Sobre a proteção de Xangô, dotada pela comunicação de Exu: Iialorixá Daisy D’Oyá

Robson Di Brito, Mestre interdisciplinar em Humanidades. Atualmente mestrando em Artes pela UEMG: Escola de arte Guignard. Jornalista, Pesquisador e Escritor. 

A diáspora africana no Brasil recebeu como herança todos os elementos para construção das manifestações culturais que também se revelam por meio da religiosidade. Os ditados populares, mitos e cantos são parte dessa herança que constituem as religiões de matrizes africanas como o Candomblé. É possível perceber nas experiências coletivas e individuais dos afro-brasileiros e dos adeptos de suas religiões, inseridos na complexidade das relações socioeconômicas, uma resistência e perseverança que nos aproximam dos orixás Exu e Xangô. Divindades dos cultos afros que representam a força (o Axé) do dinamismo transformador da vida e da dinâmica da história (Exu), bem como a busca incomensurável pela justiça (Xangô) que se apresenta nas demandas políticas da população afro-brasileira e que se tem colocado mais fortemente nas últimas décadas.

Na história do Centro de Tradições e Memórias Afro-brasileiras Ilê Axé Afonjá Oxeguiri, conseguimos perceber essa busca por justiça, presente no Orixá Xangô, patrono do Ilê, mas visualizamos uma proximidade com o ditado iorubano: “Exu matou um passado ontem, com uma pedra que jogou hoje”. O terreiro une-se com a fundação no bairro Concórdia, localizado na região Noroeste da capital de mineira. Enquanto o bairro nascia como a primeira área para abrigar os trabalhadores operários em 1929, naquela mesma data nascia o Babalorixá Obá Ogemunde. Sua mãe, Josina Maria, vinda de Itacaré, na Bahia, deu à luz no mesmo dia em chega em Belo Horizonte. Passou a viver em uma humilde residência em um terreno cedido pela Igreja Católica cercado de mato e esperança. Josina Maria construiu um espaço sagrado proporcionando à população atividades de benzimentos e acolhimento da população da região, difundindo a cultura religiosa afro-brasileira. Posteriormente seu filho, um cultuador do Orixá Xangô, José Lisboa, o Babalorixá Obá Ogemunde, deu continuidade ao seu legado espiritual.

Será sob a orientação de José Lisboa que se criarão as festividades tradicionais: Festa de Xangô, Festa de Caboclo, Cortejo de Obaluaê, entre outras festividades que congregam adeptos das religiões de matrizes africanas e seus simpatizantes. Sobre sua liderança, o terreiro será registrado como Centro de Tradições e Memórias Afro-brasileiras Ilê Axé Afonjá Oxeguiri em 1970. E após os anos 2000, com o seu falecimento, Mãe Daisy Lisboa, ou Iialorixá Daisy D’Oyá, sua filha biológica, foi a escolhida por Xangô como nova liderança do terreiro, dando continuidade com compromisso, resistência e persistência na construção do Axé no bairro Concórdia. 

Os orixás, como forças e energias naturais e sociais, refletem parte da dinâmica histórica que o Ilê Axé Afonjá Oxeguiri representa na materialização da cultura e da ideologia afro-brasileira. Mãe Daisy Lisboa, como cidadã comum, é funcionária pública há mais de 30 anos atuando no Instituto Raul Soares. Sua independência reflete-se nas escolhas de condução do terreiro. Diferentemente de outros, não possui sua subsistência pessoal em sua atuação religiosa, mas de seu trabalho como funcionária pública. Já a sobrevivência do terreiro é nutrida de forma colaborativa com a população e seus frequentadores. Dessa forma, em contribuição a escrita da história do bairro Concórdia, o terreiro e Mãe Dayse consideram a participação da população importante para continuidade das atividades. De acordo com isso, o axé (força vital dinâmica), como metáfora do compartilhamento e irmandade, é partilhado pelo apoio e participação em celebrações e festejos realizados por outros grupos/coletivos culturais do Bairro, como a saída do Boi da Manta, das Guardas de Congo e dos Cortejos carnavalescos e outras demonstrações culturais do bairro Concórdia, além do apoio social como acolhimento de pessoas com vulnerabilidade social e alimentar. 

