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Entrevista

Ungulani ba ka Khosa: a literatura tem que transportar os valores das culturas e das línguas locais

Por Rosália Diogo – Jornalista

UNGULANI BA KA KHOSA é o nome tsonga de Francisco Esau Cossa, nascido na província de Sofala, em 1957, fundador da revista Charrua e autor de várias obras de ficção. Ungulani Ba Ka Khosa pertence ao grupo de escritores que escolhem o uso do português normativo europeu em sua escrita. No entanto, nesse discurso elaborado em português introduz termos das diferentes línguas bantu moçambicanas que não têm equivalente em português e que não estão dicionarizadas. Dessa forma, Khosa, ainda que utilizando-se do português padrão, privilegia a realidade linguística presente na cultura moçambicana. O escritor promove a tradução de algumas expressões idiomáticas, ditados populares e provébios. 

Publicou, em Moçambique, os romances Ualalapi (Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 1987), Os sobreviventes da noite (Maputo: Imprensa Universitária, 2005) e Choriro (Maputo: Alcance, 2009) e as coletâneas de contos Orgia dos loucos (Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 1990), Histórias de amor e espanto (Maputo: INLD, 1999) e No reino dos abutres (Maputo: Imprensa Universitária, 2002). Ualalapi ganhou o grande prémio de ficção Moçambicana em1990.

RD:   Qual sua leitura sobre a literatura moçambicana  na contemporaneidade ou o quê você pretende com ela.

UBKK:  Posso dizer é que sou apanhado pela independência do país aos 17, 18 anos de idade.  Todas as referências literárias, até então muito mais ao nível da escola, advinham do que conseguimos do universo português, e de certo modo, honra seja feita, digamos também  do universo brasileiro. Mas, há uma grande aventura, também nossa, em termos do que se escreve. Na prosa, por exemplo, tivemos alguns primeiros movimentos há muito tempo, como foi o caso de Luís Bernardo Howana com a obra Nós que matamos o cão tinhoso.

Mas, fundamentalmente foi a poesia que nos abriu o horizonte para que pudéssemos captar a identidade cultural moçambicana. Num caso concreto, eu tenho que dizer que, para além das referências, digamos, universais, pessoalmente acredito que a minha maneira de entrar nesse universo foi pela poesia de Craveirinha, por aquilo que eu chamo de o lado telúrico de José Craveirinha, na maneira como ele encontra o que é nosso, como utiliza a língua portuguesa como um grande veículo para passar a cultutra banto. Por outro lado, é preciso falar de uma área que não está ligada à literatura como tal, que é todo o universo místico apresentado por Malangatana, grande artista plástico  que veio à tona. 

As tradições, todas as tradições eram colocadas de maneira muito distante para a nossa realidade. Não só ficavam distantes, como eram exluídas. A nossa história não entrava nos caminhos do desenvolvimento do país. Então, houve um processo histórico que não foi favorável à libertação de valores tradicionais enclausurados desde o período colonial e à sua implantação na literatura e na arte. A liberdade com que Malangantana tratava esses valores era inovadora. E também José Craverinha, falando lá no pequeno universo que era Mafalala, bairro periférico da cidade de Maputo, encontrava valores novos na maneira tradicional de ver as coisas, desde a fruta, todos os elementos locais, e mostrava isso na língua escrita. Para mim, isso tudo foi fundamental. Foi isso, e também a liberdade que eu encontrei na literatura latino-americana, hispânica, no sentido de permitir que, na escrita literária, tudo seja possível, seja feito  com a proposição de novas regras de escrita e tudo o mais.

Aquele boom da literatura fantástica latino-americana serviu cá para o meu país. Agora, aqui em Moçambique, nós podemos encontrar, a partir de 75, a literatura africana que nos chegou aos pedaços e tinha encontrado grandes dificuldades de se concretizar na estrutura da língua portuguesa, sobretudo nas traduções que se faziam. Das literaturas de expressão francesa e de expresão inglesa, vinham chegando alguns escritores, vizinhos do Kênia, o Senghor, do Senegal e outros da Martinica. Importa dizer que eles chegam e ocorre uma espécie de tratamento da realidade cultural. Era tratamento, na maioria das vezes, de cunho cultural francês, mais tímidos, e não tinham aquela força que a gente encontra nos textos de Garcia Marques, por exemplo.

E eu começo, também, a construir a minha contribuição, sempre com a preocupação de transportar os provérbios para a literatura, estudar provérbio, integrando-os no dialógo corrente, tentando encontrar respostas para eles numa construção sem grandes pretensões. Ajudou-me o fato de eu ter sido, por longos anos, um professor de história do último nível do secundário, trabalhando como área o Império de Gaza e com toda a zona sul da Zambézia, em Moçambique, estudando uma área que foge do domínio da região da África Austral: a migração de pessoas, a partir da fundação do império de gaza. Ao fazer o estudo desse conteúdo para os alunos, encarei-o depois como um ato político. Bem sei que não há país nenhum que não tenha os seus limites, seus alicerces.

Considerei ser importante dizer para todos que temos, sim, grandes referências, mas que o que importa é termos consciência, sempre, da questão da literatura, da questão da opressão que, por vezes, não tem a ver só com a cor, mas tem a ver com o sistema, pois mesmo no império de gaza havia os oprimidos e os invasores. Passei a ser rotulado como alguém que criava uma literatura muito ligada à história, e eu não vejo assim. Isso tudo é para dizer que, nessa construção interna, não temos, na literatura moçambicana, grandes pontos de referência como tem o Brasil e outros países. Nós fomos, aos poucos, alcançando uma maior propriedade. Cada um de nós foi seguindo o seu caminho, as suas motivações. Temos algumas referências diferenciadas, mas isso frutifica-se a cada dia. 

RD: Sim, perfeito, você disse o que te motivou, o que chama sua atenção na construção da literatura moçambicana. Eu gostaria de ouvir um pouco de você sobre a fala do professor Augusto Aurélio Rocha, no posfácio do seu livro Choriro, publicado em 2009 aqui em Maputo, pela Editora Alcance: “Assim, a literatura e a história reelaboram-se na arte de apresentar as coisas, se por vezes se pode dizer que não define propriamente a investigação da história, tem o mérito de lhe dar credibilidade, enquanto o romancista tem a arte de escrever a história, humanizando o historiador; à semelhança do romancista, é também um artista que põe todo o seu saber naquilo que produz e pretende transmitir, tornando a história uma verdadeira representação literária e, ao mesmo tempo, também tem a arte da encenação.”.  

UBKK: Essa zona que abordo nessa obra é uma zona onde eu cresci. Embora tenha nascido na província de Sofala, essa zona me encanta muito. A zona do Vale do Zambézia. Ali foram-se criando  uma espécie de microculturas, que são as culturas extremamente crioulas, quer dizer, muito próprias, e que criam esse encontro entre os chamados afro-portugueses, composto pelo lado matrilenear do norte do Zambézia e pelo lado  patrilenear do sul. Ocorreu uma configuração naquela região da Zambézia que, de certo modo, permitiu facilitar análises  para esses temas. Não é por acaso que, veja bem, na altura em que o Brasil se tornou independente, em 1822, muitos brasileiros queriam que a Zambézia compusesse o território relacionado ao patrimônio do Brasil. Queriam muito, por conta dos laços escravocratas. Mas afora isso, havia ainda todo um conjunto de traços de ligação com o Brasil por outros motivos culturais. Mas, enfim, foi uma zona que me inspirou, e isso implica escrever, mas no sentido de ir em busca desses fenômenos, além de ir aos arquivos. E daí, a gente dá, aos personagens, liberdade suspeita, e dá-lhes corpo, vida, mas não posso fugir daquele parâmetro histórico onde nos situamos.

Foto: Arquivo Pessoal

Lúcio Ventania – Artesão, mestre bambuzeiro, dono de uma vivência inspiradora e trajetória incrível!

                                     Por Cleonice Silva Jornalista formada pela Universidade Federal de Ouro Preto

Como nasceu o interesse pela arte da bambuzeria?

Venho de uma família de pai pedreiro e mãe lavadeira. Devido à dificuldade financeira em casa, comecei o trabalho muito cedo. Aos 10 anos de idade conheci um oriental chamado Lu, esse homem me ensinou coisas importantes para minha vida. Eu era muito elogiado pelos meus trabalhos com bambuzeria. 

Comecei a ensinar meus amigos da Vila dos Marmiteiros, mas, a distância entre a comunidade negra e pobre, do mundo das oportunidades, era muito grande devido às lacunas, o fosso social. Era necessário um aparato educacional mais coerente com a realidade que eu estava encontrando.

Conheci pessoas que começaram a se interessar pelo meu trabalho e me auxiliaram nessa ideia de me transformar em mestre bambuzeiro.

Seu trabalho é voltado para comunidades com índices de vulnerabilidade social?
Em 1985 já tinha certeza de que teria que desenvolver um programa para a cultura do bambu, uma oportunidade para pessoas de baixa renda no Brasil, principalmente pessoas negras. Então, com 20 anos comecei a estruturar programas sociais que envolvessem o conhecimento na arte da bambuzeria e fossem completamente diferentes das oportunidades de trabalho e renda que o mundo normal e careta oferece às pessoas negras. 

Iniciei com recortes onde pudesse propor não só o bambu como uma novidade para se obter um instrumento de organização da vida econômica, mas para tecer o modus vivendi fora do sistema opressor. 

Desenvolvi um programa chamado Desenvolvimento do Ciclo do Bambu no Brasil. Explicitei que não era cadeia produtiva e de industrialização, e sim, cultura do bambu, pensei na popularização do uso do bambu para construção de equipamentos públicos de primeira necessidade da família brasileira, entre eles creche. Uma creche observada e nutrida pela educação da criança negra. Um processo de liberdade e prazer em todas as ações educacionais e não esse caixote onde as crianças ficam depositadas.

Formei mais de 10 mil aprendizes. Levei o ensino para países da América do Sul, como Peru, Bolívia, Argentina, Uruguai e Paraguai.

O mestre declara que na bambuzeria o trabalho tem um viés de afetividade e encontro, diferente da cadeia de produção e comercialização opressiva

O branco chega com o modelo de creche, desenvolvimento, escola, indústria e negócio. Não queremos  prontos! 

Quero criar indicadores de felicidade e entusiasmo, como o valor da desindustrialização, autossuficiência e da não dependência. A bambuzeria tem uma carga maior de silêncio e lentidão, porque deve ser feita com as mãos. 

