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Sandrinha

O Afrofuturismo de Zaika dos Santos

Arte, Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodiáspora

Por Naiara Rodrigues, jornalista e assessora de imprensa

O lançamento do filme Pantera Negra e o seu sucesso mundial chamou atenção para o movimento Afrofuturismo que traz uma mistura entre a ancestralidade africana e tecnologias na criação de narrativas com o protagonismo negro. O blockbuster levou ao cinema a história do primeiro super-herói negro e sua mística nação Wakanda, em uma adaptação para as telonas da história em quadrinho da Marvel Comics, criada em 1966 e que, a partir de 2005, passou a ser escrita por autores negros. Dialogando diretamente com o movimento, a sua projeção chamou atenção popularizando e dando visibilidade a artistas que desenvolvem suas obras dentro desse conceito no Brasil e no mundo.

Zaika dos Santos é multiartista e pesquisadora afrofuturista. Ela é cantora, compositora, arte-educadora, artista visual, pesquisadora negra, performer, trançadeira, produtora cultural, formada em audiovisual, rádio e TV e web designer. Pesquisadora do tema, cursa Licenciatura em Artes Plásticas na Escola Guignard (UEMG) e seus trabalhos estão estética, conceitual e tecnicamente ligados ao Afrofuturismo – Arte, Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afroadiáspora.

Nas artes visuais, desenvolve atualmente o projeto Nok é Nagô que engloba diferentes ramificações artísticas. Para cada ação, desenvolve um processo criativo. Na performance, realiza ações com a transversalidade de linguagens das artes visuais dialogando as referências etimológicas, simbólicas, iconográficas, ancestrais e identitárias negras. Na pintura, visibiliza com a pintura corporal em ações de performance e a pintura em tela com referências africanas. Na gravura, aborda a simbologia etimológica e iconográfica Adinkra. Na fotografia, traz mulheres negras no seu cotidiano popular através de registros fotográficos escultóricos, e nas artes digitais mescla todas essas técnicas. Na ciência da computação, trabalha com programação HTML, códigos binários, instalações, mapping e a matemática do nó contextualizando a potência desses conteúdos e sua origem em África.

As Yabás da afrodiáspora é um dos processos que desenvolve há três anos no Nok é Nagô.

“Nele, faço esculturas-coroa e fotografo mulheres negras sem reproduzir o estereótipo de que já estamos cansadas. Busco o que é este lugar de identidade de mulher negra para essas mulheres de forma sincera, intensa. Geralmente eu passo um dia com as meninas, espero elas trabalharem a identidade delas neste lugar, como qual roupa, qual maquiagem querem usar”, afirma Zaika que, em alguns casos, cria as coroas de forma personalizada para a construção das fotografias.

Inicialmente conhecida pela sólida carreira no Hip Hop, a artista afirma que sua atuação sempre foi dedicada à música eletrônica em geral. Ela se prepara para lançar, no início de 2019, o seu disco Akofena em streaming, que já está no forno desde 2015, e traz em seu conceito o Afrofutursimo num lugar de vivência da mulher preta e da interseccionalidade do feminismo negro. Ela já lançou single de duas das dez faixas que fazem parte do álbum, Az nega! e Fluxos, e entre as inéditas estarão samplers, incluindo uma música do João Bosco. O álbum foi gravado em parceria com o consagrado produtor Dubalizer, em São Paulo, e leva a forma de uma música politizada para dançar.

“Fizemos um processo de pesquisa coletivo para trabalhar a sonoridade e a ancestralidade da música africana e afro-brasileira como fonte da música eletrônica”, destaca.

Outra iniciativa desenvolvida por Zaika é o Saltosoundsystem que visa ao empoderamento feminino através da Cultura Soundsystem. A partir dos processos formativos com conteúdos técnicos, teóricos e práticos sobre a cultura e novas tecnologias do projeto, nasceu o primeiro sistema de som que tem o formato de um salto alto com caixas agudas, medias e de subgraves. Ele une quatro selectoras mulheres negras (Samantha Luz, Isabela, Zaika e Nah Araujo) e um selector homem trans negro (Alê) em um coletivo que se formou a partir do processo formativo do projeto e que instala seu sistema de som para amplificar músicas de mulheres negras estrangeiras e brasileiras nas linguagens sonoras dos ritmos de origem jamaicana e em outras como o funk e afro house.

“A Salto é mais um processo formativo. A primeira edição do evento aconteceu no Centro de Referência da Cultura Popular da Lagoa do Nado e a nossa intenção é rodar a cidade com o sistema para amplificar música e empoderar mulheres”, enfatiza.

E não para por aí. Ela ainda tem projetos de desenvolvimento de jogos de tabuleiro, na área das exatas, de produção como hacktivistas, entre outros. A multiplicidade de sua produção reflete na densidade artística de Zaika. Artista inquieta, está sempre em busca de novos conhecimentos com uma visão integrada dos conteúdos, o que fez com que, ao longo de sua história, vivesse momentos em que não era compreendida pelas pessoas ao seu redor. Na adolescência, aprendeu a fazer tranças nagô de forma autodidata, observando a tia Nilma que trabalhava em um dos primeiros salões afros da cidade, o Salão da Betina. Aos 14 anos, já se tornara a principal trançadeira do bairro onde morava.

“Minha mãe falava para abrir o meu próprio salão, mas eu dizia que não queria ser cabeleireira, queria ser cientista”, relembra Zaika, falando que sempre trabalhou com tranças nagôs em outro espaço de discussão para além do lado da estética e da política.

Ela faz com facilidade conexões entre as tranças, as complexas estruturas geométricas matemáticas contidas em fractais e a sua relação com a criação do sistema binário, base de qualquer sistema informatizado que conhecemos hoje.

