Categoria

Literatura

Ad vinho


Por Filinto Silva – Poeta e Escritor Cabo-Verdiano. Membro do Conselho Editorial da Revista Canjerê.

Qual é a cor da música?/
Seu gosto de fruta e de cravinho.(…)/
As horas do teu corpo batem/
Em que lugar quando ressoa/
Meia-noite no meu poema?(…) /
Tudo isso adivinho seres tu,/
Posto que travam como vinho/
As cores que li no gosto.(…)/
Tempero, em que novelo/
És mais água do que sal?/
Concha, em que segredo/
Me és palavra repentina?/
A cor da música…”

Ilustração: Maria Luiza Viana – Doutoranda em Design pela USP, graduada em Artes Visuais e mestra em arte e tecnologia de imagem pela UFMG.

POEMAS

Ilustração: Marcial Ávila

Edmilson de Almeida Pereira –  Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1963. É professor de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora.

SIGNOS

 Endereço nos cabelos leva a mais do que leio

onde estão dançando em ritmos vermelhos.

Dançam tatuagens alheias a seu desenho.

As siglas dos mistérios fecham sem correntes

um corpo que intenso se move na inércia.

E sobre outro corpo –  maestro por urgência –

dança como se antes vencesse o desespero.

Dentro da música o pente a silhueta a hora

em que a última fera sabe o sigilo dos velhos.

Os ritmos que entendo pelo ruído dos dentes

são outros são estes atentos como espelhos.

Aquela que me dança na mais perfeita esfera

luta com seus nervos e as cartas que escreve.

O blues me atravessa uma rajada de espíritos

as ilusões viram seta navegando pelos discos.

O céu se dobra em ruas as flores nos oceanos.

A dança que se espera dura se não dançamos.

 

FÁBULA

Esquina não  é  parte  da rua, nem  cotovelo de faca.

Nem caverna  onde  um  se  esconde,  se perseguido.

Nem  macio  para  o amor  de  quem   não  tem leito.

Nem igreja ou teatro, mesmo que aí  tantos represen-

tem. Esquina não é bar nem feira nem seta indicando

desvio. Mais que um lugar é a recitação da passagem.

 

DUETO

Sem saber o idioma da tarde

não posso fugir ao exílio.

Só o trabalho traz o mundo

ao meu alcance. Delírio é a

ausência de comunicação. Se

assobio tivesse declinações.

Esse me sibila o corpo

e cai. De repente, alguém

afora o levanta e devolve.

Devolve a mim, a si? Pouco

importa. Esse diálogo basta

para reinaugurar a tarde.

 

NA CASA DE MEU PAI

 um que se arranha tem  seu canto. Se quiser  ir ao

mundo faz a mala, vai. O pai cede o manto, a seu

tempo garagem  e  porto.  Na  casa,  um  observa.

O pai, que é de todos, se erra  um  jogo acerta  de

outro jeito. Um está na porta, não entra, não sai e

se move mais que a gente carteando  naipes. Com

ele o pai entesa. Ele, o um que é nós.