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Ensaio

OXUM: A CRIADORA DA ARTE

Por Robson Di Brito, Mestre em Humanidades, Mestre em Artes

A dissertação A iconografia de Marcial Ávila: uma leitura por meio da temporalidade do xirê defendida na pós-graduação em arte da Guignard/UEMG-MG em outubro de 2023, foi um exercício de manusear a ancestralidade do ritual xirê do Candomblé para metodologizar a investigação acerca da arte. A defesa ocorreu no MUQUIFU; a banca composta pelo doutor Loque Arcanjo Junior (orientador), doutora Lúcia Pompeu de Freitas Campos, doutor Mauro Luiz da Silva e doutorada Rosália Diogo. As obras plásticas do artista mineiro, Marcial Ávila, foram a base da análise da metodologia, mas a proposta amplia-se para outras artes. Entretanto, apresento, neste ensaio, um recorte do texto: a compreensão epistemológica de Oxum como a criadora das artes. Essa compreensão só foi possível por ter a minha vivência religiosa respeitada como a construtora do saber. Essa, portanto, é a maior pulsão que me anima a buscar o direito de estar e exigir uma localização como orientação e perspectiva que conduz à minha humanidade.

O Candomblé como uma prática cultural do território brasileiro possui ligações com a África por sua materialização da estética na adoção de elementos e rituais reconstituintes da memória africana. A compreensão do Candomblé como constituinte do saber é o que Asante (2016) propõe como Afrocentricidade. Suas contribuições africanas, no território brasileiro, são elementos que subvertam a hegemonia “particularista e patriarcal” europeia. Para uma orientação à afrocentricidade, esse movimento principia com a minha localização. Situar-me como um indivíduo latino-americano de ascendência afro me conduz à assimilação das heranças africanas trazidas pelos escravizados.

Sou e estou em um contexto afrodiaspórico, sou da América, tenho a África como referência ancestral que auxiliou a moldar essa brasilidade, sou herdeiro na afrodiáspora. Sodré (2017) aponta para o legado cultural africano dos escravizados. Recomenda a afrocentricidade que nos revelou Asante, mas propõe uma reflexão política do contexto afrodiaspórico. As interpretações necessitam situar as heranças negras no processo de formação histórica da sociedade brasileira, em uma postura intelectual afirmativa. Parto do princípio de que essa herança está solidificada na religiosidade e na construção do seu saber, na resistência e na cosmovisão presente no culto às divindades visíveis no Candomblé e em outras manifestações de motriz afrorreligiosa e das práticas culturais da afrodiáspora.

Assim, para essa construção foi necessário retornar às bases da cultura afro e afro-brasileira, que é a oralidade. Um itan (narrativa mítica dos orixás) relatado por Ìyá Valdete d´Ewá revela o quanto a arte é importante para o reencontro do ser humano com o seu duplo mítico. Ele narra a maneira como o universo foi criado e como os espaços sobrenaturais e humanos se sobrepunham, fazendo com que as divindades coabitassem o mesmo ambiente que os humanos. Porém, um humano suja o Orum com sua concupiscência. Oxalá sopra a atmosfera para que nenhum contato entre as divindades e os humanos pudesse ser refeito, porém, compadecida, Oxum tomou a galinha-de-angola, raspou sua cabeça, pintou-a de branco, vermelho e azul, cantou e a fez dançar. Aconselhados por Oxum, os homens passaram a repetir esse ato, que se tornou o rito fundamental de iniciação através do qual os orixás “vieram” no Ori dos seres humanos. Isso faz com que Oxum seja chamada de primeira Iyalorixá”. 

Os orixás, guiados pela música e pelos cantos, poderiam retonar incorporando naqueles que Oxum preparou. Ecoar cantos por meio de corpos artisticamente preparados para invocar os orixás é um xirê. Do “Iorubá ṣè, fazer, e irè, brincadeira, diversão”, refere à festividade pública. Sendo assim, pensar o xirê, a aproximação entre o sagrado e humano, torna-se um signo forjado na lógica do saber civilizatório africano. Por isso, a importância de situar o poder gerador de Oxum na constituição do xirê. Visto que ele age no recuperar as influências da compreensão africana na formalização do Candomblé, e este atua como fomentador das práticas culturais como música, dança, artes plásticas e outras na sociedade brasileira.

Os estudos de Martins (2021) são condizentes para isso. Para ela, os ritos possuem uma função “pedagógica paradigmática”, isto é, um modelo exemplar a ser seguido. E fornecem os meios de manipular o rito de maneira a produzir uma sistematização de leitura da arte. O xirê congrega valores “estéticos e cognitivos transcriados por meio de estratégias de ocultamento e visibilidade”. Esses valores na dinâmica cultural necessitam ser apreendidos como técnicas de expressão, tecnologias ancestrais. Essas técnicas ora modificam, ora ampliam e/ou recriam os códigos culturais e da arte. Para visualizar o xirê e os índices à leitura e interpretação das obras de arte, produzo o organograma abaixo.

Organograma do Xirê

Fonte: Criação do autor

Os preceitos de Oxum para fundamentar o xirê são elementos cosmológicos inseridos nas artes. Seu abebé é objeto distintivo do poder das mães ancestrais, o qual reflete a própria arte; o abebé, como espelho, tem a função não somente de revelar a beleza, mas permite provocar reações estratégicas e belicosas do contato entre ser humano e divindade. A obra de arte é o xirê refletido no abebé de Oxum. Se isso é possível, também é cabível a compreensão de que a arte, a leitura que se faça dela são elaboradas por estratégias que podem ser admitidas do xirê, por isso busco refletir como um espelhamento. A interpretação da obra de arte é um espelhamento do xirê e por isso reflete os sentidos que habitam o ritual, ou seja, o referencia.

Há uma estrutura de canto e dança, de cores e formas a ser seguida, um preceito de Oxum. Na ordem das canções, que se inicia com o padê de Exu e finaliza com o canto para Oxalá, por exemplo. Oxum, em sua benevolência, concedeu à humanidade a conexão ao Orum, e para isso nos deu as artes que estão intimamente ligadas ao corpo. Oxum pintou os corpos, deu-lhes objetos simbolizados, forneceu técnicas para que as mãos e as bocas instrumentassem os cantos litúrgicos. A senhora das águas doces montou um espetáculo para que a humanidade pudesse vislumbrar o Orum, divertir-se com ele. Oxum é a Senhora das artes. Isso era óbvio o tempo todo, mas as limitações localizadas no pensamento eurocêntrico dos estudos das artes brasileiras tinham Apolo e Dionísio como os senhores das artes, conforme afirmou Nietzsche.

Agora, cristalino como as águas de uma cachoeira, compreendo que o itan de Oxum sempre a revência como a criadora da arte. Como instigadora do xirê, criadora do elo entre homens e divindades, é a orientadora do ritual. A produção artística é uma criação de fato incontestável e reverbera artes que seduzem os sentidos, remetem à beleza e à grandiosidade. Isso também é Oxum. O corpo negro conduz para uma centralidade que há no xirê. É a cor negra. São as formas fenotípicas. É Oxum e é o xirê. Ambos fornecem elementos que me auxiliam situar a localização da arte, e onde estou. Fato é que, a partir da minha perspectiva analítica e de vivência no Candomblé, entendo que pertenço ao cosmo criativo em que Oxum é a criadora, e a obra de arte é uma produção humana com o intento de celebrar a vida em todas as suas circunstâncias, assim como o xirê. A grande mãe dessa imensa afrodiáspora na contemporaneidade, e que a Sankofa nos revela ser de um tempo imemoriável, é a senhora das artes: Oxum.

REFERÊNCIAS CITADAS NO TEXTO

ASANTE, Molefi Kete. Afrocentricidade como crítica do paradigma hegemônico ocidental: introdução a uma ideia. Trad. Renato Noguera, Marcelo J. D. Moraes e Aline Carmo. Revista Ensaios Filosóficos. v. XIV, Dez., 2016, p. 6-18.

FERREIRA. Antonio Marcos. A dança dos Orixás como possibilidade de preparação e formação do bailarino/ator: a partir da perspectiva de Augusto Omolu. Dissertação (Mestrado). Uberlândia: UFU, 2011.

KILEUY, Odé; OXAGUIÃ, Vera de. O candomblé bem explicado: Nações Bantus, Iorubá e Fon. Pallas: Rio de Janeiro, 2009.    

LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Summus Editorial/Selo Negro, 2004.

MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

RIBEIRO, Ronilda Iyakemi. Alma Africana no Brasil: Os Iorubás. São Paulo: Editora Oduduwa, 1996.
SODRÉ, Muniz. Pensar Nagô. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2017.

Sobre a proteção de Xangô, dotada pela comunicação de Exu: Iialorixá Daisy D’Oyá

Robson Di Brito, Mestre interdisciplinar em Humanidades. Atualmente mestrando em Artes pela UEMG: Escola de arte Guignard. Jornalista, Pesquisador e Escritor. 

A diáspora africana no Brasil recebeu como herança todos os elementos para construção das manifestações culturais que também se revelam por meio da religiosidade. Os ditados populares, mitos e cantos são parte dessa herança que constituem as religiões de matrizes africanas como o Candomblé. É possível perceber nas experiências coletivas e individuais dos afro-brasileiros e dos adeptos de suas religiões, inseridos na complexidade das relações socioeconômicas, uma resistência e perseverança que nos aproximam dos orixás Exu e Xangô. Divindades dos cultos afros que representam a força (o Axé) do dinamismo transformador da vida e da dinâmica da história (Exu), bem como a busca incomensurável pela justiça (Xangô) que se apresenta nas demandas políticas da população afro-brasileira e que se tem colocado mais fortemente nas últimas décadas.

Na história do Centro de Tradições e Memórias Afro-brasileiras Ilê Axé Afonjá Oxeguiri, conseguimos perceber essa busca por justiça, presente no Orixá Xangô, patrono do Ilê, mas visualizamos uma proximidade com o ditado iorubano: “Exu matou um passado ontem, com uma pedra que jogou hoje”. O terreiro une-se com a fundação no bairro Concórdia, localizado na região Noroeste da capital de mineira. Enquanto o bairro nascia como a primeira área para abrigar os trabalhadores operários em 1929, naquela mesma data nascia o Babalorixá Obá Ogemunde. Sua mãe, Josina Maria, vinda de Itacaré, na Bahia, deu à luz no mesmo dia em chega em Belo Horizonte. Passou a viver em uma humilde residência em um terreno cedido pela Igreja Católica cercado de mato e esperança. Josina Maria construiu um espaço sagrado proporcionando à população atividades de benzimentos e acolhimento da população da região, difundindo a cultura religiosa afro-brasileira. Posteriormente seu filho, um cultuador do Orixá Xangô, José Lisboa, o Babalorixá Obá Ogemunde, deu continuidade ao seu legado espiritual.

Será sob a orientação de José Lisboa que se criarão as festividades tradicionais: Festa de Xangô, Festa de Caboclo, Cortejo de Obaluaê, entre outras festividades que congregam adeptos das religiões de matrizes africanas e seus simpatizantes. Sobre sua liderança, o terreiro será registrado como Centro de Tradições e Memórias Afro-brasileiras Ilê Axé Afonjá Oxeguiri em 1970. E após os anos 2000, com o seu falecimento, Mãe Daisy Lisboa, ou Iialorixá Daisy D’Oyá, sua filha biológica, foi a escolhida por Xangô como nova liderança do terreiro, dando continuidade com compromisso, resistência e persistência na construção do Axé no bairro Concórdia. 

Os orixás, como forças e energias naturais e sociais, refletem parte da dinâmica histórica que o Ilê Axé Afonjá Oxeguiri representa na materialização da cultura e da ideologia afro-brasileira. Mãe Daisy Lisboa, como cidadã comum, é funcionária pública há mais de 30 anos atuando no Instituto Raul Soares. Sua independência reflete-se nas escolhas de condução do terreiro. Diferentemente de outros, não possui sua subsistência pessoal em sua atuação religiosa, mas de seu trabalho como funcionária pública. Já a sobrevivência do terreiro é nutrida de forma colaborativa com a população e seus frequentadores. Dessa forma, em contribuição a escrita da história do bairro Concórdia, o terreiro e Mãe Dayse consideram a participação da população importante para continuidade das atividades. De acordo com isso, o axé (força vital dinâmica), como metáfora do compartilhamento e irmandade, é partilhado pelo apoio e participação em celebrações e festejos realizados por outros grupos/coletivos culturais do Bairro, como a saída do Boi da Manta, das Guardas de Congo e dos Cortejos carnavalescos e outras demonstrações culturais do bairro Concórdia, além do apoio social como acolhimento de pessoas com vulnerabilidade social e alimentar. 

No ano de 2016, em função de chuvas que ocorreram em janeiro, houve o surgimento de um buraco na entrada social do Ilê, o que ocasionou a destruição dos fundamentos dos Orixás Tempo e Akokô, árvore sagrada desse ancestral. Sobre forte reivindicação junto ao poder público, a Iialorixá Daisy D’Oyá conseguiu realizar o relatório com a Diretoria de Patrimônio Cultural e Arquivo Público (DPCA) da Fundação Municipal de Cultural (FMC) e da Secretaria Municipal de Cultural (SMC), como procedimentos da denúncia apresentada ao Ministério Público sobre conduta irregular da Prefeitura de Belo Horizonte diante dos estragos causados ao Ilê Axé Afonjá Oxeguiri no rompimento da rede pluvial que passava pelo quarteirão, com o intuito de liberar e reformar o acesso ao terreiro que ficou totalmente interrompido, impossibilitando a realização das cerimônias públicas de culto aos Orixás.

O racismo e preconceito religioso contra as religiões de matrizes africanas no Brasil demonstram que a ideologia escravagista ainda existe entre nós. A pedra que Exu lançou hoje atinge essa ave de enorme envergadura, representada no preconceito e no racismo que se lança em nós de um passado longínquo, que se estende sobre as religiões de matrizes africanas e ao povo preto. E o Ilê Axé Afonjá Oxeguiri, que se trata de um terreiro de Candomblé da Nação Queto (Ketu), herdeiro da herança cultural de povos do Oeste-Africano, pelos falantes do iorubá localizados em partes dos atuais países Benim, Nigéria e Togo também é essa pedra de Exu, que luta e resiste. Assim como a existência dos corpos pretos, da cultura negra e de sua religiosidade. O Centro de Tradições e Memórias Afro-brasileiras Ilê Axé Afonjá Oxeguiri é uma resistência ao preconceito que continua a atingir a religião. O medo da quebra do Axé e da perda dos conhecimentos rituais da religião parece ter se tornado mais patente. Como afirma Mãe Dayse de Lisboa, o que a deixa abismada é a falta de comprometimento e desrespeito em relação ao conhecimento e aprendizado com os mais velhos.

Outra recordação de incômodo que a Iialorixá nos fala diz sobre os modismos da era da Internet. São frequentes as queixas de sacerdotes mais antigos, como Mãe Dayse de Lisboa, de que com a difusão virtual de saberes desvirtuam o verdadeiro princípio de compartilhamento de Axé. Os adeptos da “macumba online”, por resistirem às regras dos rituais e às etapas seguidas em um terreiro, conforme ensinamentos adquiridos das gerações anteriores, tornam-se um desafio. Já entre os que se iniciam, aparece outra perspectiva de críticas: as formas tradicionais de aprendizagem e sociabilidade do candomblé consideram que são antagônicas ao modo de vida na sociedade atual. É claro que a comunicação virtual ajuda a difundir a cultura e de maneira relativa auxilia na desconstrução do preconceito. Recorda a Ialorixá que mesmo sendo uma das potencialidades do Exu, já que Exu é a comunicação e a Internet é seu campo de atuação também, não deve ser o local do “pulo do gato”, ou seja, de contar, mostrar ou reproduzir o Oró do terreiro. Isso porque cada casa é uma casa, cada Iialorixá e Babalorixá é uma Iialorixá e um Babalorixá. Todos os cultos e ensinamento são para louvor e reverência aos Orixás, mas cada um segue um caminho e se encontram nas várias encruzilhadas da vida, por isso são religiões de matrizes africanas.