Quando você trabalha com as mãos seu cérebro produz mais, o trabalho tem outro viés, não é algo sufocante que toma todo seu tempo e não te permite viver, encontrar, escutar sua família, abraçar quem você ama, lutar pelo que acha importante. Não queremos fazer exatamente dinheiro, mas, felicidade.

Lúcio também é um grande educador. O mestre ensina técnicas de bambuzeria, cultivo, colheita, secagem, tratamento das fibras e técnicas de montagem. Em que consiste a metodologia?

A pessoa vem para o Centro de Referência do Bambu e das tecnologias substitutivas (Cerbambu) onde desenvolvemos programas, passa por formação técnica, uma imersão. Em seguida, nossa equipe vai até a comunidade quilombola, localiza um espaço e constrói uma bambuzeria pequena para que possam trabalhar. 

Além do espaço físico, recebem a bancada de trabalho e cinco varas de bambu para iniciarem o processo de cultura do bambu, plantar e construir seu futuro com as próprias mãos.

Instalamos bambuzerias nos Quilombo Mangueiras, Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, Quilombo Luízes, Quilombo Souza e Quilombo Matias. Quatro já estão funcionando.

Trabalhamos com encaixes, tratamento a fogo e água, com os elementos da natureza. Produzimos cadeiras, mesas, camas guarda-roupa, armário de cozinha até as próprias casas e aparelhos públicos de primeira necessidade como escolas. 

A cultura do bambu possibilita que com pouca terra, a pessoa consiga matéria-prima para trabalhar, produzir e vender seus produtos, sem depender da cadeia de produção e comercialização que gera essa opressão enorme chamada trabalho.

É preciso que as pessoas possam entender que é importante comprar menos, trabalhar menos para determinados grupos e fazer do seu trabalho um lugar de convivência familiar para a construção coletiva do que é necessário para ser feliz.

O Brasil encontra-se em desvantagem no tocante ao uso do bambu. Por que você acha que o governo não investe na bambuzeria? 

Estão preocupados em desenvolver concreto que seca mais rápido, porém, esse mesmo concreto seca as mentes humanas. Querem investir no bambu para repetir um processo de industrialização, onde a indústria tem um dono e muitos empregados. Basta!
Por que ser empregado dos outros se você pode plantar seu próprio bambuzal, construir sua casa, mobília e viver com sua família?!

Esse sistema vem para sufocar e não para gerar oportunidades de riqueza, porque a riqueza maior é a paz.

Lúcio acredita que a estrutura das universidades precisa ser repensada

O universo acadêmico repete todos os processos de colonização através do que chamam de industrialização, busca obsessiva por dinheiro. Todos os mecanismos da sociedade foram inventados dentro das Universidades e chanceladas por elas. Estão totalmente viciadas em desenvolver tecnologias para que se fortaleça a indústria e o sistema de acumulação de bens.  Então, porque o Sistema Jurídico não repensa essa estrutura que aprisiona os negros, os pobres, e liberta aqueles que são opressores?!

Todo meu conhecimento vem de uma experiência de vida, de uma proposta de mudança não de continuidade. Minha relação com a maestria do bambu, vem de vivência humana e enfrentamento da realidade fora dos muros das universidades. 

Criei o meu próprio Centro de Referência do Bambu. Aqui é uma universidade com biblioteca, restaurante, sala de aula e salas de descanso para as pessoas ficarem deitadas olhando para os bambus.

Comente sobre o bambu como parte do afetivo e de um universo sagrado

O bambu dentro da religiosidade africana é elemento de conexão com poderosas forças transformadoras de outras forças. Ligação do vazio, do oco com o grande vazio universal.

A comunidade Negra submetida a formas racistas de opressão ficou distanciada da sua própria cultura e ancestralidade, é necessário fazer um movimento de reconexão. 

No início deste ano ofereci para 20 autoridades femininas negras que combatem o racismo e lutam pela liberdade do povo negro, 20 Oparuns, 20 Opas negros sagrados, de ouro negro. Isso é reconexão, o bambu através de um mestre de bambuzeiro negro começa a ser reaproximado do seu verdadeiro povo. 

Os brancos, principalmente, pensam que candomblé é espetáculo, olham os colares, saias, turbantes, a roupa, o jeito de dançar e acham que é espetáculo. O Candomblé não é espetáculo, é socorro, cura, unidade de atendimento físico e espiritual onde são movimentadas as forças da natureza chamadas Orixás. Se você faz uma leitura dessa religiosidade africana como um espetáculo, entretenimento, você não entendeu nada!

Há algum desejo idealizado e ainda não concretizado?

A mulher negra brasileira ainda não sabe, mas será protagonista de uma revolução na arquitetura do mundo que está doente e endurecido pelo concreto. Minha maior obra é convencer a mulher da periferia de que junto com outras que têm filhos, podem construir a própria liberdade através de construção com bambu. 

O mundo precisa de uma arquitetura oca que se aproxime do que é o próprio ser humano, um ser em transformação o tempo todo. Tudo que ainda desejo é que a industrialização do bambu não chegue, mas sim a cultura e que a mulher negra brasileira a abrace. Que mulheres e homens negros estejam próximos para que essa revolução aconteça.

Foto Rosália Diogo

Marcos Cardoso, um militante do povo negro

45 anos lutando em busca de uma formação de consciência negra crítica e pela melhoria de vida do povo negro e pobre brasileiro

Fernanda Luá – Jornalista pelo Centro Universitário UniFanor – Wyden e Mestranda em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará

De Belo Horizonte, Minas Gerais, Marcos Cardoso nasceu no bairro de Santa Efigênia, mas durante sua adolescência criou-se na região do Barreiro, que era conhecida por ser uma localidade onde se concentrava a classe operária. O espaço que o aproximava do movimento operário e das lutas sindicais durante a adolescência fez com que Cardoso inicia um processo que o acompanharia ao longo de sua vida: a militância política, especificamente em prol do povo negro. Hoje, Marcos Cardoso é reconhecido por ser uma das primeiras lideranças, em Belo Horizonte, do Movimento Negro Unificado (MNU), além de ser Filósofo, Mestre em História Social, doutorando em Ciências da Informação e, desde o ano de 1993, trabalha na Prefeitura de Belo Horizonte como Analista de Políticas Públicas. 

A fim de conhecer mais dessa figura tão importante para a militância negra de Belo Horizonte, a Canjerê realizou algumas perguntas a Marcos Cardoso que você pode conferir logo abaixo.

Você se considera e é considerado um militante do Movimento Negro. Como se deu início essa questão na sua trajetória?

Iniciei essa militância a partir do movimento operário, do movimento sindical e também do movimento cultural do grupo de jovens que se organizavam naquela época. Por causa da minha militância no movimento político, ali nos anos 70, eu era uma pessoa inconformada, revoltada e indignada, mas não entendia muito bem as razões dessa minha revolta. Recebi de forma clandestina o Jornal Versos, o jornal da esquerda naquela época e nele havia a seção afro-latina américa e a partir da leitura dessa seção, editada pelo jornalista Hamilton Cardoso, soube que havia sido criado, naquela época, em São Paulo, um movimento negro contra a discrimação racial. Lendo essa seção da revista, passei a me inteirar dessas questões, da existência do racismo no Brasil, de que havia grupos de negros se organizando e passei a tomar consciência dessas questões e comecei a entender a minha própria indignação. No Primeiro de Maio, dia internacional da luta dos trabalhadores, na região do Barreiro, fiz contato com esse militante, o Hamilton Cardoso que estava aqui na cidade e a partir do contato com ele comecei a militância no Movimento Negro Unificado. A partir do contato com Hamilton Cardoso, passei a considerá-lo meu guru, meu mais velho, a pessoa que iniciou minha formação política sobre a questão racial. Fiz o contato com um grupo aqui de Belo Horizonte e desse contato comecei a participar das reuniões e me tornei membro, militante do Movimento Negro Unificado naquele momento.

Quais ações nessa área você considera significativas para você e o Movimento Negro de Belo Horizonte?

O MNU é uma retomada de lutas da trajetória do povo negro do Brasil desde Palmares do ponto de vista da organização coletiva. Somos herdeiros de um passado de lutas e o movimento negro na contemporaniedade é uma continuidade desse processo. A primeira é esse processo de formação da consciência negra que é fundamental e o processo de desnudar o racismo na formação histórica do Brasil. O racismo estrutural, o racismo institucional. Desvelar o mito da democracia racial e desvelar os mecanismos de opressão e dominação do povo negro na sociedade brasileira é a principal questão. Uma coisa importante também é incidir na agenda política, especialmente na agenda dos direitos humanos contra a violência. Inserir esses conteúdos na Constituição do Brasil de 1988. Propor um projeto educacional para o país, um projeto antirracista, plural. A educação para a gente, para a comunidade negra sempre foi prioridade zero, acho que o movimento negro inicide muito nessa área. 

Na sua visão, como Minas Gerais trata a questão Racial?

A questão racial por muito tempo foi invisibilizada, continua sendo invisibilizada, mas com uma densidade menor. Essa trajetória, sobretudo a partir dos meios das redes sociais, a pauta racial tem ampliado bastante, com muita visibilidade. Na medida que os meios de comunicação no passado inviabilizavam a questão do racismo, por outro lado também pautavam as atividades em torno da cultura, mas sem referenciar a herança cultural africana, o movimento negro, sobretudo os artistas negros, as comunidades tradicionais, as comunidades quilombolas. Toda essa pauta passou a ser visibilizada a partir do movimento negro organizado e depois esses segmentos da população negra foram se tornando protagonistas das suas próprias questões. Hoje há uma diversidade, uma pluralidade muito grande de temas estruturantes da vida brasileira, estruturantes da vida da população negra. Nossa tarefa é visibilizar, consolidar essa pauta e propor políticas públicas no sentido de resolver esses problemas.

Na sua trajetória profissional, em políticas públicas, quais contribuições você julga como mais relevantes?

Para ser mais específico, o fato de hoje continuar trabalhando com formação continuada, no campo da história da África, com formação de professores, com vivenciadores do candomblé, com juventude negra e capoeira. Eu considero, por exemplo, a realização do Festival de Arte Negra em Belo Horizonte, em 1995, a pauta da luta contra o Apartheid, a libertação de Mandela na África do Sul e a criação da CPI do Ministério da Igualdade Racial, no campo de produzir uma política nacional de combate ao racismo. 

E na área das políticas públicas?

