Inspiração, essencialidade e requinte na arte barroca

     Cleonice Silva, Jornalista, formada pela Universidade Federal de Ouro Preto

Impossível não se encantar com as obras produzidas por Edney do Carmo Silva em seu ateliê mediante a grandiosidade e riqueza de detalhes presentes nas peças. Nesta edição, ele é o entrevistado para falar sobre seu trabalho.

Como foi seu primeiro contato com a arte?

Sou filho de marceneiro. Em minha casa, sempre teve madeira, ferramentas de corte e formões, principalmente. Então, foi muito fácil iniciar porque não precisei comprar nada de materiais; meu pai me cedeu as ferramentas, madeiras e me instruiu, na medida do possível, sobre os primeiros cortes e como afiar as ferramentas. A partir daí as coisas foram acontecendo.

De onde vem tamanha inspiração?

Minha inspiração foi o contexto histórico das obras do barroco mineiro. Morando em Mariana, sempre convivi com a produção artística, até mesmo porque sempre frequentei as igrejas católicas onde estão concentradas as obras desenvolvidas pelos artistas do barroco mineiro. Então ficava observando bastante todo aquele complexo de obras, onde cada ponto me chamava mais atenção que outro, tanto na relação das esculturas e imagens sacras, quanto nos ornamentos que as compõem, altares, arremates nas paredes laterais e os púlpitos. Isso foi me dando essa linha de inspiração e recriação para os dias atuais.

Edney, você tem alguma obra preferida?

Toda linha de trabalho tem uma história específica, todas têm uma valorização notável no meu consentimento de produção artística, desde a primeira até a última que finalizei. Cada uma agrega uma história, um ponto específico, para quem foi feita, quanto tempo exposta, tempo empenhado, as habilidades e técnicas apuradas. Tudo conta.

Além de escultor, você também é entalhador e policromista. Se especializou em algum curso direcionado para seu ramo?

Fiz uma linha de estudos na UFOP, na verdade foram cursos de extensão sobre história da arte, barroco mineiro e barroco brasileiro. Então, me embasei nos termos teóricos para ter exatamente a ideia histórica do trabalho a ser desenvolvido. Tudo é um trabalho de estudo com inspiração no barroco mineiro e agregado com a necessidade da atualidade.

Como a imaginação ganha asas para criação das peças?

Faço de acordo com meu gosto quando é uma composição de peças para o ateliê. Imagino a decoração feita numa parede, numa bancada que venha atender a necessidade de alguém, junto com as linhas do barroco mineiro e vou desenhar as peças com as devidas proporções.

Ao longo desses anos expondo seu trabalho, considera alguma feira ou exposição como a mais marcante?

O número de pessoas que consigo abranger num evento determinado  é o que realmente me marca. Em termos de abrangência, destaco a feira de arte e artesanato (FENEARTE) na cidade de Olinda-PE. Maior feira de artesanato da América Latina, com pessoas do Brasil e do mundo inteiro expondo produtos. Um referencial. Em média, mais de 250 mil pessoas que têm interesse em arte e artesanato fazem visitas em 12 dias de feira. É uma questão totalmente relevante para o meu trabalho e para quem se interessa em trabalhar com o tema..

Como são divulgadas suas obras?

Me concentrei numa profissão em que conseguisse ampliar o meu showroom, a identidade do que é meu trabalho, uma linha que desenvolvi por conta própria. Não tive ajuda financeira de ninguém. Quando iniciou a era digital – na verdade comecei antes dela – logo vi algo de interessante que pudesse fazer, profissionalmente falando, e criei um site e redes sociais. Como aqui é uma cidade pequena e as pessoas vão demorar para chegar, através de site e redes sociais a gente consegue expor fotos do que já produziu, os clientes veem e podem focar no que tem de melhor na região.

Por que escolheu trabalhar com a madeira cedro?

O fato de trabalhar com Cedro é justamente em função de ser uma madeira utilizada pelos artistas do Barroco mineiro. No entanto, a grande utilização desse tipo de madeira fez com que a escassez se tornasse óbvia.

Você faz trabalhos incríveis reutilizando a madeira. Como surgiu essa ideia?

