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Sandrinha

CANJERÊS, CULTURA POPULAR E TRADIÇÃO – ESPELHO DE BH

Lançamento da Revista Canjerê 10ª edição

Em maio, no dia 10, no Museu das Minas e do Metal, instituição parceira do Casarão das Artes, rolou o lançamento da 9ª edição da Revista Canjerê. O evento foi permeado por um super show do músico Babu, juntamente com sua banda.

A matéria de capa foi construída a partir do universo da escritora, juíza, desembargadora e ex-Ministra da Educação e Ensino Superior, Vera Duarte. Sua valorosa entrevista possibilita conhecermos um pouco mais sobre Cabo Verde, seu país. A escritora fala sobre política, literatura, relação de gênero, relação homem-mulher, racismo no Brasil e tantas outras pautas sociais que levantam questionamentos e que afetam vidas, tanto em nosso país, quanto em Cabo Verde/África. Foi uma linda noite de Canjerê.

Festa de Nossa Senhora do Rosário no Reinado Treze de Maio

Ainda em maio, duas potentes agendas mobilizaram a participação da nossa equipe. Uma delas foi a Festa de Nossa Senhora do Rosário, alusiva à falsa abolição, que aconteceu no Reinado 13 de Maio, durante treze dias, sob o comando da Rainha do Congo de Minas Gerais, Isabel Cassimira. A festa também celebrou os 74 anos da Guarda de Moçambique e os 20 anos da Guarda de Congo do Reinado Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. O festejo foi encerrado no dia 13, com uma missa conga, celebrada por Frei Chico.

Arte e Cultura Negra na Semana dos Museus

Outra atividade que mereceu a nossa participação foi a 16ª Semana dos Museus no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Realizada entre os dias 15 e 20 de maio, com várias atividades relacionadas ao tema do ano: Museus hiperconectados – novas abordagens, novos públicos. O Casarão das Artes indicou alguns nomes que divulgam a arte e a cultura negra na cidade como a escritora Madu Costa, o Grupo Brother Soul, a artista visual, Lira Marques e o projeto Nujazz no Parque.
Dialogamos com a proposta da Seman
a de Museus, que foi a busca de conexões com o pensamento e a produção de diferentes áreas culturais da cidade.

Visita do Rei Ooni de Ifé (Nígéira) à Minas Gerais

Entre os dias 14 e 17 de junho, a Majestade do Reino de Ifé, Nigéria, fez uma visita inédita ao Brasil. Em sua passagem por Belo Horizonte, a equipe do Casarão das Artes teve a honra e a alegria de compor o grupo que o recebeu no Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado. Na ocasião, o Rei e sua comitiva foram recepcionados por várias guardas de congado. Momento ímpar e rico da diversidade cultural que permeia o Brasil plural.

Aniversário da Independência de Moçambique no Consulado de Moçambique em Minas Gerais

Em junho, também foi a vez de participarmos da celebração/homenagem ao nosso país irmão: Moçambique. Aceitamos o convite do Consulado de Moçambique em Minas Gerais para participar do 43º aniversário do país, que foi realizado no dia 23. Foram momentos de muita emoção e de interação cultural em que a capoeira e o congado deram o tom de como o povo brasileiro tem se apropriado e ressignificado o legado cultural do continente africano.

Pesquisador@s negras de Michigan em Belo Horizonte. Momentos de trocas culturais

No dia 04 de julho, o Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango nos convidou para receber conjuntamente, uma delegação de professor@s/pesquisador@s estadunidenses. Na comitiva havia um professor de arquitetura e um dançarino clássico e afro, com reconhecimento mundial. Entre as mulheres – uma professora de literatura e a curadora de um Museu. Também compôs o grupo, uma dançarina e artista plástica, uma percussionista e uma professora de educação inclusiva. Eles se interessaram bastante pelas pautas relacionadas ao genocídio da juventude negra e sobre a forma de organização das mulheres negras no Brasil.