Assim, não se trata apenas de um conflito de gerações ou da diferença entre modos de vida em uma comunidade inserida em terreiro, e alternativamente fora de uma comunidade de terreiro; suspeita-se que tenha relação com a facilidade dessas pessoas (iniciantes) acessarem os saberes do culto, virtualmente, de maneira indiscriminada, em qualquer tempo, sem qualquer tipo de mediação pelos mais experientes na vivência do Axé em comunidade, de forma autônoma e, em muitos casos, distantes do espaço físico de um terreiro. Estes chegam trazendo “informações” pesquisadas não só na literatura acadêmica sobre religiosidade afro-brasileira, mas no ciberespaço, denominado por esses simpatizantes como ciberaxé (blogs, sites, páginas em redes sociais, canais de vídeos e demais veículos de publicação de imagens, textos e sons sobre a temática do candomblé) e problematizam os fazeres instituídos, sobretudo se diferem do “apreendido”, teoricamente, em suas “pesquisas”.

Sobre a proteção de Xangô, dotada pela comunicação de Exu, a Iialorixá Daisy D’Oyá deixa como mensagem aos seus filhos gestados no Axé e aos novos adeptos das religiões de matrizes africanas: “que o respeito seja o tudo na sua existência como cultuador dos Orixás, e que sua dedicação para eles seja a melhor resposta a perguntar — o porquê da vida? Não somos os Orixás, somos dos Orixás e para eles. E tenha fé!”.

Foto Claudio Andrade

De 2018 para 2022: uma conversa com Robson Di Brito sobre a política brasileira

Samira Reis
Jornalista e modelo


Leiamos as reflexões do Robson Di Brito, jornalista, colaborador da Revista Canjerê:
Como escritor, sempre penso de forma narrativa e em 2018 vivi um romance distópico. Acredito que a maioria que possui o mínimo de senso crítico não considerou que a sociedade brasileira elegeria um indivíduo com discurso segregador tão evidente como Bolsonaro. É claro que havia as falas hipócritas da família, da liberdade, da religião etc., mas era explícito para mim que ele não era o que pregava. E quando veio o resultado não consegui entender como que pessoas que acompanharam as sagas de Harry Potter contra Voldemort, ou Katniss Everdeen contra a Capital em Jogos Vorazes, e até mesmo Luke Skywalker contra Darth Vader, conceberam que o maior vilão da sociedade brasileira poderia ser um bom líder.


Como professor de ciências humanas e linguagens, fui perseguido politicamente, especialmente no estudo da literatura brasileira no ensino médio e universitário, pois me identificava com vários romances nacionais que reivindicam um posicionamento social menos segregador e contrário ao discurso raso de família tradicional e religião às cegas. Percebi que entre pessoas de poder aquisitivo mediano (digo com uma casa em bairro de classe média, um carro com carnê de 120 meses), me parece que o mínimo de acesso faz as pessoas acreditarem que são nobres e descendentes dos europeus mais alvos.


Há, na extrema-direita, um poder alienante que invoca padrões medievais. E, para mim, é claro, penso que só não tiveram um poder massivo de fato como os nazistas por conta das mídias de comunicação. Graças a elas também pudemos acompanhar aquilo que eles não queriam que víssemos. Isso é o poder de Exu, a comunicação revela tudo, expõe, exorta o que você quer ver e o que não quer ver. Nesta nova presidência que se iniciará a coisa mais sensata a se fazer é demonstrar para sociedade que a Justiça existe de maneira séria e digna. Depois arrumar a bagunça na educação – O MEC precisa voltar a ser o MEC –, pois o conhecimento é um espelho e é por ele que se pode ver quem é a nação brasileira.


Faço coro para que Damares Alves seja cassada e perca seu mandato. Novamente penso de forma narrativa. Houve momentos claros durante o mandato de Bolsonaro e na disputa presidencial que Damares comportava-se como uma Tia Lydia e Michele Bolsonaro como Serena Joy Waterford, as personagens repugnantes The Handmaid’s Tale (livro e série). O que essa “Tia” fez e disse durante a disputa presidencial não pode passar impune.

É preciso uma ação para demonstrar que não tiramos dentes de crianças para que façam sexo oral, e tão pouco que as religiões de matrizes africanas são o capeta na terra. O imoral, o execrável, a repugnância estão explícitos nas ações dessas duas mulheres. Além disso, elas são um perigo às mulheres do Brasil. Se a extrema-direita voltar ao poder, pois ela fará tudo para isso, as mulheres serão as primeiras vítimas. E, possivelmente, veremos surgir uma nova sociedade brasileira, mais segregadora, mas limitadora de direitos e mais violenta aos pretos, aos pobres, às mulheres e às crianças. Que Oxalá não permita que isso aconteça!

Foto Gabriel Botelho

A dança afro-brasileira de Mercedes Baptista ecoa no carnaval de 2022 e reescreve a história dos corpos negros na avenida Sapucaí

 Evandro Passosdoutorando em Dança pela UFBA, mestre da cultura popular, ator, coreógrafo e dançarino, mestre da cultura popular de Belo Horizonte-MG

           Ninguém fez enredo esse ano. Quem fez enredo foram os orixás. Os orixás escolheram o Xirê para vir para avenida (…). Desde 1980, eu nunca vi algo tão sincronizado, ou seja, a reafricanização se impõe diante das adversidades. 

                                                                 Carlinhos Brown, abril de 2022

Concordo com Carlinhos Brown quando ele diz que os orixás escolheram o xirê’ para vir para avenida, mas acredito que eles também escolheram e incorporaram em cada um daqueles bailarinos e daquelas bailarinas para que trouxessem para a avenida, em seus corpos pretos, um bailado ancestral que reafirmasse a afinação do povo preto com a contemporaneidade sem deixar de negligenciar o passado. São singularidades que o capitalismo e a indústria do carnaval não conseguiram tirar do povo preto.

Assumo, neste artigo, a grafia afro-brasileira/o, sem o hífen, como um ato político e de afirmação para fazer entender que não somos dois brasis, um afro e o outro brasileiro. Compreendo o Brasil como uma extensão da África que deve ser valorizada e assumida constantemente.

Procuro aqui refletir os caminhos percorridos pela dança afro-brasileira desde o “Balé Folclórico Mercedes Baptista”, criado pela bailarina de mesmo nome nos anos 60. Artista que trouxe as danças afro-brasileiras coreografadas para os palcos brasileiros e para as ruas. Mercedes Baptista foi também a primeira pessoa preta a coreografar uma ala de escola de samba nos anos 60, apesar de alguns jornalistas e críticos, brancos, chamarem-na de maluca. Disseram eles em variados veículos de comunicação, “A Mercedes Baptista está desvirtuando o samba”.

Através de dois exemplos, das escolas de samba em 2022 e da concepção da Cia. Mercedes Baptista, demonstro como a cultura afro não está estagnada, embora muitos assim a imaginem. A cultura afro dialoga com a contemporaneidade sem negligenciar o passado. Procuro, ainda, mostrar como a persistência pôde contribuir para desconstruir pensamentos coloniais na sociedade brasileira através da arte. Uma arte que propõe novos caminhos e desafios para os corpos negros excluídos, em pleno século XXI.

Creio que no desfile de 2022 o trabalho desses coreógrafos e coreógrafas das danças afro-brasileiras conseguiram mostrar o empoderamento, o profissionalismo rígido dos carnavalescos e das carnavalescas, quesito exigido por um carnaval que virou indústria do entretenimento e do virtuosismo, necessário nas escolas de samba do Rio de Janeiro. Indústria esta que felizmente abarca muitos e muitas trabalhadores e trabalhadoras pretos e pretas. Esses e essas artistas pretos e pretas provaram que o legado da bailarina e coreógrafa Mercedes Baptista está vivo e potente nesses corpos dançantes. São profissionais que fazem de seus trabalhos adequados “artevismo” pela inclusão do povo preto. São movimentos de resistência e resiliência que se multiplicam pelo Brasil afora em aquilombamentos contemporâneos.

Por um longo período, as danças afro-brasileiras estiveram na avenida muito timidamente, mas nunca ausente. Momento em que novos coreógrafos e coreógrafas estavam em formação, atrevo a dizer. Ela ficou timidamente na Sapucaí, porém pulsante nas favelas em projetos sociais, centros culturais e grupos organizados da cultura negra carioca. Os profissionais da cultura continuaram a trabalhar com as danças afro-brasileiras no Rio de Janeiro, formando jovens, criando grupos de dança afro e intercâmbios interestaduais com outros profissionais e núcleos do país.

