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Entrevista

Voz negra na Assembléia Legislativa de Minas Gerais

Por Naiara Rodrigues

Andréia de Jesus já trabalhou como doméstica na juventude e conseguiu retomar seus estudos na vida adulta, quando já era mãe e fundou com amigos um cursinho pré-vestibular. Advogada popular e moradora de Ribeirão das Neves, foi a primeira pessoa de sua família com curso superior graças à política de cotas raciais. Iniciou suas atividades políticas nas comunidades eclesiais de base e nas pastorais de rua e carcerária. Atuou como militante nas brigadas populares, e foi assessora da Gabinetona, na Câmara Municipal de BH. Eleita com mais de 17 mil votos, é hoje deputada estadual pelo PSOL e uma voz na defesa dos direitos humanos.

Andréia de Jesus (deputada estadual Psol/MG) – Foto Guilherme Bergamini – ALMG

Você faz parte dessa primeira leva de mulheres negras eleitas para a ALMG. Como é ocupar esse espaço historicamente negado a mulheres negras?

A gente construiu essa campanha de forma muito coletiva, com o desejo de vários coletivos que inclusive identificavam em mim essa pessoa que poderia cumprir essa tarefa, grupos de mulheres como as “Partidas” e as “Muitas”. As “Muitas” é esse espaço também que articula diversos movimentos e ativistas. As mulheres das ocupações, movimento em que eu mais atuei como militante e advogada popular, e também mulheres negras comuns, nem todas são de fato organizadas em movimentos, se vêem em mim. A maioria de nós ainda são empregadas domésticas ou estão no trabalho informal, são mães sozinhas, chefe de família que vivem em periferia. Todo esse contexto social reflete em mim, e as pautas vem comigo. Foi uma vitória coletiva. Não é uma conquista individual e, por isso, o desejo, o sonho e a alegria também são muito compartilhadas. Estamos neste momento de êxtase de ver pessoas comuns ocupando esses lugares que a história nos tirou. Faz parte de um projeto maior de colonização do Brasil também não ter representatividade e diversidade nesses espaços.

Como tem sido estar nesses espaços e o enfrentamento da violência institucional existente neles?

Não é um racismo diferente do que a gente vive a vida toda. O racismo institucional é esse lugar que nos coloca desde as primeiras relações que a gente tem com o Estado. Por exemplo, nas escolas, onde você é sempre o último, é visto como feio, ganha apelido. É esse o lugar da invisibilidade. Por mais que você tire boas notas, você está sempre ali como se tivesse a obrigação de ser o melhor. Dentro da Assembleia Legislativa não tem sido diferente. A cobrança por ser mulher, ter de ser boa, não incomodar na fala, é quase que um imperativo. A gente percebe muito também uma sensação de que não vai dar em nada. É aquela sujeita que vai estar ali, mas que também não vai mudar muita coisa. E estruturalmente a gente teme também que essas mudanças sejam muito lentas. A estrutura é ainda monárquica, afasta o povo com sua linguagem e com uma série de regramentos que parece que é impossível de o povo chegar ou alterar porque as cartas já estão dadas. Mas só de estar lá – ter um corpo que não é o esperado ali – já é uma mudança na estrutura. Os jornalistas tentam entender “qual é o papel, o que estão fazendo lá?”. Então o desafio começa em se manter nesse lugar para mudar a estrutura porque não dá para aceitá-la como ela é. Isso é fato. Se você entra para lá e reproduz, você vai ser mais um mesmo dentro desses 500 anos de Brasil, repetindo. Faz-se necessário se fortalecer para não ser mais uma peça invisível na casa.


Belo Horizonte, 01 de Fevereiro de 2019. Cortejo de posse da Deputada Estadual Andreia de Jesus. Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Foto: Tamás Bodolay

A Gabinetona traz esta proposta de mudança com mandatos coletivos. Como tem sido a expansão de vocês, agora que desenvolvem trabalhos em novas esferas do legislativo?