Eu acredito que as políticas públicas, quando conduzidas por militantes por quadros negros compromissados, tende a avançar. Nesse sentido, me parece que não adianta muito ficar discutindo representatividade, que eu acho até importante porque é uma representatividade simbólica, mas não é uma representatividade real. Essa visibilidade virtual, midiática, às vezes, ela não contribui muito para a real resolução dos problemas no sentido de tirar a população negra dessa situação de humilhação que o racismo e a sociedade brasileira pela sua indiferença, pela sua hostilidade impinge a essa população cotidianamente. Eu penso que essa luta, o empoderamento político dela e o compromisso da intelectualidade negra e seus principais quadros nesse combate é essencial no processo de transformação da sociedade brasileira. Isso no sentido de radicalização, de radicalidade da democracia, esse é um caminho em que a gente tem apostado nos últimos anos. 

O que seria essa radicalização da democracia?

Significa produzir oportunidades iguais, tanto no ponto de vista quantitativo como qualitativo. Sobretudo no campo da economia, da igualdade econômica, no campo de acesso à propriedade da terra, à moradia digna, a um ensino de boa qualidade, acesso ao ensino superior. Acho que caminha por aí, né? No sentido de produzir uma economia da cultura. É fundamental bater o tambor, mas o mais importante é conhecer, valorizar e financiar a mão que toca o tambor. 

Inspiração, essencialidade e requinte na arte barroca

     Cleonice Silva, Jornalista, formada pela Universidade Federal de Ouro Preto

Impossível não se encantar com as obras produzidas por Edney do Carmo Silva em seu ateliê mediante a grandiosidade e riqueza de detalhes presentes nas peças. Nesta edição, ele é o entrevistado para falar sobre seu trabalho.

Como foi seu primeiro contato com a arte?

Sou filho de marceneiro. Em minha casa, sempre teve madeira, ferramentas de corte e formões, principalmente. Então, foi muito fácil iniciar porque não precisei comprar nada de materiais; meu pai me cedeu as ferramentas, madeiras e me instruiu, na medida do possível, sobre os primeiros cortes e como afiar as ferramentas. A partir daí as coisas foram acontecendo.

De onde vem tamanha inspiração?

Minha inspiração foi o contexto histórico das obras do barroco mineiro. Morando em Mariana, sempre convivi com a produção artística, até mesmo porque sempre frequentei as igrejas católicas onde estão concentradas as obras desenvolvidas pelos artistas do barroco mineiro. Então ficava observando bastante todo aquele complexo de obras, onde cada ponto me chamava mais atenção que outro, tanto na relação das esculturas e imagens sacras, quanto nos ornamentos que as compõem, altares, arremates nas paredes laterais e os púlpitos. Isso foi me dando essa linha de inspiração e recriação para os dias atuais.

Edney, você tem alguma obra preferida?

Toda linha de trabalho tem uma história específica, todas têm uma valorização notável no meu consentimento de produção artística, desde a primeira até a última que finalizei. Cada uma agrega uma história, um ponto específico, para quem foi feita, quanto tempo exposta, tempo empenhado, as habilidades e técnicas apuradas. Tudo conta.

Além de escultor, você também é entalhador e policromista. Se especializou em algum curso direcionado para seu ramo?

Fiz uma linha de estudos na UFOP, na verdade foram cursos de extensão sobre história da arte, barroco mineiro e barroco brasileiro. Então, me embasei nos termos teóricos para ter exatamente a ideia histórica do trabalho a ser desenvolvido. Tudo é um trabalho de estudo com inspiração no barroco mineiro e agregado com a necessidade da atualidade.

Como a imaginação ganha asas para criação das peças?

Faço de acordo com meu gosto quando é uma composição de peças para o ateliê. Imagino a decoração feita numa parede, numa bancada que venha atender a necessidade de alguém, junto com as linhas do barroco mineiro e vou desenhar as peças com as devidas proporções.

Ao longo desses anos expondo seu trabalho, considera alguma feira ou exposição como a mais marcante?

O número de pessoas que consigo abranger num evento determinado  é o que realmente me marca. Em termos de abrangência, destaco a feira de arte e artesanato (FENEARTE) na cidade de Olinda-PE. Maior feira de artesanato da América Latina, com pessoas do Brasil e do mundo inteiro expondo produtos. Um referencial. Em média, mais de 250 mil pessoas que têm interesse em arte e artesanato fazem visitas em 12 dias de feira. É uma questão totalmente relevante para o meu trabalho e para quem se interessa em trabalhar com o tema..

Como são divulgadas suas obras?

Me concentrei numa profissão em que conseguisse ampliar o meu showroom, a identidade do que é meu trabalho, uma linha que desenvolvi por conta própria. Não tive ajuda financeira de ninguém. Quando iniciou a era digital – na verdade comecei antes dela – logo vi algo de interessante que pudesse fazer, profissionalmente falando, e criei um site e redes sociais. Como aqui é uma cidade pequena e as pessoas vão demorar para chegar, através de site e redes sociais a gente consegue expor fotos do que já produziu, os clientes veem e podem focar no que tem de melhor na região.

Por que escolheu trabalhar com a madeira cedro?

O fato de trabalhar com Cedro é justamente em função de ser uma madeira utilizada pelos artistas do Barroco mineiro. No entanto, a grande utilização desse tipo de madeira fez com que a escassez se tornasse óbvia.

Você faz trabalhos incríveis reutilizando a madeira. Como surgiu essa ideia?

Foi minha própria inspiração de trabalho a reutilização desse tipo de madeira. Aqui na região, a gente não tem praticamente nada de Cedro, é difícil de conseguir hoje.  Então tive uma ideia e fiz adaptação de uma técnica utilizada por marceneiros há anos, que é uma mistura de pó de madeira e cola. Usam isso para fechar algumas frestas entre uma madeira e outra. Enfim, coisas assim.  Adaptei essa técnica juntando o que considerava como resíduo no trabalho, que são as lascas da madeira, e desenvolvi fôrmas de silicone.  Coloco essa massa com adaptação dentro e replico meus trabalhos. Ultimamente tenho desenvolvido uma produção em grande número de querubins com tamanho padrão de 12 cm, produção semestral de 1000 peças, digamos assim.

Disponibilizo nas oficinas de policromia que ofereço no ateliê, envolvendo o turismo educacional para alunos entre o oitavo, nono e primeiro ano do ensino médio que vêm visitar cidades históricas de Minas. Oficinas rápidas de no máximo 2 horas em que desenvolvemos um trabalho de policromia utilizando folha de ouro. Os alunos levam esse trabalho para casa, além da bagagem histórica que vai ficar gravada na mente deles para sempre. Consigo atender até 50 alunos confortavelmente assentados. Tenho todos os equipamentos de pintura, bancadas de trabalho e bancos para assento.

Conta pra gente, falta realizar algum sonho como artista?

Meu sonho é parar de vender meus trabalhos e fazer somente para exposição. Um ateliê aberto à visitação para mostrar a produção artística inspirada no barroco, com as peças em fase de iniciação até as fases finais e sair para eventos mostrando essa linha produtiva.

Como a pandemia da Covid-19 impactou seu trabalho?

Fiquei com o ateliê praticamente um ano fechado. Na verdade, tive muitos contatos por redes sociais, sites e telefonemas. Já tinha mesmo que reservar um tempo para terminar as encomendas que estavam pendentes e, nesse sentido, pude me dedicar mais às encomendas.

Como profissional negro, você já sofreu opressão racial?

A priori, quando a pessoa vê o trabalho não está vendo quem fez. A figura que a pessoa tem na cabeça de um produtor de arte com trabalhos consideráveis é que seja uma pessoa de meia-idade a uma pessoa mais velha e branca, ninguém vai esperar um jovem negro fazer um tipo de produção dessa. Realmente com a responsabilidade do trabalho e com a força que o trabalho expressa, isso assusta as pessoas, mas esse surto é em função de que infelizmente houve essa subjugação do negro.

Quem produziu as maiores e melhores obras do barroco mineiro e barroco brasileiro foram os negros. Então, nessa questão toda que envolve esse preconceito e esse perfil formado de um produtor de artes aparece minha cara preta lá, entendeu? Tinha 19 anos quando montei o primeiro atelier e comecei a lidar diretamente com público consumidor. As pessoas não acreditavam quando viam a força do trabalho. Perguntavam quem fazia, me identificava e repetiam a pergunta: Mas é você mesmo quem faz? É uma questão de preconceito e desvalorização da capacidade de desenvolver tal proposta de trabalho.

Mas, sempre soube lidar muito bem com essa situação e a resposta sempre veio do preço do trabalho porque existe e é necessária a valorização de qualquer trabalhador Independente de cor, raça, credo ou opção sexual.  Propus e sempre proponho uma resposta à altura. Prezo pela produção séria no âmbito das Artes e nunca deixei nada me afligir nesse sentido de preconceito racial.

Como você vê o reconhecimento e valorização do seu trabalho no mercado?

O meio artístico para quem tem comprometimento é uma área fantástica para trabalhar, a gente trabalha por conta mesmo, o horário a gente quem faz. Temos essa liberdade, mas temos um compromisso que não é fácil viver e desenvolver. Criei uma estratégia de produção em grande escala porque isso ajuda a valorizar o nome artístico, inclusive quando a pessoa vai conhecer o seu trabalho pessoalmente, com isso as pessoas passam a te respeitar mais e entender que não é um hobby, é realmente uma profissão. Sou um produtor de arte e trabalho com o talento que Deus me deu.

Foto: Edney do Carmo Silva

Mary del Priori lança luz aos cantos escuros da História

Por Robson Di Brito

Não é estranho perceber que a trajetória da historiadora, escritora e professora Mary del Priori a fez enfrentar a escuridão do apagamento para trazer à luz mulheres silenciadas ao longo da história brasileira. Sabiamente levou a linguagem historiográfica até o homem comum e elegeu a História como uma “Deusa” a ser cultuada. Nesta primeira década do século XXI, momento em que as ciências humanas são vilipendiadas e sufocadas por ideologias de segregação com pitadas de fascismo, rompe a barreira do obscurantismo trazendo mais claridade para os debates acerca da negritude e das misturas étnicas, as quais formaram o brasileiro moderno e o contemporâneo.