Ao que se percebe, o carnaval de 2022, pós-pandemia, fez florescer enredos que enalteciam a cultura afro-brasileira em várias escolas de samba. Realidade em que não havia como a dança afro ficar como coadjuvante. Os coreógrafos e coreógrafas das danças afro-brasileiras, com todos os percalços e “expatriações”, por um longo período, profissionalizaram-se sim, não apenas para agradar o carnaval. Foram para algumas universidades de danças, centros culturais e mostraram que as danças afro-brasileiras não estão dissociadas das lutas emancipatórias e de resistência do povo preto no Brasil. Na cultura negra política, arte e educação caminham juntos.

Esses e essas profissionais mostraram na avenida que a dança afro-brasileira é mais que alegórica, exótica ou folclórica; para além do virtuosismo, ela educa e ressignifica corpos pretos invisibilizados pela sociedade.  Trouxeram para a avenida o legado da coreógrafa negra Mercedes Baptista. Dialogaram com a contemporaneidade, demostrando aos virtuosistas sua competência e ensinando que na “cosmologia africana” cultura negra é cíclica e recorrente à sua ancestralidade.

Imagino que Mercedes Baptista sorriu e aplaudiu lá do “Orum” ao que assistimos nesse carnaval de 2022. Como um ícone de representatividade da dança afro-brasileira que foi impedida de bailar no Teatro Municipal por trazer em seu corpo traços da africanidade. A artista fez, então, da rua e dos locais populares seu palco – da estudantina, na Praça Tiradentes no Rio de Janeiro, seu legado ganhou o mundo e, em 2022, a avenida Sapucaí.

Seus ensinamentos estão vivos, pulsantes e novamente reescrevem a história do povo preto. As sementes que brotaram estão crescidas e proliferam lindamente na avenida embora seja uma história que os livros no Brasil insistem em negligenciar. Apesar disso, o professor Paulo Melgaço nos presenteou com a obra “Mercedes Baptista – A Criação da Identidade Negra na Dança, obra que traz a história e trajetória pulsante da bailarina negra a baile. Obra à qual farei referências a partir de agora.

No Teatro Municipal, a bailarina negra tinha poucas chances de mostrar sua dança. A discriminação naquele mundo artístico, cujo projeto de arte erudita partia de ideais europeus, impedia sua participação significativa nas montagens de espetáculos, isso quando não a afastava totalmente dos palcos. Mesmo a exaltação de ideais nacionalistas, que também contaminavam algumas produções do Teatro Municipal, não contemplavam devidamente a presença do corpo preto na formação brasileira. Nas encenações, não havia espaço para o afro-brasileiro. 

Logo, Mercedes passou a atuar como bailarina, coreógrafa e colaboradora, e pôde mostrar sua experiência e domínio da técnica da dança clássica no Teatro Municipal. Abdias Nascimento percebeu que, no corpo de baile do Municipal, aquela bailarina preta teria poucas chances de mostrar sua arte, então Mercedes no TEN, convivendo com Haroldo Costa, Solano Trindade, Ruth de Souza e outros expoentes artistas pretos daquela época como ela, logo começou a coreografar, integrando-se à militância criativa e à política em busca de uma identidade afro-brasileira.

Mercedes inaugurou uma revolução na arte de dançar no Brasil ao trazer para o palco e para as salas de aula o gestual oriundo das congadas, do maracatu, das danças dos orixás, do samba, ou seja, das manifestações negras brasileiras antes relegadas ao plano do exótico e do folclore.

De acordo com a professora, doutora Marianna Francisca Monteiro, foi Mercedes Baptista que, num certo sentido, encabeçou uma primeira iniciativa de invenção de uma dança moderna brasileira (MONTEIRO, 2010). Embora ainda utilizando uma pedagogia do balé clássico, buscava uma forma de quebrar com essa tradição ao incorporar elementos simbolistas e populares em suas danças.

O que assistimos na avenida Sapucaí em 2022 reinaugura um novo jeito de se coreografar centrado na corporeidade preta do povo brasileiro. O legado da bailarina e coreógrafa Mercedes Baptista está vivo e potente nesses corpos, que com o legado de sua obra se inserem na definição da arte enquanto forma de liberdade revolucionária, contra os conservadorismos e preconceitos vigentes (RIBEIRO, 2022). E faz tencionar a exclusão da dança afro nas instituições educacionais e artísticas, nas escolas de samba, nas escolas e salas de dança, nos cursos de graduação e pós-graduação de dança pelo Brasil. 

Foto: Gabriel Monteiro

Para ai ter a Santíssima Senhora Louvada: Teimosias e resistências, do Arraial dos Pretos à capital dos brancos

Por Mauro Luiz da Silva – Doutor e Mestre em Ciências Sociais; Especialização em Psicopedagogia; Graduação em Teologia e Filosofia pela PUC Minas; Graduação em História e Tutela do Patrimônio Cultural pela Universidade de Pádua/Itália. Curador do MUQUIFU – Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos.

Dizem os Irmãos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos do arraial e freguesia de Nossa Senhora da Boa Viagem do Curral Del Rei que eles têm feito à sua custa e com muita despesa [ilegível] – que sustentam e paramentam. Para aí ter a Santíssima Senhora Louvada. (Solicitação da Irmandade dos Homens Pretos, 1807).

O Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos – MUQUIFU – através do Projeto de Pesquisa e Centro de Documentação NegriCidade, levantou as questões relacionadas ao Sítio Arqueológico do Largo do Rosário, território negro do extinto Curral Del Rey, arraial colonial que foi totalmente demolido no final do século XIX para dar lugar à atual capital do Estado de Minas Gerais, cidade de Belo Horizonte. No Largo do Rosário havia uma capela dedicada à Nossa Senhora do Rosário e o Cemitério da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

No dia 27 de abril deste corrente ano, 2022, o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte – CDPCBH – concedeu ao Largo do Rosário o Registro como Patrimônio Cultural e Imaterial de Belo Horizonte. O processo de Registro do Largo do Rosário foi proposto conjuntamente pelo Projeto NegriCidade na pessoa do Padre Mauro Luiz da Silva e do vice-presidente do Centro de Tradições do Rosário de Minas Gerais – CETRO (Federação dos Congados) – Geraldo Antônio da Silva. Imediatamente após a aprovação da proposta, estabeleceu-se o Comitê de Salvaguarda que tem a missão de articular políticas públicas para a preservação daquele espaço tão representativo para as populações negras da capital mineira.

Para compreender os processos que levaram à extinção do Curral Del Rey, partimos da observação da planta cadastral do extinto Arraial do Belo Horizonte – produzida pela Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) – comparada à planta da nova capital. O mapa produzido é uma superposição de dois documentos cartográficos, o que nos permite a visualização da localização do antigo arraial no contexto da nova cidade. O documento é um dos poucos registros cartográficos existentes sobre o arraial.

Desde a solicitação encaminhada a Dom João VI até a inauguração da Capela do Rosário, passaram-se 12 anos (1807 a 08/10/1819), quando o templo e o cemitério passaram a abrigar a irmandade, suas cerimônias, festas e sepultamentos. Um outro documento, de 30/08/1811, registra a Confirmação do Compromisso da Irmandade dos Homens Pretos e reafirma a autorização para que eles mantivessem até 60 sepulturas, indicando o nível de organização da Irmandade: “que o haviam pedindo além de mais concessão para na capela que edificaram conservarem sessenta sepulturas para os irmãos bem feitores” (Confirmação do Compromisso, 30/08/1811, p. 1).

Localizamos outros documentos com referência à Irmandade dos Homens Pretos, elaborados pela CCNC (a partir de 1894): mapas, memorandos, correspondências, orçamentos, 672 cadernetas de campo entre outros; hoje custodiados no Museu Histórico Abílio Barreto, no Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte e no Arquivo Público Mineiro. Em contato direto com as 672 cadernetas de campo, o arquiteto e pesquisador Thiago Alfenas Fialho nos informa:

O que é possível conseguir por meio das cadernetas é a reconstituição visual, com alguma precisão, das vias no entorno do largo e do cemitério; perímetros dos lotes no entorno dessa região com a indicação de seus respectivos proprietários; perímetro de suas edificações. Também já procurei registros do cemitério, mas, infelizmente, foi pouquíssimo registrado. Adianto que não encontraremos nas cadernetas nenhum registro acerca dos corpos nele enterrados.

