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Bárbara Carine: intelectualidade, educação, mídia e dança – travessias de uma baiana arretada

Quem é Bárbara Carine?

Rosalia Diogo – Curadora do Casarão das Artes Negras, jornalista, chefe de redação da Revista Canjerê, pesquisadora

A professora, doutora Bárbara Carine, é amplamente conhecida nas redes sociais por milhares de seguidores e seguidoras como sendo uma intelectual diferentona. Vamos deixar ela se apresentar para a gente: “eu nasci em Salvador, Bahia. Meu pai, que se chamava Rubens, não está mais aqui entre nós. Ele foi um homem negro, que  veio de Itaparica, e minha mãe, Terezinha, uma mulher kilombola, foi  moradora do Kilombo Mucambo dos negros, no interior da Bahia, atualmente conhecida como Distrito de Itapura. Eu me graduei em Química e Filosofia, fiz mestrado e doutorado em Ensino de Ciências e pós-doutorado em Educação. E hoje eu pesquiso, estudo, escrevo sobre educação para a diversidade, sobre educação para relações raciais, sobre educação antirracista, sobre valorização das histórias ancestrais africanas do currículo escolar brasileiro.”

Idealização e fundação da Escola Afro-brasileira Maria Filipa

Bárbara idealizou e fundou, no bairro Garcia, em Salvador, em 2018, a Escola Afro-brasileira Maria Filipa. A escola surgiu a partir da necessidade dela de educar a sua filha, a partir de outros padrões curriculares que não fossem os de uma imagem relacionada à inferiorização das pessoas negras, como habitualmente ocorre na educação básica brasileira. É sabido que a formação de todas as pessoas no Brasil passa por processos escolares baseados em um currículo eurocêntrico, por meio de currículos de potencialização apenas de memórias ancestrais de pessoas brancas, como rainhas, como reis, como escritores, filósofos, artistas, cientistas. Dessa forma, nós, na comunidade negra, somos colocados em uma condição ancestral de escravidão, como se a gente não tivesse história. E as pessoas indígenas também são colocadas em lugares de incivilidade, como se o marcador civilizatório fosse a eurocentralidade. Então, eu criei uma escola porque eu não encontrava nada que desse conta dessa educação que eu sonhava para minha filha. Eu acho que a África é um marco também histórico, e o meu projeto histórico de vida para minha filha era revolucionário. 

Influenciadora nas Redes Sociais

Bárbara Carine é também influenciadora nas redes sociais com o perfil @uma_intelectual_diferentona. Ela já tinha rede social, Instagram, desde 2011, com um outro perfil e mudou para o atual, na virada de 2020 para 2021. A professora escrevia alguns temas nas redes sociais, desde quando criou o perfil Reflexões, como professora. Em 2020, com o advento do Covid-2019, com o isolamento social e tudo que estava ocorrendo, ela começou a gravar vídeos, pois se sentia muito solitária como professora. Bárbara considera que o motor da sua existência é dar aula e sem exercer essa função no primeiro semestre de 2020 sentiu a necessidade de continuar falando e foi para a rede social falar. Ela passou a gravar vídeos a partir da virada daquele ano. Foi nesse momento que a filósofa reformulou o seu perfil no Instagram, que passou a ser nomeado como intelectual diferentona. Bárbara Carine entendeu que ali já era um espaço em que as pessoas a reconheciam como tradutora de conteúdo, no âmbito de algumas temáticas caras à sociedade brasileira, sobretudo para a comunidade negra.

As produções literárias de Bárbara Carine 

A filósofa tem quatorze produções literárias.  Destacamos: Descolonizando Saberes – Mulheres negras na ciência; História Preta das Coisas; Como ser um Educador Antirracista (vencedor do Prêmio Jabuti de 2024, na categoria educação); Querido Estudante Negro; Educando Crianças Antirracistas; E eu, não sou intelectual?  Raça Social – uma leitura sobre a racialidade brasileira.

.Por que uma intelectual diferentona?

A professora disse que se intitulou como uma intelectual diferentona justamente porque, como professora universitária, causou estranhamento aos seus pares e à estrutura acadêmica.  Bárbara é professora licenciada da Universidade Federal da Bahia/UFBA e, desde janeiro de 2024, mora no Rio de Janeiro.  A escritora conta que a sua intelectualidade era sempre questionada por vários motivos. Um deles era o fato de não rezar na cartilha do ocidente, de não valorizar somente homens brancos como produtores de conhecimento. Ela nos afirma que sempre se deve observar a produção de mulheres, mulheres negras, indígenas, pessoas do Oriente, pessoas diversas.  A professora optou por romper com a unilateralidade do saber imposto na academia.

Bárbara informa ainda que é filha de uma empregada doméstica, que vivia em uma favela em Salvador e aprendeu a gostar das culturas daquela comunidade: as músicas, as danças, a corporeidade, das vestimentas daquele território. 

Então, entrar na universidade para ser professora foi um choque muito grande para Bárbara Carine, porque aquela estrutura queria moldá-la, padronizá-la em um outro perfil performático na sociedade.  Para quem ainda não viu, saiba que ela dança e muito, com liberdade e mexida nos quadris, as músicas adotadas em espaços em que se concentram a maioria jovem, negra e periférica. O estranhamento, dentro e fora da universidade, continua, eu diria.

O próximo projeto literário dela é o lançamento do seu décimo quinto livro: O Velho Mundo – Egito Negro nas Escolas, que está incrível. Será lançado neste ano, no mês de agosto, em parceria com o seu companheiro, o músico, compositor e ator, Thiago Thomé.  Ele lançará um livro e ela outro, com referência à viagem de casamento que fizeram ao Egito há dois anos. A publicação dela será na linha da não-ficção e o dele, um romance.

Inspirações intelectuais para Bárbara Carine

Segundo a pensadora, muitas pessoas a inspiram. Ela destaca algumas: na educação, Nilma Lino Gomes é uma das mais inspiradoras. Lélia Gonzalez é outra, quando se pensa em estudos de gênero interseccionais, classe, raça e gênero. No campo da filosofia no Brasil, Bárbara tem uma admiração muito grande pelo professor Wanderson Flor, professor de Filosofias Africanas na UNB, e também pela filósofa Sueli Carneiro. E, no ativismo, na militância negra, na intelectualidade negra, assim como um todo, sua grande referência é o professor Hélio Santos. 

Tem sido instigante ouvir, ler e ver Bárbara Caine discursar, refletir e dançar. Ela é de fato arretada.

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Sandra Nandaka

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