pra ele dar um jeito de colocar aquilo pra fora, eu estava fazendo almoço e disse pra ele fazer alguma coisa pra externar aquela raiva, um desenho, um texto, mas para não guardar aquilo dentro dele… E ele voltou com um poema que falava daquela situação, e aquele poema deu espaço a um sarau na escola, que debatia o racismo. Foi muito bonito, e isso influenciou a Raisla também”, relata.  Raisla, a caçula da família, assim como várias meninas negras, não se considerava bonita e hoje segue como modelo em diversos trabalhos, além de ter outros projetos para o futuro.  “Eu vejo a Raisla caminhando, cheia de sonhos, estudando. Ela quer ser psicóloga.  A carreira de modelo segue, apesar que de ser muito difícil em Belo Horizonte para uma menina negra, mas ela está caminhando devagar, ela gosta. Às vezes, as pessoas veem ela como uma representatividade para as meninas, mas é difícil porque tem muitas decepções nessa trajetória”, reflete Cida.

Ao transitar por esses espaços de visibilidade, Raisla avalia de forma crítica como são restritas as oportunidades que jovens negras conseguem acessar. “Não vou dizer que todos conseguem, mas não é algo impossível. É difícil chegar e perceber, por exemplo, que muitas vezes sou a única menina negra nos trabalhos em que atuo”, pondera, evidenciando o quanto o racismo se coloca como desafio a ser superado em diversos contextos. Ela observa também o quanto o contato com a cena cultural moldou sua família, o quanto influenciou a forma como se veem e se colocam no mundo. “Acho que a arte na minha família é algo que acaba unindo mais a gente. Eu criei uma paixão muito grande, principalmente a música; cresci em uma família que tocava de tudo e canta também e vejo muito disto em mim. Hoje percebo o quanto a arte deve ser acessível para todos porque muda a vida das pessoas de um jeito muito mágico”, conclui.

Ao falar dos dois jovens, é necessário também falar da mãe, Cida Santos, fonte maior das aspirações de ambos. Alegre e otimista, durante a nossa conversa, pedi que ela se descrevesse, como alguém que ama a cultura, e por isso desenvolveu diversas atividades ligadas às expressões artísticas, algo que já estava no seio familiar e que ela transmite como um legado.

“Comecei trabalhando com acessórios, casei assim que tive o João e cuidei da minha mãe. E fui trabalhar no artesanato, hoje tenho um brechó com o qual monto acessórios, além de cuidar da casa. Canto, já que é um espaço de arte e de cultura. Como eu me defino? Bom, eu sou a Cida e gosto de poemas porque meu pai também era poeta”, encerra.

Foto Anderson Cassimiro

G

O design a serviço do bem

Por Naiara Rodrigues

Leonardo da Silva Ramaldes, mais conhecido como Léo Ramaldes, é colaborador da Revista Canjerê e membro do Casarão das Artes, o qual integra desde a fundação, em 2014. Formado em design gráfico, atua como profissional em design de superfície, na criação e produção de estampas de roupas e tecidos, além da criação de marcas para eventos e empresas. Seu interesse pelo design surgiu quando ainda era criança. Ele chegou a enveredar-se nas ciências exatas, estudando por um ano eletrônica – seu primeiro trabalho como técnico na área lhe deu a oportunidade de conhecer mais de cinquenta cidades. Porém, logo descobriu que poderia ter sua paixão como profissão.

“Desde a infância, eu desenhava muito, mas não tive uma orientação para seguir adiante nos estudos, pois não tinha acesso. Desenhar há algum tempo não era um trabalho reconhecido e isso gerava uma ‘crença limitante’ de que eu não podia. Além dos desenhos, também tive influência de convívio de pessoas que trabalhavam com serigrafia estampando camisetas e adesivos”, explica Léo Ramaldes.

Após realizar seu curso técnico design, conheceu o artista plástico Marcial Ávila ao atuar na área, o que influenciou em sua formação. “Minha experiência se ampliou exponencialmente e meu repertório cultural expandiu por meio de outras culturas, religiões e manifestações artísticas que refinaram meu olhar para a arte”, ressalta Léo, que sempre gostou de serigrafia, artes gráficas, colagens. “Tenho necessidade de dominar o processo para literalmente realizar os sonhos com trabalhos de serigrafia do início ao fim por conta própria que, em si, é uma arte saber fazer e como fazer”, conta.

