Mary del Priori lança luz aos cantos escuros da História

Por Robson Di Brito

Não é estranho perceber que a trajetória da historiadora, escritora e professora Mary del Priori a fez enfrentar a escuridão do apagamento para trazer à luz mulheres silenciadas ao longo da história brasileira. Sabiamente levou a linguagem historiográfica até o homem comum e elegeu a História como uma “Deusa” a ser cultuada. Nesta primeira década do século XXI, momento em que as ciências humanas são vilipendiadas e sufocadas por ideologias de segregação com pitadas de fascismo, rompe a barreira do obscurantismo trazendo mais claridade para os debates acerca da negritude e das misturas étnicas, as quais formaram o brasileiro moderno e o contemporâneo.

Doutora em História pela Universidade de São Paulo e Pós-doutora pela École des Hautes Études em Scienses Sociales na França, rompeu com a tradição da tão sonhada estabilidade da Acadêmica Federal para viver de suas pesquisas e da divulgação da História para o grande público. Com mais de 50 livros publicados sobre a História do Brasil, apresentou, agora em 2021, sua nova investigação no livro “À procura deles: quem são os negros e mestiços que ultrapassam e marcaram a História do Brasil”, uma extensa pesquisa sobre personagens, fatos e documentos acerca dos pretos e mestiços importantes à história nacional, mas que foram lançados ao esquecimento ou branqueamento social. Mary del Priore lançou-se à procura desses brasileiros, mulheres e homens que inspiraram e inspirarão outros ainda.

A escravidão foi um empecilho para o desenvolvimento do brasileiro e impediu uma imagem mais moderna no Brasil do império?

Há imagens que se complementam; a primeira é o enorme desprezo do império escravista, que é muito complexo, pois não é possível tratar de apenas escravidão, mas de escravidões. E o impacto dos estrangeiros ao identificar outra África no Brasil, em especial nas cidades litorâneas. Esses estrangeiros descrevem com horror os mercados de venda de humanos e ficam admirados com as classes médias mestiças. O Brasil já tinha no império no início do século XIX 45% da população de afro-mestiços livres e incorporados ao mercado de trabalho que estavam em mobilidade social e representavam um grupo de elite. A grande maioria deles intelectuais e representantes do Brasil no exterior. Nas correspondências dos viajantes e dos diplomatas, podemos identificar esses indivíduos, e a dicotomia de ter essa classe em ascensão e ao tempo o comércio de escravos; essa foi uma visão aterradora para a Europa. 

A princesa Isabel não possuía nenhum interesse sobre o tema da abolição da escravatura e propriamente a libertação dos seres humanos em situação de escravidão?

Interesse diria que propriamente não, isso porque ela passa a maior parte desses anos entre o Brasil e a Europa. E além, as regências dela foram muito mal recebidas pelos políticos; ela não é vista, sobretudo, pelo seu próprio pai, como uma boa substituta para o reinado. Muitos historiadores interpretam essa atitude dela na assinatura da lei como uma ação para uma defesa a um terceiro reinado e aos seus três filhos (homens). Ela aplica-se a isso, mas são gestos de uma mulher que vê seu reino “ir pro beleléu”. E quando ela saiu para o exílio toda a sua correspondência é de saudade de casa, das amigas, mas não dá uma palavra sobre a abolição, o que impactou diretamente na queda da monarquia.

Crédito das fotos: Arquivo pessoal

Como foi a pesquisa de “À procura deles: quem são os negros e mestiços que ultrapassaram a barreira do preconceito e marcaram a História do Brasil”?

