Valéria Duarte cria coleções de moda que contam a história da cultura negra

Por Sandrinha Flávia, jornalista, apresentadora e empresária

Peças que contam histórias inspiradas na cultura negra. Essa é a proposta da estilista Valéria Duarte, 53 anos. Sua história com a moda começou aos 16 [anos quando foi trabalhar em uma loja de tecido. Sua mãe, Helena Duarte da Silva, que trabalhava como faxineira, e sua avó, Elza Paulina de Souza, foram suas incentivadoras. 

Quando Helena percebeu o talento da filha, tratou logo de matriculá-la em cursos de pintura de tela, tecido e moda no SESC e SENAC. Foi por meio do curso de moda que veio a primeira oportunidade profissional em uma loja de tecido onde   trabalhava como figurinista desenhando para os clientes. Além de faxineira, sua mãe era bordadeira, mas, após adoecer, ela esqueceu a memória da costura. Valéria relata que sua avó foi a sua primeira instrutora, “foi a minha avó que me ensinou a pregar botão, fazer bainha e cerzir roupas” disse.

Após fazer uma viagem a Londres (UK), a estilista teve a certeza de que a moda era o seu propósito. Londres foi a sua inspiração. Após retornar, matriculou-se no curso de designer de moda do Centro Universitário UNA onde conheceu o professor Aldo Clécius, grande incentivador da sua carreira.

A primeira coleção desenvolvida por Valéria foi inspirada pela fala de uma pessoa que disse o seguinte: negro é preguiçoso.  Foi, então, que decidiu contar histórias negras através da roupa para desmistificar essa fala. Suas peças não têm estampas e sim texturas, como explica: “Acredito que tudo que a gente vive, fica impregnado no nosso íntimo, na nossa pele, na nossa psiquê e influencia em tudo que a gente faz. É a nossa bagagem que influencia o ontem, o hoje e o amanhã” relatou.

A estilista Valéria Duarte ao lado do professor e consultor de moda Aldo Clesius falam sobre a influência da cultura preta na moda cotidiana. Evento idealizado pelo Movimento Moda Contemporânea Mineira

A primeira coleção lançada pela designer foi batizada de “Blues”.  São peças com vários vazados, texturas e xadrezes trabalhados em entrelaçamentos de tiras dando efeitos de telas e colares.  Valéria explica que a ideia das linhas cruzadas são para mostrar que os encontros que temos na vida produzem algo, por mais triste de sejam. “O Blues, por exemplo, nasceu nas lavouras do algodão com os negros escravizados que cantavam seu dia a dia com aquelas belas vozes e fizeram ressoar até hoje influenciando nossos ritmos musicais.”

As peças trazem ainda tiras de um centímetro e meio que formam texturas que lembram os limites das lavouras de algodão. Vale lembrar que o algodão é matéria-prima para a criação do tecido, inclusive a logomarca da empresa Valéria D Valéria é uma flor de algodão.

Na coleção Blues, Valéria resgata, ainda, histórias de mulheres da Vila Tiébélé que fica em Burkina Faso (África). Elas fazem pinturas feitas à mão utilizando um tipo de barro e formando vários grafismos. A intenção delas é ter um lar e não só uma casa. A estilista traz essa história e esses grafismos para a sua coleção, “são pinturas sem tinta, utilizo apenas tecidos que falam sem ter voz. Quando você compra a peça, ela vem carregada da história de alguém que não era preguiçoso e se superou a ponto de deixar vários legados”.

Em 34 anos fazendo moda, além das suas próprias coleções, Valéria já assinou coleções como Patchoulee, Silvana Miranda e Vibração, atualmente assina a coleção da HDK Brasil.

A estilista questiona o apagamento de profissionais pretos no setor, “são os donos das marcas que tem relevância, é difícil um negro ter projeção dentro da marca, e foi por isso que criei a minha própria empresa para entender quem eu sou de verdade, pois as impressões sobre mim eram passadas por pessoas que não tinham interessa pelo meu crescimento”, finaliza.

Foto Yasmim Morais