Entre os seus anseios almejados com a profissão está o propósito de devolver o que recebe de bom para o mundo por meio de alguma ação individual ou coletiva. “É o princípio dessa evolução que o ser humano precisa para aprender a cuidar do outro e ter a oportunidade de realizar esse trabalho de comunicar projetos e eventos enriquecedores para pessoas que precisam conhecer e se reconhecer. É uma grande uma conquista pessoal e me sinto realizado a cada oportunidade de participar”, ressalta.

Como integrante assíduo, nos últimos dois anos, por meio do Casarão das Artes, Léo Ramaldes integrou projetos relevantes para a cultura negra da cidade de Belo Horizonte. “Cada evento realizado tem a contribuição de muita gente boa envolvida que coletivamente busca reivindicar uma ocupação legitima da arte e cultura afro-brasileiras nos espaços públicos e privados da cidade. Presenciar tudo isso gerou uma grande influência, me fez uma pessoa melhor por ter adquirido mais conhecimento e conceito de respeito que sempre tive para com as pessoas pretas”,  informa sobre o que o motivou a contribuir pela causa voluntariamente e fazer parte do projeto que para ele trouxe laços de família com a equipe.

Em 2019, participou do projeto Matriarcas Geledés, no qual Marcial Ávila representaria em suas obras a figura de matriarcas líderes de três quilombos de BH. E as pinturas foram apresentadas em evento aberto no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado, onde as matriarcas receberam as homenagens. Em 2020, o projeto Quilombos de corpo e alma ofereceu a duas comunidades quilombolas um curso de capacitação para criação de máscaras em papel colê com Marcial Ávila e oficina de dança, ministrada pelo dançarino e coreógrafo Evandro Passos. Nesse evento, eles buscaram incentivar o empreendedorismo nas comunidades quilombolas oferecendo conhecimento para produção de peças artesanais para agregar na melhoria da renda das comunidades que viveram a ameaça da COVID-19 de perto.

Já em 2021, o Casarão das Artes criou o projeto Canjerê, um evento online para homenagear personalidades pretas da cena literária e musical, com participação de Conceição Evaristo em roda de conversa, entre outros convidados.

Foto: Leo Ramaldes – crédito Márcia Ramaldes

O urbano e a cultura pelas lentes de Ricardo Laf

Por Samira Reis – Jornalista

Na infância, precisamente aos sete anos de idade, Ricardo saiu em busca da máquina fotográfica a pedido dos pais, a fim de registar uma celebração da família. O que aquela máquina era capaz de fazer? Eis que registros de planta, insetos, sombras foram captados até que Laf entregasse aos pais. No entanto, era um filme de apenas 24 poses, já esgotado pela criança curiosa.

Tal lembrança marca o início de uma trajetória entre o jornalismo e a fotografia, construída de forma técnica e sobretudo, afetiva. “Entre os motivos que me fazem amar a fotografia estão a desobrigação de ter que dizer e a possibilidade de dizer o que não há como ser dito por meio de palavras”, enfatiza ele.

Além dos registros de eventos que abrangem a cultura popular, a música, o teatro, a vida urbana também é constantemente capturada por Ricardo. Na plataforma digital Instagram, é possível contemplar as belezas da capital mineira e de outras preciosidades das suas andanças.

Por falar em redes digitais, a fotografia ganha novos contornos com a expansão de meios virtuais em que pessoas se expressam, principalmente por meio de imagens.

Esse caminho tem a contribuição da mudança dos telefones celulares para smartphones. No mesmo aparelho, é possível conduzir a foto, preparar a imagem e reproduzi-la para o mundo. Nesse entremeio, Laf alerta para uma consequência pouco abordada a partir desses avanços: “A maioria das pessoas perdeu a vontade de imprimir fotografias, já que elas estão disponíveis a um toque em uma tela de smartphone. Essa perda de materialidade de uma fotografia, coloca sob risco a perda de milhares de fotos em razão de algum problema técnico no dispositivo que fotografa e armazena a foto”, explica.

As ruas, os eventos eram parte da rotina de Ricardo, intensificada, por vezes, nos fins de semana. Com a Covid-19, o cenário mudou drasticamente: países fragilizados por mortes, a corrida pela vacina, desemprego, estagnação econômica, distanciamento social e máscaras.

