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Entrevista

Afoxé, a presença do candomblé no carnaval

Por Etiene Martins

Também chamado de Candomblé de rua, o Afoxé é um cortejo que sai durante o carnaval. Uma das muitas manifestações culturais dos negros brasileiros. Elaborado pelo povo iorubá, seus integrantes geralmente são vinculados a um terreiro de candomblé. O termo afoxé provém da língua iorubá. É composto por três termos: a, prefixo nominal; fo, significa dizer, pronunciar; xé, significa realizar-se. Traduzindo afoxé quer dizer o enunciado que faz.

As principais características são as roupas, nas cores dos Orixás, as cantigas em língua Iorubá, instrumentos de percussão, afoxé (ou agbê), cabaça coberta por uma rede formada de sementes ou contas, os atabaques, e o agogô, formado por duas campânulas de metal. O ritmo da dança na rua é praticamente o mesmo dos terreiros, bem como as melodias entoadas nos cortejos dos afoxés são as mesmas cantigas entoadas nos terreiros afro-brasileiros que seguem a linha jexá. Os cantos são puxados em solo, por alguém de destaque no grupo, e são repetidos por todos, inclusive os instrumentistas. Antes da saída do grupo, ocorre o ritual religioso (como a cerimônia do “padê de Exu” feita antes dos ritos aos orixás numa festa de terreiro). O afoxé Embaixada da África foi a primeira manifestação negra a desfilar pelas ruas do Brasil, na Bahia, em 1885. Em seu primeiro desfile, utilizou indumentária importada da África. No ano seguinte, surgiu o afoxé Pândegos da África.

O surgimento de afoxés no Brasil desenvolveu-se num período de fortes proibições a elementos que reverenciem o candomblé e a cultura negra, tendo em vista que buscava-se um “embranquecimento” da sociedade. Os negros eram vistos como inferiores e imorais. A criação dos afoxés aparece então como uma forma de resistência cultural, evidenciando o candomblé nas ruas da cidade e demarcando um espaço territorial, período que é denominado de “africanização” da Bahia.

Eles apareceram como clubes negros organizados, os quais ganharam visibilidade apresentando-se com a utilização de elementos comuns aos clubes brancos. 

Apesar de possuírem esses elementos, eles também possuíam elementos comuns à religião de matriz africana e utilizavam os mesmos princípios dos rituais utilizados pelos afoxés simples da época. Esses clubes eram: Os pândegos da África e a Embaixada Africana. Foram considerados mais aceitáveis pela população, tendo em vista que eles exibiam riqueza e luxo nos seus desfiles.O que não ocorria com os afoxés mais pobres que eram vistos como batuque insolente da população marginalizada. Em 1902, os afoxés pediram licença à Prefeitura de Salvador para desfilarem e tiveram o pedido negado, causando uma série de discussões as quais traziam à tona a questão de que os afoxés eram marginalizados, mas resistiam, assim como uma aceitação melhor de seus próprios elementos símbolos do candomblé, o que mostrava uma ideia bastante recorrente nesse período que é a ideia de resistência cultural.

Mesmo diante de toda essa trajetória histórica, os desfiles de afoxés não são muito valorizados pelas populações às quais eles estão atrelados, são vistos mais como um momento de festa do que como uma manifestação social em busca de reconhecimento e valorização social. O Afoxé, portanto, não é sinônimo de bloco carnavalesco. Trata-se de uma manifestação que tem profunda vinculação com as manifestações religiosas dos terreiros de candomblé. É importante lembrar que o afoxé surge para demonstrar a presença dos negros na sociedade e tentar alcançar uma maior igualdade através do convívio, seria aquilo que Florestan Fernandes chamaria como um meio de integrar o negro em uma sociedade de classes.

Atualmente, podemos encontrar Afoxé não somente no carnaval da Bahia em Salvador, mas também nas cidades de Fortaleza, Recife, Olinda, Rio de Janeiro, São Paulo, Ribeirão Preto e em Belo Horizonte. Fomos bater um papo com os integrantes do Ilê Odara e conhecer as peculiaridades do primeiro Afoxé da capital mineira.


Gostaria que nos contassem como se deu a fundação do Afoxé Ilê Odara. De quem foi a ideia inicial? Quais foram as pessoas que participaram desse primeiro momento?

A ideia nasceu após um show de Gilberto Gil, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em meados de 1979. Mamãe teve acesso ao camarim e, no meio da conversa, Gil perguntou por qual motivo ainda não tinha um afoxé em Belo Horizonte. Ela, como ialorixá, envolvida com o MNU (Movimento Negro Unificado) e seus valores, viu ali nascer a ideia com o desafio lançado por Gil, por quem ela tinha grande carinho. Logo, outros encontros foram marcados entre Gil e Mãe Gigi, dando origem ao Afoxé Ilê Odara, tendo como inspiração o baiano Afoxé Filhos de Ghandy. Gil esteve algumas vezes lá em casa, esclarecendo dúvidas sobre a criação do Afoxé em relação à indumentária e percussão.

Em seguida Dona Oneida se organizou e montou a Diretoria do Afoxé Ilê Odara, compondo-a Marlene Silva como diretora artística e braço direito de Mãe Gigi.

A diretoria era composta por Mãe Gigi e seu esposo o sambista Velho Dico. Passaram pela diretoria do Afoxé ilê Odara celebridades como os coreógrafos Márcio Valeriano e Marlene Silva, o jornalista e cientista da UFMG Dalmir Francisco e os babalorixás Carlinhos D’Oxum, Marco Antônio (Londegí) e João Afonso Braga (Yianambo) entre outros.

Pra quem não teve a oportunidade de conhecê-la, conte-nos um pouco sobre Mãe Gigi.