“Existem discussões sobre o uso das tranças, no período escravocrata do Brasil, como mapas que guardavam caminhos de fuga das senzalas. Já na África, as tranças eram trabalhadas mais dentro de outro contexto, dentre eles o dos fractais. Mas a ciência e os fractais não surgem na Europa? Não. Tivemos muito conhecimento que surgiu na África, mas existe um silenciamento histórico e foi quando eu decidi ir em busca de conhecimentos que me foram negados que os descubri”, afirma.

Seu processo de pesquisa sempre foi no lugar desse resgate histórico e de cruzar áreas, mesmo tendo crescido ouvindo que era necessário focar e escolher uma secção de estudo e também da cultura. Na universidade, pode se aprofundar em novas ramificações da arte e trabalhar com convergências desses conteúdos.

“Sabia que ao entrar na faculdade teria que estudar o conteúdo eurocêntrico, desconstruí-lo e trazer essas questões para o meu lugar de fala”, explica.

Para Zaika, o afrofuturismo vai muito além da criação de narrativas ficcionais – conceito cunhado pelo crítico cultural Mark Dery em seu ensaio Black to the future, em 1994, pois ele está ligado com a arte, a ciência, a tecnologia e a inovação africana, e a reconexão da afrodiáspora a técnicas e conhecimentos desenvolvidos no continente africano que pode ser facilitada com o processo de globalização.

“Para mim, o afrofuturismo não é uma ficção, ele é uma realidade. Esse passado, presente e futuro estão interligados, mas teve uma interrupção histórica que tem nomes: escravidão e colonialismo”, ressalta.

Ela cita como exemplo a seção que traz as tecnologias e inovações africanas no período escravocrata do Brasil existente no Museu Afro Brasil.

“Tanto dentro da África como fora dela, no contexto de afrodiáspora, temos vários cientistas negros que foram referência em diversos conteúdos, mas sofreram um apagamento histórico. Esse afrofuturismo que eu discuto fala, diz da perspectiva de Afrofuturismo da África Negra e o Afrofuturismo da Afro diáspora”, acrescenta.

Zaika ressalta ainda que o Afrofuturismo não tem relação alguma com a vanguarda artística Futurismo.

“Não existe essa conexão, pois esta é uma leitura ocidentalmente equivocada e só é feita porque houve uma apropriação da palavra “futuro” no surgimento da vanguarda eurocêntrica. É obvio que a palavra também não surgiu na África dessa forma, mas como muitas pessoas fazem a leitura do conteúdo pela perspectiva do ensaio Black to the Future, do Mark Dery, esse conflito etimologicamente estético acontece”, pontua.

Para ela, a questão está no uso de uma palavra ocidental, por isso sempre utiliza o termo Arte, Ciência e Tecnologia e Inovação Africana e Afro diáspórica e incentiva a leitura do livro do historiador Carlos Machado dedicado ao tema, por acreditar que é necessário enegrecer nossos conhecimentos.

“É justamente por esse conflito de palavra que eu curso uma matéria que se chama Arte e Vanguarda, e meu orientador na faculdade é especialista neste tema. Também dialogo diretamente com historiadores e curadores africanos e pelos papos potentes descobri que vanguarda sempre existiu em África, ou seja, temos que descobrir o que foi apagado historicamente. Por exemplo, “Wakanda” significa “o que é nosso por direito”, e é um termo que existe na língua Kikongo, falada fluentemente na Áfrika Central e Sul, sobretudo em alguns países da região dos grandes lagos. Ela pertence ao grupo etnolinguístico Kôngo e consequentemente da família linguística Bantu nascida nos moldes da árvore linguística Niger-congo”, destaca a multiartista.

A curadoria de todo esse conteúdo histórico, científico e artístico que Zaika se dedica a pesquisar dará origem ao novo projeto, o CAB – Circuito Afrofuturista Brasileiro. Ele tem como objetivo criar uma plataforma digital em que vai disponibilizar essas informações divididas a partir de assuntos específicos, reunindo o que tem sido produzido e pensado sobre o tema no país.

“Também estou escrevendo dois artigos, um sobre a historicidade do Afrofuturismo, em que eu começo falando lá do período Paleolítico para depois passar pelo raciocínio dele dentro do período da escravidão, do pós-abolicionista, e o outro é sobre o pós-humano”, conclui.

A ideia da multiartista é transformar os artigo em um livro e o que não lhe falta é conhecimento.

Foto: Luís Germano

Mwana Afrika, a jornalista que está levando conteúdo sobre o continente africano para o mundo

Por Sandrinha Flávia, jornalista, mestra de cerimônias, empresária e editora

Desde fevereiro de 2018, Mwana Afrika grava vídeos para o projeto que leva o seu nome, Mwana Afrika – Oficina Cultural. A produção faz parte de um quadro veiculado na TV Pública de Angola. As pautas dos vídeos abordam danças, ciências, símbolos culturais, filosofia, tecidos e tantos outros temasque retratam o universo de Angola. A formação em jornalismo e economia e finanças foram fundamentais para ela realizar o que ama: contar histórias e publicá-las. A jornalista ressalta que se sente muito bem com esse trabalho e quea profissão é uma forma de ensinar e aprender o tempo todo.

A ideia da Oficina Cultural começou como uma espécie de Academia Panafricanista nas ruas de Lisboa como ela mesma explica: “Eu juntava pessoas de várias etnias, raças, idades, e “aculturava-as” com África.” Com o crescimento do projeto, Mwana resolveu dar uma parada para reestruturação. O projeto agora será ampliado para várias cidades do mundo. “Quero ver a África na boca do mundo pela positiva, quero levar nossos valores, nossa variedade cultural e linguística, nossa sabedoria ancestral e muito mais.”, diz orgulhosa da sua terra.

