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DJ Yza Black: é sobre Soul Music? Eu estava lá desde o começo!

Leo Olivera – Professor doutor do Departamento de Tecnologia do Design, da Arquitetura e do Urbanis-
mo da UFMG. Pesquisa sobre Música Negra e Jazz, é DJ, curador e produtor de eventos de música negra, como o Sabará Jazz Festival e o Projeto Nujazz no Parque.

Esaú Gonçalves Dias Filho, o DJ Yza Black, nasceu na época em que o Blues e o Gospel, estilos musicais dos negros estadunidenses, se encontraram com os elementos dançantes do Rhythm and Blues, criando uma música que tocava a alma. Yza nasceu junto com a Soul Music. Essa entrevista relata um pouco da transição de um jovem entusiasta da dança para um veterano disc jockey com mais de cinco décadas de experiência. Mostra como a paixão musical pessoal e a história local do crescimento da Soul Music moldou o talento de um jovem ávido por dançar e tocar os discos que gostava e que fez evoluir uma carreira respeitada no cenário musical de Belo Horizonte.

Yza, nos conte um pouco do começo de tudo

Bom, nasci em 1959, no bairro do Bomfim. Aos 6 meses, fui morar no bairro Santa Inês. Meus pais vieram de famílias grandes, festeiras e cada encontro sempre virava festa. Dizem que lá pelos meus 7 anos, numa festa na casa de minha tia, fui para o meio da pista e todos pararam para me ver dançar. Já roubava a cena desde pequeno. Desde cedo, percebi que a música era coisa muito boa e a dança melhor ainda, porque chamava atenção. Pretinho, pobre, eu chegava nos bailes e dançava. Acabei ficando popular no bairro, sendo sempre convidado para as festas. 

Desde cedo, Yza percebeu que a música era coisa muito boa e a dança melhor ainda, porque chamava atenção nas pistas.
Desde cedo, Yza percebeu que a música era coisa
muito boa e a dança melhor ainda, porque chamava
atenção nas pistas.

Em casa tinha uma radiola. Certa vez, ganhei um disco do meu pai e isso mudou a minha vida. Mas, preciso falar um pouco sobre o meu pai. Seu Esaú era um negro respeitado que nos deixava orgulhosos por trabalhar no SENAI, lá na avenida Antônio Carlos. Ele foi o primeiro negro instrutor de solda e era muito bom no que fazia, se destacando profissionalmente. Fez muitos cursos e viagens de trabalho pelo SENAI, até mesmo nos Estados Unidos. Cuidava muito bem da nossa família, gostava e conhecia as pessoas certas quando se tratava de música negra. 

Depois do meu primeiro disco, todo dinheirinho que eu ganhava era reservado para comprar mais discos. Certa vez, lá pelos meus 13 para 14 anos, um amigo me convidou pra levar a radiola e tocar meus discos em sua festa. Na casa dele, também tinha uma radiola, então liguei as duas pensando em não deixar a música parar. A festa era para durar até 23h e eu lembro que minha mãe bateu, esmurrou o portão para me tirar de lá às 3h da manhã. Ninguém gostou de a festa parar, mas no outro dia eu já estava famoso no bairro.

Depois Seu Esaú me perguntou: “acha que dá para ganhar o dinheiro com isso?”. Eu disse que sim, mas precisava de equipamento. Ele disse: “Bom, nesse ponto, eu não posso te ajudar. Mas, os discos eu posso continuar comprando”. E foi assim que eu comecei. Hoje eu tenho 53 anos como discotecário. Só tempos depois virei DJ, pois naquela época a parada era ser um discotecário.

Mas como foi que você se profissionalizou? Como foi ser reconhecido no cenário da música negra naquela época?

Continuei juntando dinheiro, conseguindo aos poucos comprar equipamentos. Construí minhas próprias caixas acústicas, o que foi uma evolução. Um ponto interessante foi que fiquei famoso na minha área por um curioso motivo: eu era um discotecário que punha a música para tocar e corria pra pista para dançar. Eu amava tocar, mas também gostava muito de dançar. Por um bom tempo, fiquei sem saber do que gostava mais. Acho que por isso montei uma equipe de dança com meus primos. O estilo que estava na moda era o Bilisqueti. Naquela época, existia uma efervescência em toda cidade, que era o surgimento das quadras, das equipes de som e de dança. Lá no Boa Vista, uma equipe de som chamada Electrassom começou a tocar na quadra do Celsus Bar e, em um sábado, fomos lá conhecer. As músicas não eram muito boas, mas deu para dançar. Meus primos e eu éramos exigentes. Começamos a frequentar o lugar e pouco tempo depois já havia outras equipes de dança por lá. Em um sábado, alguma coisa não estava legal, pois o som estava esquisito e as músicas não eram as mesmas. Perguntei para o dono o estava acontecendo e ele explicou que não tinha mais o discotecário. Me ofereci para “quebrar o galho” e ele topou. Fui pra cabine, folheei os discos, separei as “músicas balas” e mandei ver. A quadra pegou fogo. Naquele dia, eu não dancei, mas todo mundo dançou. Sai de lá empregado. 

