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Teatro

Prêmio Leda Maria Martins: negra Belo Horizonte contemplada a partir das Artes Cênicas

Por Denilson Tourinho

Em 2017, raiou no horizonte da capital mineira um projeto arquitetado como prêmio de teatralidades e edificado em epistemologias e estéticas negras. O Prêmio Leda Maria Martins de Artes Cênicas Negras de Belo Horizonte é estudo, homenagens e engendramentos.

Negra, poeta, ensaísta, dramaturga, pesquisadora e rainha de Nossa Senhora das Mercês da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá é Leda Maria Martins, reverenciada que oferta o nome e o sobrenome ao prêmio e referência dos termos e conceitos que norteiam a concepção das categorias: Encruzilhada – Direção; Muriquinho – Infantojuvenil; Oralitura – Texto e/ou Trilha Sonora; Corpo Adereço – Dança; Performance do Tempo Espiralar – Performance; Lugar da Memória – Cena Curta; Afrografias – Atuação; Cena em Sombras – Cenário e/ou Figurino e/ou Luz; Palco em Negro – Espetáculo de Longa Duração; Ancestralidade – Personalidade e/ou Homenagem e/ou Revelação. Em todas as categorias, é o espetáculo que recebe o prêmio.

Foto: Divulgação Prêmio Leda Martins

A primeira edição da premiação teve o tema Afeto Emancipatório, de Nilma Lino Gomes; após, em 2018, Escrevivência: escrever, viver, se ver, de Conceição Evaristo e, em 2019, Exuzilhar, de Cidinha da Silva. Formado por promotores de cultura, o júri analisa as centenas de encenações catalogadas por meio de levantamento curatorial. Os troféus são produzidos pelo artista Lúcio Ventania e os prêmios são livros das editoras Nandyala, Mazza, Javali, Kuanza, Selo Aquilombô e Livraria Bantu. Além das autoras supracitadas e das encenações contempladas, já receberam homenagens Zora Santos, Valdinéia Soriano, Miguel Arcanjo e Marlene Silva, em vida.  

Denilson Tourinho é artista, mestre em Educação pela UFMG, idealizador e curador do Prêmio Leda Maria Martins de Artes Cênicas Negras de Belo Horizonte.


Abertura do FIT. Foto: Ricardo Laf

Diversidade nos palcos do FIT-BH

Por Naiara Rodrigues, jornalista e assessora de imprensa

Pensar o corpo como uma língua e o seu lugar na construção de discursos. Esta foi a ideia do conceito “corpos-dialetos”, proposta pela curadoria de Grace Passô, Soraya Martins e Luciana Romagnolli junto de mais três curadores-assistentes para a 14ª edição do FIT-BH, Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte. “Fomos atrás de produções que respondessem estética e criticamente problemas atuais do Brasil, em que diferentes pessoas pudessem se sentir reconhecidas nos palcos por questões de cor, gênero, raça, sotaques”, destaca a curadora Soraya Martins.

Na Mostra Nacional, por exemplo, a produção nordestina correspondeu a 66% dos trabalhos apresentados. Entre eles estava o pernambucano “A Gente Combinamos de Não Morrer”, inspirado no conto homônimo de Conceição Evaristo, performance dedicada à constituição de situações, rituais e processos coletivos de elaboração das feridas necropolíticas. “Tentamos fazer um festival que ampliasse a noção de teatro brasileiro que, muitas vezes, é pensado numa perspectiva eurocentrista. Buscamos teatro feito por mulheres, por nordestinos, por trans, por pessoas que estão nas periferias com suas potências criadoras. A gente mudou o foco do olhar, para expandir, sair do eixo Rio-São Paulo”, destaca.

Para a curadora, o festival foi político e democrático. “O FIT levou para os palcos teatros políticos feitos com uma excelência estética muito grande porque muitas vezes a gente fala de teatro político e as pessoas acham que não tem estética”, afirma. Ela cita a peça “Unwanted”, da performer ruandesa Dorothée Munyaneza, feita a partir de relatos coletados por ela de mulheres que foram vítimas de estupros cometidos como arma de guerra durante o genocídio dos Tutsis. “Foi discutido política, mas esteticamente, com música eletrônica, cantigas em dialeto ruandês, dança, e performance corporal incrível, fruto do seu estudo em torno do teatro contemporâneo. É inegável falar que tem uma qualidade estética naquele trabalho”, avalia Soraya Martins.

O evento reuniu um conjunto de trabalhos nacionais e internacionais que fez seu percurso na contramão de uma arte eurocentrada, trazendo para os palcos o debate sobre questões de gênero, classe e étnico-raciais. Foram 59 apresentações com trabalhos de doze países e oito estados brasileiros, além de oficinas, mostra de cinema e outras atividades que contaram ao todo com público estimado de 25 mil pessoas.