Pouco antes dos primeiros registros da doença no Brasil, no início de 2020, Laf chegava à Islândia. De lá, viveu a complexidade da situação e, sobretudo, do país de origem. “A ideia era ficar dois meses por lá, mas a pandemia se alastrou e acabei ficando preso por lá por quase 5 meses até encontrar um voo que me trouxesse de volta ao Brasil. Mas, à distância, acompanhava os desdobramentos da pandemia no Brasil, a inépcia de um governo que subestimou a seriedade da Covid-19 e ainda publicava declarações em tom de bravatas todos os dias, a cada contingente de mortos registrados. O que me surpreendeu foi que os islandeses sabiam também o que se passava no Brasil. Um dia, um deles me perguntou: “Como um presidente daquele pode governar um país do tamanho do Brasil?”.

A retomada para o Brasil foi de não esmorecer, apesar da situação calamitosa e um governo desarticulado diante dos problemas. Reconhece, diante da situação, o privilégio de trabalhar em casa.

As saídas são para o estritamente essencial, sem descuidar dos protocolos sanitários. O desejo é de um retrato diferente e melhor para os brasileiros. “Uma fotografia que compreendesse, em sua composição, solidariedade, justiça e empatia, sem qualquer resquício do atual governo. Diante do que hoje vivemos, seria o melhor dos mundos”, diz esperançoso.

Ricardo Laf é o responsável pelo tratamento das fotos da Revista Canjerê.

A arte de Roger Deff

Por Samira Reis

Jornalista, modelo, mestranda em Comunicação pela UFMG, responsável pelo podcast Baú da Preta

O ano era 2015. Especificamente, outubro. Sob um calor estrondoso da primavera que flerta com verão, saía da região da Pampulha em direção à rua da Bahia. Lá, eu seguia para a Secretaria Municipal de Cultura para trabalhar com a equipe da oitava edição do FAN – Festival de Arte Negra. E foi nesse período que conheci o Roger Deff. Nessa turma, ele estava como assessor de imprensa. Conheci o jornalista e fui apresentada também ao rapper e pesquisador.

A música, aliás, é uma de suas formas de se expressar enquanto artista e como cidadão. Nos bailes do Jardim Alvorada, teve contato com referências importantes na construção da própria trajetória. “O desejo de trabalhar com música nasceu ainda na adolescência. Foi lá que conheci Racionais, Mantronix, Kraftwerk, Afrika Bambaataa e Soul Sonic Force. O segundo fator foi meu primo, Rodrigo Pelé. Ele era integrante da Black Soul, o primeiro grupo de rap a gravar em BH e me deu o disco de presente. Isso me estimulou muito. Depois tive contato com uma rapaziada do bairro que já fazia rap, daí segui nesse caminho até hoje”, conta.

E segue no corre, como a maioria dos artistas independentes. Tirar letras do papel, transformar em música, chegar no público, na mídia, na crítica, cantar o que é, onde está. E expandir esse trabalho para o mundo, por que não?! “A Internet tem ajudado. Hoje eu tenho músicas minhas sendo ouvidas no Japão, na Alemanha, em Portugal, e isso se dá por conta da Internet. Antes era mais difícil, mais caro. Hoje é possível fazer de uma única música um grande trabalho, antes só se fosse um disco inteiro, o que não era viável para a maioria”. 

O virtual também é palco para falar de vivências, do mundo, da política. Deff sabe bem disso e da importância de conversar nesse espaço. Nem sempre uma tarefa prazerosa, em tempos de polarização e de embates. A troca de ideias ficou em segundo plano. Enquanto isso, somos puxados para um precipício de fake news, de negação da ciência, extremismo. Em tempos de pandemia, como agora, quando o mundo enfrenta o Covid-19, o debate, por vezes, se torna ainda mais espinhoso. Sem contar com as restrições necessárias para evitar a disseminação do vírus e mortes sem precedentes. Para Roger, a arte inspira esperança. “Essa fase vai passar, não é e nem vai ser fácil, mas consigo ver a cultura dando sinais de vida, de resistência. Arte é esperança no fim das contas, pelo menos a arte que faço, então a gente segue”, afirma.

Vivemos um 2020, no mínimo, desgastante. Uma pandemia, a ciência em busca de respostas, governos autoritários, extremismo, ricos cada vez mais abastados e os já tão pobres devastados com o descaso. Vamos de arte para enfrentar mais um dia. E dá-lhe música. “Matéria Prima, um dos grandes MCs do Brasil, recomendo demais. Maravilha de ouvir também é o novo álbum da Tamara Franklin, “Fugio”. Ouçam!”, indica. 

Roger Deff é editor da Revista Canjerê.