Dona Oneida, conhecida como Mãe Gigi, era uma mulher extremamente organizada, detalhista e exigente; quando olhamos a documentação do Afoxé Ilê Odara da década de 80, os recibos, as cartas são os exemplos que seguimos. Mulher negra, forte, humana, guerreira, conselheira uma grande líder.

Na formação inicial, havia muitas pessoas ligadas ao movimento negro da cidade. Qual a importância do grupo para a promoção da igualdade racial?

Sim. Tínhamos conosco Mestre Cobra Mansa, Efigênia Pimenta, Jurandir, Mestre As de Ouro, Lucia Capoeira, Marquinho Cardoso, Marcos Buzana, Mestre Chocolate, Mestre João Poronga entre outros.

Além de manter viva e saudar nossa ancestralidade, a ideia sempre foi a valorização do negro e da nossa cultura através das músicas, danças, palestras e manifestações de forma a unificar nosso povo.

Nos conte um pouco sobre a participação das crianças no Afoxé. Há espaço para elas?

Na década de 80, nossos desfiles tinham alas apenas de crianças. Me lembro de um em especifico no ano de 86: as crianças representavam Os meninos do Bloco, com a Música principal Caboclo Pai, composta por Ênio Flávio. Mamãe tinha autorização assinada dos pais de todas as crianças participantes para que não houvesse nenhum problema com o juizado de menores. Ela sempre foi muito detalhista e minuciosa. Hoje mantemos o legado, temos crianças no nosso corpo de baile e a tendência é só aumentar. Criança é inspiração.

Foto: Diogo Vasconcellos

Afoxé é repleto de elementos da religião de matriz africana, as danças, as músicas até as roupas. Vivemos em uma sociedade em que o racismo religioso é muito presente.Como o Ilê Odara lida com isso?

Há uma parcela da sociedade que marginaliza nossa religião. Diz que é coisa do diabo ou do inferno, quando, na verdade, estamos cultuando a natureza. Fazem isso para quebrar a nossa autoestima. O afoxé briga diretamente contra isso. O culto aos orixás é a principal forma de expressar politicamente a cultura negra. O candomblé é nosso espaço de resistência e luta, é o lugar onde acontecem encontros pessoais, mas também com nossos ancestrais.  Descobrimos juntos a nossa força e como lidar com essa sociedade.

Nosso envolvimento com a comunidade e os frequentadores do nosso Centro Cultural é além da data festiva do Carnaval, nessa relação que resistimos em manter viva nossas origens com vestimentas, músicas que são algumas das formas de expressar a cultura negra.

O Afoxé Ilê Odara é composto por quantos integrantes?

Atualmente mais ou menos 40 pessoas.

É um grupo em que os integrantes são negros ou qualquer pessoa pode fazer parte?

Em sua maioria sim, mas qualquer pessoa pode fazer parte.

A abertura do carnaval da cidade Belo Horizonte é feita pelos blocos afros, dentre eles o Ilê Odara. O que isso representa para os integrantes do Afoxé?

O Kandandu tem em seu principal objetivo reunir os blocos afros para fortalecer e promover a cultura afro-brasileira e suas manifestações, realizando, assim, oficialmente a abertura do Carnaval de Belo Horizonte, isso representaria muito aos nossos integrantes “família”, como nos tratamos.Mas o Afoxé Ilê Odara não foi convidado a fazer parte.

Quais são os instrumentos que não podem faltar no Afoxé.

 Atabaques e Agogôs

O Ilê Odara tem músicas autorais? Se sim, me apresente a letra de uma delas.

Sim, várias.

Vem meu povo 

(Composição: Edu Omoguian e Toninho Liberdade)

Vem meu povo

Olha quem chegou

Afoxé Ilê Odara

O primeiro de Belô

Vêm chegando na avenida

Com a sua empolgação

Vem mostrar pra essa gente

Que nós temos tradição

Afoxé é coisa de negro

Que nasceu lá na Bahia

Vem saldar Filhos de Gandhy

O mais velho da folia

ê filáaláayiê ô

Ilê Odara

ê filáaláayiê ô

Ilê Odara

Qual é a contribuição que os Afoxés do Brasil deixam para quem tem a oportunidade de conhecer? 

Resistência, manifestação artística-religiosa, devoção e a preservação da cultura negra.

Foto: Diogo Vasconcellos

Etiene Martins é jornalista, pesquisadora das Relações Étnicorraciais.

À Luta, à voz

Por Naiara Rodrigues – Jornalista e assessora de imprensa

Nesta edição, a Revista Canjerê traz uma entrevista com Nívea Sabino, poeta, slammer e educadora social que atua na Coordenação Política do Fórum das Juventudes da Grande BH. Nascida em Nova Lima, Nívea é um dos maiores nomes da poesia falada em Minas Gerais e compartilha um pouco de sua trajetória e sua relação com as palavras e a literatura.

Quando a literatura entrou na sua vida? Como foi o seu processo de reconhecer esta linguagem como uma forma sua de expressão?   