Doutora em História pela Universidade de São Paulo e Pós-doutora pela École des Hautes Études em Scienses Sociales na França, rompeu com a tradição da tão sonhada estabilidade da Acadêmica Federal para viver de suas pesquisas e da divulgação da História para o grande público. Com mais de 50 livros publicados sobre a História do Brasil, apresentou, agora em 2021, sua nova investigação no livro “À procura deles: quem são os negros e mestiços que ultrapassam e marcaram a História do Brasil”, uma extensa pesquisa sobre personagens, fatos e documentos acerca dos pretos e mestiços importantes à história nacional, mas que foram lançados ao esquecimento ou branqueamento social. Mary del Priore lançou-se à procura desses brasileiros, mulheres e homens que inspiraram e inspirarão outros ainda.

A escravidão foi um empecilho para o desenvolvimento do brasileiro e impediu uma imagem mais moderna no Brasil do império?

Há imagens que se complementam; a primeira é o enorme desprezo do império escravista, que é muito complexo, pois não é possível tratar de apenas escravidão, mas de escravidões. E o impacto dos estrangeiros ao identificar outra África no Brasil, em especial nas cidades litorâneas. Esses estrangeiros descrevem com horror os mercados de venda de humanos e ficam admirados com as classes médias mestiças. O Brasil já tinha no império no início do século XIX 45% da população de afro-mestiços livres e incorporados ao mercado de trabalho que estavam em mobilidade social e representavam um grupo de elite. A grande maioria deles intelectuais e representantes do Brasil no exterior. Nas correspondências dos viajantes e dos diplomatas, podemos identificar esses indivíduos, e a dicotomia de ter essa classe em ascensão e ao tempo o comércio de escravos; essa foi uma visão aterradora para a Europa. 

A princesa Isabel não possuía nenhum interesse sobre o tema da abolição da escravatura e propriamente a libertação dos seres humanos em situação de escravidão?

Interesse diria que propriamente não, isso porque ela passa a maior parte desses anos entre o Brasil e a Europa. E além, as regências dela foram muito mal recebidas pelos políticos; ela não é vista, sobretudo, pelo seu próprio pai, como uma boa substituta para o reinado. Muitos historiadores interpretam essa atitude dela na assinatura da lei como uma ação para uma defesa a um terceiro reinado e aos seus três filhos (homens). Ela aplica-se a isso, mas são gestos de uma mulher que vê seu reino “ir pro beleléu”. E quando ela saiu para o exílio toda a sua correspondência é de saudade de casa, das amigas, mas não dá uma palavra sobre a abolição, o que impactou diretamente na queda da monarquia.

Crédito das fotos: Arquivo pessoal

Como foi a pesquisa de “À procura deles: quem são os negros e mestiços que ultrapassaram a barreira do preconceito e marcaram a História do Brasil”?

 Com muito contato que tive com as correspondências dos diplomatas, lia a identificação desses negros e mestiços, mas me perguntava: onde eles estão? Então, comecei a procurar por eles, e os encontrei em toda a parte. Em Portugal, Coimbra especificamente, identifico um número significativo de negros e mestiços estudando medicina (que precisam ser estudados); inclusive Maurício Rebouças, que está estudando na Sorbonne em Paris, e por conta de sua dissertação criou cemitérios no Brasil, pois ele prova que a doença que matou o indivíduo que era enterrado na igreja acabava por matar quem rezava pelo morto dentro do templo. Mas uma coisa é certa, o letramento foi fundamental à ascensão desses ex-escravizados e as mulheres foram fundamentais para o letramento dessas pessoas. O papel da mulher, as mães foram as grandes motivadoras dessas classes. Eu convoco as historiadoras a investigar essas mulheres – a documentação comprava que havia muitas secretarias e tesoureiras negras e mestiças nas irmandades, então não é possível afirmar que não havia letramento para essas mulheres. Agora… Claro que por conta da pandemia estava tudo fechado, as bibliotecas, os institutos, o que dificultou a pesquisa, mas mesmo assim foi um prazer essa investigação e conhecer essas histórias maravilhosas. 

Este trabalho apresenta negros e mestiços ascendendo socialmente, e como você identifica o debate sobre o branqueamento social?

O branqueamento tanto se apresenta como uma defesa contra o racismo ou simplesmente uma questão de mobilidade social. Minha função como historiadora é apresentar essas pessoas, mostrar sua existência e resistência – claro que me deparo com isso, mas não sou especialista nas questões da negritude e não sou negra – eu não saberia interpretar isso, por isso deixo para os especialistas. 

Sua atuação como escritora da História é profícua e de temas muito importantes para entender a História do Brasil e seus resultados no Brasil contemporâneo. Como é a recepção do seu trabalho?

Eu, quando saí do magistério, saí da USP, muitos colegas deixaram de falar comigo. Eu fui um pouco hostilizada porque há 21 anos a divulgação da História era sinônimo de lixo. Eu saí da USP para me dedicar ao meu projeto, e foi com o livro “A carne e o sangue: A Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos” que lanço luz para esses personagens que não estavam na moda. Foi nesse momento que os colegas da área começaram a ler o meu trabalho e recebi boas críticas. Eu assumi esse projeto, quis fazer isso, e o que é bacana é que o meu trabalho tem inspirado grupos de estudos em regiões periféricas através dos meus livros. Isso é acessar as pessoas que precisam conhecer o Brasil e questionar essa hipocrisia da Universidade de achar que certos temas não são válidos ou que não podem entrar no ambiente acadêmico, o que afasta o povo das universidades. Estou muito feliz com a minha escolha.   

Qual sua mensagem aos leitores da Revista Canjerê?

Vocês têm uma história. E digo que durante muito tempo essa história não foi incorporada a grande História. Agora, graças às cotas, números cada vez maiores de negros e mestiços nas universidades irão colocar esses grupos, essas histórias, essas personagens também na grande História. Por isso, é preciso que os trabalhos desses pesquisadores pensem nas suas histórias e contem elas, suas mães maravilhosas, suas lutas e resistências. Parabéns pela Canjerê e muito sucesso, não desistam nunca. 

Ser confrontado com a História não é uma tarefa fácil, principalmente no atual momento em que o negacionismo, o revisionismo histórico e as fake News tentam apagar uma visão mais assertiva do Brasil. Mas Mary del Priori lança-se com sede e fome aos documentos, relatos e registros desta História que solicita ser contada e corajosamente ilumina os cantos escuros que foram desprezados. Em “À procura deles: quem são os negros e mestiços que ultrapassaram a barreira do preconceito e marcaram a História do Brasil” identificamos uma oportunidade de olhar face a face para um desses cantos pouco iluminados. Sua leitura é uma possibilidade de conhecer os ricos – negros e mestiços – personagens, os quais necessitam voltar a viver através de nossa leitura e memória. São os verdadeiros ancestrais que a História feita por homens, brancos, héteros e cristãos não quiseram contar.  Esses são os ancestrais pretos e mestiços que o Brasil contemporâneo necessita neste instante visualizar para melhor entender sua identidade e não se permitir cair no erro de eleger ineptos como representantes deste esplêndido país.

Paulina Chiziane: as diversas possibilidades de falar sobre o feminino

      Rosália Diogo Chefe de Redação da Revista Canjerê. Pós-Doutora em Antropologia da População Afro-brasileira. Gestora do CRCP Lagoa do Nado.

Paulina Chiziane nasceu em 1944, em Manjacaze, província de Gaza, Sul de Moçambique.  Foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance. Dessa forma, a escritora desafiou e desafia críticas e resistências sociais e culturais no seu país e no continente africano.

Paulina representa uma mulher moçambicana que fala sobre as mulheres do seu país e do mundo. Posicionamento que modifica o cenário social que normalmente é protagonizado por homens.

Escreveu alguns contos e estreou no romance com a obra Balada de amor ao vento (1990), editora Caminho. Publicou também por essa editora Ventos do Apocalipse (1995), O sétimo juramento (1999), O alegre canto da perdiz; Niketche: uma história de poligamia (2004), Companhia das Letras; Por quem vibram os tambores do além? (2013), ed. Índico; Na mão de Deus, ed. Carmo; e Ngoma Yethu: o curandeiro e o Novo Testamento (2015); O Canto dos Escravizados (2018) e As andorinhas (2008) pela editora Nandyala.

Entrevista concedida em 2011, na cidade de Maputo, capital de Moçambique.

Qual é sua opinião sobre Lobolo e Poligamia, tradição e modernidade. Alguns dizem que Nikecthe  é um pretexto para  você apresentar a discussão à modernidade em Moçambique. O que tem a dizer sobre esses temas?

Eu fui a escritora que mais escrevi sobre os temas lobolo  e poligamia.  Em todos os  livros  que eu publiquei, trato desses temas, de uma forma ou de outra. Eu acho que todos os moçambicanos deveriam discutir seriamente sobre o tema poligamia e eu pessoalmente  não concordo com ela.  Não  concordo mesmo, mas por outro lado nós temos a seguinte situação: a região sul do país é patriarcal e a favor da poligamia, e daí veio a religião cristã e instalou a monogamia. E na região norte, que era  matriarcal e portanto sem espaço para a poligamia, os mulçumanos se instalarem por lá e daí se implementou a poligamia, então é uma verdadeira confusão. Por lá instalou-se uma religião que não tem nada a ver com os costumes deles, e vivemos nessa complicação. Agora, o que posso dizer da poligamia é que ela é benéfica para as crianças. Os filhos, em uma situação poligâmica, têm uma identidade, e na monogâmica não. Dessa forma, as crianças, independente de serem filhos de uma ou de outra mulher, são reconhecidos como filhos legítimos de uma família, já na relação monogâmica marginalizam-se os filhos das outras mulheres. Eu, pessoalmente, penso que poligamia, nem pensar, mas sou apologista da legalização da poligamia, pois se ela for bem legislada, as coisas tendem a ficarem bem. As pessoas que vivem na cidade é que acreditam na monogamia. A maioria das mulheres  vive no sistema tradicional poligâmico e não têm proteção alguma da lei, o que não é correto. Portanto, devemos olhar para a poligamia porque é uma realidade e é preciso legislar, pois em uma poligamia o homem tem uma mulher e quando resolve ter a segunda, deverá legalizar primeiro a situação com a primeira: dividir os bens, incluindo a casa, deixar a parte dela resolvida e ir cosntruir a nova vida sem que a mulher fique desprotegida. Mas o que acontece de fato é que, com a ausência da lei,  o homem vive com uma mulher um tempo e, quando bem entende, manda-a ir embora, no dia seguinte vai buscar outra ou fica com umas três ao mesmo tempo. Portanto, há de haver um instrumento legal para proteger essas mulheres que vivem nessa situação, pois são a maioria. Como você teve oportunidade de ver, as nossas cidades são bem pequenas e a zona rural é imensa. Dessa forma, toda essa imensidão humana está sem proteção. Portanto, é mais ou menos dessa forma que eu levanto o tema da poligamia – há coisas boas e coisas más. Mulher em uma situação de poligamia é sofrimento, mas as crianças ganham identidade, portanto não sou eu que vou responder se é bom ou ruim.

