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Comportamento

Afropunk: de preto para preto

Por: Jaice Balduino Jornalista

Originário em 2005 por meio do documentário dirigido por James Spooner, o termo “Afropunk ou Afro-punk” se refere à participação de afro-americanos e de outros negros em subculturas punk e alternativas, especialmente nos Estados Unidos, onde essa cena era predominantemente branca. O Afropunk, nome que une afro, referência à cultura afrodescendente, ao movimento punk, apresenta o público-alvo do festival de música de que participam diversos cantores e os mais variados artistas de diferentes locais do mundo.

Considerado o maior festival de cultura negra do mundo, o Afropunk começou com um jovem punk, bi-racial, nascido em uma pequena cidade da Califórnia predominantemente povoada por pessoas brancas. James Spooner se mudou para Manhattan para cursar o ensino médio e lá se encontrou na cena underground de punk rock e hardcore. 

A partir daí, ele começou então a trabalhar como promoter de shows, DJ e escultor em Nova York. Com seus 20 e poucos anos, James começa a viver uma crise identitária: ser um dos poucos negros que ele conhece dentro da cena punk. Logo ele percebe que as questões que lhe afligiam também representavam a realidade de outros negros e assim surge o documentário independente Afro-punk, lançado ao mundo no ano de 2003.

O objetivo central de Spooner com o festival era reunir ao vivo aquela comunidade que se organizava a partir do fórum. Sem dinheiro para trazer grandes bandas da cena punk negra para o line up, o festival focava na reunião da comunidade: o que acontecia na plateia era mais importante do que o que se passava no palco.

As ações do festival hoje mesclam shows, apresentações musicais, intervenções poéticas, performances, debates e programação educativa (solutions sessions), feira de empreendedores negras e negros, mostras de filmes, além de conseguir reconhecidamente influenciar as tendências estéticas globais, valorizando a imagem do negro contemporâneo.

Afropunk Brasil

O festival veio com o objetivo de ecoar a potência musical, política e poética da negritude brasileira. Realizado no Centro de Convenções da capital baiana, o festival chegou ao Brasil em 2021 com transmissão online e trouxe shows do rapper Mano Brown dividindo o palco com Duquesa; Tássia Reis que se uniu ao Ilê Aiyê; enquanto a baiana Luedji Luna se apresentou com o Duo Yoún; a carioca Malía somou ao lado da Margareth Menezes; e, por fim, Urias com Vírus.

Em sua segunda edição, o evento reuniu mais de 30 atrações nacionais e internacionais em um encontro multicultural na cidade mais negra fora do continente africano: Salvador. O festival conduziu a força de um aquilombamento contemporâneo, transformando o ponto de encontro no qual o público preto expandirá o seu ritmo e cultura na cidade mais negra. Com shows de Mc Carol, forte nome do funk carioca, que esteve no palco com A Dama, representante do pagodão baiano; Ilê Aiyê com Tássia Reis, Urias com Vírus; ÀTTØØXXÁ com Karol Conká; Liniker, Emicida, Baco Exu do Blues, Psirico e a banda Black Pantera. Salvador fez cerca de 70 mil pessoas dançarem por 2 dias de muita música.

E agora, chegando em sua 3ª edição, o Afropunk aportou na Bahia, ocupando o Parque de Exposições com mais de 20 atrações, a maioria sendo apresentações especiais, como Alcione convidando a escola de samba Mangueira; BaianaSystem recebendo Patche Di Rima (Guiné-Bissau) & NoiteDia (Angola), Tasha e Tracie dividindo o palco com Tati Quebra Barraco, além de Carlinhos Brown tocando o álbum Alfagamabetizado (1996), IZA, Olodum, Majur e Djonga.

O evento é realmente um encontro do povo preto em que podemos ver todas as formas de amor, alegria, liberdade de estilo, cabelos de várias cores e formas. É uma verdadeira manifestação da nação preta fora da África, o que comprova o cuidado em fazer um festival de preta para preto.

Viva Lagoinha busca soluções criativas para requalificar um dos berços de Belo Horizonte

Por Naiara Rodrigues, jornalista cultural e assessora de imprensa 

A Lagoinha é um marco de Belo Horizonte desde as primeiras décadas da capital planejada até os dias de hoje, com imóveis com estilos que vão do Art Déco ao Modernismo. Historicamente, a região que deu origem à construção da cidade e acolheu os primeiros imigrantes que chegaram para trabalhar na nova capital – europeus, brasileiros de outros estados e do interior de Minas, com destaque para a população negra.  Foi lá que nasceu o samba mineiro, sendo ponto de encontro de músicos e boêmios belo-horizontinos, e foi onde surgiu a primeira escola de samba da capital, ainda na década de 1930, a Pedreira Unida.