Em busca do resgate da história negra do território, tivemos acesso ao trabalho do Padre Francisco Dias, vigário da Matriz da Boa Viagem de 1892 a 1902, quando registrou informações preciosas:

O Reinado fazia-se regularmente na primeira dominga de outubro, dia este de grande gala para os pretos, por ser o de sua festa predilecta. Nesse dia, ostentavam-se pelas ruas garbosos, e alegremente dançando ao som cadencioso de seus tambores, de seus adufes e de suas sambucas, produzindo fortes e vibrantes pandorgas – tudo em honra e louvor da Senhora do Rosário, como diziam elles. (DIAS, 1897, p. 46, 49-50)

Com a chegada da CCNC (1894), deu-se início às obras que transformaram de forma irreversível a paisagem do arraial, quando tudo foi demolido: as antigas casas, as matas, os serviços de terraplanagem, abertura de ruas, e providenciaram a construção das novas edificações que progressivamente definiram os novos contornos e feições da cidade que nascia. A capela colonial foi demolida no final de 1897, início de 1898. A nova capela – localizada nas esquinas das ruas São Paulo, dos Tamoios e Avenida Amazonas – foi inaugurada em 26/09/1897. A atuação das irmandades do Rosário no território passou a sofrer perseguições por parte da Igreja Católica a partir da chegada de Dom Antônio dos Santos Cabral (1922). É o que identificamos no famigerado “Aviso Nº 5”:

AVISO Nº 5 – Prohibição da festa chamada “Reinado”. Ordens do Bispo Diocesano a necessidade de suprimir-se a festa conhecida pelo nome de reinado. […] é pensamento e desejo da autoridade diocesana que desapareçam os reinados. (Aviso Nº 5. Dom Cabral; 10/8/1923)

Em outra oportunidade, Dom Cabral faz menção aos reinados negros, quando publica uma Carta Pastoral através da Imprensa Oficial:

Lamentamos que não tenham ainda desaparecido totalmente os chamados “Reinados” ou “Congados” […]. Essas danças são indesejáveis, porque se prolongam por tempo excessivo, obrigando os dançantes a beber em demasia, donde se originam as consequências de costume (Carta Pastoral. Dom Cabral; 1927).

Apesar das incursões de Dom Cabral contra as manifestações do Reinado, o racismo e a intolerância não causaram a extinção dos Reinados Negros no território. Tais manifestações negras sobrevivem nas periferias e favelas da cidade dos brancos, através das dezenas de guardas existentes no território. No dia 13/5/2022, o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural conferiu ao Largo do Rosário o registro imaterial definitivo. O Largo do Rosário foi inscrito no Livro de Registro dos Lugares.

Repassar parte do que foi vivido pela população negra do Curral Del Rey, e por aqueles que hoje ocupam as periferias e favelas, nos faz entender que outras searas ainda virão, que só nos resta continuar teimando e resistindo para que sejam construídos novos espaços que apresentem as histórias negras, não apenas no aspecto doloroso. Buscamos outras representações sobre nós mesmos, sobre nossos corpos e lugares para onde fomos expulsos, sobre os territórios onde teimosamente habitamos.

Hoje, após duas décadas celebrando com o povo do Reinado, que ainda chegam nas portas das igrejas, cantam o “Lamento Negro” e pedem para fazer suas homenagens para Nossa Senhora do Rosário – a “Santíssima Senhora” –, ainda não me acostumei com os olhares dos congadeiros, quando a porta da igreja começa a se abrir lentamente, quando vejo os olhares curiosos da minha gente preta, reticentes, sondando o interior da igreja, buscando pela imagem da Senhora do Rosário. Quando nossos olhares se cruzam, percebo a surpresa ao verem que o “senhor padre” de hoje também é preto, que tem suas origens ancestrais em África. Quero dizer para eles, para esse povo congadeiros, que o “senhor padre” de hoje é preto e periférico também, que sabe muito bem o que é ficar lamentando do lado de fora. O “Senhor Padre” de hoje sabe que um povo que não valoriza a sua história e não luta para manter vivas suas memórias e tradições, está fadado ao esquecimento. O “Senhor Padre” de hoje responde ao “Lamento Negro” dos Reinados:

Sê bem-vindo, Povo Negro. Vamos juntos celebrar!

Essa aqui é vossa Casa, esse Padre deixa entrar.

Vem ouvir a santa missa, vamos juntos celebrar.

Vem louvar Nossa Senhora e o Povo Negro abençoar!

Foto: Alexsandro Trigger

Jequitinhonha: um lugar no mundo e no coração

Por Tadeu Oliveira Romão

Graduado em História pela FAFIDIA/UEMG com pós-graduação em Música na Educação UCM. Graduando em Música UNIS. Regente de corais no Vale do Jequitinhonha, radialista, compositor, poeta e escritor. 

São raras as pessoas que bebem na fonte da cultura popular do Vale do Jequitinhonha e que não se encantam por ela. Principalmente quando se tem interesse em conhecer o Brasil profundo. Comigo se deu em março de 1984, quando eu morava em BH e tive o privilégio de assistir ao show “AS ONHAS DO JEQUI” no Palácio das Artes. O show contou com a participação de Frei Chico, Gonzaga Medeiros, Lira Marques, Paulinho Pedra Azul, Rubinho do Vale, Saulo Laranjeira e Tadeu Franco. É corrente entre os militantes do movimento cultural do Jequitinhonha a afirmativa de que esse show teria sido a primeira vez que o Palácio das Artes abriu as portas para a cultura popular. Naquele dia, a força e energia das canções emanadas do mais profundo do Vale do Jequitinhonha mexeram muito comigo. Senti-me de tal forma arrebatado a ponto de vaticinar àqueles que me acompanhavam que um dia haveria de morar naquele lugar encantado. Treze anos depois, eis que os desígnios da vida me levaram para o Vale do Jequitinhonha. Não demorou e logo me vi entranhado no fazer cotidiano junto ao povo deste lugar colecionando amizades, realizando sonhos e dividindo esperanças. 

Falar do Vale e sua cultura é um grande desafio. Antes, faz-se necessário adentrar um pouco na História dessa região que ficou isolada e confinada entre o nordeste e o sul maravilha, considerada o patinho feio de Minas Gerais. Porém, no subsolo dos subsolos, este lugar é uma união sem estado e de um povo único porque o Jequitinhonha tem suas raízes fincadas num Brasil imêmore e que ficou conhecido no imaginário nacional como um lugar de pobreza material e riqueza cultural. Essa dicotomia, estampada e alimentada pela mídia nacional, teve o papel de instituir “verdades” e produzir “subjetividades”. Foram diversas denominações pejorativas que nem vale a pena repeti-las porque não se levou em conta os anos de exploração mineral predatória do rio aliada ao desmatamento da floresta atlântica no baixo Jequitinhonha, a apropriação ilegal da terra, o conflito agrário surgido da oposição latifúndio versus camponeses. São fatores determinantes que afetaram a economia e o meio ambiente da região: seca, esgotamento do solo, migração da mão-de-obra para outras regiões do Brasil e a falta de políticas governamentais. O pesquisador e educador João Valdir Alves de Souza afirma que “a região entrou em profundo estado de abandono e estagnação a partir do final do século XIX, voltando a aparecer como objeto de interesse apenas a partir de meados do século XX, quando começa a ser vista como região-problema, (…) uma interpretação sustentada em ciclos econômicos (mineração, algodão, pecuária)”, sem nada mais relevante. 

Quando, em 1964, surge a Comissão de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha (CODEVALE), o governo federal cria programas de reflorestamento para o Alto do Jequitinhonha que causam grandes impactos regionais e provocam discussões prós e contras até a atualidade. Nos anos de 1970, um conjunto de ações governamentais aliadas a investidas da iniciativa privada modificou a estrutura produtiva da região que provocou confrontos conflituosos entre as atividades desenvolvidas nos moldes capitalistas de produção e uma formação social em que ainda subsistiam resquícios feudais. 

Foto: Tadeu Oliveira Romão

Nos anos de 1980, vários programas governamentais trouxeram para a região vários pesquisadores, em sua maioria sociólogos, historiadores, antropólogos, geógrafos. No âmbito cultural, o artesanato, a cerâmica tornou-se o alvo preferencial, tanto que há um farto material registrado em livros e estudos acadêmicos dessa época. Vários nomes do artesanato se destacaram no cenário nacional e, inclusive, internacional: Dona Izabel, os Ulisses Pereira e Mendes, Noemísia, Ana do Baú, Zezinha, as paneleiras de Pasmado e outras mais. 