Eu tinha um amigo, o Mauro. Estudamos juntos, somos gráficos de formação pelo SENAI. Ele também tinha um som e trabalhava em uma outra quadra, a Quadra do Pernambuco. Um dia, depois de sair do Celsius Bar, fui me encontrar com o Mauro, o que foi muito legal. Passei então a fazer assim: saia do Celsius e ia para o Pernambuco. Com o tempo, comecei a tocar com o Mauro. A quadra do Pernambuco ia bem, ficando famosa e sempre cheia. Ele resolveu fazer uma ampliação por lá, o que foi uma oportunidade de participar do projeto de sonorização. Trabalhei muito, especificando a aparelhagem, as caixas acústicas etc. E ficou muito bom! Então fui oficialmente contratado como discotecário da Quadra do Pernambuco e comecei a realmente ficar famoso. Tocava R&B e música lenta para a turma do Bilisqueti e depois soltava o Funk & Soul, com força. Bom demais. No começo, tocava para umas 500, mas em pouco tempo a quadra recebia mais de 2000 pessoas nos finais de semana. Fiquei na Quadra do Pernambuco quase toda a década de 1980.

Vamos falar um pouco mais da música. O que você realmente tocava lá na Quadra do Pernambuco?

Essencialmente música negra. Era época de uma transformação total na música mundo afora. Mas a mudança veio mesmo com o Blues e o R&B no final dos anos 1960. O Funk e a Soul Music chegaram pouco depois e representavam estilos mais dançante, com muito mais “groove”. E não posso deixar de citar a chegada da Disco Music, a famosa Discoteca, que foi marcante e dominou totalmente a cidade. Mas, eu não tocava discoteca. Mantive a minha linha Funk & Soul tocando nomes como Gladys Knight & the Pips, Kool & the Gang, Earth Wind and Fire e, é claro, James Brown, Fred Wesley e JB’s. Mas não deixava os brasileiros de fora, pois tocava Gerson King Combo, Banda Black Rio, Tony Tornado e outros. Mas como eu tinha acesso aos discos dessa turma? Por conta do sucesso das noites na quadra, assim o acesso aos discos que chegavam à cidade estava garantido. Os donos das lojas Dupsom e Hot Som, na Galeria do Ouvidor, nos avisavam quando ir às lojas. Só quem gosta de discos de vinil vai entender o peso dessa frase: “os discos chegaram, venha depressa. Vou abrir quando você chegar!”.

Vamos aprofundar um pouco mais sobre a sua atuação na cena da música negra em Belo Horizonte?

Eu comentei sobre os grupos de danças, das equipes de som e das quadras. Destaco agora as casas de shows e os clubes sociais como, por exemplo, o União Esporte Clube no Santa Inês ou o Máscara Negra no centro da cidade. E agora o meu pai volta à cena, pois ele foi da diretoria do União Esporte Clube e lá conheceu o Dora, o idealizador da Casa Máscara Negra e o dono da Equipe Comunicasom. Ele foi referência na divulgação do respeito social ao negro de Belo Horizonte. Seu Esaú organizou vários eventos Funk Soul com a Comunicasom e em um desses dias eu fui apresentado ao Dora. Bem, o Máscara Negra era localizado na rua Curitiba, próximo à antiga Mesbla. Naquela época, a juventude negra buscava espaços de sociabilidade com música e afirmação da estética negra. Vivíamos na Ditadura Militar e a presença negra era fortemente invisibilizada nas narrativas oficiais. O Máscara Negra reuniu tudo que era necessário para virar referência negra, com uma característica marcante: os brancos não entravam. 

Como conhecia o Dora, foi fácil passar pelo Marcelo, o famoso porteiro da casa. Aos 16 anos, entrei pela primeira vez. Lá conheci o meu mestre em Soul Music, o disc jockey Lúcio Capacete (e sua enorme cabeleira Black Power, daí o apelido). Ele ampliou minha percepção para o contexto social da música negra e mostrou que eu havia acertado em minha escolha musical. 