É um projeto sempre desafiante estar em três esferas e governando junto, fazendo mandato único. Neste momento, elencamos algumas pautas que são comuns às três instâncias. Por exemplo, a mineração. No enfrentamento à mineração, a gente consegue criar instâncias de debate e também de atuações que passam sempre pela Câmara Municipal, Assembléia Legislativa e a Câmara Federal. O crime praticado em Brumadinho pela Vale, a ausência de moradia, a retirada das pessoas de suas casas são temas que perpassam os três mandatos, e também o direito ambiental, os direitos humanos. A gente tem procurado elencar a atuação a partir de pautas que sejam comuns a essas três estâncias e as quatro parlamentares. E é isso: a política feminina e a política feminista tende a radicalizar no processo porque a gente não disputa entre si. Muito pelo contrário. Buscamos sempre unificar as pautas e as ações para que elas tenham mais potência. Eu estou lá na Assembleia, no Psol, mas sempre em um movimento de trazer outras mulheres mesmo que venham de outras forças, de outros partidos; confluir porque isso também nos protege e nos preserva desse patriarcado que a todo tempo tenta desqualificar nossa fama e nosso discurso. A “Gabinetona” está nesse processo desafiante porque com a Áurea, em Brasília, estamos distantes geograficamente. Então, as atuações precisam de uma costura maior para garantir que a gente ao menos consiga se encontrar uma vez por mês, trocar impressões e ações. Estamos trabalhando com uma equipe conjunta, as assessorias da Áurea Carolina, Cida Falabella, Bela Gonçalves e minha estão todas em uma única casa, inclusive fazendo esse papel de interlocução de pautas, de ações, principalmente quando se tratam de ações territoriais. Atuamos com as comunidades tradicionais e principalmente com a originária, tentando proteger e dar garantia de posse, da manutenção da posse desses territórios. Estamos nessa construção, pautando muito a cultura e os povos tradicionais como forma de resistência para esse momento tão nebuloso.

Você é co-presidente da Comissão de Direitos Humanos. No trabalho que você vem desenvolvendo dentro dessa comissão como está tentando lidar com esses desmontes de políticas públicas e direitos que enfrentamos?

Foi uma conquista manter a Comissão de Direitos Humanos na mão da esquerda ou de grupos mais progressistas. Enfrentamos um desafio enorme porque parlamentares desses novos partidos, tanto do Novo ou do PSL, que já têm uma visão de Estado Mínimo e uma visão distorcida do papel dos direitos humanos, tentaram ter este domínio. Então tivemos esse grande desafio que era garantir que a gente pudesse presidir essa comissão. E aí, nesta parceria estamos eu e Leninha (PT), construindo este lugar de co-presidência. Pela primeira vez na ALMG a comissão de diretos humanos está sendo presidida por mulheres negras. E ela é a maior porta de entrada para demandas do povo, em que as pessoas encontram amparos para fazer denúncias. E hoje estamos estruturadas para não só encaminhar as demandas que chegam da região metropolitana, onde estou, mas também toda a carga dos povos do campo trazida pela Leninha. E isso é imprescindível porque a gente está falando novamente do recorte racial, de gênero, de como a promoção de direitos humanos se dá a um sujeito que sofre com a invisibilidade. Já fizemos algumas audiências para discutir, por exemplo, como ficaria a questão da política das mulheres, da política LGBT, da juventude e, principalmente, da segurança alimentar dentro do projeto de lei de reforma administrativa apresentado pelo Zema, que entra com esta proposta de reorganizar a casa, mas que desaparece com pastas em que estavam de fato as políticas públicas de estado construídas ao longo de anos para estabelecer a segurança alimentar, o combate a fome, a proteção dos recursos hídricos, entre outros. Tudo isso está ameaçado por esse projeto de estado mínimo voltado para mineração, para o agronegócio, e com uma política de segurança pública cada vez mais repressiva. O número de denúncias que estamos recebendo neste sentido é cada vez maior, e todas elas associadas a esse papel do braço armado do Estado sobre o controle de corpos e vidas que neste momento estarão ainda mais fragilizadas sem políticas públicas.

Belo Horizonte, 01 de Fevereiro de 2019. Cortejo de posse da Deputada Estadual Andreia de Jesus. Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Foto: Tamás Bodolay

Qual balanço faz dos primeiros meses de mandato?

