Como Bissilay Bigna, da BBBigna, está transformando a moda e incentivando a autoaceitação estética das mulheres africanas

Por Sandrinha Flávia – Jornalista, locutora, editora e mestra de
cerimônias

Quando Bissilay Bigna deixou Guiné Bissau, país da África Ocidental, para viver em Portugal, e mais tarde na Inglaterra, não imaginava que se tornaria uma importante influenciadora da moda africana na Internet.

De etnia Balanta, palavra que significa “aqueles que resistem“, maior grupo étnico do seu país, Bissilay resolveu homenagear a sua etnia e adotou o nome artístico de Rainha Balanta. Sua relação com a moda vem da infância. Sua mãe foi costureira e sempre criava roupas com as sobras de tecidos.

De família humilde, filha mais velha de três irmãos, Bissilay cresceu vendo seu pai e sua mãe trabalharem muito para que nada faltasse. Quando tinha oito anos, seu pai Manuel Coelho Bigna migrou-se para Portugal em busca de uma vida melhor.

Durante toda adolescência, sua vida era estudar, ir à igreja e voltar para a casa. Quando completou 18 anos, seu pai achou melhor que ela também fosse para Portugal. Um mês depois, seus irmãos também desembarcaram naquele país. Sua mãe Margarida Bissinde só  foi para Portugal cinco anos depois.

Rainha Balanta ressalta que a vida por lá não foi nada fácil no início. “Foi muito duro, eu trabalhava durante o dia para pagar os meus estudos e outras despesas, e estudava à noite. Infelizmente não consegui conciliar as duas coisas e tive que deixar a universidade,” disse.

No auge da crise econômica em Portugal, ela perdeu seu emprego, mas como a Rainha Balanta resiste, tratou logo de planejar a sua mudança de país e partiu para a Inglaterra. O maior desafio foi se adaptar ao frio e ao idioma. Em Londres, na Inglaterra, logo conseguiu um trabalho, e foi aí que as coisas começaram a acontecer.

Convivendo diariamente com a moda por conta do seu trabalho em uma loja de roupas, Bissilay começou a investir em seus próprios figurinos. “Adoro moda, gosto de ser diferente, uso muitas roupas com o pano africano, uso turbantes quase todos os dias, tudo isso para manter sempre a minha identidade por perto. Desenho os modelos que quero e mando fazer,” disse.

Em pouco tempo, suas criações começaram chamar a atenção de suas seguidoras. O próximo passo foi criar sua própria marca de turbantes, a BBBigna que tem um forte propósito social. “O objetivo é manter viva uma parte da minha cultura e incentivar principalmente as mulheres guineenses a usarem turbantes ou seus cabelos naturais, ao invés de tissagem ou peruca, o que é forte em meu país”, disse. (Tissagem é um tipo de alongamento que usa a técnica conhecida como entrelace aqui no Brasil).

Segundo Bissilay, a luta pela revolução ao uso dos cabelos naturais em seu país só está começando. Muitas até acham o seu cabelo crespo bonito, mas dizem não ter coragem para usar. “Uma vez aqui em Londres, tínhamos um casamento e estavam todas a aplicar tissagem. Eu era a única que não estava a fazer isso. A mãe de uma amiga minha chegou ao pé de mim e disse baixinho, “filha” não tens dinheiro para comprar cabelo? Posso te emprestar, depois quando tiveres, dás-me. Olhei pra ela comecei a rir. Eu lhe agradeci e disse-lhe que tinha dinheiro, mas queria ir com o meu cabelo. Quando chegamos à festa, eu era a única que estava com o meu cabelo; todas tinham tissagem, alongamento ou peruca”, ressaltou.

Além de incentivar as mulheres, Rainha Balanta também educa os homens, pois a maioria deles prefere ver mulheres com tissagem, alongamento ou peruca.

Prestes a se formar no curso de “Human Resources with Management”,Rainha Balanta não perde a oportunidade de curtir a sua família que também vive na Inglaterra. A saudade dos tios, primos e da avó, Samy Tchongo, carinhosamente chamada por ela de Nindan na língua Balanta (que significa Mulher Grande), a faz visitar Guiné Bissau todos os anos.

“O próximo passo é aprender a costurar para criar mais peças e futuramente lançar a sua grife de roupas”, finalizou.

Foto @consciousscofield