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O Mali: o império dos Mandingas

Por  Marcos Antônio Cardoso – Militante do Movimento Negro, professor de cursos livres de introdução à História da África, filósofo, Mestre em História Social e Doutorando em Ciência da Informação, UFMG.

Para os berberes, conjunto de povos e etnias diversas do deserto do Saara, a conversão ao islamismo representou a possibilidade de resgatar a hegemonia política perdida sobre os estados e reinos negros africanos da faixa ao sul do Deserto do Saara conhecida como Sahel. Com o apoio dos árabes que ocuparam o norte da África, negros africanos convertidos e árabes constituíram o poderoso exército dos almorávidas, cuja aliança política e militar foi fundamental para invadir e impor uma derrota ao antigo império da Ghana, o Senhor do Ouro.  Pela primeira vez na história, os povos do deserto se unificaram sob uma administração permanente. 

Após a decadência do Império do Ghana, no século XII, surge o Império do Mali, hegemonizados pelo grupo Sosso, que junto com os povos mandingas resistiram à invasão árabe e à islamização.  Entretanto, o poderio bélico da formação do exército islamizado – os almorávidas – e a conversão das populações negras ao islamismo, intensificaram os deslocamentos dos povos negros para o sul do continente africano e as guerras na região enfraqueceram a segurança militar e intensificaram o processo de escravização. 

É nesse contexto que os Maninkes, islamizados pelos almorávidas, entram em guerra contra os Sossos para obter a hegemonia do comércio e o domínio político nessa região do oeste da África. É na batalha de Querino que os Sossos são vencidos pelo exército de Sundiata e a estrutura política do Mali passa a ser centralizada na figura do Mansa – o rei dos reis.  O termo Mansa é uma palavra mandinga que significa Sultão, Rei, Imperador. 

Segundo o historiador sírio/egípcio Ibn Fadlallah al-Umari, que teria se encontrado com o Mansa Abubakari II e publicado o relato de suas viagens em 1342, Abubakari II foi rei de um dos maiores impérios do mundo, pois o Mali controlava toda a região da África do Oeste devido a abundância das descobertas de grandes quantidades de ouro. No período de seu reinado, o império era um grande centro de excelência e na cidade de Timbuktu foi fundada uma das primeiras universidades públicas do mundo na medida em que para lá afluíam sábios e estudantes de todo o mundo árabe, quando as mesquitas funcionavam como centros de difusão da cultura islâmica. 

O historiador do Mali, Gaoussou Diawara, no livro “A saga de Abubakari II”, conta que a imensa esquadra do Mansa Abubakari II teria saído em 1311 com 2 mil barcos, de onde é hoje a Gâmbia para viajar ao Recife, levando homens, mulheres, gado e outros animais. O próprio nome “Pernambuco” seria, segundo o historiador, uma derivação da expressão do Mali “Boure Bambouk”, que significa “campos de ouro”, e traços e influências da cultura do Mali foram encontrados por todo o continente quando da chegada dos espanhóis e portugueses, quase 200 anos depois. 

Algumas análises de inscrições encontradas aqui no Brasil, no Peru e nos Estados Unidos, assim outros achados linguísticos, culturais e arqueológicos oferecem uma boa base documental de evidências a respeito dos muçulmanos do Mali na América antes de Cristóvão Colombo.

Examinando as inscrições encontradas no Brasil, mais especificamente na Bahia e em Minas Gerais, assim como na costa do Peru em Ylo, revela-se a presença desses muçulmanos africanos. Tais inscrições foram tiradas de cidades antigas e de tabletes de pedra que foram originalmente escritos em Vai, uma língua mandê/Mandinga.

É certo que os mandingas participaram intensamente da história social do Brasil por liderarem as revoltas, levantes e insurreições urbanas em Salvador na Revolta dos Malês entre 1830 e 1835. Creio que a presença deles na Bahia do século XIX influenciou a Capoeiragem e o ditado popular negro “quem não pode com mandinga não carrega patuá”. De acordo com o artigo da professora Vanicléia Silva Santos, “Mandingueiro não é Mandinga, mas uma referência aos usos das práticas mágicas para a proteção do corpo”.  

A Mesquita Djinguereber, em Timbuktu, no Mali, é um famoso centro de conhecimento islâmico construído em 1327. Sua projeção é credenciada a Abu  Haq Es Saheli que, de acordo com Ibn Khaldun, uma das fontes mais conhecidas do século XIV de relatos sobre o Império Mali, diz que al-Saheli foi pago com 200 kg de ouro por Musa I do Mali (Mansa Musa), imperador do Império Mali.

Crédito: Gâmbia foto de Homo Cósmicos

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Rosalia Diogo

Jornalista, professora, curadora do Casarão das Artes Negras, chefe de redação da Revista Canjerê, Dra em Literatura, Pós-doutora em Antropologia.

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