Canjerê Independência de Moçambique

No âmbito do Programa Noturno nos Museus, que aconteceu na noite de 20 de julho, foi a vez do Casarão das Artes fazer, ao seu modo, uma homenagem a Moçambique. Para tanto, foram convidad@s a escritora Madu Costa, que declamou alguns poemas de poetas moçambicanos e angolanos como José Craveirinha, Noêmia de Sousa e Agostinho Neto; e o Dj Leo Olivera, que acionou a sua pik up musical e presenteou o público presente ao Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado, com um pouco das belas músicas moçambicanas, como a tradicional marrabenta.

Orientação afirmativa para enegrecer a pós-graduação

Por Naiara Rodrigues – Jornalista e assessora de imprensa

Apesar de serem a maior parte da população do país (52,9%), os estudantes negros representam apenas 28,9% do total de pós-graduandos no Brasil, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), feita em 2015, pelo IBGE.

Em maio de 2016, a publicação de uma portaria pelo Ministério da Educação incentivou o debate de cotas na pós-graduação para que instituições de ensino criassem condições para promover a inclusão de negros, indígenas e pessoas com deficiência.

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) implementou uma política de ações afirmativas desse gênero, em abril de 2017, que passou a valer para o processo seletivo deste ano.

Apesar de as medidas serem um avanço, ainda falta muito para se alcançar a igualdade na pós-graduação. Iniciativas não-institucionalizadas têm auxiliado na promoção dessa mudança.

No fim do ano passado, foi criado o projeto Orientação Afirmativa com o objetivo de preparar candidatos negros que pretendem ingressar na Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG, em nível de mestrado e doutorado.

Foto: Augusto Lacerda

O grupo de estudos ajuda estudantes com matérias essenciais para o processo seletivo, como inglês instrumental, metodologia de pesquisa, estudo dos textos indicados no edital da seleção e preparação para a entrevista.

A iniciativa independente veio da união das alunas que já se encontram na pós da instituição, Pâmela Guimarães, Mayra Bernardes e Lucianna Furtado que sentem de perto a falta de representatividade na academia. “A cada ano, as turmas de mestrado e doutorado ingressam com aproximadamente três pessoas negras, quando muito. No departamento, temos apenas três professores negros. Então, é mais que urgente subir e puxar os nossos pares para cima”, destaca Pâmela Guimarães.

A criação do grupo se baseou no fortalecimento mútuo – uma das principais propostas do movimento negro e do feminismo negro – e o projeto só foi possível com a soma de conhecimento e vivência das três alunas. “Lucianna e Mayra são fluentes em inglês, e eu não. Com isso, conseguimos acrescentar esse tópico de ensino.

A prova de proficiência em língua estrangeira é uma exigência para ambos os níveis, mestrado e doutorado, e talvez seja um dos maiores empecilhos para quem não teve condição socioeconômica de estudar outro idioma”, ressalta Pâmela.

A política de reserva de vagas para candidatos negros atinge apenas a classificação de candidatos já aprovados em todas as etapas. “O processo seletivo manteve algumas medidas que privilegiam estudantes de classe média e egressos da própria UFMG como a proficiência em idioma estrangeiro (etapa eliminatória) e a dinâmica de escolha dos planos de estudos e projetos de pesquisa, vinculada a autores e perspectivas específicas, desproporcionalmente acessíveis para quem já se encontra inserido na universidade e nos grupos de pesquisa.

Considerando que esse cenário limita o acesso de pessoas negras à pós-graduação, nossa iniciativa de Orientação Afirmativa pretende apoiar os candidatos negros e suas propostas de pesquisa para que possam concorrer em pé de igualdade”, conclui Lucianna Furtado.

O grupo estende a orientação necessária para lapidar suas propostas de pesquisa e adequá-las ao formato do Programa, em uma tentativa de minimizar as disparidades, para contribuir tanto no acesso de candidatos negros à Pós-Graduação em Comunicação como na formação de professores negros.

