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Um balanço do FAN, por Adyr Assumpção

Robson Di Brito: Mestre em Humanidades – UFVJM, Mestre em Artes – UEMG, Doutorando em Educação – USP

Adyr Assumpção é ator, diretor, escritor, roteirista, dramaturgo, produtor, professor, curador de mostras, festivais e gestor. Diretor desde 2004 da T’AI Criação e Produção. Criador da Imagem dos Povos Mostra Internacional Audiovisual. Curador e coordenador geral do FAN – Festival Internacional de Arte Negra, edições de 1995, 2007 e 2009. Diretor Artístico do Projeto Pixinguinha/Funarte 2004/2005/2006. Atuou, dirigiu e produziu mais de uma centena de produções incluindo cinema, televisão, web e artes cênicas. Em 2024, apresentou o espetáculo Leão Rosário, adaptação sua do Rei Lear de Shakespeare, no circuito nacional dos CCBBs. Graduado em Artes Cênicas pela UFMG e Mestre em Artes pela UNICAMP. O artista conversou com a Revista Canjerê fazendo um balanço do FAN, e como seu personagem inspirado em Bispo do Rosário, Leão Rosário, trouxe considerações de esperança para o futuro.

Em 2024, ao completar 50 anos de trajetória, você apresenta uma releitura de Rei Lear em uma encruzilhada com Arthur Bispo do Rosário e uma África imemorial. O que é essa encruzilhada entre Inglaterra, Brasil e África?

Para muitos, William Shakespeare inventou o homem moderno. Essa é a invenção da capacidade de nos transformarmos. Wole Soyinka, da Nigéria, Aimé Césaire, da Martinica, e Abdias Nascimento se inspiraram na obra do autor inglês para contar histórias de suas religiões, seus territórios e seus comportamentos. E de Bispo do Rosário — o artista, o homem preto aprisionado — recupero sua voz para dar vida ao Leão Rosário.

Diante do seu arcabouço cultural e da sua contribuição com o FAN de Belo Horizonte, como você o avalia hoje?

Em 1995, junto com Gil Amâncio, Djalma Corrêa, Ricardo Aleixo e Sérgio Fantini, queríamos um festival internacional. Atuei mais como produtor porque queria que tudo acontecesse e, naquela época, fazíamos tudo quase manualmente. Conseguimos unir Brasil, Burkina Faso, Colômbia, Congo, Cuba, EUA, Gana, Senegal, Togo e Venezuela. Firmamos com esse FAN um marco para a valorização africana em Belo Horizonte, com forte presença de artistas locais e internacionais.

Em 2007, como curador, consegui manter a visão internacional do festival. Naquele momento, o FAN entra nas políticas públicas, mas também recebe críticas por supostamente não acolher artistas locais — o que não é verdade. Além de países africanos como Angola, Burundi, Canadá, Guiné-Bissau, Mali, Nigéria e Senegal, propusemos uma homenagem aos Mestres da Capoeira e encontros que discutiram tradições e modernidades africanas no Brasil e no mundo.

Já em 2009, quando fui curador novamente, tivemos dificuldades em manter essa visão internacional. A falta de recursos, as disputas de representatividade e o esforço em enquadrar o FAN em formatos que não atendiam ao festival começaram a enfraquecer o movimento. Aos poucos, percebi que o interesse foi diminuindo. Por exemplo, quando se aproximava o período do festival, eu — por ter sido curador e produtor em edições importantes — recebia milhares de e-mails, o que foi diminuindo cada vez mais. Hoje, nem sabemos quem pode ou não participar.

Outro exemplo desse desinteresse está nos objetos e símbolos do FAN. Houve uma edição em que pedimos aos participantes que presenteassem o festival com um objeto. Recebemos um tambor do Togo, tecido do Senegal e outros itens, mas que foram espalhados; de vez em quando descobrimos que um tambor está no porão de algum lugar ou não se sabe onde foram parar os outros objetos.

O FAN é um palco de disputas políticas, seja de pertencimento cultural ou de posicionamentos políticos nos contornos sociais. Como você vê essas disputas políticas no FAN?

O que mais vejo como dificultador e como causa da desmobilização do FAN — e do próprio movimento negro — é uma defesa irrestrita ao identitarismo. As disputas de identidades e representações, em que cada um acredita que sua forma de ser é única e melhor enquadrada na perspectiva afro, são divisoras do movimento e das práticas conciliatórias. Isso, no país como um todo, faz com que as pessoas se afastem.

O principal problema do identitarismo é a dificuldade de conciliar a diversidade cultural. E disso surge a disputa: cada um quer ser o mais representativo ou o mais importante. Isso nos faz perder de vista que o FAN é um movimento da afrodiáspora. Talvez seja algo pensado para desmobilizar o movimento mesmo. Nesse sentido, acredito que o festival precisa se reinventar, transformar-se para recuperar a potência que teve no início do seu projeto.

Qual a mensagem que você deseja deixar para os leitores da Revista Canjerê?

É preciso voltar à ancestralidade com a reverência que o passado solicita, mas sem perder o frescor do novo. Precisamos revisitar o passado, mas não o reproduzir como se fosse um exemplo irrestrito e único. Nós, enquanto diáspora, temos uma ancestralidade múltipla e diversa — como a cultura é — e precisamos utilizar tudo isso para melhorar nosso tempo.

Por isso, acho que precisamos ficar mais atentos aos movimentos dos povos originários. Eles estão nos mostrando que há um bom caminho, e que, na encruzilhada em que nos encontramos, são eles que estão nos apontando por onde devemos seguir.

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Rosalia Diogo

Jornalista, professora, curadora do Casarão das Artes Negras, chefe de redação da Revista Canjerê, Dra em Literatura, Pós-doutora em Antropologia.

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Dalva Silveira reencontrou, nos encontros do projeto Casarão das Artes e Revista Canjerê, o mesmo espírito coletivo e libertário que marcou sua juventude. Nascida em Belo Horizonte, em 1967, cresceu sob a ditadura militar, experiência que moldou sua visão crítica e seu compromisso com a memória histórica. Professora, escritora e pesquisadora, construiu uma trajetória dedicada à reflexão e à resistência política e cultural no Brasil.