Porém, a construção do complexo ferro-rodoviário, na década de 1980, mudou completamente o bairro que antes era integrado ao centro de Belo Horizonte, com comércio agitado e botequins sempre abertos e cheios. O rompimento do eixo centro-bairro marcou o início de uma fase de degradação e falta de investimentos na preservação do seu patrimônio cultural. 40 anos depois da mudança, o resultado desse processo de abandono é a alcunha de “Cracolândia de Belo Horizonte”, em um território que reúne hoje 7 bairros e cerca de 35 mil habitantes. Pensando em mudar essa realidade, moradores que enxergam ali muito mais oportunidades e riquezas criaram movimentos para requalificar a região. Morador do bairro desde 2007, o publicitário Filipe Thales fundou em 2012 o Viva Lagoinha. “A iniciativa tem o objetivo de conectar pessoas que acreditam na resiliência do bairro Lagoinha e fazer economia criativa no território”, explica. Dentre as diversas problemáticas estruturais que a região possui, o Viva Lagoinha busca mitigar: a baixa estima dos moradores, a falta de vitalidade noturna no bairro e o alto índice de pessoas em situação de rua.

Filipe Thales, que já atuou anos em projetos de comunicação e jornais comunitários voltados para a região, explica como desenvolve um trabalho que é de city branding para a Lagoinha. “Primeiro criei uma marca do bairro, para falar das coisas boas daqui. Depois que fundamos o Viva Lagoinha, comecei a criar produtos que seriam vacinas para essas três problemáticas”, explica. Em 2019, surgiu então o Rolezin Lagoinha, em colaboração com o movimento Nossa Grama Verde, que é um passeio guiado que convida moradores e viajantes a redescobrir, com olhares frescos, a história e o presente do bairro, passando por pontos icônicos como o conjunto habitacional IAPI, a Ocupação Pátria Livre, na pedreira Prado Lopes, antiquários, hortas comunitárias e cozinhas da região. “Essa é a vacina contra a baixa estima dos moradores que passaram a ver o bairro com outros olhos depois de receberem esses visitantes. Chegamos a receber até cônsul italiano aqui no bairro”, afirma. 

Outra iniciativa importante foi a parceria com eventos da cidade para potencializar a vida noturna do bairro. Em 2019, fizeram outra colaboração com o CURA – Circuito de Arte urbana – que realizou uma edição no território, estrategicamente na rua Diamantina, 733, conhecido como Mirante Lagoinha, chamando a atenção da cidade para o potencial desse espaço que recebeu um dos grafites do festival. O diálogo com a Prefeitura também resultou em um palco oficial do carnaval para Rua Itapecerica, em 2020. Outra colaboração importante foi com a empresa Nadir Figueiredo, a partir de uma petição, realizada em 2020, com objetivo de que a fabricante oficializasse em BH o nome “copo Lagoinha” como seu produto é mais conhecido na cidade. Em 2021, Filipe Thales foi convidado para ser embaixador da marca em Belo Horizonte, o que permitiu a abertura do espaço físico do Viva Lagoinha.

Já sobre o alto índice de pessoas em situação de rua, Filipe destaca que, apesar de ser uma questão de responsabilidade do poder público, os debates dos moradores têm contribuído para melhorias, como a implantação do Centro Integrado de Atendimento à Mulher (CIAM) no bairro. Uma das iniciativas mais recentes da agência de soluções criativas foi o Circuito Lagoinha, lançado em 2021, que promove o território, contando a história local, mostrando o potencial gastronômico, humano e artístico com programação cultural e turística. 

Filipe Thales guiando o Rolezin Lagoinha, durante o Circuito Lagoinha em sua primeira edição, em 2022. Foto: Estudio TEJ

Mas não para por aí, a mente criativa de Filipe Thales tem sonhos grandes para o território “Nosso projeto é transformar a Lagoinha num polo cultural e tornar a rua Itapecerica o maior polo gastronômico da cidade de Belo Horizonte. Hoje ela está com 70 portas do comércio fechadas. Queremos criar o maior corredor turístico gastronômico da América Latina aqui”, ressalta. Devido ao impacto desse movimento, já é possível ver novo lugares abrindo no bairro, e as cozinhas e restaurantes da Lagoinha fazendo sucesso na cidade. “Eu acho que eu ainda vou ver outra Lagoinha”, destaca.

