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Teatro

espetáculo “Traga-me a cabeça de Lima Barreto!”, com interpretação de Hilton Cobra

HILTON COBRA REFLETE SOBRE LOUCURA, RACISMO E EUGENIA

O espetáculo “Traga-me a cabeça de Lima Barreto!”, com interpretação de Hilton Cobra, dramaturgia de Luiz Marfuz e direção de Onisajé (Fernanda Júlia), foi apresentada na noite de ontem, dia 6 de dezembro, no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte. A ação do ator, que é fundador da Cia dos Comuns, integra o 11º Festival de Arte Negra de Belo Horizonte (FAN BH 2021)

Livremente inspirada na obra de Lima Barreto (1881-1922) – especialmente nos títulos “Diário íntimo” e “Cemitério dos vivos”-, “Traga-me a cabeça de Lima Barreto!” reúne trechos de memórias impressas nas obras do escritor, que são entrecruzados com livre imaginação. O texto fictício tem início logo após a morte de Lima Barreto, quando eugenistas exigem a exumação de seu cadáver para uma autópsia a fim de esclarecer a seguinte questão: como um cérebro inferior poderia ter produzido tantas obras literárias se o privilégio da arte nobre e da boa escrita é das raças superiores? A partir desse embate, a peça mostra as várias facetas da personalidade e genialidade de Lima Barreto, sua vida, família, a loucura, o alcoolismo, sua convivência com a pobreza, sua obra não reconhecida, racismo, suas lembranças e tristezas.

Escrito para comemorar os 40 anos de carreira de Hilton Cobra, o monólogo conta com trechos dos filmes “Homo sapiens 1900” e “Arquitetura da destruição, ambos cedidos pelo cineasta sueco Peter Cohen – que mostram fortes imagens da eugenia racial e da arte censurada pelo regime hitlerista. Lázaro Ramos, Caco Monteiro, Frank Menezes, Harildo Deda, Hebe Alves, Rui Manthur e Stephane Bourgade emprestam a voz para a leitura em off de textos de apoio à cena.

Além de ser fundador da Cia dos Comuns, Hilton Cobra foi nomeado presidente da Fundação Cultural Palmares em 2013 e dirigiu o Centro Cultural José Bonifácio de 1993 a 2000. Nesse período, foi responsável pela criação de projetos como Nossas Yabás, “Projeto Griot” e “Zumbi Rio – 300 Anos”. Mais tarde, fundou o grupo de artistas negros Akoben.

Toda a programação do FAN BH 2021 é gratuita. O evento é realizado cumprindo todos os protocolos de combate à covid-19 vigentes em Belo Horizonte. O festival é uma realização da Prefeitura de Belo Horizonte, a partir da Secretaria Municipal de Cultura, Fundação Municipal de Cultura, em parceria com o Centro de Intercâmbio e Referência Cultural (CIRC).

Foto: Pâmela Bernardo

O Instante Mágico

Carlandréia Ribeiro – Atriz, arte-educadora, produtora cultural e artivista

É do trabalho árduo, mas sobretudo prazeroso, que nasce a cena. Árduo porque desde a fração do milésimo rompante do nascimento da ideia que passa em velocidade pela mente do artista até o ansiado dia da estreia, cada detalhe demanda extrema dedicação.

O mote pode vir de lugares inusitados. Da mais banal situação cotidiana, à mais complexa urdidura de mensagens.

O texto teatral, visto como meio de transmissão do desejo, pode nos contar da vida mais ordinária, como pode ser o vetor das mais graves e brutais denúncias. A partir dele, pode-se provocar ruídos que a sociedade talvez não almeje ver e escutar.

Não à toa, em momentos em que sociedades se inclinam ao fascismo, os atores, as artes e os artistas são os primeiros a sofrerem tentativas de silenciamento.

Uma sociedade em que os poderosos temem a cultura está terrivelmente ameaçada.

O teatro é o instante mágico onde fantasia e realidade ocupam o mesmo espaço de grandeza. Espaço onde a vida vivível se instaura enquanto jogo – too play! E do árduo se faz o prazer, o gozo coletivo entre atores e espectadores.

É a manifestação do sagrado – Evoé Baco!

Finalmente, o abrir das cortinas, o frisson nas coxias, a luz, os músculos aquecidos, o frio na barriga, o burburinho da entrada do público, o terceiro sinal…

Silêncio…

Cest Magic!

Merda!

O instante mágico estabelecido enquanto rito. Cerimônia em que o riso e a dor, o solene e o onírico acontecem em minutos de absoluta entrega. Uma força que pode mover mundos inteiros.

Toda essa magia, todo o rito ficou em suspensão com a necessidade de isolamento imposto pela pandemia. Nunca a frase “teatro é presença” fez tanto sentido em nossas vidas.

Pode-se reinventar os meios, apresentações no mundo virtual, mil plataformas, mas nada poderá substituir o calor da presença, da respiração compartilhada dentro do teatro.