É o movimento de Saraus de Periferia que desperta o fazer literário e onde eu firmo os meus pés na palavra falada, embora eu já escrevesse bem antes de chegar a um sarau e o universo literário já me rodeava de alguma forma. Eu fui uma criança que frequentou a biblioteca pública próxima a minha casa – para brincar (risos). Em casa, lembro das leituras nos encartes de vinil –  a música tem um papel de iniciação com a palavra importantíssimo na minha caminhada. Eu lia encartes de vinil, CDs e revistas em quadrinhos. Já jovem me interessava por textos que partiam de uma realidade que eu pudesse observar: crônicas, contos e biografias… Por volta de 2010, passei a frequentar o Coletivoz, Sarau de Periferia, logo depois o saudoso Sarau Viralatas que foi itinerante no centro de Beagá. Entre 2012 e 2016, fui uma das articuladoras do também saudoso Sarau dos Vagal, em Nova Lima. Nesse período, eu já tinha boa parte dos textos escritos em um blog que alimentava na internet desde 2007 e os saraus foi um exercício de reconhecer os textos e querer dizer, encarar o público e me despedir da vergonha em dizer poesia. No início, foi um desafio de querer dizer mesmo, muito maior do que o de conceber os textos e/ou de eu crer na potência e qualidade dos meus escritos. A meritocracia é um mito difícil de quebrar e a palavra foi uma grande companheira nesse período de elaboração e entendimento de quem eu sou, do contexto social do qual faço parte e as implicações de tudo isso na minha vida.

Qual a importância dos saraus e slams na sua formação enquanto poeta e leitora?

A palavra falada, a poesia falada é o meu lugar de conforto dentro do fazer literário. Os saraus são uma arena livre da palavra, espaço de encontro, lazer, convivência, acolhida, experimentação e criação… tudo isso é provocativo para um artista e é rico para a escrita.  Eu sou cria do Coletivoz, Sarau de Periferia – no Barreiro, que tem como mote a frase “À Luta! À voz!”, e existe uma diferença dos saraus na maneira de como o vivenciamos no início da década passada e de como o vivenciamos hoje, com a expansão das comunidades de slam. No início, se lia muito mais poetas quase sempre mortos do que se reconhecia um poeta vivo em cena.  A literatura ganha muito, e nós como sociedade brasileira também, quando se cria essa aproximação entre o escritor, sua obra e o leitor através de formatos alternativos, como os espaços de Sarau e Slam. Os slams, diferente um pouco dos saraus, são competições pessoais antes de qualquer outra coisa. É o desafio do poeta com a própria palavra e a sua imagem: o meu corpo diz junto e quais elementos beneficiam (ou não) a relação que se cria para além da obra escrita quando dita. Soma-se a isso o desafio enorme de que quem escreve terá de construir o como entregar a palavra de maneira viva e administrar emocionalmente a coragem do poeta de permitir que, de maneira aleatória e sem critérios, se dê uma nota para o seu texto/performance com base na maneira como você apresenta/diz o seu texto. Essas características, principalmente a de lidar com a palavra viva, influenciam tanto o diálogo quanto as temáticas e intenções que eu estabeleço com as pessoas e necessariamente, também, as leituras que eu opto por fazer.

Nívea Sabino – Foto: Ricardo Laf

De que forma a poesia pode ser uma ferramenta para o enfrentamento ao racismo, à lesbofobia, ao sexismo e outras formas de opressão na sua opinião?

Creio no encantamento que há nas nossas subjetividades. As minhas e das pessoas que me acessam, me ouvem ou leem os meus textos. Creio na força do lúdico e de um universo habitável que se construa a partir de nós, nossos sonhos e desejos e que seja este universo algo inventado, diferente do que construímos até aqui. O racismo, a lesbofobia e etc., são construções nossas – construções sociais. A literatura permite reconstruir, recriar e projetar outras paisagens e narrativas que dirão do nosso tempo de viver agora e de projeções futuras. A poesia revela, projeta e tem poder de incidência no imaginário popular. Existem várias frentes de luta e a minha incidência, embora seja política, é também lúdica. Sensibilizar e humanizar olhares nos desarma… nossas humanidades se encontram nas nossas subjetividades, vem daí a força da poesia quando somada às discussões de direitos.

Em 2016 você publicou o seu primeiro livro “Interiorana”, que mostra diversas facetas suas enquanto poeta e já está na 2ª edição. Como foi essa experiência?

É incrível não pertencer ao mercado editorial e existir com tanta força como a minha palavra existe. Eu sou resultado do que podemos fazer juntos e, principalmente, em rede. Como diz Conceição Evaristo, graças ao movimento negro e ao movimento social a minha palavra vem alcançando gradativamente as pessoas. Interiorana é um livro de 146 páginas, todo pensado e realizado de maneira independente, desde a sua primeira publicação, em 2016. E trata-se de um livro que eu estou trabalhando na íntegra, quase uma década recitando os mesmos textos, através da palavra falada: seja em oficinas, saraus, slam’s e apresentações musicais. Quando publiquei “Interiorana”, eu já existia – a palavra falada antecede a impressão do livro. Através desse trabalho eu saí do meu interior pessoal e geográfico e viajei o Brasil de Norte ao Sul, passando por cidades e olhares com que jamais imaginei me deparar. E eu passo a existir no interior das pessoas que me leem. Interiorana fez dos meus últimos anos os mais incríveis pelos encontros e experiências vividas com a palavra.

Você tem planejado novas publicações?

Eu não faço planos futuros que não seja um: o de melhorar as minhas condições de vida e me manter viva. Eu leio a vida através das palavras e escrevo muito no dia-a-dia, no ônibus principalmente. Se eu me manter viva, naturalmente haverá produção… Procuro me manter em movimento e criando (palavra escrita, cantada, ilustrada…). Quero voltar a pintar, desenhar e resgatar em mim este diálogo (interrompido depois do teste de aptidão no vestibular da Belas Artes/UFMG lá atrás) com a imagem e potencializar em mim a palavra cantada. Interiorana é um livro de poemas que termina com um conto – de brinde, que sinaliza por onde o meu desejo caminha e aponta.

Nívea Sabino foi uma das curadoras do FLI-BH 2019. Foto: Ricardo Laf

Em 2019, você e a Marilda Castanha estiveram à frente da curadoria do FLI-BH e apresentaram uma programação diversa e que pensava a palavra para além dos livros. Como foi chegar neste recorte e qual o balanço faz do resultado da edição?