Nós estamos ali conhecendo a casa. Estou usando um lema muito propício: estou aprendendo a ler para ensinar aos meus camaradas. O movimento negro e todo o movimento de resistência passou por aí. Existe um código nesse espaço que a gente precisa decifrar para poder revertê-lo. Também estamos conhecendo melhor a casa porque temos também um lema de hackear o Estado. Então precisamos conhecer bem a estrutura para saber o quanto a gente pode fazer melhor fora dela, como podemos contribuir com as lutas de onde nós viemos, tudo o que está sendo gritado e denunciado nas ruas, como que reverberamos em uma resposta positiva.  Há dois meses, a gente percebe que tem uma lógica hierárquica que nos distancia do presidente da casa,  colégio de líderes. Então, existem várias instâncias. Mesmo que os deputados sejam votados em um único sistema eleitoral, quando vão tomar posse cada um vai assumindo papéis e lugares que vão criando hierarquias, por exemplo, a hierarquia partidária, pelo número de deputados por partido. Estamos neste momento de aprendiz, de descobrir os códigos para traduzi-los e saber como não repetir os erros dos políticos passados e também de avançar nas respostas de qualidade para quem nos procura.

Arte de resistência – Entrevista com Viki Style, referência do Hip Hop uruguaio

Jovem militante do hip hop faz da arte de rua uma ferramenta de transformação social

Por Roger Deff , MC, jornalista, integrante da banda Julgamento. Atualmente apresenta e produz o programa Rimas e Recortes veiculado pela Rádio Inconfidência.

Militante do Hip Hop desde 2002, a artista uruguaia Viki Style vivencia na prática 3 dos 4 elementos dessa cultura (o Hip Hop é formado pelos elementos DJ, grafitti, MC e break), sendo rapper, b-girl e grafiteira, além de atuar como professora e palestrante em eventos culturais nas Américas do Sul, Central e Europa.

Toda essa experiência fez com que essa jovem nascida em Montevideo tivesse uma visão mais ampla do papel e da representatividade da cultura de rua para os povos da América Latina.

O Hip Hop nasceu em agosto de 1973, em Nova York no Bronx. A gênese dessa cultura que hoje dialoga com jovens de todo mundo se deu quando os imigrantes jamaicanos, os irmãos Clive e Cindy Campbel (o primeiro se tornaria o lendário DJ Kool Herc) fizeram uma festa para arrecadar fundos para a compra de materiais escolares.

Aquele evento despretensioso realizado na Avenida Sedgwick, 1.520, foi o ponto inicial do movimento que, só mais tarde, se chamaria “Hip Hop”, quando em 12 de novembro de 1974 Áfrika Bambaataa criou a Zulu Nation, a primeira instituição oficial da cultura de rua, adotando como princípios o conhecimento, a paz, o amor, a união e a diversão.

Não demorou muito e a cultura se espalhou por todo o planeta dando voz a jovens oriundos das minorias sociais. Assim como no Brasil, a chegada do Hip Hop nos demais países da América Latina mudou radicalmente o modo de vida dos jovens nas periferias. E foi assim no Uruguai.

Virginia Sequeira (30 anos), nascida em Montevidéu mas criada em Toledo/Canelones, atua hoje sob a alcunha de Viki Style. Ela tornou-se uma das principais referências do Hip Hop em seu país, circulando por diversos países e criando conexões com hip-hoppers de outras nacionalidades.

Viki vê a arte como ferramenta essencial para o aprendizado e para a mobilização social e tem utilizado o Hip Hop nesse sentido, através da dança, da música e das aulas que promove, incentivando discussões, bem como o surgimento de outros e outras artistas e lideranças tão essenciais à continuidade e crescimento do movimento.

O Começo…

Como e quando foi o seu início na cultura hip hop?

Meu início no Hip Hop se deu em 2002. O primeiro elemento que vi foi o breaking (a dança), quando vi B. boys dançando na festa da escola e, mais adiante, conheci o rap, desde então, comecei a escrever, a improvisar. O primeiro elemento que pratiquei foi o rap, depois, em 2009, fui para o break e, mais adiante, o graffiti, em 2015. Atuo com trabalhos sociais desde 2007.

Na maioria dos países, o Hip Hop chegou através da mídia, e o cinema foi fundamental para essa difusão. No Brasil, por exemplo, o filme que deu o start para essa cultura foi Flash Dance, de 1983. Como foi no Uruguai?