No ano de 2016, em função de chuvas que ocorreram em janeiro, houve o surgimento de um buraco na entrada social do Ilê, o que ocasionou a destruição dos fundamentos dos Orixás Tempo e Akokô, árvore sagrada desse ancestral. Sobre forte reivindicação junto ao poder público, a Iialorixá Daisy D’Oyá conseguiu realizar o relatório com a Diretoria de Patrimônio Cultural e Arquivo Público (DPCA) da Fundação Municipal de Cultural (FMC) e da Secretaria Municipal de Cultural (SMC), como procedimentos da denúncia apresentada ao Ministério Público sobre conduta irregular da Prefeitura de Belo Horizonte diante dos estragos causados ao Ilê Axé Afonjá Oxeguiri no rompimento da rede pluvial que passava pelo quarteirão, com o intuito de liberar e reformar o acesso ao terreiro que ficou totalmente interrompido, impossibilitando a realização das cerimônias públicas de culto aos Orixás.

O racismo e preconceito religioso contra as religiões de matrizes africanas no Brasil demonstram que a ideologia escravagista ainda existe entre nós. A pedra que Exu lançou hoje atinge essa ave de enorme envergadura, representada no preconceito e no racismo que se lança em nós de um passado longínquo, que se estende sobre as religiões de matrizes africanas e ao povo preto. E o Ilê Axé Afonjá Oxeguiri, que se trata de um terreiro de Candomblé da Nação Queto (Ketu), herdeiro da herança cultural de povos do Oeste-Africano, pelos falantes do iorubá localizados em partes dos atuais países Benim, Nigéria e Togo também é essa pedra de Exu, que luta e resiste. Assim como a existência dos corpos pretos, da cultura negra e de sua religiosidade. O Centro de Tradições e Memórias Afro-brasileiras Ilê Axé Afonjá Oxeguiri é uma resistência ao preconceito que continua a atingir a religião. O medo da quebra do Axé e da perda dos conhecimentos rituais da religião parece ter se tornado mais patente. Como afirma Mãe Dayse de Lisboa, o que a deixa abismada é a falta de comprometimento e desrespeito em relação ao conhecimento e aprendizado com os mais velhos.

Outra recordação de incômodo que a Iialorixá nos fala diz sobre os modismos da era da Internet. São frequentes as queixas de sacerdotes mais antigos, como Mãe Dayse de Lisboa, de que com a difusão virtual de saberes desvirtuam o verdadeiro princípio de compartilhamento de Axé. Os adeptos da “macumba online”, por resistirem às regras dos rituais e às etapas seguidas em um terreiro, conforme ensinamentos adquiridos das gerações anteriores, tornam-se um desafio. Já entre os que se iniciam, aparece outra perspectiva de críticas: as formas tradicionais de aprendizagem e sociabilidade do candomblé consideram que são antagônicas ao modo de vida na sociedade atual. É claro que a comunicação virtual ajuda a difundir a cultura e de maneira relativa auxilia na desconstrução do preconceito. Recorda a Ialorixá que mesmo sendo uma das potencialidades do Exu, já que Exu é a comunicação e a Internet é seu campo de atuação também, não deve ser o local do “pulo do gato”, ou seja, de contar, mostrar ou reproduzir o Oró do terreiro. Isso porque cada casa é uma casa, cada Iialorixá e Babalorixá é uma Iialorixá e um Babalorixá. Todos os cultos e ensinamento são para louvor e reverência aos Orixás, mas cada um segue um caminho e se encontram nas várias encruzilhadas da vida, por isso são religiões de matrizes africanas.

Assim, não se trata apenas de um conflito de gerações ou da diferença entre modos de vida em uma comunidade inserida em terreiro, e alternativamente fora de uma comunidade de terreiro; suspeita-se que tenha relação com a facilidade dessas pessoas (iniciantes) acessarem os saberes do culto, virtualmente, de maneira indiscriminada, em qualquer tempo, sem qualquer tipo de mediação pelos mais experientes na vivência do Axé em comunidade, de forma autônoma e, em muitos casos, distantes do espaço físico de um terreiro. Estes chegam trazendo “informações” pesquisadas não só na literatura acadêmica sobre religiosidade afro-brasileira, mas no ciberespaço, denominado por esses simpatizantes como ciberaxé (blogs, sites, páginas em redes sociais, canais de vídeos e demais veículos de publicação de imagens, textos e sons sobre a temática do candomblé) e problematizam os fazeres instituídos, sobretudo se diferem do “apreendido”, teoricamente, em suas “pesquisas”.

Sobre a proteção de Xangô, dotada pela comunicação de Exu, a Iialorixá Daisy D’Oyá deixa como mensagem aos seus filhos gestados no Axé e aos novos adeptos das religiões de matrizes africanas: “que o respeito seja o tudo na sua existência como cultuador dos Orixás, e que sua dedicação para eles seja a melhor resposta a perguntar — o porquê da vida? Não somos os Orixás, somos dos Orixás e para eles. E tenha fé!”.

Foto Claudio Andrade