A ideia vem a partir do “Rolezin por aí” que é uma pesquisa que o publicitário vem desenvolvendo, visitando diversos locais que também passaram por momentos de auge e decadência, mas que guardam um importante valor histórico com potencial turístico e cultural em suas cidades. Entre os locais já visitados pelo publicitário estão bairros como Bexiga (SP); Lapa, Catete e Glória (RJ); Solar da União (BA); Centro de Recife e Olinda (PE; Rosário (Argentina), entre outros. A pesquisa também ajuda a conectar a Lagoinha com outros pontos do país, uma vez que Thales também integra a Rede Nacional de Experiência de Turismo Criativo. A próxima etapa da pesquisa vai ser neste ano e Filipe já está com a proposta de conhecer Curitiba (PR), Belém (PA), São Luiz (MA), Brasília (DF) e Espírito Santo. “Na terceira temporada, vou em lugares com projetos importantes ligados a moradores de rua e vou participar de um Fórum em Dubai, em 2024. Minha ideia é vender esse projeto de requalificação da Lagoinha para um Xeique árabe. Conseguir financiamento para comprar tudo na Itapecerica e fazer isso acontecer”, afirma Filipe Thales.

Foto de destaque: Marcus Paulo Araújo

Guia Negro une viagens e black business para estabelecer a cultura negra em destinos turísticos

Por Naiara Rodrigues

Se viajar é uma experiência transformadora, por que não pode ser também inclusiva? É a partir dessa provocação que surgiu o Guia Negro, uma plataforma de afroturismo que realiza experiências turísticas em diversas cidades e faz produção independente de conteúdo sobre viagens, cultura negra, afroturismo e black business.

A iniciativa foi fundada pelo jornalista Guilherme Soares Dias que é consultor em diversidade e empreendedor apaixonado por viagens. Como jornalista, ele escreve para a Carta Capital, Revista Trip, UOL e é colunista na Folha de S. Paulo, além de outras publicações como podcast “Afroturismo, o movimento”, um guia inovador de viagens mais diversas e conscientes. A cada sexta-feira, o podcast traz novos convidados que abordam temas sobre a história e a cultura desse povo tão rico, trazendo narrativas sobre o protagonismo negro e um novo olhar para o turismo. A produção tem a participação do fotógrafo e anfitrião de experiências Heitor Salatiel que traz dicas de lugares, músicas e filmes para continuar as viagens propostas pelo programa.

Guilherme Soares Dias é ainda apresentador do quadro Guia Negro Viagem, disponível no canal de Youtube do Catraca Livre. Em 2022, o canal lançou episódios sobre destinos como África do Sul, Palmares, Salvador, São Paulo e São Luiz. Nos vídeos, Guilherme apresenta destinos passando por pontos turísticos, restaurantes, espaços culturais, museus ou locais históricos importantes para a história negra, no Brasil ou exterior, sempre acompanhado de um convidado que participa das visitas.

Além de dicas com canais de comunicações em diferentes formatos, o Guia Negro também oferece e desenvolve experiências turísticas com passeios guiados. Na lista de roteiros especiais oferecidos pelo Guia Negro estão a Caminhada São Paulo Negra e de outros walking tours baseados na cultura e história negra, como a Caminhada Bixiga Negra e Caminhada Barra Funda Negra, em São Paulo. A proposta é percorrer locais e monumentos representativos para a população negra, tendo como propósito a realização de um resgate da história do povo negro na cidade de São Paulo.

Na Bahia, o público também pode descobrir novos olhares a partir do turismo criativo da plataforma. A Caminhada Salvador Negra, que ocorre no Pelourinho; a Suburbana Tour; Nordeste Tour; Passar uma tarde em Itapuã; Curuzu-Liberdade Tour; e Caminhada Boipeba Roots. Os valores dessas experiências turísticas guiadas variam, e os passeios guiados podem ser feitos de 60 a 75 reais, com agendamentos disponíveis pela plataforma. O Guia Negro contém conteúdos diversos como entrevistas com artistas, curiosidades e dicas de viagens, afro-negócios, agendas culturais, entre outros. Conheça mais sobre essa plataforma no site: guianegro.com.br

Foto Guia Negro

CABELO, NEGRITUDE E ATITUDE

Roger Deff
Editor da revista Canjerê, rapper, jornalista e mestre em Artes pela UEMG

Um dos aspectos mais perceptíveis do racismo é o processo de inferiorização das características que nos definem e um dos alvos preferenciais são os cabelos. O termo “cabelo ruim” é utilizado com freqüência e é um ataque que persiste de maneira naturalizada trazendo impactos negativos sobre a auto-estima de crianças negras, fortalecendo uma visão depreciativa que poderá acompanhá-las pelo resto da vida. Toda a construção de beleza predominante no imaginário popular tem a branquitude como referência, o que gera questões com as quais pessoas negras têm de lidar ao longo da vida, como a ausência de representatividade e, muitas vezes, rejeição à prória imagem, já que esta não se encaixa no padrão hegemônico.  