Sua bagagem cultural vem de muita dedicação a pesquisas e várias vivências pessoais viajando por quase 20 países, sempre trazendo aprendizados e ensinamentos. “Quem viaja ou tem a experiência de viver num país diferente, nunca é a mesma pessoa. As experiências de vida valem muito, levamos para a vida toda. Conheço quase a Europa toda.” As próximas viagens da jornalista serão apenas pela África. Ela pretende passar por Ghana, Senegal, Quênia, Congo etc.
Atualmente divide sua moradia entre Portugal e Angola. Mas Mwana tem sangue brasileiro, pois nasceu no Brasil. “Nasci e vivi no Brasil. Cresci em Angola e atualmente vivo em Portugal.” Sobre a sua família, ela fala o suficiente: “Minha família é tudo pra mim; se hoje sou o que sou, é graças à minha família. Venho de uma família muito trabalhadora, dedicada e com uma educação que vale ouro”.

Para o próximo ano, Mwana pretende, talvez, lançar o seu primeiro livro, para isso ela está focada nas pesquisas: “Gostaria que os conteúdos retratad13os no meu programa de TV dessem lugar a um livro. Pretendo escrever para documentários e também vem aí o livro de ensino básico de línguas africanas. Estamos a terminar a produtora “Mwinda” e brevemente teremos muitas novidades”.

Visite o canal Mwana Afrika no YouTube e conheça mais sobre África.

9º Prêmio Zumbi de Cultura 2018 celebra Dia Nacional da Consciência Negra em BH

Em comemoração ao Dia da Consciência Negra,  20 de novembro, a Cia Baobá Minas  realiza a 9ª edição do Prêmio Zumbi de Cultura.  Ao todo 11 personalidades negras serão homenageadas em solenidade realizada no Grande Teatro do Sesc Palladium às 19h, com preço popular de R$ 2,00 (dois reais) inteira.

A produção do prêmio recebeu cerca de cento e cinqüenta indicações de nomes relevantes no cenário da militância negra  de várias cidades do Brasil. O Prêmio Zumbi, homenageia  pessoas que se destacam nos campos das artes, política e cultura negra, em Minas e no Brasil. A premiação é distribuída nas seguintes categorias: dança, teatro, música, religiosidade, literatura, educação, manifestação cultural, personalidade negra, menção honrosa, protagonismo juvenil e atuação política.

Na solenidade, atrações como  Conversamba, que reverencia a comunidade da Pedreira Prado Lopes, na Lagoinha, apresenta músicas autorais que abordam a formação do bairro e a valorização do samba na comunidade . Também estará presente Mestre Conga, importante representante do samba de BH.  Afoxé Bandarerê, Edson Babu, Cia Baobá e Carlos Afro também  são atrações da noite.

Confira a lista das personalidades homenageadas que receberam o troféu criado pelo artista plástico Jorge dos Anjos:

Aruana Zambi  – Teatro

Ayana Amorim  – Protagonismo Juvenil

Carlos Alberto dos Santos  (Bar do Cacá) – Personalidade Negra

Divina Siqueira ( Dona Divina) – Menção  Honrosa

Edson Babu  – Educação

Quilombo Irmandade Nossa Senhora do Rosário de Justinópolis –   Manifestação cultural

José Nilson  Francisco dos Santos – Música

Jozeli Rosa de Souza – Atuação política

Madu Costa  –  Literatura

Madu Santos –  Dança

Ricardo  Moura (Pai Ricardo)  – Religiosidade

 

lll Mostra Conceição Evaristo

Entre os dias 23 e 26 de outubro, o Casarão das Artes promove a lll Mostra
Conceição Evaristo. Uma série de encontros acontecerão em diversos locais. A
Mostra é uma justa homenagem à escritora Conceição Evaristo, exemplo superlativo
do protagonismo da mulher negra, referência internacional por discutir a
discriminação racial, de gênero e classe.

A programação acontece no Sesc Palladium(BH), Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado(BH), Shopping Monte Carmo – Betim, MG.

Confira a programação completa da lll Mostra Conceição Evaristo:

DIA 23


– Apresentação Musical de Ricardo Ulpiano e Rita Silva ( com trechos musicalização
da obra Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo)
– Zaika Dos Santos
– D.Jandira
– Street Dance, com Maíra Mota e Aline Matias
Local: Sesc Palladium(BH) – 19h30
R. Rio de Janeiro, 1046 – Centro

DIA 24


– Leitura de Contos e Poemas da autora, Sonia Soares.
Local: Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado – 15h.

Rua Ministro Hermenegildo de Barros, 904, bairro Itapoã.

DIA 25


– Homenagem e Palestra – Escrevivência: ler, escrever e se ver – Pareceria com a Feira
Literária de Betim – FLIB
Local: Shopping Monte Carmo – Betim, MG – 19H
Av. Juiz Marco Túlio Isaac, 1119 – Ingá Alto, Betim

DIA 26


– Performance de dança afro, com Ramon Paixão.
– Apresentação musical, com Andreia Roseno
– Debate com Conceição Evaristo, sobre suas escrevivências, com mediação de
Rosália Diogo.
Local: Sesc Palladium, 20h
R. Rio de Janeiro, 1046 – Centro

 

 

Djamila Ribeiro, o que é lugar de fala

Por Rosália Diogo, jornalista, professora, pesquisadora, gestora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado.

Djamila Taís Ribeiro dos Santos é feminista, pesquisadora, acadêmica, mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – com ênfase em teoria feminista. Nasceu na cidade de Santos/SãoPaulo.

Suas principais atuações são nos seguintes temas: relações raciais e de gênero e feminismo. É colunista online da Carta Capital, Blogueiras Negras e Revista Azmina. Em maio de 2016, foi nomeada secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo durante a gestão do prefeito Fernando Haddad.

Escreveu o prefácio do livro Mulheres, raça e classe da filósofa negra e feminista Angela Davis, obra inédita no Brasil e que foi traduzida e lançada em setembro de 2015.

