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Literatura

4° EDIÇÃO DO ENCONTRO NEGRO DE CONTADORES DE HISTÓRIAS – EMBONDEIRO 2021 CELEBRA HISTÓRIAS PRETAS E SABERES ANCESTRAIS DAS MATRIARCAS DA PEDREIRA PRADO LOPES EM PROGRAMAÇÃO ON-LINE E GRATUITA

Em sua 4ª edição, no dia 16 de outubro, o Encontro Negro de Contadores de Histórias- Embondeiro 2021 reúne 15 contadores de histórias e celebra saberes das matriarcas guardiãs das histórias da Pedreira Prado Lopes. O evento terá show do grupo Orisamba e abertura com Pai Ricardo. A programação, on-line e gratuita, será exibida pelo Youtube.

Por Mariana Cordeiro – Jornalista

Idealizado pelo Coletivo Iabás, o Encontro Negro de Contadores de Histórias – Embondeiro 2021 terá como protagonismo histórias pretas e os saberes ancestrais das matriarcas da Pedreira Prado Lopes. O evento apresenta ao público 15 contadores de histórias, uma roda de conversa com as matriarcas, além da atração musical de encerramento com o grupo Orisamba. Toda a programação on-line e gratuita será exibida pelo canal do Coletivo Iabas no Youtube.

O evento trará a diversidade de histórias das tradições africanas no continente África e na diáspora. Histórias de bichos, de gente e sobre orixás. O elenco contará com: Adriana Vieira, Aline Costa, Anderson Ferreira, Ariane Maria, Cida Araujo, Elaisa de Souza, Eneida Baraúna, Evandro Nunes, Fabiana Brasil, Flávia Filomena, Jéssica Tamietti, Marcus Carvalho, Teily Assis, Vanessa Anastácio e Wellison Maurício. A abertura será com Pai Ricardo, coordenador da Associação de Resistência Cultural Afro-brasileira Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente (CCPJO) e sabedor de conhecimentos sobre as ervas, os toques e cuidados com os tambores, as cantigas, as benzeções e rezas.

Para Chica Reis, uma das organizadoras, ouvir as anciãs e contadores pretos é essencial para conhecer o outro lado da história de Belo Horizonte, uma forma de descobrir a capital pela perspectiva de quem a construiu: “tem um provérbio que diz que enquanto o leão não souber contar as suas histórias, só as histórias dos caçadores virão e as histórias dos caçadores sempre dizem que os leões morrem, que os leões são caçados”. O Encontro Negro de Contadores de Histórias é uma oportunidade de conhecer a história da cidade e cultura brasileira já que os envolvidos têm muitas histórias e que por vezes não encontram espaços para chegarem a mais pessoas. O encontro será realizada no dia 16 de outubro (sábado), das 10h às 17h no canal YouTube

As matriarcas

Um dos destaques da edição é a roda de conversa com as matriarcas Iolanda, Marlene e Dona Geralda, Dona Osiva, Joaquina e Noeme. As matriarcas, moradoras da Pedreira e do Buraco Quente, são guardiãs de saberes e tradições, foram convidadas para partilhar suas histórias e vivências de um matriarcado com características muito próprias da Pedreira. “As matriarcas representam uma amostra das mulheres dentro da Pedreira que é o lugar de gestora das famílias. Nesse sentido elas têm uma referência muito grande com o matriarcado africano, porque cuidam da economia, além de cuidar dos filhos e netos”, destaca Madu Costa, escritora e arte-educadora, também organizadora do Encontro. 

Pai Ricardo e Bloco Orisamba

Pai Ricardo, responsável pelo (CCPJO) destaca que o evento é “uma oportunidade de fazer algo pela Pedreira e pelas populações do local ao voltar os olhares para dentro e construindo com os moradores de lá um encontro que ressalta a importância da Pedreira que é o berço da confluência e transferência dos costumes, da culinária e histórias da região da Lagoinha”. O Grupo de Samba e Bloco Orisamba, que também é coordenado pelo Pai Ricardo, encerra a festividade reforçando a mensagem que o Encontro quer passar: a Pedreira Padro Lopes é um local que pulsa cultura e tradição. 

Embondeiro, árvore de raízes profundas

Depois de uma viagem das idealizadoras para Angola, o Encontro Negro de Contadores de Histórias de Minas Gerais ganha um nome ainda mais simbólico: Embondeiro, árvore popularmente conhecida no Brasil como Baóba. O nome do evento foi escolhido pela força e significado da árvore, que tem raízes profundas, dá fruto e alimenta, além de acolher com sua sombra. Magna Oliveira, contadora de histórias e organizadora do evento, explica que Embondeiro representa a força que emana da periferia: “o Embondeiro está dando vários recados: sobre a importância de contar histórias pretas, além da escolha da equipe preta. Enfim, é um evento dentro da periferia que abraça as pessoas da comunidade”.