Estou em Moçambique pelo fato de fazer em minha obra uma análise comparada da sua literatura com a obra de Conceição Evaristo. Sei que ela já esteve aqui no ano passado. O que pensa sobre a  escritora?

O que tenho a dizer é que eu não tenho palavras para explicar o que vou dizer: peguei o livro Ponciá Vicêncio para ler e comecei a identificar-me com ele. Li também poemas da recordação e outros movimentos e agradei muito. A sonoridade me chamou atenção também. Conceição escreve na obra assuntos completamente diferentes dos meus, mas quando fecho os olhos, me vejo no Brasil, e penso que poderia ter sido eu a escrever o romance.  A obra me fez sentir muito próximo dela, é como se meu espírito estivesse naquela história. Recebi essa obra diretamente das mãos dela e fisicamente não me pareço com ela, mas tem um quê, quando se  olha para ela e para mim fica a sensação de pessoas que viveram no mesmo lugar, ou são irmãs. Eu realmente não tenho palavras para explicar. Quando ela esteve cá, estivemos juntas por alguns lugares de Maputo e eu gostaria de tê-la levado a muito mais lugares dos que pude levar porque o programa  dela estava muito pertado. Conceição Evaristo passa por uma pessoa moçambicana, e se eu disser  que ela é minha irmã mais velha ou mais nova, com certeza as pessoas acreditarão.

Chiziane, Conceição é uma ativista da temática racial no Brasil. O nosso país segrega e discrimina, de maneira gritante, os afro-brasileiros. A obra de Conceição é fortemente marcada pela denúncia das situações de racismo e de opressão à mulher negra. As leituras sobre o racismo em Moçambique são tímidas, você acha que há racismo aqui?

Há racismo sim.  Eu não discuto muito em “Niketche” isso, mas no “Alegre canto da perdiz” essa leitura é possível com mais amplitude. Não sei bem o que podemos dizer hoje sobre racismo em Moçambique. “O Alegre canto da perdiz” é um pouco mais ousado ao abordar o assunto. No fundo, nós fizemos uma luta pela independência, ficou claro que os nossos inimigos eram os portugueses, mas as questões sobre raça no sistema colonial eram muito claras. Fizemos a independência foi há mais de trinta anos e desde então não voltamos a discutir, fazer o debate sobre revolução, paramos de fazer o debate sobre unidade nacional e outros temas. E eu, como sempre, não consigo  fechar a porta para os debates que não são tão populares assim. O fato é que os portugueses que aqui ficaram no pós-independência mantiveram os seus privilégios e os seus descendentes também por conta da sua mestiçagem, são filhos de pai branco e daí o conceito dentro da sociedade moçambicana é mais elevado. Por exemplo: se tu fores à províncias do norte como a Zambézia ou Nampula, os empregados dos bancos são mestiços; nos aviões, as funcionárias também são. Raramente nesses postos  de trabalho se encontram pessoas negras, com a pele escura como a minha ou a sua.  Em grandes empreendimento hoje, a primeira presença que encontramos é a de mestiços, mas esse assunto não se discute por aqui. A desculpa é que a Constituição diz que não pode haver discriminação pela raça e outras. Só que se basearmos no que está escrito nela, sem haver um mecanismo de bate público, não basta. Não estamos em igualdade racial de forma alguma. Aqui no Sul não diz nada, mas na Zambézia, que está no  centro, e no norte do país, é muito flagrante, o estatuto do mulato é superior. É o que posso dizer neste momento sobre a questão do racismo por agora.

Eustáquio Neves: Um fotógrafo autoral

Por Robson Di Brito

Mestre em humanidades, escritor e pesquisador

O que é o tempo para um fotógrafo?

Para responder essa pergunta quase filosófica, ninguém melhor que Eustáquio Neves, referência brasileira em fotografia autoral. “O tempo é a construção de momentos; não é algo que se programe, mas são várias situações e fragmentos que se constituem no tempo e a imagem desse tempo é fragmentada”.

Eustáquio Neves é um dos fotógrafos mais respeitados quando o assunto é a arte multimídia aliada à herança africana no Brasil, autor de uma vasta obra em foto-arte que incluem prêmios e exposições no Brasil e internacionais. Muito antes dos temas da memória e identidade negra ganharem centralidade no debate público, ele já dedicava quase 30 de seus 62 anos a registrar a perspectiva do preto e de sua importância como representante nacional. Nascido em Juatuba, Minas Gerais, químico de formação, mas foi no autodidatismo fotográfico que se identificou como artista. É casado com Lilian Oliveira Neves e residente na cidade de Diamantina, local que detém uma forte atuação preta, em especial, pela história de seres humanos em situação de escravidão. 

Como que Eustáquio Neves observa a cidade e como sua arte dialoga com ela?

Acredito que o diálogo da minha arte com a cidade de Diamantina tem a ver com a herança do negro com a cidade, o que de certa forma acaba me movendo; conheci pessoas muito importantes, como remanescentes da memória do traço do negro na região. Entre elas o “Seu Crispim”, mestre dos catopés e um dos últimos detentores dos cantos dos “Vissungos”. É isso que a cidade me faz localizar, essas pessoas. Diamantina é, de fato, uma cidade bastante ímpar por conta da escravidão, pois teve uma representativa mão de obra escravizada de pessoas específicas de mineração e outras qualidades técnicas. Isso me inspirou a série “Retrato falado” (2015), pois não há uma informação precisa desses trabalhadores, o que me faz buscar soluções para impasses como esse. De fato, a série retrata o apagamento da memória do negro e ao me deparar com a falta de registro fotográfico da pessoa do meu avô, uni, por conta deste trabalho, a observação histórica e pessoal da mão de obra do negro escravizado aqui na região.

Sendo um artista cosmopolita que já expôs suas fotografias em quase todos os continentes, o que Diamantina produz em você que esses outros lugares não produzem?

É o sentido de você entender sua aldeia para entender o mundo! Então… Memória e identidade são as ideias centrais que Diamantina me propõe, pois são um pouco confusas. Confusas se você pensar de forma geral, pois há alguns núcleos de indivíduos que sabem de sua importância para região, por exemplo, o “Seu Crispim”. São células que vão disseminando, mesmo com uma tentativa de invisibilidade, a importância dessas pessoas. Um exemplo claro: morar aqui, nesta casa, que representa um padrão econômico que destoa da maioria da população negra brasileira. Até as pessoas saberem que era eu e minha família os moradores, já tinham dito que aqui morava um casal de japoneses, de africanos, americanos, mas nunca de um negro brasileiro. Isso demonstra que é difícil compreender um negro tendo acesso àquilo que os brancos têm desde sempre. As pessoas não entendem, mas têm de aceitar, pois essas questões estão sendo levantadas pela sociedade. E aqui, na cidade, a Universidade Federal dos Vales dos Jequitinhonha e Mucuri têm auxiliado para essa aceitação de identidade do negro consigo e de Diamantina com o negro.

Suas obras são simbólicas por natureza e podemos compreender isso já dos títulos das séries que produziu: Futebol (1998), Objetivação do corpo (1999), Máscara da punição (2004) e outras. Essa simbologia é fruto de uma pesquisa elaborada para a criação da série ou é intuição artística?

São insights, e a partir daí eu vou para pesquisa. Todos os materiais e temáticas que uso é do meu entorno, por isso entendi que produzo uma fotografia de autor, é um contar uma história com a fotografia, o que pede uma pesquisa. Um exemplo claro disso: a série “Cartas ao mar” (2015), feita na zona portuária do Rio de Janeiro conhecida como Valongo, um dos locais onde se receberam inúmeros negros escravizados. Essa série tem uma estética de documentos, pois penso na prática de colocar cartas em garrafas e lançar ao mar para que as pessoas que as encontrem tenham acesso a essas mensagens numa tentativa de a memória não cair no esquecimento.

Suas referências são de múltiplas artes e já afirmou em algumas entrevistas o cinema de Andrei Tarkovski (cineasta russo, produtor de 7 longas-metragens e 3 curtas-metragens), mas também referendou Arthur Bispo do Rosário por sua estética nas Artes Plásticas. E na literatura, possui alguma referência?

Há uma atmosfera nos filmes de Tarkovski, um tempo que identifico com o meu tempo de narrativa. Arthur Bispo do rosário revela muito da contribuição do negro nas artes plásticas. Recentemente Spike Lee (cineasta e dramaturgo estadunidense) disse que não existe arte contemporânea sem a contribuição do negro, e a arte do Bispo do Rosário representa isso. O Bispo me auxiliou como subverter a fotografia e manipular a foto de forma a não me sentir limitado com as técnicas tradicionais da arte fotográfica. Já na literatura quem me marcou foi Machado de Assis. Na infância, li muito Machado, mas um autor com quem já trabalhei e admiro a literatura, e é preciso que os negros leiam, é o Edmilson de Almeida Pereira.

São presentes os temas: Passado, História, Memória, Corpo, Identidade e Preconceito em suas obras. Você transita por esses temas, não apenas os expondo de forma deliberativa, mas por meio de um olhar crítico sobre a situação social brasileira, em especial ao preto inserido nessas temáticas. Você acredita que esses temas são importantes para compreender os dilemas étnico-raciais da sociedade brasileira?

Esses temas são essenciais para entender o negro no Brasil. As pessoas estão se impondo mais, sem a necessidade forçosa de ser aceito. Cada vez mais temos de discutir essas questões para que as pessoas possam compreender os lugares que ocupam nessa sociedade, e possam buscar novas colocações nela, e perceber que elas também podem acessar aquilo que lhes fora negado. A série “Boa aparência” (2000) vai ao encontro disto, pois partiu de uma pesquisa na Biblioteca Antônio Torres, em Diamantina. Lá achei alguns anúncios de jornais históricos que tratavam de escravos fugidos. Lia neles que tratavam o negro como que dotado de boa aparência. No mesmo período, ganhei uma bolsa de investigação em Londres e lá fui para os arquivos de bibliotecas e retomei esse assunto de forma investigativa. De volta ao Brasil, confronto o termo usado com anúncios de escravos fugidos no período da escravidão no Brasil e na Inglaterra e como o termo era utilizado antes nos classificados de oferta de emprego. Por isso, é preciso questionar e se questionar até que ponto aquilo que dizem sobre o negro é do negro ou imposto a ele.