Iniciou o contato com a militância ainda na infância. Uma das grandes influências foi o pai, estivador, militante e comunista, um homem que mesmo com pouco estudo formal, era culto. A escolha do seu nome, que em swahili, língua falada no leste da África, significa “beleza”, foi feita por seu pai. Djamila tomou consciência, logo na infância, dos significados de ser mulher e negra no Brasil.

Foto: Christian Braga

Ela comenta o fenômeno do feminicídio ter aumentado entre as mulheres negras (54,2% entre 2003 e 2013), ao passo que diminuiu entre as brancas (queda de 9,8% no mesmo período: “Falta um olhar étnico racial na hora de pensar uma política de combate à violência contra a mulher. As mulheres que combinam opressões ficam em um lugar mais vulnerável. Se a gente não traz os dados sobre isso, não cria políticas públicas para elas”.

Como neste caso, que ela se refere a bell hooks (nascida Gloria Watkins e que adotou o nome de sua bisavó e pede que o usem assim em minúsculo), o empoderamento diz respeito a mudanças sociais numa perspectiva antirracista, antielitista e antissexista por meio das mudanças das instituições sociais e consciência individuais.

A sua fala é objetiva, lúcida e transparente. E, por isso, tem realizado palestras e aulas para explicar por que discorda da ideia de que há meritocracia no sistema educacional brasileiro e defende as cotas nas universidades. “Uma pessoa branca que sempre estudou em escolas boas, comeu bem e tem acesso a idiomas não passa num vestibular como o da USP porque ela é especial, mas porque teve condições para isso. Insistir num discurso meritocrático é escamotear o racismo e o privilégio do grupo branco. Não é uma questão de capacidade, mas de acesso às oportunidades”, comenta.

Em 2017, Djamila participou de um encontro no London School of Economics, no Reino Unido, e argumentou, se referindo ao juiz Sergio Moro, que a decisão de interromper as atividades do Instituto Lula foi feita com uma “canetada”, e complementou: “Juiz não deveria ter lado, juiz não deveria ter partido”, enfatizou ao comentar a torcida em torno da figura de Moro no debate.

Em março deste ano, a filósofa esteve em Belo Horizonte para o lançamento do livro O que é lugar de fala?. Aproveitamos a oportunidade para entabular um gostoso bate-papo com ela.

Djamila nos falou um pouco sobre a sua motivação para ingressar no ativismo político contra o racismo e machismo: “Eu sou filha de militante do movimento negro e desde cedo essas discussões estiveram presentes na minha vida. Mas só fui me perceber como feminista negra quando comecei a trabalhar numa organização de Santos, litoral de SP, chamada Casa de Cultura da Mulher Negra. Foi revolucionário para mim ver mulheres negras pautando nossas questões, escrevendo, produzindo, fazendo projetos. A partir daí só se intensificou”.

Ela conta que teve os primeiros contatos com o movimento negro ainda na infância passada em Santos, cidade do litoral paulista, graças à influência do pai, um estivador, militante e comunista. “Desde muito cedo, eu e meus dois irmãos vivemos nesse meio. Com seis anos, já íamos para atos. A gente debatia esses temas em casa, e meu pai nos fazia estudar a história do nosso povo”, disse.

Indagada sobre por que escolheu a filosofia, e como ela pode nos auxiliar nas reflexões sobre as relações étnico-raciais e de gênero no Brasil, ela nos disse que a filosofia no Brasil ainda é uma área muito branca e masculina, portanto é fundamental que nós, negras e negros, possamos participar das oportunidades de reflexões sobre as desigualdades presentes na sociedade na perspectiva filosófica. Para ela, trata-se de mais um canal para que possamos dar visibilidade às denúncias que constantemente o povo negro faz em relação às diversas opressões experimentadas.

Sobre os oito meses que esteve como secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania na cidade de São Paulo, a ativista afirma que a experiência foi muito importante pelo fato de estar na posição de executora de políticas públicas. Ela disse que o fato de ter feito a gestão em um governo de esquerda, historicamente comprometido com as pautas da inclusão, foi crucial para a inserção de algumas políticas de igualdade racial na cidade. Djamila acentua que, sendo esses espaços pouco ocupados por mulheres negras, ela aproveitou a oportunidade para tentar fazer o melhor que foi possível para reverberar a sinalização de que políticas públicas de combate ao racismo e ao machismo podem ser feitas no país.

No período em que esteve à frente da secretaria adjunta, aconteceu a implantação de programas como o Juventude Viva que concedeu bolsas para 101 jovens se dedicarem aos estudos, a formação em direitos humanos para 40 mil professores da rede municipal e o atendimento psicossocial para mães que perderam filhos vítimas da violência policial.

No que se refere à urgência e recorrente pauta – a solidão da mulher negra –, a filósofa disse que é um tema de extrema importância a ser discutido entre nós. Ela defende o argumento de que essa solidão ultrapassa a dimensão das relações afetivas e se espraia para as esferas econômica, institucional, do mundo do trabalho e das inter-relações como um todo.

Ao comentar sobre o conteúdo do livro que a trouxe a Belo Horizonte, O que é lugar de fala?, Djamila disse que ainda falta um longo caminho para que a fala da mulher negra alcance visibilidade. Para ela, existe uma luta constantemente travada com o mercado editorial que se nega a publicar textos de mulheres negras.

Essa negação do reconhecimento do potencial de escrita dos negros realça a contundência do racismo e os meandros das relações patriarcais no país. Ribeiro comenta que ela e outras mulheres negras têm feito a publicação dos seus trabalhos na raça e coragem.

No que refere-se à relação estabelecida com outras mulheres negras, feministas, que lhe serviram e servem de inspiração, a escritora diz que a luta dessas mulheres é que orienta os seus passos. São muitas mulheres nesse campo do enfrentamento étnico-racial e de gênero: Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Grada Kilomba, Zora Neale Hurston, Angela Davis, Maya Angelou, Luíza Bairros, Patrícia Hill Collins entre outras.