A desestruturação da CODEVALE frustrou os projetos de fomentação do desenvolvimento para o Jequitinhonha. Em compensação, o processo de redemocratização do país provocou transformações sociais e políticas: a abertura, anistia, a reforma partidária de 1979/80 e as Diretas Já. Esses fatos permitiram surgir com força a imprensa alternativa que, por sua vez, possibilitou a estudantes e trabalhadores do Vale do Jequitinhonha que migraram para Belo Horizonte e outros centros urbanos, o contato com várias dessas publicações. Influenciados por novas ideias, idealizaram a criação de um jornal alternativo, em março de 1978, denominado Geraes que propunha ser um veículo de denúncia ao fazer frente à ditadura militar e promover uma organização política no Vale do Jequitinhonha que fosse capaz de desestruturar a política local se apoiando, principalmente, na interatividade com os leitores. Não demorou muito e o jornal forjou um movimento que tinha como bandeira a diversidade cultural da região: o artesanato, a poesia e a música cujos pilares se contrapunham ao discurso da pobreza, tendo a cultura popular como mecanismo para despertar a consciência popular para os problemas sociais. A construção dessas novas visões denotou o claro interesse de fomentar a construção do imaginário do mito jequitinhonhense e uma identidade regional singular.

Ao promover, em 1979, o “I Encontro de Compositores do Vale do Jequitinhonha”, na cidade de Itaobim, o jornal se torna o principal articulador de um festival itinerante denominado FESTIVALE (Festival da Cultura Popular do Valer do Jequitinhonha). No rastro do Festivale, surgiram outros movimentos culturais em várias cidades da região. Conseguintemente, surgem novos talentos musicais: Déa Trancoso, Wilson Dias, Pereira da Viola, Lima Jr. Na área da poesia, na esteira de Adão Ventura, Gonzaga Medeiros, Paulinho Pedra Azul, Joaquim Celso Freire e Cláudio Bento abriram-se portas para Rubens Espíndola e Caio Duarte.

No início do século XXI, com o advento dos governos democráticos e populares, muita coisa mudou. As políticas públicas afirmativas promoveram a inclusão socioeconômica e cultural de pessoas historicamente privadas do acesso a oportunidades. Várias comunidades tradicionais do Jequitinhonha foram certificadas como Comunidades Quilombolas assegurando-lhes o direito à terra e à legitimação da luta contra o racismo e o preconceito. A implantação da UFVJM também se constituiu na realização de um velho sonho. Na área cultural, o surgimento do MACUCULTURA (Festival de Artes e Culturas das Comunidades Quilombolas do Vale do Jequitinhonha) e a COQUIVALE (Comissão das Comunidades Quilombolas do Vale do Jequitinhonha) encabeçam a luta por políticas públicas, empoderamento e visibilidade dos afro-brasileiros. 

Na cultura, ainda mantendo sua força, novos nomes se destacam em todos os cenários artísticos sempre tendo como guia velhos mestres como Frei Chico, Lira Marques, o velho tamborzeiro e guardião dos saberes ancestrais dos escravos da região de Minas Novas e das Festas do Rosário, o Mestre Antônio de Bastião. Na linha do Frei Chico e dos Trovadores do Vale vários corais despontaram nas duas últimas décadas: Lavadeiras de Almenara, Araras Grandes, Vozes das Veredas, Ribeirão da Areia e muitos outros. 

No artesanato e artes plásticas, surgiram nomes como João do Cipó, o fazedor de violas e rabecas Seu Geraldo da Viola, o jovem artesão Augusto Ribeiro, discípulo de dona Izabel. As mulheres continuam a dominar a arte: Cássia Ferraz, Vó Daguinha, Maria do Carmo, Elza Sampaio, Alice Costa e tantas outras. Importantes artistas plásticos como Marcial Ávila e Leandro Jr. abusam da criatividade em quadros e peças artesanais que dialogam com a cultura negra e com o sincretismo religioso marcadamente presente em Diamantina e Chapada do Norte. Na poesia, brilham nomes como Herena Barcelos, Ednalva Rodrigues, Trabion Mendes, Eldwin Mendes e tantos outros poetas anônimos. Na música, não poderia deixar de citar os novos talentos como Luciano Tanure, Hendrick Souza, Zaak Porto, Ivan Pestana, Pingo do Sertão, Edu do Vale, Joyce Santos e outros mais.

Sem mais delongas, termino relatando um fato pessoal muito significativo. Em abril de 2014, o Coral Vozes das Veredas foi convidado a participar do show “As Onhas do Jequi”, produzido pelo Instituto Sociocultural Valemais, no Minascentro, em BH. Um revival do espetáculo de 1984. Participar desse show como regente do coral foi emblemático porque tive a honra de poder dividir o palco com todos aqueles artistas que me influenciaram. Sair da plateia para o palco foi algo encantador. 

Parafraseando o genial Guimarães Rosa, encerro redefinindo a questão do espaço/território/lugar retirando as fronteiras de um espaço chamado sertão: “O Jequitinhonha é do tamanho do mundo. O Jequitinhonha é sem lugar. Jequitinhonha: é dentro da gente”. 

Foto: Tadeu Oliveira Romão

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ABNER, George. SILBY, Aurélio e MARTINS, Tadeu. (Org.). Geraes: a realidade do Jequitinhonha. Belo Horizonte, NEOPLAN, 2011.

SANTIAGO, Luís. O Vale dos Boqueirões – História do Vale do Jequitinhonha. Almenara: Edições Boca das Caatingas, 1999.

SANTOS, Geraldo Tadeu de Oliveira. Movimento Cultural do Vale do Jequitinhonha – imprensa alternativa e cultural na formação da identidade regional (1978-1990). Capelinha: Monografia FAFIDIA/ FEVALE/UEMG, 2009.

SOUZA, João Valdir Alves de. Defesa do Jequitinhonha. Publicado no Estado de Minas, 01/01/2005, Caderno Pensar, p. 1.

SOUZA In SANTOS, Gilmar Ribeiro dos. Trabalho, cultura e sociedade no norte/nordeste de Minas: considerações a partir das Ciências Sociais. Montes Claros: Best Comunicação e Marketing, 1997.

REPRESENTATIVIDADE AFRO EM MOBILIÁRIO

Matheus Ramos – Mestre em Design pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Estuda as relações entre os artefatos industriais e as culturas afro-brasileiras, design de móveis, artesanato autóctone.

Ao depararmos com a hegemonia simbólica, em nosso cotidiano, dos artefatos concebidos sobre a percepção do branco e sua cosmovisão europeia/norte-americana, percebemos que há alguma coisa de errado uma vez que no Brasil a maioria da população é negra.

São inúmeros produtos criados, na maioria das vezes, por brancos sob olhares limitantes da cultura hegemônica incapazes de incluir diversidades culturais simbólicas e a pluralidade racial nas equipes de criação. Em minha dissertação de mestrado Design, Sociedade e Pluralidade (2021), sob a orientação da estimada professora,  doutora Rita A. C. Ribeiro, foi possível verificar no mercado brasileiro a carência de móveis afro-centrados da mesma forma que profissionais negros atuando na área. Dado o cenário desnivelado, surgiu o projeto Olulá.

Representatividade – montar uma equipe plurirracial e diversificada foi essencial para o desenvolvimento do projeto. Vamos apresentar os integrantes:

Alexandra Loras – palestrante, executiva, comunicadora, mentora, consultora e ex-consulesa da França em São Paulo. Voz expoente da atual sociedade brasileira na luta antirracista, Loras é uma investigadora dos efeitos do design como medida de equiparação étnico-racial. Com uma atuação histórica no campo da moda, ela afirma como o design é potencialmente transformador.

Matheus Ramos – designer de móveis e pesquisador que possui amplo conhecimento teórico e prático sobre o design afro-centrado e afro-brasileiro. Atualmente é parceiro da empresa América Móveis e, em 2017, lançou no mercado a poltrona Alaká, mobiliário conceituado dentro do design afro que intercalou produção artesanal autóctone de Salvador com a produção da indústria de móveis.

Raniel Bento – formado em Design (2016, UFMG). Possui o Tubbie Mobile, projeto que enfatiza móveis sustentáveis. Atua como Arteducador e é autor de material didático do Bernoulli Sistema de Ensino. Com suas origens em comunidades periféricas do Rio e de BH, busca na Arte e no Design o caráter transformador e a possibilidade de dar visibilidade às causas socioculturais e ambientais.