O maior desejo meu e da Marilda Castanha à frente da Curadoria do FliBH-2019 foi saudar os povos originários e sair do campo das repetições as festas literárias e festivais se habituaram ao caráter de venda dos eventos e aos nomes de escritores que corriqueiramente se repetem entre os convidados, como se no Brasil não houvesse uma gama enorme de escritoras e escritores vivos tão bons e qualificados como os que comumente se celebram nas festas e festivais. Quem diz da palavra “para além do livro” é a minha própria trajetória e a de tantos e tantas outras pelo Brasil afora, principalmente os povos originários.  A oralidade é onde principia a própria literatura e por onde movimentos literários contemporâneos ganham força e recriam o próprio cenário literário, balançam o mercado editorial ao inventar o seu próprio mercado e nos fazem ampliar o olhar sobre a literatura. Os movimentos literários de palavra falada revelam novos escritores, criam leitores e ressignificam a própria literatura, os espaços públicos e aproximam a literatura da gente, faz parecer “nossa e possível”. A oralidade está nas ruas, nas redes, é a linguagem de maior identificação juvenil e possibilita que a literatura seja apresentada com maior interesse e identificação. Um país com o histórico como o nosso – de que pouco se lê – precisa celebrar a adesão em massa de milhares de jovens aos movimentos literários de palavra falada. Eu leio e escrevo muito mais desde que pisei em um sarau na vida e é o que eu percebo ao meu redor nestes movimentos. O Brasil precisa se orgulhar da sua própria história e narrativas, principalmente as vivas.  A literatura não pode ser aliada da exclusão, da violência de invisibilizar produções e pessoas e conduzir a construção de um imaginário popular que destoa da nossa realidade de fato. Quem são os escritores e escritoras brasileiras e quais narrativas nos pertencem para além dessa literatura que nos é apresentada pelo mercado editorial e que nós historicamente habituamos a cultuar? Belo Horizonte abre um precedente após essa edição do FliBH-2019 – é possível ampliar, é possível contemplar e não repetir a história. Escritores e escritoras negros, LGBTs, indígenas, mulheres e pessoas pertencentes aos grupos de vulnerabilidade social existem, escrevem e produzem literatura também. É uma violência ignorar essas pessoas e produções e essa edição demonstra que é possível construir de outras maneiras. É um ganho para nós enquanto sociedade.

Você também desenvolve um importante trabalho no Fórum das Juventudes da Grande BH. Neste contexto político em que nos encontramos, como tem sido lutar contra os retrocessos e seguir na luta por novas conquistas para a juventude?

Eu sou ativista na vida e certamente não é uma escolha, é consciência. Da mesma maneira que tenho consciência de que a nossa luta é para além da minha existência. Desejar um mundo mais igualitário é uma projeção de futuro, diz de um sonho, de algo que se deseja alcançar sem perspectiva de que se veja… o Brasil mata as suas possibilidades de futuro toda vez que um jovem negro é assassinado pela mão do Estado. O Brasil nega as suas possibilidades de futuro toda vez que viola os direitos das juventudes. Eu estou de pé, armada pela palavra, reverenciando gerações passadas e representando diariamente milhões de pessoas como eu, silenciadas pela violência do Estado brasileiro.  As juventudes movimentam a mudança e essa força é permanente, enquanto houver vida.

Voz negra na Assembléia Legislativa de Minas Gerais

Por Naiara Rodrigues

Andréia de Jesus já trabalhou como doméstica na juventude e conseguiu retomar seus estudos na vida adulta, quando já era mãe e fundou com amigos um cursinho pré-vestibular. Advogada popular e moradora de Ribeirão das Neves, foi a primeira pessoa de sua família com curso superior graças à política de cotas raciais. Iniciou suas atividades políticas nas comunidades eclesiais de base e nas pastorais de rua e carcerária. Atuou como militante nas brigadas populares, e foi assessora da Gabinetona, na Câmara Municipal de BH. Eleita com mais de 17 mil votos, é hoje deputada estadual pelo PSOL e uma voz na defesa dos direitos humanos.

Andréia de Jesus (deputada estadual Psol/MG) – Foto Guilherme Bergamini – ALMG

Você faz parte dessa primeira leva de mulheres negras eleitas para a ALMG. Como é ocupar esse espaço historicamente negado a mulheres negras?

A gente construiu essa campanha de forma muito coletiva, com o desejo de vários coletivos que inclusive identificavam em mim essa pessoa que poderia cumprir essa tarefa, grupos de mulheres como as “Partidas” e as “Muitas”. As “Muitas” é esse espaço também que articula diversos movimentos e ativistas. As mulheres das ocupações, movimento em que eu mais atuei como militante e advogada popular, e também mulheres negras comuns, nem todas são de fato organizadas em movimentos, se vêem em mim. A maioria de nós ainda são empregadas domésticas ou estão no trabalho informal, são mães sozinhas, chefe de família que vivem em periferia. Todo esse contexto social reflete em mim, e as pautas vem comigo. Foi uma vitória coletiva. Não é uma conquista individual e, por isso, o desejo, o sonho e a alegria também são muito compartilhadas. Estamos neste momento de êxtase de ver pessoas comuns ocupando esses lugares que a história nos tirou. Faz parte de um projeto maior de colonização do Brasil também não ter representatividade e diversidade nesses espaços.

Como tem sido estar nesses espaços e o enfrentamento da violência institucional existente neles?