Ribeiro diz que sua existência é sinal de resistência a partir da inspiração das ações empreendidas por essas mulheres no passado. Djamila diz que é fundamental que a juventude negra saiba que foram essas mulheres que solidificaram o caminho que pisamos hoje em prol de relações mais igualitárias do ponto de vista de gênero e raça. A filósofa cita a médica, ativista e pesquisadora Jurema Werneck, que um dia escreveu “Os nossos passos vêm de longe” para reafirmar que ela vem seguindo as pegadas dessas mulheres para avançar em busca de um cenário mais favorável para negras e negros na disputa por lugar confortável de fala no Brasil.

No mês de junho, Djamila retornou a Belo Horizonte para um novo diálogo com o público e para o lançamento do livro Quem tem medo do feminismo negro, que reúne um longo ensaio autobiográfico inédito e uma seleção de artigos publicados por Djamila Ribeiro no blog da revista CartaCapital entre 2014 e 2017.

EDITORIAL – Registrando histórias

Foto: Patricia Santos

Há 185 anos, no mês de setembro de 1833, nascia o jornal O Homem de Cor, fundado pelo tipógrafo e escritor Francisco de Paula Brito, elaborado e publicado por negros. Naquela época, a comunidade negra tinha sede de uma imprensa alternativa que falasse dos problemas enfrentados no contexto do racismo, trabalho, saúde, educação e habitação.

É sobre dar continuidade e manter viva a memória da construção social do negro brasileiro, que dedicamos a 10ª edição da REVISTA CANJERÊ a todas as pessoas que propagam as histórias negras, por meio de algum veículo de comunicação.

O maior patrimônio que a humanidade pode preservar é a história das pessoas. O apagamento de autores e autoras negros/as não pode continuar como foi no passado. Somos protagonistas das nossas histórias e registrá-las é o nosso objetivo.

Em nossa capa, a filósofa Djamila Ribeiro prova que a luta da mulher por emancipação está funcionando, mesmo com todas as dificuldades encontradas. Léa Garcia, a entrevistada da edição, incansável militante da causa negra, é um exemplo de base forte. A atriz abriu as portas para que muitas de nós pudéssemos passar, assim como tem passado a estilista e empresária de Salvador (BA) Mônica Anjos, destaque da seção comportamento, e a fotógrafa Marcela Bonfim, a mulher que se (Re) conheceu  negra na Amazônia.

Já que estamos falando de mídia e visibilidade, contamos também a história da criação da TV e Rádio Diamante Angola, veículos que se propõem a trazerem à tona, a real história do povo angolano.

Por fim, desejamos uma ótima leitura!

Afroabraços!

Sandrinha Flávia – Editora

 

POEMAS

Ilustração: Marcial Ávila

Edmilson de Almeida Pereira –  Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1963. É professor de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora.

SIGNOS

 Endereço nos cabelos leva a mais do que leio

onde estão dançando em ritmos vermelhos.

Dançam tatuagens alheias a seu desenho.

As siglas dos mistérios fecham sem correntes

um corpo que intenso se move na inércia.

E sobre outro corpo –  maestro por urgência –

dança como se antes vencesse o desespero.

Dentro da música o pente a silhueta a hora

em que a última fera sabe o sigilo dos velhos.

Os ritmos que entendo pelo ruído dos dentes

são outros são estes atentos como espelhos.

Aquela que me dança na mais perfeita esfera

luta com seus nervos e as cartas que escreve.

O blues me atravessa uma rajada de espíritos

as ilusões viram seta navegando pelos discos.

O céu se dobra em ruas as flores nos oceanos.

A dança que se espera dura se não dançamos.

 

FÁBULA

Esquina não  é  parte  da rua, nem  cotovelo de faca.

Nem caverna  onde  um  se  esconde,  se perseguido.

Nem  macio  para  o amor  de  quem   não  tem leito.

Nem igreja ou teatro, mesmo que aí  tantos represen-

tem. Esquina não é bar nem feira nem seta indicando

desvio. Mais que um lugar é a recitação da passagem.

 

DUETO

Sem saber o idioma da tarde

não posso fugir ao exílio.

Só o trabalho traz o mundo

ao meu alcance. Delírio é a

ausência de comunicação. Se

assobio tivesse declinações.

Esse me sibila o corpo

e cai. De repente, alguém

afora o levanta e devolve.

Devolve a mim, a si? Pouco

importa. Esse diálogo basta

para reinaugurar a tarde.

 

NA CASA DE MEU PAI

 um que se arranha tem  seu canto. Se quiser  ir ao

mundo faz a mala, vai. O pai cede o manto, a seu

tempo garagem  e  porto.  Na  casa,  um  observa.

O pai, que é de todos, se erra  um  jogo acerta  de

outro jeito. Um está na porta, não entra, não sai e

se move mais que a gente carteando  naipes. Com

ele o pai entesa. Ele, o um que é nós.

 

 

A falta de avaliação na Lei 10.639/03 impede seu avanço contra o preconceito

Por Robson Di Brito, Mestre Interdisciplinar em Humanidades pela UFVJM

A relevância de uma avaliação no processo de implementação das políticas públicas é uma das etapas, ou talvez a de maior importância para sua execução. E para uma real implantação deveria conter, na Lei 10.639/03, uma avaliação com dados que contribuam para sua execução.

A citada lei foi a primeira ação da gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tornou obrigatório o ensino de história e da cultura afro-brasileira. Ela norteia que as disciplinas de História, Arte-educação e Literatura atuem como vetores dos conteúdos a serem ministrados, bem como a data do dia 20 de novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra incorporada ao calendário escolar. Este instrumento jurídico como portador do destaque da pluralidade racial brasileira, no processo educativo, está explicitamente endossado enquanto prioridade de representação da população negra no Brasil.

