Viva Lagoinha busca soluções criativas para requalificar um dos berços de Belo Horizonte

Por Naiara Rodrigues, jornalista cultural e assessora de imprensa 

A Lagoinha é um marco de Belo Horizonte desde as primeiras décadas da capital planejada até os dias de hoje, com imóveis com estilos que vão do Art Déco ao Modernismo. Historicamente, a região que deu origem à construção da cidade e acolheu os primeiros imigrantes que chegaram para trabalhar na nova capital – europeus, brasileiros de outros estados e do interior de Minas, com destaque para a população negra.  Foi lá que nasceu o samba mineiro, sendo ponto de encontro de músicos e boêmios belo-horizontinos, e foi onde surgiu a primeira escola de samba da capital, ainda na década de 1930, a Pedreira Unida.

Porém, a construção do complexo ferro-rodoviário, na década de 1980, mudou completamente o bairro que antes era integrado ao centro de Belo Horizonte, com comércio agitado e botequins sempre abertos e cheios. O rompimento do eixo centro-bairro marcou o início de uma fase de degradação e falta de investimentos na preservação do seu patrimônio cultural. 40 anos depois da mudança, o resultado desse processo de abandono é a alcunha de “Cracolândia de Belo Horizonte”, em um território que reúne hoje 7 bairros e cerca de 35 mil habitantes. Pensando em mudar essa realidade, moradores que enxergam ali muito mais oportunidades e riquezas criaram movimentos para requalificar a região. Morador do bairro desde 2007, o publicitário Filipe Thales fundou em 2012 o Viva Lagoinha. “A iniciativa tem o objetivo de conectar pessoas que acreditam na resiliência do bairro Lagoinha e fazer economia criativa no território”, explica. Dentre as diversas problemáticas estruturais que a região possui, o Viva Lagoinha busca mitigar: a baixa estima dos moradores, a falta de vitalidade noturna no bairro e o alto índice de pessoas em situação de rua.

Filipe Thales, que já atuou anos em projetos de comunicação e jornais comunitários voltados para a região, explica como desenvolve um trabalho que é de city branding para a Lagoinha. “Primeiro criei uma marca do bairro, para falar das coisas boas daqui. Depois que fundamos o Viva Lagoinha, comecei a criar produtos que seriam vacinas para essas três problemáticas”, explica. Em 2019, surgiu então o Rolezin Lagoinha, em colaboração com o movimento Nossa Grama Verde, que é um passeio guiado que convida moradores e viajantes a redescobrir, com olhares frescos, a história e o presente do bairro, passando por pontos icônicos como o conjunto habitacional IAPI, a Ocupação Pátria Livre, na pedreira Prado Lopes, antiquários, hortas comunitárias e cozinhas da região. “Essa é a vacina contra a baixa estima dos moradores que passaram a ver o bairro com outros olhos depois de receberem esses visitantes. Chegamos a receber até cônsul italiano aqui no bairro”, afirma. 

Outra iniciativa importante foi a parceria com eventos da cidade para potencializar a vida noturna do bairro. Em 2019, fizeram outra colaboração com o CURA – Circuito de Arte urbana – que realizou uma edição no território, estrategicamente na rua Diamantina, 733, conhecido como Mirante Lagoinha, chamando a atenção da cidade para o potencial desse espaço que recebeu um dos grafites do festival. O diálogo com a Prefeitura também resultou em um palco oficial do carnaval para Rua Itapecerica, em 2020. Outra colaboração importante foi com a empresa Nadir Figueiredo, a partir de uma petição, realizada em 2020, com objetivo de que a fabricante oficializasse em BH o nome “copo Lagoinha” como seu produto é mais conhecido na cidade. Em 2021, Filipe Thales foi convidado para ser embaixador da marca em Belo Horizonte, o que permitiu a abertura do espaço físico do Viva Lagoinha.

Já sobre o alto índice de pessoas em situação de rua, Filipe destaca que, apesar de ser uma questão de responsabilidade do poder público, os debates dos moradores têm contribuído para melhorias, como a implantação do Centro Integrado de Atendimento à Mulher (CIAM) no bairro. Uma das iniciativas mais recentes da agência de soluções criativas foi o Circuito Lagoinha, lançado em 2021, que promove o território, contando a história local, mostrando o potencial gastronômico, humano e artístico com programação cultural e turística. 

Filipe Thales guiando o Rolezin Lagoinha, durante o Circuito Lagoinha em sua primeira edição, em 2022. Foto: Estudio TEJ

Mas não para por aí, a mente criativa de Filipe Thales tem sonhos grandes para o território “Nosso projeto é transformar a Lagoinha num polo cultural e tornar a rua Itapecerica o maior polo gastronômico da cidade de Belo Horizonte. Hoje ela está com 70 portas do comércio fechadas. Queremos criar o maior corredor turístico gastronômico da América Latina aqui”, ressalta. Devido ao impacto desse movimento, já é possível ver novo lugares abrindo no bairro, e as cozinhas e restaurantes da Lagoinha fazendo sucesso na cidade. “Eu acho que eu ainda vou ver outra Lagoinha”, destaca.

A ideia vem a partir do “Rolezin por aí” que é uma pesquisa que o publicitário vem desenvolvendo, visitando diversos locais que também passaram por momentos de auge e decadência, mas que guardam um importante valor histórico com potencial turístico e cultural em suas cidades. Entre os locais já visitados pelo publicitário estão bairros como Bexiga (SP); Lapa, Catete e Glória (RJ); Solar da União (BA); Centro de Recife e Olinda (PE; Rosário (Argentina), entre outros. A pesquisa também ajuda a conectar a Lagoinha com outros pontos do país, uma vez que Thales também integra a Rede Nacional de Experiência de Turismo Criativo. A próxima etapa da pesquisa vai ser neste ano e Filipe já está com a proposta de conhecer Curitiba (PR), Belém (PA), São Luiz (MA), Brasília (DF) e Espírito Santo. “Na terceira temporada, vou em lugares com projetos importantes ligados a moradores de rua e vou participar de um Fórum em Dubai, em 2024. Minha ideia é vender esse projeto de requalificação da Lagoinha para um Xeique árabe. Conseguir financiamento para comprar tudo na Itapecerica e fazer isso acontecer”, afirma Filipe Thales.

Foto de destaque: Marcus Paulo Araújo