Além do apoio com os estudos, o projeto faz uma campanha de arrecadação virtual para arcar com os custos do processo seletivo como as taxas de inscrição do processo e da prova de proficiência em idioma estrangeiro (que têm gasto médio de 260 reais, por estudante).

O grupo chegou a receber 60 pedidos de inscrição e acompanha atualmente 13 pessoas, sendo uma para o Doutorado e 12 para o Mestrado. De acordo com as integrantes, essa primeira turma é formada em sua a maioria por mulheres. “Historicamente, as mulheres negras tem sido a parcela da população mais negligenciada pelas políticas públicas e, consequentemente, são minoria na academia e em outros espaços de poder e conhecimento, mesmo que possuam um ponto de vista privilegiado para estudar questões importantes da nossa sociedade.

Por isso, acreditamos que trazê-las para esse espaço possa ocasionar não só ganhos individuais, mas, também, coletivos com o poder de transformar a nossa realidade”, afirma Mayra Bernardes. Conheça mais sobre o projeto em: orientacaoafirmativa.wordpress.com.

Lingerie nude para mulheres

A empresária Ade Hassan lançou a marca Nubian Skin com uma linha de lingerie nude pensada para as mulheres negras

Por Sandrinha Flávia, jornalista, locutora, mestra de cerimônias e editora

A expertise de criar um negócio a partir de uma dificuldade resolveu o problema de milhares de mulheres negras. A empresária Ade Hassan, de Londres fez da sua frustração uma empresa diferente, rentável e que atende um público que não se via representado. Hassan criou uma linha de lingerie Nude para mulheres negras de várias tonalidades de pele.

Tudo começou em 2014 quando a empresária já estava cansada de procurar meia calça e lingerie Nude do seu tom de pele e nunca encontrava. Frustrada, ela decidiu se movimentar acreditando que outras mulheres também passavam pelo mesmo problema. Foi assim que nasceu a Nubian Skin.

O trabalho de pesquisa para a criação dos produtos durou cerca de um ano. O primeiro passo, segundo a empresária, foi visitar as marcas de maquiagem que já trabalhavam com produtos para a pele negra para se inspirar nas cores. “No início, visitei lojas em Londres e Nova York que tinham ofertas significativas de produtos para as mulheres negras como Fashion Fair, MAC, Nars, Lancôme e Blackup. Eu queria descobrir quais das suas cores eram as mais populares entre as mulheres com pele mais escura”, disse.

Com base em todas as descobertas, a empresária selecionou suas cores preferidas. Essa foi apenas a primeira etapa, muitos desafios ainda viriam pela frente. “Combinar os tons de pele ao pantone de tecidos e certificar-se de comparar as cores sob uma caixa de luz foi um exercício muito bom. Foram várias idas e vindas à fábrica e às casas de tingimento para encontrar os tons certos”, mencionou.

Ade Hassan, criadora da marca Nubian Skin – Foto: Israel Peters for Xero

O trabalho foi finalizado em meados de junho, mas tinha outra tarefa pela frente: achar os tons das meias-calça. “Não poderíamos simplesmente replicar a cor de um tecido sólido em um tecido transparente. As meias exigiram muito mais tempo. Duas das cores desceram muito rapidamente, mas duas levaram um pouco mais de esforço”. Chegou um momento em que a própria empresária decidiu fazer o trabalho. “Decidi eu mesma ferver algumas das cores com as quais eu não estava satisfeita em enormes potes de chás e café para obter a cor perfeita. No final, deu certo”.

Após o lançamento da marca, Ade Hassan virou notícia na mídia. Foram diversas entrevistas para os mais variados veículos. O sucesso foi tanto que a cantora Beyoncé e suas dançarinas usaram lingeries da marca em sua sétima turnê musical, The Formation World Tour.