Não é um racismo diferente do que a gente vive a vida toda. O racismo institucional é esse lugar que nos coloca desde as primeiras relações que a gente tem com o Estado. Por exemplo, nas escolas, onde você é sempre o último, é visto como feio, ganha apelido. É esse o lugar da invisibilidade. Por mais que você tire boas notas, você está sempre ali como se tivesse a obrigação de ser o melhor. Dentro da Assembleia Legislativa não tem sido diferente. A cobrança por ser mulher, ter de ser boa, não incomodar na fala, é quase que um imperativo. A gente percebe muito também uma sensação de que não vai dar em nada. É aquela sujeita que vai estar ali, mas que também não vai mudar muita coisa. E estruturalmente a gente teme também que essas mudanças sejam muito lentas. A estrutura é ainda monárquica, afasta o povo com sua linguagem e com uma série de regramentos que parece que é impossível de o povo chegar ou alterar porque as cartas já estão dadas. Mas só de estar lá – ter um corpo que não é o esperado ali – já é uma mudança na estrutura. Os jornalistas tentam entender “qual é o papel, o que estão fazendo lá?”. Então o desafio começa em se manter nesse lugar para mudar a estrutura porque não dá para aceitá-la como ela é. Isso é fato. Se você entra para lá e reproduz, você vai ser mais um mesmo dentro desses 500 anos de Brasil, repetindo. Faz-se necessário se fortalecer para não ser mais uma peça invisível na casa.


Belo Horizonte, 01 de Fevereiro de 2019. Cortejo de posse da Deputada Estadual Andreia de Jesus. Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Foto: Tamás Bodolay

A Gabinetona traz esta proposta de mudança com mandatos coletivos. Como tem sido a expansão de vocês, agora que desenvolvem trabalhos em novas esferas do legislativo?

É um projeto sempre desafiante estar em três esferas e governando junto, fazendo mandato único. Neste momento, elencamos algumas pautas que são comuns às três instâncias. Por exemplo, a mineração. No enfrentamento à mineração, a gente consegue criar instâncias de debate e também de atuações que passam sempre pela Câmara Municipal, Assembléia Legislativa e a Câmara Federal. O crime praticado em Brumadinho pela Vale, a ausência de moradia, a retirada das pessoas de suas casas são temas que perpassam os três mandatos, e também o direito ambiental, os direitos humanos. A gente tem procurado elencar a atuação a partir de pautas que sejam comuns a essas três estâncias e as quatro parlamentares. E é isso: a política feminina e a política feminista tende a radicalizar no processo porque a gente não disputa entre si. Muito pelo contrário. Buscamos sempre unificar as pautas e as ações para que elas tenham mais potência. Eu estou lá na Assembleia, no Psol, mas sempre em um movimento de trazer outras mulheres mesmo que venham de outras forças, de outros partidos; confluir porque isso também nos protege e nos preserva desse patriarcado que a todo tempo tenta desqualificar nossa fama e nosso discurso. A “Gabinetona” está nesse processo desafiante porque com a Áurea, em Brasília, estamos distantes geograficamente. Então, as atuações precisam de uma costura maior para garantir que a gente ao menos consiga se encontrar uma vez por mês, trocar impressões e ações. Estamos trabalhando com uma equipe conjunta, as assessorias da Áurea Carolina, Cida Falabella, Bela Gonçalves e minha estão todas em uma única casa, inclusive fazendo esse papel de interlocução de pautas, de ações, principalmente quando se tratam de ações territoriais. Atuamos com as comunidades tradicionais e principalmente com a originária, tentando proteger e dar garantia de posse, da manutenção da posse desses territórios. Estamos nessa construção, pautando muito a cultura e os povos tradicionais como forma de resistência para esse momento tão nebuloso.

Você é co-presidente da Comissão de Direitos Humanos. No trabalho que você vem desenvolvendo dentro dessa comissão como está tentando lidar com esses desmontes de políticas públicas e direitos que enfrentamos?

Foi uma conquista manter a Comissão de Direitos Humanos na mão da esquerda ou de grupos mais progressistas. Enfrentamos um desafio enorme porque parlamentares desses novos partidos, tanto do Novo ou do PSL, que já têm uma visão de Estado Mínimo e uma visão distorcida do papel dos direitos humanos, tentaram ter este domínio. Então tivemos esse grande desafio que era garantir que a gente pudesse presidir essa comissão. E aí, nesta parceria estamos eu e Leninha (PT), construindo este lugar de co-presidência. Pela primeira vez na ALMG a comissão de diretos humanos está sendo presidida por mulheres negras. E ela é a maior porta de entrada para demandas do povo, em que as pessoas encontram amparos para fazer denúncias. E hoje estamos estruturadas para não só encaminhar as demandas que chegam da região metropolitana, onde estou, mas também toda a carga dos povos do campo trazida pela Leninha. E isso é imprescindível porque a gente está falando novamente do recorte racial, de gênero, de como a promoção de direitos humanos se dá a um sujeito que sofre com a invisibilidade. Já fizemos algumas audiências para discutir, por exemplo, como ficaria a questão da política das mulheres, da política LGBT, da juventude e, principalmente, da segurança alimentar dentro do projeto de lei de reforma administrativa apresentado pelo Zema, que entra com esta proposta de reorganizar a casa, mas que desaparece com pastas em que estavam de fato as políticas públicas de estado construídas ao longo de anos para estabelecer a segurança alimentar, o combate a fome, a proteção dos recursos hídricos, entre outros. Tudo isso está ameaçado por esse projeto de estado mínimo voltado para mineração, para o agronegócio, e com uma política de segurança pública cada vez mais repressiva. O número de denúncias que estamos recebendo neste sentido é cada vez maior, e todas elas associadas a esse papel do braço armado do Estado sobre o controle de corpos e vidas que neste momento estarão ainda mais fragilizadas sem políticas públicas.

