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Mãos que tecem o futuro: idosos reinventam saberes e conexões nas periferias de BH

Por Naiara Rodrigues – Jornalista, assessora de imprensa

Entre agulhas, ferramentas e telas digitais, um grupo de idosos de Belo Horizonte tem redescoberto o prazer de aprender — e de se reconhecer como produtor de conhecimento. O Laboratório de Ofícios e Saberes (LOS), iniciativa do FA.VELA, conecta práticas tradicionais e tecnologias contemporâneas para fortalecer o protagonismo das pessoas 60+ em territórios populares da capital mineira.

O projeto atende 150 pessoas idosas com perfil de vulnerabilidade social — em sua maioria mulheres, negras e LGBTQIAPN+ — e oferece oficinas e formações práticas em um Laboratório Maker Móvel, equipado com impressoras 3D e ferramentas digitais. A proposta é criar pontes entre o ontem e o hoje, entre o saber manual e as linguagens tecnológicas.

“Começamos com o Perifa 60+ focado em letramento digital, mas entendemos que era preciso também reconhecer os saberes que essas pessoas já trazem de suas trajetórias”, explica João Souza, cofundador do FA.VELA. “Assim nasceu o Laboratório de Ofícios e Saberes, para valorizar mestres e mestras e conectar seus ofícios à tecnologia.”.

Com metodologia própria, o FA.VELA aposta em uma espécie de “alfabetização de novos mundos”, ajudando os participantes a perder o medo das telas e ganhar autonomia. “Nosso sonho é que uma avó consiga conversar sobre inteligência artificial com um neto, cada um do seu ponto de vista”, diz João.

Mais do que ensinar o uso de ferramentas, o LOS estimula a confiança e o pertencimento. “Falamos sobre autoempreender — empreender a si mesmo, redescobrir capacidades e entender como a tecnologia pode facilitar a vida e o trabalho”, afirma.

O impacto é medido tanto por indicadores quanto por histórias pessoais. “Vemos participantes que, após o curso, passaram a acessar bancos digitais, serviços públicos online, ou simplesmente a conversar com mais segurança sobre tecnologia. Mas o mais importante é o brilho de quem volta a se sentir parte do presente.”.

Com o Laboratório Maker Móvel, o FA.VELA leva conhecimento até os territórios, reforçando o compromisso com o acesso e a diversidade. “Nosso sonho é que o LOS percorra todo o estado de Minas Gerais”, conta João.

Para Geralda Francisca da Silva, de 70 anos, participar do Laboratório de Ofícios e Saberes tem sido uma experiência transformadora. “Minha maior alegria é poder fazer parte de um grupo assim. Eu nunca tive essas oportunidades porque a vida sempre foi muito corrida — fui mãe solo, e hoje é uma felicidade poder conviver e aprender com outras pessoas”, conta. Curiosa e cheia de energia, ela vê no projeto um espaço de trocas e descobertas. “Eu gosto muito de aprender coisas novas, e aqui estou no lugar certo, com pessoas muito legais e esforçadas para nos ensinar. A vida sempre foi dura, mas aqui tenho a oportunidade de aprender mais. Tenho sede de aprender.”.

Já Maria das Graças Freitas, de 72 anos, encontrou no curso a chance de vencer o medo da tecnologia. “Minha maior dificuldade é com o digital, mas as professoras são muito interessadas e pacientes. Eu pergunto muito.”, brinca. “Acredito que nesses oito meses de curso talvez eu não vire uma expert, mas pelo menos não vou mais cair em golpes, como já aconteceu. Nem vou precisar tanto dos meus filhos para me ajudar, porque agora quero ter mais segurança para fazer as coisas sozinha — até o Pix”, ressalta.

Entre ferramentas, memórias e descobertas, o projeto reafirma que envelhecer é também reinventar-se, e que o futuro pode ser tecido por mãos experientes.

Foto: FA.VELA

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Rosalia Diogo

Jornalista, professora, curadora do Casarão das Artes Negras, chefe de redação da Revista Canjerê, Dra em Literatura, Pós-doutora em Antropologia.

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