Ndê! E Quilombos Urbanos Expõem a Negritude em Belo Horizonte

Rosália Diogo Jornalista, professora, pesquisadora, gestora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado

Sou honrada e feliz por servir à PBH por meio da política municipal de cultura – Fundação Municipal de Cultura (FMC), com o viés de promoção da arte e da cultura negra desde 2015. Tento colocar em prática as minhas pesquisas, os relacionamentos e as experiências de negritude, afinal a Lei nº 9934/10, que se refere à Política Municipal de Promoção da Igualdade Racial, deve ser observada e aplicada por todos os setores que desenvolvem políticas no contexto da política municipal. Tal lei se refere a iniciativas de valorização e promoção da arte e cultura negra na cidade

É importante destacar que 2019 é o quarto ano da Década dos Afrodescendentes, instituída pela Organização das Nações Unidas – ONU. Daquela data até hoje já foram realizadas diversas movimentações políticas e culturais em torno desse período celebrativo. A Secretaria Municipal de Cultura e a Fundação Municipal de Cultura não se furtam ao engajamento nessas agendas.

Apesar da presença de trabalhadoras e trabalhadores negras(os) atuando na cidade desde sua origem (como atestam documentos como registros policiais e de atendimentos médicos), nas narrativas sobre a história de Belo Horizonte existe um silenciamento das histórias das pessoas negras, da sua presença na cidade.

Restaram aos antigos habitantes do Curral Del Rey e aos trabalhadores e operários migrantes trazidos para o erguimento da nova capital, as múltiplas resistências e transgressões desse modelo excludente como, por exemplo, as ocupações das áreas suburbanas. São esses fora de lugar – notadamente os de cor para usar termos da época – os participantes da construção da verdadeira citadinidade, a partir de suas resistências.

Neste texto, quero destacar duas emblemáticas iniciativas institucionais da política pública de cultura municipal em Belo Horizonte que demonstram a força e a riqueza do legado dos africanos que foram trazidos para o Brasil para serem escravizados: a sua arte e a sua cultura.

As exposições Ndê! Trajetória Afro-Brasileiras em Belo Horizonte, que está no Museu Histórico Abílio Barreto/MHAB, e Quilombos Urbanos e a Resistência Negra em Belo Horizonte, exposta no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado/CRCP, apresentam para a cidade muito do que se pode traduzir sobre a cultura de matriz africana.

As duas exposições foram inauguradas no final de 2018. Ndê, permanecerá no MHAB até 2020, e Quilombos Urbanos e a Resistência Negra até novembro deste ano.

O foco de Ndê, que exibe cerca de trezentas peças, é apresentar a multiplicidade e a diversidade de contribuições africanas e afro-brasileiras para a construção da história de Belo Horizonte: lacuna recorrente na produção das narrativas históricas oficiais sobre a cidade. A mostra marca um importante momento de diálogo e de valorização da cultura negra, além do reconhecimento pela contribuição cultural na formação da sociedade belo-horizontina.

Muitas famílias negras reconheceriam nessa expressão em Kimbundu – língua dos povos Bantu que predominaram em Minas Gerais e no Arraial do Curral Del Rey por força da escravização – a voz atenta de algum ancestral. É provável que, para os milhares de Congos, Angolas, Benguelas, Cabindas, Moçambiques, Minas, Monjolos e seus descendentes, vivendo nestas terras, amparo e força dessa natureza tenham sido fundamentais.

Em sintonia com o propósito do Museu Histórico Abílio Barreto/MHAB em abordar o tema da presença negra no território do Curral Del Rey/Belo Horizonte, surgiu a proposta curatorial de Ndê! O projeto deriva da aparente contradição entre a preponderância da população afrodescendente no local e de sua invisibilidade nas narrativas historiográficas e na construção de memórias.

Invisibilidade e silenciamento são, contudo, expressões viscerais do racismo a estruturar a desigualdade no país. Assim, políticas de promoção de acervo e programas de instituições museais e arquivísticas voltados para a produção ética e diversificada de representações sociais são fundamentais para que o direito universal à memória não seja reduzido ao privilégio de alguns grupos étnicos-raciais.