O direito à presença clama por vacinas para todos. O direito à fruição artística é um Direito Humano.

Viva o Teatro!


Prêmio Leda Maria Martins: negra Belo Horizonte contemplada a partir das Artes Cênicas

Por Denilson Tourinho

Em 2017, raiou no horizonte da capital mineira um projeto arquitetado como prêmio de teatralidades e edificado em epistemologias e estéticas negras. O Prêmio Leda Maria Martins de Artes Cênicas Negras de Belo Horizonte é estudo, homenagens e engendramentos.

Negra, poeta, ensaísta, dramaturga, pesquisadora e rainha de Nossa Senhora das Mercês da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá é Leda Maria Martins, reverenciada que oferta o nome e o sobrenome ao prêmio e referência dos termos e conceitos que norteiam a concepção das categorias: Encruzilhada – Direção; Muriquinho – Infantojuvenil; Oralitura – Texto e/ou Trilha Sonora; Corpo Adereço – Dança; Performance do Tempo Espiralar – Performance; Lugar da Memória – Cena Curta; Afrografias – Atuação; Cena em Sombras – Cenário e/ou Figurino e/ou Luz; Palco em Negro – Espetáculo de Longa Duração; Ancestralidade – Personalidade e/ou Homenagem e/ou Revelação. Em todas as categorias, é o espetáculo que recebe o prêmio.

Foto: Divulgação Prêmio Leda Martins

A primeira edição da premiação teve o tema Afeto Emancipatório, de Nilma Lino Gomes; após, em 2018, Escrevivência: escrever, viver, se ver, de Conceição Evaristo e, em 2019, Exuzilhar, de Cidinha da Silva. Formado por promotores de cultura, o júri analisa as centenas de encenações catalogadas por meio de levantamento curatorial. Os troféus são produzidos pelo artista Lúcio Ventania e os prêmios são livros das editoras Nandyala, Mazza, Javali, Kuanza, Selo Aquilombô e Livraria Bantu. Além das autoras supracitadas e das encenações contempladas, já receberam homenagens Zora Santos, Valdinéia Soriano, Miguel Arcanjo e Marlene Silva, em vida.  

Denilson Tourinho é artista, mestre em Educação pela UFMG, idealizador e curador do Prêmio Leda Maria Martins de Artes Cênicas Negras de Belo Horizonte.


Abertura do FIT. Foto: Ricardo Laf

Diversidade nos palcos do FIT-BH

Por Naiara Rodrigues, jornalista e assessora de imprensa

Pensar o corpo como uma língua e o seu lugar na construção de discursos. Esta foi a ideia do conceito “corpos-dialetos”, proposta pela curadoria de Grace Passô, Soraya Martins e Luciana Romagnolli junto de mais três curadores-assistentes para a 14ª edição do FIT-BH, Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte. “Fomos atrás de produções que respondessem estética e criticamente problemas atuais do Brasil, em que diferentes pessoas pudessem se sentir reconhecidas nos palcos por questões de cor, gênero, raça, sotaques”, destaca a curadora Soraya Martins.

Na Mostra Nacional, por exemplo, a produção nordestina correspondeu a 66% dos trabalhos apresentados. Entre eles estava o pernambucano “A Gente Combinamos de Não Morrer”, inspirado no conto homônimo de Conceição Evaristo, performance dedicada à constituição de situações, rituais e processos coletivos de elaboração das feridas necropolíticas. “Tentamos fazer um festival que ampliasse a noção de teatro brasileiro que, muitas vezes, é pensado numa perspectiva eurocentrista. Buscamos teatro feito por mulheres, por nordestinos, por trans, por pessoas que estão nas periferias com suas potências criadoras. A gente mudou o foco do olhar, para expandir, sair do eixo Rio-São Paulo”, destaca.

Para a curadora, o festival foi político e democrático. “O FIT levou para os palcos teatros políticos feitos com uma excelência estética muito grande porque muitas vezes a gente fala de teatro político e as pessoas acham que não tem estética”, afirma. Ela cita a peça “Unwanted”, da performer ruandesa Dorothée Munyaneza, feita a partir de relatos coletados por ela de mulheres que foram vítimas de estupros cometidos como arma de guerra durante o genocídio dos Tutsis. “Foi discutido política, mas esteticamente, com música eletrônica, cantigas em dialeto ruandês, dança, e performance corporal incrível, fruto do seu estudo em torno do teatro contemporâneo. É inegável falar que tem uma qualidade estética naquele trabalho”, avalia Soraya Martins.

O evento reuniu um conjunto de trabalhos nacionais e internacionais que fez seu percurso na contramão de uma arte eurocentrada, trazendo para os palcos o debate sobre questões de gênero, classe e étnico-raciais. Foram 59 apresentações com trabalhos de doze países e oito estados brasileiros, além de oficinas, mostra de cinema e outras atividades que contaram ao todo com público estimado de 25 mil pessoas.