Os salões de beleza afro espalhados pela cidade, com seus cabeleireiros e cabeleireiras, cumprem um papel muito importante na desconstrução dos estereótipos, na forma como nós, homens negros e mulheres negras, nos enxergamos. 

A primeira lembrança que tenho de salões voltados para a beleza negra é do famoso Roger Black Power, espaço que nasceu em BH entre os anos 80 e 90 e que se notabilizou como o principal salão da época, com seus cortes afro, o que influenciou também futuros cabeleireiros. Quando tratamos desses aspectos há um componente político perceptível que vai além da estética. Os cabelos afro representam resistência às constantes tentativas de apagamento de tudo o que somos e dizem respeito à valorização da nossa ancestralidade e dos nossos corpos negros na diáspora.

Os cabelos volumosos e arrendondados, chamados de Black Power, foram adotados como símbolo de luta a aceitação da beleza negra nos Estados Unidos durante o movimento pelos direitos civis naquele país, tendo a ativista e intelectual Angela Davis como um dos principais nomes desse período, reconhecida por ostentar uma cabeleira Black imponente, o que fazia jus à sua atuação.  Por fim, o Black Power chegou ao Brasil nos anos 70, junto com a moda da soul music e do funk, nos bailes. Há quem diga que essa “moda” não trouxe junto as questões abertamente políticas que mobilizaram os negros estadunidenses, mas discordo. O que pode ser mais político do que pessoas, a despeito do racismo, assumirem como símbolo de poder e orgulho justamente os cabelos, tão constantemente atacados? Mais uma vez, não se trata “apenas” de cabelos, mas de comportamento, atitude, de ir na contracorrente da imposição de um padrão de beleza com bases européias. 

Beleza e resistência

Na cidade de Belo Horizonte, outro ponto muito importante para todo este movimento de valorização dos cabelos das pessoas negras é o Salão Preto e Branco, situado na Galeria Praça 7, bem no coração da cidade. Criado pelos cabeleireiros JC, Juraci e “N” Nilmar, o salão respirava em plenos anos 90 a recém chegada cultura Hip Hop, com seus três sócios MCs e integrantes do grupo de rap NJJC, o que já diz muito sobre o significado daquele lugar para os jovens da época, em meio a lojas de discos e a trilha sonora de Public Enemy, Racionais, Thaíde & DJ Hum e Run DMC. Há hoje, por parte da juventude negra, uma consciência muito nítida sobre o que significa ostentar tranças, blacks e afins em um país como o Brasil. Trata-se de enfrentamento ao racismo e também estratégia contra o extermínio, que não é apenas físico, é também da subjetividade. O Instituto Todo Black é Power, situado na Rua da Bahia/Centro, foi criado por Dandara Elias. Em suas falas, é perceptível sua compreensão sobre o quanto este cuidado é sinônimo de empoderamento coletivo e, para além do salão, a empresária contribui com palestras nas quais aborda temas ligados à transição capilar de mulheres negras e a autoestima intrinsecamente ligada a este processo. 

Proprietário do salão Stillus D’Black, também localizado na Galeria Praça 7, região Central, Reginaldo conta que não encontrava pessoas que cortassem seu cabelo de maneira satisfatória, até que em uma conversa com Nilmar, do Salão Preto e Branco, se descobriu cabeleireiro afro. “Eu percebia que a gente tinha dificuldade em encontrar pessoas que cuidassem do nosso cabelo, por isso eu quis me aprofundar nisso, e é muito bom ver as pessoas entrarem aqui e saírem satisfeitas, felizes”, conclui Reginaldo. Há todo um processo de construção, de aprendizado sobre quem nós somos e este caminho passa necessariamente por gostarmos de nós, sobre uma luta antirracista que passa por resistirmos culturalmente.

Foto: Divulgação

Coletivo AfroBapho, de Salvador, utiliza as artes integradas para mobilização social

Por Naiara Rodrigues

Dança, música, performance, arte drag, fotografia, audiovisual, moda, artes digitais… são várias as linguagens presentes nos trabalhos desenvolvidos pelo AfroBapho, coletivo de arte integrada formado por jovens negros LGBTQIA+ da capital baiana.