A cultura de rua chegou aqui através da televisão, dos videoclipes e dos filmes. Quando a democracia se restabeleceu, pessoas que foram exiladas, ao voltarem para o Uruguai, contribuíram também para o fortalecimento do Hip Hop no país, por trazerem elementos da cultura.

E quais artistas, grupos, você apontaria como precursores do Hip Hop no seu país?

Destaco nomes representativos como o grupo do rap VDS Victimas del Sistema, no grafiti foi o KNCR Crew e no breaking o grupo Dinamic Bboys, trabalhos cuja importância despertaram ainda mais minha atenção e interesse pelas artes do hip hop.

Ao longo dos anos, você realizou viagens por diversos países e pode perceber as dificuldades enfrentadas por pessoas que escolheram essa cultura. Quais são os desafios e dificuldades em comum, na sua opinião?

As dificuldades relacionadas à cultura Hip Hop estão presentes em todos os lugares. Na América Latina, como um todo, o Hip Hop está mais relacionado ao sentimento e à vivência do que à indústria. Em alguns países, a cultura está apontando para o mercado, mas mantendo a raiz forte da autogestão e da luta.

Há quem não compreenda as dimensões políticas e sociais da cultura de rua, embora sua origem e tudo o que ela traz aponte para outros caminhos. Como você vê essa dimensão de luta política do hip hop?

Para mim, o Hip Hop é um movimento de luta a resistência e é assim que tem que se manter, como ferramenta de reivindicação. O Hip Hop como ferramenta social cumpre um papel fundamental. É um movimento de luta, por isso todas as minorias encontram no Hip Hop um refúgio, uma voz, uma forma de traduzir suas mensagens, uma maneira de reivindicar seus direitos, de expor situações de desigualdade. Todos grupos minoritários estão vivendo em opressão e podem encontrar um abrigo no Hip Hop, uma maneira de enviar sua mensagem e expor a sua situação, lutar por igualdade, melhores condições e direitos.

Sobre a luta feminista você percebe o reflexo dentro do Hip Hop?

É mais uma luta importante que amplifica sua voz dentro e através da cultura. Eu fico muito feliz por ver que mais mulheres estão habilitadas através de suas vozes, seus corpos, suas ideias, ver essas expressões traduzidas para qualquer tipo de arte. E se isso ocorre através de algum dos elementos do Hip Hop é ainda mais importante para mim porque é algo que eu compartilho,

Sobre o rap produzido no Brasil, quais trabalhos você conhece e como eles chegaram até você?

O rap brasileiro não é muito difundido aqui, mas tive contato com ele porque minha família residente ao norte do Uruguai, fronteira com o Brasil, então falam muito “portunhol”. Foi então que, durante as férias lá, que conheci artistas como Racionais, MV Bill, Sabotage, Gabriel, o Pensador, Rapadura, Criolo e Planet Hemp, Marcelo D2 que, inclusive, esteve algumas vezes no Uruguai.

Em setembro de 2018, você esteve em Belo Horizonte para participação no evento Música Mundo, dedicado à circulação mundial da música. Na ocasião, lembro que você pode conversar com MCs, B.boys e B.girls da cidade. Quais são suas impressões relativas ao Hip Hop na capital mineira

O Hip Hop em Belo Horizonte me pareceu muito organizado. Muito grafitti, muita arte urbana. Muita gente ativa que mantém os espaços e que já tem uma trajetória. Vi que é uma cultura muito bem difundida e que são grupos bem constituídos. Vi uma veia cultural muito interessante em nível de Hip Hop.

E quanto aos projetos futuros Viki, são mais ligados à dança ou à música? 

Sobre os projetos futuros, quero seguir viajando, conhecendo lugares e pessoas, compartilhando e enriquecendo minha vivência com o Hip Hop e a cultura de outros lugares e levar minha experiência e vivência a esses mesmos lugares. Pretendo lançar um disco, que já está pronto, com o nosso grupo de rap feminino, o S.A.K (se armó kokoa) e, em breve, até o fim do ano, teremos lançamento de disco e videoclipe. Disco tanto virtual quanto físico. É um trabalho que vem sendo produzido há cerca de 12 anos e contém temas ligados ao momento atual, em âmbito nacional e internacional. Este é o projeto mais interessante no qual estou envolvida no momento.

