De 2018 para 2022: uma conversa com Robson Di Brito sobre a política brasileira

Samira Reis
Jornalista e modelo


Leiamos as reflexões do Robson Di Brito, jornalista, colaborador da Revista Canjerê:
Como escritor, sempre penso de forma narrativa e em 2018 vivi um romance distópico. Acredito que a maioria que possui o mínimo de senso crítico não considerou que a sociedade brasileira elegeria um indivíduo com discurso segregador tão evidente como Bolsonaro. É claro que havia as falas hipócritas da família, da liberdade, da religião etc., mas era explícito para mim que ele não era o que pregava. E quando veio o resultado não consegui entender como que pessoas que acompanharam as sagas de Harry Potter contra Voldemort, ou Katniss Everdeen contra a Capital em Jogos Vorazes, e até mesmo Luke Skywalker contra Darth Vader, conceberam que o maior vilão da sociedade brasileira poderia ser um bom líder.


Como professor de ciências humanas e linguagens, fui perseguido politicamente, especialmente no estudo da literatura brasileira no ensino médio e universitário, pois me identificava com vários romances nacionais que reivindicam um posicionamento social menos segregador e contrário ao discurso raso de família tradicional e religião às cegas. Percebi que entre pessoas de poder aquisitivo mediano (digo com uma casa em bairro de classe média, um carro com carnê de 120 meses), me parece que o mínimo de acesso faz as pessoas acreditarem que são nobres e descendentes dos europeus mais alvos.


Há, na extrema-direita, um poder alienante que invoca padrões medievais. E, para mim, é claro, penso que só não tiveram um poder massivo de fato como os nazistas por conta das mídias de comunicação. Graças a elas também pudemos acompanhar aquilo que eles não queriam que víssemos. Isso é o poder de Exu, a comunicação revela tudo, expõe, exorta o que você quer ver e o que não quer ver. Nesta nova presidência que se iniciará a coisa mais sensata a se fazer é demonstrar para sociedade que a Justiça existe de maneira séria e digna. Depois arrumar a bagunça na educação – O MEC precisa voltar a ser o MEC –, pois o conhecimento é um espelho e é por ele que se pode ver quem é a nação brasileira.


Faço coro para que Damares Alves seja cassada e perca seu mandato. Novamente penso de forma narrativa. Houve momentos claros durante o mandato de Bolsonaro e na disputa presidencial que Damares comportava-se como uma Tia Lydia e Michele Bolsonaro como Serena Joy Waterford, as personagens repugnantes The Handmaid’s Tale (livro e série). O que essa “Tia” fez e disse durante a disputa presidencial não pode passar impune.

É preciso uma ação para demonstrar que não tiramos dentes de crianças para que façam sexo oral, e tão pouco que as religiões de matrizes africanas são o capeta na terra. O imoral, o execrável, a repugnância estão explícitos nas ações dessas duas mulheres. Além disso, elas são um perigo às mulheres do Brasil. Se a extrema-direita voltar ao poder, pois ela fará tudo para isso, as mulheres serão as primeiras vítimas. E, possivelmente, veremos surgir uma nova sociedade brasileira, mais segregadora, mas limitadora de direitos e mais violenta aos pretos, aos pobres, às mulheres e às crianças. Que Oxalá não permita que isso aconteça!

Foto Gabriel Botelho