O AfroBapho surgiu a partir de um espaço criado no Facebook para debater questões de intersecção de raça, gênero e sexualidade, que uniu pessoas que compartilhavam vivências. Das ricas discussões, nasceu a vontade de transbordar aquela rede social.  

“Percebemos que a melhor forma de dividir conhecimento e sensibilizar as pessoas sobre pautas importantes seria através da arte – que geralmente é uma ferramenta potente que chega a todos os públicos. A partir daí, começamos a pesquisar e produzir conteúdos para falar sobre racismo, estética negra, valorização de corpos dissidentes, dentre outras temáticas”, explica Alan Costa, idealizador do Coletivo AfroBapho, que conta hoje com 17 integrantes oficiais, além de realizar parcerias com diversos outros artistas.

As produções fotográficas e audiovisuais, alinhadas ao discurso de defesa dos direitos humanos do grupo, começou a conquistar admiradores, e ele passou a ocupar não só as redes sociais, mas jornais, revistas, programas de TV e eventos em Salvador.

As atuações do coletivo começaram com intervenções urbanas em espaços conhecidos da cidade que viraram projetos audiovisuais e, devido ao sucesso, passaram a produzir suas próprias festas, eventos cujo objetivo eram valorizar, celebrar e visibilizar a arte independente de pessoas pretas e LGBTIA+.

O coletivo utiliza o potencial da arte como uma ferramenta de diálogo com a sociedade para falar das próprias existências enquanto corpos dissidentes. “Os nossos corpos já comunicam muita coisa somente ao sermos observados. Quando alinhamos isso a uma estética, aos movimentos de dança, performance e música, potencializamos a criação de uma nova história sobre nós, na qual somos os protagonistas”, afirma Alan. 

“Quando estamos nas ruas de Salvador, vestidos do jeito que gostamos, nos movimentando e celebrando nossas existências, estamos ali dizendo para as pessoas que também temos os mesmos direitos. Estamos ali buscando a naturalização de quem somos na sociedade e exigindo o mínimo: que é o respeito”, ressalta o artista.

Assim, o grupo consegue dialogar sobre o racismo através de uma performance drag ou falar sobre a violência contra LGBTIA+ através de performances de dança. “Isso é o que chamamos de ARTvismo: quando a arte e o ativismo caminham juntos, na defesa da diversidade”, explica Alan. O coletivo chegou a ser convidado pela Anistia Internacional para colaborar num projeto sobre Direitos Humanos.

Apesar de toda a visibilidade conquistada ao longo dos 6 anos de atuação – o coletivo conta com mais de 50 mil seguidores no Instagram –, ainda enfrentam dificuldades para se manterem financeiramente apenas com o trabalho desenvolvido pelo coletivo.

“Somos artistas independentes, pretos, LGBTIA+.  Muitos de nós só tem a arte como fonte de renda. Então, vivemos o contexto da pandemia com várias inseguranças. As redes sociais nos proporcionaram alguns trabalhos importantes para nossa manutenção”, defende.

Entre os trabalhos desenvolvidos pelo grupo durante o período estão a participação de programações culturais online, incluindo o projeto “IMS Convida”, do Instituto Moreira Salles, cujas obras que foram criadas de casa, respeitando o distanciamento social, se encontram disponíveis online no site do instituto. “Também começamos a realizar alguns trabalhos com marcas. É algo novo pra gente, mas que tem sido muito importante”, enfatiza Alan.

Agora o coletivo prepara o lançamento do seu mais novo projeto, o AfrobaphoLAB, com a proposta de promover um laboratório de artes integradas que vai contar com rodas de conversa sobre questões pertinentes à produção de artistas independentes negros e LGBTIA+, workshops de dança, performance e música, apresentações musicais de artistas independentes de Salvador, dentre outras surpresas. O projeto será em formato digital e integra os projetos aprovados no Edital da Natura Musical 2019.

Foto Gabriel Oliveira


Zora Santos faz comida da bisavó na tela do computador

Por meio  da web gerações se encontram e promovem o resgate da
verdadeira comida mineira

Por Moisés Mota

Hoje cozinheira, Zora Santos frequentou diversas passarelas de moda na Europa. A ex-modelo e atriz dedica seu tempo à arte culinária da cozinha mineira de raiz. Seu trabalho de garimpo de receitas de família e uso de ingredientes “não convencionais” lhe confere o título de pesquisadora, mas não o aceita. Prefere ser reconhecida como preservadora da arte culinária, esta cultivada no seio familiar há séculos.