Você afirma que não faz uso de sua arte para levantar bandeiras, mas é um contribuinte para o movimento da identidade preta no Brasil. Possui uma opinião formada sobre o movimento negro como instituição? 

O movimento negro no Brasil como instituição é válido, mas eu acredito mais no movimento da população negra de um modo geral, e dentro desse movimento da população negra está o movimento negro institucionalizado, e não o contrário. 

O Itaú Cultural e o Museu Afro Brasil o definiu como Fotógrafo étnico-cultural, mas é unanime a afirmação de que sua obra e você definem-se como artista multimídia. Eustáquio Neves, como você se define?

Sou artista e ponto. Por um acaso a arte que produzo é da linha visual. Me incomoda um pouco essa coisa de rotular o artista. Ninguém enquadra um artista branco como Artista branco fulano de tal, então não há por que me enquadrar nisso. Pode ser que na biografia seja necessário, mas não é um fator para definir minha arte. 

Como se sente sendo para muitos jovens pretos uma inspiração e qual sua recomendação para eles?

Eu não tive referências quando comecei minha arte. Um pouco pela falta de existirem referências na arte da fotografia e um pouco pela minha ignorância sobre os poucos que existiam quando comecei. Só muito depois que conheci o trabalho do estadunidense Gordon Parks, por exemplo. Mas, me vejo sendo referência para os jovens artistas com certa responsabilidade, no intuito de defender as ideias e temas que trabalho, mas não forço nada. A mensagem que envio aos jovens é a persistência e o acreditar, e a vontade. Qualquer coisa para o jovem negro, e o negro brasileiro em si, para qualquer coisa que se queira fazer é preciso “meter a cara”; ir sem medo para conquistar o que é seu também, pois o negro pode tanto quanto o outro que é branco.


Afoxé, a presença do candomblé no carnaval

Por Etiene Martins

Também chamado de Candomblé de rua, o Afoxé é um cortejo que sai durante o carnaval. Uma das muitas manifestações culturais dos negros brasileiros. Elaborado pelo povo iorubá, seus integrantes geralmente são vinculados a um terreiro de candomblé. O termo afoxé provém da língua iorubá. É composto por três termos: a, prefixo nominal; fo, significa dizer, pronunciar; xé, significa realizar-se. Traduzindo afoxé quer dizer o enunciado que faz.

As principais características são as roupas, nas cores dos Orixás, as cantigas em língua Iorubá, instrumentos de percussão, afoxé (ou agbê), cabaça coberta por uma rede formada de sementes ou contas, os atabaques, e o agogô, formado por duas campânulas de metal. O ritmo da dança na rua é praticamente o mesmo dos terreiros, bem como as melodias entoadas nos cortejos dos afoxés são as mesmas cantigas entoadas nos terreiros afro-brasileiros que seguem a linha jexá. Os cantos são puxados em solo, por alguém de destaque no grupo, e são repetidos por todos, inclusive os instrumentistas. Antes da saída do grupo, ocorre o ritual religioso (como a cerimônia do “padê de Exu” feita antes dos ritos aos orixás numa festa de terreiro). O afoxé Embaixada da África foi a primeira manifestação negra a desfilar pelas ruas do Brasil, na Bahia, em 1885. Em seu primeiro desfile, utilizou indumentária importada da África. No ano seguinte, surgiu o afoxé Pândegos da África.

O surgimento de afoxés no Brasil desenvolveu-se num período de fortes proibições a elementos que reverenciem o candomblé e a cultura negra, tendo em vista que buscava-se um “embranquecimento” da sociedade. Os negros eram vistos como inferiores e imorais. A criação dos afoxés aparece então como uma forma de resistência cultural, evidenciando o candomblé nas ruas da cidade e demarcando um espaço territorial, período que é denominado de “africanização” da Bahia.

Eles apareceram como clubes negros organizados, os quais ganharam visibilidade apresentando-se com a utilização de elementos comuns aos clubes brancos. 

Apesar de possuírem esses elementos, eles também possuíam elementos comuns à religião de matriz africana e utilizavam os mesmos princípios dos rituais utilizados pelos afoxés simples da época. Esses clubes eram: Os pândegos da África e a Embaixada Africana. Foram considerados mais aceitáveis pela população, tendo em vista que eles exibiam riqueza e luxo nos seus desfiles.O que não ocorria com os afoxés mais pobres que eram vistos como batuque insolente da população marginalizada. Em 1902, os afoxés pediram licença à Prefeitura de Salvador para desfilarem e tiveram o pedido negado, causando uma série de discussões as quais traziam à tona a questão de que os afoxés eram marginalizados, mas resistiam, assim como uma aceitação melhor de seus próprios elementos símbolos do candomblé, o que mostrava uma ideia bastante recorrente nesse período que é a ideia de resistência cultural.

Mesmo diante de toda essa trajetória histórica, os desfiles de afoxés não são muito valorizados pelas populações às quais eles estão atrelados, são vistos mais como um momento de festa do que como uma manifestação social em busca de reconhecimento e valorização social. O Afoxé, portanto, não é sinônimo de bloco carnavalesco. Trata-se de uma manifestação que tem profunda vinculação com as manifestações religiosas dos terreiros de candomblé. É importante lembrar que o afoxé surge para demonstrar a presença dos negros na sociedade e tentar alcançar uma maior igualdade através do convívio, seria aquilo que Florestan Fernandes chamaria como um meio de integrar o negro em uma sociedade de classes.

Atualmente, podemos encontrar Afoxé não somente no carnaval da Bahia em Salvador, mas também nas cidades de Fortaleza, Recife, Olinda, Rio de Janeiro, São Paulo, Ribeirão Preto e em Belo Horizonte. Fomos bater um papo com os integrantes do Ilê Odara e conhecer as peculiaridades do primeiro Afoxé da capital mineira.


Gostaria que nos contassem como se deu a fundação do Afoxé Ilê Odara. De quem foi a ideia inicial? Quais foram as pessoas que participaram desse primeiro momento?

A ideia nasceu após um show de Gilberto Gil, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em meados de 1979. Mamãe teve acesso ao camarim e, no meio da conversa, Gil perguntou por qual motivo ainda não tinha um afoxé em Belo Horizonte. Ela, como ialorixá, envolvida com o MNU (Movimento Negro Unificado) e seus valores, viu ali nascer a ideia com o desafio lançado por Gil, por quem ela tinha grande carinho. Logo, outros encontros foram marcados entre Gil e Mãe Gigi, dando origem ao Afoxé Ilê Odara, tendo como inspiração o baiano Afoxé Filhos de Ghandy. Gil esteve algumas vezes lá em casa, esclarecendo dúvidas sobre a criação do Afoxé em relação à indumentária e percussão.

Em seguida Dona Oneida se organizou e montou a Diretoria do Afoxé Ilê Odara, compondo-a Marlene Silva como diretora artística e braço direito de Mãe Gigi.

A diretoria era composta por Mãe Gigi e seu esposo o sambista Velho Dico. Passaram pela diretoria do Afoxé ilê Odara celebridades como os coreógrafos Márcio Valeriano e Marlene Silva, o jornalista e cientista da UFMG Dalmir Francisco e os babalorixás Carlinhos D’Oxum, Marco Antônio (Londegí) e João Afonso Braga (Yianambo) entre outros.

Pra quem não teve a oportunidade de conhecê-la, conte-nos um pouco sobre Mãe Gigi.

Dona Oneida, conhecida como Mãe Gigi, era uma mulher extremamente organizada, detalhista e exigente; quando olhamos a documentação do Afoxé Ilê Odara da década de 80, os recibos, as cartas são os exemplos que seguimos. Mulher negra, forte, humana, guerreira, conselheira uma grande líder.

Na formação inicial, havia muitas pessoas ligadas ao movimento negro da cidade. Qual a importância do grupo para a promoção da igualdade racial?

Sim. Tínhamos conosco Mestre Cobra Mansa, Efigênia Pimenta, Jurandir, Mestre As de Ouro, Lucia Capoeira, Marquinho Cardoso, Marcos Buzana, Mestre Chocolate, Mestre João Poronga entre outros.

Além de manter viva e saudar nossa ancestralidade, a ideia sempre foi a valorização do negro e da nossa cultura através das músicas, danças, palestras e manifestações de forma a unificar nosso povo.

Nos conte um pouco sobre a participação das crianças no Afoxé. Há espaço para elas?

Na década de 80, nossos desfiles tinham alas apenas de crianças. Me lembro de um em especifico no ano de 86: as crianças representavam Os meninos do Bloco, com a Música principal Caboclo Pai, composta por Ênio Flávio. Mamãe tinha autorização assinada dos pais de todas as crianças participantes para que não houvesse nenhum problema com o juizado de menores. Ela sempre foi muito detalhista e minuciosa. Hoje mantemos o legado, temos crianças no nosso corpo de baile e a tendência é só aumentar. Criança é inspiração.

Foto: Diogo Vasconcellos

Afoxé é repleto de elementos da religião de matriz africana, as danças, as músicas até as roupas. Vivemos em uma sociedade em que o racismo religioso é muito presente.Como o Ilê Odara lida com isso?

Há uma parcela da sociedade que marginaliza nossa religião. Diz que é coisa do diabo ou do inferno, quando, na verdade, estamos cultuando a natureza. Fazem isso para quebrar a nossa autoestima. O afoxé briga diretamente contra isso. O culto aos orixás é a principal forma de expressar politicamente a cultura negra. O candomblé é nosso espaço de resistência e luta, é o lugar onde acontecem encontros pessoais, mas também com nossos ancestrais.  Descobrimos juntos a nossa força e como lidar com essa sociedade.

Nosso envolvimento com a comunidade e os frequentadores do nosso Centro Cultural é além da data festiva do Carnaval, nessa relação que resistimos em manter viva nossas origens com vestimentas, músicas que são algumas das formas de expressar a cultura negra.

O Afoxé Ilê Odara é composto por quantos integrantes?

Atualmente mais ou menos 40 pessoas.

É um grupo em que os integrantes são negros ou qualquer pessoa pode fazer parte?

Em sua maioria sim, mas qualquer pessoa pode fazer parte.

A abertura do carnaval da cidade Belo Horizonte é feita pelos blocos afros, dentre eles o Ilê Odara. O que isso representa para os integrantes do Afoxé?