Belo Horizonte, 01 de Fevereiro de 2019. Cortejo de posse da Deputada Estadual Andreia de Jesus. Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Foto: Tamás Bodolay

Qual balanço faz dos primeiros meses de mandato?

Nós estamos ali conhecendo a casa. Estou usando um lema muito propício: estou aprendendo a ler para ensinar aos meus camaradas. O movimento negro e todo o movimento de resistência passou por aí. Existe um código nesse espaço que a gente precisa decifrar para poder revertê-lo. Também estamos conhecendo melhor a casa porque temos também um lema de hackear o Estado. Então precisamos conhecer bem a estrutura para saber o quanto a gente pode fazer melhor fora dela, como podemos contribuir com as lutas de onde nós viemos, tudo o que está sendo gritado e denunciado nas ruas, como que reverberamos em uma resposta positiva.  Há dois meses, a gente percebe que tem uma lógica hierárquica que nos distancia do presidente da casa,  colégio de líderes. Então, existem várias instâncias. Mesmo que os deputados sejam votados em um único sistema eleitoral, quando vão tomar posse cada um vai assumindo papéis e lugares que vão criando hierarquias, por exemplo, a hierarquia partidária, pelo número de deputados por partido. Estamos neste momento de aprendiz, de descobrir os códigos para traduzi-los e saber como não repetir os erros dos políticos passados e também de avançar nas respostas de qualidade para quem nos procura.

Arte de resistência – Entrevista com Viki Style, referência do Hip Hop uruguaio

Jovem militante do hip hop faz da arte de rua uma ferramenta de transformação social

Por Roger Deff , MC, jornalista, integrante da banda Julgamento. Atualmente apresenta e produz o programa Rimas e Recortes veiculado pela Rádio Inconfidência.

Militante do Hip Hop desde 2002, a artista uruguaia Viki Style vivencia na prática 3 dos 4 elementos dessa cultura (o Hip Hop é formado pelos elementos DJ, grafitti, MC e break), sendo rapper, b-girl e grafiteira, além de atuar como professora e palestrante em eventos culturais nas Américas do Sul, Central e Europa.

Toda essa experiência fez com que essa jovem nascida em Montevideo tivesse uma visão mais ampla do papel e da representatividade da cultura de rua para os povos da América Latina.

O Hip Hop nasceu em agosto de 1973, em Nova York no Bronx. A gênese dessa cultura que hoje dialoga com jovens de todo mundo se deu quando os imigrantes jamaicanos, os irmãos Clive e Cindy Campbel (o primeiro se tornaria o lendário DJ Kool Herc) fizeram uma festa para arrecadar fundos para a compra de materiais escolares.

Aquele evento despretensioso realizado na Avenida Sedgwick, 1.520, foi o ponto inicial do movimento que, só mais tarde, se chamaria “Hip Hop”, quando em 12 de novembro de 1974 Áfrika Bambaataa criou a Zulu Nation, a primeira instituição oficial da cultura de rua, adotando como princípios o conhecimento, a paz, o amor, a união e a diversão.

Não demorou muito e a cultura se espalhou por todo o planeta dando voz a jovens oriundos das minorias sociais. Assim como no Brasil, a chegada do Hip Hop nos demais países da América Latina mudou radicalmente o modo de vida dos jovens nas periferias. E foi assim no Uruguai.

Virginia Sequeira (30 anos), nascida em Montevidéu mas criada em Toledo/Canelones, atua hoje sob a alcunha de Viki Style. Ela tornou-se uma das principais referências do Hip Hop em seu país, circulando por diversos países e criando conexões com hip-hoppers de outras nacionalidades.

Viki vê a arte como ferramenta essencial para o aprendizado e para a mobilização social e tem utilizado o Hip Hop nesse sentido, através da dança, da música e das aulas que promove, incentivando discussões, bem como o surgimento de outros e outras artistas e lideranças tão essenciais à continuidade e crescimento do movimento.

O Começo…

Como e quando foi o seu início na cultura hip hop?

Meu início no Hip Hop se deu em 2002. O primeiro elemento que vi foi o breaking (a dança), quando vi B. boys dançando na festa da escola e, mais adiante, conheci o rap, desde então, comecei a escrever, a improvisar. O primeiro elemento que pratiquei foi o rap, depois, em 2009, fui para o break e, mais adiante, o graffiti, em 2015. Atuo com trabalhos sociais desde 2007.

Na maioria dos países, o Hip Hop chegou através da mídia, e o cinema foi fundamental para essa difusão. No Brasil, por exemplo, o filme que deu o start para essa cultura foi Flash Dance, de 1983. Como foi no Uruguai?

A cultura de rua chegou aqui através da televisão, dos videoclipes e dos filmes. Quando a democracia se restabeleceu, pessoas que foram exiladas, ao voltarem para o Uruguai, contribuíram também para o fortalecimento do Hip Hop no país, por trazerem elementos da cultura.

E quais artistas, grupos, você apontaria como precursores do Hip Hop no seu país?

Destaco nomes representativos como o grupo do rap VDS Victimas del Sistema, no grafiti foi o KNCR Crew e no breaking o grupo Dinamic Bboys, trabalhos cuja importância despertaram ainda mais minha atenção e interesse pelas artes do hip hop.

Ao longo dos anos, você realizou viagens por diversos países e pode perceber as dificuldades enfrentadas por pessoas que escolheram essa cultura. Quais são os desafios e dificuldades em comum, na sua opinião?

As dificuldades relacionadas à cultura Hip Hop estão presentes em todos os lugares. Na América Latina, como um todo, o Hip Hop está mais relacionado ao sentimento e à vivência do que à indústria. Em alguns países, a cultura está apontando para o mercado, mas mantendo a raiz forte da autogestão e da luta.