Ao perguntar a ela quais são suas referências no campo culinário, ela responde ser suas “tias velhas da cozinha” e completa “não idolatro os chefes pela gourmetização da comida”. Segundo ela, o termo gourmet despreza a simplicidade da cozinha mineira. Também refuta o termo PANC (produto alimentício não convencional) e afirma que faz comida de gente, pra gente e usa a culinária como espaço de resistência.

Natural de Belo Horizonte, mas com raízes familiares na região central do estado, cultiva a arte de cozinhar sem as vestes da elite. Faz comida de gente preta e faz questão de afirmar o poder do “ser cozinheira”. “Na Europa, eu fiquei impressionada com o respeito que os cozinheiros tinham. No Brasil é diferente”, pontua Zora.

Criadora do projeto Comida de Cerca, ficou paralizada devido à pandemia do novo coronavírus. Durante os primeiros meses ficou sem trabalhar, mas, em dado momento, depois de uma sugestão da amiga Ana Maria Gonçalves (autora de Um defeito de cor) abarcou a rede web para continuar seu trabalho. A proposta deu certo e é regularmente realizada uma live com vários inscritos. Todos cozinham juntos sob a batuta da cozinheira multiartista Zora Santos.

Seu trabalho tem promovido momentos de destaque na cena nacional e internacional, entre eles destacamos a participação no programa Parts Unknown apresentado pelo chef Anthony Bourdain em que debate sobre a história das comidas das Minas Gerais. Zora promoveu, nestes tempos de isolamento, uma alavancada para as pessoas descobrirem o sabor da verdadeira comida mineira, que não passa pela gourmetização.

Rolê nas Gerais: protagonismo das periferias nas telas da TV

Programa da Globo Minas amplia as vozes potentes que ecoam nas favelas

Resistência, cultura, garra, honestidade, cooperação, alegria. Sim, nós estamos falando de favela! Aliás, de F-A-V-E-LA, com todo o destaque merecido. Se durante tempos as periferias só ganhavam espaço nos noticiários policiais, a televisão mineira encarou o desafio de escancarar as portas da favela para todo o estado. O programa semanal Rolê nas Gerais estreou na Globo Minas em setembro do ano passado e está, literalmente, quebrando estereótipos. Comandado pela dupla Renata do Carmo e Tábata Poline, a atração está mostrando que as periferias não são formadas apenas por violência, ao contrário, elas têm em seu DNA a essência de vozes e pessoas potentes que ganham cada vez mais força para ecoar.

O projeto nasceu em maio de 2019, quando o diretor de jornalismo da Globo Minas, Marcelo Moreira, convidou as duas jornalistas para desenvolverem o projeto de um novo programa que conseguisse aproximar ainda mais a emissora das comunidades. Essa proposta veio se somar ao desejo que Tábata já tinha de fazer um jornalismo social que representasse a riqueza das periferias. Uma equipe de peso também se juntou ao time: Xiko César, editor de imagens, e os repórteres cinematográficos Saulo Luiz, Saulo Vieira e Frederico D’Ávila.

Os assuntos tratados a cada semana são diversos: moda na favela, força das mulheres, desigualdades sociais, educação, e por aí vai. A ideia é descontruir formatos tradicionais para construir narrativas que gerem empoderamento e alcance. E é assim que uma boa parcela da população tem olhado para as telas da TV e reconhecido sua força. Longe de romantizar a realidade, o Rolê nas Gerais tem a missão de mostrar o universo das periferias de forma transparente para que essa potente parcela da população não permaneça à margem e possa, enfim, ser protagonista de suas próprias histórias.

Tábata Poline e Renata do Carmo – Foto: Bruno Soares

Saúde, Vulnerabilidades e Necropolítica

Por Emilly Prado – Graduanda em Ciências Sociais, Educadora Social, Assessora Parlamentar, Produtora Cultural, Ativista na área do HIV/AIDS, Gordofobia e Movimento Negro

Sempre senti a necessidade de pensar como que as políticas públicas perpassam os nossos corpos, principalmente os corpos negros. É que existe uma confluência de fatores que faz com que as Políticas de Prevenção do HIV/AIDS sejam extremamente necessárias, principalmente para população em situação de rua, grupos LGBTQI +, quilombolas, indígenas e população carcerária. No Brasil, desde o boom da epidemia de HIV/AIDS nas décadas de 80 e 90, houve uma massificação de novas infecções nas camadas mais pobres da sociedade brasileira. Este resultado provocou campanhas incisivas direcionadas à redução do HIV/AIDS e conscientização na utilização de estratégias de prevenção. Tal processo gerou avanços na prevenção e no tratamento das ISTS/AIDS.