O Kandandu tem em seu principal objetivo reunir os blocos afros para fortalecer e promover a cultura afro-brasileira e suas manifestações, realizando, assim, oficialmente a abertura do Carnaval de Belo Horizonte, isso representaria muito aos nossos integrantes “família”, como nos tratamos.Mas o Afoxé Ilê Odara não foi convidado a fazer parte.

Quais são os instrumentos que não podem faltar no Afoxé.

 Atabaques e Agogôs

O Ilê Odara tem músicas autorais? Se sim, me apresente a letra de uma delas.

Sim, várias.

Vem meu povo 

(Composição: Edu Omoguian e Toninho Liberdade)

Vem meu povo

Olha quem chegou

Afoxé Ilê Odara

O primeiro de Belô

Vêm chegando na avenida

Com a sua empolgação

Vem mostrar pra essa gente

Que nós temos tradição

Afoxé é coisa de negro

Que nasceu lá na Bahia

Vem saldar Filhos de Gandhy

O mais velho da folia

ê filáaláayiê ô

Ilê Odara

ê filáaláayiê ô

Ilê Odara

Qual é a contribuição que os Afoxés do Brasil deixam para quem tem a oportunidade de conhecer? 

Resistência, manifestação artística-religiosa, devoção e a preservação da cultura negra.

Foto: Diogo Vasconcellos

Etiene Martins é jornalista, pesquisadora das Relações Étnicorraciais.

À Luta, à voz

Por Naiara Rodrigues – Jornalista e assessora de imprensa

Nesta edição, a Revista Canjerê traz uma entrevista com Nívea Sabino, poeta, slammer e educadora social que atua na Coordenação Política do Fórum das Juventudes da Grande BH. Nascida em Nova Lima, Nívea é um dos maiores nomes da poesia falada em Minas Gerais e compartilha um pouco de sua trajetória e sua relação com as palavras e a literatura.

Quando a literatura entrou na sua vida? Como foi o seu processo de reconhecer esta linguagem como uma forma sua de expressão?   

É o movimento de Saraus de Periferia que desperta o fazer literário e onde eu firmo os meus pés na palavra falada, embora eu já escrevesse bem antes de chegar a um sarau e o universo literário já me rodeava de alguma forma. Eu fui uma criança que frequentou a biblioteca pública próxima a minha casa – para brincar (risos). Em casa, lembro das leituras nos encartes de vinil –  a música tem um papel de iniciação com a palavra importantíssimo na minha caminhada. Eu lia encartes de vinil, CDs e revistas em quadrinhos. Já jovem me interessava por textos que partiam de uma realidade que eu pudesse observar: crônicas, contos e biografias… Por volta de 2010, passei a frequentar o Coletivoz, Sarau de Periferia, logo depois o saudoso Sarau Viralatas que foi itinerante no centro de Beagá. Entre 2012 e 2016, fui uma das articuladoras do também saudoso Sarau dos Vagal, em Nova Lima. Nesse período, eu já tinha boa parte dos textos escritos em um blog que alimentava na internet desde 2007 e os saraus foi um exercício de reconhecer os textos e querer dizer, encarar o público e me despedir da vergonha em dizer poesia. No início, foi um desafio de querer dizer mesmo, muito maior do que o de conceber os textos e/ou de eu crer na potência e qualidade dos meus escritos. A meritocracia é um mito difícil de quebrar e a palavra foi uma grande companheira nesse período de elaboração e entendimento de quem eu sou, do contexto social do qual faço parte e as implicações de tudo isso na minha vida.

Qual a importância dos saraus e slams na sua formação enquanto poeta e leitora?

A palavra falada, a poesia falada é o meu lugar de conforto dentro do fazer literário. Os saraus são uma arena livre da palavra, espaço de encontro, lazer, convivência, acolhida, experimentação e criação… tudo isso é provocativo para um artista e é rico para a escrita.  Eu sou cria do Coletivoz, Sarau de Periferia – no Barreiro, que tem como mote a frase “À Luta! À voz!”, e existe uma diferença dos saraus na maneira de como o vivenciamos no início da década passada e de como o vivenciamos hoje, com a expansão das comunidades de slam. No início, se lia muito mais poetas quase sempre mortos do que se reconhecia um poeta vivo em cena.  A literatura ganha muito, e nós como sociedade brasileira também, quando se cria essa aproximação entre o escritor, sua obra e o leitor através de formatos alternativos, como os espaços de Sarau e Slam. Os slams, diferente um pouco dos saraus, são competições pessoais antes de qualquer outra coisa. É o desafio do poeta com a própria palavra e a sua imagem: o meu corpo diz junto e quais elementos beneficiam (ou não) a relação que se cria para além da obra escrita quando dita. Soma-se a isso o desafio enorme de que quem escreve terá de construir o como entregar a palavra de maneira viva e administrar emocionalmente a coragem do poeta de permitir que, de maneira aleatória e sem critérios, se dê uma nota para o seu texto/performance com base na maneira como você apresenta/diz o seu texto. Essas características, principalmente a de lidar com a palavra viva, influenciam tanto o diálogo quanto as temáticas e intenções que eu estabeleço com as pessoas e necessariamente, também, as leituras que eu opto por fazer.

Nívea Sabino – Foto: Ricardo Laf

De que forma a poesia pode ser uma ferramenta para o enfrentamento ao racismo, à lesbofobia, ao sexismo e outras formas de opressão na sua opinião?

Creio no encantamento que há nas nossas subjetividades. As minhas e das pessoas que me acessam, me ouvem ou leem os meus textos. Creio na força do lúdico e de um universo habitável que se construa a partir de nós, nossos sonhos e desejos e que seja este universo algo inventado, diferente do que construímos até aqui. O racismo, a lesbofobia e etc., são construções nossas – construções sociais. A literatura permite reconstruir, recriar e projetar outras paisagens e narrativas que dirão do nosso tempo de viver agora e de projeções futuras. A poesia revela, projeta e tem poder de incidência no imaginário popular. Existem várias frentes de luta e a minha incidência, embora seja política, é também lúdica. Sensibilizar e humanizar olhares nos desarma… nossas humanidades se encontram nas nossas subjetividades, vem daí a força da poesia quando somada às discussões de direitos.

Em 2016 você publicou o seu primeiro livro “Interiorana”, que mostra diversas facetas suas enquanto poeta e já está na 2ª edição. Como foi essa experiência?

É incrível não pertencer ao mercado editorial e existir com tanta força como a minha palavra existe. Eu sou resultado do que podemos fazer juntos e, principalmente, em rede. Como diz Conceição Evaristo, graças ao movimento negro e ao movimento social a minha palavra vem alcançando gradativamente as pessoas. Interiorana é um livro de 146 páginas, todo pensado e realizado de maneira independente, desde a sua primeira publicação, em 2016. E trata-se de um livro que eu estou trabalhando na íntegra, quase uma década recitando os mesmos textos, através da palavra falada: seja em oficinas, saraus, slam’s e apresentações musicais. Quando publiquei “Interiorana”, eu já existia – a palavra falada antecede a impressão do livro. Através desse trabalho eu saí do meu interior pessoal e geográfico e viajei o Brasil de Norte ao Sul, passando por cidades e olhares com que jamais imaginei me deparar. E eu passo a existir no interior das pessoas que me leem. Interiorana fez dos meus últimos anos os mais incríveis pelos encontros e experiências vividas com a palavra.

Você tem planejado novas publicações?

Eu não faço planos futuros que não seja um: o de melhorar as minhas condições de vida e me manter viva. Eu leio a vida através das palavras e escrevo muito no dia-a-dia, no ônibus principalmente. Se eu me manter viva, naturalmente haverá produção… Procuro me manter em movimento e criando (palavra escrita, cantada, ilustrada…). Quero voltar a pintar, desenhar e resgatar em mim este diálogo (interrompido depois do teste de aptidão no vestibular da Belas Artes/UFMG lá atrás) com a imagem e potencializar em mim a palavra cantada. Interiorana é um livro de poemas que termina com um conto – de brinde, que sinaliza por onde o meu desejo caminha e aponta.

Nívea Sabino foi uma das curadoras do FLI-BH 2019. Foto: Ricardo Laf

Em 2019, você e a Marilda Castanha estiveram à frente da curadoria do FLI-BH e apresentaram uma programação diversa e que pensava a palavra para além dos livros. Como foi chegar neste recorte e qual o balanço faz do resultado da edição?

O maior desejo meu e da Marilda Castanha à frente da Curadoria do FliBH-2019 foi saudar os povos originários e sair do campo das repetições as festas literárias e festivais se habituaram ao caráter de venda dos eventos e aos nomes de escritores que corriqueiramente se repetem entre os convidados, como se no Brasil não houvesse uma gama enorme de escritoras e escritores vivos tão bons e qualificados como os que comumente se celebram nas festas e festivais. Quem diz da palavra “para além do livro” é a minha própria trajetória e a de tantos e tantas outras pelo Brasil afora, principalmente os povos originários.  A oralidade é onde principia a própria literatura e por onde movimentos literários contemporâneos ganham força e recriam o próprio cenário literário, balançam o mercado editorial ao inventar o seu próprio mercado e nos fazem ampliar o olhar sobre a literatura. Os movimentos literários de palavra falada revelam novos escritores, criam leitores e ressignificam a própria literatura, os espaços públicos e aproximam a literatura da gente, faz parecer “nossa e possível”. A oralidade está nas ruas, nas redes, é a linguagem de maior identificação juvenil e possibilita que a literatura seja apresentada com maior interesse e identificação. Um país com o histórico como o nosso – de que pouco se lê – precisa celebrar a adesão em massa de milhares de jovens aos movimentos literários de palavra falada. Eu leio e escrevo muito mais desde que pisei em um sarau na vida e é o que eu percebo ao meu redor nestes movimentos. O Brasil precisa se orgulhar da sua própria história e narrativas, principalmente as vivas.  A literatura não pode ser aliada da exclusão, da violência de invisibilizar produções e pessoas e conduzir a construção de um imaginário popular que destoa da nossa realidade de fato. Quem são os escritores e escritoras brasileiras e quais narrativas nos pertencem para além dessa literatura que nos é apresentada pelo mercado editorial e que nós historicamente habituamos a cultuar? Belo Horizonte abre um precedente após essa edição do FliBH-2019 – é possível ampliar, é possível contemplar e não repetir a história. Escritores e escritoras negros, LGBTs, indígenas, mulheres e pessoas pertencentes aos grupos de vulnerabilidade social existem, escrevem e produzem literatura também. É uma violência ignorar essas pessoas e produções e essa edição demonstra que é possível construir de outras maneiras. É um ganho para nós enquanto sociedade.