As trajetórias e experiências afro-brasileiras suscitadas tecem a trama dessa exposição que evidencia Belo Horizonte alicerçada em um território negro. Evocadas por meio dos acervos compartilhados por deviers@s parceir@s negr@s da cidade, essas trajetórias dialogam e complementam outras vozes trazidas à luz a partir da acolhida do MHAB à proposta de revisitar seus acervos.

A Exposição “Quilombos Urbanos e a Resistência Negra em BH” consiste na montagem e exposição do acervo dos três quilombos urbanos de Belo Horizonte, a saber: Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, Quilombo dos Luízes e Quilombo de Mangueiras. Por meio do acervo oriundo desses quilombos, contamos a história de luta e resistência desses territórios pela ótica cultural, histórica e religiosa que constituem suas identidades.

A Mostra teve a sua abertura em 13 de dezembro de 2018 – um ano de comemoração do reconhecimento das três comunidades quilombolas como Patrimônio Imaterial da cidade e o quarto ano de aniversário do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Não podemos perder de vista que o evento integrou o calendário do aniversário de 121 anos de Belo Horizonte.

A comunidade Manzo Ngunzo Kaiango localiza-se na Rua São Tiago, 216, no alto do Bairro Santa Efigênia/Paraíso, Região Leste, em um terreno que abriga 11 famílias com 50 pessoas. A matriarca, Mãe Efigênia (Efigênia Maria da Conceição), está ligada a todos os moradores por laços de parentesco, seja consanguíneo ou religioso.

A comunidade, que é também um terreiro tradicional de candomblé, foi certificada em 2007 pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombo. Ocupa a área desde a década de 1970, quando iniciou suas atividades como casa de umbanda “Terreiro de Pai Benedito”, depois transformado em terreiro de candomblé de Angola. Hoje ela se organiza por meio da Associação de Resistência Cultural da Comunidade Quilombola Manzo Ngunzo Kaiango.

O quilombo dos Luízes fica no bairro Grajaú, Região Oeste. Há relatos do quilombo desde em 1895, quando seu território era em Nova Lima. Em 1930, a área (13 alqueires) foi vendida à mineração Morro Velho. Com o dinheiro, Nicolau Nunes Moreira e Ana Apolinária, matriarca, compraram uma gleba de terra da Fazenda Calafate, em Belo Horizonte, e montaram um mocambo, onde os nove filhos foram criados.

O Quilombo de Mangueiras está localizado no quilômetro 13,5 da MG-20, regional norte, que liga Belo Horizonte a Santa Luzia, na região metropolitana. Apenas uma placa indica a existência da comunidade. Quem passa pelo trânsito nervoso da via não imagina que naquele ponto há uma história mais antiga que a capital.


São vinte e oito famílias no local. Algumas sobrevivem da agricultura de subsistência. “Antes, todos trabalhavam como pequenos agricultores, mas com as ocupações e construções fomos perdendo terreno. Como somos de uma mesma família, os que trabalham fora compram os produtos agrícolas da comunidade.

Dessa forma, as exposições Ndê! Trajetórias Afro-Brasileiras e Quilombos e a Resistência Negra em BH, montadas no Museu Histórico Abílio Barreto e pelo Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado, contribuem de maneira significativa para as agendas de valorização da cultura e arte negra que a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, a Secretaria Municipal de Cultura e a Fundação Municipal de Cultura têm realizado na cidade.

Convidamos o público a visitar e fomentar visitas à essas duas mostras. Será dessa forma que manteremos viva a memória africana na cidade e contribuiremos para a educação das relações étnico-raciais, e para o conhecimento da cultura afro-brasileira e africana no Brasil.

Referências Bibliográficas:

Dossiê de Registro dos Quilombos Luízes, Mangueiras e Manzo Ngunzo Kaiango como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial de Belo Horizonte: Diretoria de Patrimônio Cultural, Arquivo Público e Conjunto Moderno da Pampulha.

Ndê! Anda! Caminha! Vá sem receio!: Texto de Josimeire Alves e Simone Moura- Curadoras da Exposição do Museu Histórico Abílio Barreto.

Quilombos Urbanos e a Resistência Negra em Belo Horizonte: Texto da equipe de pesquisa da Exposição do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado: Camila Mafalda, Daniela Miziara, Grace Alves, Rosália Diogo e Viviane Sales. Matriarcas quilombolas: Mãe Muiandê, D. Júia, D. Luzia Sidônio e D. Wanda de Oliveira.

Foto: Ricardo Laf