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ALGUMA ESTRELA DOS NOSSOS ANCESTRAIS ESTÁ A DIZER QUE É ALI

Robson Di BritoPesquisador, Escritor, mestre em Humanidades e Artes, doutorando em Educação.

Foto: acervo pessoal

A Revista Canjerê entrevistou o professor, antropólogo e pesquisador angolano Isaías Lemos. Por uma conversa que partiu de seus estudos sobre as línguas angolanas: o Quimbundo, o Kikongo e o Umbundo, componentes das línguas Bantu, refletimos sobre as relações entre Brasil e Angola e a importância da busca da ancestralidade. 

Na América, temos a língua portuguesa moderna do Brasil na qual a base da gramática é o português, obviamente, por conta do período colonial. Entretanto, há uma coparticipação das línguas dos povos nativos e das línguas africanas. A partir de seus estudos antropológicos, como o senhor compreende essas influências?

Foi por influência da língua portuguesa que hoje o Brasil e outras colônias portuguesas falam o seu português. Conforme os estudos das línguas nacionais de Angola, que são as línguas Bantu, consegui compreender a linguagem, a comunicação e a língua de outros países, os países que foram colônias portuguesas, e que também não falam o português de Portugal por causa dessa cultura das línguas africanas e da inserção de suas culturas. No caso do português do Brasil, me interessa a língua tupi que em algumas palavras também me parece ter uma proximidade com algumas palavras banta. Mas das línguas nativas angolanas, o Quimbundo, o Kikongo e o Umbundo são certamente essas línguas que influenciaram o português falado hoje no Brasil. Importante ressaltar que vemos essa influência das línguas Bantu também nas línguas espanholas, inglesas e, claro, no português e, em especial no Brasil, há significativos vestígios mais fortes das nossas línguas africanas, em especial as angolanas. A minha investigação nas línguas é com o objetivo de compreensão das palavras, sua epistemologia, como são usadas hoje, e suas mudanças no decorrer do tempo. Porém, podemos perceber que essas línguas forneceram subsídio cultural, uma compreensão histórica, uma produção de riqueza linguística e também uma postura política diante dos fatos sociais. Então, esse é um estudo que estamos a fazer já há algum tempo aqui.

Qual a sua visão da relação entre Angola e Brasil, primeiro com a língua, que é uma relação histórica e agora, na contemporaneidade, por meio do crescente número de investigações sobre essa proximidade? 

Com a informação que chega dos irmãos e irmãs brasileiros, há uma vontade, ou seja, há uma sede gritante para buscar as histórias ou a informação da ancestralidade. Mas, ainda assim, uma certa confusão porque fomos confundidos desde o primeiro momento que nos tiraram daqui para outras terras, na condição de escravizados. E, os escravizadores levaram o melhor que tínhamos. É entendível que os europeus tinham noção de que se juntassem os grupos culturais, linguísticos, da forma que eles encontraram, também não teriam paz. Nessa condição, foram nos dividindo ou nos agrupando em outros grupos. Por isso, não tivéssemos como agregar porque não tínhamos um parceiro. É como uma equipe de futebol. Se tirarem aqueles que normalmente estão acostumados a jogar, evidentemente o jogo seria mais difícil para eles. Foram nos dividindo em vários grupos e aqueles que levaram com as línguas Bantu foram se juntando a outros grupos linguísticos e, como consequência, tem-se o surgimento dos afro-brasileiros. Esses, que são uma junção de vários grupos, tentam buscar sua origem, sua ancestralidade, os elementos que os façam entender sua condição humana dentro dessa conjuntura social e étnica. Para isso, é preciso também um estudo de DNA para podermos, futuramente, ver de onde saíram, de que localidade para, então, podermos buscar concretamente a nossa matriz de ancestrais. Mas, ainda assim, isso é uma luta. Tudo aquilo que vier com essa vontade, mesmo não tendo essa certeza, evidentemente a gente está aqui para dar o caminho, diretrizes e ajudar naquilo que for possível. Acreditamos que alguma estrela dos nossos ancestrais está a nos dizer que é ali que reside a ancestralidade e que a pessoa que busca seus conhecimentos é a escolhida. Então, estamos de mãos abertas para podermos dar o nosso contributo naquilo que for possível ou preciso.