Os produtos da Nubian Skin são vendidos em todo o mundo pela internet, com estoquistas físicos no Reino Unido, EUA, Portugal, Nigéria, Jamaica e Caribe francês e no site ASOS. A empresa não tem loja física, o atendimento é feito por meio de um showroom na cidade de Londres com serviços de Color Match & Fit, onde as pessoas podem experimentar os produtos e fazer os seus pedidos.

SANDRINHA FLÁVIA: MIL FACES INSPIRADORAS

Samira Reis – Jornalista e modelo

Foto: Patrícia Santos

Em qualquer lugar que ela chegue, primeiro vem aquele sorriso. Não poderia ser diferente vindo de uma mulher que exala elegância e inteligência somadas à beleza. Essas atribuições cabem perfeitamente para Elissandra Flávia, popularmente conhecida como Sandrinha. No entanto, já quiseram tirar essa força e quase deu certo. “Quando cheguei em Divinópolis, eu era uma pessoa insegura, me achava feia, não gostava dos meus cabelos, nem do meu corpo, não acreditava em mim. A baixa autoestima gritava, fruto de muitos ataques racistas”, comenta.

Quase deu certo, mas não deu. Ainda bem. Não foi fácil se afirmar com uma mulher segura, cheia de vida e vontade de realizar coisas impactantes diante de uma sociedade que ainda dissemina o racismo, a misoginia, a desigualdade. “Estou em busca de melhorar cada vez mais, busco meditar, ler, sentir a vida, estar com pessoas positivas. Hoje, eu tento ser presença consciente do espaço que ocupo”.

Nascida em Barão de Cocais, atualmente Sandrinha se divide entre Belo Horizonte, atual moradia, e Divinópolis, no centro-oeste do Estado, onde vive a mãe e alguns dos irmãos. “Vim para Divinópolis com uma amiga, Maria José, em 1999. Depois minha mãe veio com dois irmãos e depois vieram mais quatro irmãos. Os outros irmãos, um mora em Juiz de Fora e o outro em São Paulo”, relembra.

Na cidade do Divino é onde se reúne com a sócia e amiga de longa data, Patrícia Santos. Juntas, elas empreendem e firmam no mercado a Niari Cosméticos, marca de produtos para cabelos crespos e cacheados. Tudo começou com uma máscara de hidratação e atualmente a empresa já possui uma linha completa (shampoo, condicionador, creme para pentear, máscara, gelatina). Como elas não param, pode-se notar que em breve haverá novidades. “Nossos próximos passos são lançar novas linhas de cosméticos e lançaremos também um blog para nos aproximarmos mais dos nossos parceiros/as, colaboradores/as, consultores/as e clientes. Investiremos mais em produção de vídeos para o nosso canal, TV Niari, e ampliaremos os pontos de vendas no Brasil. Tem outra novidade que ainda não posso falar, é algo grandioso e muito bom.”

Esse ritmo de trabalho incessante é mais uma das características de Sandrinha. Além de jornalista, é locutora, mestre de cerimônias, militante do movimento negro, empresária, editora-chefe desta revista, responsável pelas edições do saudoso Encrespa Geral BH. “Todas as funções que hoje exerço foram surgindo na medida que fui trabalhando a minha autoestima. São trabalhos que, de alguma forma, fazem a diferença na vida de alguém. Esse é o meu propósito”, afirma.

Pode parecer uma rotina desgastante, afinal são inúmeras atividades com grupos diferentes. No entanto, Sandrinha encara com seriedade e agarra tudo aquilo que pode fazer a diferença naquilo em que acredita, principalmente quando se trata da população negra. Esse ativismo se tornou mais forte em 2006, quando participou da fundação do Movimento Negro de Divinópolis.

