Coletivo AfroBapho, de Salvador, utiliza as artes integradas para mobilização social

Por Naiara Rodrigues

Dança, música, performance, arte drag, fotografia, audiovisual, moda, artes digitais… são várias as linguagens presentes nos trabalhos desenvolvidos pelo AfroBapho, coletivo de arte integrada formado por jovens negros LGBTQIA+ da capital baiana.

O AfroBapho surgiu a partir de um espaço criado no Facebook para debater questões de intersecção de raça, gênero e sexualidade, que uniu pessoas que compartilhavam vivências. Das ricas discussões, nasceu a vontade de transbordar aquela rede social.  

“Percebemos que a melhor forma de dividir conhecimento e sensibilizar as pessoas sobre pautas importantes seria através da arte – que geralmente é uma ferramenta potente que chega a todos os públicos. A partir daí, começamos a pesquisar e produzir conteúdos para falar sobre racismo, estética negra, valorização de corpos dissidentes, dentre outras temáticas”, explica Alan Costa, idealizador do Coletivo AfroBapho, que conta hoje com 17 integrantes oficiais, além de realizar parcerias com diversos outros artistas.

As produções fotográficas e audiovisuais, alinhadas ao discurso de defesa dos direitos humanos do grupo, começou a conquistar admiradores, e ele passou a ocupar não só as redes sociais, mas jornais, revistas, programas de TV e eventos em Salvador.

As atuações do coletivo começaram com intervenções urbanas em espaços conhecidos da cidade que viraram projetos audiovisuais e, devido ao sucesso, passaram a produzir suas próprias festas, eventos cujo objetivo eram valorizar, celebrar e visibilizar a arte independente de pessoas pretas e LGBTIA+.

O coletivo utiliza o potencial da arte como uma ferramenta de diálogo com a sociedade para falar das próprias existências enquanto corpos dissidentes. “Os nossos corpos já comunicam muita coisa somente ao sermos observados. Quando alinhamos isso a uma estética, aos movimentos de dança, performance e música, potencializamos a criação de uma nova história sobre nós, na qual somos os protagonistas”, afirma Alan. 

“Quando estamos nas ruas de Salvador, vestidos do jeito que gostamos, nos movimentando e celebrando nossas existências, estamos ali dizendo para as pessoas que também temos os mesmos direitos. Estamos ali buscando a naturalização de quem somos na sociedade e exigindo o mínimo: que é o respeito”, ressalta o artista.

Assim, o grupo consegue dialogar sobre o racismo através de uma performance drag ou falar sobre a violência contra LGBTIA+ através de performances de dança. “Isso é o que chamamos de ARTvismo: quando a arte e o ativismo caminham juntos, na defesa da diversidade”, explica Alan. O coletivo chegou a ser convidado pela Anistia Internacional para colaborar num projeto sobre Direitos Humanos.

Apesar de toda a visibilidade conquistada ao longo dos 6 anos de atuação – o coletivo conta com mais de 50 mil seguidores no Instagram –, ainda enfrentam dificuldades para se manterem financeiramente apenas com o trabalho desenvolvido pelo coletivo.

“Somos artistas independentes, pretos, LGBTIA+.  Muitos de nós só tem a arte como fonte de renda. Então, vivemos o contexto da pandemia com várias inseguranças. As redes sociais nos proporcionaram alguns trabalhos importantes para nossa manutenção”, defende.

Entre os trabalhos desenvolvidos pelo grupo durante o período estão a participação de programações culturais online, incluindo o projeto “IMS Convida”, do Instituto Moreira Salles, cujas obras que foram criadas de casa, respeitando o distanciamento social, se encontram disponíveis online no site do instituto. “Também começamos a realizar alguns trabalhos com marcas. É algo novo pra gente, mas que tem sido muito importante”, enfatiza Alan.

Agora o coletivo prepara o lançamento do seu mais novo projeto, o AfrobaphoLAB, com a proposta de promover um laboratório de artes integradas que vai contar com rodas de conversa sobre questões pertinentes à produção de artistas independentes negros e LGBTIA+, workshops de dança, performance e música, apresentações musicais de artistas independentes de Salvador, dentre outras surpresas. O projeto será em formato digital e integra os projetos aprovados no Edital da Natura Musical 2019.

Foto Gabriel Oliveira