Este trabalho visa observá-la por uma ótica teórica e analítica. Sua análise baliza as discussões sobre as relações raciais e de que forma implicam modificações, perdas e recriações em práticas pedagógicas. A disposição da lei, e os vetos que sofreu na sua fase de projeto levaram a uma insatisfação/impedimento quanto à possibilidade de uma avaliação. O que, na análise deste trabalho, funciona como uma manobra para que a lei tenha seu poder de ação diminuído contra o preconceito racial e social.

Saraiva (2006) afirma que política pública carrega o conceito de ser o agrupamento de decisões oriundas do poder público, que visa ações e omissões, provenientes ou corretivas, destinadas a manter ou modificar a realidade de um ou vários setores da vida social (SARAIVA, 2006, p. 39-40). Anexo ao conceito, o entendimento de política pública apresentada por Rodrigues (2013) afirma que é entendida como um conjunto de procedimentos que expressam relações de poder e que se orienta à resolução de conflitos no que se refere aos bens públicos (RODRIGUES, 2013, p. 33).

Neste sentido a Lei 10.639/03, compreendida como uma lei de política pública, que se configura como uma resposta do Estado diante das demandas geradas pela sociedade, e para este caso em específico, ela é uma resposta às reivindicações por parte da grande massa populacional negra do Brasil, e às militâncias preconizadas pelo movimento negro. Sua atuação colabora para a compreensão de uma política pública regulatória e redistributivas:

Mais visíveis ao público, envolvendo burocracia, políticos e grupos de interesse. […] políticas redistributivas, que atinge maior número de pessoas e impõe perdas concretas e a curto prazo para certos grupos sociais e ganhos (SOUZA, 2007, p.73).

Entretanto a sua ação abre a janela de oportunidades para a construção de uma política pública que tem se mostrado muito mais como política distributiva, que são:

Decisões tomadas pelo governo que desconsideram a questão dos recursos limitados, gerando impactos mais individuais do que universais, ao privilegiar certos grupos sociais ou regiões em detrimento do todo (SOUZA, 2007, p.73).

Sua trajetória como lei remonta além de um longo percurso de reivindicações sociais, disputas políticas, econômicas e de identidade. O que a configura e lhe confere um arcabouço para a formação de política pública muito mais regulatória e redistributivas do que distributiva. Isto porque como parâmetro legal foi aprovada no ano de 1999, e promulgada no mês de Janeiro 2003. O que demonstra uma não urgência para o governo. Como sua proposta incute em alterar a LDB, o projeto foi além de apresentado para votação da Câmara dos Deputados e do Senado brasileiro, questionado e reconfigurado do original. Alguns parágrafos foram vetados, sobre a consideração de inconstitucional. De semelhante forma o veto do Art. 79-A tem como justificativa a consideração de ser inconstitucional e de conter matéria estranha ao projeto, e nele se lê:

O art. 79-A, portanto estaria a romper a unidade do conteúdo da citada lei e, consequentemente, estaria contrariando norma de interesse público da Lei Complementar nº 95, de 26 de Fevereiro de 1988, segundo a qual a lei não conterá matéria estranha a seu objeto. (BRASIL, 2003b, p. 01).

Assim, embasada na Lei da LBD nº 9394/96 que não prevê formação complementar de profissional, ou seja, um profissional capacitado para compreender e transmitir a cultura e história africana e afro-brasileira. Este elemento, corretamente solicitado no projeto original, foi vetado sob a alegação de ser matéria estranha. Ao final de debates que se estenderam por quatro anos, fixou-se a obrigatoriedade do estudo de História e Cultura africana e afro-brasileira, e anexação no calendário escolar do dia 20 de Novembro, como o Dia da Consciência Negra.

Compreender o posicionamento de um burocrata de ruas (profissional de educação) passa além da simples compreensão da execução de suas funções, e abre um hiato[1] entre a lei e sua atuação na esfera social. Esse agente tem a oportunidade de influenciar as políticas públicas, isto por personificar a noção abstrata do Estado em sua representação de executor da lei para com o cidadão comum. O que apresenta uma característica que a Lei 10.639/03 se impõe, uma política “de baixo para cima” (bottom-up).

Uma sociedade que possui um histórico controle por alienação e cultura ideológica centrada no poder eurocêntrico, são razoáveis que se compreendem as impossibilidades da importância do ensino negro e afro-brasileiro. Visto que o burocrata de ruas (professores, gestores, pedagogos, etc.) também esteja neste arcabouço de alienação, muito provavelmente nutrirá interesses pessoais que vão de encontro a esta nova linha de raciocínio, e optará em tender a interesses pseudopessoais ao invés do interesse geral e aclamado pela população. Por isso, será possível encontrar escolas que praticam a lei – nem que seja em sua mínima ação, o dia da consciência negra – e outras que deliberativamente são displicentes a ela.

Não existe aqui uma acusação de que o não cumprimento da lei se faça exclusivamente por uma questão de preconceito, ou da falta de compreensão dela, e até mesmo da não aceitação de alterar a burocracia educativa. Mas de fato, o não cumprimento é possível de ser mensurado, possibilitado conforme apresentado acima, visto que não há uma avaliação acerca do burocrata de ruas e da atuação da lei. Contudo, não há como assegurar se houve uma implementação que a respeitou em seu âmbito geral e objetivos, ou simplesmente não foi executada – isto é um hiato avaliativo. Sem uma avaliação não é possível afirmar tais perspectivas.

Somente implantar a política pública não é o tudo que ela representa; é necessário que revelem resultados avaliativos. O poder público sancionar a Lei 10.639/03, e assegurar que os burocratas de ruas não sejam capacitados ou que não seja aplicada nas escolas é o mesmo que o não existir da lei. São ações que necessitam estar acompanhadas e analisadas em sua execução – avaliadas para que seja possível ajustar os programas de ensino, apontar o alcance dos objetivos, desvelar os efeitos e fracassos, e investigar possíveis soluções para os problemas enfrentados. Não é atoa que o debate da meritocracia tem ganhado o público na questão educação do negro e afrodescendente nacional. A falta de uma avaliação que denote os efeitos da lei na prática, que possibilite desanuviar o preconceito não impera, gerando incertezas e possibilitando o avanço do preconceito.