Essa trajetória de mulher, trabalhadora e militante é cercada de inspirações. Entre elas, a jornalista, pesquisadora e escritora Rosália Diogo, responsável por inseri-la nos movimentos da capital mineira. A sócia Patrícia Santos também é uma importante referência profissional e pessoal. E a estrela guia é a mãe, Maria Geralda. “É a minha maior força. Gerou 9 filhos e criou todos, passando muita necessidade, até mesmo de alimentos. Resistiu contra o machismo, sexismo e racismo. Tem que ser muito forte e resistente para conseguir passar por tanta coisa, e ainda sorrir e agradecer a Deus pela vida”, diz.

Em um mundo de conflitos, dores e dissabores, é fundamental se cercar e aprender com pessoas assim. O desejo é que todas e todos tenham a chance de conviver com “Sandrinhas” pela vida.

Mônica Anjos, a estilista que conquistou o Brasil produzindo moda com identidade

A moda como elemento de resgate da identidade, autoestima e enfrentamento a um sistema racista e excludente

Por Sandrinha Flávia, jornalista, locutora, mestra de cerimônias e editora

Coleção Mônica Anjos – Foto: Cassiano Faleta

Foi aliando a moda às bandeiras sociais que a estilista Mônica Anjos se consagrou no mercado. Suas criações unem tecidos finos como o linho rústico, cambraia de linho, seda, Kaftas, rendas, estampas geométricas e elementos étnicos. São peças que fogem das tendências ditadas pela indústria da moda e de um padrão de beleza que não retrata a realidade.

Filha única da costureira e dona de casa Enedina Maria da Silva e do engenheiro Manoel Theodoro dos Anjos, Mônica nasceu no bairro do Rio Vermelho (BA) e se orgulha de falar da infância livre que lhe proporcionou ser a artista que é hoje. “Minha fase escolar foi maravilhosa e me traz boas recordações até o dia de hoje, uma infância livre e cheia de descobertas que muito me influenciaram no meu lado artístico”.

As influências da escolha da profissão vieram de sua mãe, seu pai e de sua irmã por parte de pai, Jaciara Oliveira (In memória). Mônica já sabia a profissão que queria seguir e o impulso surgiu após participar de atividades voltadas para as questões de gênero e raça, a convite de militantes da causa negra de Belo Horizonte – MG. O projeto levava aos estados brasileiros a moda produzida para as mulheres negras. “Depois de alguns anos participando desses eventos, vi a importância do trabalho e a necessidade que as pessoas tinham de encontrar roupas que dialogassem com as questões da estética e política social.” Foi assim que nasceu a marca Mônica Anjos que traz o slogan “Moda com identidade”.

Naquela época, Mônica não tinha noção do rumo que o negócio tomaria, mas uma coisa a surpreendeu: homens, mulheres de várias gerações abraçaram o projeto, eram pessoas que estavam em busca de identidade ao se vestirem. A estilista acredita que a moda transforma e desafia os limites entre negros e brancos.

Atualmente a estilista veste, ou já vestiu, mulheres negras e não negras anônimas e famosas como a cantora Fabiana Cozza, a empresária Zica Assis, a jornalista Tia Má, as cantoras Vanessa da Mata, Bete Carvalho, a atriz Cyria Coentro, a mestra de cerimônias Sandrinha Flávia, e tantas outras.

O reconhecimento também vem em forma de premiações, Mônica foi indicada ao Prêmio Prime 2015, entre as 10 melhores marcas de Salvador na categoria Roupas Femininas. Recebeu também, o Troféu Mama África e foi homenageada no evento Prêmio África Brasil.

Em 2017, Anjo lançou a coleção Kalunga na abertura do show de Milton Nascimento em comemoração aos 50 anos do cantor. Em 2018, a marca segue lançando coleções e produzindo os tradicionais Saraus, eventos que vem ganhado espaço no cenário cultural das grandes capitais brasileiras como Bahia, Rio e São Paulo.

O papel do cinema na representatividade afro LGBTQIA

Qual é a importância de reconstruir as narrativas que se propõem a representar o público negro LGBTQIA?