Foto: Roger Deff © Flávio Charchar

No caos da vida, reinventar é preciso

O papo da vez é com Paulo Antunes

Por Samira Reis

O convidado da vez é mestre em Letras (Linguagem, Cultura e Discurso) e graduado em Letras, Direito e Pedagogia. Também é escritor, ator e diretor profissional. Tudo isso diz respeito a Paulo Roberto Antunes, revisor desta revista. Mineiro de Conselheiro Lafaiete, é um apaixonado pela escrita e a leitura. Foi em sua adolescência, ao lado da máquina de escrever, que tudo começou. “Fiz curso de datilografia e comecei a produzir contos. Na mesma época, era um leitor voraz e li muitas obras das literaturas brasileira, norteamericana, inglesa e sulamericana. Devorava obras teatrais, especialmente as tragédias gregas”, conta.

A partir daí, já são três livros publicados. Contos e crônicas fazem parte de “No Pulsar das Entrelinhas”. A segunda obra publicada é “Deserto Habitado”, dividida em duas partes: “Dunas”, com textos de Antunes e “Oásis”, com poemas de Maria Inês de Rezende. O terceiro livro publicado é “Aleatórias: imagem mental com sabor” e “2014: o achamento de Lisboa”, obra dual sendo o primeiro livro pensamentos esparsos sobre a vida, os homens, as inquietações humanas; e o segundo impressões sobre a cidade de Lisboa, onde esteve em 2014 durante o período da Copa do Mundo que se realizava no Brasil. A obra, além de textos, contém fotografias feitas pelo autor.

Como referência literária, Paulo elege Clarice Lispector e destaca como um dos trabalhos mais relevantes na literatura brasileira a novela “A Hora da Estrela” “Trata-se de uma obra metalinguística sobre as eternas questões da vida, o estranhamento do ser humano diante das pessoas e das coisas, a solidão, a natureza do gênero humano, as discriminações, a indiferença em relação ao outro”, diz.

A indicação vem ao encontro deste momento que o mundo atravessa, sob os efeitos de uma pandemia, causada pelo Covid-19. O vírus se alastrou pela China e rapidamente alcançou diversos países, o que resultou em milhares de mortes, fragilidade econômica, além de mudanças no comportamento da sociedade. Na tentativa de frear os efeitos do vírus e ganhar tempo na busca por vacinas e remédios, o isolamento da população se fez e faz necessário. Embora não seja fácil, pode ser a saída mais eficiente. Como tantos, Paulo Antunes tem adotado estratégias dentro do confinamento. “Estou muito voltado para a escrita, a leitura e as comunicações por meio das mídias, embora esse tipo de comunicação não me agrade tanto porque frio, ambíguo e sem gosto em quase todos os sentidos”, afirma.

Aquele clichê “nada será como antes” nunca serviu tão bem. São tempos árduos, por vezes amargo. Experimentamos a nobreza de muitos e a avareza de alguns. Pode ser uma oportunidade de traçarmos uma nova rota para nossa existência. “Talvez seja o momento de nos reinventarmos como seres humanos, analisarmos nossos erros em relação à essa sociedade doente que criamos para, com muito humanismo e racionalidade, traçarmos novos rumos para um novo mundo, mais solidário, sem desigualdades sociais, preconceitos de todos os gêneros e que leve em consideração o bem-estar social de todas as pessoas, não de apenas um diminuto grupo elitista que tem fome de poder, de posse desenfreada e de controle social.”, finaliza.

Paulo Antunes possui três livros publicados e é revisor da Revista Canjerê – Foto: Sérgio Trajano


A versátil Sol Brito

Samira Reis Modelo e Jornalista

Sempre que há evento promovido pelo Casarão das Artes, certamente ela está de prontidão. Pequenina, mas de um sorriso gigante, coloca-se atenta para fotografar cada ação, gesto, detalhe. Essa é a rotina de Solange Rodrigues de Brito, a Sol, que compõe a equipe do Casarão, sendo a responsável pela fotografia. “A fotografia é um prazer que me diverte e instrui porque é um campo de investigação muito amplo. Desde muito nova, observava meu pai fotografando as cenas familiares e, depois de revelar as fotos, comentava os acontecimentos com minha mãe e tios”, conta. Ela ressalta que a curiosidade alimentou o gosto em eternizar as cenas do cotidiano. “Além disso, cada pessoa ou lugar também me motivam a detalhar algum aspecto que considero mais relevante e merece ser registrado”, acrescenta.