Fica nítido que a não existência de uma avaliação quanto a Lei 10.639 na política pública deveria soar irreal. Visto que desde a elaboração do projeto, dos debates sobre o programa e a idealização do plano de execução ela deveria estar ali presente. E não apenas pesquisas avaliativas científicas sem o crivo estatal. Entretanto, o silêncio apresentado sobre a sua falta, colabora para a compreensão de ser uma política distributiva, que está centrada nas demandas que o Estado problematiza como sendo da sociedade, e não o apelo do povo negro em sua luta pela igualdade.

 

BRASIL. Mensagem nº. 7, de 9 de janeiro de 2003. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003b. p. 01. < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/Mensagem3.htm> Acessado em 20/01/2016.

SARAIVA, Enrique; FERRAREZI, Elisabete. Coletânea Políticas Públicas. v. 1. ENAP: Brasília, 2006.

SOUZA, Celina. Políticas Públicas: Questões Temáticas e de Pesquisa, Caderno CRH 39: 11-24. 2003

RODRIGUES, Marta Maria Assumpção. Políticas Públicas. São Paulo: Publifolha, 2010.

[1] Para este trabalho compreende-se hiato como interrupção de continuidade em uma série, como falta, intervalo ou lacuna.

NOTÍCIAS

Foto: Divulgação

JEAN-MICHEL BASQUIAT

Está em cartaz no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), de Belo Horizonte, exposição retrospectiva do artista Jean-Michel Basquiat (1960-1988), inédita no país, com mais de 80 quadros, desenhos e gravuras. Ele desenvolveu um estilo novo e expressivo e tornou-se um dos destaques da retomada da pintura figurativa na década de 1980. A obra personifica o caráter de Nova Iorque nos anos 70 e 80, quando a mistura de empolgação e decadência criou um paraíso de criatividade. A mostra segue até 24 de setembro e pode ser vista de quarta a segunda, das 9 às 21 horas, no centro cultural localizado na Praça da Liberdade. A entrada é gratuita.

MAURÍCIO TIZUMBA GANHA BIOGRAFIA

Obra não linear feita a várias mãos, destaca a trajetória do artista mineiro Maurício Tizumba na música, no teatro e no congado. Intitulada “De Camarões: veredas de Maurício Tizumba”, a biografia é uma publicação da Editora Nandyala com pesquisa, entrevistas e projeto editorial assinados por Elias Gibran, Viviane Maroca e Pedro Kalil. O livro foi lançado em agosto, com show do biografado e seu amigo e músico Sérgio Pererê, no Teatro do Centro Cultural Minas Tênis Clube, e já está disponível para venda. À narrativa sobre a história de vida de Maurício Tizumba, somam-se fotografias, manchetes de jornais que marcaram sua trajetória, letras compostas pelo artista – e uma em parceria, bilhetes que Tizumba ganhava quando cantor de bares, linha do tempo que contempla sua formação, produções, atuações, prêmios; e ainda um mapa, do mundo e do Brasil, que reforça que a arte de Tizumba, hoje, alcança o mundo.

FlinkSampa 2018

A FlinkSampa – Festa do Conhecimento, Literatura e Cultura Negra – será realizada no período de 19 e 20 de novembro de 2018 na Faculdade Zumbi dos Palmares, com programação das 10 às 20h. O novo endereço do evento fica próximo à estação de metrô Armênia, na avenida Santos Dumont, 843, São Paulo (SP), dentro do Centro Esportivo Tietê. Durante dois dias serão realizados lançamentos e vendas de livros, quadrinhos e mangás, produtos de afro-empreendedores, além de atividades culturais para professores e estudantes de todas as idades: palestras, debates e contações de histórias. A homenageada desta edição será a escritora mineira Conceição Evaristo.

FIT-BH

O Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo Horizonte (FIT-BH) é considerado um dos maiores festivais internacionais de teatro do país e um dos cinco principais da América Latina. A 14ª edição acontece de 13 a 23 de setembro de 2018 e o propósito da curadoria é trazer ao festival produções e grupos pouco representados no circuito de festivais brasileiros, buscando as singularidades de trabalhos marcados por seu lugar social. A curadoria desta edição é assinada por Luciana Eastwood Romagnolli (crítica e jornalista), Soraya Martins (atriz, pesquisadora e crítica de teatro afro-brasileiro) e Grace Passô (atriz, diretora e dramaturga), em colaboração com três assistentes: Anderson Feliciano, Daniele Avila Small e Luciane Ramos.

FESTCURTASBH

A 20ª edição do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte – FESTCURTASBH – realizado pela Fundação Clóvis Salgado, trouxe como temática curatorial o Cinema Negro. O evento realizado de 10 a 19 de agosto, exibiu 137 filmes, de 70 países e de doze estados brasileiros. O festival promoveu ainda três Mostras Especiais. A primeira “Cinema Negro – Capítulos de uma História Fragmentada” (25 filmes) com curadoria do crítico de cinema e pesquisador Heitor Augusto. A segunda, dedicada à filmografia da cineasta e produtora ganesa-americana Akosua Adoma Owusu. E a terceira, “Tributo a Safi Faye” com quatro filmes da diretora de cinema e etnóloga senegalesa. Ao longo de sua carreira, Faye dirigiu vários documentários e filmes de ficção com foco na vida rural no Senegal.