Por Well Mendes, jornalista, fotógrafo, designer e produtor audiovisual

Você provavelmente viu uma pessoa negra ou LGBTQIA em algum filme que assistiu recentemente. Em resposta à demanda por representatividade midiática – ou pelas relações mercadológicas – os tipos de representações aumentam, mesmo que lentamente. Entretanto, muitas questões ainda precisam ser discutidas pelo cinema ao retratar uma pessoa negra LGBTQIA.

O cinema tem aspectos importantes a serem considerados durante o ato da representação. Para além do entretenimento, existem códigos na linguagem e na forma de narrar que criam impressões sobre o desconhecido e reforçam conceitos estabelecidos sobre indivíduos, grupos, lugares etc.

Ao aliar as características marcantes do cinema na construção identitária aos dados de violência no Brasil, percebe-se a infeliz necessidade de se discutir formas de representar, utilizando a linguagem cinematográfica na reconstrução de conceitos estabelecidos para esse recorte. De acordo com o mapa da violência, a cada 23 minutos um jovem negro morre no Brasil. No mesmo dia, a cada 19 horas, uma pessoa LGBTQIA morre, segundo o Grupo Gay da Bahia.

É necessário que o cinema se atente para as relações que vão além da tela e que criam e desatam os laços do convívio social. Na relação cíclica de influência entre a sociedade e o cinema, é importante se apropriar de realidades distintas e alarmantes – como o recorte racial na população LGBTQIA– e trabalhar para ter representações legítimas. Precisamos resistir e existir em espaços nos quais ainda não fomos representados, mas que estamos alcançando diariamente.

Amazônia, resistência e descobertas

Jaycelene Brasil – Acreana, Socióloga e Feminista Interseccional

Foto: Marcela Bonfim

O processo imigratório da fotógrafa paulista, formada em economia pela PUC-SP, Marcela Bonfim, para a Amazônia Rondoniense, em fevereiro de 2010, em busca do primeiro emprego, dialoga com muitas histórias de outras mulheres negras.

Ela conta que nunca foi de ter objetivos, mas sempre exercitou o fazer, movida por impulsos, a exemplo de quando recebeu a proposta do pai de uma amiga para trabalhar na sua financeira e no mês seguinte estava chegando numa terra desconhecida.

Não demorou muito para perceber o novo território, nas suas diversas facetas e ao longo de quatro anos captou imagens e não sabia o que fazer com elas.

Os verbos experimentar, sentir e refletir estão intrínsecos no cotidiano da artista visual, principalmente desde que pariu um de seus principais trabalhos há dois anos, a Mostra fotográfica “Amazônia Negra”, parte do projeto “(Re)” conhecendo a Amazônia Negra, povos, costumes e influências negras na floresta, tido como um instrumento de militância política das Artes visuais porque reverbera as memórias da população negra amazônica, fruto de uma pesquisa iniciada em 2012.

Marcela Imiscuiu-se no território amazônico e, por meio de imagens impressas, deu visibilidade a uma população batizada e reconhecida antes com outras identidades que não eram nomeadas como negras.

Ao mesmo tempo em que a artista avalia que se (Re) conhecer negra na Amazônia a fez uma aprendiz dela mesma, passou a caber no mundo como mulher negra, juntamente com um trabalho fotográfico extraordinário que tomou corpo, tem voz e agora brilha por todo o Brasil.

Para mostrar a realidade do povo angolano, Augusto Prata criou a TV e Rádio Diamante Angola

Por Sandrinha Flávia, jornalista, locutora, mestra de cerimônias e editora

Criada em junho de 2016, a TV e Rádio Diamante Angola, localizada em Luanda, conta com uma equipe de 100 funcionários/as e um espaço físico de 400 metros quadrados. O foco das pautas é trazer à tona pessoas simples de Angola e da diáspora, como disse o idealizador do projeto.