Há quem não compreenda as dimensões políticas e sociais da cultura de rua, embora sua origem e tudo o que ela traz aponte para outros caminhos. Como você vê essa dimensão de luta política do hip hop?

Para mim, o Hip Hop é um movimento de luta a resistência e é assim que tem que se manter, como ferramenta de reivindicação. O Hip Hop como ferramenta social cumpre um papel fundamental. É um movimento de luta, por isso todas as minorias encontram no Hip Hop um refúgio, uma voz, uma forma de traduzir suas mensagens, uma maneira de reivindicar seus direitos, de expor situações de desigualdade. Todos grupos minoritários estão vivendo em opressão e podem encontrar um abrigo no Hip Hop, uma maneira de enviar sua mensagem e expor a sua situação, lutar por igualdade, melhores condições e direitos.

Sobre a luta feminista você percebe o reflexo dentro do Hip Hop?

É mais uma luta importante que amplifica sua voz dentro e através da cultura. Eu fico muito feliz por ver que mais mulheres estão habilitadas através de suas vozes, seus corpos, suas ideias, ver essas expressões traduzidas para qualquer tipo de arte. E se isso ocorre através de algum dos elementos do Hip Hop é ainda mais importante para mim porque é algo que eu compartilho,

Sobre o rap produzido no Brasil, quais trabalhos você conhece e como eles chegaram até você?

O rap brasileiro não é muito difundido aqui, mas tive contato com ele porque minha família residente ao norte do Uruguai, fronteira com o Brasil, então falam muito “portunhol”. Foi então que, durante as férias lá, que conheci artistas como Racionais, MV Bill, Sabotage, Gabriel, o Pensador, Rapadura, Criolo e Planet Hemp, Marcelo D2 que, inclusive, esteve algumas vezes no Uruguai.

Em setembro de 2018, você esteve em Belo Horizonte para participação no evento Música Mundo, dedicado à circulação mundial da música. Na ocasião, lembro que você pode conversar com MCs, B.boys e B.girls da cidade. Quais são suas impressões relativas ao Hip Hop na capital mineira

O Hip Hop em Belo Horizonte me pareceu muito organizado. Muito grafitti, muita arte urbana. Muita gente ativa que mantém os espaços e que já tem uma trajetória. Vi que é uma cultura muito bem difundida e que são grupos bem constituídos. Vi uma veia cultural muito interessante em nível de Hip Hop.

E quanto aos projetos futuros Viki, são mais ligados à dança ou à música? 

Sobre os projetos futuros, quero seguir viajando, conhecendo lugares e pessoas, compartilhando e enriquecendo minha vivência com o Hip Hop e a cultura de outros lugares e levar minha experiência e vivência a esses mesmos lugares. Pretendo lançar um disco, que já está pronto, com o nosso grupo de rap feminino, o S.A.K (se armó kokoa) e, em breve, até o fim do ano, teremos lançamento de disco e videoclipe. Disco tanto virtual quanto físico. É um trabalho que vem sendo produzido há cerca de 12 anos e contém temas ligados ao momento atual, em âmbito nacional e internacional. Este é o projeto mais interessante no qual estou envolvida no momento.

Crédito fotográfico: Maria Noel

Léa Garcia: o olhar como forma de trabalho, as ações como instrumento de luta

Por Paulo Roberto Antunes, professor, escritor e revisor da Revista Canjerê.

Nelson Mandela já disse que “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”. Essa citação do ex-líder sul-africano aplica-se bem à postura da atriz Léa Garcia dentro e fora dos palcos, das câmeras cinematográficas. Sua história e sua luta se embasam em muita garra, sabedoria e amor ao próximo, ato humano raro que poucos conseguem administrar.

Carioca, negra, Garcia possui uma trajetória artística peculiar, pois sempre soube como ninguém digladiar contra a discriminação racial e se impor como ser humano dotado de capacidade de superação. Aos 16 anos, já morava fora de casa, conheceu o Teatro Experimental do Negro e se casou com o fundador do grupo, dramaturgo, escritor e intelectual Abdias Nascimento. Essa convivência acirrou sua militância contra a discriminação racial e de gênero, além de ter fortalecido seu lado guerreiro.

Até hoje Garcia foi única brasileira eleita pelo Guilford College dos EUA como uma das dez mulheres do século XX que mais contribuíram para a luta dos direitos humanos e civis e mantém sua modéstia à flor da pele porque considera que “dignidade é algo maior e deve ser a meta de qualquer pessoa durante a vida”.

No escritório da Sinos Filmes, em Copacabana, a atriz concedeu entrevista exclusiva para a Revista Canjerê.

 

P: Você que já lutou tanto contra a discriminação racial, a inserção dos negros e outros discriminados em todos os setores sociais, atualmente encontra-se na militância de algum movimento explícito nesse sentido?

R: Hoje não me enquadro em nenhum movimento específico. Minha visão é maior porque todos os movimentos que visam ao aprimoramento do ser humano são legítimos. Não carrego bandeiras, promovo atos em prol da igualdade, da justiça… para todo ser humano.

P: Um traço característico de sua atuação artística é o olhar. Do alto dos seus 83 anos, mantém essa singularidade cênica?

R: Sou uma atriz que aprendeu a trabalhar bem o olhar, elegê-lo como instrumento peculiar de serviço. Isso me ajudou a ser reconhecida em nível de expressividade cênica. Tal singularidade sempre foi bem visível desde minha atuação em novelas como “A Escrava Isaura” (1976), em que interpretei a antológica vilã Rosa, e no filme “Orfeu Negro”, dirigido pelo francês Marcel Camus, que foi o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960. Concorri no Festival de Cannes por minha atuação como Serafina no mesmo filme, tendo sido a segunda colocada. Em 2004, após minha atuação no longa “Filhas do Vento”, sai vencedora, como melhor atriz, do prêmio Kikito no Festival de Cinema de Gramado, e a isso soma-se também minha eleição no mesmo festival mais uma vez como melhor atriz por meio de voto popular. Sou muito grata a todos pelo reconhecimento de meu trabalho.

