África > BURKINA FASO: De Sankara a Traoré!

BURKINA FASO: De Sankara a Traoré!

    Marcos Antônio Cardoso – Filósofo. Professor de Cursos sobre a História da África. Mestre em História. Doutorando em Ciência da Informação.

Uma revolução anticolonial está acontecendo no Sahel Africano. O Sahel é a região que separa o deserto do Saara das florestas tropicais da África subsaariana. Levantes militares com muito apoio popular reposicionam, no cenário internacional, os países do Sahel africano: Burkina Faso, Níger e Mali. Nos três casos, os novos governos iniciaram um processo de transformação institucional, política e econômica e expulsaram as tropas militares francesas,  eliminando a intervenção colonial direta. 

Essa região da África Ocidental conheceu civilizações e estados multiétnicos importantes antes da partilha do continente pelas potências ocidentais definida na Conferência de Berlim, em 1885. Com uma população semelhante à da União Europeia (UE), com mais de 420 milhões de habitantes, a África Ocidental é rica em recursos naturais, ouro, petróleo, minérios, entre outros, apesar de a população ser uma das mais pobres do mundo e a mais afetada pelo “terrorismo”, com diversos grupos insurgentes islâmicos ativos.

Um dos principais problemas do Sahel africano é o “terrorismo” islâmico promovido por grupos insurgentes, entre eles, alguns ligados à Al Qaeda e ao Estado Islâmico (EI). Os países do Sahel foram intensamente afetados pela guerra ao terror promovida pelos países ocidentais, principalmente depois da queda do governo da Líbia, com o assassinato de Muammar Gaddafi, em 2011, pelos Estados Unidos. 

A guerra ao terror no Sahel promoveu a destruição de vários estados, deixando um vazio social e econômico que proliferou uma série de problemas sociais. O “terrorismo” é alimentado pela exclusão de grupos étnicos inteiros do jogo político, que ficam sem representação, o que acaba por justificar a presença militar ocidental sob o pretexto de ajudar aqueles países e mobilizar as forças armadas para combater os terroristas, perpetuando a exploração dos recursos minerais. Para alguns analistas, não há “terrorismo”, o que existe é a presença colonial da França.

Os franceses exerceram uma violenta exploração do Sahel por décadas. Quando a França começa a perder o controle do seu sistema após a 2ª Guerra Mundial, ela resolve coordenar um processo de descolonização controlado, apoiando uma falsa independência e criaram-se repúblicas de mentira, de fachada. Após os processos de independência, nas décadas de 1960, mantiveram regimes neocoloniais predatórios semelhantes ao período colonial. Hoje, os países do Sahel dizem NÃO à França e que o atual estado das coisas não pode continuar.

No Sahel africano, parece ocorrer uma “descolonização efetiva”. Burkina Faso, Mali e Níger abandonaram a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) por perceberem que essa instituição sempre esteve subordinada aos interesses estrangeiros e fundaram, em setembro de 2023, uma nova organização regional: a Aliança dos Estados do Sahel (AES).

É nesse cenário que emerge a liderança do presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, geólogo e capitão do Exército, como principal símbolo desse processo. Em setembro de 2022, comandou o levante militar com apoio popular para derrubar o governo de Burkina Faso, expulsou as tropas francesas do país,  nacionalizou as minas, criou bancos públicos e medidas para se desvincular da moeda francesa, o franco CFA.

Traoré reivindica a tradição anti-imperialista e anticolonial de figuras históricas do pan-africanismo, como Thomas Sankara, de Burkina Faso, e Patrice Lumumba, do Congo. Desde que as potências ocidentais assassinaram o jovem revolucionário Thomas Sankara, Traoré tem se destacado como seu sucessor, porque, diferentemente da junta militar do Níger ou do Mali, que são um pouco anônimas sem grandes lideranças pessoais, ele é uma grande liderança carismática e se assenta em uma legitimidade popular muito grande.

Essa postagem foi possível graças a um dos nossos parceiros:​

Rosalia Diogo

Jornalista, professora, curadora do Casarão das Artes Negras, chefe de redação da Revista Canjerê, Dra em Literatura, Pós-doutora em Antropologia.

Você também pode gostar

Maria Luiza Viana é professora do Departamento de Tecnologia do Design, da Arquitetura e do Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais, possui Doutorado em Design pela USP (Universidade de São Paulo).
Reverenciado por toda uma geração de artistas, do rap ao reggae, Celso Moretti é um dos grandes mestres da nossa música, uma referência de construção e continuidade da música negra e periférica.
As culturas de tradições populares têm um papel fundamental no fortalecimento dos laços coletivos, promovendo trocas que vão além do ambiente virtual. Em tempos em que as relações se tornam cada vez mais mediadas por telas e mensagens instantâneas, experiências presenciais, como as oferecidas por festas tradicionais e manifestações culturais, resgatam a vivência do encontro e o senso de comunidade. Esse contato reforça a identidade local e desperta memórias compartilhadas, valorizando a transmissão de saberes e rituais que enriquecem o vínculo social e emocional entre as pessoas.