Sobre o Coletivo Iabás

O Coletivo Iabás é composto por três mulheres negras contadoras de histórias: Chica Reis, Magna Oliveira e Madu Costa que se conheceram para a produção da 4° edição do Ayó Encontro Negro, que passou por Minas Gerais em 2018 e foi idealizado pela pesquisadora e produtora Nathália Grilo Cipriano. Após essa produção, fundaram o Coletivo Iabas, em 2018. Além de viajar pelo país contando histórias, ao longo dos últimos anos reuniram contadores de histórias negros de Minas Gerais e de outros estados em eventos com apresentações, gastronomia e arte protagonizada por artistas negros. 

Foto: Thiago Pacheco

Isidoro um Homem de Quilate!

Marcial Ávila, artista plástico, poeta, membro do conselho editorial da Revista Canjerê


O som de tiros ecoou pelas serras diamantinas.

Fez estremecer os mais distantes lugarejos.

Os corações se fizeram aflitos, 

tanto dos quilombolas ocultos nas entranhas do espinhaço,

quanto dos brancos que ostentavam títulos de nobreza.

Muitos mais tiros ribombaram nas brenhas…

e o silêncio após.

O Arraial do Tejuco contrito,

mal respirava aguardando o porta voz:

– Sim, prenderam Isidoro!

Prenderam Isidoro?

E lá veio ele arrastado pelos becos e vielas

sob os olhares orgulhosos dos seus algozes.

Foi açoitado, martirizado em praça pública.

Morre, negro maldito!

Gritava a soldadesca.

Vive, Isidoro, pelo amor de Deus!

No entorno, preces confusas subiam aos céus.

E velas foram acesas em oratórios particulares,

uns pediam vida, outros morte para ele.

Afinal, muitos destinos estavam nas mãos amarradas de Isidoro.

Seus olhos, mesmo que embaçados pela dor,

ainda podiam ver através das treliças, 

velhos amigos de negócios ocultos nas sombras.

Ninguém ousou defendê-lo.

Detrás dos arvoredos, rostos negros como o seu

choravam pela sua dor.

Apenas em pensamentos diziam…

– Ele é inocente, 

– Deus o acuda!

– Valha, Nossa Senhora do Rosário, mãe dos pretos!

– Fala, escravo galé! 

– Entrega de uma vez!

– Com quem contrabandeava as pedras?

Mas nem uma palavra,

Nem uma palavra saía dos seus lábios ensanguentados.

– De quem eram os diamantes?

– Com quem os negociava?

Ele sabia de onde vinham os calhaus,

os tirou com as mãos, dos grotões da serra

e das veias dos rios.

Se a terra teve a confiança de entregar a ele 

as mais belas pedras…

– Eram seus! 

– Os diamantes eram seus, 

não os roubou de ninguém.

Era um homem honrado.

Podiam ter escravizado seu corpo,

mas nunca sua alma. 

Ninguém tiraria seu título.

Ele era o maior batedor dos sertões, 

tinha faro pras riquezas, 

era o senhor dos diamantes! 

E na sua honradez, 

não delatou ninguém.

Nem brancos nem pretos,

Nem justos nem ímpios.

E mais chicotada!

– Morreu Isidoro!

– Morreu Isidoro?

Morreu o inocente,

levou consigo muitos segredos do Tejuco.

Com ele muitos perderam o lucro fácil.

Outros tantos respiraram aliviados.

Mas muitos que foram libertos por ele

prantearam sua morte.

Negros cativos ou forros das mais diversas línguas e crenças,

se uniram em oração.

Todos os sinos repicavam uníssonos em agonia,

Talvez chorassem as lágrimas que não caíram dos olhos dele.

Parece que aquele burgo se tornou em instantes

uma imensa irmandade cristã.

Mal sepultaram seu corpo no burgalhau,

Ouviram gargalhadas na serra.

Na serra do Isidoro!

Ele era novamente livre, 

como sempre o foi em seu coração.

Mas muitas almas do tijuco se tornaram cativas,

Sob o julgo dele.

Sobre seus tesouros enterrados, ele gargalhava.

Com olhos despertos, podia ver a ganância pairando sobre o arraial.

Ri, Isidoro!

Ri, Isidoro!

De quem será sua fortuna enterrada?

Quem herdará sua estrela?

E depois dele, mais ninguém…

Ninguém teve seu faro pra diamantes, sua sabedoria.

Ele entendia da terra, sabia onde procurar.

– Isidoro, o mártir.

– O mártir?