Esse olhar apurado também faz parte da rotina em sala de aula. Professora no ensino municipal infantil de Belo Horizonte, ela percebe as crianças cada vez mais interativas. “A meninada insere a sua voz assumindo seu direito que um profissional sensível e atento, independentemente de seu planejamento semanal, quinzenal ou mensal deve ouvir, atendendo a essa demanda primordial”, informa.

Nessa trajetória na educação, ainda é visível, segundo ela, a lentidão das escolas no debate e combate ao racismo. “A escola precisa ainda assumir sua identidade autônoma real, ou seja, perceber a comunidade na qual está inserida. Valorizar os modos de ser e estar saudáveis e culturais dos atores que compõem sua equipe institucional. Isso é feito de uma maneira muito superficial e padronizada. Alguns professores também precisam rever seus conceitos quanto às questões étnicas porque muitos adotam um comportamento indiferente e até compactuam com o preconceito”, explica. Enquanto isso, Sol vai em busca de fazer a diferença. “Tento fazer o que posso em meu trabalho para minimizar esse impacto negativo”, enfatiza

Na sala de aula, é preciso acolher a individualidade de cada aluno para construir uma educação que faça a diferença. A fotografia também segue esse caminho, pois há momentos em que a simplicidade entrega uma riqueza de detalhes para as lentes”, fala consciente de que essa riqueza ela conseguiu capturar em um de seus vários trabalhos. “Foi uma criança de gestual leve e calmo que carregava um pedaço de madeira e o girava nas mãos. Fotografar com a permissão dela me proporcionou invadir uma cena rica e empolgante com a ajuda de uma luz natural e ideal, que estava ali também, como que esperando o convite. Isso me emocionou e encantou porque a criança brincava e não se lembrou mais de mim. Cansou-se da brincadeira e foi embora, mas eu já tinha o suficiente. Sorte minha”, festeja.

Sol explica ainda que exercer a fotografia na atualidade coloca o ser humano diante dos avanços tecnológicos dessa área. As máquinas fotográficas têm se modernizado e ao lado delas estão os smartphones, cada vez mais sofisticados para atender os usuários e as redes sociais. Na visão da fotógrafa, a diferença está em quem conduz e o ser humano é primordial nesse processo.  “A tecnologia nos permite, enquanto fotógrafos, experimentar visões universalistas porque todos agora têm acesso a uma câmera básica ou de ponta em seus celulares e smatphones.

Mas, apesar de todo esse arsenal tecnológico cada dia mais expressivo, o que difere esse aparato moderno da fotografia tradicional é o olhar, a intenção, a criatividade e a poética de cada fotógrafo.  Isso a tecnologia, por mais aprimorada, não fornece porque todo ser é único, e revela isso ao apresentar seu trabalho, seja fotográfico ou de qualquer outra área. Isso é fato”, finaliza.

Foto: Dayse Brito

Um protagonismo de africanidades


Por Rafaela Pereira – graduada em Língua Portuguesa pela UFMG e pesquisadora de Literatura Infanto Juvenil e Representações Afro-brasileiras.

Eis que apareceu naquela escola um professor usando trança nagô, barrete com as cores do reggae, um estilo ressaltando muito bem a sua negritude. Para os alunos, não deixava de ser novidade um professor com aquele perfil, pois até o momento não havia aparecido um como ele.

Não demorou muito para conquistar a simpatia dos alunos que, através dele, começaram a ter acesso ao que tangia à cultura afrobrasileira.

Logo, percebeu-se que aquele professor não transitava somente no território educacional. Foi quando começamos a ver seu rosto estampado em propagandas comerciais, educacionais, políticas e em cartazes de peças de teatro.

Realmente, o espaço escolar não estava dando conta de abraçar as ações de Denilson Tourinho. Ator, mestre em Africanidades pela Universidade de Brasília, dançarino, produtor cultural e professor, Denilson exerceu (e exerce) importantes papéis nas artes cênicas, integrando, concomitantemente, diversos projetos pelos quais recebeu vários prêmios, entre eles, o “Troféu Mês da Consciência Negra”.

Atualmente vem se destacando devido à sua belíssima atuação na peça Madame Satã,dirigido por João das Neves, em que interpreta com louvor o personagem João Francisco dos Santos, transformista e figura emblemática do cenário carioca no início do século XX.

Além de integrar essa obra, Denilson faz parte do elenco de Galanga, Chico Rei e Kàdáràe destaca-se também como um importante nome nas artes cênicas e colaborador, com excelência, do protagonismo cultural afromineiro.