P: Há projetos e outros trabalhos para este ano de 2018?

R: Para este ano de 2018, tenhos vários trabalhos a serem exibidos: o curta “Acúmulo”, o longa norteamericano “Pacificados”, os seriados “Baile de Máscaras” e “Assédio”, além de um piloto para a Rede Globo que será uma tentativa de resgatar o seriado “Você Decide” que marcou época na televisão brasileira. Também já gravei depoimento sobre minha trajetória cênica na Globo para integrar um projeto de manutenção da memória dos grandes do teatro, do cinema e da televisão. Felizmente, tenho muito fôlego para o trabalho e isso se explica pelo amor que tenho à arte, à profissão.

P: O que é ser atriz, ser artista?

Ser atriz é minha vida, é mais do que prazer. É vital. E minha força de trabalho não se limita somente a representar, pois tenho de estar constantemente envolvida com a cultura. Assim me sinto viva. Adoro dirigir teatro, fazer adaptações de contos para cinema, especialmente de contos de autores negros para que nós, negros, tenhamos maior visibilidade, possamos contar a nossa história sem estereótipos, pois somente através da visão do negro teremos um panorama real do que é ser negro numa sociedade onde o racismo é tão presente. E só poderemos compreender de fato e realmente nossa história quando ela for contada por nós, os negros.

P: Como leitora voraz que é, possui referências em relação aos autores negros?

R: A escritora negra mineira, Cidinha da Silva, é uma das várias referências de meus autores. Dela, selecionei duas crônicas e as mesclei tornando-as um conto que pretendo ver adaptado para o cinema. Meu longa-metragem “Aconteceu no Rio de Janeiro” é uma realização nascida da adaptação de quatro contos ficcionais de autores negros brasileiros: Muniz Sodré, Luiz Silva (Cuti) e Cidinha da Silva.

P: Vê progressos em relação à projeção dos negros na sociedade moderna?

R: Como ex-integrante do Instituto de Pesquisa da Cultura Negra, reconheço que, nos últimos anos, houve muitas conquistas a favor das classes menos favorecidas que, na maioria das vezes, é composta por negros. A família negra estava muito achatada na base da pirâmide social. Com o advento das cotas, oportunizaram-se maiores possibilidades de mobilidade social aos negros e a outros marginalizados. Hoje vemos muitos negros inseridos em melhores contextos sociais e econômicos no país, algo inacreditável há algumas décadas.

P: Qual sua visão sobre atual quadro sociopolítico brasileiro?

R: O retrocesso político pelo qual estamos passando vai atrapalhar muitas conquistas conseguidas com muita luta durante muito tempo. Isso prejudica a saúde, a cultura, a educação… Veja o absurdo: diminuir a carga horária, ou mesmo acabar com disciplinas como sociologia, filosofia… na escola. Ou seja, não querem que o povo pense, que o povo seja instigado ao aprimoramento de um pensamento crítico para enxergar com mais clareza nossas mazelas, nossas feridas sociais, a origem delas. Não é interessante ao sistema um povo que pensa. O pior é que este é um momento muito confuso para os jovens, pois eles não estão devidamente inteirados sobre tantas conquistas importantes. Uma pessoa da minha idade vivenciou muitos acontecimentos incríveis, participou, fez história para que tudo isso fosse realidade. Seria interessante uma maior divulgação disso para conscientizar a juventude sobre a importância da participação visando à construção de um mundo melhor.

P: Então continua otimista em relação ao futuro?

R: Sim. Óbvio. Não podemos desanimar. Veja: os artistas, os jogadores de futebol e outros têm uma influência grande na sociedade, são formadores de opinião e, neste momento de retrocesso, devem opinar mais a favor de tudo de bom que conquistamos e ainda do muito que há de se conquistar. Especialmente porque agora é mais fácil, há outras mídias que são as portadoras das vozes que circulam pelo mundo. Antes, todos estavam restritos a poucos canais de comunicação e sabiam dos limites de suas falas neles.

P: Sabe-se que sempre foi muito crítica em relação ao seu trabalho, muito cuidadosa com o autoaprimoramento. Convive bem com esse apurado perfeccionismo?

R: Sim. Sempre repenso meus trabalhos, avalio-os e considero que, se tivesse de fazer novamente, eu os faria de forma diferente. Sou muito perfeccionista e autêntica, por isso me entristeço ao ver, hoje, muitas atrizes negras se embrenharem pelo equivocado caminho do “embranquecimento”, assemelhando-se a esposas negras de norteamericanos.

P: Finalizando, você ainda continua sendo “agredida” por interpretar tão bem seus personagens a ponto de fazer os espectadores confundirem a ficção com a realidade?

R: Sofri muitos xingamentos dos telespectadores por causa do papel da vilã Rosa que me consagrou e que muitos consideram meu “cartão de visita” como atriz. Por causa dessa personagem, cheguei até a apanhar na rua. Felizmente isso não acontece mais, as pessoas não confundem mais personagem com ator. Os tempos são outros.

 

Ao término da entrevista, a atriz agradeceu o encontro, o diálogo, acentuou seu polido comportamento e deixou a nós, que conversamos com ela, a certeza da veracidade do pensamento de Paul Valéry: “Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir”.

 

Legenda:

Léa Garcia atuando no filme “Histórias Íntimas”, direção de Júlio Lellis

Crédito fotográfico: Breno Pizzorno