– Não! Não!

– O escravo Isidoro?

 – Não!

O homem honrado de coração nobre,

Que tinha alma livre!

Que não morreu como delator 

e não traiu a confiança dos seus.

Levou a verdade trancada em seu coração flagelado.

Ele foi o maior garimpeiro das gerais.

Senhor do distrito diamantino.

Virou intocável, virou lenda, é imortal!

Dizem que ainda hoje anda pelo beco.

O Beco do Isidoro!

Que tem poder de manipular as almas gananciosas 

que ambicionam seus tesouros enterrados.

 E até lhes aponta falsos caminhos.

Mas ele sempre soube onde estavam os diamantes.

Sempre soube!

Afinal ele era Isidoro, 

O grande garimpeiro,

 o maior!

Aquele que com diamantes libertou corpos e almas do seus iguais.

Um homem nobre, um homem de quilate!

Isidoro!

Ilustração: Marcial Ávila

Ofício

Poema de Edimilson de Almeida Pereira.

Ilustração: Maria Luiza 

OFÍCIO

Tatear a origem
é iludir-se.

O escrito, à mercê
do que foi dito,
inaugura outro país.

O que se dá nos mapas
em forma
de província, urbe
& melhorias

não é senão um caco
de palavra.

A origem ressona
grave,
sem nação ou pacto.
Há quem a leve

no bolso, em crimes
que nos deserdam.

Outros a curtem sob a
forma de bois de aluguel.
Ou a costuram em óleos
santos.

Mas há os ferinos e seu
humour
que tira o minério
das conchas.

Por eles a origem despista
rendas, misérias
e outros benefícios.

Pela origem
somos-não-somos.
Espécie que escreve
para esquecer.

Ad vinho


Por Filinto Silva – Poeta e Escritor Cabo-Verdiano. Membro do Conselho Editorial da Revista Canjerê.

Qual é a cor da música?/
Seu gosto de fruta e de cravinho.(…)/
As horas do teu corpo batem/
Em que lugar quando ressoa/
Meia-noite no meu poema?(…) /
Tudo isso adivinho seres tu,/
Posto que travam como vinho/
As cores que li no gosto.(…)/
Tempero, em que novelo/
És mais água do que sal?/
Concha, em que segredo/
Me és palavra repentina?/
A cor da música…”

Ilustração: Maria Luiza Viana – Doutoranda em Design pela USP, graduada em Artes Visuais e mestra em arte e tecnologia de imagem pela UFMG.

POEMAS

Ilustração: Marcial Ávila

Edmilson de Almeida Pereira –  Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1963. É professor de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora.

SIGNOS

 Endereço nos cabelos leva a mais do que leio

onde estão dançando em ritmos vermelhos.

Dançam tatuagens alheias a seu desenho.

As siglas dos mistérios fecham sem correntes

um corpo que intenso se move na inércia.

E sobre outro corpo –  maestro por urgência –

dança como se antes vencesse o desespero.

Dentro da música o pente a silhueta a hora

em que a última fera sabe o sigilo dos velhos.

Os ritmos que entendo pelo ruído dos dentes

são outros são estes atentos como espelhos.

Aquela que me dança na mais perfeita esfera

luta com seus nervos e as cartas que escreve.

O blues me atravessa uma rajada de espíritos

as ilusões viram seta navegando pelos discos.

O céu se dobra em ruas as flores nos oceanos.

A dança que se espera dura se não dançamos.

 

FÁBULA

Esquina não  é  parte  da rua, nem  cotovelo de faca.

Nem caverna  onde  um  se  esconde,  se perseguido.

Nem  macio  para  o amor  de  quem   não  tem leito.

Nem igreja ou teatro, mesmo que aí  tantos represen-

tem. Esquina não é bar nem feira nem seta indicando

desvio. Mais que um lugar é a recitação da passagem.

 

DUETO

Sem saber o idioma da tarde

não posso fugir ao exílio.

Só o trabalho traz o mundo

ao meu alcance. Delírio é a

ausência de comunicação. Se

assobio tivesse declinações.

Esse me sibila o corpo

e cai. De repente, alguém

afora o levanta e devolve.

Devolve a mim, a si? Pouco

importa. Esse diálogo basta

para reinaugurar a tarde.

 

NA CASA DE MEU PAI

 um que se arranha tem  seu canto. Se quiser  ir ao

mundo faz a mala, vai. O pai cede o manto, a seu

tempo garagem  e  porto.  Na  casa,  um  observa.

O pai, que é de todos, se erra  um  jogo acerta  de

outro jeito. Um está na porta, não entra, não sai e

se move mais que a gente carteando  naipes. Com

ele o pai entesa. Ele, o um que é nós.