Foi minha própria inspiração de trabalho a reutilização desse tipo de madeira. Aqui na região, a gente não tem praticamente nada de Cedro, é difícil de conseguir hoje.  Então tive uma ideia e fiz adaptação de uma técnica utilizada por marceneiros há anos, que é uma mistura de pó de madeira e cola. Usam isso para fechar algumas frestas entre uma madeira e outra. Enfim, coisas assim.  Adaptei essa técnica juntando o que considerava como resíduo no trabalho, que são as lascas da madeira, e desenvolvi fôrmas de silicone.  Coloco essa massa com adaptação dentro e replico meus trabalhos. Ultimamente tenho desenvolvido uma produção em grande número de querubins com tamanho padrão de 12 cm, produção semestral de 1000 peças, digamos assim.

Disponibilizo nas oficinas de policromia que ofereço no ateliê, envolvendo o turismo educacional para alunos entre o oitavo, nono e primeiro ano do ensino médio que vêm visitar cidades históricas de Minas. Oficinas rápidas de no máximo 2 horas em que desenvolvemos um trabalho de policromia utilizando folha de ouro. Os alunos levam esse trabalho para casa, além da bagagem histórica que vai ficar gravada na mente deles para sempre. Consigo atender até 50 alunos confortavelmente assentados. Tenho todos os equipamentos de pintura, bancadas de trabalho e bancos para assento.

Conta pra gente, falta realizar algum sonho como artista?

Meu sonho é parar de vender meus trabalhos e fazer somente para exposição. Um ateliê aberto à visitação para mostrar a produção artística inspirada no barroco, com as peças em fase de iniciação até as fases finais e sair para eventos mostrando essa linha produtiva.

Como a pandemia da Covid-19 impactou seu trabalho?

Fiquei com o ateliê praticamente um ano fechado. Na verdade, tive muitos contatos por redes sociais, sites e telefonemas. Já tinha mesmo que reservar um tempo para terminar as encomendas que estavam pendentes e, nesse sentido, pude me dedicar mais às encomendas.

Como profissional negro, você já sofreu opressão racial?

A priori, quando a pessoa vê o trabalho não está vendo quem fez. A figura que a pessoa tem na cabeça de um produtor de arte com trabalhos consideráveis é que seja uma pessoa de meia-idade a uma pessoa mais velha e branca, ninguém vai esperar um jovem negro fazer um tipo de produção dessa. Realmente com a responsabilidade do trabalho e com a força que o trabalho expressa, isso assusta as pessoas, mas esse surto é em função de que infelizmente houve essa subjugação do negro.

Quem produziu as maiores e melhores obras do barroco mineiro e barroco brasileiro foram os negros. Então, nessa questão toda que envolve esse preconceito e esse perfil formado de um produtor de artes aparece minha cara preta lá, entendeu? Tinha 19 anos quando montei o primeiro atelier e comecei a lidar diretamente com público consumidor. As pessoas não acreditavam quando viam a força do trabalho. Perguntavam quem fazia, me identificava e repetiam a pergunta: Mas é você mesmo quem faz? É uma questão de preconceito e desvalorização da capacidade de desenvolver tal proposta de trabalho.

Mas, sempre soube lidar muito bem com essa situação e a resposta sempre veio do preço do trabalho porque existe e é necessária a valorização de qualquer trabalhador Independente de cor, raça, credo ou opção sexual.  Propus e sempre proponho uma resposta à altura. Prezo pela produção séria no âmbito das Artes e nunca deixei nada me afligir nesse sentido de preconceito racial.

Como você vê o reconhecimento e valorização do seu trabalho no mercado?

O meio artístico para quem tem comprometimento é uma área fantástica para trabalhar, a gente trabalha por conta mesmo, o horário a gente quem faz. Temos essa liberdade, mas temos um compromisso que não é fácil viver e desenvolver. Criei uma estratégia de produção em grande escala porque isso ajuda a valorizar o nome artístico, inclusive quando a pessoa vai conhecer o seu trabalho pessoalmente, com isso as pessoas passam a te respeitar mais e entender que não é um hobby, é realmente uma profissão. Sou um produtor de arte e trabalho com o talento que Deus me deu.

Foto: Edney do Carmo Silva