A população negra brasileira é composta de pretos e pardos. Por conta do racismo estrutural, isso cria vários conflitos que impedem o acesso a políticas públicas, impede também o entendimento ancestral enquanto busca de conhecimento. Nesse sentido, eu proponho que reflita também e aponte na sua compreensão o que nos impede de termos uma maior reciprocidade na construção de saberes entre Angola e Brasil.

Felizmente, aqui (Angola) o racismo não acontece com a mesma intensidade que no Brasil porque no Brasil é visível que o racismo tem rosto, tem cheiro, tem cor, enfim, o racismo está em tudo. Aqui nós não temos vivido essa situação como debatem aí os nossos irmãos afrodescendentes. Mas há um racismo escondido, mas não é com essa gravidade que o Brasil vive. Muitas vezes, há mais um regionalismo do que racismo. Como quem diz, essa é da minha tribo, o que tem mais valor do que aquele que não é da minha tribo. Porque tivemos a sorte de não nascermos num país onde os ancestrais estiveram na condição de escravizados, porque se assim fosse também teríamos que viver com o racismo mais perseguidor. Estamos a falar do Brasil, mas segundo também aquilo que a gente lê, que a gente escuta, nos Estados Unidos não estamos longe da sua reflexão. Isso porque eles têm a mesma vivência, infelizmente, apesar do luxo que tentam representar para o mundo, daquele mistério da vida bela, mas também vivem essa situação do racismo de frente. Mas pronto, nós estamos aqui, felizmente acreditamos que com as políticas públicas, que as nações, de quando em quando, vão implementando, e as pessoas vão tomando consciência, e isso vai desaparecendo pouco a pouco, evidentemente que não é da noite para o dia, mas conscientemente as pessoas vão quebrando essa situação.

Pensando ainda na influência da língua e das palavras, como em seu estudo, percebo a leitura, também, como o elemento essencial para o conhecimento pessoal do indivíduo. Nesse sentido, você tem um projeto de leitura domiciliar. De que consiste esse projeto?

O projeto é da associação “Aniceto da Soveira Leituras”, ou “As Leituras”, que leva a leitura ao domicílio do leitor. Ou seja, a associação tem uma biblioteca comunitária que apoia a comunidade Infantos Renéus numa das zonas periféricas da cidade de Luanda, conhecida como Viana. Lá encontra-se essa biblioteca comunitária, onde as crianças que não têm condição de estar numa escola, ou não têm acesso a uma escola, acolhem-se a essa biblioteca, e temos alguns adultos voluntários que também se juntaram a essa causa e vão ensinando-as a ler e escrever. O idealizador do projeto, Aniceto da Soveira, percebeu as dificuldades de as pessoas em poder comprar um livro, então ele empresta livros por 30 dias. O leitor liga para nós e escolhe o livro que quer ler. Se não tiver na biblioteca, nós verificamos também com nossos parceiros para emprestar esse livro e levamos até o leitor e, depois de 30 dias, vamos buscar o livro. O “As Leituras” busca dar oportunidade aos leitores que não podem comprar o livro, mas podem ter acesso às leituras. Em paralelo, uma vez que Angola fará 50 anos de independência, estamos homenageando os escritores infantojuvenis.

Qual a mensagem que você pode transmitir aos nossos leitores da Revista Canjerê?

Mesmo com a divisão, uns cá e outros lá, que nos separou, as nossas línguas ainda assim continuam intactas. Apesar de serem faladas e compreendidas de outra forma, devido às diversas influências, ainda assim, nem tudo está perdido. Nós podemos resgatar aquilo que é da nossa ancestralidade e podemos falar a nossa língua. Apesar da interferência do português, do inglês e do espanhol, nós podemos resgatar aquilo que é da nossa ancestralidade. O samba é uma palavra da língua quimbundo. Samba, que é o cartão postal do carnaval do Brasil e quiçá do mundo, tem como significado rezar ou orar, de acordo com a nossa língua materna quimbundo. Então, estamos ligados de qualquer forma.

Essa postagem foi possível graças a um dos nossos parceiros:​

Rosalia Diogo

Jornalista, professora, curadora do Casarão das Artes Negras, chefe de redação da Revista Canjerê, Dra em Literatura, Pós-doutora em Antropologia.

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