Você também desenvolve um importante trabalho no Fórum das Juventudes da Grande BH. Neste contexto político em que nos encontramos, como tem sido lutar contra os retrocessos e seguir na luta por novas conquistas para a juventude?

Eu sou ativista na vida e certamente não é uma escolha, é consciência. Da mesma maneira que tenho consciência de que a nossa luta é para além da minha existência. Desejar um mundo mais igualitário é uma projeção de futuro, diz de um sonho, de algo que se deseja alcançar sem perspectiva de que se veja… o Brasil mata as suas possibilidades de futuro toda vez que um jovem negro é assassinado pela mão do Estado. O Brasil nega as suas possibilidades de futuro toda vez que viola os direitos das juventudes. Eu estou de pé, armada pela palavra, reverenciando gerações passadas e representando diariamente milhões de pessoas como eu, silenciadas pela violência do Estado brasileiro.  As juventudes movimentam a mudança e essa força é permanente, enquanto houver vida.

Voz negra na Assembléia Legislativa de Minas Gerais

Por Naiara Rodrigues

Andréia de Jesus já trabalhou como doméstica na juventude e conseguiu retomar seus estudos na vida adulta, quando já era mãe e fundou com amigos um cursinho pré-vestibular. Advogada popular e moradora de Ribeirão das Neves, foi a primeira pessoa de sua família com curso superior graças à política de cotas raciais. Iniciou suas atividades políticas nas comunidades eclesiais de base e nas pastorais de rua e carcerária. Atuou como militante nas brigadas populares, e foi assessora da Gabinetona, na Câmara Municipal de BH. Eleita com mais de 17 mil votos, é hoje deputada estadual pelo PSOL e uma voz na defesa dos direitos humanos.

Andréia de Jesus (deputada estadual Psol/MG) – Foto Guilherme Bergamini – ALMG

Você faz parte dessa primeira leva de mulheres negras eleitas para a ALMG. Como é ocupar esse espaço historicamente negado a mulheres negras?

A gente construiu essa campanha de forma muito coletiva, com o desejo de vários coletivos que inclusive identificavam em mim essa pessoa que poderia cumprir essa tarefa, grupos de mulheres como as “Partidas” e as “Muitas”. As “Muitas” é esse espaço também que articula diversos movimentos e ativistas. As mulheres das ocupações, movimento em que eu mais atuei como militante e advogada popular, e também mulheres negras comuns, nem todas são de fato organizadas em movimentos, se vêem em mim. A maioria de nós ainda são empregadas domésticas ou estão no trabalho informal, são mães sozinhas, chefe de família que vivem em periferia. Todo esse contexto social reflete em mim, e as pautas vem comigo. Foi uma vitória coletiva. Não é uma conquista individual e, por isso, o desejo, o sonho e a alegria também são muito compartilhadas. Estamos neste momento de êxtase de ver pessoas comuns ocupando esses lugares que a história nos tirou. Faz parte de um projeto maior de colonização do Brasil também não ter representatividade e diversidade nesses espaços.

Como tem sido estar nesses espaços e o enfrentamento da violência institucional existente neles?

Não é um racismo diferente do que a gente vive a vida toda. O racismo institucional é esse lugar que nos coloca desde as primeiras relações que a gente tem com o Estado. Por exemplo, nas escolas, onde você é sempre o último, é visto como feio, ganha apelido. É esse o lugar da invisibilidade. Por mais que você tire boas notas, você está sempre ali como se tivesse a obrigação de ser o melhor. Dentro da Assembleia Legislativa não tem sido diferente. A cobrança por ser mulher, ter de ser boa, não incomodar na fala, é quase que um imperativo. A gente percebe muito também uma sensação de que não vai dar em nada. É aquela sujeita que vai estar ali, mas que também não vai mudar muita coisa. E estruturalmente a gente teme também que essas mudanças sejam muito lentas. A estrutura é ainda monárquica, afasta o povo com sua linguagem e com uma série de regramentos que parece que é impossível de o povo chegar ou alterar porque as cartas já estão dadas. Mas só de estar lá – ter um corpo que não é o esperado ali – já é uma mudança na estrutura. Os jornalistas tentam entender “qual é o papel, o que estão fazendo lá?”. Então o desafio começa em se manter nesse lugar para mudar a estrutura porque não dá para aceitá-la como ela é. Isso é fato. Se você entra para lá e reproduz, você vai ser mais um mesmo dentro desses 500 anos de Brasil, repetindo. Faz-se necessário se fortalecer para não ser mais uma peça invisível na casa.


Belo Horizonte, 01 de Fevereiro de 2019. Cortejo de posse da Deputada Estadual Andreia de Jesus. Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Foto: Tamás Bodolay

A Gabinetona traz esta proposta de mudança com mandatos coletivos. Como tem sido a expansão de vocês, agora que desenvolvem trabalhos em novas esferas do legislativo?

É um projeto sempre desafiante estar em três esferas e governando junto, fazendo mandato único. Neste momento, elencamos algumas pautas que são comuns às três instâncias. Por exemplo, a mineração. No enfrentamento à mineração, a gente consegue criar instâncias de debate e também de atuações que passam sempre pela Câmara Municipal, Assembléia Legislativa e a Câmara Federal. O crime praticado em Brumadinho pela Vale, a ausência de moradia, a retirada das pessoas de suas casas são temas que perpassam os três mandatos, e também o direito ambiental, os direitos humanos. A gente tem procurado elencar a atuação a partir de pautas que sejam comuns a essas três estâncias e as quatro parlamentares. E é isso: a política feminina e a política feminista tende a radicalizar no processo porque a gente não disputa entre si. Muito pelo contrário. Buscamos sempre unificar as pautas e as ações para que elas tenham mais potência. Eu estou lá na Assembleia, no Psol, mas sempre em um movimento de trazer outras mulheres mesmo que venham de outras forças, de outros partidos; confluir porque isso também nos protege e nos preserva desse patriarcado que a todo tempo tenta desqualificar nossa fama e nosso discurso. A “Gabinetona” está nesse processo desafiante porque com a Áurea, em Brasília, estamos distantes geograficamente. Então, as atuações precisam de uma costura maior para garantir que a gente ao menos consiga se encontrar uma vez por mês, trocar impressões e ações. Estamos trabalhando com uma equipe conjunta, as assessorias da Áurea Carolina, Cida Falabella, Bela Gonçalves e minha estão todas em uma única casa, inclusive fazendo esse papel de interlocução de pautas, de ações, principalmente quando se tratam de ações territoriais. Atuamos com as comunidades tradicionais e principalmente com a originária, tentando proteger e dar garantia de posse, da manutenção da posse desses territórios. Estamos nessa construção, pautando muito a cultura e os povos tradicionais como forma de resistência para esse momento tão nebuloso.

Você é co-presidente da Comissão de Direitos Humanos. No trabalho que você vem desenvolvendo dentro dessa comissão como está tentando lidar com esses desmontes de políticas públicas e direitos que enfrentamos?

Foi uma conquista manter a Comissão de Direitos Humanos na mão da esquerda ou de grupos mais progressistas. Enfrentamos um desafio enorme porque parlamentares desses novos partidos, tanto do Novo ou do PSL, que já têm uma visão de Estado Mínimo e uma visão distorcida do papel dos direitos humanos, tentaram ter este domínio. Então tivemos esse grande desafio que era garantir que a gente pudesse presidir essa comissão. E aí, nesta parceria estamos eu e Leninha (PT), construindo este lugar de co-presidência. Pela primeira vez na ALMG a comissão de diretos humanos está sendo presidida por mulheres negras. E ela é a maior porta de entrada para demandas do povo, em que as pessoas encontram amparos para fazer denúncias. E hoje estamos estruturadas para não só encaminhar as demandas que chegam da região metropolitana, onde estou, mas também toda a carga dos povos do campo trazida pela Leninha. E isso é imprescindível porque a gente está falando novamente do recorte racial, de gênero, de como a promoção de direitos humanos se dá a um sujeito que sofre com a invisibilidade. Já fizemos algumas audiências para discutir, por exemplo, como ficaria a questão da política das mulheres, da política LGBT, da juventude e, principalmente, da segurança alimentar dentro do projeto de lei de reforma administrativa apresentado pelo Zema, que entra com esta proposta de reorganizar a casa, mas que desaparece com pastas em que estavam de fato as políticas públicas de estado construídas ao longo de anos para estabelecer a segurança alimentar, o combate a fome, a proteção dos recursos hídricos, entre outros. Tudo isso está ameaçado por esse projeto de estado mínimo voltado para mineração, para o agronegócio, e com uma política de segurança pública cada vez mais repressiva. O número de denúncias que estamos recebendo neste sentido é cada vez maior, e todas elas associadas a esse papel do braço armado do Estado sobre o controle de corpos e vidas que neste momento estarão ainda mais fragilizadas sem políticas públicas.

Belo Horizonte, 01 de Fevereiro de 2019. Cortejo de posse da Deputada Estadual Andreia de Jesus. Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Foto: Tamás Bodolay

Qual balanço faz dos primeiros meses de mandato?

Nós estamos ali conhecendo a casa. Estou usando um lema muito propício: estou aprendendo a ler para ensinar aos meus camaradas. O movimento negro e todo o movimento de resistência passou por aí. Existe um código nesse espaço que a gente precisa decifrar para poder revertê-lo. Também estamos conhecendo melhor a casa porque temos também um lema de hackear o Estado. Então precisamos conhecer bem a estrutura para saber o quanto a gente pode fazer melhor fora dela, como podemos contribuir com as lutas de onde nós viemos, tudo o que está sendo gritado e denunciado nas ruas, como que reverberamos em uma resposta positiva.  Há dois meses, a gente percebe que tem uma lógica hierárquica que nos distancia do presidente da casa,  colégio de líderes. Então, existem várias instâncias. Mesmo que os deputados sejam votados em um único sistema eleitoral, quando vão tomar posse cada um vai assumindo papéis e lugares que vão criando hierarquias, por exemplo, a hierarquia partidária, pelo número de deputados por partido. Estamos neste momento de aprendiz, de descobrir os códigos para traduzi-los e saber como não repetir os erros dos políticos passados e também de avançar nas respostas de qualidade para quem nos procura.