Augusto Lopes Mateus Prata, caçulo de três irmãs, nasceu em 1982 no distrito de Sambizanga, na cidade de Luanda (Angola), um local, no passado, marcado por altos índices de criminalidade. A criança, que se tornaria um jornalista referência, se orgulha da infância simples que teve e das boas amizades “Tive uma infância linda porque em África chegar à idade em que estou hoje não é fácil. Eu tinha tudo para me tornar um bandido porque nasci em um bairro cercado pela criminalidade, onde tive e tenho até hoje os melhores amigos”.

Antes de se tornar dono de TV e Rádio, o empresário vivia para a música. Cresceu ouvindo rap. Sua principal referência foi o grupo SSB, além de música pop americana, ritmo que trouxe também a dança: Tecno Dance e House.

Criador e líder do grupo LFB, ao lado de três amigos, o Bulla, o Cidade e o Madzony, conectou-se com grandes famosos da época como Walter Ananáz e Big Nelo, mas havia uma distância social entre o mundo dos famosos e a realidade dos meninos da periferia. “Eu sou do gueto da periferia do Sambizanga, mas as minhas amizades da cidade tinham vida, dinheiro, carro, e eu miúdo na altura não tinha nada, andava de 4 a 10 KM até o centro da cidade para encontrar os músicos. A luta era grande.”

A diferença social só incentivou o menino da periferia a buscar as melhores condições de vida. Uma das grandes incentivadoras da sua carreira musical foi sua mãe, Joana Domingos Mateus. O empresário comenta, com emoção, os momentos marcantes de sua mãe:

Naquele tempo, quando o meu grupo chegava à minha casa, minha mãe era a alegria da casa, ela ficava a dançar, essa é uma das lembranças mais lindas que eu tenho dela. – Augusto Prata

Ao contrário da sua mãe, seu pai, Alfredo Prata, acreditava que o estudo era o melhor caminho. Sua mãe faleceu em 2000, quando Augusto tinha 17 anos, causando uma mudança radical em sua vida. Sozinho, pois seu pai já era casado com outra pessoa e tinha outros 5 filhos, e suas irmãs também eram casadas, Augusto decidiu ficar um tempo morando a sós. Sua casa acabou se tornando um centro de formação com foco na cultura Hip Hop. Tempos depois, decidiu ir morar com seu melhor amigo, José Rodrigues, conhecido como Mister Bulla. A família do Bulla o recebeu muito bem.

Estudar foi o caminho escolhido por Prata. “Com 19 anos, comecei a frequentar o colégio Liceu Viera Dias, (MutuyaKivela), onde conheci um grupo de artistas, dentre eles, o irmão menor do astro da quizomba nacional, Nikol Ananáz.”

Em 2007, Augusto mudou completamente de ramo e entrou para a indústria petrolífera. O salário era bom e lhe proporcionou a oportunidade de investir em cursos. Durante oito anos seguidos, de tanto as pessoas o incentivarem a seguir no caminho do jornalismo, estudou comunicação na África do Sul, Namíbia e Angola.

Com cursos diversos, inclusive de jornalista publicitário, saiu da indústria e ficou um tempo sem emprego, mas nem tudo estava perdido. Ao cruzar com um amigo, Miguel Manuel, que já trabalhava na área da comunicação, foi incentivado a criar um negócio próprio. Nascia então a QDG – Quinta da Graça Publicidade e audiovisual, em 2015, mas não deu certo.

O casamento se aproximava e a vontade de ter o seu próprio negócio só crescia: “Eu tinha que fazer alguma coisa, o pouco que consegui na QDG deu para eu me casar com Ebenezer Prata com quem hoje tenho 5 filhos. Estou bem casado, minha mulher é uma batalhadora. Sou o que sou hoje graças a ela porque ela me deu todo apoio.”