Crédito fotográfico: Maria Noel

Léa Garcia: o olhar como forma de trabalho, as ações como instrumento de luta

Por Paulo Roberto Antunes, professor, escritor e revisor da Revista Canjerê.

Nelson Mandela já disse que “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”. Essa citação do ex-líder sul-africano aplica-se bem à postura da atriz Léa Garcia dentro e fora dos palcos, das câmeras cinematográficas. Sua história e sua luta se embasam em muita garra, sabedoria e amor ao próximo, ato humano raro que poucos conseguem administrar.

Carioca, negra, Garcia possui uma trajetória artística peculiar, pois sempre soube como ninguém digladiar contra a discriminação racial e se impor como ser humano dotado de capacidade de superação. Aos 16 anos, já morava fora de casa, conheceu o Teatro Experimental do Negro e se casou com o fundador do grupo, dramaturgo, escritor e intelectual Abdias Nascimento. Essa convivência acirrou sua militância contra a discriminação racial e de gênero, além de ter fortalecido seu lado guerreiro.

Até hoje Garcia foi única brasileira eleita pelo Guilford College dos EUA como uma das dez mulheres do século XX que mais contribuíram para a luta dos direitos humanos e civis e mantém sua modéstia à flor da pele porque considera que “dignidade é algo maior e deve ser a meta de qualquer pessoa durante a vida”.

No escritório da Sinos Filmes, em Copacabana, a atriz concedeu entrevista exclusiva para a Revista Canjerê.

 

P: Você que já lutou tanto contra a discriminação racial, a inserção dos negros e outros discriminados em todos os setores sociais, atualmente encontra-se na militância de algum movimento explícito nesse sentido?

R: Hoje não me enquadro em nenhum movimento específico. Minha visão é maior porque todos os movimentos que visam ao aprimoramento do ser humano são legítimos. Não carrego bandeiras, promovo atos em prol da igualdade, da justiça… para todo ser humano.

P: Um traço característico de sua atuação artística é o olhar. Do alto dos seus 83 anos, mantém essa singularidade cênica?

R: Sou uma atriz que aprendeu a trabalhar bem o olhar, elegê-lo como instrumento peculiar de serviço. Isso me ajudou a ser reconhecida em nível de expressividade cênica. Tal singularidade sempre foi bem visível desde minha atuação em novelas como “A Escrava Isaura” (1976), em que interpretei a antológica vilã Rosa, e no filme “Orfeu Negro”, dirigido pelo francês Marcel Camus, que foi o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960. Concorri no Festival de Cannes por minha atuação como Serafina no mesmo filme, tendo sido a segunda colocada. Em 2004, após minha atuação no longa “Filhas do Vento”, sai vencedora, como melhor atriz, do prêmio Kikito no Festival de Cinema de Gramado, e a isso soma-se também minha eleição no mesmo festival mais uma vez como melhor atriz por meio de voto popular. Sou muito grata a todos pelo reconhecimento de meu trabalho.

P: Há projetos e outros trabalhos para este ano de 2018?

R: Para este ano de 2018, tenhos vários trabalhos a serem exibidos: o curta “Acúmulo”, o longa norteamericano “Pacificados”, os seriados “Baile de Máscaras” e “Assédio”, além de um piloto para a Rede Globo que será uma tentativa de resgatar o seriado “Você Decide” que marcou época na televisão brasileira. Também já gravei depoimento sobre minha trajetória cênica na Globo para integrar um projeto de manutenção da memória dos grandes do teatro, do cinema e da televisão. Felizmente, tenho muito fôlego para o trabalho e isso se explica pelo amor que tenho à arte, à profissão.

P: O que é ser atriz, ser artista?

Ser atriz é minha vida, é mais do que prazer. É vital. E minha força de trabalho não se limita somente a representar, pois tenho de estar constantemente envolvida com a cultura. Assim me sinto viva. Adoro dirigir teatro, fazer adaptações de contos para cinema, especialmente de contos de autores negros para que nós, negros, tenhamos maior visibilidade, possamos contar a nossa história sem estereótipos, pois somente através da visão do negro teremos um panorama real do que é ser negro numa sociedade onde o racismo é tão presente. E só poderemos compreender de fato e realmente nossa história quando ela for contada por nós, os negros.