Equipe do projeto Olulá. Da esquerda para a direita: Matheus Ramos, Alexandra Loras e Raniel Bento

Design afro-brasileiro – Baseado em Santos (2009, p. 21), podemos afirmar que os artefatos produzidos pelo design afro-centrado incorporam um poder mítico e simbólico que não representam apenas o seu uso, mas que estão penetrados de significados que traduzem o sentimento de pertencimento de culturas transcendentes de obstáculos e preservadoras de suas essências.

Esses objetos, quando bem feitos, carregam a memória cultural de pretas e pretos e suas tradições culturais, o que os tornam um veículo do resgate da autoestima e da identidade racial. Isso é possível, pois não é somente nós que configuramos o meio externo em que vivemos, os próprios ambientes com seus artefatos possuem o poder de modular nossos comportamentos.

Portanto, isso é tão importante para que os móveis nas casas possam alimentar simbolicamente os espaços com elementos que sejam diversos da universalidade cultural dos brancos e se aproximem de outras fontes étnico-culturais, configurando ambientes que dialoguem mais com a diversidade racial que existe no Brasil.

Sobre o nome do projeto, a palavra olulá significa pequena família que, de acordo com Schoenbrun (1999, p. 144) remete aos dialetos de matriz bantu usados na África Subsaariana anterior à formação dos estados-nações.

Entre vários desenhos de móveis, o carro chefe que escolhemos foi uma mesa lateral conceituada sob a perspectiva simbólica das religiões afro-brasileiras. As religiões de matriz africana no Brasil foram historicamente instituições de resistência contra a opressão e o racismo. Graças a elas muitas memórias culturais de africanos trazidos ao Brasil forçadamente foram preservadas mantendo, assim, diversos elementos culturais das tradições originárias da África como, por exemplo, o culto às divindades Exú e Xangô que são representadas e valorizadas em nosso design (preciso enfatizar que sendo umbandista possuo uma enorme satisfação em homenagear os Orixás com este projeto).   

Desenhos do pictograma de Exú e do machado de Xangô Foto: Equipe Olulá
Desenhos do pictograma de Exú e do machado de Xangô Foto: Equipe Olulá


Mesa lateral Olulá

Mesa lateral Olulá


As pernas da mesa foram baseadas em traços retos que se encontram em um eixo central como no pictograma do Orixá Exú e o tampo carrega o desenho de um machado de duas faces, instrumento do Orixá Xangô, e as opções de cores preta e vermelha para a mesa estão associadas aos dois Orixás. As opções de madeiras escolhidas foram duas de reflorestamento, o eucalipto produzido aqui no Brasil e o mogno produzido na África.

O resultado até o momento é um projeto carregado de valores antirracistas, desde o corpo dos autores que o contemplam até o projeto final que representa um design afro-brasileiro carregado de memórias culturais africanas e que dialoga com a população brasileira e o desejo de existir maior equidade racial.

Esperamos que o lançamento da mesa Olulá represente uma nova janela no mercado de móveis no Brasil e que ela possa permanecer aberta e incluir mais protagonistas interessados em resgatar nossa africanidade e em valorizar os profissionais negros e o design afro-brasileiro.

NOTA: A mesa lateral Olulá encontra em fase de prototipagem e negociação com um renomado fabricante de móveis de Minas Gerais.

Um protótipo inicial da mesa saiu na revista de decoração Westwing (2020) em matéria especial com Alexandra Loras.

Para entender mais sobre a relação entre indivíduos e objetos, é recomendável ler as seguintes obras: Objetos de Desejo (2007), de Adrian Forty; O Mundo Codificado (2007), de Vilém Flusser; Trecos, Troços e Coisas (2013), de Daniel Miller.

Referências:

HELLER, A. Memória cultural, identidad y sociedad civil. Indaga, Espanha, p. 5-17, 2003.

SANTOS, N. A. D. Pano da Costa ou Alaká. In: IPAC Pano da Costa: Cadernos do IPAC 1. 1. ed. Salvador: IPAC; Fundação Pedro Calmon, v. I, 2009. p. 17-28.

SCHOENBRUN, D. L. The (In)Visible Roots of Bunyoro-Kitara and Buganda in the Lakes Region: 8001300. In: (ED.), S. K. M. Beyond Chiefdoms: Pathways to Complexity in Africa. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. Cap. 11, p. 136-150.

PRAZO PARA INSCRIÇÃO NO FESTIVAL DE TODAS AS CORES É PRORROGADO

Artistas independentes negros e/ou LGBTQIA+ agora têm até 06 de junho para se inscreverem

Gratuito, a proposta do evento é promover a equidade racial e de gênero e também realizar atividades formativas na área da música independente

Por Bruno Vieira e Bárbara Navarro

As inscrições para o Festival De Todas as Cores tiveram seu prazo prorrogado. A iniciativa, que pretende valorizar e reconhecer os talentos de Itaúna e do Centro-Oeste de Minas Gerais, recebe inscrições até o dia 06 de junho. Artistas independentes, negros e/ou LGBTQIA+, poderão participar do evento que conta com premiações em dinheiro, atividades formativas para os artistas selecionados e a promoção de debates sobre diversidade, equidade de gênero e de raça.

Viabilizado pela Lei Emergencial Aldir Blanc por meio da Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais, o festival tem inscrições gratuitas que devem ser realizadas exclusivamente através de preenchimento de um formulário online, acessível no site www.moisespescador.com/todas-as-cores. Mais detalhes no regulamento do Festival, disponível acessando este link: http://bit.ly/FestivalDeTodasAsCoresRegulamento. Por causa da pandemia de COVID-19, o evento será realizado integralmente na internet.

O Festival será realizado em três etapas: na primeira, serão premiados 40 artistas entre os inscritos – serão escolhidos pelo menos 20 talentos de Itaúna e no mínimo 20 artistas que sejam LGBTQIA+. A seleção, de 07 de junho a 02 de julho, será realizada por uma comissão independente, composta por artistas LGBTQIA+ e produtores culturais itaunenses, que escolherão os 40 melhores vídeos seguindo os critérios acima.

Os artistas que forem escolhidos participarão, na última semana de junho, de atividades formativas relacionadas ao campo da música independente, como Marketing Digital, Estratégias de Formação de Públicos e Gestão de Carreira. Além disso, os escolhidos levam um prêmio em dinheiro de R$500.

A segunda fase, de 03 a 09 de julho, irá medir o envolvimento dos respectivos públicos dos artistas. Os 10 vídeos que tiverem maior engajamento no Youtube (segundo as regras do edital) seguirão para a etapa final: uma votação popular nos dias 11 e 12 de julho para escolher os três melhores, que receberão prêmios em dinheiro. No total, serão quase R$30 mil investidos em prêmios para os artistas.

Mais informações sobre o evento podem ser conferidas no link www.moisespescador.com/todas-as-cores.

Iniciativa

O Festival de Todas as Cores é uma iniciativa do artista e empreendedor social Moisés Pescador. Natural de Itaúna, cidade do Centro-Oeste mineiro, Moisés é cantautor afro-indígena, músico autodidata, cantor e compositor, reside em Belo Horizonte desde 2005 e vive ora no interior, ora na capital. Apaixonado por artes e cultura popular, o artista conhece o tradicional bairro da Lagoinha em BH e se encanta com o berço cultural de Belo Horizonte.

É neste cenário que sua vida artística toma um novo rumo e se desenrola sua jornada em busca da ancestralidade. Em 2014 e 2015, Moisés se apresentou no Festival Raízes Negras realizado na UFMG, e em 2016 participou do III Encontro de Compositores Dona Jandira e foi premiado no Festival de Música da Reforma Agrária, em que o tema do festival reforça seu posicionamento: “Da Luta Brotam Vozes de Liberdade”. Em 2017, realizou o show Salve Orixás no Teatro Marília.

Em setembro de 2018, ele realizou o espetáculo “Moisés Pescador Toma Bença” também no teatro Marília, no intuito de seguir sua missão e cantar a história da Lagoinha. O artista vem se apresentando em festivais de arte e cultura como o CURA Lagoinha, o VI Festival Descontorno Cultural e o Festival de Arte Negra 2019. Sua missão é “compartilhar vivências, educar pelo amor e saudar a ancestralidade através da música”.

