Dos atalhos históricos que fazem Moçambique

Por Elisio Macamo


Uma vez, participei num debate interessante organizado pela cooperação suíça em Berna. Pediam-me para reflectir sobre a pertinência do modelo asiático de desenvolvimento para a África. Se há uma pergunta que me aborrece, é mesmo esta. Na verdade, são de longa data as comparações entre a Ásia e a África da mesma forma que também são antigos os esforços de mostrar a natureza problemática dos critérios usados para o efeito. A Ásia, isto é, uma parte da Ásia, conseguiu, a África (talvez) ainda está a caminho de conseguir.. E depois? Durante o debate, dei largas ao meu aborrecimento insistindo patrioticamente na ideia de que os últimos sessenta anos de independência em África não foram assim tão maus.


A insistência foi produto de instinto patriótico, mas quanto mais penso no assunto, mais convencido fico da ideia de que há muita coisa positiva que podemos recuperar da nossa experiência de independência. Em Moçambique, somos quinze anos mais novos, mas em pouco tempo fizemos tudo quanto é preciso fazer para sentir as dores do crescimento. Proclamamos a independência em 1975, ficamos eufóricos, matamo-nos uns aos outros numa longa guerra civil de 16 anos, conversamos e fizemos calar as armas em 1992. Muito mais coisas aconteceram, mas estas foram as mais significativas e que mostram progressão, não retrocesso.


No final do debate, alguém se aproximou de mim. Ele tinha ainda nos ouvidos algumas palavras que eu havia proferido. Com essas palavras, eu dizia que 60 anos de independência são muito pouco para começarmos a tirar conclusões sobre se a África vai bem ou mal. Precisamos de muito mais tempo, pois quando fazemos análises de processos históricos tendo como referência pouco tempo, corremos o risco de tomar ruídos por fenômenos centrais. É um pouco como em meteorologia. Se eu quiser avaliar a mudança climática ou simplesmente a qualidade do tempo não é aconselhável dar muita importância ao que acontece no espaço de uma semana. Posso dar com variações extremas que não dizem nada sobre a média. O melhor é esperar até ao fim do ano e ver a distribuição do bom e do mau tempo.

Pois bem, a pessoa que se aproximou de mim disse-me que concordava, mas pediu-me para tomar cautela. Mais concretamente, essa pessoa disse-me que as elites africanas deviam tomar cautela, pois as outras elites – as asiáticas – não estão sentadas. A África, segundo ele, corre o risco de ficar cada vez mais insignificante e perder de vez o trem do progresso.


Isso deu-me que pensar. Não foi, contudo, tanto o receio de que houvesse alguma verdade nessa previsão quanto o que significa a história que Moçambique (e África) tem vindo a viver. Aí pareceu-me útil reflectir sobre esta história. Não obstante, como é possível abordar a história de várias maneiras, parece-me mais pertinente concentrar a atenção naqueles que deram um País às gentes de Moçambique. São as elites libertadoras que fizeram a luta anti-colonial contra os portugueses entre 1964 e 1974. Entende-se melhor um país africano sob o pano de fundo das mulheres e dos homens que o constituíram.


A minha língua materna, o Xangan, tem um ditado simples: a nhena yi psvala toya (um herói dá à luz um filho cobarde). A comparação que faço refere-se ao herói trágico grego. A narrativa é simples: um herói comete um erro que vai significar a sua morte ou queda do pedestal. O elemento trágico nisto tudo é o faco de o herói ser nobre de coração e intenções e estar a ser punido por um simples erro de cálculo. Sei que a ideia xangan do herói que tem filho cobarde não corresponde exatamente à ideia subjacente à tragédia grega, mas pouco importa. Serve para ilustrar o argumento. A África de hoje é o resultado de actos heróicos de certos indivíduos que, subsequentemente, caíram em inglória.

Para confirmar isso, basta lançar um olhar de relance pelo panteão nacionalista. Kwame Nkrumah, pai do Gana e da ideia dos Estados Unidos de África, deposto e falecido no exílio. Modibo Keita, idem para o Mali, terminou mal. Ahamadou Ahidjo, idem para os Camarões. Yakubu Gowon e Murtala Muhammad na Nigéria, tendo o último terminado muito mal, isto é, morto numa tentativa de golpe após ele próprio ter golpeado o primeiro. Patrice Lumumba no Congo etc. Há algo profundamente trágico na trajetória dum indivíduo que se sacrifica pelo seu povo para depois terminar de forma inglória.


Foto Albino Moisés