P: Como leitora voraz que é, possui referências em relação aos autores negros?

R: A escritora negra mineira, Cidinha da Silva, é uma das várias referências de meus autores. Dela, selecionei duas crônicas e as mesclei tornando-as um conto que pretendo ver adaptado para o cinema. Meu longa-metragem “Aconteceu no Rio de Janeiro” é uma realização nascida da adaptação de quatro contos ficcionais de autores negros brasileiros: Muniz Sodré, Luiz Silva (Cuti) e Cidinha da Silva.

P: Vê progressos em relação à projeção dos negros na sociedade moderna?

R: Como ex-integrante do Instituto de Pesquisa da Cultura Negra, reconheço que, nos últimos anos, houve muitas conquistas a favor das classes menos favorecidas que, na maioria das vezes, é composta por negros. A família negra estava muito achatada na base da pirâmide social. Com o advento das cotas, oportunizaram-se maiores possibilidades de mobilidade social aos negros e a outros marginalizados. Hoje vemos muitos negros inseridos em melhores contextos sociais e econômicos no país, algo inacreditável há algumas décadas.

P: Qual sua visão sobre atual quadro sociopolítico brasileiro?

R: O retrocesso político pelo qual estamos passando vai atrapalhar muitas conquistas conseguidas com muita luta durante muito tempo. Isso prejudica a saúde, a cultura, a educação… Veja o absurdo: diminuir a carga horária, ou mesmo acabar com disciplinas como sociologia, filosofia… na escola. Ou seja, não querem que o povo pense, que o povo seja instigado ao aprimoramento de um pensamento crítico para enxergar com mais clareza nossas mazelas, nossas feridas sociais, a origem delas. Não é interessante ao sistema um povo que pensa. O pior é que este é um momento muito confuso para os jovens, pois eles não estão devidamente inteirados sobre tantas conquistas importantes. Uma pessoa da minha idade vivenciou muitos acontecimentos incríveis, participou, fez história para que tudo isso fosse realidade. Seria interessante uma maior divulgação disso para conscientizar a juventude sobre a importância da participação visando à construção de um mundo melhor.

P: Então continua otimista em relação ao futuro?

R: Sim. Óbvio. Não podemos desanimar. Veja: os artistas, os jogadores de futebol e outros têm uma influência grande na sociedade, são formadores de opinião e, neste momento de retrocesso, devem opinar mais a favor de tudo de bom que conquistamos e ainda do muito que há de se conquistar. Especialmente porque agora é mais fácil, há outras mídias que são as portadoras das vozes que circulam pelo mundo. Antes, todos estavam restritos a poucos canais de comunicação e sabiam dos limites de suas falas neles.

P: Sabe-se que sempre foi muito crítica em relação ao seu trabalho, muito cuidadosa com o autoaprimoramento. Convive bem com esse apurado perfeccionismo?

R: Sim. Sempre repenso meus trabalhos, avalio-os e considero que, se tivesse de fazer novamente, eu os faria de forma diferente. Sou muito perfeccionista e autêntica, por isso me entristeço ao ver, hoje, muitas atrizes negras se embrenharem pelo equivocado caminho do “embranquecimento”, assemelhando-se a esposas negras de norteamericanos.

P: Finalizando, você ainda continua sendo “agredida” por interpretar tão bem seus personagens a ponto de fazer os espectadores confundirem a ficção com a realidade?

R: Sofri muitos xingamentos dos telespectadores por causa do papel da vilã Rosa que me consagrou e que muitos consideram meu “cartão de visita” como atriz. Por causa dessa personagem, cheguei até a apanhar na rua. Felizmente isso não acontece mais, as pessoas não confundem mais personagem com ator. Os tempos são outros.

 

Ao término da entrevista, a atriz agradeceu o encontro, o diálogo, acentuou seu polido comportamento e deixou a nós, que conversamos com ela, a certeza da veracidade do pensamento de Paul Valéry: “Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir”.

 

Legenda:

Léa Garcia atuando no filme “Histórias Íntimas”, direção de Júlio Lellis

Crédito fotográfico: Breno Pizzorno