Infelizmente existe um perfil de quem é passível de morte. É necessário perceber como o desmazelo com que essas políticas públicas de prevenção e tratamento das ISTs/AIDS atinge diretamente determinadas populações; populações estas que se encontram nos diferentes níveis de vulnerabilidade social pela sistemática negação de direitos que sofrem, como historicamente acontece com a população afro-brasileira.

Se instaura, infelizmente, no país, uma política de morte – a Necropolítica – que promove diariamente a eliminação dos nossos iguais.  Hoje em dia, se torna novamente importante disputar a construção do imaginário social brasileiro no processo educacional de cada indivíduo, pois esse processo de discussão da vida é importante para o desenvolvimento e acesso às políticas públicas de saúde para o país.

As mães de santo sempre lutaram pela saúde da população negra e são detentoras de saberes ancestrais para cuidarmos do corpo e da mente. Fotos: Ricardo Laf

Grupo Erês: Mensageiras dos Ventos

Por Ridalvo Felix de Araújo – Cantante, Dançante de Coco, Coordenador do coletivo Erês – Mensageiras dos Ventos, Prof. Dr. em Teoria da Literatura e Literatura Comparada

O Coletivo Erês, mensageiras dos ventos é um grupo que reúne artistas negros e jovens de várias periferias de Belo Horizonte e região metropolitana. O grupo surgiu nos idos de 2018 buscando reunir jovens que resistem como negros, membros da comunidade LGBT e artistas.

ErêsIbejis na filosofia iorubá, em África – são entidades infantis encontradas nos sistemas filosóficos e religiosos de matrizes africanas no Brasil. No nosso entendimento, os erês também são responsáveis por dinamizar a palavra que sopra alegria.

A partir de encontros realizados pelo professor doutor Ridalvo Felix de Araujo no NUPERGEPE – Núcleo de Pesquisas em Raças, Gêneros e Performances –, criado pelo pesquisador e as/os estudantes/artistas com o intuito de discutir e pesquisar questões relacionadas às raças, aos gêneros e às performances tendo como ponto de partida as artes. O Coletivo Erês nasce como uma iniciativa que reúne múltiplas linguagens(Teatro, Canto, Dança, Artes Circenses etc.).

Não podemos deixar de mencionar que, diante das encruzilhadas propiciadas pelo orixá Exu, Dono dos caminhos e da comunicação, atualmente, nos estruturamos, enquanto Coletivo Erês, sendo este a matriz que abarca o NUPERGEPE[1] e o grupo de tradição afrobrasileira[2], de matrizes Bantu-nordestina, Coquistas de Tia Toinha.

O grupo Coquistas de Tia Toinha foi criado com o intuito de homenagear Antônia Luzia Barbosa, mais conhecida como Tia Toinha, pela importância que ela teve enquanto parteira, benzedeira e cantadora de Coco dançado no Cariri cearense. Tia Toinha, mestra cantante de Coco, contribuiu para a formação do repertório das coquistas do grupo Amigas do Saber, localizado na zona rural do Crato/CE.

O objetivo principal do Coletivo, formado por 36 pessoas, majoritariamente pretas, é possibilitar a formação, conscientização e pertencimento étnico-racial, além do crescimento pessoal, aliados ao desenvolvimento cultural e artístico de cada jovem.

O reencontro entre esses jovens negros artistas com Ridalvo Felix de Araujo (cantante de Coco e dançante de tradições pretas do Brasil), Lorena Anastácio (cantante, contadora de histórias e pesquisadora das questões relacionadas aos Povos Originários brasileiros), FrancyScull, cubana e autoridade religiosa de matriz afro-cubana, além dos músicos Renan Barcellas e Claudio Emanuel(Fritas), é um evento singular que traceja vários caminhos e que vem desenhando projetos transformadores para a vida do grupo como, por exemplo, o primeiro espetáculo/show artístico Nossas Vidas em Cantos Dançados.

 Isso se justifica pelo fato de os jovens artistas já possuírem corporeidades artísticas diversas como o Circo, Dança, Teatro, Artes Plásticas e Música, áreas que têm sido a base para refletir a construção de um espetáculo notadamente afro-diaspórico que ousa na confluência de tradições de cocos dançados, cirandas e cantos de matrizes negras/mágico-religiosas de Cuba.