Foto de Goutinho de Flávio

Da luta pelo acesso às demandas da heteroidentificação: caminhos da política de Cotas Raciais nas universidades públicas brasileiras

Por Marcelo Siqueira de Jesus

A política de ações afirmativas no acesso ao ensino superior público brasileiro completa duas décadas, e este tipo de política focal tem protagonismo do movimento social negro ao reivindicar do estado brasileiro a promoção de medidas reparadoras e redistributivas em razão da ampla desigualdade racial e da ausência de políticas públicas de inclusão étnico-racial. 

O preconceito racial de marca (NOGUEIRA, 1998) caracteriza o racismo estrutural de nossa sociedade, e a política pública focal de caráter racial visa combatê-lo. A inserção dessa política na agenda pública brasileira deve-se: à marcha Zumbi dos Palmares, em 1995, em Brasília-DF, à mobilização da comunidade negra que reivindicou Ações Afirmativas para superar o racismo institucional, às visitas de Nelson Mandela ao Brasil que contribuíram para a opinião pública brasileira dar maior atenção às demandas levantadas pela comunidade negra, à Conferência de Durban, na África do Sul, em 2001, em que o estado brasileiro assumiu compromisso de criar políticas afirmativas para reduzir as desigualdades raciais. 

A política de ações afirmativas de acesso ao ensino superior público brasileiro acumula oportunidades de mobilidade social ascendente para negros e indígenas. A continuidade desse programa nas instituições estaduais e municipais de ensino superior passa por avaliação decenal. Em relação às Instituições Federais de Ensino Superior – IFES, regidas pela Lei Federal n°. 12.711/12, tem avaliação prevista para 2022. 

A questão racial está subsumida pela classe e não está contemplada plenamente na lei federal de cotas devido à distribuição dos critérios para concessão: primeiro – egresso de escola pública que tenha concluído integralmente o ensino médio; segundo – comprovação de renda per capita inferior a 1,5 salário mínimo; terceiro – a condição fenotípica correlata de negros e indígenas. 

A Lei Federal 13.409/16 alterou a lei federal de cotas e incluiu uma quarta categoria – pessoas com deficiência, que deve considerar proporcionalidade demográfica desse grupo na unidade federativa em que a IFES estiver localizada. 

Considero que a lei federal de cotas não atende plenamente o reivindicado pelo movimento social negro, e na lei federal que inclui pessoas com deficiência há inserção da relação de proporcionalidade demográfica entre as unidades da federação, então questiona-se: por que o fator demográfico da proporcionalidade não está considerado na reserva étnico-racial? Se considerarmos a proporcionalidade da demografia racial brasileira, negros deveriam ser maior quantil entre os beneficiários desta reserva de vagas pelo fato de ser maioria da população. 

É preciso reconhecer que em alguns cursos, principalmente os de carreiras imperiais (VARGAS, 2010), aqueles de maior prestígio e status social (Medicina, Direito e Engenharias), a população negra está presente, mas abaixo da representatividade indicada pelos dados censitários do IBGE. 

Então a Lei Federal de Cotas é amplamente desfavorável aos negros? Não, mas é preciso relativizar para que sejam garantidos e ampliados os direitos redistributivos aos quais oportunizam pretos, pardos e indígenas de ingressarem nos cursos de ensino superior. Então qual é a preocupação sobre as garantias desse direito? Em razão da revisão decenal desta legislação se aproximar e da perspectiva do atual executivo brasileiro ter demonstrado contrariedade às políticas focais raciais. 

Foto de Ketut Subiyanto
Foto de Ketut Subiyanto

Essa preocupação já mobiliza a comunidade negra, e a questão atual no debate das cotas raciais pauta nas fraudes. Quando sujeitos fraudam uma legislação, qual sanção deve ser impetrada? A única sanção tem sido a perda da vaga no curso. 

As IFES adotam a orientação da Portaria Normativa n°. 04/2018, do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, através de sua Secretaria de Gestão de Pessoas, que lançou a heteroidentificação complementar a autodeclaração de candidatos negros para finalidade de preenchimento de vagas reservadas em concursos públicos federais, prevista na Lei n°. 12.990/14. 

A heteroidentificação da autodeclaração racial é realizada por meio de medida protocolar, com banca composta por cinco membros, que emite parecer em cédula individual se o candidato está apto ou inapto. Esse ritual tem sido adotado em diferentes IFES pelo país, a questão é saber qual critério é adotado para composição dos membros da banca? Todos dominam conhecimentos relacionados às desigualdades raciais no Brasil? São pesquisadores do campo das ações afirmativas e das relações étnico-raciais? 

Provavelmente não são, e como proceder nesse caso? A IFES deveria promover formação continuada aos membros dessas bancas. Qual seria a finalidade dessa formação continuada? Evitar as fraudes, dúvidas geradas pela condição fenotípica correlata de candidatos pardos e mestiços. Siss (2014) considera fundamental o papel dos NEABIs no acompanhamento dessa política e/ou na formação continuada para composição da banca de heteroidentificação racial.

Silva et al. (2020) levantam dilemas das comissões de heteroidentificação racial: a perspectiva de direito universal de autodeclarar-se, a difícil tarefa de eleger quem é negro no Brasil, a ideia de que as comissões seriam um verdadeiro tribunal racial que preestabelecem critérios fenotípicos. Estes dilemas não se sustentam, sobretudo para saber quem é negro no Brasil deve considerar a categoria raça em seu viés sociológico (GUIMARÃES, 2003) para compreender que grupo racial é mais vulnerável à discriminação direta devido ao seu fenótipo? A historiografia do racismo no Brasil revela que esse comportamento surgido de uma ciência racialista e de uma política de embranquecimento fomentada pelo estado brasileiro (MUNANGA, 2013) resultou no preconceito de marca (NOGUEIRA, 1998) que desloca a maior parcela da população negra para posição de subalternidade e de vulnerabilidade social. 

A política de ações afirmativas nos ensina, por meio da experiência de inclusão étnico-racial, que há possibilidade de conviver com a diferença e valorizar a diversidade. O que aprendemos com as cotas raciais? A lutar pela justiça social. Entretanto, precisamos ampliar o acesso à formação inicial e continuada em Educação para relações étnico-raciais nas universidades pelo Brasil. 

Sobre Marcelo Siqueira de Jesus.Cidadão negro brasileiro. Doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense-UFF. Docente da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM. Líder do Grupo de Estudos sobre Negro e Educação no Vale do Jequitinhonha – GENEJEQU.

Bibliografia:

BRASIL, República Federativa do. Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2012/lei-12711-29-agosto-2012-774113-normaatualizada-pl.pdf>. Acesso em 20/10/2020.

_____. Lei nº 12.990, de 09 de junho de 2014. Disponível em: <http://www2.camara.leg.brlegin/fed/lei/2014/lei-1299. Acesso em 20/10/2020.

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Sites visitados: 

https://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStfArquivo/anexo/ADPF186.pdf Último acesso em 02/11/2020.

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/01/05/lei-de-cotas-para-pessoas-com-deficiencia-em-universidades-federais-ja-esta-em-vigor Último acesso em 07/11/2020.

https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/9714349/do1-2018-04-10-portaria-normativa-n-4-de-6-de-abril-de-2018-9714345 Último acesso em 07/11/2020. 

Literatura infantil

Neste ano, a editora Mazza Edições está com novidades em seu catálogo para os jovens leitores. O livro “Meu Pequeno Bestiário”, da professora-poeta Verônica Mendes Pereira, apresenta poemas que convidam adultos e crianças a se deliciarem com o jogo das palavras e das emoções.

Chapeuzinho vermelho e o boto cor-de-rosa – Divulgação/Mazza Edições

Já o “Chapeuzinho vermelho e o boto cor-de-rosa”, de Cristina Agostinho e Ronaldo Simões Coelho, traz a magia de um clássico para o contexto brasileiro da também encantada floresta amazônica. Outra releitura entres os lançamentos é “O pequeno príncipe em cordel”, de Olegário Alfredo, que traz a famosa história da literatura francesa sob o olhar da cultura do Nordeste brasileiro. Também estão entre as novidades o livro Meia Curta, de Andreza Félix, com a história que ensina sobre autoestima a partir da história de uma pequena bailarina, e Corvo-correio, de Isabel Cintra, que aborda temas importantes como diversidade e tolerância. Todos os títulos estão disponíveis no site da editora: mazzaedicoes.com.br.

Meia-curta – Divulgação/Mazza Edições