Alinhei o que tocava na quadra com o que ouvia no Máscara. Como eu sempre tinha discos novos, comecei a divulgar os nomes das músicas novas que tocava. Dizia no microfone: “Ei pessoal, chegou disco novo. Escutem agora e dancem ao novo som do Prince”. Pode ser polêmico, mas eu fui o primeiro a usar microfone durante o baile. Isso talvez tenha me aproximado do rádio. Mas a quadra não ficou aberta por muito tempo mais. 

Você comentou sobre rádio. Como se deu essa história?

Quando a quadra fechou, pensei: “Pronto, ferrou”. Um amigo da quadra trabalhava na Rádio Del Rey 98FM e conseguiu uma entrevista para mim. Fui entrevistado pelo Jajour Carneiro, o dono da rádio, e o meu amigo tinha passado a minha ficha completa, porém exagerando um pouquinho. O Jajour disse: “Seu amigo me contou que você já trabalha com rádio, não é? Me disse que você é discotecário e que seu baile é praticamente um programa de rádio, pois você conversa com o público o tempo todo”. Eu só concordei e fiquei com o emprego. Mas fui pra Rádio Terra 99,9FM, trabalhando das 2 às 6h da manhã. E não podia falar nada. Pouco tempo depois, meu tempo de programação aumentou e ficava até às 10h, agora podendo falar, o que foi muito bom, mas ainda não tinha um programa meu. Isso mudou quando eu conheci o coordenador Zancar Duarte. A Rádio Terra também controlava uma rádio educativa chamada Anchieta 107FM, que quase ninguém conhecia. Ele resolveu tocar música negra lá e me deu um programa de 3 horas de duração aos sábados para fazer isso. Assim nasceu o Programa Black Beat. E foi um grande desafio, pois a Anchieta não era muito conhecida e o Black Beat disputaria audiência com o programa Samba Alegria Brasileira, da Rádio Inconfidência FM. Eu trabalhava com outro radialista, o Raul que era outro homem negro que também amava música negra. E deu tudo certo porque em 3 meses batemos o Samba Alegria Brasileira com 100 pontos. Raul e eu estávamos bonitos na foto.

Yza emplacou programas importantes no rádio

Mas, e hoje, como você vê a atuação da Soul Music em Belo Horizonte?

Vou te explicar. Hoje, muitas das pessoas do Soul não aceitam mais o som que elas próprias dançaram e curtiram 40 anos atrás. Parece que precisam dizer que só ouviram Brown. E isso não é muito bom. Estamos ficando velhos, sabemos, mas também estamos perdendo a nossa história. Assim vamos diluindo os laços que unem a música dos negros. Eu hoje sei que errei um pouco ao não tocar discoteca profissionalmente porque eu era Black. Apesar disso, muitos bailes tocavam discoteca junto com Funk e Soul. Era quase um acordo natural no qual o pessoal do Soul ficava para o final. Mas, Isso se perdeu ao passar dos anos, se tornando meio que uma maldição da música preta: as pessoas não mais deixam rastros e muitos não sabem que estão ouvindo música negra.

A música tem relevância histórica na eterna batalha pelo respeito e reconhecimento da cultura e tradição do povo negro e sempre representou forte instrumento de luta. Não deixar mais rastros de reconhecimento de uma ancestralidade comum não me parece muito bom. Em minha história, esse movimento esteve enraizado na periferia como uma forma de resistência social para as comunidades negras locais. As quadras nasceram periféricas e a Soul Music ficou destacada na periferia por essa causa. Mas, com o passar do tempo, o Soul foi ficando “encostado”, pois acontecem poucos bailes e os simpatizantes formam um grupo restrito e muito pequeno. Em Belo Horizonte, você já não consegue juntar 100 pessoas em um baile Soul. Hoje a maioria está aposentada e não existem muitos jovens que se animam em participar. Na verdade, não estamos conseguindo trazer os mais jovens para ouvir, dançar e respeitar o Soul. 

Mas somos resistência. Belo Horizonte é considerada a capital nacional do Soul, inclusive pela força da Lei. Somos em maior número que em São Paulo e Rio de Janeiro. E, em matéria de dançar “no pé”, só dá mineiro. E para finalizar, gostaria de dizer que apostamos muito nessa juventude do Hip Hop, pois eles são conscientes de nossas raízes, objetivos e desafios comuns.

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Sandra Nandaka

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