VAGA CARNE

A editora Javali lançou recentemente o livro Vaga Carne, da atriz, diretora de teatro e dramaturga Grace Passô. O livro é uma adaptação do premiado monólogo escrito, estrelado e dirigido por Grace. Nele, uma voz errante invade um corpo humano e sonda o que esse corpo sente enquanto mulher, o que finge sentir, o que é impenetrável nele, o que ele significa para o outro ou a outra que o vê. Em Vaga Carne, um corpo de mulher vive a urgência do discurso à procura de suas identidades, à procura de pertencimento.O livro faz parte da Coleção Teatro Contemporâneo, da Editora Javali. Projeto gráfico elaborado por Vitor Carvalho e Amanda Goveia.

Festa Literária Internacional de Paraty, com Conceição Evaristo

Ela, que obteve o Prêmio Jabuti 2015 com o livro “Olhos d’água”, foi um dos destaques da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, 2018. Candidata a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – ABL, a escritora teve uma participação especial na Casa Insubmissa de Mulheres Negras. Destacamos um trecho da sua fala na FLIP: “Todos os lugares representativos nesta nação nos pertencem à medida que a nacionalidade brasileira está marcada pela presença dos povos africanos. Concorrer à cadeira na ABL é um direito de todo cidadão ou cidadã que tenha um livro. Eu tenho seis, um Jabuti (por “Olhos d’água”), obras publicadas em inglês, francês e espanhol. Se a ABL representa a literatura brasileira, então, quanto mais representantes de diversos espaços sociais, étnicos e de gêneros a casa tiver, mais democrática ela se torna”.

CANJERÊS, CULTURA POPULAR E TRADIÇÃO – ESPELHO DE BH

Lançamento da Revista Canjerê 10ª edição

Em maio, no dia 10, no Museu das Minas e do Metal, instituição parceira do Casarão das Artes, rolou o lançamento da 9ª edição da Revista Canjerê. O evento foi permeado por um super show do músico Babu, juntamente com sua banda.

A matéria de capa foi construída a partir do universo da escritora, juíza, desembargadora e ex-Ministra da Educação e Ensino Superior, Vera Duarte. Sua valorosa entrevista possibilita conhecermos um pouco mais sobre Cabo Verde, seu país. A escritora fala sobre política, literatura, relação de gênero, relação homem-mulher, racismo no Brasil e tantas outras pautas sociais que levantam questionamentos e que afetam vidas, tanto em nosso país, quanto em Cabo Verde/África. Foi uma linda noite de Canjerê.

Festa de Nossa Senhora do Rosário no Reinado Treze de Maio

Ainda em maio, duas potentes agendas mobilizaram a participação da nossa equipe. Uma delas foi a Festa de Nossa Senhora do Rosário, alusiva à falsa abolição, que aconteceu no Reinado 13 de Maio, durante treze dias, sob o comando da Rainha do Congo de Minas Gerais, Isabel Cassimira. A festa também celebrou os 74 anos da Guarda de Moçambique e os 20 anos da Guarda de Congo do Reinado Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. O festejo foi encerrado no dia 13, com uma missa conga, celebrada por Frei Chico.

Arte e Cultura Negra na Semana dos Museus

Outra atividade que mereceu a nossa participação foi a 16ª Semana dos Museus no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Realizada entre os dias 15 e 20 de maio, com várias atividades relacionadas ao tema do ano: Museus hiperconectados – novas abordagens, novos públicos. O Casarão das Artes indicou alguns nomes que divulgam a arte e a cultura negra na cidade como a escritora Madu Costa, o Grupo Brother Soul, a artista visual, Lira Marques e o projeto Nujazz no Parque.
Dialogamos com a proposta da Seman
a de Museus, que foi a busca de conexões com o pensamento e a produção de diferentes áreas culturais da cidade.

Visita do Rei Ooni de Ifé (Nígéira) à Minas Gerais

Entre os dias 14 e 17 de junho, a Majestade do Reino de Ifé, Nigéria, fez uma visita inédita ao Brasil. Em sua passagem por Belo Horizonte, a equipe do Casarão das Artes teve a honra e a alegria de compor o grupo que o recebeu no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Na ocasião, o Rei e sua comitiva foram recepcionados por várias guardas de congado. Momento ímpar e rico da diversidade cultural que permeia o Brasil plural.

Aniversário da Independência de Moçambique no Consulado de Moçambique em Minas Gerais

Em junho, também foi a vez de participarmos da celebração/homenagem ao nosso país irmão: Moçambique. Aceitamos o convite do Consulado de Moçambique em Minas Gerais para participar do 43º aniversário do país, que foi realizado no dia 23. Foram momentos de muita emoção e de interação cultural em que a capoeira e o congado deram o tom de como o povo brasileiro tem se apropriado e ressignificado o legado cultural do continente africano.

Pesquisador@s negras de Michigan em Belo Horizonte. Momentos de trocas culturais

No dia 04 de julho, o Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango nos convidou para receber conjuntamente, uma delegação de professor@s/pesquisador@s estadunidenses. Na comitiva havia um professor de arquitetura e um dançarino clássico e afro, com reconhecimento mundial. Entre as mulheres – uma professora de literatura e a curadora de um Museu. Também compôs o grupo, uma dançarina e artista plástica, uma percussionista e uma professora de educação inclusiva. Eles se interessaram bastante pelas pautas relacionadas ao genocídio da juventude negra e sobre a forma de organização das mulheres negras no Brasil.

Canjerê Independência de Moçambique

No âmbito do Programa Noturno nos Museus, que aconteceu na noite de 20 de julho, foi a vez do Casarão das Artes fazer, ao seu modo, uma homenagem a Moçambique. Para tanto, foram convidad@s a escritora Madu Costa, que declamou alguns poemas de poetas moçambicanos e angolanos como José Craveirinha, Noêmia de Sousa e Agostinho Neto; e o Dj Leo Olivera, que acionou a sua pik up musical e presenteou o público presente ao Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado, com um pouco das belas músicas moçambicanas, como a tradicional marrabenta.