Em 2016, a TV e Rádio Diamante Angola já era uma realidade na internet. Seu amigo, Francisco Pascoal, hoje seu sócio, foi peça fundamental na criação do projeto. Os amigos Madaleno Caponde e Pelonny Rodrigues são o motor de toda a produção da TV.

Com altos índices de audiência, Augusto acredita que o que conquistou a população foram as pautas selecionadas. “A programação é muito diversificada, apostamos muito por mostrar a realidade do Angolano, pois as nossas televisões convencionais passam aquilo que lhes convém”.

O sonho de se tornar uma TV a cabo agora é uma realidade. “Fechamos uma parceria com a Palanca TV (DSTV), de onde estamos a transmitir 30% de tempo de antena. A ideia é evoluir para 100% de tempo de antena na DSTV que é a maior provedora de sinal em nível de África.” A TV Diamante Angola poderá ser assistida a partir do dia 1º de setembro em Angola e Moçambique.

O povo angolano é alegre, feliz, maravilhoso, humilde. Não se difere muito do povo brasileiro. Somos extremamente criativos, mas, na realidade, é um povo que precisa ser descoberto, é um povo humilde que vive da cultura. – Augusto Prata.

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Chegamos ao fim de mais um ciclo

            2018 foi um ano desafiador para as relações humanas no Brasil, principalmente no período eleitoral.  Para muitos, foi um ano acelerado e de mudanças no quesito empatia. Vivemos um tempo de extrema mudança e não podemos deixar o ódio e a raiva nos dominar porque a correria do dia a dia, aliada a esses sentimentos, nos tiram do ponto de equilíbrio.

Capa da 11ª edição

Estamos todos conectados e podemos, sim, estarmos presentes na vida de outras pessoas de forma mais humana. Precisamos disso. No passado era assim, mas desaprendemos.

A Seção Comportamento da 11ª edição da Canjerê traz uma pessoa que vai contra o ritmo mecânico e frenético da vida: Nath Sol que se porta como uma cuidadora de humano, da matéria e do espírito. Ela zela pela saúde do corpo e da alma. É disso que precisamos para não sermos consumidos pelo estresse, porta de muitas doenças.

A capa da edição é uma aula de vivência e afrofuturismo com a multiartista e pesquisadora Zaika dos Santos, especialista em resgatar a história do conhecimento surgido em África e dedicada em quebrar o silenciamento histórico que apagou os seus protagonistas.

Passamos pelo Uruguai para contar a história da rapper, b-girl e grafiteira, VikiStyle, o resultado está na Seção Entrevista.

A Canjerê é uma viagem que nos permite conectar com pessoas de várias partes do mundo.

Desejamos a você um  2019 cheio de luz!

Não vamos nos desconectar das tradições espirituais e milenares, das práticas simples de conversar com os mais velhos, atitude que nos ajuda a manter a nossa sensibilidade em alerta.

Salve os nossos ancestrais!

 

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Amigas/os, leitores e colaboradores,
chegamos à 10ª edição da Revista Canjerê!
Graças ao empenho e colaboração de muita gente, pessoas que não medem forças para registrar histórias pretas, conseguimos fortalecer o nosso propósito que é trazer pautas do Brasil e da África contadas por nós.

Nesse número, a matéria de capa traz a filósofa Djamila Ribeiro, referência na militância negra e feminista. Léa Garcia, a entrevistada da edição, fala sobre política, carreira, educação e militância. A moda da estilista Mônica Anjos é destaque da seção comportamento, a profissional trabalha a moda com identidade.

A gente também atravessou fronteiras para contar a história da criação da marca Nubian Skin da cidade de Londres, a empresa é conhecida por lançar coleções de lingeries Nude para mulheres negras. Destacamos também, a história do angolano Augusto Prata, idealizador da TV e Rádio Diamante Angola. Você também vai conhecer a fotógrafa Marcela Bonfim, a mulher que se (Re) conheceu negra na Amazônia.

Desejamos uma ótima leitura!

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