 Com muito contato que tive com as correspondências dos diplomatas, lia a identificação desses negros e mestiços, mas me perguntava: onde eles estão? Então, comecei a procurar por eles, e os encontrei em toda a parte. Em Portugal, Coimbra especificamente, identifico um número significativo de negros e mestiços estudando medicina (que precisam ser estudados); inclusive Maurício Rebouças, que está estudando na Sorbonne em Paris, e por conta de sua dissertação criou cemitérios no Brasil, pois ele prova que a doença que matou o indivíduo que era enterrado na igreja acabava por matar quem rezava pelo morto dentro do templo. Mas uma coisa é certa, o letramento foi fundamental à ascensão desses ex-escravizados e as mulheres foram fundamentais para o letramento dessas pessoas. O papel da mulher, as mães foram as grandes motivadoras dessas classes. Eu convoco as historiadoras a investigar essas mulheres – a documentação comprava que havia muitas secretarias e tesoureiras negras e mestiças nas irmandades, então não é possível afirmar que não havia letramento para essas mulheres. Agora… Claro que por conta da pandemia estava tudo fechado, as bibliotecas, os institutos, o que dificultou a pesquisa, mas mesmo assim foi um prazer essa investigação e conhecer essas histórias maravilhosas. 

Este trabalho apresenta negros e mestiços ascendendo socialmente, e como você identifica o debate sobre o branqueamento social?

O branqueamento tanto se apresenta como uma defesa contra o racismo ou simplesmente uma questão de mobilidade social. Minha função como historiadora é apresentar essas pessoas, mostrar sua existência e resistência – claro que me deparo com isso, mas não sou especialista nas questões da negritude e não sou negra – eu não saberia interpretar isso, por isso deixo para os especialistas. 

Sua atuação como escritora da História é profícua e de temas muito importantes para entender a História do Brasil e seus resultados no Brasil contemporâneo. Como é a recepção do seu trabalho?

Eu, quando saí do magistério, saí da USP, muitos colegas deixaram de falar comigo. Eu fui um pouco hostilizada porque há 21 anos a divulgação da História era sinônimo de lixo. Eu saí da USP para me dedicar ao meu projeto, e foi com o livro “A carne e o sangue: A Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos” que lanço luz para esses personagens que não estavam na moda. Foi nesse momento que os colegas da área começaram a ler o meu trabalho e recebi boas críticas. Eu assumi esse projeto, quis fazer isso, e o que é bacana é que o meu trabalho tem inspirado grupos de estudos em regiões periféricas através dos meus livros. Isso é acessar as pessoas que precisam conhecer o Brasil e questionar essa hipocrisia da Universidade de achar que certos temas não são válidos ou que não podem entrar no ambiente acadêmico, o que afasta o povo das universidades. Estou muito feliz com a minha escolha.   

Qual sua mensagem aos leitores da Revista Canjerê?

Vocês têm uma história. E digo que durante muito tempo essa história não foi incorporada a grande História. Agora, graças às cotas, números cada vez maiores de negros e mestiços nas universidades irão colocar esses grupos, essas histórias, essas personagens também na grande História. Por isso, é preciso que os trabalhos desses pesquisadores pensem nas suas histórias e contem elas, suas mães maravilhosas, suas lutas e resistências. Parabéns pela Canjerê e muito sucesso, não desistam nunca. 

Ser confrontado com a História não é uma tarefa fácil, principalmente no atual momento em que o negacionismo, o revisionismo histórico e as fake News tentam apagar uma visão mais assertiva do Brasil. Mas Mary del Priori lança-se com sede e fome aos documentos, relatos e registros desta História que solicita ser contada e corajosamente ilumina os cantos escuros que foram desprezados. Em “À procura deles: quem são os negros e mestiços que ultrapassaram a barreira do preconceito e marcaram a História do Brasil” identificamos uma oportunidade de olhar face a face para um desses cantos pouco iluminados. Sua leitura é uma possibilidade de conhecer os ricos – negros e mestiços – personagens, os quais necessitam voltar a viver através de nossa leitura e memória. São os verdadeiros ancestrais que a História feita por homens, brancos, héteros e cristãos não quiseram contar.  Esses são os ancestrais pretos e mestiços que o Brasil contemporâneo necessita neste instante visualizar para melhor entender sua identidade e não se permitir cair no erro de eleger ineptos como representantes deste esplêndido país.