[1] Os encontros do NUPERGEPE, para fins de pesquisas e ações em torno das questões étnico-raciais, estão ocorrendo na sede do Coletivo Erês, localizada na Rua João Fernandes de Oliveira, nº 250, bairro Planalto.

[2] Utilizamos a forma afrobrasileiro, sem hífen, seguindo orientação da pesquisadora Yeda Pessoa de Castro, com a qual estamos de acordo. O termo refere-se a uma cultura (ou um forte segmento da cultura brasileira, considerando aqui a diversidade que o termo contempla) e não a uma articulação entre duas culturas – uma africana, outra brasileira (que não existe sem seu elemento africano).

COMPONENTES DA DANÇA E PERFORMANCES CIRCENSES:

Bia de Oyá – Bruno Marçal – Carol Anja do Mar – Douglas Santana – Emerson Maciel – Felipe Augusto – Fernanda Silva – Gi’nga Ventania – Gláucio Lestrange – Heloísa Andrade Indi Moçambicana – Isabel Carvalho – Jasmim das Flores – Jéssica Angel – Kelvin Cássio Laura Leste – Leandro de Sá – Lua dos Ventos – Rio Fulô do Kariri – Junio Cigano – Rodrigo Santos – Thaís Oliveira – Vitor das Matas – Yasmin Salim

COMPONENTES DA MÚSICA:

Aleke Íris – Fritas – Francys Scull – Iuri Moraes – Flor de Liz Lídia – Lorena Anastácio – Nathan Motta – Renan Barcelas – Suellen Ohana – Vitú de Sousa

Mônica Anjos, a estilista que conquistou o Brasil produzindo moda com identidade

A moda como elemento de resgate da identidade, autoestima e enfrentamento a um sistema racista e excludente

Por Sandrinha Flávia, jornalista, locutora, mestra de cerimônias e editora

Coleção Mônica Anjos – Foto: Cassiano Faleta

Foi aliando a moda às bandeiras sociais que a estilista Mônica Anjos se consagrou no mercado. Suas criações unem tecidos finos como o linho rústico, cambraia de linho, seda, Kaftas, rendas, estampas geométricas e elementos étnicos. São peças que fogem das tendências ditadas pela indústria da moda e de um padrão de beleza que não retrata a realidade.

Filha única da costureira e dona de casa Enedina Maria da Silva e do engenheiro Manoel Theodoro dos Anjos, Mônica nasceu no bairro do Rio Vermelho (BA) e se orgulha de falar da infância livre que lhe proporcionou ser a artista que é hoje. “Minha fase escolar foi maravilhosa e me traz boas recordações até o dia de hoje, uma infância livre e cheia de descobertas que muito me influenciaram no meu lado artístico”.

As influências da escolha da profissão vieram de sua mãe, seu pai e de sua irmã por parte de pai, Jaciara Oliveira (In memória). Mônica já sabia a profissão que queria seguir e o impulso surgiu após participar de atividades voltadas para as questões de gênero e raça, a convite de militantes da causa negra de Belo Horizonte – MG. O projeto levava aos estados brasileiros a moda produzida para as mulheres negras. “Depois de alguns anos participando desses eventos, vi a importância do trabalho e a necessidade que as pessoas tinham de encontrar roupas que dialogassem com as questões da estética e política social.” Foi assim que nasceu a marca Mônica Anjos que traz o slogan “Moda com identidade”.

Naquela época, Mônica não tinha noção do rumo que o negócio tomaria, mas uma coisa a surpreendeu: homens, mulheres de várias gerações abraçaram o projeto, eram pessoas que estavam em busca de identidade ao se vestirem. A estilista acredita que a moda transforma e desafia os limites entre negros e brancos.

Atualmente a estilista veste, ou já vestiu, mulheres negras e não negras anônimas e famosas como a cantora Fabiana Cozza, a empresária Zica Assis, a jornalista Tia Má, as cantoras Vanessa da Mata, Bete Carvalho, a atriz Cyria Coentro, a mestra de cerimônias Sandrinha Flávia, e tantas outras.

O reconhecimento também vem em forma de premiações, Mônica foi indicada ao Prêmio Prime 2015, entre as 10 melhores marcas de Salvador na categoria Roupas Femininas. Recebeu também, o Troféu Mama África e foi homenageada no evento Prêmio África Brasil.

Em 2017, Anjo lançou a coleção Kalunga na abertura do show de Milton Nascimento em comemoração aos 50 anos do cantor. Em 2018, a marca segue lançando coleções e produzindo os tradicionais Saraus, eventos que vem ganhado espaço no cenário cultural das grandes capitais brasileiras como Bahia, Rio e São Paulo.